Wado, lírico e político

Precariado. Capa. Reprodução

 

Um dos pilares da identidade musical brasileira, o samba é elemento central em Precariado [2018], disco novo do catarinense radicado alagoano Wado, o 10º. álbum de sua carreira, com 11 faixas inéditas, sucessor de Ivete [2016], disco em que flertava com a axé music. Não que seja um disco de samba, pura e simplesmente, ou que o samba lhe caiba como rótulo.

Mas samba com a pegada moderna e flerte com a eletrônica que pauta há algum tempo a sonoridade de Wado, que junta pontas de fi(li)ações que vão de Dorival Caymmi e Novos Baianos a Radiohead e Michael Jackson, entre outros, no campo da música.

No campo político, a principal referência é Noam Chomsky, filósofo e linguista norte-americano de cuja obra Wado pesca o título do disco: segundo o teórico, “precariado”, soma de precário e proletariado, é aquilo produzido no terceiro mundo com mão de obra barata dos trabalhadores em condições precárias para o consumo nos países desenvolvidos, algo evocado há 20 anos por Tom Zé – outra fi(li)ação do novelo de Wado –, em Com defeito de fabricação [1998].

Wado continua afiado e antenado, suas músicas combinando a dança e a reflexão, lírico e político. “É no raso que as águas se agitam”, diz a letra de Correntes comprimidas, com um violão puxado à bossa. “O esgoto deixou a grama verdinha/ apesar de sua podridão”, ironiza em A grama do esgoto, que abre o disco.

Precariado é disco agregador, que soma participações especiais – Kassin (em A grama do esgoto), Peartree e Tuyo (em Janelas), Baleia (em Bailar dos barcos), Morfina (em Roupa), Momo (em Tudo salta e Correntes comprimidas), Figueroas (em Quem dera) e Teago Oliveira (em Onda permanente) – a músicos que já estão na estrada com Wado há bastante tempo: Vitor Peixoto (guitarra, violão de nylon e voz), Dinho Zampier (teclados e voz), Igor Peixoto (baixo, guitarras, voz, violão e 909) e Rodrigo Sarmento “Peixe” (bateria, percussão e 909).

Com 17 anos de carreira, iniciada com O manifesto da arte periférica [2001], o Precariado de Wado mantém a sofisticação que marca seus trabalhos. O disco está disponível para download no site do artista, como toda sua discografia.

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Ouça Precariado:

Zeca, Baileiro

Há tempos digo e reafirmo: Zeca Baleiro é o maior trabalhador da música popular brasileira em atividade. Só este ano, já lançou o cd Era domingo, o dvd A viagem da família Zoró e o livro Quem tem medo de Curupira? [Companhia das Letrinhas, 2016, 80 p.; leia um trecho] – os dois últimos, respectivamente, videoclipes animados para 11 das 28 faixas do disco Zoró – Bichos esquisitos, que lançou há dois anos, e um livro com o texto da peça escrita para o grupo ludovicense de teatro amador Ganzola, no longínquo 1988, quando sequer tinha se mudado para São Paulo ou gravado seu disco de estreia [Por onde andará Stephen Fry?, 1997]. De temática infantil, dvd e livro foram lançados neste mês das crianças.

Justo no dia das crianças (12 de outubro) estreou, no Canal Brasil, sua mais nova empreitada: o programa Baile do Baleiro, que transita entre apresentações do maranhense com artistas convidados interpretando músicas autorais (dos convidados, no caso) ou alheias e os bastidores, em que aparecem o clima descontraído dos ensaios, os encontros de Zeca com as visitas e ligeiras entrevistas que ele faz com os mesmos, sobre suas referências e memórias musicais (e) afetivas.

O programa de tevê enquadra um formato de show que Baleiro apresenta há mais de uma década – quando passou pelo Maranhão teve como convidada a sambista Patativa, de quem ele viria a produzir Ninguém é melhor do que eu, seu disco de estreia.

Sem preconceito de estilo ou faixa etária participaram do primeiro programa a cantora Blubell e o soulman Hyldon, que fizeram bonito em músicas como o tango Bandido, dela, e as clássicas As dores do mundo e Na rua, na chuva, na fazenda (Casinha de sapê), ambas dele. Com ela, Baleiro dividiu Mamãe passou açúcar em mim (Wilson Simonal) – sozinho, ele abriu o programa com Segura esse samba, ogunhé (Osvaldo Nunes).

