Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

Chorografia do Maranhão: Henrique Cardoso

[O Imparcial, 10 de agosto de 2014]

Hoje integrante do grupo Bossa Nossa, o violonista sete cordas Henrique Cardoso é o 37º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Henrique Cardoso de Oliveira Junior começou a ser conhecido na cena choro de São Luís como violonista do grupo Um a Zero. À época seu nome artístico era Henrique Junior. O músico nasceu em São Luís, em 31 de maio de 1983 e passou a infância entre São Paulo e Rio de Janeiro.

É filho do educador físico Henrique Cardoso de Oliveira e da professora Rosete Franco Lopes, a quem reconhece a influência. “Ela nunca mediu esforços para pagar professores ou me deixar ir procurar alguém para me ensinar. Até hoje ela gosta de cantar”, revela o hobby da mãe, que já deu canjas no Clube do Choro Recebe, palco do filho no início da carreira.

Outro palco de importância na carreira do músico foi a Praia Grande: muitas foram as segundas-feiras regadas a choro no extinto Bar Antigamente. Não por acaso o bairro do Centro Histórico ludovicense foi escolhido para que Henrique Junior desse seu depoimento à Chorografia do Maranhão.

Os tempos mudaram: da Praça dos Catraieiros, chororrepórteres e músico – ele estava acompanhado de sua esposa, Rafaele Lopes – tiveram que se mudar, pois o barulho dos bares da região impediam a conversa. No Cafofo da Tia Dica (atrás da Livraria Poeme-se) o pagode invadia até mesmo o ambiente fechado e climatizado, em geral silencioso. Nesse clima mesmo, a agenda foi cumprida.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

O que te levou a morar no Rio e em São Paulo? Meu pai é de uma cultura meio que nômade. Ele é cearense, meu avô era sanfoneiro, e tinha o hábito de, de tempos em tempos, estar mudando de um lugar para o outro. Isso ele [o avô] passou para ele [o pai]. Quando eu já estava com um, dois anos, fomos morar em São Paulo, depois viemos para São Luís, depois São Paulo de novo, depois um tempo no Rio de Janeiro morando na Glória. Aí quando eu voltei para cá de novo eu já tinha uns 12 anos. Foi uma enrolada muito doida, meu pai tinha isso de ficar viajando. E isso foi bom por que eu também fui conhecendo já um pouco da música de vários lados, de vários locais.

Essas viagens influenciaram teu fazer musical? Nem tanto. Teria influenciado se eu tivesse ficado mais tempo morando lá. Eu fiquei morando em Pirapora, uma cidade de São Paulo, com oito anos eu passei para fazer piano. Eu cheguei a me matricular, fiz umas poucas aulas de teoria, só que a gente acabou viajando e eu não cheguei a pegar em instrumento. Ficou um pouco precoce minha ida para a música, ainda não era hora, na verdade. Meu contato com música só viria a se dar aqui em São Luís, eu já chegando na adolescência.

Teu pai é músico também? Da família é o único que não é músico. Ele é educador físico. Os irmãos dele, a maioria, ou é cantor, ou é dj, ou é músico.

O que se ouvia no ambiente musical de tua infância? Minha mãe me influenciou muito nisso. Era na casa de meus avós que se ouviam discos de Elizeth Cardoso e Altemar Dutra. Foi ali que eu comecei a prestar atenção nos sons graves e já a gostar do lado do violão, do violão sete cordas. Aquela música, “Jurei não amar ninguém” [cantarola trecho de Toalha de Mesa, de Noite Ilustrada e Carminha Mascarenhas], Noite Ilustrada. Meu pai era um pouco avesso a música, mas minha mãe até gosta de cantar.

O que te levou a escolher a música, já que teu pai não era adepto? Eu ganhei um violão desde pequeno, na verdade. É um instrumento que meu avô já tinha dado, desde criança ele estava lá no meu quarto, guardado em cima de um case, mas eu não tinha ninguém para me ensinar. Meu pai tinha essa questão de prioridade no estudo, o instrumento sempre estava perto de mim, mas eu nunca tive contato para aprender, de fato. Só na adolescência. Minha mãe sempre gostou de música, na casa de minha avó, fins de semana eram regados a música, a radiola tocando elepês, Altemar Dutra, Noite Ilustrada, músicas variadas, anos 80, Earth, Wind and Fire, Michael Jackson, Lionel Ritchie, entre outros. Sempre fui bem eclético, rock na minha adolescência, e o choro também. Meu avô tinha discos de Dilermando Reis, até hoje tem. Isso ajudou muito na minha vivência, aprendi a gostar de vários estilos, a não ter preconceito com nenhum estilo.

Por que você resolveu trocar o Henrique Junior pelo Henrique Cardoso? Embora o Junior sempre traga aquela coisa do novo, acho que Cardoso impõe certo respeito e também relembra um pouco o lado da família de músicos, Cardoso, que vem de meu avô [incomodados com o aumento do volume do som de diversos bares, chororrepórteres e entrevistado pagam a conta e seguem a pé até outro bar para continuar a entrevista; infelizmente, o barulho continua].

Você tinha quantos anos quando começou a estudar música? Uns 16 anos, já comecei um pouco tarde. Meu contato com a música foi maior por que eu tive, como amigo de colégio, o Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013]. Eu só fui pegar em instrumento depois que meus pais se separaram e quem me ajudou muito foi Rui Mário. Eu vivia na casa do pai dele, seu Raimundinho [sanfoneiro], a gente morava relativamente perto, eu pegava a bicicleta e ia para a casa deles e Rui ficava me enchendo o saco, me enchendo o saco para o bom lado, né? “Rapaz, aprende a tocar um instrumento, tu tem um bom ouvido” e tal. Me incentivou. Na música ele foi o primeiro a me orientar, a ensinar alguma coisa de música, acorde.

Quando você volta à São Luís, a que você credita o despertar imediato para a música? Na verdade, quando eu voltei, ainda não foi a época que eu peguei no instrumento. Eu comecei a ter maior contato com a música quando meu pai ganhou um toca discos usado e veio, junto com o toca discos, alguns elepês: Waldir Azevedo, Pixinguinha, e eu comecei a ouvir tudo. Foi uma noite que até hoje eu me lembro. Quando chegou, que ele armou na sala, eu não dormi. E passei vários dias sem assistir televisão, eu passava dia e noite ouvindo música, o tempo todo. Eles ficaram espantados, impressionados, “por que ele não para para assistir televisão? Não faz nada?”. Um cavaquinho acontece [disco de Waldir Azevedo, de 1960] eu escutava todo dia, Os oito batutas [disco de Pixinguinha com o grupo homônimo, s/d] eu escutava direto.

Que idade você tinha? A cronologia não é o meu forte, mas acho que de 11 para 12 anos.

Você disse que em discos de samba as baixarias te chamavam a atenção. Sim, principalmente no choro. Quando eu escutei, eu não sabia qual era aquele instrumento. Eu me seduzi pelo contracanto, eu ficava admirado com aquilo. Eu só fui descobrir muito tempo depois, ouvindo o Chorinhos e Chorões [programa dominical de choro, na rádio Universidade FM, 106,9MHz, produzido e apresentado por Ricarte Almeida Santos], na verdade; foi ali que eu fui descobrir que existia, no choro, o violão sete cordas. Aqui em São Luís a gente ouvia pouco falar. Eu fui atrás de quem tocava violão sete cordas. Na época foi um pouco difícil, não tinha redes sociais, como hoje em dia. Eu fui para o lado mais fácil para chegar mais perto do choro, eu já havia sido seduzido pelo choro, achava bonito, queria tocar, mas por onde começo? Comecei tocando samba por que via proximidade entre os dois gêneros. Depois de um tempo foi que veio a ideia de montar o grupo de choro.

O Um a Zero? Isso! O Um a Zero. Depois de um tempo, já tocando em alguns grupos de samba aqui em São Luís, eu tocava [violão] seis cordas, mas já no estilo sete cordas. Quando eu entrei no [grupo] Amigos do Samba, eu ouvi falar em Roquinho [cavaquinista e bandolinista]. Eu sabia que o cara do bandolim e do cavaquinho, aqui, era ele. Eu comecei a organizar as ideias e a montar o grupo na minha cabeça. Eu teria que convencê-los que valeria a pena. Daí começou minha história no choro. A primeira coisa que eu sabia é que a música que ele gostava de tocar era Czardas, que não é um choro, é uma música de Victorio Monti [compositor italiano], e ele disse que era muito difícil tocar acompanhando ao violão. Graças a Deus, eu tenho um bom ouvido. Cheguei em casa, fui atrás, encontrei, e peguei a música. Quando eu fui pra casa dele, só pra mostrar do que eu era capaz, eu já fui com Czardas na mão, aí ele abriu o olho: “não, esse rapaz leva jeito!”. Pode ver que todo show do Um a Zero tinha que tocar Czardas. Isso foi interessante pra caramba! Ele me ajudou muito, conhece muito choro, me passava as coisas. A música pra mim era uma maré mansa, de repente veio um tsunami, eu tive que estudar demais.

Que figura você considera sua principal influência, que foi decisivo em tua ida para a música e, especificamente, para o choro? Das pessoas que estão na minha vida, em ordem cronológica, o Rui, muita coisa eu aprendi só na convivência com ele. Ele era um rapaz de 17 anos que tocava em tudo o que é lugar, e muito bem. No choro, especificamente, Roquinho foi o maior. Me apresentou o repertório de choro, eu almoçava na casa dele, jantava lá, e a gente ficava tocando o dia todo.

E foi você quem insistiu para que se criasse um grupo de choro? Isso! Não demorou muito tempo. Na primeira apresentação do Um a Zero o grupo não tinha nem nome. Foi o seguinte: a gente estava tocando a música Um a Zero, de Pixinguinha [parceria com Benedito Lacerda], veio alguém e perguntou o nome do grupo. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, a gente não sabia o que falar, e eu falei: “Um a Zero” [risos], e ficou. Nesse show estava até seu Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], ele tocou com a gente. Era um restaurante no Tropical Shopping. Lá começou certo movimento, a gente fazia um dia e o grupo de Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], o Chorando Callado, fazia outro. Foi interessante. O primeiro show foi com seu Agnaldo por que eu não sabia se ia dar conta de tocar três horas de choro, o grupo ia fazer um mês ainda. Eu fui tocar na cara e na coragem. No domingo seguinte eu fui sozinho.

