Chorografia do Maranhão: Adelino Valente

[O Imparcial, 20 de julho de 2014]

Engenheiro civil, professor universitário, bandolinista e pianista, fundador do Regional Tira-Teima, Adelino Valente é o 36º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

A entrevista com Adelino Valente, em sua casa, no Calhau, começa com ele mostrando uma velha fotografia emoldurada sobre uma mesa de centro: ao lado de outros músicos, ele figura como integrante do Conjunto Marista, sua “primeira escola musical”, um grupo especializado em jovem guarda, cujo sucesso extrapolou os muros do tradicional colégio, então no Centro de São Luís, e chegou a fazer muitos shows em cidades do interior, próximas à capital.

Sobre o piano vários discos, sobretudo de pianistas nacionais e internacionais, entre a bossa nova e o jazz, e um retrato de Letice Valente, sua filha, psicóloga e cantora, que ele elogia.

Adelino Valente da Silva Filho é filho de Dóris Moura da Silva e Adelino Valente da Silva, um português que chegou a vice-cônsul de Portugal, tendo aportado por aqui já com uma vocação musical. É o quinto de oito irmãos, todos com aptidões musicais. Em 16 de setembro de 1953, quando nasceu, sua família morava na Rua dos Afogados, esquina com Rua da Alegria, onde funcionava o vice-consulado de Portugal.

Arregimentador e arranjador de Antoniologia Vieira, disco dedicado à obra do compositor Antonio Vieira, com a participação de diversos nomes da música do Maranhão, entre os quais Zeca do Cavaco [cantor e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Zé Carlos [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013] e Léo Capiba [cantor e percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de maio de 2014], chegou a acompanhar o compositor, ao bandolim e piano, no teatro do Itaú Cultural, em São Paulo, em 2005. Também dividiu um disco, hoje esgotado, com o violonista Turíbio Santos [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 29 de setembro de 2013].

 

Adelino Valente define-se como “um apaixonado pela música, engenharia e magistério”. Seu depoimento à Chorografia do Maranhão foi ilustrado musicalmente por Todo o Sentimento [Chico Buarque e Cristóvão Bastos] e um medley de Ernesto Nazareth, executados ao piano.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Quando sua vocação para a música começou a aparecer? Minhas duas irmãs, Ana Clara e Fátima, estudavam piano. Eu, com cinco, seis anos, lembro de papai reclamando: “vocês não estão progredindo, vocês precisam estudar mais”. Quem ensinava minhas irmãs era Maria José Cunha, uma professora da Rua do Sol, Sinhazinha Carvalho, tia de [os irmãos] Marcelo [Carvalho, pianista] e Tutuca [cantor, compositor e produtor cultural], então, papai sempre reclamando, ele era muito exigente pra que todo mundo tocasse. E elas diziam: “papai, a gente nem piano tem, como é que a gente vai progredir?” Papai, “bom, se for o caso a gente vai comprar um piano”, e terminou comprando. Quando esse piano chegou eu tinha uns oito anos de idade. Quando minhas irmãs começaram a estudar, aquilo batia aqui no coração e eu não sabia explicar o porquê. Eu querendo me aproximar e elas me dando bisca, “sai daqui menino, tu vais desafinar o piano novo”. Eu não conseguia nem botar um dedo numa tecla. Meu irmão Fernando Silva, que estudava violino, chegou em casa, abriu o piano, tocou boleros, eu achava maravilhoso. Ele me deu oportunidade: “vem ouvir aqui, deixa eu te mostrar”. A primeira noção que eu tive de piano: tem essas duas pretinhas, o dó tá bem aqui; tem essas três pretinhas, o fá tá bem aqui [aponta teclas no instrumento], nunca me esqueci disso. Eu sentia uma emoção diferente; com oito anos consegui chegar ao piano, minhas irmãs não estavam lá. Eu comecei a tocar as músicas bobinhas que eu sabia, Parabéns a você, muito fácil, Noite feliz, eu cheguei e comecei a catar. Comecei a ver que o que eu sabia aqui dentro eu conseguia passar para o piano com a mão direita. Uma das vezes mamãe escutou eu tocar uma música de brincar de roda, e ela chamou papai: “Adelininho tá tocando Atirei o pau no gato”. Papai, que era músico, percebeu em mim alguma tendência musical. Com isso, minhas duas irmãs, que já tocavam clássicos, começaram a desistir. E eu comecei a chegar perto do meu primeiro instrumento, o piano. Com 10 anos, Fernando Silva, hoje juiz aposentado, começou a me orientar, eu achava que ele era o maestro. Nessa época eu já estudava no Marista e lá encontrei outras pessoas com aptidão musical. Esse grupo musical do Marista foi uma pré-escola, onde tivemos uma orientação importante do professor Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ele era do Liceu [Maranhense] e conheceu nosso grupo.

