Show de Tião Carvalho reinaugurou o Papoético ontem

Momento histórico: Tião Carvalho e Chico Saldanha soltam a voz em Itamirim. Foto: Zema Ribeiro

 

O poeta Paulo Melo Sousa reinaugurou ontem o Papoético, cerca de sete anos depois de o projeto ter agitado a ilha. A reestreia aconteceu no Bar Latino (Rua do Giz, Praia Grande).

Ao menos na edição de ontem, o Papoético assumiu outras feições: em vez do debate-papo, bonitos espetáculos: de passagem pela ilha o poeta Dyl Pires leu um belo trecho de Éguas! (Pitomba, 2017), seu livro-poema mais recente, antes de se mandar para o sarau No Olho da Rua, evento mensal que acontece no novo Poeme-se (Rua de São João, 246A, Centro). Até o momento em que Paulo Melo Sousa anunciou a apresentação de Tião Carvalho, colocou o microfone à disposição dos presentes, mas ninguém se atreveu a recitar um poema.

Em ambiente aconchegante, apesar do preço proibitivo da cerveja (13 reais uma Eisenbahn), Tião Carvalho fez show inspirado, apesar do “em cima da hora” das articulações: maranhense radicado há décadas em São Paulo, o artista torna ao estado natal para shows na temporada carnavalesca e, já tendo se apresentado no Papoético àquela época, aceitou o convite do idealizador para regressar ao palco.

Subiu a ele acompanhado por João Simas (guitarra), Davi Oliveira (contrabaixo) e Thierry Castelo Branco (bateria), para um desfile de clássicos, entre composições de João do Vale (Uricuri), a quem tributou em disco [Tião canta João, Por do Som, 2006], da irmã Ana Maria Carvalho (Até a lua) e autorais (Quando dorme Alcântara, título de seu primeiro disco solo, de 2003). O próprio Tião revezava-se entre triângulo, maracá, apito e cavaquinho.

Num intervalo no meio do show, Paulo Melo Sousa sorteou exemplares de livros e cds entre os presentes. Erivaldo Gomes foi chamado a participar de Cajapió, composição de sua autoria gravada por Tião Carvalho em Quando dorme Alcântara e acabou recrutado pelo cantor a continuar ao triângulo durante quase toda a apresentação. Antes, da plateia e também na base do improviso, o convidado foi Chico Saldanha, que dividiu o palco com o amo do Boi de Cupuaçu em Itamirim.

A toada de Saldanha foi registrada em seu disco de estreia, o homônimo Chico Saldanha (1988), com a voz de Tião Carvalho – o disco, gravado em São Paulo, tem Erivaldo Gomes na percussão. Caminhos que se cruzam, momento histórico.

O show terminou com a Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça) e Nós, clássico de Tião Carvalho imortalizado por Cássia Eller.

A intenção do idealizador é realizar o projeto Papoético quinzenalmente.

Um homem plural

Tião Carvalho conversou com exclusividade com o JP Turismo, aproveitando sua passagem por São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina.

TEXTO E RETRATO: ZEMA RIBEIRO

O maranhense Tião Carvalho não cursou faculdade, mas hoje em dia entra em universidades para dar aula. Com quase 40 anos em São Paulo e mais de 30 de Grupo Cupuaçu, o artista nascido em Cururupu José Antonio Pires de Carvalho consolidou-se como um embaixador da cultura maranhense em outros cantos do país e da cultura brasileira em outros cantos do mundo.

Ele ganhou o apelido Tião nas peladas da infância, jogadas na Praça Odorico Mendes, no centro de São Luís, pela semelhança física com um jogador do Atlético Mineiro da década de 1970.

Tião Carvalho esteve em São Luís, onde realizou diversos shows na temporada junina. Aproveitando sua passagem, conversou com exclusividade com o JP Turismo.

JP Turismo – Qual o teu balanço do São João? E qual o sentimento de voltar à terra natal, reencontrar os conterrâneos?
Tião Carvalho – Eu venho, moro em São Paulo, fora do Maranhão, se a gente quiser arredondar, fala em 40 anos. Eu saí daqui no ano de 1979. Eu sou vidrado nisso aqui, eu venho para o Maranhão por vários motivos e esse período eu dou graças a Deus que eu posso vir ao Maranhão, eu vejo outros amigos, a gente fica muito distante. Essa questão joanina tem muito a ver com minha família, eu sou filho de cantador de boi, essa tradição está na pele, no espírito. Eu vindo trabalhar, encontrar pessoas, poder trazer minha mensagem para esse público maranhense é muito legal.

A Renata Amaral, baixista que já tocou com você, acabou de lançar um documentário sobre o mestre Humberto [Guriatã]. Você viu o filme?
Ainda não. Conheço a ideia do projeto, a relação de Renata com Mestre Humberto, como era também com Pai Euclides, foi interessante esse tempo de ela focar nessas duas fontes, dois grandes mestres, grandes sensibilidades dela, isso também faz parte desse intercâmbio. Ela veio para cá várias vezes tocar comigo, a gente ainda toca em São Paulo, hoje menos. Hoje a minha baixista é a Thamires, que está morando em São Paulo. Eu gosto muito dessa energia feminina em minha banda, dessa mistura em minha banda, ter homens, mulheres, negros, brancos, isso é pensado, não é por acaso. Eu gosto disso, dessa miscigenação, essa força.

E o Cupuaçu? Segue firme e forte? Como é conciliar o grupo com tua carreira solo? De algum modo é o grupo que te deu reconhecimento.
Agora ele vai ficando mais tranquilo, o que acontece: nesses 30 anos você vai formando outros mestres, outros cantadores, o Henrique Menezes, que é daqui da família Menezes, da Casa Fanti Ashanti, chegou em São Paulo garoto, colou comigo graças a Deus, hoje em dia assume a brincadeira quando eu estou viajando, a Graça Reis é uma pessoa que a gente divide essa liderança hoje em dia, ela também com essa força da energia feminina que a gente respeita muito, minha irmã Ana Maria Carvalho, cantadeira, cantora de bumba meu boi, compõe, meu filho Yuri já canta, Alfredo Ramos. Tem toda uma turma que foi do Maranhão e se consolida em São Paulo. Claro que enquanto eu tiver vida e saúde eles vão querer minha presença, mas o Cupuaçu é uma escola, hoje em dia eu viajo mais tranquilo, tanto no Brasil, quanto no exterior, sabendo que o grupo vai continuar.

E o festival de que você vai participar em Goiás?
O show no 18º. Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros [de 13 a 28 de julho] é dia 25, uma quarta-feira. Eu vou dar oficina de dança, já estive lá este ano. É um festival de São Jorge, a cidade, é um festival tradicional na Chapada dos Veadeiros. É a segunda vez que estou indo para o festival, eu fui há 10 anos. De lá eu vou para Pirinópolis, depois vou para Goiânia fazer show, depois volto para São Paulo. Segunda-feira agora, dia 16, estou indo fazer um show num congresso de antropologia, convidado por minha comadre, professora, Paola Gebran, pianista e tecladista, que toca comigo na minha banda. Minha vida é isso aí, uma árvore com muitos galhos e que dá frutos diferentes.

Uma árvore sui generis. Quase 40 anos de São Paulo, só voltando aqui a passeio. O que te levou até lá? Quando você foi, você já tinha se descoberto artista ou se descobriu lá?
Já. Lá eu só vi acentuar essa questão. Eu já nasci com essa sina viajeira, quando eu era criança eu já tinha esse espírito. Eu jogando futebol, os técnicos já me davam a braçadeira. Meus mestres de bumba meu boi, tambor de crioula, capoeira, já apostavam em mim como líder desde criança. Isso eu já tinha. Vir aqui não é bem passeio, eu tenho obrigações de vir aqui, religiosas, sociais, culturais, políticas. Eu sinto que preciso vir e o Maranhão também precisa que eu venha.

Isso com certeza! Por falar em questão política, como você observa o cenário brasileiro após a retirada de Dilma do poder e da assunção de Temer?
[Pensativo] Eu vejo que tem algo aí temeroso nesse sentido. Mas o nosso Brasil vem de muito longe, e a gente, cada momento, tem algo que está em evidência. É muito complicado. Ao mesmo tempo a gente tem a memória curta. É complicado de falar, muitas das vezes existem gêneros, classes sociais, povos, raças do Brasil que são mais perseguidas que os outros. Muitas pessoas podem falar o que quiser e elas passam batido. Eu, corre o risco de abrir a boca e passar a ser um dos perseguidos, e aproveitarem a mim para poder amedrontar outros, como no caso de Marielle [Franco, vereadora carioca assassinada há quatro meses].

Você está falando isso particularmente por ser negro?
Claro! Eu sou negro. Se acontecer alguma coisa comigo, em um mês já esqueceram. Quem que fala aqui do Gerô [o artista popular Jeremias Pereira da Silva, assassinado por policiais militares em 2007]? De Mãe Mukumby, minha mãe de santo lá de Londrina, que foi morta no terreiro dela, a facadas. Ninguém fala, sai uma notícia no Brasil e ninguém falou mais, entendeu? Que bom que você está registrando. Eu estou com 63 anos, eu poderia dizer, bem vividos, jogo futebol, jogo capoeira, canto, ando a pé, entro e saio de todos os lugares do Brasil, tanto os mais simples aos mais sofisticados. Eu tenho que ter muito cuidado ao falar. Eu sinto isso. Tem 10 pessoas falando, aí de repente: “escolhe aquele”, pra poder amedrontar os outros.

Você considera que a gente vive uma ditadura, um estado de exceção, hoje, no Brasil? Isso justificaria teu temor em falar.
Eu coloquei para você exemplos. Quando é alguém de família tradicional que fala, ficam com mais medo de mexer. Eu lembro que estava assistindo ao filme Eles não usam black-tie [dirigido por Leon Hirszman, baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri], os caras estão reunidos e o cara fala fazendo aquele movimento: “o negrão, o negrão”, e o cara, “pá!” [imita o som de um tiro, com a mão imitando um revólver], entendeu? É um pouco isso. Quem calça o sapato sabe onde aperta, quem mora em casa sabe onde chove, minha avó já falava isso pra nós.

Como você avalia o governo Flávio Dino?
O que chega para nós lá em São Paulo é que nas pesquisas ele é o governador número um. A gente vem aqui pra ver, eu torço pra que isso cresça. O que ele precisar de minha ajuda, ele terá. A primeira questão é o Maranhão em si, nosso estado, nosso povo. Que Deus abençoe a gestão dele, eu torço para que a gente continue levando o Maranhão em frente.

Projetos de novos discos?
40 anos de carreira. Muitas vezes a gente faz aniversário na segunda e comemora no sábado, então tem um pouco isso. Os 40 anos de carreira eu já fiz, mas muitas vezes é preciso lidar mais com sentimento que com números. Eu fecho o ciclo de outra forma. Ainda não está definido o repertório, mas já estou trabalhando com alguns parceiros.

E o Cupuaçu?
A gente acabou de recopiar os dois cds [Toadas de bumba meu boi e Todo canto dança], estamos vendendo, e nos preparando, organizando para fazer um outro trabalho. Mas isso não é pra agora.

O Criolina [Alê Muniz e Luciana Simões] usou A mulher mais bonita do mundo [música de Tião Carvalho] como incidental em A menina do salão [faixa de Radiola em transe]. O que você achou?
Muito bom! Adoro eles. Fiz o carnaval com eles, vi começarem, são meus parceiros há muito tempo, tenho o maior carinho e respeito por eles.

[publicada originalmente no JP Turismo, Jornal Pequeno, hoje]

O embaixador

Foto: Rose Panet

 

Radicado há mais de três décadas em São Paulo, onde mantém as tradições maranhenses com o Bumba meu boi de Cupuaçu, no Morro do Querosene, o que lhe ensejou o merecido título de cidadão paulistano, outorgado há alguns anos pela Câmara Municipal da capital paulista, Tião Carvalho, maranhense de Cururupu, subiu ao palco do Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), ontem (23), para um show em que passeou por repertório autoral e clássicos de autores maranhenses.

“Muito obrigado pela presença de todos vocês”, agradeceu Tião, reafirmando o prazer de cantar no Maranhão, para maranhenses, após abrir sua apresentação com Dona tá reclamando (Domingos Minguinho), gravada pelo Cupuaçu em Toadas de bumba meu boi [Núcleo Contemporâneo, 2000].

Tião estica sua presença na ilha: ele veio participar do desfile do bloco Bota pra moer, na segunda-feira gorda de carnaval (12), capitaneado pelo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, em cujo Radiola em transe, disco mais recente da dupla, sua A menina do salão dialoga com A mulher mais bonita do mundo (Tião Carvalho), lançada por Tião em seu solo de estreia, Quando dorme Alcântara [Por do Som, 2003], também presente ao repertório de ontem. Além de ontem no Buriteco, ele anunciou nova apresentação na próxima sexta (2 de março), às 22h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro).

Quando cantou De Teresina a São Luís (João do Vale e Helena Gonzaga), a flauta de Zezé Alves puxou O trenzinho do caipira (Heitor Villa-Lobos) como incidental. O flautista deixou seu microfone às pressas para salvar o óculos – que Tião Carvalho carregou mas não usou durante o show –, de ser pisado, enquanto o músico trocava o cavaquinho pelo triângulo.

