Amizade e sentimento

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato e Cláudio Nucci foram direto ao assunto quando subiram juntos ao palco do Teatro Arthur Azevedo, ontem (2): abriram o show com Sapato velho, composição do segundo em parceria com Paulinho Tapajós. Era o início do desfile de um repertório diretamente ligado à memória afetiva do público presente, entre hits de rádio e temas de novela, além de reverências a compositores de sua predileção, passando por várias fases das carreiras de ambos, conhecidos desde o grupo Cantares, antes do Boca Livre, portanto há mais de 40 anos, uma retrospectiva sentimental para artistas e plateia.

Atravessando a cidade (Juca Filho), faixa de Pelo sim, pelo não, disco gravado pela dupla em 1985, traduz a delicadeza do reencontro, nesta turnê com que estes dois grandes artistas ora atravessam o país em Liberdade e movimento, canção que dá título ao show, a velha Bicicleta do Boca Livre, de Zé Renato, que ganhou letra de Nucci anos depois.

Acontecência (Cláudio Nucci) havia sido cantada por Zé Renato em seu show mais recente em São Luís, no Clube do Chico. “A gente tá muito feliz de estar aqui em São Luís, no palco do Arthur Azevedo. Zé Renato veio mais recentemente, eu fazia muito tempo. Obrigado!”, Cláudio Nucci fez as honras.

A hora e a vez (parceria da dupla com Ronaldo Bastos), tema da novela global Roque Santeiro, foi o número seguinte, que antecedeu Cá já, de Caetano Veloso, o primeiro entre os compositores a quem prestaram reverências para além do repertório autoral.

Anunciaram, em seguida, Gilberto Gil e Dominguinhos, antes de cantar Lamento sertanejo. Quando passaram a Ânima (Zé Renato e Milton Nascimento), imediatamente lembrei-me da história contada por Zé Renato naquele show no Clube do Chico: Chico Buarque ia colocar letra na melodia, mas quando Milton ouviu e disse que o faria, Zé Renato desconvidou o autor de A banda.

A dupla cantou Benefício (Zé Renato e Hamilton Vaz Pereira), que a Banda Zil, integrada por ambos mais Ricardo Silveira, Marcos Ariel, Zé Nogueira, Jurim Moreira e João Batista, lançará em dvd em breve (a faixa integra o repertório do único disco do grupo, de 1987).

Com Blackbird (Lennon e McCartney) tornaram a celebrar compositores de sua predileção, seguiram a esbanjar seus talentos em seus instrumentos, as vozes e os violões. Por falar em voz como instrumento, seguiram com Papo de passarim (Xico Chaves e Zé Renato), outra trilha de novela (Sinhá moça), que Zé Renato refez em seu disco em dueto com Renato Braz (2010), por ela intitulado.

De Bebedouro (2018), seu disco mais recente, Zé Renato pinçou Noite, uma das duas parcerias com Joyce Moreno registradas no álbum, num momento em que ficou solitário no palco. Ainda sozinho reverenciou a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes em O amor em paz, depois de lembrar as três vezes em que encontrou profissionalmente o maestro soberano. “Profissionalmente foram poucas vezes, mas a gente se encontrava bastante, numa churrascaria que era o escritório dele”, revelou, para gargalhadas da plateia.

Depois foi a vez de Cláudio Nucci ficar sozinho. Cantou Rio de março, em cujo registro no disco Integridade (2018, todo dedicado à parceria dele com Felipe Cerquize) divide os vocais com Zélia Duncan. A letra é forte e atual, diante da barbárie vivida no Rio de Janeiro (sob Witzel, no Brasil sob Bolsonaro): “Rio de Janeiro/ Rio degenerou/ Rio regenera”, trocadilha um trecho da letra.

Para a companheira Dri Gonçalves – “ela está curtindo aí na plateia, cheguei numa idade em que já não posso viajar sozinho”, troçou – ofereceu Serenin, parceria do maranhense (nascido no Piauí) César Nascimento com o carioca Vicente Teles.

Com Zé Renato de volta ao palco, enquanto ajeitava os cabos do violão, Nucci contou uma história: “quando o Boca Livre surgiu, muita gente achava que a gente era mineiro. A gente ouviu muito essa turma e isso acabou se refletindo no nosso som, no repertório de nosso primeiro disco. Tanto é que quando as pessoas diziam que a gente era mineiro a gente não desmentia”, afirmou, fazendo o público rir.

“Eu sou capixaba e ele é paulista”, revelou Zé Renato. Nucci continuou: “eu quando ouço música no rádio, primeiro eu presto atenção na música, depois é que vou me ligar na letra. Essa que a gente vai fazer agora, no começo eu achava que era para uma mulher; depois percebi que “corpo pintado de branco e marrom” não fazia sentido e descobri que a música foi feita para uma cachorrinha que tinha morrido”. E cantaram Diana (Fernando Brant e Toninho Horta).

Toada (Na direção do dia) (parceria da dupla com Juca Filho) foi o momento de a plateia cantar junto, seguida de Pelo sim, pelo não (parceria de ambos com Juca Filho), outro tema com que a dupla compareceu ao repertório de Roque Santeiro. O fecho do roteiro ficou a cargo de Matança (Augusto Jatobá), do repertório de Xangai, noutra sutil mensagem política do show. A música versa sobre desmatamento, mas para além desse problema, no Brasil militarizado de 2019, soa atualíssima no verso “quem hoje é vivo corre perigo”.

Cláudio Nucci não chegou a deixar o palco e atendendo aos gritos de “mais um!” cantou sozinho Quero quero (parceria com Mauro Assumpção). O grand finale ficou a cargo de outro clássico do Boca Livre: Quem tem a viola (parceria de ambos com Juca Filho e Xico Chaves) fechou a apresentação com a plateia em êxtase, momentos que certamente ficarão na memória de cada presente.

Intimidade, bom humor, beleza e afeto

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato esteve em São Luís como convidado do show de lançamento de Avessa manhã, novo disco que Tutuca Viana lançou quinta-feira passada, do qual o capixaba tornado carioca participa.

Aproveitou a passagem pela ilha para uma hora extra e fez um show intimista e bem humorado, de repertório afetivo, para um seleto público, no Clube do Chico, ontem (3).

Subiu ao palco após apresentações de Gabi, Luiz Jr. e Marconi Rezende – com quem dividiu o primeiro número, quando o anfitrião confessou só ter descoberto recentemente que Feito mistério (Lourenço Baeta e Cacaso), que tanto ouviu com o Boca Livre, havia sido também gravada pelo grupo – de que Zé Renato é integrante – com a participação especial de Chico Buarque. Zé Renato agradeceu a participação especial elogiando-o: “Marconi Rezende Buarque de Holanda. Eu estava ouvindo o Marconi cantando, não só Chico Buarque, eu tenho certeza que qualquer autor gostaria de ser cantado por ele”, declarou.

Em Anima (Zé Renato e Milton Nascimento) – que Zé Renato já havia cantado em sua participação especial no show de Tutuca – contou a história: “eu morava num apartamento na Gávea, dividia com o Vinicius Cantuária e um dia o Chico Buarque apareceu. Pediu para mostrar o que estávamos fazendo, eu mostrei essa melodia, ele levou e disse que ia musicar. Daí eu fui fazer um show em Minas com o Boca Livre e mostrei pra Milton e disse que Chico ia musicar. Aí ele disse: diga para o Chico que essa quem vai musicar sou eu. Aí eu liguei para o Chico desconvidando, eu tenho isso no meu currículo”, riu junto com a plateia.

“Por falar em Milton, a primeira vez que eu o ouvi”, afirmou antes de cantar Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant). “Quando eu vi o show de Milagre dos peixes [1973], em que Milton era acompanhado pelo Som Imaginário, foi que eu decidi que música era o que eu queria para minha vida”, confessou.

Zé Renato passeou pelos repertórios de sua carreira solo e do Boca Livre, mas demonstrou também sua ascendência musical, enumerando nomes importantes para a sua formação. Antes de cantar Diana (Fernando Brant e Toninho Horta), anunciou: “essa é do Fernando Brant com um dos maiores guitarristas do Brasil”, ocasião em que lembrou que 2018 marca os 40 anos do Boca Livre. Em seguida cantou Mistérios (Joyce e Maurício Maestro), também do repertório do grupo.

