As ruas do mundo como escola

Retrato: Zema Ribeiro

 

Vini de Vici literalmente corre o chapéu. Ele está se apresentando semanalmente às quartas-feiras, entre 18h30 e 20h, no calçadão em frente ao Cafofo da Tia Dica, no Beco da Alfândega, Praia Grande. Seu cachê é o que consegue catar no chapéu defronte a si e o dinheiro que consegue vendendo seu primeiro cd, de que desenhou capa, contracapa e selo.

A arte que ilustra a capa de seu primeiro disco. Reprodução

Conheci-o por acaso: estava sentado na calçada oposta à em que ele se preparava para ocupar, quando seus acordes ao violão chamaram minha atenção e de Tião Carvalho, que eu entrevistava na ocasião. O repertório era fino e brasileiríssimo: peças de Baden Powell, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes.

Comprei o disco para puxar conversa e conseguir o contato. Americano de Minnesota, Vincent James DeRasmi tem 37 anos, é filho de músico e roda o mundo tocando na rua. “Eu não vou tocar na rua para sempre”, diz como que para si mesmo durante a entrevista, embora considere a rua uma escola.

Trabalhou em restaurantes, bares, construção, sindicato, “construindo palcos, em teatros, fiz qualquer coisa para apoiar minha música”, revela.

O artista é um incansável e obstinado pesquisador, procurando sempre beber da fonte. É literalmente uma enciclopédia ambulante das sonoridades do mundo, um viciado em descobrir o novo. Uma semana depois de nosso primeiro encontro, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Retrato: Zema Ribeiro

Teu nome tem origem italiana?
Na verdade meu nome é Vincent. Esse nome vem de um dito em latim, “veni, vidi, vici”, que significa “vim, vi e venci”. É um jogo de palavras, por que o apelido de Vincent é Vini. Eu tentei pegar Vini Vidi Vici, mas alguém já pegou, então Vini de Vici.

Você é natural dos Estados Unidos. De onde, de que região?
O meio oeste. Tipo, Minnesota, um estado bem ao norte, fronteira com o Canadá. O Rio Mississipi começa lá.

Então você tem um sangue meio blueseiro?
Meu pai toca trompete, ele viajou pela Europa e todos os Estados Unidos, fazendo blues, jazz, folk, Joseph DeRasmi. Ele começou a obter um nível de sucesso e eu vi que era possível viajar o mundo com música. Ele não é como famoso, mas por um momento viveu de música. Por isso eu comecei a seguir meu caminho, a dedicar minha vida à música.

Você já passou por outros países? Pergunto por que teu disco tem 12 faixas e tem muito essa temática de viagem. Fala um pouco dos lugares por onde você já passou e se foi sempre a música que te levou a esses lugares.
Sim. A primeira viagem eu fiz em 2010 e fui à Espanha. Eu sou roqueiro e tive grupo de heavy metal por muitos anos. Rock, heavy metal, funk, groove. Cansei. Ter uma banda é como estar casado com quatro outras pessoas, é complicado. Tenho saudades, mas enfim, cansei de tudo isso. Fui à Espanha para estudar flamenco, pegar as técnicas do violão. Essa foi a minha primeira viagem e abriu minha mente. Para verdadeiramente aprender uma música você tem que ir à fonte. Qualquer país, qualquer região onde tem qualquer ritmo que você queira aprender. Depois disso minha mente começou a virar, fui à Costa Rica, conheci algumas pessoas viajando por muito tempo e abriu ainda mais minha mente sobre viajar, tocando na rua, nos restaurantes. Em qualquer lugar que eu tocar, a gente apoia [as pessoas apoiam]. Aprendi isso com outros amigos que conheci no Peru, tenho muitos amigos no Peru. Eu aprendi a trabalhar com a música, como artista da rua. Depois do Peru eu fui ao Equador, Colômbia, toda América Central, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala, El Salvador, Belize, México. Então voltei a meu país e vendi tudo o que tinha para pagar dívidas e voltei ao Peru para seguir ao sul. Passei por Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Brasil, Uruguai, voltei à Argentina e estou aqui. Mas todo tempo estudando os ritmos do lugar. Quando estava na Bolívia, eu toquei música boliviana nos mercados. Para pegar o ritmo do povo da terra onde estava no momento.