A banda se completava com João Simas, que tocava sua guitarra com as pernas em posição de lótus na cadeira, a gaúcha Mariele Costa (percussão) e Erivaldo Gomes (percussão) – este o único abrigado ao lado de Tião no pequeno tablado do Buriteco.

Com um disco inteiramente dedicado à obra de João do Vale [Tião Canta João, Por do Som, 2006], o pedreirense foi dos mais presentes ao set list da noite: Baião de viola (João do Vale e Flora Matos) evoca as belezas (e de forma poética as misérias) de sua cidade natal, trazendo em si a típica sabedoria que lhe valeu o epíteto de “poeta do povo”.

Quando cantou a toada Itamirim (Chico Saldanha), Tião lembrou-se que foi ele quem gravou a música no elepê de estreia de Chico Saldanha, de 1988. “Se não me engano é Itamirim o nome do elepê”. O disco leva apenas o nome do compositor, mas o equívoco é compreensível: a última faixa do lado A foi o maior êxito do disco e é, até hoje, um dos maiores da carreira do rosariense.

Tião cantava e contava histórias: o samba Pantanal (Tião Carvalho) alude a um bar que frequentava, e Canção de ninar (Tião Carvalho), que começa como anuncia o título e torna-se um samba, foi feita para sua filha, “quando ainda estava na barriga”.

Sapaiada (Xavier Negreiros e Marquinhos Mendonça), com seu refrão envolvente, botou o público para acompanhar nas palmas, um dos grandes momentos do show – não foram poucos. Quando dorme Alcântara (Tião Carvalho) evoca outro bar, em São Luís, onde Tião e uma turma iam tocar e à meia noite viam as luzes da cidade, do outro lado da baía, se apagarem, quando o gerador era desligado, à época. Invariavelmente ouvia-se o comentário: “Alcântara dormiu”. “Com essa música eu participei do último grande festival promovido pela Rede Globo. Estive em três, primeiro acompanhando Giordano Mochel, depois acompanhando Ubiratan Sousa, e por último já com uma música minha”, contou, revelando parte da nobre linhagem artística a que pertence.

Cantou o Fogo de palha de Josias Sobrinho. Quando lembrou que dele havia gravado Dente de ouro em Quando dorme Alcântara – à venda ontem, bem como Tião canta João –, o público pediu o clássico. “Não estava no roteiro, mas nós vamos ter que fazer”, nem Tião nem a banda titubearam e o público cantou junto.

De sua irmã Ana Maria Carvalho, parceira do Boi de Cupuaçu, trouxe Até a lua, que emendou com Lua cheia (Bulcão e Godão), clássico de outro boizinho, o Barrica. O passeio musical de Tião foi até Cajapió (Erivaldo Gomes). Na sequência atacou com um medley de inéditas: Coco da minha sinhá (Tião Carvalho) e Coco das meninas (Graça Reis).

“Vamos fazer a saideira, lembrando essa figura que foi muito importante pra minha carreira, é pra mim uma espécie de madrinha musical. Todas as gravações que ela fez dessa música”, começou, referindo-se a Cássia Eller, que popularizou o samba Nós (Tião Carvalho).

Aos insistentes pedidos de “mais um”, Tião virou-se para a banda, sinalizando que atenderia. A noite foi fechada com um medley de João do Vale: Uricuri (Segredos do sertanejo) e Carcará, ambas em parceria com José Cândido.

Embaixador da cultura popular do Maranhão em São Paulo, onde vive, e por onde andar, ontem Tião Carvalho contrariou o dito popular: santo de casa faz milagre, era o que atestavam os rostos satisfeitos do público, mesmo a parte que ficou em pé, na calçada, do lado de fora do Buriteco.

Santo de Casa lança três inéditas de Chico Saldanha

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

 

O compositor Chico Saldanha, 70, anunciou para ainda este ano o lançamento de Plano B, seu quarto disco. O aguardado sucessor de Emaranhado (2007) está praticamente pronto.

“Quando voltar de uma viagem vou colocar as últimas vozes, Zeca [Baleiro] gravará sua participação e vamos para as fases de mixagem, masterização e prensagem”, anunciou Saldanha, com exclusividade, ao blogue. Ele irá à Suíça, acompanhar o nascimento de uma neta.

Um disco novo de Chico Saldanha é sempre um acontecimento. O intervalo entre um e outro ajuda a explicar o esmero com que cada álbum é feito. Intitulado Chico Saldanha, seu vinil de estreia, gravado em São Paulo, quando o artista morou lá, foi lançado em 1988, e emplacou ao menos um hit: Itamirim, interpretada por Tião Carvalho.

Aquele álbum trazia também Linha puída, sua canção mais regravada. O segundo disco, Celebração, foi lançado 10 anos depois. O álbum começa com uma homenagem à sua cidade natal, Parabéns, Rosário (Ribamar Marques), que remonta às origens do sotaque de orquestra do bumba meu boi.

Em Emaranhado ele contou com as participações especiais de Zeca Baleiro, Josias Sobrinho, Gerude, Inaldo Bartolomeu e Lenita Pinheiro. Este terceiro disco transita por uma veia pop, sem tirar o pé do brega (Mara), passando por bolero (Babalu), bumba meu boi (a faixa título), blues (Cover de blues) e choro (Branco).

Hoje (23), amanhã (24) e segunda-feira (27) o programa Santo de Casa, na rádio Universidade FM (106,9MHz) apresentará em primeira mão três faixas de Plano B, todas de autoria de Saldanha: Afeganistão, carinhosa e divertidíssima homenagem a um saudoso bar da Madre Deus, bastante frequentado por ele, este blogueiro e outros bambas, Ella, homenagem a Ella Fitzgerald, diva do jazz, e Buriti, em que homenageia os “geniais artífices” do interior do Maranhão que transformam a fibra dessa palmeira em obras de arte. A faixa tem participação especial da cantora Lena Machado.

As três faixas enviadas pelo artista à rádio têm execução de Luiz Jr. (violão, guitarra e arranjos), Mauro (contrabaixo), Rui Mário (sanfona e teclados) e Wanderson (percussão). Afeganistão tem sopros de Daniel Miranda, Daniel Cavalcanti e Elton Nascimento.

O Santo de Casa vai ao ar de segunda a sexta às 11h, com produção de Paula Brito e apresentação de Gisa Franco.

Henrique Menezes em um passeio pelos terreiros do Brasil

[Vias de Fato nº. 58, de abril/2015]

Lançando seu primeiro disco solo, Passaporte, músico conversou com o Vias de Fato, por ocasião de sua mais recente passagem pela Ilha

Foto: ZR (2/2/2015)
Foto: ZR (2/2/2015)

 

Henrique Menezes veio à São Luís no começo do ano, para participar das festividades de Oxóssi e Iemanjá na Casa Fanti-Ashanti, da qual é primeiro Ogã Alabê Huntó – “maestro da percussão, chefe de batucada, diretor musical da casa”, como ele mesmo explicou. Trazia na bagagem seu primeiro disco solo, assinado com a Banda Bom Q Dói, intitulado Passaporte [independente, 2015, R$ 20,00 na Livraria Poeme-se, Banca do Dácio e Quitanda Rede Mandioca].

É uma das três visitas anuais que faz à terra natal. “Quando eu venho ao Maranhão, eu venho mais para meus compromissos religiosos que profissionais”, diz ele, que aproveita para visitar a família e os amigos. As outras visitas acontecem num canjerê em setembro e no período das festividades de São Pedro (29 de junho), quando costuma ver o encontro dos bois na Igreja do padroeiro dos pescadores, na Madre Deus, e “não perder esse vínculo, recarregar minha bateria, minha essência, tocar um tambor na Madre Deus, aqui no [Tambor de Crioula de Mestre] Amaral, no boi de Maracanã, Santa Fé. Eu venho recarregar minha bateria para poder trabalhar em São Paulo”.

Em meio à alegria de rever parentes e amigos, foi surpreendido pela tristeza da notícia do falecimento de mestre Humberto de Maracanã (2 de novembro de 1939-19 de janeiro de 2015), líder do bumba meu boi e da comunidade que lhe emprestaram o sobrenome artístico, seu colega de Ponto BR, coletivo musical que reúne diversos mestres de cultura popular de Pernambuco e Maranhão.

No dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, uma das festas de que ele participaria no terreiro liderado por Pai Euclides – de quem é sobrinho –, ele conversou com a reportagem na Quitanda Rede Mandioca.

Na conversa, ele relembra capítulos importantes de sua vida entre o Maranhão e São Paulo, passando pelos carimbos do Passaporte que dá título a seu disco, sua trajetória musical, o emprego inicial em uma fábrica de brinquedos, sua atuação como arte-educador e sua primeira escola musical, a Casa Fanti-Ashanti, cujas citações são recorrentes ao longo da entrevista.

Passaporte é teu primeiro disco solo? Primeiro disco solo. Outros que eu gravei foram registros do Cacuriá Pé no Terreiro, que eu sou o diretor, nós gravamos há 11 anos, uma perspectiva de grupo, que trabalha a dança, a música e a arte-educação, tudo junto, nesse contexto. Este é um trabalho mais musical, inspirado nos lugares onde fomos passando, os carimbos, cada um conta um pouco de cada lugar, a Casa Fanti-Ashanti, minha primeira escola de música, ouvindo os tambores todos os dias, desde a barriga de mamãe, no ferro [instrumento do tambor de mina], tocando sempre, e dos lugares em que eu fui passando, Rio de Janeiro, Recife, Maracatu Estrela Brilhante, em 2005 eles ganharam o carnaval com uma música que eu fiz para eles, deram uma medalha de honra ao mérito para mim, fizeram homenagem, sempre falam. Essa inspiração de fazer uma música para o Estrela Brilhante, eu fiz uma referência uma ciranda. Tinha um maracatu [no disco]. Esse projeto tinha muitas músicas, nasceu de um projeto, Noites do Maranhão, que eu tenho em São Paulo, todo mês tem uma noite do Maranhão num bairro diferente, já fizemos em praças, Sescs, várias casas de shows. Tinha esse projeto, a gente cantava diversas músicas minhas, de outros amigos maranhenses, de outros lugares também, mas 90% do repertório as músicas eram minhas e aí também tinha um maracatu. Como eles falaram que vão gravar nesse disco agora, eu falei “não vou queimar o cartucho deles”. Eu gravo em outro disco, a ideia é que esse seja só o primeiro [risos].

Já são quantos anos de carreira? Quanto você confere? Qual o marco inicial? Quando é que você percebe que vai trilhar os caminhos da música? Aqui no Maranhão eu já era envolvido com a música, participava de vários grupos, GDAM [Grupo de Dança Afro Malungos, sediado no Parque do Bom Menino], Abibimã, foram grupos afros aí, não fui fundador do CCN [Centro de Cultura Negra do Maranhão, sediado no Barés, João Paulo], mas fui um dos integrantes da época antiga do CCN, Akomabu, Silvia Black, Escrete [compositor], há muitos anos, antes de ir para São Paulo. Agora eu estou com 23 anos de São Paulo. Lá eu comecei a buscar uma coisa mais minha, desenvolver mais meu trabalho como compositor. Antes eu não cantava tanto, eu mais compunha. Cantava no Cupuaçu [grupo de bumba meu boi liderado pelo compositor Tião Carvalho, no Morro do Querosene, em São Paulo; ele participa de Passaporte na faixa Brasa em candeeiro/ Touro da beira do mar], aí eu resolvi botar a carreira como cantor também. Eu era mais compositor que intérprete. Aí resolvi fazer o primeiro show, inventei, um show diferenciado lá em São Paulo, misturava o reggae, o samba, ritmos do Maranhão. Surgiu a primeira banda, Os Caxienses, em homenagem a meu avô, que era chamado seu Caxias, ele veio de lá. Ele colocava quadrilha, a Quadrilha do Oeste, o Rei do Oriente. Em homenagem a ele eu dei esse nome. A gente trabalhava com os ritmos, principalmente o forró.

Isso já era São Paulo. Mais ou menos em que ano? Já era São Paulo. Os Caxienses, entre 1992 e 96.

Você participou de discos de outros artistas, como músico? Sim. Toquei com Rosa Reis [cantora], Tião [Carvalho], Josias [Sobrinho, compositor], nunca gravei, mas toquei com ele, sempre que ele vai à São Paulo, é difícil levar banda inteira, às vezes tocamos eu, Manoel Pacífico [percussionista maranhense radicado em São Paulo]. César Nascimento [cantor e compositor piauiense, radicado no Rio de Janeiro após longa temporada no Maranhão], que não é maranhense, mas é quase, sempre que vai à São Paulo eu faço parte da banda dele. Aí veio a ideia de começar a cantar, cantar minhas músicas mesmo. Eu montei um time, chamei os amigos, Cacau [Amaral, percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro], na época morava em São Paulo.

Você está naquele disco da banda Mafuá, de Tião? Eu gravei, gravei como percussão lá, Estrela miúda, de João do Vale [parceria com Luiz Vieira. Cantarola:] “Estrela miúda, que alumeia o mar”. Fiz os pandeirões junto com Cacau, Nazaré [José de Nazaré, percussionista maranhense].