Depois foi a vez de reverenciar outro nome da MPB. “Outro cara importante, o Boca Livre tem a honra de ter gravado Geraldinho Azevedo em dois discos”, lembrou, antes de emendar Barcarola do São Francisco (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando) e Caravana (Geraldo Azevedo e Alceu Valença).

Em roteiro tão coeso, difícil apontar destaques, mas Acontecência (Cláudio Nucci e Juca Filho) botou parte do público para cantar junto. A hora e a vez (Ronaldo Bastos, Zé Renato e Cláudio Nucci) antecedeu Estácio, holly Estácio (Luiz Melodia), cujo compositor Zé Renato afirmou figurar em seu repertório afetivo.

“Agora uma compositora, a grande Sueli Costa”, anunciou antes de cantar Dentro de mim mora um anjo (Sueli Costa e Cacaso). Após cantar Diz que fui por aí (Zé Keti e Hortensio Rocha) lembrou de quando conheceu Zé Keti. “Meu querido José Flores de Jesus, Zé Keti. Eu já conhecia o Zé Keti compositor, sabia seus sambas, mas só depois de gravar o disco dedicado a seu repertório [Natural do Rio de Janeiro, de 1995] é que fui conhecê-lo pessoalmente. E o Zé Keti dava em cima de todo mundo. Inclusive de nossas mulheres, com nosso consentimento [risos]. Uma vez chamaram a gente para gravar um programa de tevê, ele lembraria a Lapa de seu tempo, eu falaria da Lapa de agora, na época. Tudo combinado, botaram o microfone lapela nele, ele vinha caminhando e de repente passa uma mulher e ele: que bela bunda! E o pessoal: corta!”, tornou a rir com a plateia.

Quando Zé Renato veio participar do 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, no final de 2016, com o projeto Dobrando a Carioca, em que divide o palco com Guinga, Jards Macalé e Moacyr Luz, eles estavam lançando o cd e dvd ao vivo, de modo que o município da ilha recebeu o primeiro show após aquele trabalho ficar pronto. Desta vez ele trazia na bagagem Bebedouro [2017], seu novo disco, que ainda não teve show de lançamento. De lá, cantou Vamos curtir o amor, parceria com Moraes Moreira.

A bem humorada Como tem Zé na Paraíba (Manezinho Araújo e Catulo de Paula), do repertório de Jackson do Pandeiro, gravada por ele em Cabô [1999], lhe cai à perfeição: “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, brinca a letra.

Outra do repertório do Boca Livre, Desenredo (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) precedeu o bloco dedicado a Chico Buarque – a que dedicou, ao lado de Noel Rosa, o disco Filosofia [2001]; o poeta da Vila, no entanto, não foi lembrado ontem.

Seguiram-se Morena dos olhos d’água (Chico Buarque), Samba do grande amor (Chico Buarque), Samba e amor (Chico Buarque) e Tua cantiga (Chico Buarque e Cristóvão Bastos), de Caravanas, disco mais novo de Chico Buarque. “Estou fazendo um show com Cristóvão Bastos, parceiro do Chico nessa música e pedi a ele umas dicas; se eu errar, vocês me perdoam, mas eu acho que vocês vão cantar juntos, vocês sabem tudo”, provocou, antes de cantar lendo a letra. O bloco de Chico foi fechado com Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque), gancho para O amor em paz (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), que levou o cantor a se lembrar da honra do convite para gravar a trilha sonora de O tempo e o vento, de que a música faz parte.

Zé Renato devolveu a gentileza e convidou Tutuca Viana ao palco. Emprestou-lhe o violão e juntos cantaram Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, com a participação especial de Zé Renato. Do palco, Tutuca pediu a Zé Renato que mostrasse uma parceria inédita com Zeca Baleiro: “é a estreia mundial”, brincou Zé Renato. Depois cantaram juntos Boi danado (Sérgio Habibe), outra música gravada pelo Boca Livre.

Em Boca Livre, aliás, terminaria a noite. Ou melhor: o show de Zé Renato. Ele cantou Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), outra que já havia figurado em sua participação no Teatro Arthur Azevedo, dois dias antes. Atendendo aos pedidos de “mais um” emendou Quem tem a viola (Zé Renato, Cláudio Nucci, Juca Filho e Xico Chaves).

A noite continuou com a volta de Marconi Rezende ao palco, em gratidão que era sua mas que traduzia a de todo público presente, satisfeito com o espetáculo de rara beleza que presenciou.

Noite de prazer

Foto: Fernanda Torres

 

Tutuca Viana referiu-se acertadamente ao Teatro Arthur Azevedo como palco sagrado. Festejou seu reencontro com a casa enquanto cantor e compositor, ele que, costumeiramente, nos últimos anos, tem estado mais entre a plateia e os bastidores, assistindo ou produzindo shows.

O artista estava em casa, entre amigos. A começar pela banda: Marcelo Carvalho (teclado), Nema Antunes (contrabaixo), George Gomes (bateria), Darklilson (percussão) e Israel Dantas (violão, guitarra, arranjos e direção musical).

Fez um show divertido, tão à vontade se sentiu. Abriu com Broto (João Marques). Lembrou-se de seus tempos de esquina de Alecrim com Sete de Setembro, no Centro da cidade, quando começou a compor. Confessou influências e partilhou histórias com a plateia. Contou com a participação especial de Rui Mário (sanfona) em dois números.

Não se envergonhou ao admitir ter esquecido a letra de Tão dia, parceria com o piauiense Cruz Neto. O público aplaudiu mesmo o erro e ele começou novamente, sentado, ao violão, acompanhado apenas por Israel Dantas.

Ao longo do show, passeou por todo o repertório de Avessa manhã e, ainda sentado, ao violão, acompanhado pelo irmão Marcelo Carvalho, lembrou sucessos antigos: Beijo de luz (Tutuca Viana, Reinaldo Barros e César Nascimento), Canoa quebrada (Tutuca Viana e Gigi Castro) e Morada de trem (Tutuca Viana e Reinaldo Barros). A plateia fez coro.

Chamou a primeira convidada da noite. Acompanhada por Tutuca ao violão, e Darklilson ao tamborim, Tássia Campos cantou Nada como o tempo (Tutuca Viana e Veiga Neto), bonito samba inédito. Em seguida, ela ficou só no palco, gracejou com a solidão e a escuridão, desculpou-se por não ser uma exímia violonista, e lembrou-se de um prêmio recebido na Rádio Universidade FM por sua gravação de Logradouro (Kléber Albuquerque), que cantou.

Tutuca botou o público para estalar os dedos no jazz Meu grande amor (Tutuca Viana) e em seguida chamou Zé Renato ao palco, com quem dividiu os vocais em Que prazer (Tutuca Viana), faixa que abre Avessa manhã, que está tocando bem nas rádios locais. Ambos trocaram gentilezas e fizeram trocadilhos com o título da música e o prazer mútuo de estarem ali. O anfitrião revelou ter mostrado a música a Jards Macalé e este ter dito que “é a cara do Zé Renato”, imitando a voz do autor de Vapor barato. “Que bom que você gostou e topou participar”, tornou a agradecer.

Capixaba adotado pelo Rio de Janeiro, Zé Renato ficou sozinho ao palco e lembrou três sucessos, sentado, ao violão: Anima (Zé Renato e Milton Nascimento), Papo de passarim (Zé Renato e Xico Chaves), que intitulou o disco que dividiu com Renato Braz em 2011, e Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Cláudio Nucci e Juca Filho), talvez o maior sucesso do Boca Livre – certamente um aperitivo do show que ele não anunciou ontem, mas fará amanhã (3), às 20h, no Clube do Chico (Rua Uirapuru, 17, Calhau – entrada do Grand Park, pela Av. dos Holandeses, primeira à esquerda; ingressos: R$ 45,00; reservas limitadas pelo telefone (98) 99988-9186).

Tutuca lembrou-se ainda de “um cara que eu sempre admirei e acabei me tornando amigo, que infelizmente nos deixou”, antes de tocar “uma que não estava no script”, Na hora do almoço (Belchior). Com a banda de volta ao palco, teceu elogios a Zezé Alves, autor de Índio guri (parceria com Ricardo Valente), que defendeu “em um festival no [ginásio] Costa Rodrigues. Foi acompanhado por um coro de cinco crianças.

