Samba de segunda

[dedico este post aos amigos Victor Hugo, o dj que me deu a dica, e Nielsen Furtado, pelo reencontro e companhia; e a Zé Pivó, imortal]

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

​É segunda-feira, passa das 21h, e no canteiro central da Av. Dep. Mauro Bezerra, vulgo Canal do Caratatiua, uma roda de samba segue a toda. São nove instrumentistas, entre os quais três banjos, únicos instrumentos harmônicos em meio ao naipe de percussão formado por tantã, repique, pandeiro e reco-reco, entre outros. Sem amplificação, tudo direto do gogó, a plenos pulmões. Ao longo da noite os músicos se revezam em um ambiente em que despontam majoritariamente camisas do Sampaio Corrêa (um dos banjos é ornado​​ com as cores do tricolor), mas onde se veem também camisas do Flamengo e do Fluminense. O proprietário do bar traja uma do Grêmio.

Estamos no Samba do Peixe, que acontece semanalmente, tocado pelo mesmo grupo que religiosamente inicia a roda de samba pontualmente às 14h30 na Feira da Praia Grande, aos sábados.

O céu escuro anunciava chuva, o que não diminuiu a disposição do bom público presente. O repertório passeava por temas de Zeca Pagodinho, João Nogueira, Alcides Malandro Histórico da Portela, Monarco, Martinho da Vila e Dona Ivone Lara, entre outros bambas.

O endereço da sede do samba fica em frente à tenda armada no canteiro central: o Bar do Joka, cujo nome está estampado em uma placa de publicidade de cerveja, onde abaixo se lê num toldo: Samba do Peixe. Chama-me a atenção a inscrição em letras miúdas, ao lado: “Pivó eterno”, aludindo ao saudoso Zé Pivó, integrante da ala de compositores de agremiações carnavalescas como a escola de samba Turma de Mangueira, do bairro do João Paulo, ali próximo, onde morava, e do bloco Fuzileiros da Fuzarca, da Madre Deus.

É ele o autor do clássico samba-enredo que festejou o cinquentenário da verde e rosa da ilha: “50 anos faz que a primeira escola desfilou”. Sobre o transitar com desenvoltura entre o João Paulo e a Madre Deus, diz a letra de Sandália de prata, um de seus maiores sucessos: “mas se quiser ficar em casa/ o problema é seu/ eu sou joão-paulino/ mas vou brincar na Madre Deus”.

A foto da foto, por Zema Ribeiro
A foto da foto, por Zema Ribeiro

Entre uma cerveja e outra e um delicioso tira-gosto de tambaqui assado na brasa (por honestíssimos 12 reais) e após ter ido pegar mais uma no balcão (apesar de o local dispor de garçons, inclusive o proprietário), avisto um painel à esquerda da entrada, onde se veem vários retratos de Zé Pivó. O primeiro, em especial, me fisga, impedindo-me até de examinar melhor os outros: o sambista está de pé, num palco, ladeado por Joãozinho Ribeiro (foi num show dele no João Paulo, no começo dos anos 2000, que vi Zé Pivó ao vivo pela primeira vez), Josias Sobrinho (que completou 66 anos ontem) e Lena Machado (a cujo show Divino Espírito Samba o convidado Zé Pivó faltou há alguns anos).

Indago a Joka se ele tem algum parentesco com Pivó. Ele ri e me aponta na parede o retrato de um casal e para abaixo dele. “Veja a semelhança”, diz, e só então me espanto: Joka é a cara do pai. Em seguida me aponta o retrato que tinha prendido minha atenção, de um réveillon do Governo do Maranhão: “essa foto aqui é do último show dele, ele morreu uns dois meses depois”.

Seu legado permanece vivo, a julgar pela disposição de músicos e plateia que dividem o calçadão nas noites de samba no Bar do Joka, segunda após segunda.

Reverenciando grandes mestres do gênero, Divino Espírito Samba marca volta de Lena Machado aos palcos

[release]

Show gratuito acontece na Praia Grande e terá participações de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

No melhor espírito “eu quero é botar meu bloco na rua”, a cantora Lena Machado volta aos palcos com o show Divino Espírito Samba. A apresentação, gratuita, acontece no Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), na Praia Grande, no próximo dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h. A produção é da Negro Axé.

Recentemente Lena Machado participou do show de lançamento de Ninguém é melhor do que eu, disco de estreia da compositora Patativa, do réveillon, como convidada do grupo Afrôs, e da posse do governador Flávio Dino, mas há algum tempo o fã clube vinha reclamando um show completamente seu.

“O show é uma espécie de antologia com o melhor do samba brasileiro, o que inclui autores locais, que não devemos nada a ninguém”, exalta a cantora, que volta aos palcos em grande estilo. Nenhum dos 18 sambas do repertório já foi gravado por Lena nos dois discos que lançou: Canção de vida (2006) e Samba de minha aldeia (2009). Com Quem roubou minha aquarela?, de Cesar Teixeira, ela participou da Exposamba, concurso voltado ao gênero em nível nacional. “O repertório não deixa de ser também uma espécie de teste para o que estamos pensando para o próximo disco”, revela, ainda sem previsão de lançamento.

Além de Cesar Teixeira, fornecem obras primas para sua privilegiada voz Antonio Vieira, Batatinha, Benito di Paula, Bruno Batista, Candeia, Chico Buarque, Ismael Silva, Luzian Filho, Paletó, Patativa, Paulo César Pinheiro, Roge Fernandes e Roque Ferreira.

A cantora contará ainda com as participações especiais de Patativa (em cujo disco fez vocais e de quem gravou Colher de chá em seu segundo trabalho), Luzian Filho (do grupo Feijoada Completa) e Zé Pivó (compositor da Turma de Mangueira, escola de samba do bairro do João Paulo, e do bloco carnavalesco madredivino Fuzileiros da Fuzarca).

“Para mim é uma honra, eu, aprendiz, dividir o palco com estes mestres. É beber na fonte de nosso samba genuíno, legítimo, autêntico”, derrete-se a artista. Sobre o nome do show ela conta: “é impossível negar o samba como uma das autênticas expressões de nossa cultura popular, essa nossa batida diferente. O nome une dois aspectos de nossa tradição, e dessa fusão de duas tradições surge algo moderno, daí Divino Espírito Samba”. Além de tudo, soa bem. Como um bom samba.

Lena Machado será acompanhada por Andrezinho (percussão), Fofo (bateria), João Eudes (violão sete cordas), João Paulo Seixas (percussão), Lee Fan (flauta), Rafael Bruno (contrabaixo), Rui Mário (sanfona), Wanderson Silva (percussão) e Wendell Cosme (bandolim, cavaquinho e direção musical). Uma constelação de craques para ninguém botar defeito.

Serviço

O quê: show Divino Espírito Samba.
Quem: a cantora Lena Machado, com participações especiais de Patativa, Zé Pivó e Luzian Filho.
Quando: dia 15 de janeiro (quinta-feira), às 20h.
Onde: Anfiteatro Beto Bittencourt (Ágora do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho), Praia Grande.
Quanto: grátis.
Maiores informações: (98) 981920200 e 981220009.