 

Esse grupo era o Conjunto Marista? Sim. O mais novo era Luiz Fernando [guitarrista], Celso [baterista] era o mais velho. Eu [contrabaixo], Rodrigo Caracas [tecladista] e Jomar Sadok [guitarrista] somos da mesma faixa etária. A gente começou a tocar tudo o que Roberto Carlos lançava, jovem guarda etc. Ubiratan chegou lá uma vez, nunca esqueço, mostrando a harmonia de Garota da Ipanema [Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes]. Aquilo, cada vez que ele mostrava, era um impacto. Acabou que terminei me especializando nisso, harmonias complicadas, dissonâncias, jazz, bossa. Mas naquele tempo… eu sei que esse conjunto nosso foi uma coisa importantíssima. Eu tocava em casa, devagarinho, minhas irmãs se conformaram e no Marista começou isso. Durou uns seis, sete anos. E todas as sessões [os eventos] no colégio tinham que ter participação desse grupo. E tocar bem naquela época era tocar igual ao disco.

Quem você considera seus principais mestres no piano? Eu já tive os principais mestres depois de bastante tempo. César Camargo Mariano, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzzetta e Tom Jobim, entre outros.

Mesmo sem ter tido aulas com eles? Ou você teve aulas com algum deles? Pessoalmente não. Eu ia fazer a escola de Antonio Adolfo, no Rio, mas não cheguei a frequentar. Ele é maravilhoso, a filha dele, Carol Saboia, maravilhosa também. Isso foi numa etapa bem posterior, por que o primeiro instrumento foi piano, mas eu não continuei tocando fora de casa.

Então teu irmão acabou cumprindo um papel de te encaminhar para o piano. O primeiro mestre foi meu irmão. Fernando Silva, advogado, juiz, ele tem atualmente um piano de cauda em casa. No Marista eu tocava contrabaixo, meu professor era o Neném [da banda Os Incríveis, fenômeno da jovem guarda].

Ao que parece você já estava caminhando para ser multi-instrumentista. É, eu tocava ouvindo bastante o Pitomba [contrabaixista], do Nonato e Seu Conjunto. Eu ia para o [clube] Jaguarema, no carnaval, eu não dançava, eu e meu irmão Luis Fernando ficávamos observando. Olhei muito Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013] também, ele era guitarrista dos Fantoches. Neném, fora daqui, e Pitomba, aqui, foram dois caras em que me inspirei muito para tocar contrabaixo. Tinha também o Osmar, filho do maestro Pedro Gromwell, que tocava baixo acústico.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Você chegou a conhecer o professor Pedro Gromwell? Eu conheci, tive duas aulas com ele de violino, eu tinha apenas sete anos de idade, mas fiquei com medo. Ele era um senhor com o cabelo partido no meio, e papai dizia “tu vais ter que aprender com ele”. Ele me deu duas aulas teóricas. A primeira noção de compasso e tempo, eu não cheguei a pegar em instrumento nenhum. Ele chegou, na primeira aula, eu já estava dividindo. Eu, sem um preparo psicológico. Ele era um cara moreno, com os olhos claros, o cabelo partido no meio, uma gravata borboleta, era estranho. Mas foi bom. Na verdade, eu sou 90% autodidata. Depois eu fiz uns cursos por correspondência, harmonia para piano. É uma coisa intuitiva que foi crescendo.

O que vocês ouviam em casa, em termos de música? O que papai ouvia era fado, a música portuguesa. Eu realmente nunca fui muito voltado para ela. Ele trazia discos de Portugal, novidades, gravações. É uma música muito sentimental, mas não me emocionava, em termos de harmonia eu achava muito simples. E papai além de violino, tocava um pouco de violão.

Isso se mantém hoje ou sua relação com o fado mudou? Se mantém. Eu ouço se alguém tocar, mas eu comprar, eu não compro. Eu prefiro o trabalho da música brasileira. Agora papai se emocionava, chorava, ouvindo.

A música nunca pareceu ter a perspectiva de profissão. Não gostaria de dizer que ela tem ou teve um papel secundário, mas você tem outras formações? Sempre gostei muito de Matemática e Física. Eu entrei na Universidade para cursar Engenharia Civil e depois Licenciatura Plena. Fiz as pós-graduações já como professor da Universidade Federal do Maranhão. Agora, a paixão de nascença é a arte musical.

Houve alguma fase de sua vida em que você viveu de música? Ou ela sempre foi mais hobby? Levo a música muito a sério, sou muito perfeccionista, não é tocar por tocar. A música é um complemento. Apareceu um trabalho, ótimo! Não apareceu, a gente tem como se manter.