O que você acha de seu Agnaldo? Uma referência. Foi um desbravador do instrumento aqui em São Luís. Não existia internet, que é um facilitador, e ele sabe muita música. Você tinha que pegar os discos. Tem que tirar o chapéu para ele, para esse pessoal de antigamente. É um ótimo músico, eu admiro, embora não tenha tanto contato.

Houve algum momento em que algum familiar aconselhou a procurar outra coisa, por não ver futuro na profissão de músico? Ser músico é uma profissão que às vezes se torna um pouco desestimulante. Um advogado passa cinco anos na faculdade, se forma, vai fazer concurso, pode ser juiz, promotor. O músico tem que estar todo dia tocando o instrumento, o tempo todo. É uma profissão que a pessoa tem que estar todo o tempo trabalhando. Isso às vezes gera um desestímulo, até a questão financeira. Hoje em dia, com os projetos em que estou envolvido, a gente consegue pagar as contas, viver. Já somos bem vistos pelo público. Mas ninguém sabe como vai ser amanhã, daqui a dois meses. Às vezes bate a pergunta: será que eu não devo ser músico, mas fazer um vestibular, sei lá, pra direito? Pra mim foi um diferencial, ser músico, me ver como profissional da música, como empreendedor. Essa foi a diferença que a gente tinha com o Um a Zero e tem hoje com o Bossa Nossa, é a forma de ser empreendedor. Eu já tinha trabalhado em Ribamar [a cidade de São José de Ribamar, na Ilha de São Luís], já tinha trabalhado no Paraíba [rede de armazéns], então, a forma de me portar nestes trabalhos, eu levei para a música, eu virei um músico profissional.

Você chegou a estudar outra coisa? Eu tenho o [curso de] técnico em Eletromecânica. Foi a época pós-Um a Zero. Eu tinha meio que desistido da música, “ah, vou fazer outra coisa”.

O Um a Zero foi tua grande escola, mas foi, ao mesmo tempo, o grupo que te levou a uma crise existencial enquanto músico. É, por que foi o trabalho que eu posso dizer que foi a minha maior escola. A gente tocava toda quarta no Boteco da Lagoa, sexta a gente estava tocando no Taberna Grill, que hoje em dia é Távola Grill. E segunda-feira no Antigamente. Isso já entrava na renda, esses contratos era eu quem ia atrás. Aí teve certos problemas e eu pensei: será que vale a pena tanto esforço? Será que não é melhor eu procurar um emprego de verdade? Já estava faltando um mês para terminar Eletromecânica e a música me chamou de volta. Eu trabalhava em Ribamar, era concursado, trabalhava na área administrativa. Aí eu entrei no [grupo] Argumento, pedi exoneração, valeu a pena. Passei quatro anos no Argumento, foram bons anos.

A tua saída do Argumento se deu por opção? Sim. Eu tinha vontade de me dedicar a um projeto de música instrumental, que é o que a gente tem hoje. O Argumento é um grupo voltado ao público da noite, então tem que tocar tudo.

Como se deu a arregimentação do Bossa Nossa? Quem é o grupo? Eu e Lee Sousa [flautista e saxofonista] começamos a estudar juntos, entramos juntos na faculdade de música. Lá a gente começou alguns projetos, inclusive de choro. A gente entrou com a intenção de tocar também. Embora estejamos fazendo a licenciatura, tocar é o que nos move. Foi nessa época que a gente conheceu o Bruno Agrella, que é percussionista, no grupo toca bateria, o Cleuton [Wanderson], toca violão seis cordas, mas no grupo toca baixo acústico. Foi lá que começou. A gente pensou em levar nosso profissionalismo pra fora. A ideia inicial era tocar só choro, mas ampliamos, então tem choro, bossa, samba, música internacional.

Mas tudo instrumental? Este é o projeto, hoje, com que você está envolvido? Tudo instrumental. Isso! Tocamos no Lençóis Jazz e Blues Festival [em Barreirinhas], já tocamos em eventos do Sesc. Fizemos um show no Sesc só com música maranhense, todo mundo se levantou da cadeira para aplaudir. Há espaço para o instrumental, mas é preciso certo empreendedorismo do músico, saber como se portar, se vestir, isso tudo influencia.

Qual a agenda fixa do Bossa Nossa? Deixa eu falar a respeito do nome: é um nome que a gente pretende trocar, até por que a gente pretende fazer coisas maiores, pra fora. Levar o nome bossa, para um projeto que é maranhense, a gente não acha muito legal. Ainda vamos achar um nome. O Bossa Nossa toca no Shopping São Luís, meio dia [aos sábados], no Restaurante Manu, que varia entre quinta e sábado [à noite].

Em tua trajetória percebemos esse perfil empreendedor. Hoje, dá para viver de música? Hoje dá. Não dá para ficar rico com música, mas dá para viver. Tem que ter uma postura profissional, logicamente. Saber ser um pouco produto, um pouco se vender como produto. Logicamente no cenário instrumental já é tachado, já é visto um pouco como piegas, mas estamos mudando isso no palco. A nossa forma de tocar, de levar uma música internacional, uma música mais atual. Dá moral. Me olha, eu tou aqui! Tou tocando Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra] instrumental! Aliás, essa é uma música que tem feito a diferença, as pessoas levantam, aplaudem. Bela mocidade [toada do bumba meu boi de Axixá, de autoria de Donato Alves] também, Carinhoso [Pixinguinha e João de Barro], lógico!

O Um a Zero acabou? O Um a Zero, o término dele, eu não sei como explicar bem. Foi o seguinte: na época em que eu fiquei um pouco desmotivado, que eu comecei a fazer o curso, eu não pude mais vir tocar com o Um a Zero no Antigamente, nem em outros locais, por que meu curso era à noite. Então ficou o João Soeiro [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 30 de março de 2014], só que ele já tinha outros serviços, outras ocupações. Ele é um amigo, ficou por lá, é uma pessoa muito educada, podíamos contar com ele. Mas não teve alguém que fosse atrás de outros locais, ver o que poderia acontecer, conseguir a mais. O grupo acabou ficando muito restrito ao Antigamente. O bar mudou muito o perfil, principalmente depois que a Ana Lula [ex-proprietária] saiu, os donos novos queriam para tocar tudo.

Além do Um a Zero e do Bossa Nossa, houve outros grupos de que você fez parte? Teve muito grupo de samba, muitos artistas maranhenses. Da área do choro eu fiz participações com o [Instrumental] Pixinguinha, o que foi muito importante para mim, o convívio com Juca [do Cavaco, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], o pessoal que traz o choro tradicional na veia, ver como tocam. O Roquinho, o jeito de tocar dele, é bem moderno. Ele é autodidata. No Instrumental Pixinguinha, eles são tradicionais, foi muito importante eu perceber coisas que eu não percebia no Um a Zero. Fui vendo Juca, Raimundo Luiz, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Nonatinho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 6 de julho de 2014], Domingos Santos [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014]. Eu cresci como músico, logicamente, isso foi muito bom.

O que significou para você o projeto Clube do Choro Recebe? Desses movimentos culturais que já aconteceram no Maranhão um dos que teve maior relevância foi o Clube do Choro Recebe. Foi num momento oportuno, colocou em evidência os grupos de choro. As redes sociais não eram tão populares, a gente usava a mídia para dizer que estava ali. Foi muito bom. Precisava de alguém para tomar essa atitude, para dizer que o movimento precisava tomar força. Até hoje é um dos movimentos de maior relevância, ao lado do Festival [Internacional] de Música [promovido pela Prefeitura de São Luís, em 2002], eu posso comparar pela importância histórica. Saber que era uma coisa organizada dava muito respaldo para a gente.

Além de instrumentista você desenvolve outras habilidades na música? Como compositor eu nunca expus tanto, isso vai acontecer agora, pois estamos pensando num trabalho autoral. Com arranjo a coisa se dá em função do grupo, o grupo me deu mais liberdade de poder colocar tudo na mesa. Nós estamos nivelados, somos jovens que queremos tocar bem, é um laboratório de ideias. A gente se encontra e começa a testar e ver o que acontece. Esse está sendo um dos melhores momentos da minha vida. No Um a Zero, até por uma questão de respeito, eu deixava que Roquinho direcionasse.

Como funciona a dinâmica do Bossa Nossa? Os meios de comunicação modernos têm ajudado muito, whatsapp, facebook, então a gente faz uma conversa prévia, por esses meios, falando a respeito do repertório. Por exemplo, a gente vai tocar em um lugar, alguém pediu um jazz, a gente já guarda essa informação, em casa já pensa no pedido, compartilha as ideias. Quando a gente se encontra, coloca as ideias em prática, “olha, eu pensei no arranjo”, e nunca é feito só por um, tem um pouco do tempero de cada um.

Então o Bossa Nossa está pensando em disco? Já! É importante o momento que estamos vivendo, todo mundo olhando a gente, sendo bem recebido pelo público. Nosso cd já vai servir de portfolio e porta de entrada para outros grandes eventos. Para a gente vai ser muito bom, para o Maranhão, mostrar para o público de fora que São Luís tem músicos bons, pessoas que são comprometidas em tocar bem, em dar o melhor de si.

Para você, o que é o choro? Qual a importância dessa música no cenário brasileiro? Deixa ver se eu sintetizo bem essa importância. É nossa herança. É o que esperam de nós quando a gente vai pra fora. Quando a gente tocava no Antigamente e um turista sentava, ele queria ouvir choro, por saber que aquilo é genuinamente brasileiro. Eu lembro que uma vez um italiano falou que o choro era a música que mais descrevia o comportamento do brasileiro. Depois eu fui perceber isso, a gente se completa tocando aquilo.