Cantadas sozinhas ou em dueto com o anfitrião, as músicas acabam convertendo-se em, além de festa, uma espécie de almanaque da música dançante (com inteligência) brasileira, a partir da revisitação a baús particulares e à grande tradição da canção popular, para usarmos termo parecido à justificativa da academia sueca em premiar Bob Dylan com o Nobel de Literatura – prêmio festejado tanto por Zeca Baleiro quanto pelo modesto repórter que ora lhes comenta seu novo programa.

Baile do Baleiro vai ao ar às quartas-feiras às 21h (horário de Brasília; hora local: 20h), com reprises aos sábados às 16h30 (no horário de verão) e às terças às 12h30 (idem). O segundo episódio, no próximo dia 19, terá como convidado Odair José. Em outros episódios Baleiro receberá ainda Edy Star, Guilherme Arantes, Jurema, Luiz Ayrão, Maria Alcina, Wado e Zizi Possi.

Veja o teaser do programa:

O axé político de Wado

Ivete. Capa. Reprodução
Ivete. Capa. Reprodução

 

Artista catarinense/alagoano remonta às origens do axé em Ivete, seu nono disco, recém lançado. Ele conversou com o blogue

Alagoano nascido em Santa Catarina Wado acaba de lançar o nono disco de sua carreira, descontada uma coletânea. O título, fina e ousada ironia, Ivete [independente, 2016]. Sim, uma homenagem a Ivete Sangalo, musa do axé, gênero a que o álbum presta uma espécie de tributo – ligeiro, o disco todo não tem 25 minutos.

São 15 anos de carreira desde a estreia com O manifesto da arte periférica [2001]. Ouvintes mais atentos – os que lhe acompanham a trajetória desde sempre – encontrarão links entre Ivete e Atlântico negro [2009], no som, na estética e no forte componente político dos álbuns – aliás, todos os álbuns de Wado estão disponíveis para download gratuito e legal em seu site.

Alabama (Wado e Thiago Silva), com seu “sangue nas folhas, sangue na raiz”, primeira música de trabalho do disco novo, remete ao açoite e linchamentos denunciados pelos versos de Abel Meeropol (sob o pseudônimo de Lewis Allan) em Strange fruit [1939] – o “fruto estranho” de que se apropria a letra, entre outros versos – gravada por, entre outras, Billie Holyday.

Acompanhado por Vitor Peixoto (guitarra e voz), Rodrigo Peixe (bateria), Dinho Zampier (teclado e programações), Bruno Rodrigues (contrabaixo), China Cunha (percussão) e Luciano Brandão (percussão), o axé de Wado (guitarra e voz) não soa estranho, isto é, não soa alheio ao conjunto de sua obra. Quer dizer: é axé, mas continua sendo Wado. Não tem “tira o pé do chão” ou “mexe a bunda para lá ou para cá”.

O axé de Wado, mesmo homenageando Ivete Sangalo no título do disco, remonta às origens do gênero, e seu tom de denúncia social, sobretudo contra o racismo e de exaltação à negritude, logo desvirtuado pela indústria, que fabricou ídolos tão descartáveis quanto despolitizados.

Em meio às 10 faixas do disco, releituras do hit Jesus é palestino (Carlinhos Brown, Gerônimo Santana e Alain Tavares), citada em meio a Terra santa (Jesus é palestino) (Wado, Junior Almeida e Dinho Zampier), Filhos de Gandhi, homenagem de Gilberto Gil ao bloco baiano de carnaval homônimo, e Um passo à frente (Moreno Veloso e Quito Ribeiro). As guitarras em profusão, desde o segundo inicial de Alabama, remetem ao Armandinho dos primeiros álbuns solo do também baiano Moraes Moreira, outra influência confessa.

Também desfilam parcerias por Ivete: Thiago Silva (Alabama e Sexo), Zeca Baleiro (em Mistério e Nós), Momo e Marcelo Camelo (em Você não vem, autores também de Samba de amor, sem Wado) e Beto Bryto (em Amanheceu). Sobre o disco, Wado conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

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Foto: Alzir Lima/HollyShot

Wado, você foi um dos primeiros artistas, de qualquer geração, a disponibilizar seus discos para download gratuito, logo no lançamento. O que te levou a esta postura e a mantê-la?
Acho que a música tem de chegar nas pessoas. Acho que até agora há pouco, antes das plataformas de streaming, essa era a melhor forma de chegar nas pessoas. Dinheiro ganhamos nos shows.