Com quem você aprendeu bandolim? É o seguinte: papai me deu as primeiras noções e eu fui evoluindo, ele tirando algumas dúvidas; como ele queria que eu estudasse violino e não deu certo, ele disse “meu filho, você vai estudar guitarra portuguesa”. Guitarra portuguesa é o xodó de todo português. Fomos passar umas férias em São Paulo e papai me levou na escola do professor Manoel Marques. Era o cara da guitarra portuguesa aqui no Brasil. Chegamos lá, pelo sotaque um já reconheceu que o outro era português, “esse é meu filho, tem 14 anos, toca um pouco de piano, um pouco de bandolim”. O professor me recebeu, pediu que eu tocasse os instrumentos que eu já estava tocando e ele se interessou: “esse menino tem que ficar aqui, não pode voltar para São Luís”, mas é tudo aquela coisa que você não tem condições de decidir. “Olha, o que ele já toca de bandolim, não vai dar trabalho nenhum para passar para a guitarra portuguesa, agora ele tem que passar aqui uns três meses, estudando a teoria musical”. É outra coisa que não vingou. Ele me deu um método de guitarra portuguesa, eu tenho até hoje guardado. Aí, papai tinha uma guitarra portuguesa, a influência dele foi fundamental. Ele não era um exímio tocador, mas na época, para a gente, era. Eu já estava tocando bandolim e a guitarra portuguesa era uma coisa nova, eu cheguei a tocar, com o livrinho do professor. Eu nunca tive dificuldade de tocar nenhum instrumento. Todos os instrumentos que eu peguei, eu consegui entender e tocar. Mas a gente precisa definir uns dois ou três instrumentos, no máximo.

 

Além do piano e bandolim, que outros instrumentos você toca? No segundo científico do colégio Marista, eu devia ter uns 17 anos, mais ou menos. Regina Telles [professora de artes], muito conhecida, apresentava um programa num canal de televisão, e eu fui escolhido para tocar todos os instrumentos que eu sabia. Eu cheguei a tocar 12 instrumentos,acompanhado por Zé Américo Bastos e Ubiratan Sousa. Não lembro se Antonio Paiva participou no baixo. Eu toquei piano, contrabaixo, bandolim, cavaquinho, violão, flauta doce, lápis – um instrumento inventado por nós no Marista, batendo o lápis no dente –, toquei Tico Tico no fubá [Zequinha de Abreu], toquei também guitarra e pistom. Não sei se esqueci de algum instrumento. Fiquei conhecido lá como o homem 10 instrumentos. Foi um programa muito bom, divulgou um trabalho, não lembro agora o canal. Eu fazia parte da banda do colégio Marista, era cornetista solo. O pistom eu toquei olhando o Helinho do Nonato [e Seu Conjunto]. Eu acabei me dedicando a dois instrumentos: o bandolim e o piano.

 

Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução
Antoniologia Vieira. Capa. Reprodução

Foi por essa época que surgiu o Regional Tira-Teima? Como foi essa história? Ubiratan queria montar esse grupo. O bandolinista que ele conhecia era eu, do Marista. Na época em que ele me conheceu eu já me apresentava ao bandolim, fora do conjunto Marista. Dizia-me Ubiratan, “vamos montar um grupo”, mas quem? Ubiratan me ligou falando “encontrei um percussionista maravilhoso, vou levar no teu apartamento”. Liguei pra papai, pra ele ir conhecer a formação do grupo. Quando eu chego lá, vejo um senhor. Ubiratan me apresentou ao percussionista. “Como é seu nome?” “Antonio Vieira”. Ele foi o primeiro percussionista do Tira-Teima. Nós somos fundadores, sob o comando de Ubiratan. Eu peguei o bandolim, nesse tempo estava me dedicando muito, o piano estava até esquecido. Papai gostou, deu sua opinião favorável. Faltava cavaquinho, violão. Ubiratan convidou Cesar Teixeira, ele foi o primeiro cavaquinista do Tira-Teima. Às vezes ele ia num [ensaio], não podia ir em outro, chegou-se à conclusão que não ia dar, tinha outras ocupações, composição, inteligente demais, gosto muito dele. Ubiratan lembrou que tinha um rapaz estudando violão com ele, “muito interessado, Paulinho”. Eu disse: “rapaz, Paulinho é primo de minha esposa”. Era Paulo Trabulsi [cavaquinhista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], eu o conhecia do Marista. Paulo chegou se justificando, “olha, pessoal, eu estou começando, eu toco violão, cavaquinho eu estou arranhando”. Começou a treinar, Ubiratan orientando. Aí ficou Paulo no cavaquinho. Nós começamos a ser conhecidos até fora do Maranhão. Nos encontramos com o [Conjunto] Época de Ouro, Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinhista, fundador do Clube do Choro de Brasília]. O Regional foi crescendo, faltava um violão, foi entrando gente. Arlindo [Carvalho, percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] assumiu a segunda percussão, Fernando Vieira, que chamavam Fernando Cafeteira, já falecido, tocava violão, Chico Saldanha [compositor] também e depois Sadi Ericeira [violonista, irmão de Paulo Trabulsi].  Nós tivemos a grande sorte de contar com Hamilton Rayol como crooner, que voz maravilhosa! Faleceu com 57 anos. Ele cantava muito choro e muita MPB de qualidade. Feitio de oração [Noel Rosa e Vadico], Olhos nos olhos, de Chico Buarque, dentre outras canções. Além de grande cantor era uma pessoa maravilhosa. O Regional seguia seu trabalho e intuitivamente Vieira começou a me mostrar suas composições. Ao final dos ensaios, pegava o violão, tocava, eu ficava admirado. “Vieira, isso dá um trabalho bonito! A gente vai ter que fazer um disco”. Depois Zeca Baleiro entrou na jogada também. O disco que eu fiz [Antoniologia Vieira] foi primeiro,mas o show [O samba é bom, produzido por Zeca Baleiro, disco gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo] foi primeiro a ser apresentado. Isso foi por volta de 2000. O Regional Tira-Teima já tinha acabado em 1984 por que Ubiratan foi embora daqui, se mudou para São Paulo. O Regional acabou com essa formação.