Participou também do disco da Maria Preá [banda que tem a catarinense Laetícia Madsen como vocalista – ela participa de Passaporte na faixa Coreira de tambor]? É, gravei. [Cantarola:] “lá na mata sabiá cantou”, acho que Papete gravou essa música [no disco Berimbau e percussão], o Ponto do caboclo sete flechas e em outra faixa [Tambor de mina, de domínio público].

Quando você nasceu sua mãe já tinha envolvimento com a Casa Fanti-Ashanti? Desde criança. Tio Euclides fundou a casa acho que em 1950. Desde antes disso, ainda no Gapara, minha vó era uma curandeira, uma dona de terreiro também, dançava também. Tio Euclides foi criado pela minha vó, é neto de dona Romana, é filho de meu avô biológico, seu Caxias. Todos os filhos que eram do meu avô, mesmo não sendo da minha vó biológica, ela os considerava como filhos e eram aceitos na família como parentes. Esse envolvimento dele e mamãe, se criaram juntos, desde pequenos, sempre teve essa cantoria, meu avô tocava violão, meu tio Reinaldo, toca até hoje, mora na Cidade Operária. Quando foram para o Cruzeiro do Anil, Dindinha, que é minha tia, Zezé [Menezes], minha mãe, Graça [Reis], minha tia, foram com ele. Quando surgiu a Casa Fanti-Ashanti no Cruzeiro do Anil elas já faziam parte com ele desde a época do Gapara, o Terreiro do Egito. Ela sempre esteve dentro do terreiro, sempre tiveram contato com essa religiosidade, desde pequenos. E eu já me entendi na Casa Fanti-Ashanti, eu nasci dia 25 de junho [de 1971], minha mãe estava dançando um tambor de crioula quando a bolsa estourou.

Então você já nasceu no meio da roda? [Risos] Já nasci no meio da roda do tambor. A casa já tinha uns 20 e poucos anos, em uma festa de tambor, ela segurou, segurou, a bolsa estourou, depois, “leva, leva pra maternidade”. Eu fui criado dentro da Casa Fanti-Ashanti e no Bairro de Fátima, vivia entre esses dois universos, essas festas que meu avô promovia, quadrilha, festa de Reis, ladainha de Nossa Senhora Santana, ladainha de Santo Antonio. A música sempre esteve muito presente aqui pro lado do Bairro de Fátima, e no Cruzeiro do Anil a percussão, a música, com as doutrinas, os toques. Foram minhas primeiras formações. Quando eu me entendi, com cinco anos de idade, eu fiz minha primeira toada. Minha primeira toada de boi, eu era cantador do boi da casa, mas eu nem imaginava.

Que é aquele Boi de Encantado? É. Tem até num livro de Ferreti [Mundicarmo Ferreti, membro da Comissão Maranhense de Folclore], num dos livros, uma foto minha, pequenininho, com um buchinho, um buchinho de menininho maranhense comedor de farinha, eu com um maracá na mão. [Cantarola a toada:] “o meu nome é Henrique/ eu gosto de cantar boiada/ São João me prometeu/ o meu touro eu almoçar/ ê boi, ê boi, ê boi/ esse ano tu em primeiro lugar”. Foi a primeira toada, ele ouviu e disse: “é, canta essa toada aí no boi”, seu Corre Beira, entidade de tio Euclides, sempre foi o compositor das toadas do Boi de Encantado. Tem uma música de mamãe, Santo Antonio, São João, até A Barca [grupo musical de vigoroso trabalho de pesquisa e mapeamento musical no Brasil, com diversos discos produzidos e gravados] gravou, o Ponto BR também. [Cantarola:] “Santo Antonio me avisou/ São João vai chegar”. Na verdade, essa música da minha mãe foi antes dessa minha, ela compôs quando ela tinha uns 16, quando eu nasci já cantavam. Depois eu me desinteressei do boi, fui ficando mais velho, comecei a participar de outras brincadeiras, não queria mais boi de criança, queria os bois com os adultos, comecei a brincar no Boi de Pindaré, a sede era no Bairro de Fátima, na casa de seu Neuton, ali perto do ponto de ônibus, tocava pandeirão, comecei a me encantar com essa história do boi, de tocar pandeiro, tocar percussão. Aí quando vi Nivô tocar tambor a primeira vez, falei “nossa, o que é isso?” Saí de casa cedo pra ver tambor na rua Dagmar [Desterro], na praça do Mercado. Nivô era um negão, estivador, vozeirão. Aí que eu fui entender, na Casa Fanti-Ashanti tinha, mas eu nunca liguei, não pensava em tambor de crioula como música, pensei “nossa, isso aqui é o caminho”. Me encontrei, já peguei o meião, o crivador, com o tempo fui para o tambor grande. Quando eu já sabia tocar, fui para uma festa, entrei para tocar, ele ficou olhando, não reclamou de nada, aí pensei “eu tou apto para continuar”, fiquei fazendo parte do grupo da casa, depois Tambor de Taboca, é exatamente a mesma marcação, as mesmas frases do tambor de couro, só que tocado na taboca.

Foto: ZR (2/2/2015)
Foto: ZR (2/2/2015)

 

O que te levou para São Paulo? A curiosidade de conhecer a cidade, na verdade. Eu ia para São Paulo dois meses garantidos, final de novembro, dezembro e janeiro, e voltava para o carnaval. Eu iria para trabalhar numa fábrica de brinquedos. Minha tia Graça já morava em São Paulo uns oito anos antes de mim. Tinha um amigo dela que tinha uma fábrica de brinquedos e eles entregavam a cidade toda. Aí me arrumaram um trabalho daqueles temporários, final de ano, eu ia trabalhar de caminhão, fazer as entregas, conhecer a cidade, que era o que eu mais queria, só conhecia por fotos, levantava um dinheirinho e voltava para o carnaval. Só que quando chegou lá mudou toda a história. Eu cheguei, nem fui mais trabalhar com o caminhão, encontrei aquelas máquinas todas, me encantei, aquele barulho de máquina, aquele universo cibernético de cidade grande, “nossa, que coisa linda!”. Um dia eu me cheguei, o dono da fábrica estava viajando, montei um painel de ferramentas, ficavam todas jogadas, eu organizei na parede, o encarregado veio, [simula um diálogo] “quem fez isso?” O pessoal, “ah, foi o menino do Maranhão”, “chama ele aqui”, “foi você que fez isso aqui? Quem mandou?”, “ninguém mandou, eu tava aqui de bobeira”, vi as coisas lá, furei um madeirite na parede, pendurei martelo, chave de boca, tinha chave que eu nem conhecia. Ele: “rapaz, quer trabalhar comigo?”, “quero!”, adorei, ele viu meu esforço, me indicou fazer um curso, faziam capacitação para quem queria trabalhar nessa área, técnico, plástico, trabalhei três anos nessa fábrica, aí aconteceu um acidente, quase perdi minha mão [exibe as cicatrizes nos dedos], mexia na parte mecânica, eu me desgostei, perdi o encanto. Eu gostava, fazia brinquedos, sempre tive essa coisa com criança, trabalhava como monitor em Centro Comunitário. Aquele brinquedo chegaria na mão de alguma criança, em algum lugar, uma criança que não tinha muita grana, não eram brinquedos caros, botão, boliche, bola. Pra mim era uma satisfação saber que uma criança ia pegar aquele brinquedo. Depois que aconteceu isso eu me desencantei, pedi as contas, não queriam dar, arrumei confusão, até que uma gerente me mandou embora. “O que eu vou fazer da vida agora?” Eu já conhecia Tião, o Morro do Querosene, e conheci a Conceição Acioli, uma teatróloga pernambucana, diretora de teatro. Xavier Negreiros [percussionista e compositor maranhense] tocava com ela num espetáculo, aí ele teve um problema, veio embora para São Luís. E ela, “poxa, estou precisando de um percussionista para tocar”.

Você lembra qual era o espetáculo? Um espetáculo chamado Tomara que não chova, dela mesmo. Aí eu fiz parte da companhia dela, que na verdade, eram ela e Xavier, e eu o substituí. Nós ficamos com o espetáculo em turnê, e ela, “não vai mais trabalhar com nada não”, por que eu fazia vários bicos, você sabe que maranhense que se preza não gosta de ficar parado mesmo. Aí ela, “você tem que ser músico, tem que ser artista”, me deu a maior força, me apresentou para várias pessoas. Entre as pessoas a quem ela me apresentou estão o Zé Celso [Martinez Correa, dramaturgo], do Teatro Oficina, Auri Porto, ele também tinha um espetáculo paralelo ao Oficina, ele saiu há pouco, está com a própria companhia dele. Aí ele me chamou para fazer parte de um espetáculo chamado Bacantes.

Como músico? Como músico. Na verdade, eu mostrei a história do universo do tambor de crioula e eles viram aquilo no espetáculo, tinha uma cena em que tinha o tambor de crioula, o povo dançando. Disso o Zé me chamou para fazer parte do elenco, fiz alguns personagens, um sertanejo, contracenei com alguns atores, fazendo embolador, mas eu nunca quis ser ator, nunca tive essa coisa, esse domínio, interpretar, meu negócio era tocar. Eu fiquei mais ou menos um ano e meio no Oficina.

Isso já era que ano? Isso por volta de 1998, 99, mais ou menos. O da Conceição foi antes, 97, um ano antes, mais ou menos. Depois disso eu fiquei sendo músico oficial do grupo dela e começamos a montar vários espetáculos. Chamei a Graça, minha tia, que mora lá, nós fundamos a Companhia das Mães. Era um projeto dos músicos e cinco mães de alunos de escola pública, que fizeram parte como atrizes. Ela fez toda a capacitação dessas mães, que eram pessoas de comunidades bem carentes, nunca tinham acesso a essa coisa da arte. Com esse espetáculo nós ficamos quase uns 10 anos, até que a Conceição teve um ataque cardíaco e partiu [a atriz faleceu em 2005]. Paralelo a isso, tínhamos a Companhia Lampião no Céu, que encenava o espetáculo Lampião no Céu, com o Auri Porto. Esse espetáculo, nós éramos parceiros do Teatro Oficina, ensaiávamos lá e fazíamos o espetáculo em comunidades, era o projeto Arte na Rua, um projeto da Prefeitura, a gente fazia o espetáculo nas escolas, creches, centros educacionais. Isso me levou um tanto para essa parte de arte-educador. Hoje em dia em São Paulo eu trabalho muito dando aula, música, percussão. Uma das ongs é a Associação Pela Família, tem 56 anos de existência, é uma das mais antigas do Brasil. E voltando ao assunto do Lampião no Céu, o Teatro Oficina, quando eles montaram O Sertão, o Zé me chamou novamente, precisava fazer a história dum boi, dentro da história do Euclides [da Cunha, escritor], de Os Sertões [livro que inspirou o espetáculo de José Celso Martinez Correa], a primeira montagem, que foi A Terra [uma das partes do livro], tinha uma história que falava do bumba meu boi, e a história de Canudos também. São cinco partes, A Terra, O Homem I e O Homem II, A Luta I e A Luta II, são cinco espetáculos que ele extraiu do livro. Na íntegra, quando foi a primeira montagem, acho que eram quatro horas e meia, A Terra, O Homem I, três horas e meia, o espetáculo precisava de cinco dias para ser montado. Eu não sei nem como aquilo cabia na cabeça do Zé, de tanta informação, de tanto texto, de cada pessoa, de cada personagem. Mas enfim, o Zé é um homem muito sábio, muito organizado.

Voltando à música, você também participou dos dois discos do Grupo Cupuaçu. Eu sempre fiz parte, um grupo dedicado aos ritmos maranhenses. Eu estou nos dois, nesse último agora [Todo canto dança, de 2008] não só como músico, mas como compositor e como intérprete. Tem sete músicas minhas gravadas naquele cd, algumas eu interpreto, outras a Ana [Maria Carvalho, irmã de Tião Carvalho, cantora], tia Graça canta uma também. No outro, o primeiro, Toadas de bumba meu boi [1999], eu participei como cantor e como ritmista, percussionista. Em seguida vieram outros projetos, foi quando A Barca apareceu e nós fizemos a história dA Barca com o Baião de Princesas, da Casa Fanti-Ashanti. Entre essas brechas eu montei o segundo trabalho meu, que chamava Comigo Ninguém Pode, o nome da banda. Foi um laboratório, um pouco do que surgiu hoje no disco. Muitas das músicas que eu cantava com a Comigo Ninguém Pode, algumas delas eu coloquei aqui, tem algumas novas que eu fiz especificamente para o Passaporte, mas algumas eu já cantava com essa outra banda.