Encerrou o show com a pegada rock de O caos de cada dia (Tutuca Viana) e Segredo (Tutuca Viana e Sérgio Habibe). Com o público aplaudindo de pé, perguntou: “vocês querem que a gente saia, dê um tempinho e volte para o bis, ou a gente faz logo?”. Fizeram logo: Zé Renato voltou ao palco e novamente cantaram juntos Que prazer.

Revirando o passado do avesso

Avessa manhã. Capa. Reprodução

 

Avessa manhã [2017], o novo disco de Tutuca Viana, é uma espécie de bootleg. A maior parte do conjunto de nove canções remonta aos anos 1980 e foi encontrada em uma velha fita k7. O cantor e compositor acercou-se de talentosos instrumentistas para trabalhar.

Comparecem Israel Dantas (violões, guitarras, direção musical e arranjos), Marcelo Carvalho (piano), Ricardo Cordeiro (contrabaixo) e Wallace Cardozo (bateria), além das participações especiais de Zé Renato (voz em Que prazer), Nicolas Krassik (violino em Meu grande amor e Índio guri), Zé Américo (acordeom na faixa-título) e Gabriel Grossi (gaita em Que prazer).

Atualmente mais conhecido como o bem sucedido produtor dos festivais de jazz e blues dos Lençóis e de São José de Ribamar, Avessa manhã marca também o reencontro de Tutuca Viana com estúdios e palcos.

O disco tem ecos do Clube da Esquina e da música popular que se produzia no Maranhão entre as décadas de 1980 e 90, no rastro do sucesso do LP Bandeira de Aço, lançado por Papete em 1978. Para termos ideia do peso do passado, é um disco “com gosto de guaraná e bolo”, para citarmos um verso de Broto (João Marques), gíria em desuso, que há décadas designava mulheres jovens e bonitas.

“Eu mostrei a música para [o compositor Jards] Macalé e ele me disse que era a cara do Zé Renato. Mostrei para Zé Renato, ele adorou, e topou participar”, revela Tutuca, sobre a participação de um dos convidados especiais do disco – que estará no palco no show de lançamento, amanhã (1º/3), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Os ingressos, à venda na bilheteria do Teatro, custam R$ 30,00 (com direito ao cd). A outra convidada do artista para o show é a cantora Tássia Campos.

Sozinho ou em parceria, Tutuca assina sete das nove faixas do disco. A faixa-título é uma parceria sua com Reinaldo Barros (in memorian), a quem Avessa manhã é dedicado. Reflexo de sua atuação como produtor – certamente Tutuca Viana será descoberto como cantor e compositor agora para a geração mais nova –, o disco traz elementos de rock, jazz, blues e balada.

Merecem destaque ainda Segredo, parceria com Sérgio Habibe, artista de uma geração anterior à de Tutuca Viana, e Índio guri (Zezé Alves e Ricardo Valente), que fecha o disco.

*

Veja o clipe de Que prazer (Tutuca Viana), com participações especiais de Zé Renato e Gabriel Grossi:

Goleada

Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação
Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga: quatro craques Dobrando a Carioca. Foto: Fernanda Torres/ Divulgação

Foi encerrado em grande estilo o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, ontem (6), na cidade balneária terra do padroeiro. Jards Macalé, Zé Renato, Moacyr Luz e Guinga cantaram – os três primeiros revezando-se entre violão e percussão; o último apenas ao violão – para o ótimo público presente à praça da basílica.

Um público equilibrado entre moradores do lugar – uns sequer tiveram o trabalho de descer de suas calçadas, as cadeiras pelas portas da vizinhança do santo que dá nome a boa parte da população maranhense – e aqueles que fizeram de Ribamar uma espécie de cidade satélite cultural no último final de semana.

“É tão raro no Brasil, numa cidade do interior, as pessoas estarem ouvindo música popular brasileira à meia noite. Isso aqui é o futuro!”, vaticinou Moacyr Luz. Corroborando de sua profecia, passei a imaginar o que será esta produção de Tutuca Viana daqui a 10 ou 15 anos. O festival está no caminho certo, primando pela qualidade. Seu crescimento e continuidade depende de elementos externos: patrocinadores precisam acreditar que sua marca será vista por mais gente a cada ano, o poder público investir em estrutura (a sinalização da Estrada de Ribamar é precária, por exemplo) e o comércio local acreditar no potencial do evento (não há, na cidade vizinha à capital, um hotel com estrutura para receber os artistas – isto é, eles precisam se hospedar em São Luís, a mais de 30 km do local em que se apresentam). De todo modo, aposto que o São José de Ribamar Jazz e Blues Festival tem tudo para se transformar em uma nova Guaramiranga, talvez o maior evento do gênero hoje no Brasil, também realizado numa cidade do interior em um estado do Nordeste.

O repertório do quarteto no palco é completamente baseado no recém-lançado Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], comercializado pela primeira vez ontem, em São José de Ribamar – disco e dvd haviam acabado de chegar da fábrica e puderam ser adquiridos pelos fãs que enfrentaram a fila após o show para cumprimentar o timaço.

A metáfora futebolística é plenamente cabível: são quatro grandes craques de nossa música e, não à toa, abrem o show com Um a zero (Pixinguinha/ Benedito Lacerda/ Nelson Angelo), ao final da qual Macalé sopra um apito e aponta para o centro do gramado imaginário à beira do palco, para delírio da plateia e gargalhadas de Zé Renato, posicionado a seu lado.

Ao final de Favela (Padeirinho da Mangueira/ Jorge Pessanha), há tempos presente ao repertório de Macalé, o mais performático do quarteto, ele simula um trombone, imitando o som do instrumento com a boca e movimentando as mãos como se o soprasse; depois, tira um revólver de brinquedo de um penico e simula um tiro na própria cabeça, numa crítica à violência que ainda domina os morros, berços de tantos bambas, alguns deles lembrados no set list de Dobrando a Carioca.

O show é, em sua maior parte dedicado ao samba, mas grandes momentos surgem também quando fogem do gênero, casos, por exemplo, de Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé), que fez a plateia cantar junto, e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), idem.

Em Como tem Zé na Paraíba (Catulo de Paula/ Manezinho Araújo), imortalizada por Jackson do Pandeiro, Zé Renato tira onda consigo mesmo, ao entoar o verso final, “mas o diabo é que eu me chamo Zé”, ao que Macalé emenda, aproveitando a ocasião: “de Ribamar”.

Díficil escolher um ponto alto do show, em que os quatro permanecem o tempo inteiro no palco. São sublimes momentos como as interpretações de Moacyr Luz para Cachaça, árvore e bandeira (Moacyr Luz/ Aldir Blanc), merecida homenagem ao mangueirense Carlos Cachaça, com citação de Alvorada (Cartola/ Carlos Cachaça), de Guinga para Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), imortalizada por Leila Pinheiro, e de Macalé para O mais que perfeito (Vinicius de Moraes/ Jards Macalé) e Acertei no milhar (Wilson Baptista/ Geraldo Pereira), samba de breque cuja quebradeira faz novamente Zé Renato gargalhar.

“Até pinico dá bom som/ se a criação é mais, se o músico for bom”, dizem versos de Chá de panela (Guinga/ Aldir Blanc), em que, novamente para deleite e delírio da plateia e novas gargalhadas de Zé Renato, Macalé percute o penico que esteve a seu lado (portando seus instrumentos de percussão) o show inteiro. A música que encerra o show (e o disco e o dvd) é uma homenagem a Hermeto Pascoal, com fundo tetra-autobiográfico: nunca é demais lembrar que estamos diante de quatro gigantes. O Um a zero do bis é placar pequeno diante da goleada que foi o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival e, particularmente, seu encerramento com este já antológico Dobrando a Carioca.

 

Um quarteto fantástico dobrando na praça da basílica

Dobrando a Carioca - Ao vivo. Capa. Reprodução
Dobrando a Carioca – Ao vivo. Capa. Reprodução

Em meio a suas carreiras solo e outros projetos, o espetáculo Dobrando a Carioca já é apresentado há 17 anos. Zé Renato, Jards Macalé, Guinga e Moacyr Luz se apresentam hoje (6), às 22h30, na programação especial que celebra os 70 anos do Sesc, encerrando o III São José de Ribamar Jazz e Blues Festival, na praça da Basílica do município. Produção de Tutuca Viana, o evento tem patrocínio da Vivo, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão.