Como qualquer processo cultural o choro é uma música em transformação. Como você tem observado o desenvolvimento do choro no Brasil? A minha ida para Brasília, para um festival de música há dois anos, eu percebi muito melhor o comportamento do chorão. Brasília é um foco, lá a cultura do choro é muito forte, tem choro todo dia em Brasília. Nessa viagem, fomos eu e Wendell, a gente foi todas as noites em rodas de choro diferentes. Lá a gente pode perceber um pouco mais a respeito do choro, perceber a diferença que faz a galera mais jovem tocando essa música. A tendência cultural, pop, eletrônica, acaba sendo levada para essa música. Tem a coisa tradicional, mas acaba indo a coisa do trânsito, buzina, a correria, acordar cedo para pegar ônibus, metrô e chegar cedo, eles estão levando. A gente nota isso.

Você se considera chorão? A gente nunca deixa de se considerar chorão: uma vez chorão a gente sempre vai se considerar aquilo. Eu estou menos chorão agora, mas o choro está comigo sempre, não tem como desprender. Toda vez que a gente toca Naquele tempo [Pixinguinha] eu imagino o Pixinguinha tocando, aquela coisa que está sempre aqui comigo. [O choro] é uma música que faz pulsar. A gente toca e nos toca.

Chorografia do Maranhão: João Eudes

[O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014]

Com trânsito livre entre o choro e gêneros da cultura popular maranhense, o violonista sete cordas é o 26º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos


TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Para a sexta-feira (24 de janeiro) em que João Eudes deu seu depoimento à Chorografia do Maranhão estava anunciado o lançamento de Cinco Gerações, disco de estreia de Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013] com o filho Osmar Jr. [saxofonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 5 de janeiro de 2014]. A chuva que caía entre o fim de tarde e começo da noite em São Luís desencorajava qualquer chorão a sair de casa – depois São Pedro deu uma trégua e o show aconteceu, com a presença da chororreportagem, que seguiu da entrevista para o Barulhinho Bom [bar na Lagoa da Jansen].

João Eudes Martins Júnior nasceu em São Luís – mais precisamente na Maternidade Marly Sarney, na Cohab – em 26 de janeiro de 1980, filho do mecânico João Eudes Martins e da funcionária pública Clarice da Silva. No braço direito, tatuado, o nome de Ana Carolina, 5, sua filha.

Da infância, ele traz a lembrança de festas em casa, regadas a muita música, de onde pinçou o gosto pela música instrumental, embora essa não fosse predominante na trilha sonora nem na coleção de discos de seu pai.

Um dos mais respeitados violonistas sete cordas na cena choro do Maranhão na atualidade, João Eudes é figura fácil em rodas de choro e samba e é um dos músicos preferidos de figurões que visitam a Ilha em shows. Passeia com desenvoltura pela música instrumental, particularmente o choro, e por ritmos da cultura popular do Maranhão – depois do choro, seu gênero predileto é a batida do bloco tradicional.

O músico concedeu a entrevista na Quitanda Rede Mandioca (Rua do Alecrim, 343, Centro, ao lado da Cáritas Brasileira Regional Maranhão), novo point gastronômico-cultural da cidade, e foi regado a croquetes de queijo e coxinhas de frango, ambos a base de massa de mandioca e fritos no azeite de coco babaçu.

Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você tem outra profissão além de músico? Não. Já tive. Fui professor de informática, professor particular. Hoje [sou] só músico.

E o ambiente musical em tua casa? Em tua vivência doméstica, familiar, o que te motivou a estudar, a fazer música? A questão musical foi através de meu pai. É uma pessoa que gosta muito de festas, hoje nem tanto, já está com mais de 70 anos. Sempre convidava os amigos para ir lá para casa e colocava várias músicas. Engraçado é que a música instrumental não rolava muito lá em casa, mas foi uma música que chamou muito a minha atenção quando eu era criança ainda. Rolava na minha casa mais era carimbó, sirimbó, samba, [as cantoras] Clara Nunes, Elis Regina, lambadão.

Ele tocava ou só ouvia? Ele era um grande comprador de discos? Só ouvia. Sim, lá em casa sempre teve muitos discos. Mais do meio dele, tipo, o Pinduca [cantor e compositor paraense] lançava um disco e ele já estava comprando.

Desde quando você começou a se interessar por música? Com 11, 12 anos eu queria estudar, mas meus pais não deixaram. Diziam: “esse negócio de música, é melhor seguir outra profissão”. Aí eu fui estudar já com 20 anos.

E o violão? Era esse o instrumento que sempre te chamava a atenção? Sim, sempre. O violão, a música instrumental, principalmente o choro, eu escuto isso desde criança, pela [rádio] Universidade, pela 106 [106,9MHz, a frequência da FM]. Eu me lembro, eu com nove anos, eu já gravava fitas e guardava pra escutar, eram músicas que me chamavam a atenção, o choro, [os compositores] Chico Buarque, Vinicius [de Moraes], João Bosco. Mas eu não tinha a convivência com este gênero na minha casa.

Então o rádio foi um grande incentivador? Sim, o rádio foi um grande incentivador para eu gostar desse estilo de música.

Você consegue fazer um paralelo entre o rádio que você ouvia na infância, com 10, 11 anos, e o rádio que você ouve hoje? Percebe alguma diferença? Eu acho que a qualidade caiu um pouco. Em geral. A [rádio] Universidade caiu, pode ser a questão da evolução da tecnologia, tudo isso tem influência. As outras rádios, que tocam músicas mais comuns, caíram bastante.

Quando você decidiu estudar música, já caiu direto no sete cordas? Não. Eu comecei a estudar música no violão seis cordas, como todo mundo começa, aquele negócio, pega o violão do amigo, compra uma revistinha na banca. Naquela época, 1999, 2000, não tinha tanta informação quanto hoje. Não era fácil você comprar um livro de música, hoje em dia você entra na internet e baixa, já tem um vídeo de um cara que gravou alguma coisa, já te ensina algo. Na minha época não existia isso, então eu tive que aprender com os amigos, as revistinhas. Eu tive uma facilidade, em um ano eu já tocava uma porrada de músicas, mas tinha os empregos paralelos, então eu não me dedicava tanto.

Você estudou informática na juventude? Estudei, fiz faculdade até o quinto período, no Ceuma, Sistema de Informação.

Quando foi que você percebeu que a música é que era o negócio e você resolveu largar tudo? Foi nessa época aí que eu fazia faculdade. Por que lá eu já fazia alguns eventos e já tocava música instrumental. O professor já falava assim: “rapaz, vai ter um evento aí, tu não quer tocar umas quatrozinhas só pra…”, e eu “rapaz, na hora”. Eu me preparava, ia lá, tocava. Eu já estava começando a tocar na noite, acompanhando um, acompanhando outro, festa, aniversário, já estava começando a ganhar um dinheiro. Aí eu comecei a tocar mesmo, já com outras pessoas, mais profissionais, acabei largando a faculdade e ingressando no mundo da música.

Dá para dizer que o rádio foi o teu primeiro professor e a noite a segunda? Claro! O gosto da música, na verdade, veio por causa de meu pai, que sempre gostou. Eu, na barriga da minha mãe, já escutava música, meu pai já gostava. Mas esse gosto pelo gênero [o choro], que eu tenho, com certeza a influência maior foi do rádio.

Depois dos 20 anos, quando você se decidiu mesmo pela música, você passou a receber apoio dos pais, ou eles continuaram resistindo? Não. Ainda teve muita resistência, brigas, lições de moral. Aquela coisa: “rapaz, vai ficar nesse negócio, só beber cachaça!”, sabe como é que é, né? Eu nunca tive [incentivo] assim. Meu pai é um cara que não é formado, não tem tanta instrução. Então o negócio dele é trabalhar mesmo, mas ele não consegue enxergar na música algo que possa ser encarado como profissão. Mas hoje mudou muito. Hoje eu vivo totalmente da música, então hoje ele me respeita, tem o maior carinho por mim.

Você hoje vive apenas de música? Só de música. Como que eu vivo só de música? Deixa eu explicar: além de tocar música instrumental, também toco os gêneros regionais. Eu toco em blocos tradicionais, sou arranjador de blocos tradicionais desde 2007, toco no Boi Pirilampo já há sete anos, comando a parte musical, arranjos, a maioria dos arranjos é meu, toco em escolas de samba. A gente sabe que em São Luís a produção musical é pequena, em termos financeiros, não de composições, de letras. A questão que é pequena é a produção para gerar a grana, no caso.

Teve o rádio e a noite, mas houve uma hora em que você sentiu necessidade de estudar música. Quando você entrou pra Escola [de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo]? Eu entrei de 2005 pra 2006, por aí. Fiz todas as percepções, falta um recital e duas disciplinas para receber o diploma lá.

Você está na universidade? Sim, sexto período, na UFMA, Licenciatura em Música.

Além do rádio e da noite, quem foram outros mestres decisivos na tua orientação violonística? O principal foi João Pedro Borges [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], esse foi o maior incentivador. Eu tenho um amigo, também, chamado Tom, um grande violonista, tenho o maior carinho, fez uma grande diferença quando eu me dediquei aos estudos. O nome dele é Elton.

João Pedro foi teu professor na Escola? Não, foi meu professor particular. Na verdade foi assim: ele me olhou tocando no Clube do Choro Recebe e perguntou “rapaz, tu não quer pegar umas aulas só pra consertar essa mão aí?”, e eu: “rapaz, na hora!”. Aí eu fui assistir aula com ele, sem problema nenhum. Com o maior prazer. Na verdade, ele foi meu professor mesmo de violão. E tive na Escola de Música também o Antonio de Jesus.

