Sobras

Em fevereiro passado estreei com Suzana Santos o Radioletra, programa semanal de 15 minutos dedicado à literatura. O entrevistado inaugural foi Zeca Baleiro, que, na ocasião, desejou “bons ventos e vida longa!” à empreitada.

Mais conhecido como cantor e compositor, Zeca Baleiro tem publicados os livros A rede idiota [Reformatório], Bala na agulha – Reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras [Ponto de Bala], ambos volumes de crônicas, e Quem tem medo de curupira [Companhia das Letras], peça teatral escrita quando ainda morava em São Luís. Além do box A vida é um soulvenir made in Hong Kong [Ed. UFG], precioso mimo, item de colecionador, um raro e delicado conjunto de artefatos poéticos.

Isso era o bastante para justificar a presença de Baleiro num programa de literatura. No final de janeiro, nos estúdios da Rádio Timbira AM, conversamos com ele por cerca de uma hora – depois selecionamos os trechos mais afeitos à área. Você pode ouvir o primeiro Radioletra aqui.

O programa está temporariamente fora do ar, passando por reformulações e negociações. Em breve anunciaremos novidades, aguardem. Enquanto isso, você pode ler, a seguir, as sobras completas do papo com Zeca Baleiro.

Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo
Zeca Baleiro ladeado pelos apresentadores do Radioletra. Foto: Leno Edroaldo

Zema Ribeiro – Quais as suas lembranças do ambiente literário e musical de sua infância?
Zeca Baleiro – Nosso pai era muito zeloso por essa coisa, a literatura era uma coisa muito presente. Ele era muito exigente com isso, que a gente lesse e tal. Eu comecei lá com 10 anos a fazer poemas infantis, verdes, imaturos, e aos 14 eu comecei a aprender violão, que já era uma presença familiar, meus irmãos já tocavam, estava sempre ali o violão, era uma coisa que eu ia lá, mexia, pegava a palheta deles, brincava um pouco. Mas aos 14 eu fui aprender de fato. Meu pai chamou um professor, um velho boêmio, da época, tocou com [o compositor Antonio] Vieira, o professor Osvaldo. Ele me deu três aulas e eu falei: “não quero mais professor”. Aí fui aprender sozinho, com os amigos. E assim que eu aprendi um pouquinho eu já quis compor. Então eu vi que não seria um músico instrumentista, que domina o instrumento. A minha intenção com aquilo era compor canções e assim se deu. A música prevaleceu como uma coisa importante, por que é meio difícil você ser músico e alguma coisa. Algumas pessoas conseguem, o cara é bancário, advogado e é músico também, mas é difícil, é uma coisa que te toma um tempo quase integral. Então eu avancei ali na música, aquela seara, aquela estrada pareceu promissora. Tempos depois que eu fui redescobrir certos desejos, certos anseios que estavam guardados, o de escrever literatura, ter uma coisa, um tipo de pensamento que às vezes não cabe na canção, que foi o que me fez escrever esses dois livros de crônicas. Tenho a ambição de escrever contos um dia. São coisas que ficaram guardadas, depois que eu, de certa maneira me coloquei no mundo da música, ganhei certa visibilidade, eu tive um pouco de calma para dar vazão a esses talentos ou inclinações, por que eu não sei se o talento existe, mas a inclinação sim [risos]. O teatro é uma paixão antiga. Eu comecei aqui em São Luís no Grupo Ganzola, do querido Lio Ribeiro, que foi muito importante pra mim. A gente tinha um grupo exclusivamente dedicado a peças infantis, a gente fez Flicts, do Ziraldo, que é um texto clássico, depois O reizinho mandão, da Ruth Rocha, e a essa altura, eu fiquei lá entre os 18 e 21 anos, eu escrevi esse texto aí [aponta o exemplar de Quem tem medo de Curupira?]. Eu tinha 21 anos quando escrevi esse texto, ele ficou guardado, datilografado, numa pasta rosa, até que em 2008, uma amiga diretora, com quem eu já tinha trabalhado lá em São Paulo, a Débora Dubois, perguntou “não tem nada pra criança?”. Eu falei: “olha, tem um texto que eu escrevi há 20 anos, mas está antigo, desatualizado”. “Tu tens ele?”. Eu não tinha nem salvo em computador, era um texto datilografado, transcrevi todo, revisão, ela falou: “ah, vamos dar uma atualizada, esse texto tem futuro”. Acabou que a gente encenou, com chancela do Teatro Sesi, lá em São Paulo, ficou seis meses, depois prorrogou, foi tão bem sucedida que prorrogou mais três meses a temporada, de graça. Muita gente viu, teve gente que viu 20 vezes. Dizia assim: “pô, se algum ator faltar, pode me chamar que eu vou”. Tem esse encantamento, essa coisa bonita e lúdica, das criaturas da mata, que é uma coisa muito vivida na infância, esse medo do saci, do curupira, da mãe d’água. Eu lembro que lá no Rio Mearim dava uma hora, todo mundo vazava, por que a mãe d’água, era a hora que ela aparecia [risos]. Então todo mundo saía voado pra casa. Eu fui espalhando meus tentáculos, eu sempre tive muita curiosidade, mas fora a música, todo o resto é experimentação. Eu não me considero um escritor, eu não me considero um dramaturgo, são experiências, felizmente deram certo, foram bem sucedidas, mas não é uma coisa que eu pretendo [se interrompe]. Meu trabalho, eu sou um compositor, se alguém perguntar minha profissão, músico, compositor, é isso que eu faço.

ZR – É assim que você preenche a ficha do hotel.
ZB – Do hotel, é [risos].

ZR – Você falou do zelo de teu pai na infância com a leitura e das aulas poucas de violão. Quais são as tuas primeiras lembranças de leitura e música que você ouviu?
ZB – Música é o rádio. Era muito presente, ficava ligado o dia inteiro na casa. Tinha o programa do Zé Branco de manhã, tinha depois ao meio dia o programa do [locutor e comentarista esportivo Herberth] Fontenele, a gente ouvia, saudoso Fontenele, de esporte, depois vinha o noticiário, à tarde tinha um programa de música nordestina, acho que era o Jairzinho que apresentava. Eu tou falando assim, não sei as estações, mas era meio assim o itinerário da rádio no dia a dia da gente. Às cinco da tarde tinha um programa que o César Roberto apresentava, que era de música jovem, já música pop. Então você passava o dia ouvindo de Luiz Gonzaga a Elton John, de Martinho da Vila a Trio Nordestino, essa informação foi muito rica, não só na minha vida. Dos meus irmãos também, inclusive os que não são artistas, é uma memória muito rica. Essa é a primeira grande informação. A outra é da rua, as brincadeiras de rua eram todas muito musicais, cantigas de roda, eu tenho um acervo na memória de mais de 100 canções, estou até querendo publicar, acho que é um legado. Minhas irmãs também lembram, toda vez que eu venho aqui eu recolho, ontem mesmo a gente estava cantando várias canções. São lindas, vêm de linhagem portuguesa, uma coisa bem lírica. A música sempre esteve presente. Depois as outras coisas, terecô, que ia dançar na praça da cidade, os terreiros de macumba, que chegavam do outro lado do rio, na Trizidela, os cânticos de igreja, procissão, tudo era permeado por música. Então eu acho que o despertar foi na infância mesmo.

ZR – E leituras?
ZB – Leituras, a leitura básica, lembro de alguns livros, O menino do dedo verde, daquele francês, Maurice Druon, muita coisa de José de Alencar, Lucíola, Diva, essa literatura básica. E aqui e ali uma coisa mais estranha. Eu lembro que tinha um livro do Mário Quintana, um livro de sonetos que eu li muito cedo. A ilha do tesouro [de Robert Louis Stevenson], esses clássicos assim. Alguma coisa de Monteiro Lobato, acho que Urupês, tinha uma pequena biblioteca e a gente passeava por ela.

Suzana Santos – Além dessas referências de infância, hoje, tanto entre os clássicos, quanto novidades, quais as referências de hoje, nomes de tua preferência?
ZB – Me perguntam nomes e eu fico numa saia justa, por que é muito difícil. No começo da carreira eu dizia Frank Zappa e Jackson do Pandeiro, pra provocar, ou Bob Dylan e Luiz Gonzaga, querendo criar um arco que descrevesse um pouco a abrangência do que eu ouvi, o que eu tinha de repertório, vocabulário musical, que ia desde essa vertente mais pop, meus pais ouviam muito samba, papai adorava Jair Rodrigues, adorava Cauby [Peixoto], Nelson Gonçalves, comprava disco, minha mãe tem uma memória, tinha uma memória incrível de músicas do repertório popular brasileiro, marchinhas de Braguinha, sambas de Wilson Batista e Geraldo Pereira, punha a gente pra dormir cantando Ismael Silva, uma informação muito rica. Eu me alimentei disso tudo. Depois tinha a própria cena local, que foi importante, quando a gente conheceu Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, e aquele disco do Papete foi um acontecimento, o Bandeira de aço fez a gente despertar um pouco para a produção local, a gente não tinha olhos e ouvidos para isso, a gente estava mais plugado, conectado com uma produção nacional. A gente descobriu, aquilo foi um pequeno alumbramento, tinha uma estranheza na produção da música do Maranhão, que eu só me dei conta completamente quando eu saí daqui para morar fora. Eu falei: “rapaz, aquilo lá é muito específico”. A gente é muito específico. Acho que o Maranhão um dia vai se separar do Brasil.

SS – Tomara!
ZR – Eu acho que já começou.
ZB – E vai fazer uma república à parte [gargalhada].

ZR – Pela primeira vez o Maranhão está na contramão do Brasil por uma coisa positiva.
ZB – É verdade. Depois de 100 anos de tenentismo.