De onde vem o nome Tira-Teima? Tira-Teima é uma música de Ubiratan. É como se fosse um desafio para alguma música. É uma música muito bonita, inclusive nós tocávamos no grupo, entre outras. O Regional acabou em 1984, mais ou menos, mas a gente se encontrava sempre que podíamos.

Lances de agora. Capa. Reprodução

Por que você não tocou em Lances de Agora [1978], de Chico Maranhão? Eu ia tocar nesse disco, só tem que no dia da gravação [o disco foi gravado em quatro dias na sacristia da Igreja do Desterro] nasceu o Bruno, meu primeiro filho, artista, dublador de filmes e Analista de Sistemas, hoje residindo no Rio de Janeiro.

Além do Conjunto Marista e do Tira-Teima, de que outros grupos musicais você participou? A gente montou um grupo de bossa e jazz, eu no piano, Luiz Cláudio [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de junho de 2014] na percussão, Paulo Lima no baixo e Athos [Lima], filho dele [Paulo], na guitarra. O baterista era Celso Raposo, o mesmo do conjunto Marista. O grupo se apresentou em vários eventos sociais. Depois Paulo Lima saiu e entrou Antonio Paiva. Esse grupo tinha uma das melhores cantoras do Maranhão, que eu considero até hoje e pouca gente conhece: Lúcia Faria. É a Leny Andrade do Maranhão! Ela cantou muito por muito tempo no Rio de Janeiro, acompanhada por grandes pianistas, dentre eles Luiz Eça. Depois nós montamos o Quarteto Insensatez. A formação inicial sou eu no piano, Luiz Mochel [cantor], voz, [Arlindo] Pipiu no contrabaixo acústico e Arlindo Carvalho na bateria. Depois Pipiu se ocupou com o seu estúdio, aí entrou o Antonio Paiva no lugar dele, alternando com Pedro Duarte [contrabaixista e saxofonista]. Estamos fazendo diversos shows com a integração de Milla Camões e participação de Marina Vasconcelos [cantoras].

E como está a atividade musical hoje? O Insensatez a partir de agosto, setembro, voltará às suas atividades musicais. Tive participação especial como pianista em oito músicas no show do Marconi [Rezende, cantor], o último, [celebrando os] 70 anos de Chico Buarque, um show maravilhoso no Barulhinho Bom, muita gente, jovem, inclusive. Já estou começando a preparar um novo show, provavelmente em agosto, de Roberto Rafa [cantor e compositor]. Estudamos juntos no Marista, já fiz dois shows com ele, depois que ele retornou, ele passou 20 anos em Brasília. Em 2012 tocamos no Teatro Arthur Azevedo, depois na sede da Caixa Econômica [a APCEF, Associação do Pessoal da Caixa].

Além de multi-instrumentista você desempenha outras funções na música? Faço arranjos e componho temas. Depois que sair aposentado como professor da Universidade Federal do Maranhão pretendo começar a gravar os meus discos, com convidados, a maior parte de músicas de maranhenses. Aqui nós temos belas canções. Uma música que eu quero gravar, chama-se Fuga e Anti-fuga, de Sérgio Habibe. É lindíssima! Já mostrei para ele o arranjo que fiz no piano. Pretendo também incluir nesses trabalhos, músicas de Marcelo Carvalho, Tutuca, Ubiratan Sousa, Giordano Mochel, Luiz Reis e Tânia Maria, dentre outros compositores maranhenses.

Quem são os instrumentistas, no piano e no bandolim, que te chamam a atenção, hoje? No piano, Gilson Peranzzetta, César Camargo Mariano, Francis Hime, Cristovão Bastos. No bandolim, Jacob foi o mestre, Hamilton de Holanda, Déo Rian e admiro demais o Joel Nascimento.

No piano você dá mais ênfase à bossa; no bandolim, ao choro. O que significa essa música para você? Pra mim o choro é o Brasil. A bossa nova já é uma mistura que vem dos Estados Unidos, com o jazz misturado com o samba, com aquela batida atravessada. Mas no bandolim eu não toco só choro, eu toco música popular brasileira.