Dá para dizer que musicalmente você procura se adaptar à cultura local? Por exemplo, você nunca fez música americana fora dos Estados Unidos, música espanhola fora da Espanha?
Sim, eu fiz. Muita gente fala, como aqui no Brasil, “você poderia ganhar muita grana tocando música americana”. Pode ser assim, mas eu não viajei tão longe para tocar a música que já toquei lá. Pode ser um caminho um pouco mais difícil, mas eu quero tocar, como agora estou no Maranhão, tentei pegar alguns bois, Papete, eu não posso aprender tudo, mas eu creio no repertório, na viagem do som. Se tem uma hora e posso tocar música do México até aqui, essa é a minha ideia, por isso eu fiz a arte [do cd] com o mapa do mundo.

O que me chamou a atenção te ouvindo tocar semana passada foi justamente o repertório. Eu ouvi cerca de meia hora em que você passeou por Zequinha de Abreu, Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Ernesto Nazareth. E agora, você já até antecipou uma pergunta que eu tinha, que era se você já conhecia os compositores do Maranhão e você falou de Papete, que tinha algumas composições, mas era mais intérprete e percussionista. Você conhece o trabalho de outros artistas daqui?
Eu vim aqui para encontrar um amigo que conheci no Rio de Janeiro, tocamos juntos, ele toca um pandeiro na linha rap, se chama Pensativo do Pandeiro, é o nome artístico dele. Tocamos bastante aqui também, temos uma química muito boa quando tocamos, nem sempre dá. Através dele conheci [a obra de] Papete, alguns bois, como “se não existisse o sol” [cantarola]. Eu fiz a minha própria versão, por que em boi não há violão. Vários ritmos, como o coco em Pernambuco, não há violão, a salsa, na Colômbia, não há violão. Vários ritmos eu tenho que criar uma versão no violão, por que esse é meu instrumento, para adaptar a melodia.

No disco você toca vários instrumentos, mas o violão é teu instrumento principal.
[Além de violão] Eu toco berimbau no disco e um pouco de pandeiro na faixa oito [Renew]. Meu mestre de capoeira, que conheci no Rio de Janeiro, mestre do samba também, ele falou que se eu precisasse de ajuda com a percussão… Ele se chama Mestre Duda Pirata.

Esse é teu primeiro disco?
Sim, é o volume um. Está disponível no spotify, é possível fazer o download em todas as plataformas digitais. O volume dois já está pronto, mas vou divulgar apenas em novembro.

Está gravado? Vai prensar e distribuir como um cd físico ou só digital?
Desse disco eu fiz mil cópias, é mais barato se você imprime mais. Cd ainda faz parte da indústria musical, mas a maior parte das pessoas, eu incluído, nem tem máquina de [tocar] cd mais. Notebook nem tem mais entrada pra cd. Volume dois, por enquanto, não tenho tanta grana, faz seis anos que estou viajando, vou divulgar primeiro digital, só na internet.

São Luís é mais uma parada, já tem uma pretensão de outro ponto?
O Brasil tem muita riqueza, é enorme, é incrível como muda o som em qualquer lugar. Eu vi tambor de crioula uma vez e chega aqui tem quase todo dia, se procurar, vai encontrar, pelo menos em junho, no São João. Para mim foi uma bomba cultural. Tenho vontade de ir ao Pará, terra do carimbó, quero conhecer mais o Norte, o Amazonas, os ritmos indígenas. Quando estive em Pernambuco fiquei numa tribo, os Xucuru, no sertão, lá eles só tocam maracá, cantam, batem palmas. Maracá está atrás, não sei todo o ritmo, mas coco, capoeira, boi, o maracá é um instrumento muito forte. Estou procurando as raízes da música, do folclore. Meu interesse vem dos indígenas e da África.

Se a gente tentasse definir esse teu interesse, essa tua busca permanente por um som novo, pelas raízes, a gente poderia dizer que você está sempre em busca de um aprendizado, uma busca eterna por um aprendizado?
É quase um vício, aprender algo novo, como a alimentação, minha alma, minha mente, minha arte também. Eu tenho um som que vem de dentro, componho, você viu no meu cd, e não penso “eu vou compor uma música como baião, vou compor um samba”. Sai. Aprendendo vários ritmos assim, o som que sai de mim fica mais eclético, por causa das coisas que estou absorvendo em meu caminho. Eu gosto.