A ideia de Moacyr Luz, que convidou os demais, vingou e acabou enveredando pelo samba, faceta comum presente às obras dos quatro. A apresentação de hoje ganha um sabor especial: acabam de sair o cd e dvd Dobrando a Carioca – Ao vivo [Biscoito Fino/ Canal Brasil, 2016], gravado em dezembro passado no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro. São José de Ribamar será o primeiro município em que os fãs poderão adquiri-lo e pegar autógrafos.

O repertório equilibra-se entre temas autorais e músicas de artistas reverenciados pelo quarteto. Não faltam clássicos como Catavento e girassol (Guinga/ Aldir Blanc), Vapor barato (Waly Salomão/ Jards Macalé) e Toada (Zé Renato/ Claudio Nucci/ Juca Filho), sucesso do grupo vocal Boca Livre.

Também comparecem Pixinguinha (Um a zero, que abre o show, parceria com Benedito Lacerda, que ganhou letra de Nelson Angelo), Padeirinho da Mangueira (Favela, parceria com Jorge Pessanha), Manezinho Araújo (Como tem Zé na Paraíba, parceria com Catulo de Paula, sucesso de Jackson do Pandeiro) e Geraldo Pereira (Acertei no milhar, parceria com Wilson Baptista), entre outros.

Com o tempo espremido entre um último ensaio, num salão do hotel em que estão hospedados, e a saída para o almoço e a passagem de som, Homem de vícios antigos conversou com o quarteto. Em tempo curto, os quatro desataram a falar, esbanjando bom humor, tirando sarro uns com os outros, tornando quase desnecessárias as perguntas do repórter. A entrevista começou com uma declaração de Macalé.

Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)
Da esquerda para a direita: Zé Renato, Guinga, Moacyr Luz e Jards Macalé, o Dobrando a Carioca. Foto: ZR (6/11/2016)

Jards Macalé – Eu declaro a independência do Brasil.

Como é conciliar a agenda do Dobrando a Carioca com suas carreiras solo e outros projetos?
Zé Renato – A gente vem tentando incluir o Dobrando a Carioca na nossa história profissional, na nossa trajetória. A gente tem um carinho muito grande pelo trabalho, o que dá uma motivação maior ainda.
Moacyr Luz – Uma coisa que eu nunca pensei: o Dobrando a Carioca é um exercício de despojamento que cada um de nós tem. Cada um tem sua carreira solo, faz seus shows individuais, o Zé com as coisas dele, eu com meus sambas, o Guinga, o Macalé. Quando chega aqui a gente troca mais.

É um show devotado ao samba? Foi um desembocar natural?
Zé Renato – A gente exercita a percussão. O foco maior é no samba. Não foi feito com essa intenção. É samba assim, vamos considerar o Um a zero um samba do Pixinguinha. Tem samba-canção, Como tem Zé na Paraíba, tem música que foge.
Moacyr – Guinga é o cara que gravou com Cartola, As rosas não falam, gravou com João [Nogueira], Beth Carvalho, Clara Nunes.
Guinga – Compositor brasileiro que não gosta de samba não é compositor.
Moacyr – [para Macalé] Você fez o 4 batutas e 1 coringa [disco de intérprete de Macalé de 1987, dedicado ao repertório de Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola].
Macalé – Sim.
Guinga – [para Macalé] Tem um elemento forte, virou disco [Jards Macalé canta Moreira da Silva, de 2001], o Moreira da Silva na tua vida.
Zé Renato – O Um a zero surge dessa ideia, a gente abre o show com Um a zero por causa dessa ideia de bater uma bola [a produtora Memeca Memeca Moschkovich adentra o salão com cds e dvds na mão].
Macalé [gritando] – Deixa eu ver! A gente sente saudade uns dos outros. Eu sinto saudades deles, eles dizem que sentem saudades de mim.
Zé Renato [para Moacyr Luz] – Você sente saudade do Macalé?
Moacyr [em tom de galhofa] – Não.
Guinga – [gargalhadas]
Zé Renato – [gargalhadas]
Macalé – Ele é um sincericida.
Guinga [rindo] – Eu odeio o Macalé. Nós estamos aqui para ver se a gente se mata. Quando Moacyr convidou a gente, isso é uma coisa engraçada, ele falou assim pra gente, “vê lá, vocês têm que ter paciência um com o outro”. Pô, criador de problemas zero [referindo-se a Macalé]. Nunca tivemos um problema. Nenhum problema.
Macalé – Como não? E quando a gente se desfez lá em Fortaleza?
Guinga – Você disse que ia seguir carreira solo [gargalhadas]. Esse filho da puta, saiu uma porrada de matéria em tudo quanto é jornal, com a foto dele na capa, ele ficou nervoso. Eu me lembro que foi muito engraçado, a gente estava no café da manhã e ele não se uniu com a gente.
Macalé – Mentira!
Moacyr – A gente tava no lobby do hotel e ele chega [imita Macalé puxando uma mala com rodinhas e gargalha]
Guinga – [gargalhadas] Dois dias depois a gente chega no Rio de Janeiro, tinha saído uma foto dele nos jornais, com a perna cruzada, com uma meia preta, quadriculada. Dois dias depois, quem está sentado no calçadão, pernas cruzadas, com a mesma meia da fotografia? Esse maluco! Eu digo, não é possível! Mas você pode perguntar uma coisa a ele: essa galera aqui, tudo amigo, não cria problema, tudo humilde. Não é, Macalé?
Macalé – [enfático] Não! [gargalhadas gerais]

Você também é um sincericida?
Macalé – Eu amo esses caras.
Moacyr – Outra coisa engraçada, a gente foi fazer o primeiro ensaio, fizemos o primeiro show, começamos a viajar e a primeira coisa que eu via era hotel e horário, pra não chegar atrasado. E eu falei: “Macalé, olha você!” E o Macalé todo dia chegava 20 segundos antes do horário [risos], “eu sou o primeiro, hein? Cheguei primeiro”.
Macalé – Hoje eu cheguei primeiro.
Guinga – Você só é indisciplinado artisticamente. Mas como homem, como cidadão, é super sério. Por que artisticamente você não tem vontade de ensaiar, você esquece o tom da música. Hoje quando você perguntou [imitando Macalé]: “lá menor ou si menor?” Eu ri muito por dentro. Eu digo: há 17 anos esse filho da puta toca essa música sozinho. Você tem defeitos e tem qualidades. A gente pode falar bem da gente?
Macalé – Agora vamos à entrevista.

Claro! Além de todos já terem vindo aqui com outros projetos, qual a relação de vocês com o Maranhão?
Guinga – Eu conheci João do Vale muito jovem. Eu era aluno de Jodacil Damasceno e ele tinha um assistente, João Pedro Borges. Depois eu passei a ter aulas com João e esses caras mudaram a minha cabeça em 180 graus, impressionante. Me mostraram a música brasileira que eu não conhecia, me mostraram o violão que eu não conhecia. Eu não sabia quem era Leo Brouwer [violonista e compositor cubano], eu me formando em odontologia. Esses caras foram muito importantes. Isso influencia minha música até hoje. Eu passei a tocar violão por causa deles.
Zé Renato – Meu primeiro contato com a música do maranhão foi o Popó [o compositor Cláudio Valente] e o Sérgio Habibe [compositor, de quem o Boca Livre gravou Boi danado], quando eles se apresentavam com o Papa Légua [músico], no show Mostração.
Macalé – Eu trabalhei uma vida com João do Vale no Opinião [show que o maranhense dividiu com Zé Keti e Nara Leão]. Eu fui casado com uma irmã de Turíbio [Santos, violonista], você quer mais relação do que isso? Eu toco num violão que foi de Turíbio, com que ele ganhou prêmio internacional na França. Até hoje ele pergunta: quanto você quer no violão? João Gilberto tentou roubar, mas eu recuperei. Ele foi fazer um concerto no Rio de Janeiro e estavam procurando um bom violão. Eu emprestei, com a condição de que no dia seguinte à apresentação o violão estivesse de volta no meu apartamento. Depois eu fiquei lendo as manchetes sobre o espetáculo, passaram dois dias e nada, eu fui bater no hotel. Comprei umas goiabinhas e fiquei comendo ali embaixo, até que apareceu o Otávio Terceiro [empresário de João]. Ele disse: “João adora goiabinha”. Ele subiu, entrou no quarto e trouxe o violão. Eu troquei meu próprio violão nas [aumenta o tom de voz] minhas goiabinhas [Zé Renato gargalha]. Nesse violão só tocaram Turíbio, Paulinho da Viola, João Gilberto e eu.