Chorografia do Maranhão: Paulo Trabulsi

[O Imparcial, 22 de dezembro de 2013]

Titular do cavaquinho solo do Regional Tira-Teima, mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão, Paulo Trabulsi é o 22º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um cortejo natalino interrompeu a entrevista que Paulo Trabulsi concedeu à Chorografia do Maranhão, no ECI Museu, na Praia Grande. Titular do cavaquinho do Regional Tira-Teima, o músico atendeu a mãe ao telefone: “estou em uma entrevista. A Bia [filha do músico] está comigo”, a avó queria saber da neta, que atendeu outras ligações enquanto ele conversava com os chororrepórteres.

A conversa aconteceu à boca da noite de 17 de dezembro passado, ocasião em que esperávamos, todos, o recital de lançamento de João Pedro Borges – violonista por excelência, perfil de Sinhô [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013] escrito pelo jornalista Wilson Marques. Depois da conversa, Paulo Trabulsi, entre outros amigos, subiu ao palco em que o ex-integrante da Camerata Carioca desfilou um repertório que lhe marcou a trajetória, com participações especiais, além do entrevistado, de Serra de Almeida [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], Zezé Alves [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Francisco Solano [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Juca do Cavaco, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Chico Saldanha [compositor] e Simão Pedro Amaral [professor de canto da EMEM].

Filho do farmacêutido Sadi Ari Ericeira e da contadora Mary Trabulsi Ericeira, Paulo César Trabulsi Ericeira nasceu em São Luís em 28 de novembro de 1957. Funcionário da Caixa Econômica Federal desde 1979 sempre conciliou o ofício de bancário com o de músico – com a segunda profissão gasta parte do dinheiro que ganha na primeira.

Paulo Trabulsi cursou até o nono período de engenharia mecânica e, por força do trabalho no banco, estudou processamento de dados.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era o ambiente musical na casa, na família? Se praticava música, se ouvia, ou ambas as coisas? Era um ambiente em que se ouvia muita música. Meu pai tinha um gosto musical extremamente apurado. Eu nesta época, muito jovem, cinco, seis anos de idade, nessa época o que papai ouvia era jazz americano e muito choro. Música instrumental de modo geral. Papai tinha a coleção completa de Jacob do Bandolim. Então, eu ouço Jacob, tá impregnado na minha cabeça…

Mais do que Waldir Azevedo? Mais do que Waldir Azevedo. Desde muito jovem. Então eu cresci escutando isso.

Jacob, para você, acaba sendo uma referência, mesmo você sendo cavaquinhista e ele bandolinista. Tenho muito mais referência no som de Jacob, que eu ouvi muito mais. Embora papai também tivesse discos de Waldir Azevedo.

E sua mãe? Mamãe só apreciava, mas não tinha esse gosto musical apurado. Ela era muito orgulhosa de nós filhos, eu e Sadi, meu irmão, dos cinco filhos nós ficamos com essa veia musical. Mamãe tinha prazer de nos ver aprender a tocar alguma coisa.

A partir de quando você se interessou por aprender música? Desde muito jovem, seis, sete anos de idade, mamãe comprou um violão e eu comecei a aprender sozinho, observando. Era uma musicalidade muito grande. Eu me recordo que papai levava a gente para aqueles bailes de carnaval no Lítero, e eu ficava o baile inteirinho olhando pra banda tocar. E na época, depois eu vim descobrir, o guitarrista da banda era o Agnaldo Sete Cordas [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Eu ficava hipnotizado por aquele senhor tocando aquela guitarra, tão melodiosa, tão harmônica. Tempos depois, a gente se identificou: “eu me lembro de ti, tu não era aquele gordinho que ficava ali na frente?”

Você teve algum estudo formal de música ou sempre foi autodidata? Tive depois. Depois eu fiz violão clássico aqui na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo].

Hoje você é reconhecido como um de nossos principais cavaquinhistas. Como se deu a passagem do violão para o cavaquinho? O cavaquinho apareceu depois, eu vendo alguém tocar, eu acho que foi o Carvalhinho [Trabulsi atende a mãe ao celular]. Nessa época eu conheci Juca, Vadeco [cavaquinhista do grupo Espinha de Bacalhau] e nós praticamente começamos juntos. Vadeco já tocava e era o cara, já solava coisas de Waldir Azevedo e nós não sabíamos nada. Ele foi aquela fonte de inspiração pra gente.

Isso era que ano? Isso foi 1974, 73. Eu já me dou com Juca e com o irmão dele há muitos anos.