No teu disco a gente percebe uma inclinação para a música instrumental, mas há faixas cantadas e em vários idiomas. É um pouco também uma maneira de demonstrar esse acúmulo, essas passagens por várias regiões do mundo?
No Volume um eu fiz um grande trilogia, The trip, El viaje, A viagem, essas três últimas músicas do cd são a primeira trilogia que eu compus para violão. Eu coloquei a maioria das minhas músicas como instrumental, mas às vezes nem precisa letra, às vezes a melodia tocada fala sem precisar cantar alguma coisa.

No volume um você gravou o Odeon, de Ernesto Nazareth. Por que essa escolha?
Eu lembro a primeira vez que ouvi essa música, era uma festa, o Mimo, um festival que passa por Olinda, Rio, cidade patrimonial de Paraty, eu estava lá por um tempo e uma banda tocou isso. Eu fiquei cativado. De repente eu saí do Brasil, voltei, conheci vários amigos, estudei numa escola de chorinho no Rio, chama Escola Portátil, voltei ao Brasil para ir lá para pegar um semestre para aprender a tocar chorinho, aprender a estrutura e tudo isso. Estudei Odeon. Para mim Odeon é como o Brasil. Eu sinto, é uma música bem complexa, harmonia, melodia descomunal. Essa música para mim tem muito sentido, por isso a escolha e nunca cansei dela.

Você falou em um ponto da conversa que cada lugar que você chega você procura se aprofundar na música daquele lugar, nas raízes. Você falou dos indígenas aqui, na porção africana da música brasileira. Como é que surge o teu interesse por música brasileira?
A bossa nova, o Brasil está mais conhecido por bossa nova. Eu canto chorinho, eu canto jazz. Chorinho, para mim, é quase tipo o jazz brasileiro, tem outra estrutura. Por isso eu viajo. Se não há muitas músicas que você nunca vai conhecer. Eu estava para aprender, pegar o suingue do samba não é tão fácil para o gringo, para aprender, conheci [a obra de] Baden Powell na Argentina, um amigo tinha o disco, e pensei: eu tenho que estudá-lo. Peguei partituras, eu não gosto muito de partituras, mas é uma boa maneira para tocar exatamente o que ele está tocando. Ouvindo, lendo a partitura, para entrar na cabeça dele. Baden Powell foi o primeiro violonista brasileiro em que tentei entrar na cabeça. De qualquer músico eu pretendo entrar na cabeça, pegar o jeito que ele está pensando.

Além destes nomes que a gente já citou e que eu te ouvi tocando semana passada, que outros nomes da música brasileira te chamam a atenção?
Caramba! Aqui no Nordeste Luiz Gonzaga, Dominguinhos, ainda não toco tanto, tipo forró, baião. Jackson do Pandeiro eu gosto da cadência. Ele é tipo hip hop, antes do rap ele já estava fazendo isso, como ele canta. Gosto como ele toca baião, forró, mas ele também toca samba, é quase uma ponte entre os dois ritmos. Ele é um grande nome para mim, uma grande figura. Mas também, por exemplo, em Pernambuco há tantos mestres de coco, maracatu. Eu tenho muita vontade de voltar por Pernambuco. Só estive lá dois meses.

Você está há quanto tempo em São Luís?
Só um mês. Pouco tempo.

A rua é uma escola?
Sim. Faço cinco anos tocando na rua. Uma bomba pode explodir a meu lado [enquanto eu estiver] tocando e vou seguir tocando. Sempre há distração, crianças, gente gritando. É uma escola.

