Amor pop

Beijo estranho. Capa. Reprodução

 

Não faz muito tempo, amigos, namorados e crushes – antes de a expressão existir – trocavam fitas cassetes com o que mais gostavam em termos de música. Hoje trocam links do youtube em profusão, através do whatsapp. Saudosistas podem afirmar que não há charme nessa instantaneidade toda, que bom mesmo era esperar sabe-se lá quanto tempo pelo grito do carteiro no portão. Neste caso, pouco importa o meio, vale mais a mensagem: o mais importante é o verdadeiro amor, como diria o compositor em título que, escrito pelos muros, acabou virando hit de redes sociais.

Tema mais cantado em todos os tempos, em prosa, verso e música, o amor é a espinha dorsal de Beijo estranho [Deck, 2017], novo álbum do Vanguart, banda mato-grossense formada por Helio Flanders, Reginaldo Lincoln, David Dafré, Fernanda Kostchak e Julio Nganga. No disco a banda conta com o reforço de Loco Sosa (bateria), além de diversas participações especiais, entre as quais destacam-se Jorge Helder (contrabaixo) e Thiago França (Metá Metá, sax e flauta em Quando eu cheguei na cidade).

O amor é pop e esparrama-se por cada faixa de Beijo estranho, longe da pieguice. São baladas facilmente assobiáveis, radiofônicas. Todas as faixas são assinadas por Flanders e Lincoln, sozinhos ou em parceria.

“Meu coração queimou devagar/ senti uma vontade subindo do chão”, a faixa-título (Flanders) abre o disco. Em Todas as cores (Lincoln), aconselham: “não vá se converter acreditando em mágoa/ não vá ter medo de se apaixonar primeiro”. O clássico Folhas de relva é citado em Felicidades (Flanders/ Lincoln): “o inferno é bom/ e o teu céu um sangue roxo/ quente eu sinto a tua relva/ Whitmânicas visagens!/ Não tenho medo”. O medo de amar é o medo de ser livre, diria outro compositor.

E o meu peito mais aberto que o mar da Bahia (Flanders/ Lincoln) é um título que diz tudo. Como o amor, não carece de explicação. “Quando eu chego em casa e você não está/ penso em te procurar mesmo sabendo que vais voltar/ se um dia foi diferente/ é porque tudo era diferente/ o teu amor me pôs de pé”, diz a letra, em melodia solar, quente. Como o amor.

De Beijo estranho poderíamos seguir transcrevendo trechos de letras. Mas as que trouxemos até aqui bastam para dar uma ideia de sua abordagem romântica, apaixonante – quem não conhecia a banda logo se toca do tempo perdido.

Os tempos são líquidos, o amor não. O Vanguart durará mais que as mensagens trocadas no whatsapp – o efeito de sua música nos corações apaixonados também. A dica é: para quem quer reconquistar um antigo amor, conquistar um novo amor ou se declarar para o crush, use Vanguart sem moderação.

Para quem não está convencido, um último exemplo: “Ardo/ sou um trem desgovernado/ que parte/ faiscando as tuas estradas/ sem pausa/ te conheço mais a fundo/ com calma/ tua risada, minha paixão/ me bate, queima, aperta, cheira, marca/ eu preciso de você/ (algo me faz lembrar, algo me faz querer)”, diz a letra de Eu preciso de você (Flanders).

Se o antigo compositor baiano já dizia que “quem não gosta de samba/ bom sujeito não é” e Beijo estranho não te ajudar na conquista, é melhor desistir: não vale a pena quem não gosta de Vanguart.

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Veja o clipe da faixa-título:

Ian Ramil mostra personalidade e talento em disco de estreia

Ian. Capa. Reprodução

 

A música está no DNA de Ian Ramil. Filho de Vitor Ramil, sobrinho de Kleiton e Kledir, ele consegue mostrar uma voz própria em seu disco de estreia, assinado simplesmente Ian [2014], completamente autoral – a dispensa do sobrenome no título do álbum talvez seja uma tentativa de minimizar a responsabilidade pela herança da família musical.

O álbum tem produção de Matias Cella, que pilota vários instrumentos – contrabaixo, ukelele, guitarra, escaleta, violão, bongô. Outro instrumentista que comparece é o percussionista Marcos Suzano – que dividiu um disco, Satolep sambatown (2007), com o pai do estreante. O próprio Ian Ramil toca violão, guitarra e cuatro – espécie de violão de quatro cordas, originário da Venezuela, popular em alguns países da América latina. A voz do tio Kleiton pode ser ouvida em duas faixas, nos coros de Rota e Over and over.

Ao contrário do pai, que em discos como délibáb (2010) e Foi no mês que vem (2013), aproxima-se de países e artistas vizinhos, Ian Ramil canta em português e inglês, aproximando-se, em determinados momentos, de nomes como os mato-grossenses do Vanguart. Ian foi gravado em Buenos Aires e vem embalado em belo projeto gráfico de Virgílio Neto.

Outras influências, ele confessa no encarte do disco: Beatles em Nescafé (“Eu cuspo nescafé/ e você chora leite de manhã/ amarro o meu sapato/ e tu veste o sutiã/ (…)/ cadê o nosso amor? me diz onde/ vou correndo pegar o bonde/ que linha liga o teu coração ao meu?”) e Jorge Ben (assim mesmo, sem o Jor posterior) em Entre o cume e o pé (“eu já não sou infantil/ só quando eu quero/ quando convém eu brinco e pulo/ se desconvém eu sério”).

Transe aborda o amor entre metáforas gastronômicas e geográficas (“que que eu faço?/ me afogo em ti!/ eu posso logo ser um peixe?/ ou quer primeiro um puta barco de sushi?/ me diz pra gente se entender/ te pego em casa e digo: linda eu vejo o sol no teu olhar/ só pra nadar a noite nesse rio”) em faixa pontuada pela tuba de Santiago Castellani.

Entre o serrote de Diego Galaz e a guitarra de Ian Ramil, o personagem de Ímã ralo equilibra-se entre dois extremos: “às vezes ele pensa que é um ímã/ é que todo o mundo parece que quer colar/ em outras ele acha que é o ralo/ onde aquele mundo todo quer escoar/ (…)/ a personalidade desse cara é uma piada/ atraindo e escoando o que ele é”, diz a letra. Nela, Ian explora algumas possibilidades vocais, ele mesmo equilibrando-se entre a aproximação ou o distanciamento do conforto oferecido pelo sobrenome da família. Personalidade e talento ele prova ter de sobra neste consistente disco de estreia.

Confiram Ian Ramil em Suvenir.