SS –Você falou de nomes da música. E nomes da literatura? Algum nome em especial, alguma referência que seja mais marcante?
ZB – Olha, falando dessa literatura básica, infantil, infanto-juvenil, Meu pé de laranja lima [de José Mauro de Vasconcelos], essas coisas que a gente lia, que toda criança lia. Com 14 anos, eu estudava no Colégio Batista, e eu tive um professor chamado Furtado, que é um mestre mesmo, um cara incrível, e ele deu pra gente, 14 anos era primeiro ano científico na época, primeiro ano do segundo grau, e ele deu como trabalho de literatura ler Memórias póstumas de Brás Cubas, que é o livro mais ácido do Machado de Assis, e O estrangeiro, de Albert Camus. Aquilo foi uma porrada, foi um despertar, eu nunca mais fui o mesmo [risos]. Nunca mais fui o mesmo. São dois livros que permanecem como dois dos livros mais interessantes e instigantes que eu já li. Aquilo ali mudou, eu mudei de patamar na compreensão das coisas, na busca de um tipo de arte mais adulta e mais questionadora. Voltando ao  gancho do violão, quando eu entrei no mundo do instrumento eu me afastei um pouco dessa literatura em prosa e fui mergulhar mais na poesia, por que era uma coisa que me parecia mais próxima daquele universo ao qual eu queria pertencer, ainda não pertencia. Então eu fui descobrindo muito instintivamente poetas, poetas brasileiros, comecei a ler Jorge de Lima, Murilo Mendes, comecei a descobrir poesia beatnik, os grandes poetas essenciais, os franceses Rimbaud, Baudelaire, Verlaine, essa coisa toda. Só depois que eu fui retomar esse gosto pela prosa, pelo romance, pelo conto. Acho que a gente deve muito, a minha geração, de maneira geral, deve muito à literatura. A canção brasileira ela foi muito influenciada pela literatura, de um modo ou de outro. Não é à toa que a canção brasileira alcançou esse status de uma quase obra literária, Chico Buarque, Luiz Melodia, Noel Rosa, esses grandes poetas todos que a gente tem.

ZR – Tua obra passa também por musicar poemas de poetas como e. e. cummings, Paulo Leminski, Fernando Abreu, Celso Borges. Vou fazer uma pergunta de estagiário.
ZB – Faça!

ZR – Letra de música é poesia?
ZB – Rapaz, essa é uma discussão antiga, até no meu primeiro livro eu abordo isso, mas não chego a nenhuma conclusão. Eu acho que é. São dois tipos de linguagem diferentes, a poesia literária tem outro ritmo, outra respiração, ela não é escrava da rima, pelo menos a poesia moderna, não é escrava do ritmo, é outro tipo de pulsação. E na canção, eu vi uma vez acho que o Edu Lobo falando, eu não concordo, contesto, mas é interessante a reflexão dele, que disse que qualquer texto é musicável. Eu não acho, não. Mas é bacana isso, você se desafiar, pegar um texto qualquer, antimusical às vezes, sem uma sonoridade, um ritmo evidente e se dispor. Eu tive essa experiência, por exemplo, quando eu musiquei os poemas da Hilda Hilst para fazer aquele disco, Ode descontínua e remota [para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio, 2006], não tinha uma métrica, não tinha um ritmo, não tinha uma cadência, nem rimas muito óbvias. Não eram canção. Mas não era também um texto super livre, tinha uma fluência qualquer que eu tentei descobrir. Foi desafiador aquilo lá. Mas eu acho que é poesia sim. Por isso que talvez, no caso da canção brasileira, que é muito alto esse grau de lirismo, é muito rico, não deve nada a ninguém. Chico Buarque é tão grande quanto Drummond e Sérgio Sampaio é tão grande quanto João Cabral de Melo Neto, só que são de territórios distintos. A canção tem uns apelos, facilidades, a própria emoção é passada com mais facilidade, tem o encantamento, o apelo da dança, do ritmo, de fazer dançar.

ZR – Chega a um público maior.
ZB – É mais acessível.

ZR – Leminski com a coisa da música foi o maior best seller de poesia no Brasil até hoje.
ZB – Exatamente.

ZR – Por conta de gravações de Caetano Veloso, A Cor do Som, Moraes Moreira, enfim.
ZB – E vários poetas que migraram pra canção. Salgado Maranhão, nosso conterrâneo, Fausto Nilo, meu parceiro, Geraldo Carneiro, grandes poetas, Cacaso, um poetaço, foram migrando pra canção, por que sentiram, pô, esse mundo é bacana, a comunicação é mais direta. A música é onipresente. Você está em qualquer lugar e pode ouvir, no aeroporto, num táxi, num ônibus, num trem. A literatura é outro tipo de público, de impulso, você precisa de certo silêncio, de recolhimento. A música é mais mundana nesse sentido. Mas é maravilhosa a combinação. Uma vez eu ouvi o Wado, num programa que eu fiz do Baile do Baleiro, para o Canal Brasil, o Wado que é um parceiro querido, um compositor que eu adoro, ele falou: “imagina se um alienígena vem aqui e descobre que a gente se comunica através de uma coisa chamada canção”, por que é uma coisa muito subversiva, pode ser muito transgressora, pode ser muito transformadora, você ouvir aquilo ali, aquela combinação de melodia, ritmo e poesia, o poder que aquilo tem. Às vezes a gente acha, mesmo a gente que faz, que chegou a um certo limite, parece que se esgotou. O próprio Chico Buarque há um tempo falou no fim da canção, eu acho que ele quis falar outra coisa, as pessoas achavam que era um fim derradeiro, um fim terminal, acho que ele quis falar numa transformação de linguagem, de era, de sensibilidade. Mas ela não acaba, você vê aí cada vez mais forte. Hoje eu já estou com 52 anos, já tenho 21 anos de carreira, eu vejo agora pessoas, antigamente eram jovens, de 19, 20 anos, agora é gente de 35, 1,80 metro, chega assim: “pô, bicho, te ouço desde a infância”.

ZR – É estranho?
ZB – Gente casada, com filho, “você embalou nosso namoro”. Hoje mesmo encontrei um cara na padaria. É estranho. Mas é bom [risos].

ZR – Eu te ouço desde a adolescência [risos].
ZB – Eu já ouvi, “pô, Stephen Fry [título da música; abrevia o título do disco, Por onde andará Stephen Fry?, de 1997] é o disco da minha infância”. Realmente, faz 21 anos, se o cara tinha 10 anos, hoje ele tem 31. Faz parte, é história. Imagino que outros compositores ouvem coisas parecidas. É estranho por causa dessa consciência do tempo passando, mas também é muito, vou usar uma palavra que é chata, mas não tem outra, é muito gratificante, é muito recompensador você ouvir. Às vezes tem uns depoimentos emocionados, gente que se curou de depressão, de doença, parou num câncer e ficou ouvindo um disco meu. Uma vez um garoto em Natal, um garoto cinematográfico, aquela cara de desadaptado, umas espinhas no rosto, uma coisa deprimida, assim meio Renato Russo, ele chegou, ficou hesitante, se aproximou e falou: “eu só queria dizer uma coisa”. Eu: “diga”. “Aquele disco, Pet shop mundo cão, salvou a minha vida”. Eu falei: “tá tudo certo, não precisa dizer mais nada”. Não foi feito com essa intenção, mas a música tem várias serventias, ela se presta a tudo. Tem gente que se suicida ouvindo música, tem um caso clássico…

ZR – O Ian Curtis
ZB – É, o Ian Curtis, tem um cara que se matou com a música Fracasso, do Fagner, tem o Judas Priest, lá, Beyond the Realms of Death, o cara se matou ouvindo. Serve pra tudo, serve pra morrer, serve pra viver, serve pra se encantar. Música ainda tem um poder muito grande.

ZR – Quando eu nasci estava tocando Aparências, com Márcio Greyck, no radinho de pilha das enfermeiras.
ZB – É mesmo? Porra! Que é música de um compositor maranhense, o Cury.

ZR – Essa coisa de ouvir desde a infância. Você tem um leque muito amplo de parceiros, que vai de Wado, que você já citou, Kléber Albuquerque, Lúcia Santos, e acabou se tornando parceiro de Fagner, que é um cara que você deve ter ouvido desde a infância. Como é que se dão essas parcerias, como é lidar com tanta gente diferente? Talvez hoje você faça música recebendo letra por whatsapp.
ZB – Sim, bastante. É meio inusitado, por que às vezes é difícil de acreditar que aquele cara, que eu também ouvia com 10 anos [risos].

SS – Os papéis invertidos.
ZB – Os papéis invertidos. Eu lembro que quando eu ouvi a primeira música que tocou no rádio lá em São Paulo do nosso disco, Palavras e silêncios, tocava no rádio do carro, eu levando as crianças na escola, eu parava o carro e ficava: “puta que pariu!”. A minha voz e a voz do Fagner na mesma canção, uma música que a gente fez. Aquilo era muito estranho, diferente, fui fã do cara e agora a gente está aqui lado a lado, eu ficava meio deslumbrado com aquela sensação. Aconteceu que eu acabei me tornando parceiro de muita gente que eu admirava. Frejat, o disco novo tem outra parceria nossa [Te amei ali]. Chico César, que é contemporâneo, é diferente a relação mas eu também sou fã do cara, tenho uma relação de fã-ídolo, além de amigo. Zé Ramalho, com quem já compus. Muita gente. Eu sou muito promíscuo, tenho mais de 100 parceiros. Eu até tava tentando listar outro dia, é muita gente, não é só gente conhecida, é gente também que às vezes está num estágio de carreira diferente, mais inicial, mas eu tenho muitas parcerias bacanas. E tem essa coisa de alcançar um cara que estava em outra. O próprio Márcio Greyck, tenho duas canções lindas com ele, eu não sei tocar, perdi um pouco o contato com ele, mas preciso recuperar. E também essa coisa de poder se movimentar em vários territórios. Gravei agora recentemente no disco do Fernando Mendes, um artista que eu adoro, acho um puta compositor, um puta cronista suburbano. E ao mesmo tempo eu ambiciono, sei lá, fazer música com o Erasmo Carlos, se houver possibilidade de um dia abordá-lo, vou querer fazer [risos]. Então poder transitar, o universo da música brasileira é muito abrangente, da música popular de maneira geral. Às vezes a gente se perde em pequenezas de pertencer a uma tribo. Eu nunca tive isso de antemão. Eu sou colocado em prateleiras específicas, às vezes mpb, às vezes pop rock, às vezes alternativo, por que hoje a música dita mpb virou marginal. O mainstream é Wesley Safadão, é Thiaguinho, é Mano Walter, e a música brasileira virou meio marginal, voltou a ser marginal, voltou à origem, de certa maneira. Eu gosto de estar nesse lugar. Mas me relaciono com pessoas do rock, do brega, do samba, eu tou preparando um disco de sambas, com produção de Swami Jr., faz cinco anos que a gente produz, eu vou finalizar agora. Poder transitar, isso pra mim é fundamental, não ficar acomodado num certo nicho, num certo rótulo.

ZR – Acho que foi isso que acabou te levando…
ZB – A essas parcerias. Sem dúvida.