Quem você considera seu grande mestre do cavaquinho, quem mais te ensinou? Eu aprendi a tocar cavaquinho escutando Waldir Azevedo. Botava o vinil de Waldir Azevedo, nessa época não tinha cd, não tinha nada. Agora tu imagina aprender a tocar Brasileirinho, naquela velocidade que ele tocava, num disco de vinil. Ia voltar um pedacinho era um sofrimento, tira o braço, “perdi”, volta de novo, foi desse jeito. Eu aprendi a tocar dessa forma. Nessa época a gente fazia umas rodas de choro aqui na [rua de] São Pantaleão, tinha Magno Frias, com Ricardo Frias, o próprio Juca do Cavaco, Vadeco, Cotia. Foi dessa forma que eu comecei minha carreira de chorão. Um belo dia o professor Ubiratan, maestro Ubiratan, me encontrou tocando numa dessas rodas. Tinha aberto uma vaga no Regional Tira-Teima, que já existia e eu nem sabia. Era justamente a vaga que o [jornalista e compositor] Cesar Teixeira ocupava como cavaquinhista e saiu, por um motivo que eu não sei qual foi. Eu estava bem no começo e fui chamado para fazer uma espécie de experiência. Esse ensaio foi marcado para a casa de Ubiratan, na São Pantaleão. Outra figura importante, eu não posso deixar de falar, foi Joacilo [Frota], me deu muita noção harmônica de samba e choro.

Você conviveu com Juca na Rua do Norte e foi chamado para um ensaio na casa de Ubiratan na São Pantaleão. Você morava onde, nessa época? Aqui pelo Centro, também? Não. Até hoje mamãe mora no mesmo local, na Rua Silvio Romero, no Retiro Natal. O ponto de referência era a estação do bonde, onde ficou a Cobal, o Horto. Juca eu conheci no [Colégio] Marista.

Ali por perto da casa de seu Vieira [o falecido compositor Antonio Vieira, percussionista da primeira formação do Tira-Teima]. Exatamente, na mesma rua de Vieira. Eu cresci com Antonio Vieira por ali, influência musical. Pois bem, primeiro ensaio. Eu chego lá já encontro as feras formadas: Adelino Valente no bandolim, Ubiratan no violão de seis cordas, Fernando Cafeteira no outro violão, Chico Saldanha no outro violão, Antonio Vieira, percussão, Arlindo Carvalho [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de agosto de 2013] numa outra percussão e Hamilton Rayol, cantor. Se não me falha a memória eles tocaram Noites cariocas [de Jacob do Bandolim]. E eu todo atrapalhado, só via as cabeças balançando assim negativamente. “Me lasquei, não vão me querer aqui” [risos]. Por que realmente eu não sabia nada. Mas ali naquele momento eu vi que minha identidade com a música era aquela coisa ali. Era aquela coisa: daqui eu não saio.

Quer dizer: mesmo errando você se sentiu em casa. Quer dizer: uma chance para aprender. A minha vertente musical é essa. Eles estavam muito na frente, eu estava começando. Mas rapidamente eu me dediquei, estudei. Passado algum tempo eu já estava no nível deles. Quer dizer, não no nível deles, Ubiratan é um cara… mas a minha evolução foi muito rápido.

Teus pais sempre apoiaram? Nunca teve uma reprimenda, “meu filho, vai procurar outra coisa pra fazer”? Sempre apoiaram. Nunca! Ainda falando sobre o Tira-Teima, por que a minha história se confunde com a do Tira-Teima. Daí pra frente, tudo foi Tira-Teima. Então, até 79 este grupo existiu com essa formação, depois entrou [o percussionista] Carbrasa, se não me engano, Jorge Cotia, eles botaram como uma forma de me tirar [risos], mas não me tiraram, Jorge Cotia tocava cavaquinho. Em 79 eu entrei na Caixa e logo em seguida me jogaram pro interior, pra Bacabal. Ubiratan foi embora pra São Paulo junto com Chico Saldanha. Quando eu voltei em 82 o Tira-Teima já não existia nessa época, estava esfacelado. Aí eu fiz parte do Regional Alma Brasileira, que era [o bandolinista] César Jansen, [o violonista] Natan, o próprio Fernando Cafeteira e Carbrasa. Esse grupo durou mais ou menos um ano. Logo em seguida eu conheci Serra de Almeida, em 84, e nós fundamos essa nova versão do Tira-Teima. Aí foi Serra de Almeida, Gordo Elinaldo [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 27 de outubro de 2013], Zeca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de julho de 2013], Carbrasa, que depois saiu e entrou Zé Carlos [percussionista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 10 de novembro de 2013]. Anos depois saiu Gordo pra entrada do Solano, que é a formação que se mantém até hoje. Mas a gente tem contato com todo mundo, Adelino Valente é nosso amigo, Arlindo Carvalho está sempre com a gente. Inclusive a gente está gravando, finalmente, nosso primeiro disco e a ideia é tê-los como convidados.

O que significou para você ter participado do antológico Lances de Agora [disco gravado em 1978 na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís], de Chico Maranhão? Lances de Agora foi um divisor de águas muito importante. Eu ter participado deste disco foi uma coisa extremamente importante na minha carreira musical. Foi o Regional Tira-Teima com a participação de Sérgio Habibe [o compositor tocou flauta em Lances de Agora], [o compositor] Ronald Pinheiro, bandolim, e mais uns dois percussionistas, cujo nome não lembro agora. Pitoco, no clarinete. Foi extremamente importante pra mim. Foi o primeiro disco de que eu participei. Depois eu participei de outros.