A Comigo Ninguém Pode chegou a gravar disco? Só o demo. Não fizemos lançamento, nem gravamos oficialmente. Tinha cinco músicas, a gente distribuía para fechar shows, chegamos a tocar para Prefeitura, Sesc, lá em São Paulo. Quando a gente separou, Cacau foi embora para o Rio de Janeiro, Ataliba foi embora para Bragança, Renatinho voltou para morar com a mãe em Santos, ficamos só eu e Téo [Menezes], meu primo, baterista, percussionista, já me acompanha há algum tempo. Aí resolvemos montar a Bom Q Dói. Aí veio o Ricardo [Perito], que toca violão e cavaco, o Cesinha [César Azevedo], toca percussão, Téo, eu, Maurício, o Mau, que é um baixista, por último o Gerson da Conceição [multi-instrumentista], para engrossar mais o caldo, toca guitarra, violão, às vezes faz o contrabaixo, por que o Mau também toca violão e contrabaixo, então eles invertem, um faz baixo, o outro, violão. Já faz quatro anos que a gente faz as Noites do Maranhão, só que a gente não faz mais muito em casas noturnas, a gente tem tocado menos, mas feito shows com mais qualidade de palco, estrutura, som. Aí veio a ideia de registrar esse cd. Tem o Bruno Buarque [baterista], que é o dono do estúdio, toca com a Céu [cantora], eu mostrei o repertório para ele, tinha feito uma pré-produção em casa, no meu computadorzinho mesmo, e ele “bicho, vamos gravar isso”. Fizemos uma parceria. Eu não tinha dinheiro, tentei editais, não consegui, juntamos alguns cachês da banda, um tanto de dinheiro meu que eu investi, aí encaramos fazer.

O financiamento do disco é todo do bolso? É, todo do bolso. E a parceria de amigos. É uma produção dependente, como eu digo: depende de um, depende de outro. É dependente [risos].

Sua fonte de renda hoje é música? Graças a Deus. Dando aula e tocando, ministrando oficinas. Eu trabalho não só com a música show, espetáculo, mas a música como aprendizado. Eu dou aula em três locais, em comunidades, lá no Francisco Morato, no Centro de Convivência Gracinha, são crianças de vulnerabilidade, baixa renda, que vivem em área de risco, da Favela Jaqueline, Taboão da Serra, são atendidas essas crianças.

Você mora onde, em São Paulo? Eu moro no Butantã, do ladinho do morro. Eu morava dentro do morro, mas foi ficando muito caro, aí eu consegui comprar um apartamentinho há três quadras do morro, na Praça Elis Regina, eu vou até começar uma história lá, a Festa de Terreiro. O terreiro eu vejo como tudo, o terreiro do quintal, o terreiro de mina, o terreiro onde as pessoas se encontram para brincar o boi, o terreiro onde se toca o tambor de crioula. Então, na verdade, a ideia é que tenha várias coisas, vamos fazer parcerias, criar um movimento cultural lá nessa praça.

E os selos nesse PassaporteCada selo desses representa uma música. A do Morro do Querosene representa a praça onde acontece a festa. A alfaia, de Pernambuco, representa o Maracatu Estrela Brilhante; é o grupo que canta minhas músicas, sempre exalta meu nome, eu faço parceria com eles, vou para lá, sou sempre muito bem recebido. Na Pavuna, onde tem os gêmeos, Rômulo e Ramon, tem o grupo Mariocas, também cantam músicas minhas, a gente tem essa parceria, eles vêm para São Paulo, eu vou para o Rio de Janeiro. A Lapa, foi o primeiro lugar em que eu me encontrei no Rio de Janeiro, foi onde eu encontrei minha filha quando ela tinha 13 anos de idade, eu descobri que tinha essa filha. O Cruzeiro do Anil é exatamente o símbolo da Casa Fanti-Ashanti, onde foi minha escola de música. A Madre Deus, um dos bois, boi de matraca, antes de ir para o Maracanã, tocar no Boi de Maracanã, tem uma história muito presente. Foi um bairro em que eu fiz muitos amigos, músicos, nem dá para citar nomes, que moram na Madre Deus, ou que já moraram. São Gonçalo, na verdade, vem de uma homenagem ao santo, tem no Rio de Janeiro, onde descobri o violão como instrumento, e aproveitando o São Gonçalo, tinha um baile de São Gonçalo lá em casa, depois que meu avô morreu acabou essa manifestação lá em casa. O baile de São Gonçalo foi o primeiro lugar onde eu comecei a tocar meu violão assim, descobrindo-o como instrumento. O Ribamar vem de uma música que eu comecei a fazer em [São José de] Ribamar, uma homenagem a Maria Grande, uma coreira da Casa Fanti-Ashanti, muito antiga, já faleceu também. Cada carimbo… a Vila Madalena foi onde a banda teve a primeira vitrine, assim em quantidade de público, um bairro boêmio onde a gente circulou, e ainda toca. Os selos têm esses significados.

A gente ouvindo o disco, percebe, no repertório, que essa tua passagem por diversos locais do Brasil não deixa de estar sempre impregnada de uma coisa de Maranhão. Você faz ciranda com um pé na mina, um coco com o pé no tambor de crioula, sempre misturando. Batuque de umbigada junto com o candomblé que sai da Casa Fanti-Ashanti. Na verdade esse passeio é para mostrar que o meu passaporte é maranhense. Por que me veio a ideia do passaporte? O passaporte é um documento, de autenticidade, você mostra de onde você veio, por onde passou, e te dá a liberdade de entrar. O que a gente quer? O que eu quero, que essa minha música, nossa, com a banda, mesmo que eu faça com outra banda, um artista nunca está sozinho, há sempre pessoas em volta. Com nosso passaporte a gente quer entrar. Onde? A gente quer entrar nas praças, nas rádios, nas televisões, nas casas das pessoas, na memória das pessoas. A ideia é de ser nosso documento de identidade artística. De onde vem? A identidade minha vem do Maranhão. Como eu sou a liderança do grupo, eu sou o produtor praticamente de tudo, sou eu que agencio, ainda não tem uma produção que diga “olha, você faz só o show e a gente corre atrás do resto”. Eu acho importante, o artista tem que passear por todos estes universos, saber como se conversa, com quem, buscar os apoios, por que ele fala da verdade dele. A gente não tem dinheiro, está buscando esse apoio, não tem assessoria de imprensa, queremos o apoio de parceiros, de amigos, que façam parte desse Passaporte, que faça parte dessa história, daqui pra frente. A ideia é essa. Do povo que está na banda, os que não são maranhenses, têm uma loucura pelo Maranhão. Quando eu mostrei essa ideia, todos eles abraçaram a causa. O Mau veio pra cá fazer show comigo, no período junino, enlouqueceu. É paulistano, mas tem uma loucura pelo Maranhão.

Você nunca foi atingido por aquele desespero, “vou voltar, que aqui não dá mais”? Já teve esse momento. Quando a Conceição faleceu foi um momento, a Companhia, nós prestamos serviço 10 anos pela Natura. Trabalhávamos de 15 em 15 dias pela Natura. Dois espetáculos pela manhã, dois espetáculos à tarde. Dali a 15 dias íamos para outra cidade, aquilo era uma estabilidade financeira, já garantia, eu dava poucas aulas, duas pela manhã, uma à tarde, uma vez por semana. Depois surgiu um grupo de dança, entrou a história do boi. Em São Paulo, quando tem alguma coisa de boi, tambor de crioula, as manifestações artísticas, ou chamam Tião ou chamam eu. Quando eles começaram esse projeto do Maranhão me chamaram para uma capacitação com as crianças, mas não era um emprego fixo. Em 2003 ou 2004 me efetivaram como funcionário para dar aulas a todas as turmas da instituição, atendendo crianças de oito a 16 anos. Aos 17 eles são encaminhados para outra instituição. O Gracinha trabalha com o horário inverso ao da escola, quem estuda de manhã participa de tarde e vice-versa. A música demorou a ser inserida, mas hoje em dia é o que tem o maior percentual de atividades na casa. A percussão hoje em dia faz parte da grade curricular.

Esses alunos que fazem música, qual o perfil? São crianças da periferia, crianças de baixa renda. A instituição, a Associação Pela Família, só trabalha com crianças que vivem em área de vulnerabilidade. A maior parte com envolvimento com drogas, crianças que foram abandonadas em abrigos. São atendidas por volta de 190 crianças, todo um trabalho pedagógico, a diretora tem uma cabeça muito aberta e os resultados estão para além do artístico, de comportamento, uns vão para outras áreas, mas muitos viram educadores.

À distância em São Paulo, como você faz para manter o vínculo com a Casa Fanti-Ashanti? Eu acendo minhas velinhas, minhas coisas, e por isso eu venho para cá, recarregar minha bateria, não só na música, mas principalmente minha bateria espiritual, vir ao terreiro, tocar para os orixás, cantar, fazer parte dos rituais. Essa é a principal energia que eu venho buscar. É como se fosse meu carregador de energia vital. Essa é minha busca. Se ficar muito tempo fora, você fica carente, mais fraco, voltando você vai recarregando esse ciclo. Meu sonho de consumo é equilibrar, seis meses aqui e seis meses lá, não direto, um aqui, dois lá, dois aqui, um lá. Se isso for possível através da música, vai ser minha realização como artista. Nunca sonhei em ser o mega-famoso de não poder parar nos botecos e tomar uma cerveja. É legal, bom ser reconhecido, mas não quero não ter a liberdade. Quero ser reconhecido, mas não precisa ser tanto [risos]. Quero continuar tendo a liberdade de brincar, tambor de crioula, bloco tradicional, ir para a Madre Deus, essa é a vantagem de não ser tão famoso. Eu quero estar no meio do povo, nasci do povo, sou povo, gosto de estar nessa folia. Você olha no olho das pessoas, se emociona ao ouvir uma toada.

O que significou para você integrar o Ponto BR e em especial ter dividido disco e palcos com tua mãe e com o saudoso Mestre Humberto de Maracanã? O Ponto BR foi um presente. A Renata [Amaral, contrabaixista e produtora] é uma pessoa muito talentosa, muito especial, muito sensível. Uma mulher de um olhar muito para o futuro, batalhadora, guerreira. Quando ela me chamou para a primeira montagem, foi por que exatamente ela sentia essa ligação entre o Maranhão e Pernambuco. A minha maior felicidade de estar dividindo, dividindo não, somando, com a minha mãe, primeiro ter a minha mãe como uma das grandes artistas do Maranhão, compositora, uma intérprete maravilhosa, canta lindamente bem, não é por que é minha mãe, mas eu me emociono ao ouvi-la cantar. Então, estar no palco, um momento que eu amo na minha vida, poder estar partilhando com ela, é uma satisfação impagável. Não dá para explicar. Eu sou tão fã, só ela estar junto já é um prazer, ela ser minha mãe, é um orgulho. Mestre Humberto, a oportunidade de poder trabalhar e tocar com ele, foi um dos meus mestres, eu tenho alguns que digo e assumo, Pai Euclides, Humberto, Dindinha, meu avô, minha vó, Nivô, Mestre Felipe. Eu sempre sonhei em ser mestre de tradição, nunca sonhei em ser músico. Essas pessoas sempre agregam pessoas, são sábias, são queridas, são pessoas especiais, é um dom. Sempre fui apaixonado por Humberto, cantando, compondo as músicas dele, eu canto até hoje, faço releituras. Tê-lo no palco, não só no palco, mas conviver, geralmente a gente dividia o quarto, a gente tinha um convívio, era como um pai para mim. Eu nunca tive muito contato com meu pai biológico, nós nos afastamos quando eu tinha oito, 10 anos de idade. Ter o prazer de estar junto de Humberto, ouvir as coisas que ele contava, as brincadeiras, a sabedoria, o jeito de falar da comunidade, do boi, dessa devoção, esse compromisso, abdicar de várias coisas para vivenciar isso, para ser o Mestre Humberto, aquilo era [uma recompensa] maior que meu cachê, maior que a repercussão que o Ponto BR trouxe para mim, poder viver com ele junto, mais próximos, saíamos, almoçávamos, ele contando das dificuldades, das realizações, dos sonhos, de uma instituição como o Maracanã, não só o boi, mas a comunidade, era um homem querido por toda a comunidade do Maracanã. Mesmo os evangélicos tinham um respeito por ele, pela sabedoria. Pai de muitos filhos, criador de muitas histórias. No começo, eu ficava, “nossa, eu não estou acreditando”, eu não acreditava, até me arrepio [mostra o braço arrepiado]. Saudade, né? Hoje em dia é saudade. Felizmente ou infelizmente eu estava aqui nessa passagem dele. Não tive tempo de mostrar o disco, mostrei algumas músicas, antes, tem um agradecimento para ele, por tudo. Sempre me ensinou, sempre foi um exemplo. Essa pessoa que ele é, e vai ser para sempre, é algo que eu vou sempre entender como a maior paga da minha vida, sempre me ajudando a crescer, eu vou na carona, [esses mestres] são pessoas iluminadas. No enterro dele eu fiz uma toada, mas nem consegui cantar. Mostrei para Ribinha [filho de Humberto].

Passaporte. Capa. Reprodução
Passaporte. Capa. Reprodução

FAIXA A FAIXA

Músico comenta as faixas de Passaporte, todas de sua autoria

Minha vaqueirada – Toada de bumba meu boi da Baixada, com arranjo um pouco mais moderno, tem saxofone, guitarra, violão. Uma leitura mais sofisticada, onde eu quis fazer uma homenagem a todos os bois da baixada, Santa Fé, Pindaré, Penalva, seu Apolônio. Representa o guarnicê, juntar para começar o show. É a toada que abre a nossa história.

Sensações – É um bloco tradicional, eu fiz inspirado no ritmo do bloco tradicional. Fala um pouco dessa história do carnaval maranhense. Retrata as sensações que eu sinto quando entro no mar. A lua é minha madrinha, o mar é meu padrinho. Desde criança eu fui dado como afilhado deles. As sensações que eu sinto quando entro no mar, liberdade. É um ritmo maravilhoso, pouco conhecido no Brasil, pela beleza, o próprio suingue da música, balançado dos contratempos, ritinta, agogô, cabaça, passeia um pouco por lembrar o carnaval maranhense e exaltar esse ritmo pouco explorado pela música dos compositores maranhenses.