SS – Isso de estar nas prateleiras. Hoje você não lança mais discos físicos, só streaming. Isso é um caminho sem volta? Vai lançar de novo discos físicos?
ZB – Eu estou agora gravando esse disco, se chama O amor no caos, que a gente fez um caminho inverso, fizemos uma temporada de cinco shows, BH, São Paulo, Rio, Curitiba e Porto Alegre, testamos o repertório ao vivo e agora a gente está em estúdio. Quero lançar em março, eu vou fazer vinil, cd, uma tiragem pequena, por que realmente hoje vende pouco, e jogar nas plataformas, é um caminho inevitável. Essa coisa que envolve tecnologia é sempre um caminho sem volta, o avanço tecnológico vai ser cada vez maior. Eu não sou muito nostálgico no sentido de “ah, como era bom no tempo”… Eu adoro vinil, por exemplo, mas eu sei que é impossível hoje que as pessoas tenham disponibilidade de ouvir um vinil, de virar o lado, isso é para quem quer fazer um ritual, como de vez em quando eu faço na minha casa, boto pras crianças ouvirem coisas que eles nunca ouviram, mas é fantástico essa ferramenta, eu fui um pouco resistente, eu estou há um ano e sou viciado no spotify, por que descobri que é um dos melhores lugares, talvez depois do youtube, pra fazer pesquisa, pra ouvir coisa que você não ouve. Outro dia eu fiquei ouvindo a discografia do Chico Anysio e do Arnauld Rodrigues, que eu adoro, inclusive as masters são bem ruins, o som é bem ruim, mas tá tudo lá. Coisas incríveis, um repertório perdido, meio esquecido, mas que é fantástico.

SS – E não estraga, o físico às vezes vai deteriorando com o tempo. E lá fica para a posteridade.
ZB – Para a eternidade. Deteriora mas eu gosto de ter o objeto [risos]. Sou meio fetichista. Eu acho que tem um público aí entre 30 e 40 anos que reclama. Eu sou mais velho mas estou na fila.

ZR – O spotify não te dá informação de quem compôs, quem toca.
ZB – Agora já tem o intérprete, já tem um espaço lá que você põe, mas ainda é falho nesse sentido. Um vinil, por exemplo, apalpar aquilo, ler as letras com gosto, é muito bacana. Acho que tem que conciliar as mídias todas que estão disponíveis. O k7 tá tendo uma volta, que eu acho que é uma coisa de moda, por que é um som ruim, diferente do vinil que é um som bom, tem grave, é cheio, o k7 é mais uma modinha, o pessoal da eletrônica está fazendo muita master em k7, no Canadá, e tal. Eu acho que tem que jogar com todas as ferramentas. Em termos profissionais, financeiros, as plataformas são um terror para o autor. A arrecadação ainda é muito precária, o que se ganha é migalha perto do que se ganhava com a venda de cd físico ou do lp. Mas a praticidade, eu fiz esses dois singles, terminei hoje, duas semanas depois estava na plataforma, sem aquela espera da fabricação do cd, tem uma agilidade também pro artista, principalmente para quem está começando, é muito bacana, é maravilhoso você poder produzir hoje e daqui a uma semana estar na plataforma.

SS – Falando em rentabilidade ainda é maior a receita do disco físico?
ZB – Sim. Comparativamente sim. Mas como expansão, como forma de propagação, as plataformas são maravilhosas.

ZR – Quando a gente pensa no Quem tem medo de curupira?, no Zoró e no Zureta, que são trabalhos feitos para crianças, embora adultos também se interessem, gostem, ouçam, leiam. Tem alguma diferença entre quando você vai criar para criança e para adulto? Algum cuidado?
ZB – Eu acho que tem um despojamento que toma você quando você está criando para criança. Tem que ser mais direto, criança é um público muito honesto, não tem duas conversas, é gostei, não gostei, é feio, é bonito, então você tem que ser muito habilidoso nessa hora. Acho que eu ganhei uma certa cancha fazendo música para teatro aqui no Maranhão. Depois que eu fui para São Paulo também fiz umas trilhas para teatro, infantil, sempre. Quando meus filhos nasceram, há 20 anos, eu tive muita matéria prima. Todo dia um insight. Lembro uma vez viajando com meu filho no avião, ele olhou, bem pequeno, e disse: “pai, olha lá! É uma árvore de nuvem”. Era uma nuvem em forma de árvore, mas ele disse de uma forma poética à maneira dele. Cada vez que falava uma coisinha eu ia pro violão. Compus mais de 60 canções. Desovei algumas nesses dois volumes, Zoró e Zureta, e tenho material para mais um disco.

ZR – José Antonio, meu filho, tem três anos, e adora teus videoclipes.
ZB – São bonitinhos, né? A maioria ali é feita pelo Marcos Faria, que é um animador de mão cheia.

SS – Isso de produzir muita coisa, de produzir em forma de música, em forma de poesia. Tem algum fator determinante, o livro de crônicas, essas composições, o que vira disco e o que vira livro?
ZR – O que vai pro livro ou pro disco e o que fica no cofo em casa.
ZB – Eu não sei explicar muito bem por que esse critério é muito subjetivo. Por exemplo, esse livro aí não seria livro. Ele foi uma peça, mas aí teve uma coleção da Companhia das Letrinhas, a curadora quis incluir o livro, me entrevistou, tem um bate-bola no final, eu achei ótimo. Eu fui recentemente visitar a escola onde estuda a filha de uma amiga e eles estavam trabalhando, todos os meninos da sala tinham um exemplar, a escola comprou. Foi muito bacana, depois a gente foi conversar, foi muito rico. Eu tenho feito visitas a escolas, tanto de periferia quanto das zonas mais abastadas de São Paulo para saber as impressões. Geralmente eu recebo convites, mas esse ano eu quero fazer por minha própria iniciativa, fazer um tour pelas escolas, se for possível eu quero fazer aqui também, e conversar sobre a vida, sobre tudo, mas sobre a criação artística também, por que essa resposta da criança é muito valiosa. No caso do disco era específico, era um projeto, um sonho. Eu compus muito, botava pra dormir cantando, quando eles estavam dormindo eu já tinha uma, duas ideias de música, no dia seguinte desenvolvia. Foi assim que esse repertório foi acumulado. Já era um projeto específico, um dia eu vou fazer um disco pra criança. Demorei muito. Eu queria que eles fossem ainda crianças, quando eu fiz eles estavam com vergonha de fazer vocal, já estavam quase adultos, agora eu chamei eles para finalizar cantando uma vinheta que eu fiz, chama Vidinha, para os homenageados participarem, estarem presentes no disco. Essas canções que eu fiz recentemente eu senti que era hora de fazer um novo disco, embora às vezes a gente fique desanimado com o destino do disco hoje, a gente trabalha pra caramba e a repercussão é tão pouca. Mas a gente precisa continuar fazendo, pelo público e por nós mesmos, por nossa sobrevivência artística. Então eu reuni aí um magote de canções, estou até pensando em fazer um duplo, o volume um agora, isso eu vou resolver na próxima semana, eu gravei mais de 15 canções, vou gravar mais umas cinco e dá para fazer dois volumes, lanço um agora e outro no segundo semestre. E quero usar telas de autores maranhenses nas capas.

ZR – Você falou das crianças, seus filhos, que já estão com 20, 20 e poucos anos, e uma coisa que é muito bacana para quem acompanha tua carreira como eu acompanho particularmente desde o Por onde andará Stephen Fry? é a preservação, não sei como é que tu operacionaliza isso, a gente nunca viu uma foto de um filho teu numa revista de fofoca, numa Caras. Como é que você lida com isso nesse tempo de superexposição?
ZB – Eu não vejo muita necessidade. Eu também não sou o tipo de artista que interessa ao Nelson Rubens [risos]. Eu já recebi convites pra ilha de Caras, mas eu tenho mais o que fazer [risos]. Não tenho muito o que fazer [], não é meu mundo, as pessoas acham que artista é tudo uma coisa só, mas a gente vive em mundos muito diferentes. Não tem por que eu abrir minha casa pra um revista, sabe? Não faz sentido. É meio vazio isso aí. Se for uma coisa que me traga muita vantagem [gargalhadas], de alguma maneira, a gente faz. Eu acho que preservar os filhos é importante, eles lidam bem com isso, de o pai ser artista, de ter uma profissão um pouco estranha. A filha contou recentemente um diálogo que ela teve no passado com um colega. Ele perguntou: “você é classe alta?”. Ela falou: “não, sou classe média”. Isso ela era pequena. O garoto falou: “eu sou classe média alta, meu pai tem isso, tem aquilo. Mas você é filha de artista, não é? Teu pai não tem avião?” [gargalhadas]. Isso é uma bobagem, associar o artista com esse mundo de opulência. O glamour é 0,01 por cento, quando você lança um disco e bebe um champanhe, um uísque com os amigos. No mais das vezes é um trabalho operário, tem que dormir cedo, dormir bem, o suficiente para descansar a voz, para estar inteiro, passar som, começo de carreira então tem que se dividir em mil, pra dar entrevista, ir na rádio, ir não sei aonde, no mesmo dia passar som, fazer o show e receber o público depois. Tanto que tem gente que se prepara mesmo, não é o meu caso, eu prefiro jogar futebol, tem gente que vai, malha, fica horas. Pra mim é uma atividade atlética, aeróbica, no começo de carreira a gente fazia shows de terça a domingo, só tinha a segunda para passar em casa. É duro, aeroporto, avião… É bacana, não está viajando de fusca pelas estradas do interior da Bahia, mas é uma vida de dureza, não tem jatinho na história. Não é como nos Estados Unidos, que os caras fazem turnê em ônibus, as estradas são maravilhosas, o país é grande, mas as estradas são maravilhosas. Eu adoraria, por que detesto avião. Eu gosto mesmo de tirar o velho carro, parar, tomar um café, comer um doce, fumar um cigarro, o melhor da vida, tomar uma cerveja no meio do caminho [risos], mas aqui é impossível, com as estradas que a gente tem, com a dimensão do país. É uma vida de dureza. Tem uma coisa, que eu acho que artistas como eu, Chico César, especialmente, talvez pelo fato de a gente ser do Nordeste, de ter essa vivência de cidade do interior, a gente vai aonde chamar. Por exemplo, Macapá, eu fui quatro vezes a Macapá tocar. Tenho grandes amigos lá, inclusive um parceiro, poeta paraense, Joãozinho Gomes, é um poetaço, mora lá. Tenho certeza que nem Roberto Carlos foi tanto, é longe, é uma viagem internacional, seis horas e meia para chegar lá. Tem artistas que não vão, uma garota classe média de São Paulo não vai. Eu já dormi em motel, no Ceará, a cidade estava cheia, demoraram a fazer a reserva, e foi lindo, foi um show incrível. Tenho que escrever um livro, “Glamour zero”. Mas é lindo! Acaba também você tendo umas respostas de público, carinho, o cara se sente prestigiado de você ir na cidade dele, lá no grotão, lá no meio do sertão, umas coisas muito bonitas. Como diz a canção do Milton Nascimento e do Fernando Brant [Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)], “o Brasil não é só zona sul, é muito mais, é muito mais”. É muito grande, esse Brasil profundo eu adoro tocar. Hoje tá difícil, por que as bandas de forró eletrônico meio que dominaram o pedaço. Num passado recente, 10 anos, essas bandas abriam pros shows da gente. Agora eles tomaram de conta.