Chorografia do Maranhão: Ignez Perdigão

[O Imparcial, 19 de janeiro de 2014]

Radicada no Rio de Janeiro desde a década de 1970, a multi-instrumentista maranhense Ignez Perdigão é a 24º. entrevistada da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Ignez Eleonora Moraes Perdigão nasceu no Hospital Português, em 27 de maio de 1954. De lá foi direto para o Monte Castelo, onde morou até os 16 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje. A casa de sua família – hoje uma loja de armas que ela não reconhece mais – ficava entre o antigo Cine Monte Castelo e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

A multi-instrumentista nasceu em uma família de músicos, nem todos profissionais. Seu pai, o advogado Fernando Eugênio dos Reis Perdigão, teve formação musical que lhe permitiu um duo de violino e piano com Eder Santos, seu compadre, padrinho da menina Ignez. Sua mãe, Joina Cavalcante de Moraes Perdigão, gostava muito de cantar em casa, acompanhando a enorme coleção de discos que punham para tocar.

Do avô, Ignez herdou uma flauta de ébano – “está até hoje comigo”. O violino de seu Fernando foi herdado por Matias Correa, seu filho, contrabaixista, colega de Choro na Feira: “foi o primeiro instrumento do Matias”. A linhagem musical, iniciada com um bisavô violinista, continua: seus três filhos seguiram a profissão da mãe e, como ela, tocam vários instrumentos. Além de Matias, as cantoras Mariana Bernardes [cavaquinhista e violonista] e Alice Passos [flautista]. Ignez domina, além do cavaquinho pelo qual é mais conhecida, flauta, violão, piano e percussão.

Na cadência do samba. Capa. Reprodução

Aproveitando a passagem da musicista por sua São Luís natal, ocasião em que veio passar as festas de fim de ano com a família maranhense, a chororreportagem ouviu seu depoimento no Bar do Léo, em uma tarde de sábado cujos trabalhos foram iniciados com a audição de Na cadência do samba, disco de estreia do Choro na Feira, grupo integrado por ela – com o filho Matias, mais Clarice Magalhães [percussão], Marcelo Bernardes [saxofone, flauta e clarinete], Franklin da Flauta e Domingos Teixeira, o Bilinho [violões de seis e sete cordas].

À equipe da Chorografia do Maranhão juntou-se Leonildo Peixoto, proprietário do estabelecimento e DJ residente, que, entre idas e vindas no cuidado com os fregueses e o repertório, ouviu atentamente o trecho em que Ignez contou de sua convivência com Mário Lago [compositor, ator, dramaturgo e escritor], e lamentou um show perdido há 15 anos. Leia a seguir os melhores momentos das quase quatro horas de conversa.

Como era o universo musical na família? Meu pai ouvia muita música nos momentos de lazer dele em casa, que eram raros, praticamente fim de semana. Sabadão, domingo, ele botava o uisquinho dele, botava música, tinha uma boa quantidade de discos de 78 rotações, e 45 e, sobretudo, dava livre acesso a gente, a manusear estes discos. A gente tinha uma radiola. A infância mais remota, que eu lembro, eu era a irmã mais nova, minha irmã na escola, eu sozinha em casa, de criança, ouvindo música. Eram aqueles disquinhos da série Disquinho, do João de Barro [compositor], com arranjo do Radamés Gnattali [arranjador, compositor e instrumentista], e eu fascinada com aqueles arranjos, ouvindo aquilo. Às vezes de tanto tocar, o disco arranhava. Eu digo que a origem da minha composição com compassos alternados vem daí: o disco arranhava e eu não tirava, eu ficava assim: “pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou/ pela estrada afora, eu vou” [cantarola simulando o arranhão do vinil, risos dos chororrepórteres]. E o barato era eu conseguir cantar junto, por que aquilo é uma conta complicada em termos de fração do tempo. Até minha mãe vir lá de dentro [imita um grito]: “Ignez Eleonora, tira esse negócio!”

Você tem essa lembrança a partir de que idade? Muito pequena. Eu fui pra escola já com cinco anos, à beira dos seis. É essa fase de quatro a cinco anos. Eu fui pra escola em 1960, com cinco anos, no mesmo ano eu fiz seis.

Que discos teu pai tinha? O que a gente ouvia lá. Meu pai tinha de tudo. A gente ouvia muito o Bolero de Ravel, tomando o uisquinho dele lá, ele regia junto, se empolgava. E eu também punha, sem ele mesmo, só para ouvir. Eu queria ouvir aquela coisa que fascinava meu pai e de certa forma passou a me fascinar também. Se ouvia muita música erudita e um pouco de jazz também, ele ouvia bastante.

Teus filhos são todos músicos? Eles vivem de música ou a música é um hobby? Não tem nenhuma ovelha negra na família [risos dos chororrepórteres e da entrevistada]. A gente sobrevive de música. Quem faz música instrumental, sobrevive de música, no caso, eu e o Matias. As minhas filhas são cantoras, basicamente. A Mariana toca cavaco, toca violão, desengoma um piano direitinho, mas ela é cantora, inegavelmente a força maior de expressão dela é o canto. A Alice [Passos] também. Alice toca flauta, toca na Orquestra Corações Futuristas do Egberto Gismonti [compositor e multi-instrumentista].

Os discos do Choro na Feira [grupo integrado pela entrevistada] são independentes. O primeiro [Na cadência do samba, 2000] foi feito sob encomenda. Fale um pouco desse processo. O rumo que meu grupo de choro tomou é o seguinte: a gente grava, a gente vende, o dinheiro que a gente apura com a nossa carreira discográfica é para alimentar nossa carreira discográfica. Ninguém bota dinheiro no bolso. É completamente independente, salvo o primeiro disco, esse que estava tocando aqui [Léo havia tocado o disco instantes antes do início da entrevista], ele foi feito sob encomenda para que fizesse parte do livro do Haroldo Costa, Na cadência do samba, que é mais ou menos um álbum fotográfico comentado, de músicas, de músicos, dos 100 anos do samba. Foi feito por décadas, um samba de cada década. Tudo foi decisão deles, os arranjos nossos, a produção nossa, eles pagaram estúdio, convidados, direitos autorais, é um disco caro, as cópias, nos deram mil cópias, e nós somos donos do disco.

Então ele está esgotado, mas vocês podem fazer novas edições. Podemos. Acontece que ele é muito caro, por conta dos direitos autorais. A gente vendeu esses mil discos e a partir daí fizemos o segundo [Choro na Feira, 2003], com o dinheiro do segundo fizemos o terceiro [Maxixes, pitombas e afins, 2005]. A partir do segundo ele tomou um rumo bastante autoral. Este último [Pedra riscada, 2010], as músicas são todas de compositores do grupo, tirando uma faixa do Pedro Paes, um clarinetista maravilhoso.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Quando e como é que você começou a se interessar pela música, a praticá-la efetivamente? Eu comecei a tocar violão na casa dos vizinhos, eu não tinha violão. Como eu estudava piano, mas também não tinha piano em casa para treinar. E violão era uma coisa mais portátil, eu fiquei brincando, comecei a aprender umas coisas. Meu pai quando se deu conta que eu estava tocando, no primeiro Natal, me deu um violão, eu devia ter de 10 para 11 anos. Aí ele me colocou logo para ter aula com Ubiratan [Sousa, músico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], meu primeiro professor de violão. Ele me dava um repertório meio erudito, sempre mais para o solo, uma aproximação mais técnica. É uma coisa que eu guardo hoje em dia. Eu não tenho aula de instrumentista, eu não tenho pendor. Eu amo tocar todos os instrumentos que eu já toquei e toco, mas eu não tenho espírito, aquela disciplina de estudar todo dia. Aquilo que Ubiratan me deu, misturado um pouco, quando eu fui pro Rio, com o que [o violonista] Jodacil Damasceno me deu, me deram a base técnica. Eu saí daqui com 16 anos e já me encontrava e reunia, nós nos reuníamos muito. Quem? [Os compositores] Sérgio Habibe, Giordano Mochel.

