Diga não!

Foto: Zema Ribeiro

 

Limpando o e-mail, encontrei esta foto, que fiz em junho de 2009, e capta Cesar Teixeira e Lena Machado cantando juntos por ocasião do lançamento do Tribunal Popular do Judiciário, movimento que agitou o segundo semestre daquele ano, desde este evento, no auditório da OAB/MA, em São Luís, até a grande plenária estadual, realizada em dezembro no ginásio do Colégio Dom Bosco (Renascença), precedida por diversas etapas estaduais, realizadas em municípios-polo em cinco regiões do Maranhão.

O movimento, encabeçado pela Cáritas Brasileira Regional Maranhão, junto a outras organizações sociais, algumas de caráter estadual, outras com raio de atuação mais circunscrito aos municípios em que estão sediadas, tinha por objetivo denunciar uma série de desmandos da Justiça maranhense, que iam desde o não cumprimento do expediente por juízes – que deveriam residir nos municípios em que atuavam, mas eram apelidados TQQ, por só trabalharem às terças, quartas e quintas –, até juízes que, armados, comandavam ações de reintegrações de posse, agindo como comandantes da polícia, ou que mandavam prender funcionários de companhia aérea por perder um voo.

As diversas etapas do movimento estão fartamente documentadas no blogue do Tribunal Popular do Judiciário, que acaba funcionando como uma espécie de clipping de sua rápida, mas necessária, existência.

Uma das etapas mais aguardadas e concorridas das plenárias do Tribunal Popular do Judiciário era a Tribuna do Povo, quando eram apresentadas queixas contra o sistema de justiça – pensões alimentícias e aposentadorias que repousavam meses em mesas de juízes, por vezes condenando pessoas (velhos e crianças, inclusive) à fome, para ficarmos num único exemplo.

Feito por homens e mulheres simples, animado por um organismo da Igreja Católica, talvez por isso o Tribunal Popular do Judiciário tenha tido algo de profético.

Anos depois, ao rever a foto, impossível não pensar em magistrados que agem movidos por convicções e não por provas. Que aparecem sorrindo ao lado de figurões de um partido enquanto promovem toda a sorte de perseguições a gente de coloração partidária diversa da que lhe agrada.

Uma das músicas cantadas por Cesar Teixeira e Lena Machado quando disparei este clique foi Oração latina, dele, gravada por ela em seu disco de estreia, Canção de vida (2006), que celebrava os 50 anos de atuação da Cáritas no Brasil – o título vem da letra dessa música, originalmente lançada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, vencedora do Festival Viva Maranhão de Música Popular, em 1985.

Oração latina foi composta três anos antes, em 1982, para a trilha sonora de uma peça de teatro. O Brasil já vivia a chamada “abertura democrática”, reta final da ditadura militar que assombrou o país entre 1964 e 1985. “Com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar”, cutucava o cão com vara curta a letra do jornalista e compositor.

Impossível não destacar aí, também, algo de profético. E necessário. Num tempo em que juízes tomam partido e ignorantes pedem a volta da ditadura militar, sob a égide de um golpe político-jurídico-midiático.

“Mas se for pra nos prender, diga não”, arremata a letra de Oração latina.

Maranhão: violência e barbárie

O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, Pe. Jean Marie Van-Damme, publicou Nota sobre a violência no Maranhão, em que comenta os recentes acontecimentos/homicídios no estado. A nota pode ser lida no site da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, no blogue do Tribunal Popular do Judiciário ou ainda no blogue Outros Olhares, do advogado Igor Almeida.

Nove entidades da sociedade civil maranhense, entre as quais a SMDH e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, ambas com assessoria de comunicação deste blogueiro, publicaram nota convidando a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) a conhecer o Maranhão e seu ambiente de barbárie.

A nota é fruto de uma polêmica gerada por declarações do jornalista Emílio Azevedo à Rede Brasil Atual, no calor dos recentes acontecimentos/homicídios nas últimas semanas no Maranhão, sobretudo a execução do jornalista Décio Sá. Um dos coordenadores do jornal mensal Vias de Fato, Azevedo se viu alvo de uma campanha covarde e raivosa, por parte de jornalistas que não se veem na barbárie citada por ele, a exemplo do que já havia acontecido com o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA.

Ambos foram atacados diuturnamente por jornalistas ligados à Mirante/Sarney, que preferem se enxergar no mundinho cor-de-rosa, cor-de-roseana que nem o bárbaro, cruel e covarde assassinato de Décio Sá serviu para provar que não existe.

Nagô

O governo de Roseana Sarney reforma escolas (e prédios públicos em geral) assim: joga uma demão de tinta e aplica a logomarca de sua (indi)gestão.

Assim aconteceu, não pela primeira vez, com o Centro de Ensino Médio Gonçalves Dias. Resultado: a tinta sarneysta apagou a arte do Coletivo Nagô. Arte sim, ou você acha que o grafite não merece o status?