ZR – Então vocês são os culpados [risos].
ZB – Não, cara, não [risos]. A gente fez a nossa parte, mas o mercado é cruel, é voraz.

ZR – Você deu a pista para Jotabê Medeiros, na biografia do Belchior, mas aconteceu que o irmão dele faleceu na semana em que ele estava de passagem comprada para encontrar o Belchior em Santa Cruz do Sul. Jotabê foi ao velório do irmão e Belchior faleceu em sequência. Você chegou a ler a biografia?
ZB – Li. Li logo que saiu. Gostei. Ficou um pouco triste, a questão é um pouco triste. Ninguém imaginava que fosse acontecer tão cedo. É uma situação delicada. Eu fiquei muito honrado quando eu cheguei na cidade e Adriana [Bueno, assessora de comunicação], que faz assessoria pra mim, ligou dizendo: “Zeca, uma bomba, uma história. Belchior tá aí na cidade e quer te encontrar”. Eu fiquei naquela, orgulhoso, envaidecido e ao mesmo tempo preocupado [risos], o que é que eu vou falar com o cara? Era fã dele, a gente já tinha se encontrado, inclusive uma vez, curiosamente, à saída de um show de Bob Dylan, do qual somos fãs, lá em São Paulo. Sempre muito afável, “vamos nos encontrar, vamos tomar um vinho, a gente mora na mesma cidade”, eu falei “vamos”, trocamos contato e logo depois ele sumiu. A gente foi, uma coisa de segredo, motorista me levou, levei um vinho, achei ele muito abatido, mas muito lúcido, normal. Dei todas as pistas para dizer que eu queria apoiá-lo se ele quisesse voltar a produzir. Inclusive pus à disposição dele um estúdio que eu tenho com um amigo, lá no Butantã, “olha, se quiser, tem um estúdio lá, com piano”, ele ficou assim, meio, “piano? Poxa!”, falei “se quiser você vai direto de Congonhas pra lá, ninguém te vê”, rapidinho, fui dando pistas. Ele se animou um pouquinho, tinha a mulher, junto com ele, que meio que ditava o ritmo do jogo. “Não, ele ainda não tá pronto pra voltar a gravar”, uma situação um pouco estranha. Eu saí de lá meio mortificado, com aquela sensação, de “pô, eu podia” [interrompe-se]. Quando eu li o livro e vi toda a descrição, a narração da história, aquela culpa que a gente sente, impotente. Eu fiz tudo que podia, falei pra ele de um produtor amigo nosso, de Fortaleza, que falou que se Belchior aparecesse e quisesse tocar, ele enriqueceria o Belchior e a ele, faria uns 10 shows arrasadores pelo Brasil e seria mesmo um evento. Mas ele parece que não estava mesmo mais disposto. Havia um desencanto qualquer, uma coisa muito amarga. Mas também uma tragédia talvez anunciada pelas próprias letras de música. Ele era um niilista, era um cara que não acreditava em muita coisa, apesar de ter um histórico de seminarista, um cara muito culto, muito profundo, leitor de muita filosofia. Enfim, uma pena, fiquei meio penalizado. Mas a vida é isso daí. Essa sensação de impotência me acompanhou por muito tempo: “e se eu tivesse acenado? E se eu tivesse feito isso e aquilo?”.

ZR – Você foi colunista da revista IstoÉ, algumas das crônicas publicadas lá estão nestes livros. Você acha que essa coisa da regularidade de colaborar com um veículo ajuda ou atrapalha? A coisa da obrigação, da disciplina? Você aceitaria o convite de um veículo para colaborar permanente hoje?
ZB – Rapaz, só se fosse o Jornal Pequeno [gargalhadas gerais]. Estou brincando. Eu saí na hora certa, uma intuição qualquer. Uma por que eu estava exausto, não conseguia mais dar conta de tantos projetos. Parece fácil escrever um texto de 60 linhas, mas às vezes eu esquecia. Eu estava indo para Alagoas, tocar em Maceió, e Adriana me ligando, “Zeca, é hoje. Você tem que mandar o texto até”, aí eu tinha que sacar um coelho da cartola em 40 minutos, sabe? É uma loucura! Isso começou a me exaurir, essa responsabilidade. Agora, durante um tempo foi importantíssimo pra mim. Eu sentia que o texto ia ficando mais fluente, era mais fácil começar e finalizar um texto. É igual um músico que toca, um atleta que treina à exaustão, vai ficando mais fácil. Foram cinco anos, foi intensíssimo, foi bacana, falei de tudo que eu podia falar, por que eu pedi permissão total, só escrevo se eu tiver liberdade de falar sobre tudo, política, dar minha opinião, e eles “não, tranquilo, porta aberta, a gente quer mesmo é… criar polêmica então, ótimo!”.

ZR – Foi hostilizado por Roseana Sarney.
ZB – Que bom!

ZR – Eu me lembro de uma campanha de Roseana em que aparecia na propaganda um recorte da IstoÉ com tua coluna, uma página de meu blogue, “o pessoal que só fala mal do Maranhão”.
ZB – Que bom estar nesse lugar.

SS – Falando em política, como você está vendo esse cenário em 2019.
ZB – Como toda pessoa de bom senso eu lamentei a eleição do Jair Bolsonaro. Hoje eu penso de uma forma diferente. Eu acho que é uma provação pela qual o povo brasileiro tem que passar. Eu até diria uma purgação, quando você tem que ir até o fundo do poço para poder voltar, acordar. Eu acho que vai ser bom, a gente está mais vigilante, mais atento. Fazer uma analogia: quando você tem uma casa onde tem muito conforto, empregada fazendo isso, motorista, jardineiro, as pessoas se acomodam. Quando você mesmo tem que ir à luta, lavar a louça, dar a comida do cachorro, você fica mais esperto. Eu acho que é exatamente isso, a gente está saindo de uma zona de conforto, de um tempo, a gente teve governos bons aí, Fernando Henrique Cardoso, Lula e mesmo o primeiro mandato da Dilma, foi um tempo de uma certa bonança no Brasil, depois veio esse redemoinho político e econômico, e a gente entrou nesse lugar. A gente estava surfando nesses ventos e agora a gente vai ter que ficar com os olhos mais arregalados, numa certa vigília do que vai acontecer para que a democracia não degringole. Então, acho que vai fazer bem pra gente. Vai ser uma reeducação política, cidadã do povo brasileiro. Esse governo é tão frágil, tão artificial, que ele vai se desfigurar em pouco tempo. Não vai precisar muita coisa não, eles vão…

SS – Se matar sozinhos.
ZB – Sozinhos, igual desenho animado, vão se autodestruir em cinco segundos.

ZR – A serpente se comendo pelo rabo.
ZB – Pelo rabo. E eu acho que isso vai acabar sendo também o anúncio de outro tempo, a gente vai virar esse jogo, o Brasil tem um destino bonito e a gente não pode ficar assim.

ZR – Você está sempre envolvido em mil coisas ao mesmo tempo, é o viciado em trabalho que além de carreira, de disco, de show, teu mesmo, você está sempre ajudando um amigo, produzindo alguém, fazendo participação especial, compondo, enfim. Você já falou do Amor no caos, para daqui a alguns meses. Projetos para 2019, o que o fã clube pode esperar de Zeca Baleiro?
ZB – Não é meu projeto mas estou envolvido, o segundo disco da Patativa, a gente está finalizando, direção artística minha, produção do Luiz Jr., breve aí, em março ou abril a gente deve estar lançando. Esses dois discos eu quero fazer. Estou com uns projetos interrompidos que eu quero finalizar esse ano, que é o disco de sambas, se chama O samba não é de ninguém, só samba autoral. Tem um disco de bregas, bregas psicodélicos que eu chamo, o disco se chama Churrascaria psicodélica, é só brega autoral também, com guitarras distorcidas, estética anos 1970, o Érico Teobaldo está produzindo, quero ver se eu finalizo. Se possível eu quero lançar uns cinco, seis discos esse ano.

ZR – Ô coisa boa!
ZB – É. E aí correr com a aposentadoria, que eu estou cansado. Daqui a uns três anos eu quero ir para meu sítio na Maioba ou no sul de Minas e ficar lá compondo. Eu gosto muito de estúdio, estúdio é um negócio que não me cansa. Gosto de tocar ao vivo também, é um tipo de energia muito particular, muito única, não se consegue aquilo em outro lugar a não ser ali, no palco, naquela relação direta com o público, com a energia, a emoção do público. Mas a rotina, todo artista depois de certa idade fala isso, não tem como. É como um jogador de futebol que pudesse perdurar até os 50, 60 anos, por que a carreira é mais rápida, morreria de exaustão. Por isso que o cara quando acaba a carreira ele fica logo pançudo [risos], por que ele vai tirar todo atraso dos churrascos e dos chopes que deixou de tomar ao longo do tempo. No nosso caso não tem essa proibição, a gente pode beber nossa biritinha enquanto passa o som. Mas é muito exaustivo, você deixa muita coisa pra trás, deixa de presenciar muita coisa importante na vida dos filhos, dos familiares, dos amigos. É uma coisa que faz falta. Outro dia eu vi um depoimento do Zico, que é um workaholic também, trabalha o tempo todo, e ele falando, “pô, perdi muita festa de aniversário dos meus filhos quando era jogador, e agora não quero perder a dos netos”, então eu estou preparando minha aposentadoria para poder [interrompe-se]. Isso faz falta, é uma coisa aparentemente tola, mas faz falta na vida da gente. O estúdio não, o estúdio é um parque de diversões, você pode fazer de tudo. Eu passaria o tempo todo criando. Mas isso não enche barriga [risos], a principal receita do artista da música ainda é o palco, os shows. Mas eu sinto muito prazer. Eu não faria isso só por dinheiro, só para sobreviver, eu usaria de outros expedientes. É muito bom também.