E no sete cordas teve alguém? Não, no sete cordas ninguém. O sete cordas, na verdade, quando eu ouvia o choro, eu sabia que tinha um violão diferente. E eu via as pessoas tocando seis cordas e não era aquilo. Que instrumento doido é esse? Aí um dia Costa Neto [violonista sete cordas] chegou num barzinho, eu estava com um amigo, começando a tocar, ele chegou com o violão sete cordas. Rapaz, eu fiquei doido, “esse é que é o violão do choro”. Eu nem queria mais tocar meu violão, queria só ouvi-lo tocando. Depois eu conversei com ele: “rapaz, tu não quer me emprestar teu violão?”. O meu seis cordas estava novinho, mas eu não estava nem aí. Eu já o conhecia há algum tempo, mas não sabia que ele tocava sete cordas. Ele me emprestou um mês o violão. Foi um mês que eu estudei. Nessa época eu estava desempregado, estudava 10, 12 horas direto esse violão. Daí eu nunca mais larguei. Ele me emprestou, e eu fiquei ainda um tempo tocando seis cordas. Quando começou o Clube do Choro [Recebe], o Chorando Calado, eu tocava seis cordas. Às vezes afinava como sete cordas, ficava tocando assim e treinando: era uma forma de eu aprender.

Quem é o sete cordas, daqui ou de fora, vivo ou morto, que mais te inspira? O maior, que todo mundo sabe, é o Dino [Horondino José da Silva], que ele foi o criador, o mentor desse negócio todo, mas o Raphael Rabello foi o maior violonista de todos os tempos. Acho que ele é inspiração para todo violonista que queira tocar legal. Aos 16 anos ele já foi considerado um dos melhores sete cordas do mundo.

E dessa geração nova? O Félix Jr. e o Rogério Caetano são dois violonistas sete cordas muito bons. Na linha do sete cordas, por que o Yamandu [Costa] toca sete cordas, mas é solista, e quando a gente fala em sete cordas, fala em acompanhamento. Solista, acho que não tem ninguém igual a ele.

Voltando à coleção de discos de teu pai: você falou que era predominantemente música de festa e, pelo meio, havia coisas de música instrumental. Daquela época você lembra de algum nome que te tenha chamado a atenção, que tenha se destacado? Ah, lembro: Vieira e seu Conjunto era um disco instrumental que meu pai escutava. Taí! Era só guitarrada. Eu gostava demais daquilo ali.

Algum outro? Sim. Baden Powell [violonista] era um preferido meu. Baden Powell tocava na rádio também. Mais do que qualquer outro instrumentista. Por que além de ele fazer música instrumental, também tinha música cantada, os afrossambas, e tinha como adquirir o disco dele. Não era fácil adquirir discos de choro. Mas de música instrumental, primeiro foram as guitarradas de seu Vieira [dedilha algo do ritmo no sete cordas], escutei muito na minha vida, carimbó de Pinduca, sirimbó, na doideira [risos].

Você fez uma distinção entre o acompanhante e o solista. Você é um reconhecido acompanhador na cena musical de São Luís. Você tem alguma pretensão de passar a solista? Tenho uma grande pretensão de passar a solista [a pedido da chororreportagem executa Sons de Carrilhões, de João Pernambuco, posando para fotos].

A gente observa que quando os grandes nomes do samba, do cenário nacional, vêm à São Luís, eles [os produtores] recorrem a você para tocar com eles. Isso é importante. Que tipo de sentimento te traz, além da grana no bolso? É legal você ter uma experiência, uma relação. A relação é sempre boa, nunca houve problemas. A relação é musical, não de amizade, mas é legal por que você compartilha de trabalhos diferentes.

Cite alguns nomes do cenário nacional com quem você já tocou. Moacyr Luz, Toninho Geraes, Monarco, Marquinho Satã, o show passado de Zé da Velha e Silvério Pontes, Nicolas Krassik, toquei aqui e toquei com ele no Rio, Moyséis Marques, Mariana Bernardes, Thaís Macedo, Julieta Brandão, Nina Wirtz, Elisa D’Or, Edu Krieger, gente boa, é um cara com quem eu tenho amizade.

E o Chorando Calado? Acho que foi um grupo muito importante para a época. Acho que a gente incentivou muitos músicos da nossa geração. Por que todo mundo tratava o choro como se fosse música de velho. Quando viram a gente tocando, com alegria, com a pegada… eu tenho saudade, foi uma época em que a gente aprendeu muita coisa.

O que significou o grupo para você? Foi um grupo que teve uma grande importância nessa música instrumental do Maranhão. Todo mundo viu a gente jovem, tocando, estudando pra caramba pra poder tocar. Foi um dos grupos muito importantes para a minha base musical.

Vocês já pensaram em reeditar o grupo ou acabou? Já, já pensamos. A gente sabe que essas coisas nunca acabam. Na verdade o que aconteceu é que cada um seguiu uma coisa, cada um teve uma oportunidade e [o grupo] foi se dispersando. Ano passado, no começo do ano, a gente sentou, até no estúdio, pra reformular o grupo, gravamos o vídeo de uma música, um arranjo que a gente fez para Boi de Lágrimas [toada de Raimundo Makarra]. Começamos a engatinhar e começaram a aparecer trabalhos para um e para outro, viagem não sei pra onde.

Com as mesmas pessoas ou com alguma novidade? Com algumas novidades, o Lee [Fan, flautista e cavaquinhista] e o Henrique [Jr., violonista].

Além do Chorando Calado e do Boi Pirilampo, de que outros grupos você já fez parte? Como membro do grupo? Os blocos tradicionais Os Feras, Os Vigaristas, Os Tradicionais do Ritimo. Eu sou muito desse meio, de bloco tradicional. Eu participei de vários blocos. Eu participei de três bumba bois, o Pirilampo foi o em que durei mais. Participei do Boi Brilho da Comunidade, está terminando de gravar o cd, esse ano sai, no São João, e do Boi de Palha, que é um boi bem mais antigo que o Pirilampo. Participei, viajei, toquei em vários lugares com ele.

De que discos você já participou da gravação? Eu participei agora de um que Zeca Baleiro produziu [A palavra acesa de José Chagas, produzido por Zeca Baleiro e Celso Borges], de poemas de José Chagas, na faixa de Cesar Teixeira [Campoema, poema de José Chagas musicado por Cesar Teixeira]. De bloco tradicional eu participei de praticamente todos. De bumba boi eu toquei em discos do Pirilampo. No samba: Isaac Barros, Feijoada Completa, está para sair, Madrilenus, está para sair, Turma do Cafuné, eu estou produzindo, está para sair, é um grupo da Cidade Operária. Fiz agora uma gravação num projeto do Ronald Pinheiro [compositor] com Augusto Bastos [músico], gravamos eu e Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013] duas faixas no cd.

O que significou para você ser chamado por Cesar para participar da gravação? Significou muito. Além de serem os poemas de José Chagas, que já é importante, foi um convite de Cesar. Eu fiquei até surpreso. Eu já tinha tocado em shows dele, é um dos maiores compositores de todos os tempos. Eu fiquei altamente honrado.

Você acha que há uma relação entre o choro e os ritmos da cultura popular do Maranhão? Você, que transita com desenvoltura em ambos, que tipo de informações leva de um a outro? Eu acho que há várias cabeças para pensar isso. Tem gente que tem grupo de samba e não gosta de colocar a regionalidade, e tem grupos que gostam. Eu acho muito importante ter. Não adianta fazer o samba do jeito que o cara do Rio toca, por que para eles vai ser a mesma coisa, não tem diferença. O que faz a gente ser diferente é tu ter uma marca, ter uma identidade. Qual é a nossa identidade? É bumba boi, é bloco tradicional, é tambor de crioula. São os estilos, os gêneros que são caracterizados de São Luís, do Maranhão. Todo mundo deveria explorar isso. Isso não quer dizer que você vai tocar uma música e vai tocar o tempo todo só o boi ou o tambor de crioula. Não. Pega um samba, mistura um pouquinho aqui e ali.

Você compõe? Componho. Eu tenho algumas coisas instrumentais que eu faço. Tem coisas na minha cabeça que eu nunca escrevi. Tem coisas que eu gravo no celular, outras eu já anoto num programa de computador, em partitura. Uma coisa que estou estudando bastante agora é essa questão de arranjos e direção musical. São Luís ainda está precisando melhorar muito essa questão, de profissionalismo. A gente não pode comparar com São Paulo, há o tamanho da cidade, a população, mas quanto mais profissional, melhor.

O que é o choro para você? Qual a importância dessa música? A importância dessa música é a base musical para todo o Brasil. Tudo o que você imaginar, que você analisar, vem do choro. A bossa nova, o samba. Se você pegar os choros antigos, até hoje, muita gente ainda faz as melodias muito parecidas com o choro.

Você se considera um chorão? Não. Eu me considero um apreciador do choro. O cara quando se considera um chorão tem que ter uma base de choro bem violenta, tem que estar muito envolvido com isso.

Mas você não acha a expressão “chorão” reducionista? Não, eu não vejo dessa forma. É uma coisa boa para o músico, dizer que é chorão. Eu não me considero chorão, mas é uma linguagem que eu escuto muito, diariamente. Depois do choro é o bloco tradicional, depois vem o bumba boi.

Chorografia do Maranhão: Luiz Jr.

[O Imparcial, 4 de agosto de 2013]

12º. entrevistado da série, Luiz Jr. recebeu os chororrepórteres nas instalações do estúdio Sonora, de sua propriedade, que está registrando momentos importantes do atual momento da música do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A vida de José Luiz Carvalho dos Santos Júnior começa na música: além de ter nascido em berço musical, a pérola de João do Vale pode lhe servir de trilha sonora para a infância: aos quatro anos de idade ele veio De Teresina à São Luís, onde faria história.

Filho do músico e escritor José Luiz Carvalho dos Santos e de Auzair Leite Carvalho dos Santos, ele ainda formou trio com os irmãos Carlinhos Carvalho e Virna Lisi, ele tecladista, ela cantora. Nascido em 1º. de janeiro de 1974, o músico é casado com a jornalista Valquiria Santana, pai de Dandara Liz, 16, e Jean Lucas, 13. Recentemente instalou em sua casa o estúdio Sonora, em que recebeu a equipe da Chorografia do Maranhão para a 12ª. entrevista da série publicada em O Imparcial.

Em seu estúdio também estão acontecendo momentos importantes da música do Maranhão: o Sonora abrigou os ensaios para Milhões de Uns, show em que se registrou ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, a estreia do compositor Joãozinho Ribeiro em disco; lá também, atualmente, estão em processo de produção os discos de Célia Maria, Cláudio Leite e Patativa, todos a serem lançados em breve.