Coreira de tambor – Foi a música que eu fiz para dona Maria Grande, exalta a beleza que o tambor de crioula tem, é um dos ritmos mais complexos do mundo. Onde eu passo fazendo oficina, até para músicos supercultos, se perdem nesse universo, de música diferente, que precisa ser mostrado. Essa poesia é inspirada na coreira, essa relação entre a coreira e o tocador, o tocador e o povo, a música e essa junção de gente em volta e a beleza que é a roda de tambor de crioula.

Coco de Ainé – É um pouco Pernambuco e um pouco maranhense. É para mostrar que o coco não é só pernambucano, não é só alagoano, não é só maranhense: o coco é do Brasil. Eu faço uma mistura desses dois ritmos, juntando Pernambuco com o Maranhão, e a beleza da brincadeira do coco, dançar, quebrar o coco, muita gente nem sabe, e falo dos cocos que existem, coco pirinã, coco de anajá, coco de embolada, exaltar um pouco da história dos brincantes do Brasil, os trabalhadores que utilizavam o coco para se divertir enquanto trabalhavam, um pouco de alegria na lida do trabalho braçal.

Estrela de Davi – É uma coisa do coração, uma homenagem que fiz para minha esposa, Natália. A história da lua, quando ela está só aquele sorriso, e tem aquela estrela embaixo, a lua nova e a estrela de Davi. Ela é a lua e eu sou a estrela, é um reflexo de nós dois.

Rio 3×4 – Foi a música que eu fiz em homenagem a minha filha, quando a encontrei. Demorei muito para descobri-la, rodei muito, passei por muitos lugares, Pavuna, Recreio, Iguaçu.

Brisa de mulher – Foi inspirada no reggae. É algo que sempre foi muito presente para mim, aqui no Maranhão. Sentia uma brisa, o cheiro de uma moça, mas exaltando o reggae, o regueiro que ia curtir reggae, Retiro Natal, Pop Som, Espaço Aberto, Toque de Amor [clubes de reggae em São Luís], exaltar um pouco do que eu vivenciei em termos de reggae.

São Jorge na Lua – Veio um pouco de minha influência mais pop, mais paulistana, eu comecei a descobrir esse ritmo, rock, mais moderno. É algo para mostrar que eu não sou apenas manifestação tradicional, mas eu também passeio por outros universos musicais.

Na roseira – Vem exatamente da minha primeira matriz, a Casa Fanti-Ashanti. Essa música eu fiz em homenagem a um caboclo da Casa Fanti-Ashanti, o Caboclo da Mata Linheiro, eu fiz essa doutrina do tambor de mina e coloquei a citação de um trecho da doutrina dele. [Cantarola:] “fala caboclo, caboclo guerreiro/ fala caboclo da Mata Linheiro”.

Caminho de pescador – É uma homenagem a minha mãe e minha avó, minha mãe Zezé e minha vó Iemanjá. Esse carinho que minha mãe tem, essa vivência, esse amor por essa entidade. Inspirado nisso eu fiz essa música para exaltar minha vó Iemanjá.

Por trás da serra – É uma homenagem a mestre Humberto de Maracanã. É uma toada de boi da ilha, sou praticamente só eu, toco todas as percussões, violão, e chamei o meu amigo Fabio Leão, que faz o violoncelo. É lembrando o universo de melodias, eu me inspiro no jeito dele compor, as melodias, a poesia. [Cantarola:] “Passarinho cantando na estrada/ anuncia o alvorecer”, ele é o passarinho dessa música.

Brasa em candeeiro/ Touro da beira do marBrasa em candeeiro vem para matar minha saudade dos bois de zabumba, o boi de seu Constâncio era praticamente no fundo de nossa casa, no Bairro de Fátima. Era umas três ruas depois, mas era como se estivesse lá dentro de casa, todo tempo aquela [imita com a boca o som da percussão do boi de zabumba]. É uma homenagem ao boi de seu Constâncio, de zabumba, lá do Bairro de Fátima. É um pot-pourri com Touro da beira do mar, que até Tião Carvalho faz uma participação nela.

Dança de criança/ Lua flor de canela – Cirandas em homenagem a Pernambuco, homenagem às crianças. A ciranda é um momento de juntar as mãos, eu utilizo muito quando fecho minhas oficinas, é hora de dar as mãos, fazer a roda, eu lembro de a gente criança em volta de uma mangueira, meu avô cantando, a gente girando. Ela junta, dá as mãos, fecha o ciclo.

Homenagem a João do Vale encerra temporada 2013 do BR-135

O projeto BR-135 encerrou em grande estilo sua temporada 2013. Ontem (17), o Teatro Arthur Azevedo completamente lotado foi palco de uma justa e merecida homenagem ao compositor João do Vale, o maranhense do século XX, que teria completado 80 anos no último 11 de outubro.

A casa certamente registrou um dos melhores públicos desta temporada, esta uma das marcas do projeto pilotado por Alê Muniz e Luciana Simões: por onde passa, o BR-135 leva um bom público.

Outra marca é justamente o diálogo permanente entre gerações, basta ver qualquer lista de convidados para cada edição do projeto, cujo saldo até aqui é positivo.

Nascido em Cururupu e radicado há mais de 30 anos em São Paulo, o cantor, compositor, instrumentista, ator e dançarino Tião Carvalho encarnou o homenageado: seguiu o emocionado roteiro de Andréa Oliveira – biógrafa de João do Vale – e cantou Minha história, Peba na pimenta, O canto da ema e A voz do povo.

O mestre de cerimônias tinha convidados. O roteiro musical fechou-se com Pé do lajeiro e De Teresina a São Luís, interpretadas por Djalma Chaves, Uricuri e Estrela miúda, por Milla Camões, Pisa na fulô e Na asa do vento, por Santacruz, e Carcará e Coroné Antonio Bento, pela banda Vinil do Avesso. Este texto talvez pareça burocrático. O show não o foi, fluindo espontaneamente, o entrosamento dos músicos, os convidados à vontade no palco, Tião Carvalho entre cantor e contador de causos, lembrando diversas passagens da vida e obra de João do Vale.

Se parece óbvia a seleção do repertório, privilegiando músicas por demais conhecidas do pedreirense, não o foram os arranjos, transformando xotes em reggaes – caso das interpretações de Santacruz – e rockificando o voo do Carcará.

Em geral não houve estranhamentos. Milla Camões, por exemplo, botou a plateia para cantar junto em Estrela miúda. A banda, um espetáculo à parte: Alisson Rodrigues (saxofone), Daniel Miranda (trombone), Hugo Carafunim (trompete), João Paulo (contrabaixo), João Simas (guitarra), Nataniel Assumpção (bateria) e Rui Mário (sanfona e teclado). Da plateia às galerias era possível ver, aqui e ali, entre sentados e em pé, muita gente arriscando uns passos, acompanhando a energia irradiada do palco.

O final apoteótico reuniu a todos – mais os anfitriões Alê Muniz (que havia subido ao palco para uma participação especial ao violão em Carcará) e Luciana Simões, além de membros da equipe de produção. Foram aproximadamente 1h30min de um show que deixa saudades – inclusive uma saudade temporária do projeto, que volta ano que vem, nos trazendo coisa boa, sabem Deus, Alê e Lu o quê.

BR-135 canta João

Alê Muniz e Luciana Simões, o casal Criolina, foram bastante aplaudidos, sobretudo nas redes sociais – o que inclui este blogueiro –, pela aparição, competente e emocionante, sábado passado (12), no Som Brasil dedicado ao público infantil na Rede Globo.

Mas esta dupla merece aplausos por muito mais. Já há algum tempo eles capitaneiam, por exemplo, o projeto BR-135, iniciativa louvável, entre outras, por duas razões: primeiro, o fomento a uma cena autoral e de qualidade, a organização de artistas e o botar pra fazer, acabando com aquele chororô de “falta palco”, “ninguém me apoia”, “não tem plateia” etc., que por vezes acomete parte de nossa dita classe artística, sobretudo no campo musical – que contraditoriamente é o mais apoiado, se compararmos, por exemplo, com o povo do teatro ou das artes plásticas, para ficarmos em poucos exemplos, mas esta é outra discussão e este post não tem este objetivo; segundo, pela reverência ao que vem antes desta cena que o BR-135 – e o Criolina – ajuda(m) a consolidar.

Acertadíssimos os tributos já realizados aos 35 anos do disco Bandeira de Aço, o primeiro em maio passado no Teatro Arthur Azevedo, o segundo no último 6 de outubro, na Praça Nauro Machado, no encerramento da 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS). E agora me vêm com essa: uma merecidíssima – perdoem aí os superlativos – homenagem ao nada menos que genial João do Vale, que teria completado 80 anos – e eu achando que seriam 79, gracias Andréa Oliveira, Benedita Freire e Wilson Marques! – no último 11 de outubro.

João do Vale 80 anos será o último show do BR-135 em 2013. O espetáculo acontecerá nesta quinta-feira (17), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo, com a seguinte seleção escalada para atacar com o repertório do autor de Carcará e tantas outras pérolas: Tião Carvalho, Djalma Chaves, Milla Camões, Santacruz e a banda Vinil do Avesso. O primeiro, que em 2006 dedicou o álbum Tião Canta João [Por do Som] ao repertório do pedreirense, será o mestre de cerimônias. Os ingressos poderão ser trocados na bilheteria do teatro, na data do show, a partir das 14h, por um quilo de alimento não perecível.

Painel na Vila Palmeira batiza de João do Vale Tião Carvalho

Louvo a iniciativa. Eleito o maranhense do século XX entre o fim daquele e o início deste, João merece a lembrança e certamente aprovaria a homenagem. Ajuda a reparar erros como o do muro do Parque Folclórico da Vila Palmeira, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), onde se vê uma foto de Tião Carvalho e lê-se João do Vale logo abaixo. Ambos são artistas negros, nascidos no interior do Maranhão – Tião é de Cururupu – e inegavelmente talentosos. As semelhanças são muitas, mas nada que justifique o vacilo da oficialidade.

Original desde o batismo, o BR-135 pega emprestado o nome de nossa única via de entrada e saída por terra da Ilha. Que o casal Criolina continue trilhando-a e ajudando a construir outras pontes musicais.

Sarau de Bailados do Laborarte acontecerá sexta-feira (12)

Espécie de extensão do período junino em São Luís, o Sarau de Bailados promovido pelo Laborarte já é tradição. Desde 2011 realizado em maio, o baile popular acontecerá em 2013 como um lava-pratos do São João. A festa é capitaneada pela cantora Rosa Reis, pesquisadora dos ritmos de nossa cultura popular, e este ano tem, além de seu show, uma apresentação do cantor maranhense Tião Carvalho, radicado em São Paulo.

O repertório passeará por bumba meu boi, coco, carimbó, cacuriá, ciranda, maracatu, tambor de crioula e muito mais. A festa acontece nesta sexta-feira (12), às 21h, na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro). Os ingressos já estão à venda no local.

“O público vai ter um repertório dançante, o que torna o espetáculo participativo. A ideia é que todos entrem na roda pra dançar com gente, conhecendo e experimentando as peculiaridades dos ritmos maranhenses. No final, é o público quem constrói o espetáculo conosco”, promete Rosa Reis.

Músico maranhense, Tião Carvalho está internado no Hospital das Clínicas

O cantor e compositor Tião Carvalho está internado no Hospital das Clínicas, em São Paulo, acometido de malária. O quadro do artista ainda inspira cuidados, mas ele já deixou a UTI.

Segundo Cacau Amaral, percussionista que acompanhou o músico na banda Mafuá, Tião Carvalho estava em Maputo, Moçambique, onde fez shows e ministrou oficinas de danças populares brasileiras entre o fim de setembro e início de outubro.

Maranhense de Cururupu, Tião Carvalho vive em São Paulo há cerca de 30 anos. Na capital paulista é responsável pela difusão da cultura popular maranhense no Morro do Querosene, o que lhe rendeu o título de cidadão paulistano, honraria concedida pela Câmara de Vereadores. Gravou com os grupos Mafuá e Boi de Cupuaçu, além de discos solo, o mais recente Tião canta João (2006), em que interpreta a obra do conterrâneo João do Vale. É autor de Nós, sucesso de Cássia Eller.

Relendo Tião Carvalho

Curtindo uma praia, Tião Carvalho conversou com o blogueiro há quase seis anos

Memória – Há quase seis anos Tião Carvalho baixou na Ilha para lançar Tião canta João. Na ocasião, após o show no Teatro Arthur Azevedo, marquei uma entrevista com ele. Para um domingo. Sem mais compromissos, o artista curtia uma praia e me mandei para lá. Não lembro ao certo quanto tempo durou a conversa, mas foram quase duas horas, pois lembro que gravei duas fitas k7.

Transcrevi-a inteira e a vontade era publicá-la com nada de edição. Ou o mínimo. O resultado final acabou extrapolando o limite de caracteres para artigos no Overmundo, onde publiquei a primeira parte da entrevista, deixando as “sobras”, chamemos assim, para o blogue.