Cesar Teixeira? Cesar não. Cesar eu fui conhecer no Rio. Foi ele quem me apresentou o cavaquinho. Eu tocava flauta, que quem me apresentou foi o Sérgio, e eu comecei a tocar flauta, eu era violonista, cantava e tocava violão. [O compositor] Ronaldo Mota também, era uma turminha que se reunia, ouvia música, eu ficava encantada com as músicas deles, todos já compunham. Eu era mascote total. Popó [o compositor Claudio Valente]…

Tua saída com 16 anos foi para o Rio já? Ela deveu-se à música ou foi por outra razão? Essa saída foi por que o meu pai aposentou-se aqui e já há alguns anos era convidado pelo João Calmon, um amigo dele, para ir trabalhar no Rio, no serviço jurídico dos Diários Associados [rede de meios de comunicação de propriedade de Assis Chateaubriand]. Mas meu pai muito ligado à faculdade [de Direito da Universidade Federal do Maranhão], foi secretário da faculdade e aposentou-se como diretor. Aí o João disse: “agora, Fernando, vens ou não vens?” Minha mãe quis ir, se ela não quisesse não teríamos ido, ficou botando pilha, e nós aceitamos. Fomos, portanto, por questões de trabalho do meu pai, que resolveu mudar para lá com minha mãe. Meu pai foi seis meses antes, para ajeitar o terreno, e nós fomos depois.

Desde então você está no Rio? Desde então. Falando no Monte Castelo, a minha maior influência foram os tambores. Em algum lugar ali que eu não sei precisar onde, tinha uma casa de mina, onde também tocavam outros tambores festeiros. Todas as noites eu dormia ouvindo o tambor. Tanto que a primeira vez que eu dormi no Rio, fui de férias, devia ter uns sete anos, eu deitei para dormir e ouvi o tambor. Ecoava dentro da minha cabeça. Isso sim foi uma grande influência em toda a minha compreensão musical. Eu tenho uma compreensão de tambor que eu fui identificando depois, quando eu estive em festivais de música africana, com representantes de música de toda África, negra, muçulmana, vários tipos de música, a minha identificação foi muito forte.

Tua chegada ao Rio com 16 anos: como é que foi tua inserção no mundo musical do Rio de Janeiro? Nesse ano em que eu cheguei ao Rio, em 1971, a minha ligação foi com o Jodacil Damasceno. Eu fui imediatamente matriculada para ter aula particular na casa dele. E depois eu fiz um curso na Proarte, isso já em 1971, 72, eu já estava na PUC, entrei para Direito. Aí sim, foi meu primeiro contato com choro, apesar de Jodacil já me apresentar algumas coisas de choro ao violão. Eu tinha alguma técnica, então ele foi logo me aplicando esse repertório. Na Proarte eu fui aluna do Léo Soares, também um grande professor de música, tudo em curso de verão. Como eu já tocava cavaquinho, fui convidada a integrar grupos de choro que se formaram lá, na Proarte. E o cavaquinho se deve ao Cesar, que veio com o pessoal do Laborarte, acho, e levou o cavaquinho. E numa festa eu peguei o cavaquinho e comecei a entender a afinação, rapidamente entendi e comecei. Aquele instrumento no meu colo parecia um neném e eu não queria mais largar.

Parece que é o instrumento pelo qual você é mais reconhecida. É. Na verdade, os anos foram moldando a minha prática instrumental. Todo o tempo que eu trabalhei com Mário Lago, eu toquei violão. Tocava cavaco também e flauta, mas basicamente violão, fui diretora dele. Toquei violão algum tempo com o Zeca [Pagodinho, cantor], toquei com a Jovelina [Pérola Negra, cantora], toquei com Dominguinhos do Estácio [intérprete de sambas-enredo da Estácio de Sá, escola de samba carioca]. Aí passaram a me requisitar mais pro cavaco, a Cristina Buarque [cantora] e o Mauro Duarte [compositor], toquei muitos anos com eles. Tocava cavaco por que tinha o Paulão Sete Cordas no violão.

Como era a figura de Mário Lago, na convivência artística? [Fã de Mário Lago, Léo é convidado pelos chororrepórteres a sentar e ouvir o depoimento da entrevistada sobre o ídolo] Mário era uma figura extraordinária. Tinha meia dúzia de pessoas naquele Teatro Arthur Azevedo [ela comenta um show de Mário Lago em São Luís, em 1998, que Léo confessou lamentar ter perdido].

Você estava no palco? Estava. Eu dirigia o show dele nessa época. Eu tinha feito o roteiro e os arranjos e ele a direção musical. O Mário ocupou dentro do meu imaginário a figura do pai. A figura física, um ser conversador, contador de histórias, bem humorado. Não tinha cansaço pra ele. Um homem já com 80 e poucos anos, viajava como estudante, mochileiro [risos]. Ia pros jantares, só não ia pras noitadas depois, mas até o jantar depois do show ele acompanhava. Era uma pessoa sensacional. Pra você ter uma ideia de um ser coerente com as convicções dele, a gente ganhava um, ele ganhava dois. Era essa a proporção. Ele escrevia, toda a parte de texto era dele, e isso era tudo muito aberto. Às vezes ele recebia o dinheiro e dava pra gente contar. Às vezes o filho dele não tava, quem fazia isso era o Mariozinho, o filho tinha ido fazer qualquer coisa, ele dizia: “contem aí que eu não tenho saco de contar dinheiro. Divide o meu pacote, divide o de vocês”, era uma pessoa sensacional. Tinha uma característica dele que eu adorava, que era o seguinte: a ligação dele, como autor de teatro, teatro de revista, fez muita televisão, e como tinha trabalhado muito com música para teatro, depois de cada show ele dizia: “Ignez, aquela entrada demorou um pouco”, e eu dizia “é isso mesmo, aconteceu de uma coisa não estar no lugar, na hora de o menino pegar a percussão…”, ele cobrava muito isso, era um cara muito esperto. Às vezes a gente ia fazer um show num lugar e acontecia de pedirem para ele fazer um comercial, sei lá, sabonete, uma coisa dessas. Ele sempre precisando de dinheiro, velho comunista sempre precisa de dinheiro [risos], ele topava fazer, mas chegava na hora, ele dirigia o comercial, ele mudava o texto [risos dos chororrepórteres], ficava ensinando todo mundo como fazer. “Não, isso aqui tá uma porcaria, não se pode dizer isso”. Ele era uma figura adorável, tenho muita saudade dele.

Maxixes, pitombas e afins. Capa. Reprodução

Em que grupos e projetos musicais você se envolveu? Originalmente, se eu tivesse um temperamento de pensar mais em meu potencial musical e a minha vontade, eu teria sido compositora. Teria ido pra UFBA, que era meu projeto inicial quando eu larguei Direito. Fazer composição lá. Lá estavam [o compositor e regente] Lindembergue Cardoso, [o musicólogo e professor alemão Hans Joachim] Koellreuter, [o violoncelista e professor suíço Anton Walter] Smetak, o pessoal de música eletroacústica, que era uma coisa que me interessava muito. Mas não lamento nada, o que aconteceu, aconteceu. Não fui, não tive como, não poderia trabalhar e fazer um curso de composição, que era um curso pesado. Acabei ficando no Rio, fazendo a Fifierj do Instituto Villa-Lobos, que pertencia à Fifierj, hoje pertence à Unirio. Abandonando o curso, larguei no segundo ano, larguei grávida da minha filha mais velha [Mariana Bernardes], e fazendo cursos. Aqui e ali, estudei particular com Koelreutter, estudei harmonia e contraponto na casa dele, estudei um pouco com João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], antes, estudei teoria e solfejo, e fui fazendo um currículo meu. E trabalhando. Já tocava choro, e nesse ano, 1975, 76, formamos o primeiro grupo de choro, com volume de trabalho, chamava Éramos Felizes. Era Zé Renato, Juca Filho, que hoje em dia faz mais textos de programas de humor, Marco Aurélio, bandolinista, Marcelo Bernardes [clarinetista e saxofonista], eu, e o Petchó, que era cartunista paulista, já morreu, meu primeiro pandeirista. Esse grupo percorreu grande parte das praças do subúrbio, tínhamos um contrato com a então Secretaria de Esportes e Lazer do Rio de Janeiro. A gente fazia a primeira ou última sexta-feira do mês, pegava um trem, num ponto qualquer de estação, a secretaria montava a estrutura de palco e som, e nós tocávamos choro ali. Tínhamos alguns contratos, viagens, e esse mesmo grupo, essas mesmas pessoas, tinham outro grupo que chamava Cantares, e aí no Cantares a gente tocava as composições de Zé Renato, do Juca. A gente ouviu muita coisa, tocava muito choro. Eu me lembro dum choro que a gente aprendeu com um senhor que vendia amendoim perto da estação, da parada de ônibus onde a gente ia pegar ônibus pra Usina, foi onde a Mariana nasceu. Depois, num desses discos do Choro na Feira [Maxixes, pitombas e afins] a gente gravou esse choro [Chorinho do Zé Feio], que não era do homem do amendoim: ele mostrou pra gente no lá-lá-ia, o Marcelo tirou no clarinete e a gente nunca esqueceu esse choro. Era dum amigo dele, chamado Zé Feio [José Ignácio de Oliveira]. Ele era de Minas, esse vendedor de amendoim, e o Zé Feio também era de Minas. A gente conseguiu chegar na família do Zé Feio, pra pedir autorização pra gravar. Nem a família conhecia, ele era alcoólatra, a família era contra o fato de ele ser músico, então ele escondia a produção. Foi a primeira música do Zé Feio gravada, foi muito interessante. A música instrumental era para nós a maior expressão. Eu me considero bem mais da música instrumental que da canção. Hermeto [Pascoal, multi-instrumentista] era um grande mestre. Milton [Nascimento, cantor, compositor e multi-instrumentista] foi outra grande influência, como cantor, mas também como músico maravilhoso que é. A vida me levou pra junto dele, acabei fazendo arranjo pra música dele.