SS – E livro novo? Previsão?
ZB – Olha, eu tenho umas ideias. Estou querendo esse ano também me dedicar um pouco a isso, tirar um tempo pra escrever. Quero fazer um livro sobre a produção feminina no Brasil, até já comecei, chamei uns dois amigos para me ajudarem na pesquisa, enumerar todas as autoras femininas, todas ou quase todas, desde o começo do século passado, é um trabalho que me interessa, esse de escavação, essa arqueologia. Estou exercitando umas coisas, uns contos, não sei. É preciso muita coragem para lançar um livro de literatura, com pretensão literária num país de tantos bons escritores. Mas quem sabe? [risos]. Quem sabe um dia, depois dos 60?

Prata da casa

Retrato: Silvia Zamboni

 

O maranhense Zeca Baleiro fecha a primeira noite do BR 135, no palco da Praça Nauro Machado (Praia Grande), na próxima quinta-feira (29). É a primeira vez que o autor de Telegrama participa do festival, cuja programação, de 29 de novembro a 1º. de dezembro, é completamente gratuita. Sua apresentação está marcada para as 23h.

Zeca Baleiro disse ter sentido a resposta do público “com muita alegria. Vi o entusiasmo das pessoas nas redes [sociais], isso é bom, estimula a gente. Estamos “turbinados”, vamos fazer um belo show, tenho certeza”, prometeu.

A última vez que o cantor e compositor se apresentou em sua terra natal já tem quase dois anos: foi no carnaval de 2017, quando comandou o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público. “Será um reencontro com o público maranhense. E se dará da melhor forma possível, no já célebre BR 135”, festejou.

Ele classificou como “grande” a importância de festivais como o produzido por Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina: “Precisamos muito de festivais dessa natureza, com programação diversa, acesso livre, na rua… São eventos importantes não só pro mercado da música, mas pra nossa vida diária”, afirmou.

Como um técnico supersticioso, o torcedor do Maranhão Atlético Clube não adiantou muito sobre a escalação de seu repertório: “Alguma música do novo disco, que está em obras, e alguma surpresa, claro, por isso não conto [risos]”.

Mas deu uma pista ao ser indagado sobre ter algum recado em especial para o público: “Sim. O cara mais underground que eu conheço é o diabo [risos]”, mandou, lembrando o verso de Heavy metal do Senhor, hit que abre Por onde andará Stephen Fry? (1999), seu disco de estreia.

Academia da Berlinda, Maglore, Rubel e Tássia Reis são outros nomes de destaque da programação do BR 135 este ano. (Com informações da assessoria do festival)

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Assista Funk da lama (Zeca Baleiro):

A diversidade de Moska

Beleza e medo. Capa. Reprodução

 

Liminha foi um dos artífices da sonoridade do que se convencionou chamar de brock ou rock brazuca: produziu discos importantes daquela cena nos anos 1980, além de trabalhos de Caetano Veloso e Gilberto Gil, não à toa os primeiros ídolos de Moska.

Não à toa, Moska também foi personagem importante daquela cena roqueira no Brasil: em meados da década de 1980 fez sucesso no rádio e tevê à frente da banda Inimigos do Rei, com seus hits Adelaide (You be illin) (I.Simmons/ R.White/ I.Mizell) e Uma barata chamada Kafka (Luiz Guilherme/ Marcelo Marques/ Paulinho Moska).

Sucessor de Loucura total, que Moska dividiu com o argentino Fito Paez, em 2015, Beleza e medo [Deck, 2018] marca o encontro de Moska e Liminha, em disco que diz muito sobre a dupla, e cujo título e os tons de cinza e vermelho dizem muito sobre o Brasil de hoje – a capa traz Moska mergulhado em local incerto, usando uma espécie de véu cor de sangue. Ele mesmo assina o projeto gráfico do disco.

A sonoridade do disco transita entre o pop do começo da carreira de Moska, a MPB que abraçou – e por quem foi abraçado –, um flerte com o reggae, escancarado em Medo do medo, parceria dele com Zélia Duncan, pontuado pelo contrabaixo do produtor Liminha (que ao longo do disco toca ainda violão 12 cordas, percussão e guitarras), em time que se completa com o próprio Moska (voz, violões e direção artística), Rodrigo Nogueira (guitarras e violão), Rodrigo Tavares (teclados), Adriano Trindade (bateria) e Adal Fonseca (bateria).

A propósito cabe destacar o leque de parceiros de Moska, ao longo das 10 faixas de Beleza e medo: além de Duncan, Carlos Rennó (com quem assina Em você eu vi, Nenhum direito a menos e Megahit) e Zeca Baleiro (Pela milésima vez).

O “que beleza” entoado na abertura de Que beleza, a beleza (Moska) evoca a “imunização racional” de Tim Maia, em faixa que versa sobre o belo, passando por indagações como “a tinta vibra quanto pinta a tela?/ o que Picasso achava de Dali?” e especulações como “ouvi dizer que Darwin passou mal/ sentindo um pouco de irritação/ olhando a cauda de um pavão real/ mudar sua ideia de evolução”.

Megahit é encontro de especialistas no assunto: Moska e Rennó são dois dos maiores hitmakers que o Brasil já conheceu. “Você não sai da minha cabeça/ como canção que toca à beça/ toca em excesso, é um puta sucesso/ um megahit”, começa a letra, que tem tudo para se tornar um.

Outra parceria da dupla, Nenhum direito a menos é incisiva e direta, marca particular da produção mais recente do letrista Rennó. Toca em feridas escancaradas pela invasão de Michel Temer ao Palácio do Planalto, após o golpe perpetrado por seus comparsas que depôs Dilma Rousseff. “Nesse momento de gritante retrocesso/ de um temerário e incompetente mau congresso/ em que poderes ainda mais podres que antes/ põem em liquidação direitos importantes/ eu quero diante desses homens tão obscenos/ poder gritar de coração e peito plenos:/ não quero mais nenhum direito a menos”, mandam direto, com direito a trocadilho cristalino, logo na primeira estrofe.

Minha lágrima salta (Moska), que fecha o disco, é sobre um fim de relacionamento. Tomara que em pouco tempo não se configurem politicamente proféticos os versos “porque um vazio foi se construindo em nós/ ficou distante pra escutar alguma voz/ e fomos desaparecendo sem ninguém desconfiar”.

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Ouça Beleza e medo:

Samba de Nosly

Sambas. Capa. Reprodução

 

As referências aludidas pelo pianista mineiro Kiko Continentino em texto no encarte de Sambas [2018], novo disco do maranhense Nosly, são todas cabidas. O aguardado sucessor de Parador [2011] se aproxima bastante da bossa nova – é lançado no ano em que a revolução musical de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e os Joões Gilberto e Donato completa 60 anos –, e consequentemente do jazz, tanto do ponto de vista temático quanto da arregimentação.

Autor de todo o repertório, em parcerias com Gerude, Carlos Berg, Nonato Buzar, Zeca Baleiro, João Nogueira e Luís Lobo, Nosly (violões e voz) é acompanhado por Kiko Continentino (piano), Rogério dy Castro (baixo), Victor Bertrami (bateria) e Wendel Silva (percussão), por 10 faixas que versam, como a maioria dos clássicos bossa-novistas, sobre praias, o amor e a própria música.

Ao refinado time de instrumentistas somam-se as participações especiais de Carlos Malta (sax soprano em Samba em sete, parceria com Luís Lobo), Marcelo Martins (flautas em Pedras do mar, que fecha o disco) e Jorge Continentino (saxes, clarinetes e flautas em Pagar pra ver, parceria com Gerude e Carlos Berg).

Quase todo o repertório é inédito, as exceções são Coração na voz (parceria com Gerude e Nonato Buzar) e Japi (com Zeca Baleiro). O João protagonista de Ladeira (parceria com João Nogueira) evoca o Pedro Pedreiro buarqueano.

Nosly reverencia igualmente a Copacabana, paisagem-musa de bossa-novistas (em É bom viver, parceria com Gerude), e a Ponta d’Areia já louvada por tantos conterrâneos (em Segura o banzeiro, também parceria com Gerude, parceiro mais constante, que assina metade das faixas do disco).

O álbum é embalado pelo belo projeto gráfico de Andrea Pedro, que já assinou trabalhos dos parceiros Zeca Baleiro e Chico Saldanha. Nele, ganha destaque o colorido musical das telas de Betto Pereira, cantor, compositor e artista plástico maranhense radicado no Rio de Janeiro, onde Sambas foi gravado (no Castelo Studio, em Niterói).

Sambas reafirma o lugar de Nosly na música brasileira: um sofisticado compositor popular que merece a atenção de mais ouvidos.

Maranhenses na Flip

Durante uma entrevista coletiva ontem (5), transmitida ao vivo pelo facebook, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciou sua programação para a edição de 2018.

Acompanhei parte da conversa enquanto acompanhava José Antonio na hidroterapia, os olhos nele, o celular colado à orelha.

A Flip reafirma-se como um dos maiores eventos literários do país. Depois do negro Lima Barreto (1881-1922) em 2017, este ano homenageia a mulher Hilda Hilst (1930-2004) – cabe destacar que este ano mais da metade dos/as autores/as convidados/as é mulher, além de boa parcela destes/as autores/as serem negros/as, e estes são dados significativos, que mostra o quão antenada está a curadoria do evento – personificada na mulher Josélia Aguiar –, para além de ler para além do cânone.

Por falar em presença negra, uma informação interessante que a coletiva de imprensa trouxe ontem foi a homenagem à editora baiana Corrupio, ainda na ativa e responsável, há décadas, pelas primeiras publicações do fotógrafo e etnólogo franco-brasileiro Pierre Verger. A editora foi fundada com o dinheiro da venda de um terreno para financiar a publicação de um livro de Verger, não viabilizado pelo preconceito que movia as editoras procuradas à época.

Menos conhecida do que deveria, provavelmente por ter sido injustamente tachada de pornográfica, mais para o final da carreira, Hilda Hilst tem sua obra relançada pela editora Companhia das Letras – só este mês chegam às livrarias Da prosa (reunindo a ficção da autora) e os volumes de poemas Júblio, memória, noviciado da paixão e De amor tenho vivido, o que certamente lhe garantirá novas atenções, além da homenagem.

O espírito de Hilda Hilst continua a inspirar gerações de artistas e linguagens distintas. Foi na Casa do Sol em que a escritora viveu, escreveu e criou dezenas de cachorros que aconteceu a oficina-residência que deu na revista Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.], organizada por Angeli e Laerte, com 20 artistas (incluindo los dois amigos organizadores).