Luiz Jr. tem um disco gravado, Instrumental (2009), e já participou de inúmeros trabalhos, entre os quais se destacam Shopping Brazil (2004), de Cesar Teixeira, Canção de Vida (2006) e Samba de Minha Aldeia (2010), ambos de Lena Machado, Emaranhado (2007), de Chico Saldanha, Balançou no Congá (2008, póstumo), de Lopes Bogéa, e Made in Brazil (2009), de Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013]. É o violonista que detém o maior número de troféus no anual Prêmio Universidade FM em sua categoria.

O ambiente em tua casa sempre foi muito musical? Muito, muito. Tenho boas recordações. Inclusive da [cantora] Alcione lá na casa do meu avô. Meu avô era muito amigo do João Carlos [Nazaré, pai de Alcione]. Por que João Carlos fazia parte da banda de música, que ele [seu avô] era o maestro da banda da polícia militar. Então, eles trocavam informações, fizeram até músicas juntos. Meu avô vinha pra cá, ficava na casa dele. Ele também ia lá pra Teresina ficava na casa do meu avô. E quando Alcione foi embora daqui, o primeiro lugar que ela foi, foi prá lá, Teresina e ficou hospedada na casa do meu avô. Lá em casa qualquer motivo era motivo de festa, da gente tocar. Meu avô batia muito nessa tecla: “toca pra mim aí uma música, um choro, não sei o quê”. Ele gostava muito de choro, tem choro inclusive no seu repertório de composição. Então, ouvia muito isso.

Tua infância então foi vivida entre Teresina e São Luis. Você ia e vinha? Como é que era isso? Quando eu vim pra cá, não tocava nada, mas sempre tinha essa influência de ouvir meu pai. E aqui eu comecei, meu pai me levando nos bares da vida com ele, passeando em São Luis, vendo a cultura popular também, eu comecei a pegar violão. Em duas semanas eu tava tocando um monte de música, papai levou um espanto. Nem sabia que eu tava tocando violão. Aí pronto, me colocou debaixo do braço e começou a me levar sempre nas rodas de choro lá do Bateau-Mouche, lá no Monte Castelo, vendo lá o [músico] Zé Hemetério, a turma, o Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], o Gordo Elinaldo, Neres no Trombone.

Bateau-Mouche era o nome do bar? Era. Na feira do Monte Castelo. É por que alagava tudo lá, quando tava rolando choro, caía aquela chuva, alagava tudo que ninguém conseguia sair [risos].

Teu pai dava aulas de música em casa. Como era tua vivência com os alunos? Fale desses dois aspectos: da tua casa enquanto escola de música e da vivência em família. Aconteciam saraus com a família tocando? Eu sempre via meu pai tocando algum instrumento. Quando não era violão, era teclado, numa época em que ele estudou muito piano. Tinha uma época em que ele estudava clarinete direto, depois passou pro sax. Então, sempre a gente teve essa interação, de ouvir algum instrumento em casa tocando. Depois meu irmão começou a tocar, a minha irmã cantava. Eu era o único que cantava lá em casa, aí minha irmã começou a cantar e eu dancei [risos]. Aí eu passei pro violão, depois a gente começou a fazer uma dupla e o Carlinhos começou também a tocar, aí pronto, formou o trio.

Com tantas possibilidades que te eram oferecidas por conta dessa família musical e de teu pai transitar entre tantos instrumentos, por que a tua escolha pelo violão? Como é que se deu essa escolha? Acredito que foi por que era o instrumento mais próximo que tava ali. E também por que eu tinha alguns eventos lá na escola em que estudava. Tinha uns eventos lá e sempre, “ah, o cantor daqui da escola”, me botavam pra cantar no evento lá do Dia dos Pais. Aí eu sempre pedia, “papai, me acompanha lá”, “tá bom, eu vou meu filho”. No outro ano: “papai…”, “meu filho, vai aprender a tocar violão”. Aí, eu peguei essa música que é a música, na verdade foi Dia das Mães [cantarola]: “Ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar…”, aí depois, pronto. Só que o choro foi muito tempo depois já.

Você já teve outra profissão que não a música? Já pensou em fazer outra coisa? Se você não fosse músico, o que você seria? Ninguém. Eu não existiria, com certeza. A música, pra mim, ela tá fincada.

Você está cursando música na UFMA? Sim, terceiro período, licenciatura.

Como é que está? O que você está achando? É um curso novo, tem seus problemas, mas eu tou adorando, por que pra mim tá sendo a realização de um sonho, na verdade. Quando eu morei em São Paulo eu tentei fazer pela Unicamp. Não consegui, porque também não tive muita base em escola, porque quando comecei a tocar, pronto, aí a escola começou a ficar difícil. Então, eu terminei o estudo na marra mesmo, minha mãe empurrando: “vai terminar o segundo grau”, aí eu fui terminar.

Na família todos te apoiaram na escolha de fazer de músico a tua profissão? Ou houve alguém que disse “não, Júnior, vá fazer outra coisa porque ser músico não é o grande barato”? Todos apoiaram assim com relação a essa minha decisão. Eu sempre tive isso na cabeça, mesmo estando ainda na escola, eu já pensava “eu nunca quero ser outra coisa, a não ser um instrumentista, tocar”. E sempre enveredando por uma música de qualidade. Eu curto essa minha vida de músico como a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

Você é mais conhecido como violonista, mas tu toca outros instrumentos: o violão sete cordas, guitarra, cavaquinho, viola. O violão é teu instrumento preferido ou hoje você já prefere o sete cordas ao de seis? Por conta de ter montado este estúdio, isso me forçou a tocar outros instrumentos, por conta de produções. Eu tenho pego muitas coisas, muitos discos para produzir, fazer arranjos, então eu tive que realmente cair na guitarra, tocar um pouco de teclado, cavaco também. Mas, o meu violão mesmo, o instrumento que eu gosto mesmo de tocar é o violão sete cordas, o que me dá mais prazer. Principalmente tocando choro, música instrumental.

Você está produzindo vários discos. Pode anunciar alguns? O primeiro disco que eu produzi foi o da OAB [a seccional maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil], do aniversário da OAB, com vários intérpretes advogados. Foi o primeiro projeto do estúdio. Aí depois veio o DVD do Roberto Brandão, que ainda vai ser lançado. Aí Patativa, Célia Maria, Joãozinho Ribeiro agora, Cláudio Leite, que a gente tá finalizando aqui, o cd da minha irmã, Virna Lisi.

Estes discos têm um prazo para serem finalizados? Quando é que vão chegar ao mercado? O primeiro da Patativa e o da Célia são dois discos do edital promovido pelo Governo do Estado. No caso da Célia foi pago a parte de gravação, arranjos e músicos; não está previsto prensagem, projeto gráfico e lançamento. Já o de Patativa estão previstas gravação e prensagem. Como eu pensei assim: “vou finalizar o disco da Patativa, entregar pra ela e aí, e o disco da Célia?” São dois projetos que saíram juntos lá da Secma, né? Então eu pensei em juntar esses dois projetos e vou captar pra esses dois projetos e isso vai ajudar, inclusive,  pra prensar o da dona Célia e pro lançamento das duas. Me veio à cabeça essa ideia e eu finalizei o projeto agora pra captação através da Lei de Incentivo, e fazer um grande lançamento. A minha ideia é fazer um lançamento em São Paulo e depois trazer pra cá; e tudo isso requer um pouco de tempo. Fugiu do cronograma de prensagem. O disco, no caso da Patativa, tá pronto. Inclusive, ela colocou a voz aqui, foi numa manhã e de tarde; foi impressionante a forma, eu até perguntava pra ela: “Dona Patativa, a senhora não tá cansada não, a senhora não quer parar? De repente amanhã a gente volta?”. “Não, eu quero é gravar”. Foi ótimo assim, a forma que ela cantou foi espetacular. E pra mim, foi até surpreendente, porque palco é uma coisa e estúdio é outra. A forma que você aplica a voz. Eu não falei praticamente nada, ela cantou da forma que realmente ela canta, foi ótimo. O que eu quero é terminar logo esse trabalho, mas que eu faça uma coisa bem feita, faça um grande lançamento compatível ao nível artístico das duas, que eu acho que são as duas maiores cantoras aqui do Maranhão.

Você é um dos instrumentistas mais requisitados aqui no Nordeste, dirige vários trabalhos, hoje tem um estúdio. Dá pra viver de música com dignidade? Essa é uma pergunta complicada, mas assim, eu acima de tudo amo muito o que eu faço. Nada veio de graça também pra mim. Ralei muito pra ter as coisas, já fiz milhões de estilos de trabalhos; não fiquei só no choro, fiquei também em outros estilos, inclusive até tocando música que não é do meu gosto musical, mais popular, vamos dizer assim, axé, sertanejo… a gente ia tocar. Isso também me deu muita bagagem. Aparece muita coisa [trabalho] pra mim, graças a Deus. E hoje eu tou me dando ao luxo de fazer só show, de produzir discos e tocar. Fazer shows. Saí de bar, toquei 10 anos em bar. Ou seja, dá pra se viver de música.

Dos muitos discos que você produziu, que você participou, qual aquele ou quais aqueles que você teve mais satisfação em fazê-los? Rapaz, é difícil porque todos eles eu encaro como uma aprendizagem, que eu possa crescer como músico instrumentista, até pra entender o que o produtor quer. Se eu estiver dirigindo, buscar entender o que o artista quer, entrar nesse universo de cada artista. E eu me envolvo 100%. Por isso é que acredito que eu tenha conseguido dar um direcionamento mais fiel a cada trabalho. Os trabalhos que me marcaram bastante, foram dois na verdade; um foi o da Cáritas, com a Lena Machado [Canção de Vida, 2006, disco de estreia da cantora, celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil], que foi depois; o primeiro foi o do Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], foi o trabalho que pra mim, eu me lembro assim, eu fico super emocionado, tenho uma admiração muito grande pela obra do Cesar; acho que partiu dali pra que eu tivesse uma visão muito mais ampla.