Lances de Agora, pelo fato de ter sido gravado em uma igreja, é ainda um disco mais comentado que ouvido. Este ano ele e Bandeira de Aço [disco lançado por Papete em 1978] completaram 35 anos e nós vimos festividades aqui e acolá para celebrar Bandeira de Aço, que é muito importante e merece, mas nem se ouviu falar em Lances de Agora. É um disco também do catálogo da [gravadora Discos] Marcus Pereira, mas que ao contrário de Bandeira de Aço, sequer chegou ao formato digital, não teve reedição em cd. A que você acha que se credita o desinteresse, o quase completo esquecimento e o que poderia ser feito para mudar este quadro? Do ponto de vista musical não existe razão de Lances de Agora ser preterido junto a Bandeira de Aço. A qualidade musical, o disco é bom de A a Z, composições belíssimas de Chico Maranhão. Velho amigo poeta, Meu samba choro, Ponto de fuga, Cirano [faixas de Lances de Agora]. Realmente eu não sei te responder. Musicalmente este disco tem uma qualidade muito grande. Tem uma importância muito grande para o cancioneiro popular do Maranhão.

Você podia lembrar um pouco o clima das gravações? Era um aparelho pequeno, tipo rolo de fita daqueles carretéis. Todo mundo gravando simultaneamente, não tinha aquela história de cada um gravar a sua. Errou, todo mundo começava de novo.

Essa pergunta pode soar óbvia, boba até. Mas tem que ser feita: o que significa o Tira-Teima para você? O Tira-Teima é minha vida musical toda. A minha vida musical está mesclada e fundida com o Tira-Teima. É a minha referência musical, foi o que eu fiz a vida inteira.

Se o grupo deixasse de existir você certamente sentiria muito. Iria sentir muita falta. Eu passei uma época da minha vida sendo violonista, acompanhando cantores e compositores. Mas a minha vida musical, a minha identidade musical é o Regional Tira-Teima, regional de choro. É um amor à primeira vista, um encantamento mesmo.

A que você credita tanta demora para definir a feitura do primeiro disco? Já são 40 anos do Regional. Foi problema interno do grupo, de como seria feito, se as músicas teriam arranjos próprios, se a gente ia delegar. Por falta de consenso, as coisas foram atrasando, atrasando. Ainda um dia desses falávamos sobre isso: uma vertente do grupo defendia que os arranjos deveriam ser arranjos próprios, e a outra que contratássemos arranjadores para fazer. Isso tudo atrasou o projeto, mas agora já está em andamento.

E o que ficou definido, no final das contas? [Risos] Ficou definido o meio termo: a metade o arranjador, que Ubiratan já fez, e a outra metade arranjos do grupo.

Mas o disco está andando. Já está tudo fechado: repertório, participações especiais? O disco está andando. Já estamos em estúdio, Gordo Elinaldo é nosso guru.

O que significa para vocês a participação do Ubiratan neste disco, já que ele foi um dos fundadores do grupo? Eu acho extremamente pertinente justamente por este motivo: pelo fato de ele ter sido fundador do grupo. Ele participar dessa forma é fundamental.

Uma volta às origens, já que o convite é também uma forma de homenageá-lo, mas com o pé no futuro, na medida em que vocês devem trazer um repertório, ao menos parte dele, inédito e autoral. Exatamente. E quase todo formado por músicas de autores maranhenses.

O que vai ter? Podes adiantar? Tem três choros de Serra de Almeida, Dom Chiquinho, Imbolada e Choro Nobre. Tem dois choros meus, Gente do Choro e Meiguice, um choro que eu fiz para minha filha. Gente do Choro vai ser cantada por Zé Carlos. Tem Companheiro, que é um choro meu e de Solano. Tem uma valsa que João Pedro fez pra Serra, chamada Simples como Serra. Tem duas músicas de Léo Capiba. Tem uma música chamada Apelo, que a gente descobriu que é de Nhozinho Santos. Até então a gente dava como autor desconhecido, Ubiratan foi quem descobriu que é dele. E tem dois choros na forma, que a gente está terminando de fazer para entrar no disco.

Como tem sido, ao longo de todos estes anos, conciliar a atividade musical com o ofício de bancário? Não foi tão complicado, por que o expediente no banco é de segunda a sexta, em horário bancário, das 10 às 16 [horas]. As atividades musicais geralmente são à noite ou em fins de semana. E os ensaios também à noite. Eu não tive grandes problemas em conciliar as duas atividades. Salvo quando pintava uma viagem para fazer show, aí ou eu conseguia uma folgazinha ou não ia.

Além de Lances de Agora, de que outros discos você participou? Fiz um grupo chamado Canto de Rua, uns rapazes que tocam samba, fiz Joãozinho Ribeiro [o inédito Milhões de Uns, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo], fiz Cabeh [Esquina da Solidão, lançado postumamente], produzi e gravei o disco de Anna Cláudia [cantora paraense radicada em São Luís, com quem Paulo Trabulsi foi casado], fiz Cesar Teixeira [Shopping Brazil, 2004], Serrinha [e Companhia, grupo de samba e pagode] com Tributo a Zé Hemetério e Das cinzas à paixão [faixas de Na palma da mão, de autoria, respectivamente de Gordo Elinaldo e Cesar Teixeira]. Memória [da Música do Maranhão, disco coletivo que registrou a obra de vários compositores da velha guarda], Antonio Vieira [O samba é bom, 2001]. Estou participando agora do disco de Gordo Elinaldo, já gravamos.