Zeca Baleiro e Hilda Hilst trabalhando nos poemas do disco. Foto do encarte de Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio. Reprodução

Falecida em 2004, Hilda Hilst não chegou a ver pronto o disco Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio [Saravá Discos, 2006], produzido por Zeca Baleiro, com poemas (de Júbilo, memória, noviciado da paixão) musicados pelo artista nas vozes de 10 cantoras brasileiras – Rita Benneditto, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olivia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria.

Mais de uma década depois, o disco credencia o maranhense à Flip. Ele participa da mesa “O escritor e seus múltiplos” (domingo, 29 de julho, às 12h), com a atriz Iara Jamra e o fotógrafo Eder Chiodetto. Na conversa, segundo o material de divulgação da Flip, “uma atriz, um compositor e um fotógrafo que fizeram obras baseadas em Hilda Hilst relembram os encontros com a autora, o processo de criação e as marcas que a experiência deixou em suas trajetórias”.

“Vou falar sobre nossa parceria no disco Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, que lancei em 2006. É um disco de cantoras, de atmosfera musical medieval, com canções que compus sobre seus poemas. É um trabalho do qual muito me orgulho”, comenta Baleiro com exclusividade a Homem de vícios antigos.

O poeta Reuben da Cunha Rocha. Foto: Ilana Lichtenstein

Outro maranhense que estará na programação é o poeta Reuben da Cunha Rocha, vulgo cavalodada, radicado em São Paulo. Ele apresentará a performance Cantares do sem nome (sábado, 28 de julho, às 17h30), baseada em tema da homenageada.

“A performance foi um convite da curadora Josélia Aguiar. Vão ser três performances, quinta, sexta e sábado, cada uma dialogando com um aspecto da obra da Hilda Hilst. Uma é Do desejo, a outra é Da partida, sobre a morte, e o Cantares do sem nome, que é esse lance cósmico e divino que aparece no trabalho dela”, antecipa Reuben com exclusividade ao blogue. “São questões que nos ligam. Foi muito sensível essa sacada”, continua.

“Senti isso como uma grande responsabilidade. É uma dimensão assombrosa da obra de Hilda Hilst e ao mesmo tempo uma incumbência alegre por causa da relação que eu tenho com o assunto”, finaliza Reuben.

O cabaré musical de uma estrela

Cabaré Star. Capa. Reprodução

 

Edy Star demorou 43 anos entre seu solo de estreia, Sweety Edy [Som Livre, 1974] e Cabaré Star [Saravá Discos, 2017], segundo disco de sua carreira. Aos 80 anos recém-completados, é o único remanescente do antológico pastiche Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10, clássico maluco que dividiu com Miriam Batucada, Raul Seixas (autor do bolero-título, cantado por Edy) e Sérgio Sampaio em 1971.

“Há muito tempo/ eu vivo dividido entre Caetano e Raul”, cita os conterrâneos em Rock’n’roll é fodaço (Edy Star), que brinca com A bossa nova é foda, do primeiro.

Baiano de Juazeiro, Edy Star é uma espécie de fênix da música popular brasileira. Com Ney Matogrosso, então de cara pintada e à frente do Secos & Molhados, cultivou a androginia, num período de maior conservadorismo (será?), abrindo veredas para todos/as os/as que viriam depois, com ou sem polêmicas (vazias).

Ney, Caetano e Raul – um trecho de entrevista abre O crivo (Waldir Serrão e Mauricio Almeida), que fecha o disco –, além de Angela Maria, Emílio Santiago, Felipe Catto e Zeca Baleiro (que divide a produção com Sérgio Fouad) estão no disco, como a recuperar o tempo perdido.

“É o maior barato […], é incrível”, elogia-o Raul. Caetano Veloso canta em Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Viana) e Merda, dele. Ney Matogrosso se/nos diverte em Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera). Emílio Santiago deixou sua participação gravada antes de falecer em Ave Maria no morro (Herivelto Martins). Em Perdi o medo (Odair José), Edy Star recebe a visita de Felipe Catto. Já Zeca Baleiro participa de Dezessete vezes, de sua autoria, aberta por citação de Tango pra Tereza (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), interpretada à capela por Angela Maria.

Há uma diversidade de temas, gêneros e gerações em Cabaré Star – marca de Edy desde a estreia. Os outros parceiros de Sociedade da Grã-Ordem Kavernista também comparecem: Sérgio Sampaio é o autor de O que será de nós e Miriam Batucada de Você é seu melhor amigo. Eu fiz pior, de Lula Côrtes, abre o disco, com estrofes bem humoradas sobre os bastidores do show business: “Meus parceiros, entre aspas/ meus cúmplices de nada/ cem críticos de arte que nem tinham emprego/ chegavam nos jornais/ com papo de manchete/ achando que uma enquete me faria medo”, canta Edy.

“A vida é um cabaré/ foi assim que eu aprendi/ sonho, emoção e prazer/ você escolhe o que quer/ se vai sorrir ou sofrer/ seja lá homem, mulher/ só interessa o viver/ na noite de cabaré”, canta em A vida é um cabaré (versão de Edy Star e Zeca Baleiro para Y’a la rumba dans l’air, de Alain Souchon), devolvendo elegância ao ambiente, também espaço de fruição artística, em oposição à visão pejorativa, porém rentável, de letras típicas do breganejo e da sofrência – “há muito tempo/ não ouvia tanta shit na MPB”, voltamos à letra de Rock’n’roll é fodaço.

O disco traz ainda Procissão, talvez a faixa mais conhecida do disco: é o clássico lançado por Gilberto Gil em 1967, cuja parceria só foi reconhecida em 2008 – de lá para cá, todos os discos lançados com a música trazem-na com os devidos créditos também a Edy Star.

Ele é acompanhado por Adriano Magoo (piano, teclados e acordeom), Tuco Marcondes (guitarra), Fernando Nunes (contrabaixo) e Kuki Stolarski (bateria e efeitos), além das participações especiais de Emílio Martins (percussão), Hugo Hori (saxes), Tiquinho (trombone e tuba de Bauru), Jorge Ceruto (trompete e voz de cafetão cubano em A vida é um cabaré), Zeca Baleiro (violão “peba” em Peba na pimenta), Swami Jr. (violão sete cordas e arranjo em Ave Maria no morro) e Webster Santos (violão, violão sete cordas, cavaquinho e bandolim em Procissão e Merda).

“Se no nosso país houvesse respeito ao talento e à dignidade de nossos artistas, o nosso Edy seria visto como um artista superior. Seria não, ele é!”, atesta o folclorista e produtor musical Roberto Sant’Ana (pai do músico Lucas Santtana), em texto no encarte de Cabaré Star.

“Edy é uma antologia que anda, sabe tudo de música brasileira e outras bossas o rapaz, um pé no rock e na transgressão, outro no cabaré e na reverência à tradição. […] Tudo com alma teatral, farsesca ou, como ele gosta de dizer, cabareteira”, arremata Zeca Baleiro, produtor e parceiro.

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Veja o lyric video de Rock’n’roll é fodaço (Edy Star):

Criolina lança clipe antecipando o carnaval

O carnaval vem aí e o Criolina solta novo videoclipe na rede. A menina do salão (Alê Muniz/ Luciana Simões) ainda nem esfriou e eles já saem com Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões), música que batiza o bloco (ou vice-versa?) que o casal Alê Muniz e Luciana Simões comandará na segunda-feira de momo (12).

O nome do bloco homenageia Bota pra moer, um dos “doidos antológicos” de São Luís, catalogado pelo saudoso e múltiplo Lopes Bogéa no igualmente antológico Pedras da rua [Sioge, 1988]. Antonio Lima, seu nome de pia, pernambucano de Caruaru, viveu na capital maranhense, onde protagonizou histórias hilárias. Era hábil em matemática, conseguindo dizer, de cabeça, em poucos segundos, quantos dias, meses e anos a pessoa tinha vivido até ali, a partir de sua data de nascimento. Outra habilidade sua era ler naturalmente um jornal. De cabeça pra baixo.

Mas folclórica mesmo ficou a história de quando se tornou porta-bandeira da famosa Greve de 51. São Luís ficou paralisada pela revolta popular contra a posse do governador Eugênio Barros. Bota pra moer puxava o bloco dos descontentes até o Palácio dos Leões, quando viu o aglomerado de policiais montados a cavalo e passou a bandeira a quem estava a seu lado, dizendo: “até aqui eu trouxe. Daqui pra frente, vocês arranjem um mais doido do que eu”.

O novo clipe do Criolina antecipa o clima do que o bloco promete para este carnaval. Bota pra moer, o bloco de Alê Muniz e Luciana Simões não é oportunista: o casal tem balançado o coreto desde que optou por viver em São Luís e produzir a partir daqui, dando uma contribuição fundamental para a organização e a profissionalização da cena musical, com o advento do Festival BR 135, produzido anualmente por eles. Homenageia uma figura folclórica da cidade. Garante o diálogo multicultural durante a folia, algo já destacado no carnaval recifense e inaugurado cá por estas plagas ano passado com o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público e destaque incontestável do reinado de Momo de ano passado. E realizaram dois ensaios abertos e gratuitos do bloco, na Avenida Beira-Mar, no Centro da cidade.

“Queremos circo, queremos pão/ queremos a libertação”, começa a letra, que traz também a epígrafe da Akademia dos Párias: “loucos somos todos em suma/ uns por pouca coisa/ outros por coisa alguma”. E para não esquecer que o carnaval é também um momento político: “vai querer, vai querer/ bota pra moer/ vai querer, vai querer/ pra gente poder/ sem temer sem temer sem temer”, segue a letra, entre explícita e sutil.

Para o corredor da folia, o Criolina terá como convidados a Bateria da Favela do Samba, o bloco Fuzileiros da Fuzarca, a cantora Rosa Reis e o DJ Pedro Sobrinho, além da participação especial a cantora Elza Soares, entre o estrondoso sucesso de A mulher do fim do mundo [2015] – uma das faixas é intitulada Pra fuder (de Kiko Dinucci, de algum modo antecipando o diálogo com Bota pra moer) – e as gravações de Deus é mulher, novo disco que lançará este ano.

Para o videoclipe, o Criolina contou com as participações especiais de Rosa Reis, Lucas Santtana (que participaram do BR 135 ano passado), Chico César e Zeca Baleiro (que animaram o Bloco do Baleiro ano passado), acompanhados de João Simas (guitarra), Sandoval Filho (teclado) e Thierry Castelo (bateria). A direção do clipe é de Arthur Rosa França, com imagens (em São Luís) de Laila Razzo e direção de estúdio de Rovilson Pascoal (em São Paulo) e Alê Muniz (em São Luís).