Acontece de ouvir o trabalho depois de pronto e não gostar? De pensar que não ficou como você queria? Não, porque eu me envolvo tanto com a coisa. Não sei nem como eu posso explicar isso, eu me apego duma forma como se fosse meu. Não me recordo de nenhum trabalho em que isso tenha acontecido. Claro que a gente sempre busca fazer melhor a coisa, mas eu não penso nisso.

Mas você faz autocrítica? Sempre faço. Em primeiro lugar eu procuro escutar as críticas. Inclusive eu busco mais as críticas mais pesadas, eu encaro tudo como uma crítica construtiva, eu busco isso.

Você produz, arranja, dirige e executa. Qual dessas porções musicais que te deixa mais realizado, mais satisfeito? O que te deixa mais feliz dentre essas habilidades todas? É a pergunta mais difícil [risos]. Antigamente que eu só tocava, eu achava que faltava alguma coisa por que eu via meus amigos todos produzindo; eu sou da época do [guitarrista] Edinho Bastos produzindo, [os pianistas] Henrique Duailibe, Marcelo Carvalho. São figuras que pra mim são referências, fizeram uma história muito bonita com relação à nossa música. Mas eu pensava “poxa, porque é que eu não produzo assim?”. Mas, claro que eu era muito novo. Inclusive, Marcelo Carvalho produziu o primeiro disco da minha irmã Virna Lisi e eu fui lá no estúdio, assim, olhar  os caras gravando; os caras eram os tops, a turma que mais gravava, mais tocava aqui em São Luis: o Leônidas no violão, e eu vendo Marcelo Carvalho ali no piano, chamava Eliézio do Acordeom, Jeca na percussão, Fleming na bateria, eu ficava “puxa, será que um dia eu vou tocar com esses caras?” Aí, eu doido pra gravar e os caras “não”, mas deixaram eu gravar uma faixa, graças a Deus! Depois que eu comecei a produzir eu sinto o mesmo amor: de estar no palco tocando, no estúdio gravando, numa mesa de bar tocando, é o mesmo prazer, é impressionante, basta eu ter o instrumento na mão.

Você anda bastante ocupado, estudando, produzindo, tocando em shows. Certamente está recusando trabalhos. Que critério você utiliza para isso? O critério que eu uso hoje é dar um novo direcionamento à música produzida no Maranhão. Dar uma nova cara da música brasileira. É essa a minha busca, de buscar novos elementos, de usar a nossa cultura popular como base, como influência. Dar uma nova cara pra nossa música. Eu não encaro a coisa com relação a ganhar dinheiro, senão eu tava tocando sertanejo, tava com os artistas mais populares, com mais público.

Quando você fala de transformar o Maranhão num novo polo da música brasileira é no sentido de São Luis ser a próxima Recife, por exemplo, de ter um manguebit aqui? No sentido de ter um movimento organizado, que os artistas tenham essa repercussão nacional? Com certeza. De preparar esses artistas, esses talentos que nós temos pra que se crie um mercado em nível nacional, que eu acho que a nossa música já é uma música de muita qualidade, o que a gente produz aqui. Então, é transformar isso como um produto que chegue como uma nova referência, como um novo momento da nossa música.

Quem você pode citar entre esses artistas que precisam ser trabalhados para cumprir essa vocação, essa transformação? Ah, tem muita gente. Tem muita gente. Tem compositores, que são também intérpretes de suas músicas, grandes artistas como o Cesar Teixeira, uma referência; deixa eu ver, aí da nova geração tem a Milla Camões, a Lena Machado, que pra mim tem uma voz maravilhosa.

Dá pra lembrar os grupos musicais de que você já fez parte? O primeiro grupo que eu fiz parte foi um grupo chamado Choque. Era formado, eu, minha irmã cantando e o Carlinhos, meu irmão, no teclado. A gente tocava em tudo que é lugar a gente possa imaginar, Vila Embratel, tocava nos inferninhos ali do João Paulo, toquei muito no Juvêncio. A gente sempre trilhava alguma coisa assim de mais qualidade, Luiz Gonzaga, seresta, Perfídia, Orlando Silva, essa galera, por conta da influência do meu pai. Depois veio a primeira banda de baile, Os Incas, juntamente com Marcos Lussaray. Depois, grupos de samba: Futuro do Samba, Sindicato do Samba, Sambaceuma, Sem Dimensão, que foi o primeiro grupo de samba raiz. Depois entrei no Sindicato do Samba, lá com Gordo Elinaldo. Aí parti pras bandas, Sambauê, Bicho Terra, aí entrei no Barrica. Grupo instrumental fiz parte do Choro Pungado, tinha o grupo chamado Made In Brazil também, que era eu, [o percussionista] Carlos Pial, meu irmão, o Bumba Jazz, o Toque Brasileiro.

O que significou o Choro Pungado para você? Foi uma experiência interessante, a gente poder trabalhar usando os elementos da cultura popular. Isso refletiu muito no meu pensamento de produtor de uma nova música, de uma nova marca, isso me influenciou.

Para você o que é o choro? Qual a importância dessa música, desse gênero para a musica brasileira? O choro é nossa base! Praticamente tudo saiu do choro, tudo teve um pouco de influência do choro.

Você se considera um chorão? Que pergunta! [risos] Eu, no fundo, no fundo, me considero. Por que quando me lembro do ser músico, desse universo todo, eu me lembro das influências que tive, participei muito dessas rodas de choro quando era criança lá no Monte Castelo, meu avó lá também em Teresina, tocando Espinha de Bacalhau [de Severino Araújo] no trompete e eu tentando acompanhar tudo.

Quem é a maior referência no violão no país? Penezzi!  Alessandro Penezzi. Tive uma experiência agora com ele, de tocar com ele, dele improvisar aqui. Também tive uma experiência com Yamandu Costa, uma pessoa genial, um ser humano fantástico. Mas o Penezzi me tocou mais por tudo o que já ouvi dele. Tem o Zé Barbeiro, que tive a honra de tocar com ele lá em São Paulo, é uma pessoa interessante, que além de ser tradicional, é contemporâneo pra caramba, a forma que ele toca, a forma harmônica, e eu me identifiquei com ele assim.

Como foi a experiência de trabalhar com Zeca Baleiro? Foi uma das surpresas mais incríveis que tive na vida. O Zeca é uma pessoa tão maravilhosa, deixa a gente tão à vontade, que a gente conseguiu alinhar os pensamentos e construir muita informação no projeto do Lopes Bogéa e depois do Chico Saldanha. É fantástico, uma experiência única.

Chorografia do Maranhão: Agnaldo Sete Cordas

Lenda viva do instrumento que lhe deu sobrenome artístico, o ludovicense Agnaldo Sete Cordas, 85, é o segundo entrevistado da série Chorografia do Maranhão.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Agnaldo Sete Cordas começou de maneira descontraída – e assim se manteve até o final. Ele já contava causos antes mesmo de ligarmos o gravador e acionarmos o botão da máquina fotográfica. Nós quatro – ele, o fotógrafo e os dois chororrepórteres – em pé, aguardando Chiquinho [o proprietário do bar] com as chaves do Chico Discos (Rua 13 de Maio, 389-A, altos, esquina com Afogados, Centro), onde a entrevista aconteceu num sábado à tarde, horário em que o bar normalmente não abre e o foi exclusivamente para a ocasião.

Agnaldo Sete Cordas é uma lenda viva do instrumento que acabou por lhe emprestar o sobrenome artístico, tendo tocado com diversos artistas de sucesso nacional, quando de suas passagens pela ilha. Não por acaso, poucos dias antes de receber a ligação convidando-o a dar um depoimento à série Chorografia do Maranhão, ele havia começado a rabiscar em um caderno suas memórias. Uma espécie de “fique por dentro” particular, em que, a caneta, em papel pautado, lembra “histórias, curiosidades, manias de antigos e novos chorões”. Gente com quem tocou, formação de bandas, orquestras e regionais, rodas, farras, datas e causos em geral engraçados – que em parte ele repesca na entrevista, às vezes recorrendo ao caderninho de anotações.

Entre estas últimas lembra quando Cardoso [lenda entre os seresteiros do Maranhão] ia batizar uma filha sua e Six [o cavaquinhista Francisco de Assis Carvalho da Silva, lenda entre os chorões] – ambos já falecidos – chegou e mandou dispensar o padrinho. Foram todos para a igreja, aberta mediante o pagamento do último ao padre. O batizado aconteceu em meio a uma roda de choro. “Meu compadre era um bom companheiro”, disse, referindo-se a Six.

Agnaldo de Jesus Sousa, seu nome de pia, nasceu no Desterro, em São Luís, em 1º. de janeiro de 1928, filho do clarinetista Benedito Sousa, professor de música, e Sabina Martins Sousa. Tem 13 filhos, 13 netos e um bisneto. “O choro é uma música que não se acaba”, vaticina, pouco antes de atender ao celular: era [o bandolinista] Raimundo Luiz, diretor da Escola de Música do Estado Lilah Lisboa, convidando-o para uma roda. No toque do celular do jovem senhor, Odeon, de Ernesto Nazareth.

Agnaldo, o Sete Cordas e o caderno de memórias

Além de músico, qual tua outra profissão? Eu nunca tive profissão assim. Era empregado numa firma, a Francisco Aguiar e Cia. Entrei lá em junho de 1942. Era office-boy, como se diz hoje em dia, levava os telegramas para os Correios. Entrei lá de calça curta [risos]. Passei 17 anos lá. Depois saí, passei uns anos fora e depois, em julho de 1961, eu me empreguei na Companhia de Água e Esgotos. Naquela época era água e luz junto. O governador da época, Newton Belo, foi quem separou água para um lado e luz para outro, eu fiquei na parte da água. Me aposentei em 17 de fevereiro de 1993.