Você começou a estudar e tocar ainda na infância. A partir de que momento você percebeu que a música tomaria um rumo profissional? O piano eu não diria que foi algo somente para contribuir na educação da moça. Eu não segui no piano por que minha mãe decidiu não comprar o instrumento, por que era um móvel muito grande para a sala. Eu tenho paixão por piano, eu sempre tive piano, eu ganhei um piano na gravidez da Mariana, e desde então eu tenho piano em casa, todos tocam piano, Matias tem uma boa técnica. O que acontece: enquanto eu morava aqui, eu não vislumbrava uma carreira profissional. Eu nunca estive com pessoas que fossem músicos profissionais, que pra mim fossem uma referência. Eu acho que não existia, na época. Existiam músicos de banda, tinha baile, músicos de baile, o pessoal da Escola Técnica [hoje Ifma], que era ali pertinho. Pra mim a música não era uma profissão, era uma coisa que se fazia, não tinha faculdade de música, aliás, recentemente é que aqui foi ter. Não tinha a Escola de Música. Tinha a Scam [Sociedade de Cultura Artística do Maranhão]. Isso começou a se desenhar pra mim, na verdade, quando entrei na PUC, pra fazer Direito, e fui para o grupo universitário de música, um grupo de música que, digamos, dava uma feição permitida aos movimentos estudantis. A gente tocava coisas da Violeta Parra, Mercedes Sosa. Eu conheci músicos e fui me inteirando da possibilidade da música profissional. Eu já estava há quatro anos, 1975 foi meu ano limite, estava querendo chutar o balde e chutei. Abandonei o curso de Direito, para desespero de meu pobre pai.

Com o abandono do curso de Direito você nunca teve outra profissão na vida que não fosse a música? Não, nunca. A partir daí, eu queria ir pra UFBA, não fui, não tinha condições, não tinha mais nenhum apoio familiar. Entrei no IVL [o Instituto Villa-Lobos], larguei o IVL, que era dirigido por um médico general que fazia arbitrariedades ali naquele curso de música. Saí grávida e voltei grávida: fiz vestibular novamente com a Mariana.

E o Choro na Feira? O grupo surge por conta dos saraus na feira livre? Depois do Éramos Felizes eu sempre estive perto do choro, tocando aqui e acolá, mas não tive mais nenhum grupo de choro. Perfeitamente: eu morava em Laranjeiras e tinha uma feira, onde eu frequentemente ia, onde ficava o cavaquinhista do [conjunto] Galo Preto até hoje, Alexandre [Paiva]: ele era produtor de vegetais hidropônicos, ele e a mulher. Um belo dia ele disse pra mim: “Ignez, toca pra esse rapaz aí! Ele está me perturbando, querendo que eu toque pra ele e eu não posso tocar agora” Era um menino que entregava sacolas pra ele, e eu fiquei tocando, e me divertindo com o cavaquinho, com o menino, com as pessoas que passavam. Uns riam, outros paravam meio assustados. A gente já tinha tido essa experiência, de tocar nas praças, mas com a estrutura do Estado. De certa maneira isso afasta as pessoas, impõe uma distância, o cidadão desconfia por princípio, tem sempre alguém ganhando muito mais do que o que está sendo feito. A gente tinha tido uma iniciativa, em outras épocas, com o [violonista sete cordas] Raphael Rabello, Antonio Santana, de tocar no Largo do Machado, sem estrutura nenhuma. Fizemos isso umas duas vezes, mas não foi adiante. Aí eu resolvi chamar o Bilinho [o violonista Domingos Teixeira], a falecida Tina Pereira, tocava flauta, e ia chamar a Mariana, minha filha, tocava pandeiro bem, e eu chamei a Clarice. Depois no programa do Altamiro Carrilho [flautista] na Rádio MEC, eu fui saber pelo rádio, ao vivo, que ela, quando foi chamada, pensou que tivesse dinheiro nisso [risos], e não tinha nada. Aí passamos a ir toda semana, esses quatro. Depois foram chegando o Marcelo, que mora ali em Laranjeiras, o Franklin [da Flauta], pai do Matias, também chegou, o Matias foi o último que chegou no Choro na Feira. E a partir daí o produtor encomendou o disco, pro livro Na cadência do samba, e tudo começou. Nesse primeiro o Matias não gravou, quem gravou foi o Sérgio Barroso, um baixista super conhecido, da bossa nova.

Esse projeto da feira acabou? Nós ficamos de 2000 a 2010, 10 anos tocando todo sábado na feira. Aí isso foi passando por uma transformação. Aquilo não é uma praça exatamente, é uma ilha urbana, tecnicamente. Juntou um monte de gente. Juntando muita gente sempre aparece político e comerciante. Apareceram os vendilhões do templo [risos] e a música foi ficando assim [em segundo plano]. O pessoal que ia, Elton Medeiros [compositor], Cristina [Buarque], que eram frequentadores habituais, de todo sábado, foram embora, por que eles não conseguiam mais ouvir. As pessoas bebendo se exaltavam, falavam mais alto. O Elton Medeiros falou que nós éramos a única sala de concerto a céu aberto que ele tinha conhecido.

Cantar, a sagrada vocação de Renato Braz

Passarim cosmopolita, Renato Braz solta o canto no Chorinhos e Chorões

Extremamente simpático e bastante modesto – “eu tou tocando errado aqui”, desculpou-se ao interpretar, em off, o Cigarro de paia, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas, sucesso de Luiz Gonzaga –, Renato Braz esteve em São Luís sábado passado (20), para um show reservado. Era a terceira edição do projeto Ponta do Bonfim – Música e Por do Sol, organizado pelos amigos Eden do Carmo, Aristides Lobão e Lúcio. Cabelos ao vento, ele trajava calça xadrez e uma camisa com uma estampa de Amarcord, de Federico Felini. Emoldurado pela bela paisagem, Renato Braz fez um show onírico qual o cinema do italiano: vê-lo e ouvi-lo era também a realização de um sonho.

Além do paulista, também desfilaram talentos ao palco Zeca do Cavaco e João Neto Trio (com o próprio na flauta, João Eudes, violão sete cordas, e Vanderson, percussão), Milla Camões (acompanhada de Celson Mendes ao violão, Jeff Soares, contrabaixo e Fleming, bateria) e Sérgio Habibe (com Edinho Bastos, guitarra, e Rui Mário, sanfona). Aposto que alguns dos poucos mas fiéis leitores estão indignados de só estarem sabendo disso agora.

Renato Braz passeou pelo repertório de seus discos e cantou coisas que gosta, lembrando os centenários Wilson Batista e Dorival Caymmi, elogiando ainda os maranhenses que o antecederam no palco. Celson Mendes e Marconi Rezende subiram ao palco para acompanhar-lhe, em participações especiais. Puro deleite.

Aproveitando a passagem pela ilha, o músico compareceu aos estúdios da Rádio Universidade FM (106,9MHz), e concedeu uma entrevista a Ricarte Almeida Santos e este blogueiro, imensa honra – como disse o apresentador, “fazer Chorinhos e Chorões tem seus privilégios”. O bate papo musical vai ao ar amanhã (28) domingo que vem (4/8), às 9h.