Assista o videoclipe de Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões):

O baú do Baleiro

Arquivo_Duetos 1. Capa. Reprodução

 

Zeca Baleiro lança em todas as plataformas digitais nesta sexta-feira (1º. de setembro) o disco Arquivo_Duetos 1. Ao menos por enquanto o álbum não terá edição física. A compilação reúne 11 gravações que o maranhense divide com nomes nacionais e estrangeiros: em ordem alfabética, Alessandra Maestrini, Bernard Fines, Blubell, Dandara, Edgar Scandurra, Fagner, GOG, Higo Melo, Kana, Nicola Són, Paulo Monarco, Samantha Navarro, Susana Travassos e Wado (veja o repertório do disco e o clipe de Que amor é esse? ao final do post).

“Em 2017 meu primeiro disco completa 20 anos. Eu resolvi remexer nos arquivos que eu tenho e havia um material consistente, que valia a pena botar no mundo. Assim surgiu essa série de lançamentos, eu não sei quantos álbuns serão. A primeira ideia que surgiu foi o álbum de colaborações, de duetos, por que havia muitos. Coisas que fiz para trilhas de filmes, colaborações em discos de outros artistas, outros artistas que colaboraram em discos meus, projetos especiais. Nesse primeiro volume tem dois franceses, a uruguaia Samantha Navarro, a portuguesa Susana Travassos, a japonesa Kana, é um disco bem colorido, cheio de nuances, foi isso que me moveu a fazer essa coletânea. Dá para fazer pelo menos uns quatro álbuns com essas coisas de arquivos desses 20 anos”, revelou o cantor e compositor em entrevista coletiva concedida esta tarde, através do youtube.

 

Foto: Silvia Zamboni

O disco faz parte das comemorações pelos 20 anos de carreira de Baleiro, contados a partir do disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, lançado em 1997. “Eu já trabalhava com música 10 anos antes, pode-se dizer que eu tenho 30 anos de carreira. Quando se fala em carreira geralmente se fala em carreira discográfica, essa fase anterior não conta muito, em termos gerais. Mas pelo menos desde 1987 eu trabalho com música profissionalmente, primeiro fazendo trilhas para teatro lá em São Luís do Maranhão. Eu tenho uma demo que talvez eu transforme num vinil, precisa de muitas autorizações. Foi a demo que gerou a gravação de meu primeiro disco”, continuou abrindo o baú.

É a primeira vez em 20 anos que um disco de Baleiro não terá edição física. Indago-lhe se é um sinal dos tempos ou um ponto fora da curva em sua carreira. “Sinal dos tempos, uma experiência. O artista tem que estar aberto para essas coisas. Eu sou dos mais apegados com o formato físico. Eu sou um colecionador, um cara que tenho apego pelo formato, pelo encarte, por ler as letras, mas você tem que se permitir certas experiências. Nem digo se moldar, pois não estou me moldando a nada. Quando surgiu essa conversa eu achei interessante, vamos ver até onde isso chega. Lançar uns dois ou três álbuns com material de acervo e ver até onde isso vai”.

Ele não prevê uma turnê específica para Arquivo_Duetos 1. “É um show difícil de levar para turnê, eu teria que levar pelo menos 11 artistas junto comigo. São 11 faixas, algumas com dois cantores. O que eu devo fazer é incorporar algumas dessas canções no repertório de meus shows, isso naturalmente vai acontecer. Mas uma turnê específica desse disco, não. É um retrato, um instantâneo de um período da carreira”, ponderou.

Lançamento de seu próprio selo, o Saravá Discos, Arquivo_Duetos 1 tem de jazz cigano (Que amor é esse?, dueto com Alessandra Maestrini) a rap (O peso da palavra, com GOG e Higo Melo), passando por versão em francês para composição de Baleiro (Le reste on s’en fiche, para Skap, com Bernard Fines). Indago-lhe algumas ausências sentidas, entre tantas notáveis parcerias. Ele responde mantendo a habitual elegância: “Infelizmente não dá para botar tudo. Alguns critérios você tem que criar. Um deles é a própria qualidade da faixa. Às vezes você até gosta da música, mas se não gostei da minha performance ali, é um critério. Não quero fazer durar este desconforto. Outra é quantidade: é uma limitação numérica. Mesmo sendo digital, não acho aceitável fazer 16 músicas. Tem que haver a perspectiva de um disco físico. 35, 40 minutos no máximo, que é o tempo que eu acho que as pessoas têm disponível. Os critérios são muito pessoais”.

Ele deu pistas do que os fãs podem esperar num segundo volume de duetos, já em vias de finalização, além de outros discos com faixas pescadas de seu baú. “O volume 2 terá as gravações que restaram e um terceiro volume de dispersas ou raras e dispersas, que foram canções que ficaram no meio do caminho. Por exemplo, gravei Baioque, do Chico Buarque, para a trilha da novela Joia rara, mas a música não foi aprovada. Eu fiz um rock e a expectativa era de uma coisa mais acústica, o briefing não foi bem dado. Eu li que o Roberto [Carlos] ia fazer um disco só com novos compositores, fiz uma canção e mandei. Tempos depois eu fiquei sabendo que a música não chegou às mãos do Roberto. Depois revi a demo e fiz ao vivo com meu pianista, o [Adriano] Magoo, e por que não? O Roberto não vai gravar mesmo [risos]. Sobras de estúdio, uma música do Tom Zé que eu gravei e não foi ao disco. Bem alinhadas dá para construir uma quase narrativa”, antecipou.

O primeiro single de Arquivo_Duetos 1 a ser disponibilizado no youtube foi Que amor é esse?, composto para a trilha sonora do filme O amor no divã, de Alexandre Reinecke, que Baleiro interpreta com Alessandra Maestrini. Narra a briga de um casal que se separa. Lembrei-me de Tua cantiga, de Chico Buarque, que antecipou Caravanas, seu novo disco, e rendeu ao compositor uma polêmica nas redes sociais e adjetivos como “machista” e “antiquado”. Perguntei ao maranhense se ele havia acompanhado a repercussão e sua opinião sobre o assunto. “Acompanhei com certa preguiça, achei falta de assunto. Polêmica nas redes geralmente é falta de assunto. É difícil você ver algo que vá fazer diferença em nossas vidas. É um verso inócuo, é um personagem. O poeta tem a liberdade da fala, abre as picadas para quem não tem essa voz. Se você começa a se vigiar demais, onde a gente vai chegar? Eu me preocupo, em certa medida. Eu tenho uma patrulha em casa, dois filhos adolescentes, que têm uma preocupação com o politicamente correto. Eu já não tenho nenhuma [risos]”, finalizou.

*

Repertório de Arquivo_Duetos 1

  1. Que amor é esse? – com Alessandra Maestrini
  2. A tardinha – com Blubell
  3. Corações ternos – com Nicola Són e Edgar Scandurra
  4. O peso da palavra – com GOG e Higo Melo
  5. O mundo – com Susana Travassos
  6. A canção brasileira – com Fagner
  7. Le reste on s’en fiche – com Bernard Fines
  8. Arenal – com Samantha Navarro
  9. Zás – com Wado
  10. Tem dó – com Paulo Monarco e Dandara
  11. O primeiro passo – com Kana

Veja o clipe de Que amor é esse?:

 

Bloco do Baleiro: “o ritmo, a dança, a alegria”

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

 

Teve ótima receptividade mês passado o anúncio, pelas redes sociais, do Bloco do Baleiro, em que o anfitrião maranhense terá como convidados o paraibano Chico César e a paraense Fafá de Belém, além dos DJs Ademar Danilo e Jorge Choairy.

Os poucos que contrariaram o coro questionavam o pagamento dos cachês dos artistas, inventando uma falsa oposição entre a presença de três artistas renomados nacionalmente e a manutenção de manifestações da cultura popular, como escolas de samba e blocos tradicionais, entre outros.

Procurada pelo blogue, assim manifestou-se a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão (Sectur), em nota: “o evento é realizado pelo Governo do Maranhão e pela Prefeitura de São Luís com o patrocínio da Skol, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão. Pela parceria, o Governo do Maranhão ficou responsável pelos cachês dos artistas, a Prefeitura de São Luís pelo trabalho de bloqueio de vias e ordenação do trânsito, e a Skol pela produção do bloco”. A questão parece encerrada.

Nome fundamental no cenário da música popular brasileira ao menos nos últimos 20 anos – quando lançou Por onde andará Stephen Fry? [MZA, 1997], seu disco de estreia –, Zeca Baleiro é maranhense para além da geografia: ao longo de duas décadas de carreira tem sido um verdadeiro embaixador da arte e cultura maranhenses, produzindo discos, fornecendo composições e/ou participando de trabalhos de artistas locais, nomes entre os quais podemos citar – com o risco de esquecer muitos outros –, Antonio Vieira, Bruno Batista, Celso Borges, Chico Saldanha, Criolina, Flávia Bittencourt, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho, Lena Machado, Lopes Bogéa, Patativa, Rita Bennedito (antes Ribeiro) e Rosa Reis.

A realização do Bloco do Baleiro será certamente mais uma importante contribuição de Zeca à cultura do Maranhão. Ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Rama de Oliveira
Foto: Rama de Oliveira

Como surgiu a ideia e como foram as negociações para a realização do Bloco do Baleiro neste carnaval em São Luís?
Esse é um projeto antigo que eu e Samme Sraya, prima querida e produtora atuante no front cultural de São Luís, planejamos fazer há tempos. Mas só agora estamos tendo a chance de concretizá-lo. A ideia é fazer um grande baile num caminhão, uma “jardineira”, como os que deram origem aos trios elétricos, num circuito entre as praças da Casa do Maranhão e Maria Aragão. Um baile onde cantaremos de tudo, não só músicas “de carnaval”, mas música dançante em geral, de Tim Maia a Reginaldo Rossi. Será uma experiência, algo inédito, uma tentativa de aproximar o nosso show/bloco da tradição do carnaval de rua maranhense, ao invés de copiar modelos de carnavais de outros estados. Uma festa popular e gratuita. O único critério para entrar no cordão será estar fantasiado.