Com quem tu aprendeste a tocar? Eu aprendi a tocar esse instrumento, sem ser esse aqui, foi um violão de seis cordas. O namorado da minha irmã tinha um e deixou o violão lá em casa, aí eu fui pegando quando ele saía e aquilo foi me dando vontade de tocar, de aprender. E de repente mudou-se lá pra casa um vizinho, que era de Caxias e eu soube que ele tocava violão. E a gente ficava até tarde da noite, ele passando as notas. Depois apareceu outro moço que tocava muito bem violão, o nome dele era Ricarte, morava no Monte Castelo [os entrevistadores espantam-se com a coincidência]. Ele ia lá pra casa, levava o violão e eu ficava manjando aquelas notas. Quando ele saía eu ia fazer e não acertava. Pensei em largar de mão. Mas o tempo foi passando e eu fui pegando gosto pelo instrumento.

E depois substituiu pelo sete [o violão de sete cordas]? O sete foi o seguinte: depois de passar muito tempo nesse violão de seis, eu passei pela guitarra, por que pra tocar nos grupos que tinha em São Luís, eu fui fundador do Nonato e Seu Conjunto, pra tocar em grupos assim eu passei pra violão elétrico, depois eu peguei guitarra, mas eu não sabia tocar guitarra, por que eu tocava com dedeira. Para este violão foi da seguinte forma: muitos anos, eu tocava no Lira, e ia para casa descansar, e dia de domingo eu ia para o barzinho lá defronte lá de casa, tomar aquela cerveja com os amigos. Num domingo eu tava sentado lá quando chegou Six, seu Dega, irmão dele, Carlinhos [Leite], Jonas [Pereira da Silva], aquele que tocou com Jacob [do Bandolim, no Conjunto Época de Ouro]. Seu Dega quando me olhou, disse “olá, meu compadre! Olha quem tá aqui! Esse aqui é o Carlinhos, o violonista que toca com Jacob do Bandolim”. Ele tava com o violão de sete cordas, eu com o de seis, ele me deu o instrumento, mas eu não acertei uma nota, entreguei o instrumento pra ele [risos]. Mas nessas alturas eu não estava com o grupinho. Estava eu, Careca no bandolim, sentou Carlinhos com o sete cordas, tinha um menino com um tamborim pra fazer ritmo, Six no cavaquinho e finado Marreta com um gravador Philips. Aí o samba começou. Essa música foi tocada lá, aquele dia, um choro de Waldir Azevedo por nome Contraste [parceria com Hamilton Costa]. Essa música eu tenho gravada numa fita, acompanhada pelo Carlinhos. Aí depois, nessas alturas, a farra começou. Cantou [Léo] Spirro, cantou Seu Dega.

Na tua juventude, de que modo vocês ouviam música? Nós ouvíamos rádio que nós mesmos fabricávamos. Esse mesmo rapaz que me ensinou violão, Mizael, ele enrolava motor de avião, de compressor, essas coisas, era inteligente. Ele enrolou umas bobinas e disse que íamos captar uns sons da PRJ-9, Rádio Difusora do Maranhão. Funcionava ali defronte o Mercado Central, no prédio do SIOGE [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje abandonado]. Ela entrava no ar e quem tinha rádio ouvia. Então nós fizemos um tal de rádio galena. Era feito com uma bobina de fio, um telefone antigo, pegava só o fone, fazia adaptação, pegava chumbo com enxofre, botava numa colher no fogo. Aquilo quando diluía, ficava aquela pedra brilhante. Através daquela pedra amarrava uma agulha na pontinha do fio, botava o fone no ouvido e sintonizava a estação. Só tinha essa aqui no Maranhão. Eu ouvia longe… Eu me lembro tão bem de uma música que Isaurinha Garcia cantava, [cantarola:] “aquele aperto de mão não foi um adeus” [Aperto de Mão, de Jaime Florence, Augusto Mesquita e Dino 7 Cordas], parece que era essa música. E eu ouvia aquele violão e “meu Deus, o meu não dá esse som”. Aí foi que aconteceu, quando Carlinhos chegou lá na Cohab com aquele violão, aí eu me envaideci pelo som do instrumento. Fiz uma carta pra minha mãe, que morava no Rio de Janeiro, pedindo pra ela me dar um violão, que tinha visto um violão aqui, e tinha vontade de tocar num de sete cordas. Fiz sem esperança. Um dia de sábado eu tava em casa com a mulher, quando parou o carro do Correio lá na porta. “Olha, Marilene”, minha mulher, que tava lá, “é bem roupinha de menino que mamãe tá mandando pros netos”. Quando eu abri, era um violão sete cordas, Del Vecchio, já afinado. Quando eu peguei esse violão, a notícia correu rápido. Fui inaugurar esse violão e a aporrinhação dos colegas, “tu nãos sabe tocar nem de seis, quanto mais de sete”. Eu pensava em tirar a sétima corda, não tava acertando. Foram quatro anos, me dediquei, fui acertando. Uma vez aquele Biné, irmão de Bastico, disse “Agnaldo, esse violão tem que falar grosso”, e ele me gozava com isso. Fui lutando, Deus foi me ajudando, fui entrando nos grupos. Aí apareceram uns seguidores, que se envaideceram pelo instrumento também. Mascote, Bastico, Chiquinho, eu tenho o nome deles aqui [aponta o caderno], se metiam e largavam por que não acertavam. Entre o grupo que se interessou ficou [Francisco] Solano, Elinaldo, o mais competente, foi quem pegou com mais facilidade, Domingos [Santos]. O resto desistiu. Toquei muito nas noitadas por aí.

Teu pai dava aulas de música e tocava no exército. Ele de alguma forma influenciou o senhor a ser músico ou havia um desencorajamento, que músico naquele tempo era vagabundo, mal visto. Como era essa relação? Naquela época violonista era vagabundo, era mal visto. Ele não sabia, eu pegava esse violão escondido. Ele queria que eu estudasse telegrafia, o código Morse, ele me passava para estudar. Ele não queria negócio de violão, nem bola, o caso era estudar, e era o que eu não gostava.

Você chegou a jogar bola? Eu jogava bola. Até quebraram minha clavícula, aí eu larguei logo.

O senhor fundou o Nonato e Seu Conjunto. No ano de 1962, num daqueles bancos, defronte o Lítero, na praça João Lisboa. Eu tava trabalhando no DAES [Departamento de Água e Esgotos], chegou um colega que tocava comigo na rádio, Rafinha, e Osmaro contrabaixista. Ele disse que não tinha mais nenhum grupo tocando, o que Nonato tava tinha acabado, por causa de molecagem dos músicos. Aí eu disse “vamos convidar Nonato”. Eu peguei folga no serviço e fomos os três. Nonato tava lá em cima tocando piano. Quando desceu a gente disse: “Nonato, nós estamos formando um grupo pra tocar, tu não queres tomar parte?”. De cara ele disse que não. Aí a gente conversou, ele disse que dava a resposta amanhã. Voltamos no mesmo horário e eu combinei com a turma: “se Nonato aceitar, o nome vai ser Nonato e Seu Conjunto, a gente bota uns papeizinhos em um copo, Nonato e Seu Conjunto, o que ele tirar vai dar Nonato e Seu Conjunto” [risos]. No outro dia ele tava ensaiando uma música. Quando ele desceu, “como é, Nonato, resolveu?”, e ele “é, eu vou aceitar”. A gente, êêê, aquela comemoração. Vambora escolher logo o nome do grupo, já tava combinado. Ele meteu a mão no copo, deu Nonato e Seu Conjunto. Daí ficamos. Eu já tinha meu instrumento, eu tinha meu violão elétrico, o baterista tinha a bateria dele, o contrabaixista tinha o baixo, o pistonista tinha o pistom, o saxofonista, que é Nero, já tinha o sax, o cantor era Murilo Oliveira. Depois passou a ser Cardoso. Aí fizemos o grupo, começamos a ensaiar. De repente pegamos o contrato para tocar as tertúlias do Lítero, que começava às oito da manhã. Começava oito, terminava dez. Durou bastante tempo. Aquilo era uma brincadeira, a gente tocava na base da brincadeira, pegava um cachezinho pra levar pra casa. Aí passamos a pegar contrato pra festas de casamento, colação de grau, tocávamos lá no Casino [Maranhense], que era na [avenida] Beira Mar. E o grupo foi tomando frente e só tínhamos nós na praça. Depois foi que surgiu o CurtiSom, Os Colegiais, Os Fantoches. Mas de início éramos só nós, tanto aqui na cidade quanto no interior. Essa baixada toda nós tocamos, e também do outro lado, a gente pegava Vargem Grande, Itapecuru, Chapadinha.

Quem foi o músico que mais te influenciou no começo da carreira? Era o Careca, que tocava bandolim e cavaquinho. Tinha os olhos gateados. Era exímio músico. Tocava violão também. Ele pegava o violão dele, lá no João Paulo, ele vendia pastel numa cesta desse tamanho [gesticula com as mãos]. Quando ele chegava com o violão dele lá no João Paulo, aí faziam a roda, ele cantava até um samba assim [cantarola:] “violão amigo/ venha ouvir meus ais”. Ele cantava essa música, toca violão, aí a canalha fazia a roda e ele vendia o pastel todinho. Quando passava pro cavaquinho, foi quando surgiu aquele choro que o Jacob fez por nome Flamengo [de Bonfiglio de Oliveira], esse era o começo [toca a introdução]. E o Careca tocava isso e chamava a atenção. Aí eu fiz amizade com ele. Eu estudava no Teixeira Mendes, onde é a Caixa Econômica hoje, e eu saía do colégio e passava pra brincadeira. Mamãe falava, “meu filho, vai pra casa”, e eu tava atrás do instrumento.

Você já viveu só de música, a música já te sustentou? Já vivi. Sustentei a família muito tempo na música. Eu tinha um patrão muito agressivo, uma vez ele me passou um carão na frente de Mascote, lá no balcão. Eu já tinha mais de 10 anos da empresa e ele perguntou se eu tinha vontade de sair da firma. “Então faça o seguinte: o que você vai levar de indenização, dá para abrir um negócio para você”, ele disse. E me orientou a, quando me perguntassem o porquê de eu deixar a firma, eu devia responder que era de livre e espontânea vontade. Assim fiz, era 1958 ou 59. Não recebi nada. Passei dois anos vivendo apenas com o ordenado que eu ganhava na rádio Timbira, como violonista do regional. E tocava por fora pra levar pra casa.