A entrevista vai além do lançamento do disco na ocasião, vai além da música. Vale relê-la. Tião faz show amanhã no Papoético.

Tião Carvalho faz show no Papoético

Depois do sucesso de Chico Saldanha e Josias Sobrinho, que se apresentaram quando o Papoético ainda tinha como palco o Chico Discos, o projeto idealizado pelo poeta e jornalista Paulo Melo Sousa leva ao palco do Restaurante Cantinho da Estrela (Rua do Giz, 175, Praia Grande), o compositor Tião Carvalho.

É uma segunda empreitada mais arrojada de produção de um acontecimento semanal que já soma mais de 70 encontros, desde sua primeira edição, em novembro de 2010. Maranhense de Cururupu, o cidadão paulistano – vive em SP há mais de 25 anos – Tião Carvalho mostrará em Tiãozinho e sua gente, título do espetáculo, músicas autorais e sucessos de nomes do Maranhão, a exemplo de João do Vale, cujo repertório gravou em seu mais recente disco, Tião canta João, inteiramente dedicado à obra do mestre pedreirense.

O show acontece dia 5 de julho (quinta-feira), às 21h. Os ingressos custam apenas R$ 15,00. O evento tem apoio cultural da Livraria Poeme-se e da Banca de Revistas da Praia Grande. Na ocasião Tião Carvalho (voz) será acompanhado de Ana Flor (voz), Noel Carvalho (percussão), Ariel Coelho (percussão), Netinho (violão e guitarra), Tiago Lindoso (bateria) e Renata Amaral (contrabaixo, do grupo A Barca).

A abertura fica por conta da discotecagem de Victor Hugo, tocando música maranhense direto do vinil, num primoroso trabalho de pesquisa.

Trapixixita

É certeira a afirmação do músico Chico Nô em e-mail recebido pelo blogue, ao classificar a Tribo do Pixixita, que completa nove edições hoje, como “uma mostra da música maranhense contemporânea”, ele um dos discípulos do homenageado, o evento já cravado no calendário musicultural da Ilha.

Tribo é corruptela de tributo a este “artista quase sem obra”, conforme me confidenciou Nelsinho Martins, filho de José Carlos Martins, o Pixixita. “Ele era sobretudo um cara que gostava de brincar, de música e de ser amigo. Gostava de tocar sem compromisso, tipo, no teu quintal, numa farra; se tu chamasse ele pro palco, pra tocar no teu show, aí ele já ficava envergonhado, era muito tímido”, lembra o professor de capoeira do Laborarte.

Um time de bambas de primeira linha da música produzida hoje no Maranhão ocupará o Trapiche Bar, na Ponta d’Areia, mesmo em caso de chuva, a partir das 21h: Ângela Gullar, Célia Leite, Chico Maranhão, Criolina, Dicy Rocha, Erivaldo Gomes, Gerude, Instrumental Pixinguinha, João Madson, Nosly, Rosa Reis, Tutuca e Zé Maria Medeiros, além do citado Chico Nô e dos poetas Celso Borges, Moisés Nobre e Paulo Melo Sousa. Direto de São Paulo, o maranhense de Cururupu Tião Carvalho fará o show de encerramento da noite. Mas certamente muitos artistas não anunciados devem dar o ar da graça e arte nesta noite que promete.

Engenheiro civil de formação, Pixixita teve na música sua grande paixão: figura querida por quantos o conheceram, foi professor da Escola de Música do Maranhão. Falecido em 2002, tem sido lembrado anualmente por esta festa que cresce a cada edição. Os ingressos custam apenas R$ 20,00 e podem ser adquiridos no local. Abaixo, alguns momentos da edição de 2009, pra você entrar no clima, sacar qual é e ter desperto o desejo de pintar por lá mais tarde:

De Cajari p’ra Capital Federal

(OU: EMARANHADO EM BRASÍLIA)

Ali pelo final dos anos noventa, início dos zero zero, eu ‘tava começando na boemia e perdi o antológico São três léguas, outros bois e muito mais, show que reunia, no mesmo palco, o do Circo da Cidade, os compositores Chico Saldanha e Josias Sobrinho, cuja obra eu já conhecia.

Do segundo, sobretudo as quatro músicas incluídas em Bandeira de Aço (1978), clássico absoluto de Papete – De Cajari p’ra capital, Engenho de flores, Dente de ouro e Catirina; do primeiro, principalmente Itamirim, imortalizada em seu disco de estreia, Chico Saldanha (1988), por Tião Carvalho. A música, que quase fica de fora, fez tanto sucesso que Saldanha colocou a mesma faixa, de bônus, em Celebração (1998) – é de Morena de Itamirim, uma das faixas do disco, aliás, o verso-título do show.

Tempos depois eu assistiria a vários, muitos shows dos dois, separados, juntos ou em bandos, caso do premiado Noel, Rosa Secular, homenagem ao centenário de Noel Rosa que arrebatou o troféu de melhor show no Prêmio Universidade FM do ano passado, que além deles levava ao palco ainda Cesar Teixeira e Joãozinho Ribeiro, mais as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro.

Com o título DoBrado ResSonante, Josias e Saldanha voltam a se encontrar, desta vez em Brasília/DF, acompanhados de Marcão (violão e cavaquinho), Mauro Travincas (contrabaixo) e Carlos Pial (percussão). O show acontece em dose dupla: amanhã (14), no Feitiço Mineiro (CLN 306, Bloco B, Lojas 45/51, (61) 3272-3032); quarta-feira (18), no Espaço Cultural Silvino Filho/ Nosso Mar (CLN 115 – Bloco B – lojas 3,77, (61) 3349-6556), sempre às 22h – no segundo show a dupla conta com a participação especial de Erasmo Dibell. A produção não informou o valor do ingresso, mas custe o que custar, vale a pena.

Dente de ouro (2005), de Josias, e Emaranhado (2007), de Saldanha, seus discos mais recentes, estarão à venda nos shows.

Antes da MPM

FLÁVIO REIS*

[Vias de Fato, setembro/2011]

Há alguns anos, um conhecido texto de Ricarte Almeida Santos, intitulado De Zeca Baleiro a Bruno Batista… ainda bem que “eu não ouvi todos os discos”, falava da inadequação do termo MPM (música popular maranhense) para se referir à música produzida aqui nos anos 70, 80 e 90. Saudava o disco de estreia de Bruno Batista [o homônimo Bruno Batista, 2004], cuja diversidade de influências o colocava fora da camisa de força da música baseada nos ritmos locais. Na sua crítica à adoção de um rótulo que “reduzia a produção musical do Maranhão a uma receita de sucesso, como se tentou”, não só utilizou os exemplos de Zeca Baleiro e Rita Ribeiro, então recém-incorporados ao cast da MPB, como finalizou dizendo que (e aí a radicalidade da negação) “isso já faziam seu Antônio Vieira, Josias Sobrinho, Chico Maranhão, Joãozinho Ribeiro, Cristóvão Alô Brasil, Cesar Teixeira, Seu Bibi, Dilú e tantos outros que por aqui produziram a verdadeira Música Brasileira”. O texto reportava-se a outro artigo, escrito pelo jornalista Hamilton Oliveira, cujo título era bem direto: Adeus ‘MPM’! Salve o Compositor Popular Brasileiro, onde afirmava que “o rótulo criado por certos artistas, produtores e comunicadores para vender a nossa música só contribuiu para esconder a sua verdadeira natureza”.

Comentando as observações de Ricarte e Hamilton, o compositor Chico Maranhão publicou um importante artigo, MPM em Discussão (O Estado do Maranhão, 18/07/2004), em que tenta delinear o que seria afinal a MPM. Uma das figuras de proa do movimento gestado nos anos 70 de aproveitamento de ritmos e temas para “a construção e a afirmação de uma canção maranhense moderna”, parece identificar seus pontos distintivos nos “textos cantados” e na “pulsação boeira”. Ele localiza como os experimentos em curso, que tiveram no Laborarte um espaço catalisador, estavam ligados à afirmação de uma identidade cultural e a música popular seria para isto um “veículo significativo, embora naquela época, inconsciente”. Por outro lado, a condição periférica “em relação aos centros produtores da MPB… é um fato preponderante na nossa produção, portanto a adoção da sigla MPM, que aqui não estou defendendo, mas apenas discutindo, se não mais tem razão de ser teve seu momento de importância quando aglutinadora de idéias, contribuindo na consciência de uma poesia musical comprometida com a realidade maranhense”. Assim como Ricarte concluía seu artigo com o elogio de um cd que estaria além do rótulo, Chico Maranhão termina, de maneira inversa, afirmando que Shopping Brazil, de Cesar Teixeira, e Alecrim Cheiroso, de Rosa Reis, duas produções do Laborarte, seriam autênticas expressões da “música popular maranhense”. O que faltaria? O velho sonho: uma gravadora e disposição das rádios para rodar os discos (“o ‘jabá’ deve sair da alma maranhense”).

O tema é intrigante, pois se chegarmos, por exemplo, no Recife ou no Rio de Janeiro e falarmos em MPM, provavelmente ninguém saberá do que se trata (talvez nem mesmo muitos de nós). O termo deve ter aparecido em meados dos anos 80, não se sabe ao certo, mas na década de 70 não se falava nisso. Naquele tempo, o lance ainda estava sendo gestado, os elementos da estética tomando forma. O rótulo apareceu quando se tentou vender a coisa, depois do marco que foi o disco Bandeira de Aço, mas aí já não era tanto a pesquisa, a experimentação e o talento que davam o tom, mas certo esvaziamento estético, os teclados de estúdio, a ânsia do “sucesso”, a pasteurização. De qualquer maneira, em 82 a expressão começa a ser desenhada num “I Festival de Verão da Música Maranhense”, uma parceria da Mirante FM e a TV Ribamar, do grupo Vieira da Silva. Essa é uma questão complicada, que não comporta respostas fáceis. Afinal, chegou a se constituir algo distinto na música produzida aqui (leia-se São Luís) que justificasse um rótulo ostensivo cuja grafia busca mesmo uma simetria com a expressão “música popular brasileira”? Como essa transformação na música se articula com outros campos artísticos e, principalmente, com as alterações na discussão sobre a identidade maranhense que então se iniciavam?

O Maranhão sempre cultivou uma diferença dentro do nordeste em termos da natureza e da cultura e ao mesmo tempo nunca se identificou com o norte. As representações elaboradas pelos intelectuais locais primeiro buscaram num passado idealizado o que nos distinguiria. De forma lenta a partir dos anos 70 até estourar nas duas últimas décadas, essa diferença foi se fixando na exaltação da cultura popular. Continuávamos a nos sentir descendentes dos “atenienses” do século XIX (a cidade dos poetas), a fazer referência a uma mítica “fundação francesa”, ter orgulho dos casarões (a cidade dos azulejos) – apesar de no dia-a-dia eles continuarem despencando – no entanto, cada vez mais o orgulho foi passando para algo antes quase escondido, as manifestações culturais populares como o bumba meu boi e o tambor de crioula. A questão da gestação de uma música, na verdade de uma arte com traços distintivos regionais, pois a tentativa era de articulação entre várias manifestações, deve ser tratada dentro do arco longo que envolve as modificações estéticas ocorridas na canção brasileira moderna, os ventos liberadores da contracultura e a rotação nos debates em torno da cultura popular e da identidade.

É possível indicar que o aproveitamento de motivos populares para a formação de um cancioneiro popular se desenvolveu lentamente desde os anos 30 no mundo da boemia e ao abrigo das festas populares, chegando ao rádio em programas ao vivo. Existia uma “velha guarda” de compositores e músicos populares, criadores de choros, sambas, xotes, baiões, inspirados na realidade maranhense (Antônio Vieira, Lopes Bogéa, Agostinho Reis, Cristóvão Alô Brasil, entre outros cronistas da cidade, da vida nos bairros). Um nome que surgiu na década de 50, saiu ainda moleque e fez carreira transformando-se em referência nacional foi João do Vale. De maneira geral, a questão se resume em que as temáticas tratadas eram daqui, mas os ritmos e danças populares ainda não haviam influenciado as formas musicais, o que pode ser observado no I Festival de Música Popular Brasileira no Maranhão, realizado em 1971. Com exceção de Boqueirão e Toada Antiga, as composições não fazem utilização de ritmos locais. O próprio nome do festival deixa claro que ainda não havia essa ideia de uma música maranhense, com elementos distintivos no cenário nacional. A música de maior sucesso junto ao público foi uma canção melosa cujo título dizia tudo, Louvação a São Luís, do poeta Bandeira Tribuzzi. Estavam presentes, entretanto, nomes que seriam fundamentais nas elaborações estéticas que marcariam a década, como Sérgio Habibe, concorrendo com a belíssima Fuga e Anti-Fuga, Giordano Mochel, com Boqueirão, que se tornaria um clássico do moderno cancioneiro maranhense e Ubiratan Souza, o grande arranjador daquela sonoridade com “pulsação boeira” de que falou Chico Maranhão.