A principal força do carnaval da capital maranhense é a tradição do carnaval de rua, com suas diversas manifestações. Você passou a infância e a adolescência em São Luís. Quais as suas principais lembranças do período momesco na ilha?
Gostava muito de ver os blocos, os fofões, mascarados de rua… Nunca fui um grande folião, mas gostava de ver a festa. Tive um vizinho querido, o poeta e jornalista Paulo Nascimento Moraes, que saía todo domingo de carnaval fantasiado de fofão pelas ruas do Monte Castelo, uma figuraça. É uma lembrança muito lúdica e bonita que eu tenho da festa. E lembro também de alguns sambas-enredos antológicos, que quero homenagear no Bloco, como Haja Deus, da Flor do Samba, de Chico da Ladeira e Augusto Tampinha, e Bodas de ouro, de Zé Pivó, da Turma de Mangueira.

O Bloco do Baleiro terá como convidados Chico César e Fafá de Belém. Como será a participação deles e o que você diria a quem, por preconceito, torcer o nariz, dizendo tratar-se de artistas não identificados diretamente com o carnaval?
A quem torcer o nariz, sugiro que fique em casa, vendo o carnaval do Rio pela Globo. Mas para quem quiser se juntar a nós e celebrar com alegria, irreverência e música o carnaval, digo que venha. Eu, Chico e Fafá somos artistas identificados com o ritmo, a dança, a alegria. Isso deveria bastar. Mas, como diria Dias Gomes, quem abre caminho enfrenta as cobras.

São Luís parece despertar finalmente para experiências bem sucedidas como o carnaval do Recife, isto é, abrindo o leque, ampliando as possibilidades e realizando um carnaval verdadeiramente multicultural?
O carnaval de Recife é um grande exemplo de como a festa do carnaval pode servir de palco pra todo tipo de música ou manifestação cultural. Já toquei lá em mais de 10 edições, e sempre tem música pra todo gosto. Na mesma noite você pode ter shows de Ira!, Nação Zumbi, Zélia Duncan, Spok Frevo Orquestra, Elza Soares, Alceu Valença, rap, samba, frevo, rock, blues, tudo junto. E isso é lindo como proposta cultural.

Sua presença na programação do carnaval de São Luís tem um quê de afetividade, tendo em vista você ter nascido aqui, a evocação das memórias de que você já tratou. O que você e seus convidados estão preparando para o Bloco do Baleiro?
Sim, tem um quê de afetividade, de culto da memória também. Ainda vamos ensaiar, mas a ideia é dar um giro pela música dançante brasileira, do carimbó ao funk, do brega ao reggae. Estou preparando versões divertidas de clássicos da música pop também. O importante é louvar a alegria de viver num tempo tão obscuro como este em que vivemos.

Assista O abadá, versão bem humorada de Zeca Baleiro para Ob-la-di, ob-la-da (Lennon/McCartney), dos Beatles:

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa:

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

Era domingo: pop para qualquer hora do dia, qualquer dia da semana

Era domingo. Capa. Reprodução
Era domingo. Capa. Reprodução

 

Aos quase 20 anos de carreira, isto se contarmos apenas a partir do lançamento de seu disco de estreia, Zeca Baleiro é um dos maiores trabalhadores da música popular brasileira. Desde Por onde andará Stephen Fry? [1997], o maranhense nunca se acomodou, nem nunca fez dois discos iguais. Ou seja: sempre se arriscou a testar o gosto, a paciência e a fidelidade do público que cativou desde então. Ainda remontando ao início de sua carreira discográfica, basta lembrarmos as quebras que significaram entre si os seguintes Vô imbolá [1999] e Líricas [2000].

Estas rupturas seguem presentes: após um disco infantil [Zoró – Bichos esquisitos, de 2014], um disco especial dividido com Paulo Lepetit e Naná Vasconcelos [Café no bule, de 2015] e outro dedicado ao repertório de Zé Ramalho [Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho, também de 2015], Baleiro apresenta ao público seu disco mais pop: Era domingo [Fidellio/Som Livre, 2016].

Todas as 11 faixas são facilmente assobiáveis e plenas candidatas a hits de rádio – imaginemos um mundo livre do jabá. Quando parece não haver o que inventar, o artista se reinventa e lança a si mesmo o desafio: cada faixa tem um produtor diferente. Ou um par. Sim, o disco tem mais de 11 produtores/arranjadores: Tuco Marcondes, Pedro Cunha, Rogério Delayon, Kuki Stolarski, Marcelo Lobato, Marcos Vaz, Fernando Nunes, Haroldo Ferreti, Henrique Portugal, André Bedurê, Rovilson Pascoal, Érico Theobaldo e Adriano Magoo. O resultado, no entanto, é coeso.

Era domingo, a faixa-título, abre o disco, traduzindo o granulado voyeurismo de celular estampado na capa: uma foto praieira feita pelo próprio Baleiro. “Toda beleza/ na Fortaleza/ de um céu cheio de azuis/ música bela/ pela janela/ soava feito um blues”, diz a letra.

Ela parou no sinal e seu naipe de sopros ecoa os momentos mais dançantes dos dois volumes de O coração do homem bomba [2008]. De mentira lembra o adágio do poeta português Fernando Pessoa: “você se diz poeta/ mas é só um fingidor/ finge tão completamente/ que até crê na sua dor/ tanta é a dor que mente”, arremata.

A presença de outro poeta no repertório do disco é mais uma prova de que Zeca Baleiro não se contenta com caminhos fáceis ou atalhos para o sucesso. A letra de Desesperança, penúltima faixa do disco, parceria dele com Paulo Monarco, é trecho do poema homônimo do maranhense Sousândrade, do livro Harpas selvagens [1857]. A outra parceria do disco é Deserta, com Lokua Kanza.

A hiperbólica Pequena canção remete ao Roberto Carlos de Eu te darei o céu [Roberto e Erasmo Carlos]: “eu te daria o Polo Norte/ qualquer brinquedo/ o meu segredo/ o samba-enredo/ das minhas penas/ te dava a Grécia/ te dava Troia/ a maior joia do meu garimpo/ o meu cavalo, o meu Olimpo”, promete a letra.

Desejo de matar é dor de cotovelo digna de Lupicínio travestida de rock’n roll: “você me transformou/ num cão vulgar e sujo/ um fulano vagabundo/ um maldito o dito cujo/ de quem todos falam/ sem nenhum respeito/ o pilantra, o pilintra/ o vilão, o feio, o mau sujeito” é o cartão de visitas do protagonista da letra que cita Charles Bronson.

Em Homem só, O amor é invenção e Ultimamente nada, com seus femininos gritos de gozo no grand finale, Baleiro tira um sarro da vida pequeno-burguesa, cujas ambições rotineiras parecem bobagens para poetas, sonhadores e que tais. “Os amigos falam que é isso, brou?/ nunca mais passou no café, no bar/ tenho trabalhado pra caramba e/ o trabalho é que/ pode nos salvar”, afirma o artista, que apenas finge se contentar.

Ouça Desejo de matar:

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

Coleção de delicadezas

Bons ventos. Capa. Reprodução
Bons ventos. Capa. Reprodução

 

Quase 20 anos após sua estreia no mercado fonográfico, Bons ventos [Na Music, 2015] é nome apropriado para o segundo disco da cantora Anna Claudia, paraense radicada no Maranhão há mais que isso.

Também radicado há muito por aqui, o percussionista Luiz Claudio, irmão de Anna, além de tocar no disco, estreia como produtor, dividindo os arranjos com Israel Dantas (violões de seis e sete cordas), Márcio Glam (violão aço e guitarras em Vai), Norlam Lima (guitarra em Presente) e Nosly (violão em Guetos da Ilha, Vou dançar meu afoxé, parcerias com Gerude, Teu lugar e Noves fora).

Comparecem ainda a Bons ventos Carol Cunha (ukulele em Canção em alfa), Mauro Sérgio (contrabaixo), Rui Mário (teclados e sanfona), Mauro Travincas (contrabaixo em Teu lugar), Jamilson Denys (guitarra em Presente), Djalma Chaves (violão em Paixão e razão), Wendell Cosme (bandolim em Guetos da Ilha) e Sávio Araújo (sopros em Vou dançar meu afoxé).

Bons ventos é uma coleção de delicadezas e uma ponte entre o Pará natal e o Maranhão adotivo de Anna Claudia. O disco é “um belo tributo à rica tradição da canção brasileira”, atesta Zeca Baleiro em texto no encarte do disco, que abre com o reggae Canção em alfa (Ronald Pinheiro), hit local oitentista.

Outra regravação é Teu lugar (Nosly), mas embora revisite o passado, Bons ventos é um disco do Presente (Zeca Baleiro e José Reinaldo), como diz a letra de uma das faixas, talvez a explicar a demora entre um disco e outro: “você me trouxe mais/ do que eu esperava/ você trouxe a palavra/ que faltava em minha boca”, com sutil citação de Libertango (Astor Piazzolla). Outra presença sorrateira é a de Flores em você, sucesso dos roqueiros paulistas do Ira! que encerra Vai (Allan Carvalho). A releitura de Noves fora (Zeca Baleiro e Nosly) ganha ares de mina. O paraense Allan Carvalho comparece ao repertório com mais duas composições: Sete cordas (parceria com Paulinho Moura), tributo ao instrumento imortalizado por Dino, Raphael Rabello e Yamandu Costa, e o bucólico Choro fulô (parceria com Ronaldo Silva), ornado apenas por violão e percussão.

Os afoxés que encerram o disco, Guetos da Ilha e Vou dançar meu afoxé, representam a negritude ludovicense, maranhense, paraense, brasileira, homenageando deuses, casas e blocos afro.

“Quando o amor campeia/ não há redenção/ é a voz da sereia/ teia e arpão/ que pega na veia/ vai ao coração/ que é cego e tateia/ outra ilusão”, diz a letra de Paixão e razão (Djalma Chaves e Lupe Albano), que também ajuda a explicar a urdidura de Bons ventos. Evidentemente há alguma razão na seleção de repertório, assinada pelos irmãos Anna e Luiz com Suzana Fernandes (esposa deste); mas reside ali muito de paixão: primeiro da cantora (e dos que a cercam neste trabalho), depois de quem a ouve.

Marcos Magah e Bruno Batista lançam videoclipes

Os cantores e compositores Marcos Magah e Bruno Batista disponibilizaram esta semana seus novos videoclipes.

Rodado na Praia Grande, o primeiro, O dia em que o homem lúcido e perigo quase encontrou Henry Dave Thoureau em São Luís do Maranhão, é faixa de O inventário dos mortos (ou Zebra circular), com que Magah venceu o mais recente Prêmio Universidade FM, na categoria melhor cd de música pop.

O segundo, Nigrinha, parceria de Zeca Baleiro com Bruno Batista, é faixa de Bagaça, novo disco que este lança em 2016.

Assista os videoclipes.