Você chegou a gravar discos com Nonato? Ele gravou, mas eu não tava mais no grupo. Quando ele gravou, tava [Arlindo] Pipiu, Zé Américo, Chico do Zuca, saxofonista, Garrincha. Nonato adquiriu um empréstimo no Lítero e foi à São Paulo comprar um instrumental novo. Nosso baixo não tinha trastes, era gavetão. Quando Nonato veio de São Paulo trouxe um contrabaixo elétrico, mas sem trastes, trouxe bateria nova. No dia da inauguração desses instrumentos, foi uma coisa gozada. Nós fomos tocar no Clube Alvorada, ali no Tirirical, um clube da Força Aérea Brasileira. Garrincha antes de chegar já tinha enchido a cara. Na hora que começou a festa, só dava Nonato, o clube cheio de gente, Garrincha cheio do pau, a gente foi tocar uma música [faz o ritmo com a boca], na hora em que ele foi fazer uma frase, estourou os dois tambores, rasgou de meio a meio. Nonato com aquela calma terminou a música e o show na bateria. Garrincha continuou no grupo, mas aprontou muito das suas.

O senhor teve algum estudo formal de violão? Não. Aprendi na raça. O pouquinho que aprendi foi só pra me divertir.

Além de Nonato e Seu Conjunto, de que outros grupos musicais você participou? Primeiro nós tínhamos o Grupo Difusora. Nós tocávamos em aniversário, éramos eu e Zé Cantanhede, dois violões de seis cordas, Careca no bandolim e violão tenor, que ele tocava que era uma beleza, Racinha na maraca e no pandeiro, ele era canhoto, Maneco baterista, Osmaro contrabaixo, Antonio Rodrigues sax tenor e Toinho acordeom. Aconteceu que até uma vez a Dalva de Oliveira se apresentando no Teatro Arthur Azevedo, aquela música [cantarola:] “Ave Maria, lá rá ri” [Ave Maria no morro, de Herivelto Martins], rapaz, nós ensaiamos a música e Rodrigues antes de começar a função era uma dor de cabeça e não teve jeito de ele descer para tocar e quem fazia o solo era ele. Quando chegou na hora dessa música, ele veio de lá, mesmo com a dor de cabeça, ninguém esperava isso dele. Na hora do solo, o saxofone saiu de detrás da cortina, a coisa mais linda, todo mundo aplaudiu. Depois eu passei seis anos com Nonato, tocando no Lítero, festa de carnaval, aquelas músicas que até hoje em dia se toca. Nonato depois que criou asas começou a dar ordens dentro do grupo. Aí ele dizia: “só fica no grupo quem ensaiar”. Eu era empregado, não podia ensaiar, Cardoso, do Banco do Brasil, também não podia ensaiar. Ninguém podia deixar o trabalho para ensaiar. Aí ele já queria botar Oberdan e Pitomba no grupo, eu fui me aborrecendo e larguei. Quando eu saí do grupo, uma noite eu tava em casa, quando recebi um convite para uma seresta na Rua Oswaldo Cruz. Foi a última vez que eu toquei com Nonato, foi na inauguração dessa boate. Depois eu entrei nos Fantoches, em 1968, na vaga de Sinhô, [o violonista] João Pedro Borges. Passei oito anos nos Fantoches. Raimundo Sebastião Coelho, sargento do exército, era o chefe. Tínhamos três pistons, três saxofones, botijão de gás tocado com dois vergalhões, aquilo fazia uma zoada, “taca-taca, taca-taca, taca-taca” [imita o som percussivo do botijão com a boca].

E regional de choro, em quais tu tocou? Regional de choro, não teve assim um seguro. Eu me unia com [o flautista] Serra [de Almeida, primeiro entrevistado da série Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3/3/2013], a gente tocava umas pisadas em ritmo de choro, o repertório todo de Altamiro Carrilho.

Só vocês dois ou tinha mais gente? Às vezes tinha um pandeirista, às vezes não.

Tinha nome essa formação de vocês? Não, não tinha.

Vocês tocavam em vários lugares, no Hibiscos [bar da época, o entrevistado localizou-o nas proximidades do Detran, Castelão]? No Hibiscos nós tínhamos grupo. Era eu, Serra, Spirro, Zé Branco e Juca [do Cavaco]. Não tinha nome o grupo. Depois do Hibiscos foi que nós fomos para a Caixa Econômica [a Serenata Caixa Alta, na Associação do Pessoal da Caixa – APCEF].

Você compõe, faz arranjos? Não. Às vezes eu crio uma ou outra coisinha diferente [improviso na execução de uma música], pra não ficar bitolado.

Já participou da gravação de discos? Não.

Mas acompanhou grandes nomes nacionais. Dalva de Oliveira, no Casino Maranhense. Quem mais me deu trabalho foi a Maysa Matarazzo.

Deu trabalho por quê? Ela botava um pó na bebida. Pelo menos, no dia em que nós fomos ensaiar, fomos eu, o rapaz do ritmo e o acordeonista, ela tava no Hotel Central. Quando nós chegamos lá, ela tava no banho. Ficamos esperando. Ela saiu do banho toda de roupão, bonita, nos cumprimentou, os olhos bonitos. Ela cantou uma música, passou uns 10 minutos, disse que não queria mais ensaiar. “Eu não quero mais ensaiar, tá tudo bom”. Lá no [Teatro] Arthur Azevedo, estavam tocando artistas locais, a atração era ela, e o teatro cheio de gente. A caminhonete chegou com ela e nos chamaram, estava na hora. Quando subiu ao palco ela disse que não queria cantar com o regional, começou a cantar só. Tinha outro contrato pra mesma noite, no Casino. Ela também se recusou a tocar acompanhada pelo regional e mandou chamar Mascote, um violonista muito bom de que ela tinha ouvido falar. Depois ela se negou a cantar também com ele, o povo já ensaiando uma vaia, quando ela começou a cantar Meu mundo caiu. No outro dia, nos jornais, foi um escândalo.

E outros nomes? Dóris Monteiro, Linda e Dircinha Batista, Ademilde Fonseca, Ângela Maria, Núbia Lafayette, Nora Ney, Dalva de Andrade, Alcides Gerardi, Orlando Dias, Blecaute, Genival Lacerda, Cauby Peixoto, Silvio Silva, Altemar Dutra, Carlos Gonzaga, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Sivuca, Jackson do Pandeiro, Conceição de Oliveira, Orlandira Matos, Suely, Maria Diniz, Célia Maria, Naná Ramires, Ivone Mendes, Elza Lopes, Lourdinha Costa, Sérgio Miranda, Bico Doce, Roberto Müller, Cardoso, Moacir Neves, Escurinho do Samba, Álvaro Duarte, Joaquim Fernandes, Nilton Vieira, José Penha.

O que significa o choro pra ti? Eu considero uma das melhores músicas. É o gênero que eu abraço, é o que eu gosto. E o choro, eu vou te dizer uma coisa: só toca o choro quem sabe. É uma música difícil. Não pode ter erro, de jeito nenhum.

Quem é o artista que você mais admira dentro do universo do choro? Aqui em São Luís eu gosto bastante do Serra. Gosto do Juca. Fomos companheiros de muito tempo. Quando ele começou a tocar cavaquinho, eu disse: “esse menino vai dar um bom cavaco”, e não me enganei. Nacionalmente, um nome que eu admiro é Jacob, o estilo de Jacob.

Tu falaste em vários espaços em que havia música ao vivo. Como tu vê São Luís hoje, em termos de espaço para a apreciação de boa música, choro? Tens saído para ver isso? Se eu passar e escutar um ritmo de choro ou sambas canções, eu paro para ouvir. Mas se eu passar e escutar uma pagodada doida, mal tocada, com três cavaquinhos, um banjo fazendo aquele centro doido, dando umas notas que não tem na música, eu não paro pra ouvir isso aí.

Tu estás escrevendo tuas memórias, né? Umas coisas que fui lembrando de minha juventude e fui anotando. O tempo em que militei na Zona do Baixo Meretrício, eu tocava por lá, apreciava as noitadas, toquei com muita gente. A zona era conhecida, tinha as [pensões] de luxo e tinha as vagabundas.

Quando foi que o senhor teve a ideia de registrar as memórias? Foi semana retrasada, eu não tou fazendo nada, vou me lembrar das coisas aqui que eu passei e comecei a escrever.

O senhor pretende publicar esse material? Publicar isso aqui? [risos]. Eu não sei, comecei a fazer para mostrar pros colegas. Parafuso [o sonoplasta Elvas Ribeiro] se lembra dessas pessoas todas. Onde eu botei aqui o regional [que tocava na ZBM na época]? [Lendo um trecho das anotações] Eu ainda recordo, apesar do tempo, as casas que tinham música ao vivo: Casa Branca, Maroca, Lili, Zilda Preta. O grupo que tocava era assim: Vital, baterista, Jorge Cego, trombone, Haroldo, banjo, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom, Amilar, bandolim, Roque, rabecão, Zé Hemetério, violino. Outros músicos davam canja: Osvaldo, baixo, Apolinário, banjo, Mr. Jones, bateria, Padilha, violino. Nome das pessoas que animavam o salão do Bar Hotel Central, do senhor Maia: Vital, baterista, Lauro Leite, violino, Pajebinha, sax alto, Haroldo, banjo, Zé Hemetério, violino, Chaminé, acordeom, Cunha, pianista, Roque, rabecão, Santinho, pistom, Seu Riba, pistom [continua lembrando outras formações, que tocavam em outros espaços]. Olha como eu botei aqui [continua a leitura]: a casa de Lili era frequentada por pessoas mais escolhidas. Não tinha bagunça. Quando acabava o movimento das outras casas, nós, digo, Zequinha de Jagunço, Amilar, Agnaldo, Zé Penha, Xereta, irmão de China, que era amigo de Cleres… Zequinha de Jagunço se dava com a dona da pensão, a Lili, por isso ele nos levava para tocar até de manhã, e eu ia por que sempre eu ficava com uma puta [gargalhadas gerais]. Ora se eu ia pra lá pra ficar de graça? Amanhecia lá.

[O Imparcial, 17 de março de 2013]