Agora o grupo de artistas voltou à carga, unindo-se à luta dos moradores do Vinhais Velho, ameaçados com a construção da Via Expressa (leiam sobre o assunto no blogue do Tribunal Popular do Judiciário e/ou na página da SMDH). Artistas sim, ou você acha que grafiteiro é bandido, é marginal?

Abaixo, duas fotos do muro, a segunda uma espécie de close da primeira (é ou não é genial?). Quem quiser sacar a arte in loco, é só passar ali pela Av. Kennedy, na altura da entrada do Bairro de Fátima.

Vinhais Velho resiste...

 

... e o Coletivo Nagô une-se à luta

Vinhais Velho organiza Almoço da Resistência

Ato acontece quarta-feira (18), ao meio-dia, buscando novamente chamar a atenção para problemas trazidos pela Via Expressa

DO TRIBUNAL POPULAR DO JUDICIÁRIO

Moradores da comunidade Vinhais Velho realizarão na próxima quarta-feira (18), um “Almoço da Resistência”, para o qual estão sendo convidados profissionais dos meios de comunicação, militantes de organizações de direitos humanos, parlamentares estaduais e federais, além dos moradores da região.

O Vinhais Velho é uma das áreas que serão atingidas com a construção da Via Expressa. Desde o anúncio e a ostensiva propaganda em relação à obra do governo do estado seus moradores vêm se organizando para resistir. Já foram realizados cafés da manhã, reuniões e celebrações ecumênicas.

De acordo com diversos moradores, após a repercussão destes atos de resistência, a única preocupação dos responsáveis pela obra é com a manutenção de uma igreja local, com quase 400 anos de edificada. As indenizações propostas estão bastante aquém do valor de mercado.

O Almoço da Resistência acontecerá ao meio-dia, na Granja do Japonês, localizada na Rua Grande, nº. 90, no Vinhais Velho.

Quilombolas decidem acabar greve de fome

Garantia da vinda da ministras (sic) de Direitos Humanos e da Igualdade Racial a (sic) São Luís, além do encaminhamento de alguns itens da pauta de reindivicações (sic), levou ao fim do acampamento e do protesto realizados na sede do Incra, situado no bairro do Anil

Da Redação

O anúncio da visita das ministras de Direitos Humanos e da Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, além de representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário, à São Luís suspendeu, ao menos até o próximo dia 22 de junho o Acampamento Negro Flaviano e a greve de fome a que se submeteram 18 lideranças e simpatizantes.

Na data acontecerá uma audiência na sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, na capital maranhense, para tratar da pauta de reivindicações dos manifestantes. O anúncio da visita foi feito pela própria ministra de Direitos Humanos Maria do Rosário, por telefone – colocado em modo viva voz e ao microfone o compromisso foi assumido perante a plenária que lotava o auditório do Incra. Ela estava no vizinho Pará tratando de questões relativas ao assassinato de lideranças camponesas naquele estado.

Maria do Rosário também se prontificou a negociar com o Governo do Maranhão para que fossem assegurados o retorno dos quilombolas às suas comunidades, bem como a garantia de vida e segurança dos mesmos. Lideranças entenderam que a suspensão do acampamento não é uma derrota. “A ministra coloca o Maranhão na pauta e nos pede um prazo. Veremos que providências serão tomadas até e na audiência do dia 22. Não é o que queremos, mas dependendo dos resultados, o acampamento e as greves de fome serão retomadas”, afirmaram.

No último sábado dia 11, em reunião coordenada pelo vice-governador, Washington Luiz Oliveira, e com presença de secretários estaduais e de lideranças das comunidades do quilombo do Charco, de São Vicente Férrer, foram apresentados e discutidos os próximos pontos da pauta acertada e que ajudou a pôr fim à greve de fome dos quilombolas. Estiveram presentes as secretárias de estado de Direitos Humanos, Luiza Oliveira; de Desenvolvimento Agrário, Conceição Andrade; de Igualdade Racial, Claudett Ribeiro; e o delegado-geral de Polícia Civil, Nordman Ribeiro, representando o secretário de Segurança, Aluisio Mendes. Também participaram, a convite do vice-governador, os representantes da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (Aconeruq), Reinaldo Sales Avelar, e Maria José Palhano.

Chupa! – O Imparcial, Urbano, p. 2, hoje. O trecho em itálico é o texto que este blogueiro publicou no site da SMDH e no blogue do Tribunal Popular do Judiciário, sábado (11): um “com informações da assessoria” não cairia mal. Apenas o título  e o sutiã foram modificados, além de acrescido um quarto parágrafo, fazendo com que o jornal entre em contradição: uma coisa é acabar, outra coisa é ser suspenso (temporariamente). Torço para que o acampamento tenha, de fato, acabado; mas disso só se saberá dia 22: jornalismo deve informar, não torcer, nem distorcer.