Você falou há pouco, particularmente do samba, e da dificuldade da ginga do samba para o gringo, mas semana passada eu percebi a desenvoltura com que você faz o repertório brasileiro. Você consegue se adaptar, na minha avaliação. Como você se sente, um gringo fazendo música brasileira, mas fazendo como um nativo?
Tenho sorte, conheci muitos mestres, ainda estudo muito. Fico muitas horas praticando. É uma das melhores coisas que me ajudam, foi meu mestre Duda Pirata, lá no Rio. É um mestre do samba, sempre toca em rodas de samba, me deu um grande braço, “vai pra roda, pra brincar com a gente”. Comecei a tocar com a galera, duas vezes por semana. Às vezes o violonista não chegou, eles só falam o tom, “dó maior” e “tchec, tchec, tchec” [imita o som da batida do violão]. É uma galera sambista que viaja o mundo tocando samba.

A língua foi uma barreira, é uma barreira?
Ainda é um pouco, no início foi bem complicado. Não tanto. As pessoas querem ajudar você. Tem que estudar também, eu estudei muito. Com a tecnologia há várias maneiras para melhorar seu idioma. Música eu estudo muito, a música brasileira ajuda a pegar o sotaque, embora eu ainda tenha o sotaque forte, está melhorando.

Você falou que não vai tocar na rua para sempre. Onde é que o Vini quer chegar?
No palco. Teatros, mas quero seguir fazendo o que estou fazendo, viajando, estudando e aprendendo, como tocar na rua, na América Latina, em todos os países, do México até aqui. Não sei se esse estilo de vida vai dar certo do outro lado do mundo. Mesmo aqui é uma luta, eu não ganho muito dinheiro. Mas quero chegar ao palco. Tem que escolher o caminho do coração e este é meu caminho do coração. Não vou voltar a minha vida como era antes no meu país. Sou músico agora e vou fazer qualquer coisa para seguir esse caminho.

Minas Fusca Clube

Cliquei estes fuscas nas cidades de Itabirito, Ouro Preto, Rio Acima e Belo Horizonte, em Minas Gerais. Parados ou em movimento, fotografei-os nas mais diversas condições: de janelas de ônibus e táxis (estes dois últimos saíram cortados por inabilidade do fotógrafo, já que eles disputavam corrida com o táxi e o ônibus que eu ocupava, respectivamente), com e/ou sem o vidro das janelas de filtro, da janela do hotel. O amarelão que abre o ensaio me chamou a atenção pela conservação e quando me dei conta, além de fotografar pontos turísticos e os que me acompanhavam na viagem, estava fotografando fuscas, como se os mesmos fossem alguma espécie misteriosa de patrimônio mineiro ou coisa que o valha. No fundo são, não é?

Este post é dedicado a Jotabê Medeiros e Nana Tucci, que têm um fusca. E a tio Sérgio Tadeu, que teve vários.

Carnaval

Aqui postados na ordem em que foram feitos, 18 cliques colhidos em quatro dias de descanso, meio do mato total, em que livros e uma rede foram ótima companhia. Dias de farta comilança e, de carnaval mesmo, apenas umas cervejinhas aqui ou(tras) acolá, que ninguém é de ferro!

Nalgum ponto da estrada, onde paramos para comprar bacuris
Anum reina no campo

 

Margarida no quintal

 

O guardião da casa

 

Trânsito

 

Guardião de outra casa, curtindo preguiça

 

Um sapo...

 

... dois sapos.

 

Madame Butterfly

 

Apelido de libélula é macaquinho

 

"Cuida bem da nossa casa, marimbondo" (Milton Edilberto, "Cantiga de ajuda")

 

Cheiro verde para temperar o vinagrete, vai querer?

 

Passa boi, passa boiada

 

Urubus em frente ao mercado de Pinheiro

 

Olha a cobra!

 

Trio de vaqueiros mirins em seus cavalos imaginários

 

Anuns e japiaçocas bailam no campo

 

Pra tanto descanso, vai uma cadeira de balanço?

Ainda Morros disso…

A paisagem morruense, por si só, já compensa a viagem, que, vá lá, não é tão longa: 90 quilometrozinhos nos seperam, a Ilha de seus belos rios. E quando Morros, além do Una e outras belezuras, agrega todo mundo em seu 4º. Fest Una, encarar o congestionamento na nunca duplicada BR-135, quebrar a esquerda em Bacabeira, pedir a bênção a vovó em Rosário e seguir até o destino, vale ainda mais a pena:

Detalhes e programação completa aqui.