Renato Braz aponta influências – “o primeiro grande artista que eu quis ser era o Tim Maia, é minha primeira referência como cantor” –, fala da carreira (sete discos lançados desde 1996, incluindo Por toda a vida, inteiramente dedicado ao repertório dos irmãos paulistas Jean e Paulo Garfunkel, e Papo de Passarim, dividido com Zé Renato, ex-Boca Livre, outro ídolo), da relação com a música maranhense (a amizade com Rita Ribeiro e Zeca Baleiro, de quem gravou Bambayuque no disco de estreia, e Flávia Bittencourt, em cuja estreia cantou em Flor do Mal, de Cesar Teixeira), discos fundamentais para sua formação, como Brazilian Serenata, de Dori Caymmi, e Urubu, de Tom Jobim, as novas tecnologias e a feitura de seus discos, hoje independentes – “só canto aquilo que me emociona”, rodas de choro e, em tom brincalhão, da amizade com o casal-música Paulo César Pinheiro e Luciana Rabello.

Em meio a tudo isso, música. Muita música, de qualidade. Além de faixas de seus discos, surpresas, como interpretação sua ao violão para Só louco, de Dorival Caymmi (que completaria 100 anos em 2014), além de uma inédita de Fred Martins – Depressa a vida passa, como depressa passou esse Chorinhos e Chorões. Mais não digo para não estragar a surpresa – ou já o fiz?. Nada, este texto é nada perto do programa.

Errata: os poucos mas fiéis leitores deste blogue e os muitos e fiéis ouvintes do Chorinhos e Chorões terão que esperar mais um bocadinho para ouvir o programa acima anunciado apressadamente. Amanhã (28), aproveitando sua passagem pela ilha, Ricarte Almeida Santos conversa com o professor Marco César.

Para Jobim, com muita beleza e alguma burocracia

Sobre show da turnê do Prêmio da Música Brasileira, ontem (18), no TAA, com Adriana Calcanhotto, Alexandra Nicolas, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan

No tom do Tom, a música brasileira em comunhão

Um show como o apresentado ontem (18) no Teatro Arthur Azevedo, da turnê da 24ª. edição do Prêmio da Música Brasileira, não tem como não ser burocrático. No seguinte aspecto: um bom punhado de cantores e cantoras, juntos, celebrando a obra de um compositor, no caso, o “maestro soberano”, como bem compôs Chico Buarque, seu parceiro.

Digo isso por conhecer razoavelmente os trabalhos dos artistas que se apresentaram em São Luís ontem, Adriana Calcanhotto, Zé Renato, Roberta Sá, Alexandra Nicolas, Zélia Duncan e João Bosco, pela ordem de entrada no palco, e saber que, Tom Jobim, o homenageado desta edição, mesmo sendo uma referência fundamental em seus trabalhos, está em suas obras, mas não de maneira direta.

A meia dúzia conhece, admira e se inspira no legado jobiniano, embora não haja (ou haja poucas), por exemplo, regravações de Tom Jobim em seus discos (a estreia de João Bosco em disco foi divida com ele, em 1972, em disco brinde dO Pasquim, mas o então estreante interpretava Agnus sei, parceria sua com Aldir Blanc). Não que isso prejudique o show, embora lhes ajudassem os teleprompteres e o repertório óbvio. Ok, é difícil falar em “lado b” em se tratando de Jobim: Chega de saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Luiza (Tom Jobim), Águas de Março, (Tom Jobim), Lígia (Tom Jobim), Insensatez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Eu sei que vou te amar (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), Estrada do sol (Tom Jobim e Dolores Duran), Eu te amo (Tom Jobim e Chico Buarque) e Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), entre outras.

É claro que cada artista ensaiou e passou som acompanhado da superbanda que tinha como maestro Jacques Morelenbaum (violoncelo e arranjos), mas, fora o elemento surpresa, tudo transcorre dentro do esperado (e não estou falando em possíveis falhas técnicas, pois estas não foram convidadas ontem). Isto é, o mestre de cerimônias, o ator Murilo Rosa, chama ao palco a primeira artista, que sobe ao palco e desfila suas quatro músicas, depois volta o ator, que chama o próximo, que canta mais quatro músicas e assim sucessivamente.

Há momentos sublimes, seja por exemplo a participação de Zé Renato, de longe a melhor, em minha modesta opinião, seja quando a banda investia no solo de algum músico, todos extremamente hábeis, dando vazão à porção jazz bossa-novista.

Convidada local, Alexandra Nicolas interpretou Wave (Tom Jobim), demonstrando maturidade: cantou, dançou e circulou com graça entre os músicos esbanjando simpatia, em pé de igualdade com os demais. Vale (sem trocadilhos) o registro, já que ela não foi acometida de qualquer possível nervosismo (ou, se foi, bem soube disfarçá-lo) por, de repente, estar diante de artistas de sua admiração, consagrados nacionalmente etc.

Ainda sobre Alexandra Nicolas, cabem destacar dois pontos: o meio vácuo em que lhe deixou Murilo Rosa, provavelmente por desconhecimento ou despreparo, já que aos demais artistas reservou um cumprimento, incluindo, por vezes, beijos nas mãos das damas, e o sambalançar na medida (Roberta Sá, por exemplo, exagerou ao tentar sacudir o vestido, embora tenha sido simpática ao cumprimentar São Luís).

Exceção feita a vídeos exibidos na abertura, também não houve grandes falações sobre a Vale, que promove o evento (com dinheiro público, captado através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura) que circulará por algumas cidades brasileiras, sobretudo em áreas afetadas por sua atividade mineradora milionária devastadora.

Momento de rara beleza e descontração foi o dueto de João Bosco e Zé Renato, quase ao fim do espetáculo, em Tereza da Praia (Tom Jobim e Billy Blanco), uma das canções mais graciosas da história da música brasileira. O show terminou com todos juntos, incluindo o neste momento dispensável Murilo Rosa, cantando Se todos fossem iguais a você (Tom Jobim e Vinicius de Moraes). Certamente não se referiam à porção nada pequena do público que não assistiu o espetáculo, preferindo passá-lo inteiro filmando ou fotografando com seus ipads, tablets, iphones, smartphones e que tais.

Alexandra Nicolas cantará em homenagem a Tom Jobim em São Luís

Festejos, seu disco de estreia, foi pré-selecionado para a 24ª. edição do certame. Em São Luís o autor de Corcovado será interpretado ainda por Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan

“Vou te contar”, semana que vem, mais precisamente terça-feira (18), é o show do Prêmio da Música Brasileira, o mesmo criado em 1987 com o nome de Prêmio Sharp, hoje patrocinado pela mineradora Vale, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

“E cada verso meu será pra te dizer” que o Teatro Arthur Azevedo terá como atrações, sob regência do maestro Jacques Morelenbaum, os seguintes artistas, que farão releituras de obras do “maestro soberano”: Adriana Calcanhotto, João Bosco, Roberta Sá, Zé Renato e Zélia Duncan. A convidada local do evento que terá o ator Murilo Rosa como mestre de cerimônias é a cantora Alexandra Nicolas.

“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”: para ela, “as músicas do Tom tem tom e cheiro carioca. É puro amor e por tabela uma reverência à cidade mais linda do mundo”.

“Te ligo afobada e deixo confissões no gravador”. Para Alexandra Nicolas a pré-seleção de Festejos, seu disco de estreia, ao Prêmio da Música Brasileira, foi uma grande surpresa – o disco não ficou entre os finalistas, mas a indicação, entre tantos álbuns ouvidos pelo júri, teve sabor de vitória. “Foi uma surpresa muito grande. Nem acreditei quando recebi o e-mail de minha diretora Luciana Rabello com a notícia com o link da seleção, “olha Festejos aí!”. O coração foi na boca!”, revela.

“Vem ouvir esse segredo escondido num choro canção”: a música que vai cantar, escolhida pela produção do espetáculo, não revela. Indagada se o convite para o show em São Luís teve a ver com a pré-seleção de seu trabalho, ela diz acreditar que sim. “Uma feliz coincidência o disco de uma maranhense selecionado e a turnê passando por aqui. Acho que foi meu prêmio pela pré-seleção”.

“Tristeza não tem fim, felicidade sim”, é o que muita gente vai pensar quando acabar o espetáculo, que tem tudo para ser inesquecível. O show acontece às 21h, exclusivamente para convidados.