E shows? O de Carlinhos Veloz [Sobre Cordas, apresentado no Teatro Arthur Azevedo] foi muito importante, eu tenho a filmagem lá em casa. Foi um negócio emocionante, o regional tocou, foi super aplaudido. O de Turíbio Santos, João Pedro Borges. Nós participamos com duas atrações internacionais, Jerzy Milewski, um violinista polonês, que tocou com a esposa dele, Marcelo Bratke, um pianista, o Tira-Teima tocou com ele. E shows com vários artistas maranhenses, Fátima Passarinho, Lena Machado, Alberto Trabulsi, Anna Cláudia, Zeca Baleiro, foi realmente muita gente. Com Antonio Vieira nós fomos a São Paulo, fizemos Sesc. Participei de quatro festivais da Fenai, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa. Inclusive Gente do Choro foi de um festival em João Pessoa, na Paraíba.

Entre estes shows de destaque você incluiria o Recital de Música Brasileira, com João Pedro Borges e Célia Maria? Sim. Foi um show importantíssimo, em que participamos eu, Celson [Mendes, violonista], o pandeirista Lazico. Foi sucesso, um trabalho para mim extremamente importante. Teve uma coisa interessante [risos], eu participando de um dos encontros da Escola Portátil de Choro, eu fui lá como aluno de Luciana Rabello e tava lá no aulão dela. E um dos alunos, um rapaz bem jovem, me viu e me reconheceu: “o senhor não estava naquele show da TV Senado, acompanhando João Pedro Borges?” “Sou eu”. “E o quê que o senhor está fazendo aqui?” [risos]. Eu achei graça, “rapaz, eu tou aprendendo junto com vocês”.

O que é o choro? Qual a importância dessa música? O choro tem aquelas explicações históricas do choro, que derivou das polcas, mazurcas, schottisches europeias e se fundiu com os ritmos africano, os lundus da vida, e a coisa, o choro é um produto que vem evoluindo, vem em transformação. No início da história do choro, Chiquinha Gonzaga, Antonio Calado, todo choro era maxixe. De Pixinguinha pra cá a coisa tomou outra forma, aí que colocaram pandeiro no choro e virou o que é, como é tocado hoje. Mas se você notar, está o tempo todo em transformação. Essa nova geração de chorões já está dando outro tratamento, a música vem evoluindo, vem se transformando ao longo dos anos. É um organismo vivo.

Você se considera um chorão? [Rápido e enfático:] Eu sou um chorão!

Lena Machado inaugura a série Amigos do Tira-Teima

O Tira-Teima em ação no saudoso palco do Bar e Restaurante Chico Canhoto, no projeto Clube do Choro Recebe

O Regional Tira-Teima completou 40 anos de atividades em 2013 e este ano planeja lançar seu disco de estreia, com repertório autoral e de grandes nomes do choro no Maranhão. O disco, ainda sem título, está sendo gravado no estúdio de Gordo Elinaldo e conta com arranjos de Ubiratan Sousa e dos integrantes do grupo.

São eles: Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Zeca do Cavaco (cavaquinho centro), Francisco Solano (violão sete cordas), Zé Carlos (percussão) e Serra de Almeida (flauta). O grupo já passou por várias formações, tendo figurado nos créditos do antológico Lances de Agora (1978), disco de Chico Maranhão gravado por Marcus Pereira na sacristia da Igreja do Desterro, em São Luís.

Dando prosseguimento à jornada comemorativa, o quinteto inaugura amanhã (31) a série Amigos do Tira-Teima. Revivendo os tempos de Clube do Choro Recebe, o grupo terá ao longo do ano diversos convidados especiais no palco. A primeira será a cantora Lena Machado, que noutras ocasiões já dividiu o palco com o mais antigo grupamento de choro em atividade no Maranhão.

O reencontro acontece às 20h, no terraço do Brisamar Hotel, lugar que faz jus ao nome e se configurou, há pouco mais de um ano, o palco regular do Regional Tira-Teima, com seu repertório de choro, todas as sextas-feiras.

Nesta, a participação de Lena Machado somará a Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth e outros grandes mestres, gênios da criação musical brasileira como Bororó (Curare), Paulinho da Viola (Para um amor no Recife), Cesar Teixeira (Flanelinha de avião), Josias Sobrinho (Terra de Noel), Candeia (Preciso me encontrar) e, entre outros, Argemiro Patrocínio, cuja Amém cantará em dueto com Zeca do Cavaco.

A noite promete. E esta frase pode ser lida no plural, já que a lista de amigos do Tira-Teima é grande.