Como surgiu a ideia de um disco sobre o universo do axé?
É uma coisa que faz parte da minha formação, ouvi muito isso em Maceió no meio dos anos oitenta. É meio que um axe utópico de dentro da minha cabeça, adoro a estética, os temas.

E o título, Ivete?
Ele é um lance bem humorado mas respeitoso. É como se fosse uma tentativa de ser ela, sabendo que não chegaremos nunca lá. Como é um disco de axé e ela é um ícone, achei divertido e corajoso o título.

Sua música não soa nem pretende fácil como o axé, digamos, comercial. Reside aí uma fina ironia. É de propósito?
Acho que é verdadeiro em tentar ser, mas, também, verdadeiro em ser consonante com as minhas coisas. Ele é axé respeitando o gênero e sou eu também.

O repertório tem um forte componente político, inclusive nas regravações de Jesus é palestino e Filhos de Gandhi, meio que como uma volta às origens do axé. O gênero foi desvirtuado pela indústria?
Acho que nos anos noventa ele foi pra uma coisa super pop, mas a cultura é assim volátil. É bom que seja, mas o nosso foi bastante inspirado no início do gênero.

Outra referência citada no texto que apresenta o disco em teu site são os primeiros discos solo de Moraes Moreira. Terá o axé nascido ali?
Eu também fico pensando isso. O Moraes é um mestre da música festiva do Brasil e nesse primeiro disco solo dele já tinha Armandinho na guitarra baiana.

É um disco de axé, mas é um disco de Wado, no sentido de isso poder ser percebido, de cara, na primeira audição do disco. Alabama, primeira música de trabalho, remete a Strange fruit, retomando o elo do gênero predominantemente baiano com questões raciais e sociais. De algum modo, se lembrarmos Atlântico negro, mas não só, o axé e a política sempre estiveram presentes em teu trabalho, não é?
Sim, você pegou bem. Esse é meio que um desdobramento do disco Atlântico negro.

Quanto dessa preocupação social deriva do fato de você ser jornalista?
Deve ter isso sim embutido, nós somos esponjas, né?

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Ouça Alabama:

Vão Wadeá!

Taí a capa de Samba 808, “o disco inexistente” que Wado acaba de botar na roda. O que signfiica dizer: acaba de disponibilizar em seu site para download. Prática do artista, um dos mais instigantes de nosso tempo: todos os discos dele podem ser baixados em sua página na internet.

Quem me avisou do “lançamento” foi, novamente, a leitoratenta Thayane, que me guiou ao Scream & Yell, que colou lá o pdf que está na pasta de download do disco. “Estar em selo/gravadora servia para distribuição e para dar visibilidade, visibilidade gravadora não tem dado e distribuição… Os caminhos na internet têm resolvido isso melhor” é das coisas que o alagoano nascido em Santa Catarina diz, no texto (leiam-no completo no Scream & Yell ou depois de baixar Samba 808).

O disco roda enquanto escrevo isso, que não é uma crítica, resenha ou coisa que o valha. É, como também disse Wado no citado texto/pdf: “Lançar ao mesmo tempo para o público e mídia foi nossa ideia, dando brechas para sorte e subvertendo as antigas prioridades do sistema de distribuição, que tinha como pré-requisito a aceitação da mídia e espaços comprados para a divulgação”.

Eu, que há tempos já não sei se sou público ou se sou mídia, se sou ambas as coisas ou se sou nada, a única certeza que tenho é que não sou pago, ao menos não para blogar, não poderia deixar de compartilhar o disco, e antes a informação, com os poucos-mas-fieis leitores deste modesto blogue. E digo: Wado é dos raros artistas que eu recomendaria acá mesmo sem ter ouvido o lançamento, confiando na qualidade e no nível de seus trabalhos anteriores, exatamente o que faço agora.

Bem, o disco acabou antes de eu terminar de escrever o post, é hora de apertar novamente o play, deixa eu ir lá. “De ser o Samba 808 tocado com uma máquina velha reutilizada” será meu caso? Queimei um cd-r e estou ouvindo-o e reouvindo-o num cd-player convencional. Play it again!