Na década de 70, um pequeno vulcão irrompeu em São Luís num casarão localizado à rua Jansen Müller, o Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte). Fruto da junção de movimentações que já se produziam no campo do teatro, com a experiência do Teatro de Férias do Maranhão (Tefema), organizado por Tácito Borralho, da dança, com o grupo Chamató de danças populares de Regina Teles, e da poesia, com o grupo Antroponáutica, de que faziam parte Valdelino Cécio e Luiz Augusto Cassas, ao qual se juntaram a música, com Sérgio Habibe e Cesar Teixeira, logo também Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Zezé [Alves], a fotografia e o cinema com Murilo Santos. Unia todas essas figuras o interesse na pesquisa das manifestações da cultura popular, geralmente ainda vistas sob a ótica do “folclore”, para servir de substrato a uma arte moderna, engajada e identitária. Como disse Tácito, principal mentor e, de resto, o melhor analista do processo, o Laborarte era “na sua formulação e urdidura, um grupo, mas na sua proposta básica e fundamental, o desencadeador de um movimento estético-político”. Esses jovens criativos e cheios de idealismo iniciaram uma estética de reelaboração dos ritmos e danças e exploração do imaginário das manifestações pesquisadas em lugarejos da ilha de São Luís ou no interior do estado. Alteraram o teatro que se fazia aqui nos anos 70, sob a direção de Tácito, com peças como João Paneiro e O Cavaleiro do Destino, em parceria com Josias, misturando atores e bonecos gigantes, cenários e figurinos utilizando materiais e cores presentes nas comunidades, com linguagem e ritmos das próprias manifestações culturais em foco e mobilizando largamente o rico universo de lendas do Maranhão, tratando de temáticas engajadas como a discussão dos efeitos da implantação da Alcoa para várias comunidades que estavam sendo desalojadas, ou seja, tudo acompanhado de um trabalho de educação popular e conscientização política, como se dizia então. Após a saída de Tácito, além da continuidade desse teatro de pesquisa, agora sob a direção de Nélson Brito, o Laborarte teria papel importante na valorização de danças antigas (tambor de crioula) e na propagação de danças novas (cacuriá).

No campo da música, a influência foi mais localizada no tempo, quando lá estavam Cesar, Sérgio, Josias, até meados dos 70, mas decisiva na elaboração dos traços do que seria posteriormente chamado de MPM. Esses são autores de clássicos reconhecidos como Bandeira de Aço, Boi da Lua, Flor do Mal, Eulália, Cavalo Cansado, Ponteira, Engenho de Flores, Dente de Ouro, Catirina e tantos outros. Formaram o substrato que daria origem a Bandeira de Aço, disco gravado por Papete para o selo de Marcus Pereira em 1978, uma espécie de marco inicial e ao mesmo tempo principal da mistura que se operava criando uma canção com sotaque perfeitamente discernível, no sentido preciso de poder ser identificado como algo desta região, de pandeirão, tambor, matraca, da mesma forma que o maracatu, por exemplo, marcaria anos depois de maneira igualmente indiscutível a música produzida pelo movimento do manguebeat no Recife. O experimento inspirava-se nos ritmos, na riqueza melódica, no traço poético presente em nossas manifestações populares. Sérgio Habibe, em informação verbal colhida por Tácito, relata que “naquela época fazia um tipo de música, Cesar Teixeira fazia outro e Josias Sobrinho, um outro. E que foi só começarem a trocar idéias para chegarem facilmente a um consenso: os ritmos do bumba-boi, do tambor de crioula etc. Foi só trabalhar nisso e começou a aparecer um perfil de música maranhense. Dois anos depois, quando os três tomaram consciência da coisa, já tinham provocado uma reviravolta em São Luís”.

Entretanto, a questão da gestação dessa música tem pontas igualmente importantes para fora, que se cruzam com o Laborarte. Uma delas é a figura crucial de Chico Maranhão. Descendente de família tradicional dos tempos do Império, os Viveiros, mas já sem as posses de outrora, estudava arquitetura na USP no final dos anos 60 e estava completamente enfronhado nas modificações da canção operadas nos festivais, tendo obtido mesmo algum sucesso com o frevo Gabriela no Festival da Record de 1967, defendida pelo MPB4. Em 1974 gravou o disco Maranhão, nome pelo qual era conhecido, pelo selo Marcus Pereira. Estão lá além de Gabriela, músicas importantes como Cirano, onde mostrava todo o seu potencial de letrista; Cabocla, um samba dialogado, espécie de resposta a Carolina, de Chico Buarque, e Lindonéia, de Caetano, na verdade superior a ambas; Deixa Pra Lá, outro samba simples, mas envolvente com a letra levada num canto quase falado e Bonita Como Um Cavalo, um de seus clássicos. A rigor esse trabalho se localiza no meio das transformações da canção, na métrica, no linguajar, que estavam sendo operadas pelos Chicos e Caetanos da nascente MPB, pois esta designação, é bom frisar, se consagra a partir desse período. De volta a São Luís, em busca dos ritmos do tambor, dos bois, da Ponta da Areia, entra em relação com o pessoal do Laborarte e lança em 1978 o fundamental Lances de Agora, novamente para o selo de Marcus Pereira, gravado na sacristia da igreja do Desterro, com o Regional Tira-Teima, onde despontavam Ubiratan [Souza], [Chico] Saldanha, Paulo [Trabulsi, então com apenas 17 anos], [Antonio] Vieira [único já falecido entre os músicos de Lances de Agora], Arlindo [Carvalho], e mais a presença de outros nomes, entre eles, Sérgio Habibe tocando flauta e Rodrigo engrossando o naipe de percussionistas. Aqui as músicas possuem maior influência dos ritmos regionais, mesmo que o leque seja variado, incluindo samba-choro, frevo, marcha, canção, toadas. Dois anos depois lançaria Fonte Nova, que ainda traz boas músicas desta fase, como a faixa-título, Veludo, Viver e a impressionante A Vida de Seu Raimundo, uma história de sequestro, tortura e assassinato, contada em detalhes, inclusive com o cinismo das versões oficiais, as notícias, os boatos, enfim, todo o enredo daqueles tempos da ditadura. É o traço do “texto cantado” levado aqui ao paroxismo, próximo mesmo à experiência dos repentistas, brincando com as palavras com maestria. Maranhão organizou o tambor de crioula Turma do Chiquinho, que manteve longo tempo e durante a década de 90 retomou as gravações, mas com trabalhos desiguais e sem o mesmo vigor, destacando-se, no entanto, outro momento memorável na “Ópera Boi” O Sonho de Catirina.

Dois nomes também importantes que corriam por fora da experiência do Laborarte eram [Giordano] Mochel e Ubiratan Souza.  O primeiro, nascido na região da Baixada, de onde retira muita influência da poética e das melodias chorosas do sotaque de orquestra, é autor de pérolas como Boqueirão, São Bento Velho de Bacurituba, Biana. Cedo se estabeleceu no Rio de Janeiro e somente em 93 gravou o disco Boqueirão, reunindo algumas de suas melhores composições e chegando a levar o prêmio Sharp na categoria “revelação regional”. O segundo é formado em enfermagem, mas antes de tudo compositor, ótimo músico autodidata e exímio arranjador. Foi responsável pelos arranjos de Lances de Agora, sempre atento às nuanças das letras de Chico Maranhão, do belo show Pitrais de Mochel, realizado no final da década de 70 no Teatro Arthur Azevedo e, posteriormente, quando da gravação do primeiro disco de Josias [Sobrinho, Engenho de Flores] ou do já citado de Mochel, é quem responde pelas faixas que possuem o arranjo mais próximo da sonoridade “boeira” que se conseguia por aqui.  Um arranjador sempre variado, um banjo ali, um clarinete acolá, um detalhe de percussão, um coro bem colocado, isso tudo num acabamento cuidadoso bem típico de Ubiratan, outro que também se estabeleceria em São Paulo a partir do início dos anos 80 e lançou vários discos. Esta é uma questão importante porque uma das tragédias da chamada MPM é que raramente conseguiram no estúdio o impacto da sonoridade acústica das apresentações.

Depois que deixou o Laborarte, César mergulhou na Madre Deus, bairro cheio de compositores, velhos tocadores de choro e samba, blocos de carnaval, brincadeiras locais e muita cachaça, fez shows, sempre mais raramente que todos os outros, participou de festivais, onde emplacou sucessos como Oração Latina, mas só gravaria um trabalho mais de duas décadas depois, o ótimo cd Shopping Brazil. Sérgio [Habibe] foi para os EUA, depois transitou pelo Rio de Janeiro, fez shows pelo projeto Pixinguinha em cidades do país e volta e meia estava de novo aqui, onde se fixou de vez, lançando alguns discos a partir do final dos anos 80. Em 2008 gravou Correnteza, ao vivo no estúdio, um bom apanhado de suas melhores canções, contando com outro grande arranjador, Hilton Assunção, fazendo o retorno à sonoridade acústica na qual essas músicas rendem melhor, depois de discos com certa roupagem pop. Lá estão Eulália, Jardins e Quintais, Do Jeito que o Diabo Gosta, Cavalo Cansado, Panaquatira e outras conhecidas, fechando com Olho D’Água, uma bela e sombria denúncia da destruição ambiental de uma praia que sempre lhe foi tão cara. Josias formou o quase lendário Rabo de Vaca, com Beto Pereira, Zezé [Alves], Tião [Carvalho], [Manoel] Pacífico, Erivaldo [Gomes], depois também, Jeca, Mauro [Travincas], Ronald [Pinheiro] e Omar [Cutrim]. Criado para acompanhar um espetáculo teatral, tornaria-se um grupo forte, inesquecível, que se apresentava nas praças, em auditórios, igrejas e associações de bairro ou onde fosse. Era uma verdadeira caravana apta a absorver quem chegasse e o clima de mistura, liberdade e simplicidade daquela música contagiava os poucos que se aventuravam a segui-los. O grupo se desfez em 82, depois de cinco anos de atividades e shows memoráveis como Dente de Ouro, Nesse Mato tem Cachorro e Vida Bagaço, apesar da precariedade constante e às vezes até da inexistência do sistema de som. Alguns foram para São Paulo, Josias e Beto [Pereira] partiram para a carreira solo aqui mesmo. Josias gravaria o primeiro disco apenas em 87, em São Paulo, com a presença de ex-companheiros do Rabo de Vaca, sem a mesma energia, mas ainda com bom resultado em várias faixas, desfilando belezas como Terra de Noel, Coragem das Matracas, Vale do Pindaré, Olhos D’água. O segundo disco, quase todo com o recurso de programações, e o terceiro são bem inferiores, algumas boas músicas ficaram prejudicadas, mas ainda é possível destacar Boi de Pireli e Nas Águas. Conseguiria uma qualidade melhor de arranjo e gravação num cd [Dente de Ouro] produzido por Papete em 2005, onde volta aos sucessos conhecidos, relembra outras composições do tempo do Rabo de Vaca (Três Potes, Rosa Maria) e junta com sucessos mais recentes, como O Biltre.

Na verdade, os três compositores fundamentais oriundos do Laborarte se tornaram aos poucos conhecidos dos maranhenses com o lançamento do disco Bandeira de Aço, do percursionista Papete, em 1978, todo com composições desses novos nomes da música local. O disco estourou, a população passou a cantar os sucessos principalmente no período junino, a se identificar naqueles versos e ritmos. Músico já rodado, apesar de ainda jovem, Papete reuniu um time de ótimos instrumentistas e conseguiu extrair um som equilibrado dos pandeirões e matracas. Apesar dos conhecidos erros nas harmonias e nas letras de algumas músicas, uma seleção de resto muito feliz, Bandeira de Aço firmou-se como um marco desta estética que estava sendo perseguida desde o início da década. A voz fraca de Papete ficou ótima, com um acento lamentoso. Ninguém cantou melhor Boi da Lua e Catirina, por exemplo, para ficar nestas. Um disco histórico.

A situação parecia promissora no final dos anos 70. Dois discos fortes, Lances de Agora e Bandeira de Aço, shows utilizando o espaço de teatros, do Arthur Azevedo (na gestão de Arlete Nogueira, porque depois o sempre ridículo Pergentino Holanda, num ataque de “francesismo ateniense”, tentou se livrar da moçada proibindo camisetas e chinelos…), passando pelo Viriato Correa (Escola Técnica), Jarbas Passarinho (Ufma) ou o pequeno teatro do Museu Histórico, de praças, como a Deodoro ou parques, como o do Bom Menino, mas também bairros da periferia, Anjo da Guarda, Liberdade, Anil e até algumas cidades próximas do interior. O público em potencial parecia existir e não só entre jovens universitários de classe média. As rádios ainda resistiam, mas, no início da década a Rádio Universidade e a Mirante se diziam dispostas a “tocar música maranhense”, como lembrou Chico Maranhão no artigo citado. Para completar, o discurso que abria o campo de representações sobre a identidade maranhense no sentido de incorporar um conceito de popular se aprofundaria cada vez mais a partir daí, como indicando uma vitória da luta para ver e ouvir nossas próprias manifestações empreendida no âmbito do Laborarte. Onde, então, a coisa degringolou e o projeto ficou a meio caminho, foi se tornando aguado?

"Com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá"

Para indicar logo problemas no âmbito do mercado fonográfico, os dois discos tinham saído dos esforços de Marcus Pereira, mas ele faliu e terminou de maneira trágica, cometendo suicídio depois de ter lançado mais de cem títulos, muitos de importância crucial para o mapeamento da diversidade musical brasileira. As rádios locais, por seu lado, roeram a corda, pois achavam que a “música maranhense” caía bem somente no período junino. Sem muita perspectiva profissional, vários músicos tomaram o rumo do eixo São Paulo e Rio. Em 1980 houve um projeto coletivo com compositores locais, financiado pelo órgão de cultura do estado com apoio da Funarte, uma coletânea intitulada Pedra de Cantaria, disco gravado em Belém, com direção musical de Valdelino Cécio e arranjos de Ubiratan Souza. Alguns desentendimentos parecem ter cercado a execução do projeto, mas, com a exceção de Cesar Teixeira, quase todos estavam lá, Chico [Maranhão], Sérgio [Habibe], Josias [Sobrinho] e o pessoal do Rabo de Vaca, [Giordano] Mochel, Hilton [Assunção], Ubiratan [Souza] e [Zé Pereira] Godão, uma figura que seria cada vez mais importante nas articulações entre cultura popular, mídia e mercado. Cinco anos depois, com patrocínio da Mirante FM, que comemorava seus quatro anos de existência, foi lançado Arrebentação da Ilha, outra coletânea, cuja música de abertura, Quadrilha, é uma criação coletiva (Chico, Josias, Sérgio, Ronald e Godão). Aqui o processo toma uma feição mais definida, estão lá muitos dos antigos que participaram do projeto anterior com a presença de uma nova geração (Gerude, Tutuca, Jorge Thadeu e outros).  No geral, a tônica dos antigos foi uma dificuldade para gravar e, quando o fizeram, muitas vezes o resultado ficou aquém da intensidade ouvida na década de 70. Os nomes que continuavam aparecendo (César Nascimento, Carlinhos Veloz, Alê Muniz, Mano Borges etc.) não tiveram a mesma preocupação com a pesquisa, não eram também tão talentosos e logo buscaram se diferenciar da geração anterior no que diz respeito à utilização dos ritmos regionais, estabelecendo uma descontinuidade. Ou seja, a cena tinha se esvaziado, era outra coisa, rodava agora em torno do rádio e do disco e no meio artístico muitos ambicionavam o estrelato a todo custo, ainda que fosse apenas um pequeno estrelato local. Tentava-se uma entrada desastrada, porque submissa até a ingenuidade, no âmbito da indústria cultural, com gravações em condições inadequadas, o compadrio e outros interesses influindo decisivamente na oferta das poucas fontes de financiamento, passando muitas vezes pelos favores de Fernando Sarney, através da Cemar e da Mirante. Em suma, não chegou a se configurar propriamente um mercado, gerando uma antítese mal sucedida da tônica radical da década anterior, que havia chegado quase à negação total de mercado e mídia.

Todos estes problemas, é bom frisar, não são posteriores e sim ocorrem de forma mais ou menos simultânea ao próprio aparecimento do termo em questão MPM. O eixo central não era mais aprofundar a pesquisa da diversidade cultural e revolver a identidade através da música, mas apresentar e vender o que aparecia como novidade. O desastre começou pela própria designação que, antes de especificar, parecia mesmo restringir o alcance da música, circunscrevendo seu mercado potencial, piorado pelo já mencionado fato de seus divulgadores locais estabelecerem uma nova restrição ao relacioná-la às festas juninas. Visto retrospectivamente era uma autêntica vitória de Pirro, quase no mesmo passo saímos de uma situação aparentemente promissora para um esvaziamento precoce, o que parece indicar os limites em que a experiência toda se gestava, mas para perceber o quadro é preciso recuar e ampliar o foco.

As transformações que o Maranhão conheceu a partir do final dos anos 60 na esteira dos processos econômicos acelerados com o golpe militar configuraram uma “modernização oligárquica”, como tem acentuado o historiador Wagner Cabral. A antiga São Luís da Praia Grande e do Desterro, da velha trilha do Caminho Grande, fechava o seu longo ciclo e daria lugar à rápida expansão a partir do São Francisco e Calhau, de um lado, e através da criação de bairros populares no interior da Ilha, por outro. A economia não era mais controlada pelas antigas firmas comerciais e muitas de suas famílias entraram em processo de declínio financeiro. Os novos horizontes econômicos apontavam para os grandes projetos de interesse do governo federal, como a exportação do minério vindo de Carajás, o estabelecimento da Alcoa, o estímulo à formação do agronegócio no sul do estado e o início da preocupação com o turismo, enquanto mercadoria e enquanto renovação de laços de identidade, através da exaltação da natureza e do patrimônio arquitetônico. Num quadro de alterações lentas, mas de rápida expansão demográfica e êxodo rural intenso, a preservação de aspectos essenciais da dominação oligárquica veio acompanhada de modificações nos símbolos legitimadores da identidade, um embate em que o predomínio do culto dos expoentes da Atenas Brasileira e a própria instituição responsável por ele, a Academia Maranhense de Letras, entram num refluxo, cedendo lugar a novos atores. Numa palavra, trata-se do processo ainda em curso da aproximação entre a cultura ateniense e a cultura popular, com o predomínio agora dos símbolos desta última enquanto eixo ordenador do debate sobre identidade, um processo longo em que as agências estatais criadas a partir da década de 70, as secretarias e seus tentáculos nas fundações e conselhos foram paulatinamente definindo uma institucionalização da cultura que veio para o centro da cena nos últimos governos.

Entretanto, na década de 70, ponto chave da transição, o impulso mais interessante não vinha das agências governamentais, por mais que nestas estivessem folcloristas importantes como Domingos Vieira Filho, Américo Azevedo, Rosa Mochel e Zelinda Lima, para citar alguns, mas sim do encontro entre a onda contracultural com suas formas de mobilização através do grupo como comunidade alternativa, a disposição de setores escolarizados de classe media de produzir arte com base em olhares cruzados de vários campos sobre manifestações da cultura popular, expressando em termos locais os ventos da época e aproximando nossa experiência estética das transformações que sacudiram a cultura brasileira no final da década de 60 e, por fim, a existência de redutos criativos, como o circuito Madre Deus/São Pantaleão, cujas trocas são antigas, e outros que surgiam, como o Anjo da Guarda. Nas palavras de Cesar Teixeira, em antológica entrevista [em seis partes, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui] dos três compositores e ex-integrantes do Laborarte a Itevaldo Jr., era “buscar as raízes para uma afirmação da arte enquanto representação de uma cidadania inexistente” (O Estado do Maranhão, dez/98). Nesse momento, o Laborarte significou uma fenda e uma proposta mais avançada no campo estético e político, na medida em que implicava numa série de atritos de valores e comportamentos em uma sociedade bastante provinciana, sem falar nas perseguições da polícia e da censura. Mas isso era apenas um dos lados do processo que envolvia outros e mais poderosos interesses e seria redirecionado a partir da década de 80, com a entrada dos meios de comunicação, notadamente a organização da Mirante, veículo que terminaria estabelecendo a linguagem de teor turístico e mercadológico, vazia de tensões, predominante até hoje nesse processo de rotação dos signos da identidade. 

Como ficamos então? Entre o ponto onde estávamos na discussão sobre cultura e identidade nos anos 60 e o que vigoraria principalmente a partir dos anos 90, encontra-se um momento ímpar na década de 70 e início da seguinte, tempo de indefinições e possibilidades que frutificaram das margens para propor novas representações artísticas no teatro, na dança, na música, na poesia, nas artes plásticas, na fotografia, no estímulo às filmagens, como se verificou no rápido boom do Super-8. A movimentação que existia era além do Laborarte. No entanto, o chão estava dado pelos “parceiros indesejáveis” dos governos, do mundo das comunicações e da publicidade, dos pesquisadores universitários, das agências de turismo, dos interesses empresariais. No fundo, as trocas e experiências artísticas ficariam em segundo plano em nome de uma profissionalização capenga que arrastou a todos, artistas e brincantes, submetendo-os através de expedientes de padronização ao tempo que estimulou vaidades, ressentimentos e incompreensões sobre o significado desse momento onde repousa o enigma (ou será o logro?) da MPM, que parece existir quando ainda não é nomeada e se torna uma incômoda indagação logo que é batizada. A defasagem indica que algo ficou incompleto, sentimento estranho de presença/ausência que não passou despercebido a Chico Maranhão, quando rememorava os efeitos da inexistência de uma crítica que refletisse sobre aquela produção musical no momento em que ela estava ocorrendo e arrematou dizendo que o motivo para isto era simples: “não se cria uma crítica (literomusical) sobre um movimento sem que ele primeiro exista de fato e tenha bases reais para reflexão”.

No esquema artesanal em que operava, aquele núcleo de artistas nunca se ocupou com as questões do mercado e da mídia e não soube ou não pode criar um caminho que atasse o jorro criativo coletivo aos imperativos da expansão através da utilização dos meios de comunicação. Os episódios quase anedóticos que cercam a realização do disco Bandeira de Aço e o imbróglio posterior envolvendo Papete e os compositores são uma sucessão de mal-entendidos ilustrativos das dificuldades daquela geração com a questão do mercado. Em seguida, a aproximação com as agências governamentais ou com o mecenato privado foi feita na maioria das vezes segundo os esquemas de patronagem comuns de uma ordem oligárquica, onde o patrocínio não difere do favor. Quem não topou ficou no ostracismo ou caiu fora, quem topou terminou participando de uma patética diluição. Tudo isso corroeu muito da reflexão crítica que estava presente nos trabalhos da década de 70. No decorrer dos anos não teríamos nem movimento nem crítica cultural, apenas um slogan gerado mais por motivações de mídia, dos órgãos de cultura e de um punhado de individualidades tentando sobreviver disputando espaço num mercado ainda bem acanhado, quase reduzido a arraiais de shopping e similares, em íntima relação com os representantes da oligarquia local. Uma caricatura sem nenhum viço de algo que surgiu de forma criativa e contestadora, apesar das referências autoelogiosas tão comuns sobre a riqueza da nossa música.

Mesmo um reduto rico em tradições como a Madre Deus perdeu muito do seu potencial, as novas manifestações que ali surgiram a partir de meados dos anos 80 foram com o tempo sendo moldadas segundo interesses turísticos, em conluio e bastante submissas à estratégia governamental de mercantilização da cultura. E a Turma do Quinto terminaria na avenida cantando “embala eu mamãe Kiola, embala eu”, no ridículo samba enredo de 2004, O Quinto é Minha Lei: O Meu Enredo é José Sarney (nome de luta, exemplo e trabalho, segundo a letra de Bulcão, o eterno secretário estadual de cultura). Precisa dizer mais? Longe já iam os tempos de enredos irreverentes como Ali Babão e o Sete Ladrão (1986): “Abre-te Sésamo/ abre o envelope/ pois na hora que se junta/ se prepara mais um golpe”. O processo havia se completado, a cultura institucionalizada virou o local da estetização mercantil das manifestações populares e não mais o da experimentação estética elaborada a partir de sua riqueza e diversidade. De arma crítica, a música que continuou a se apresentar como maranhense voltou-se quase sempre para a louvação e a repetição, seguindo as regras predominantes do discurso publicitário. Virou “Som do Mará” e muitos passaram mesmo a propagar os valores de uma “maranhensidade”, com indisfarçável acento bairrista, em guinada conservadora que não tinha mais nada a ver com as propostas renovadoras dos anos 70.

O nascimento da moderna MPB nos debates da década de 60 resultou de uma aproximação com o universo da cultura popular e em rediscussão do problema da identidade, numa articulação decisiva com a televisão e com a reorganização de todo o mercado da música, criando um rótulo que funcionava como “senha de identificação político-cultural”, na feliz expressão de Carlos Sandroni, mas cuja pretensão era agregativa. Tal função se desgastou e no final dos anos 80 a sigla passaria a designar vagamente um segmento do mercado na enorme variedade da música brasileira. É nessa onda, quando a ênfase se deslocava para a redefinição dos nichos de mercado que a nossa sigla aparece, como em outros momentos, através de uma identificação frágil que busca marcar mais a distinção que a diferença, com a desastrada apropriação mercadológica e oficialesca de um movimento estético interrompido, cujos melhores frutos já haviam sido colhidos. Só para terminar jogando uma última lenha na fogueira, Shopping Brazil, o esperado cd de Cesar Teixeira lançado em 2004 e com promessa de reedição para este ano, mastigou isso tudo e saiu lá na frente, mesmo quando revisita clássicos do que seria posteriormente chamado de MPM. É um Maranhão colocado no miolo do furacão, misturado com o Brasil, ou até mesmo a apresentação fundamental do Brasil como um grande Maranhão, e não separado para consumo no armazém das diferenças culturais. É música popular brasileira contemporânea sim, feita aqui e da melhor qualidade, como é o caso também do sofisticado Emaranhado, lançado em 2008 por Chico Saldanha e da simplicidade delicada de Eu Não Sei Sofrer em Inglês, o recente trabalho de Bruno Batista.

Agradeço as informações, dicas e comentários de Celso, Cesar, Reuben, Ricarte e Zema. Tudo gente boa, tudo gente doida. Este artigo é dedicado a dois antigos parceiros nas andanças e descobertas da cena musical maranhense no final dos anos 70, Demétrius Almeida da Silva (em memória) e Augusto Anceles Lima.

*FLÁVIO REIS é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (ed. do autor, 2005), Grupos Políticos e Estrutura Oligárquica no Maranhão (ed. do autor, 2007) e Guerrilhas (coletânea de artigos fechada por este Antes da MPM a ser publicada ainda em 2011).