Em nome dos mineiros

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

O mineiro Toninho Horta subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo com um papel na mão, que colocou sobre a mesa onde já repousava um copo d’água, com as bordas cobertas por um guardanapo.

Sentou-se, empunhou o violão e agradeceu por estar ali, “em nome dos mineiros, Lô Borges, Beto Guedes, Bituca, é muito bom estar aqui, abrindo a 11ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, num tempo em que é grande a representatividade da música instrumental brasileira lá fora”, apontou.

Revezando-se entre temas cantados e instrumentais, começou o show com Durango Kid (parceria dele com Fernando Brant), gravada por Milton Nascimento na década de 1970. Em Aqui ó (da mesma dupla) citou o tambor de crioula, elogiando a grandeza da cultura popular do Maranhão.

Seguiram-se Igreja do Pilar, dedicada a Ouro Preto, e Meu amor infindo,  homenagem a mãe, falecida em 2013. “Ela foi a primeira a reconhecer meu talento, tocava bandolim na banda ​​de meu avô”, lembrou.

Ainda sozinho ao violão tocou Ville kids friends, que compôs durante um curso que ele ministrou na Escandinávia. Em seguida convidou Marcelo Carvalho para assumir um dos dois teclados dispostos no palco. Com ele tocou Waiting for Angela.

Na sequência, somam-se ao duo Israel Costa (violão), anunciado como guitarrista, e Renato Serra (teclado). O quarteto toca Diana (outra parceria com Fernando Brant), sucesso do Boca Livre. “Se tiver alguma Diana na plateia, peço desculpa, mas essa música foi feita para uma cachorrinha. Já que Manuel era um jipe”, lembrou, fazendo a plateia rir, antecipando outro hit que não faltaria ao set list.

Leonel Almeida (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria) acabaram de completar o grupo enquanto Toninho Horta troca o violão pela guitarra. Atacam de Voo dos urubus, com Horta a princípio tocando de costas para a plateia, a reger o grupo. Depois é a vez de Summertime (Ira e George Gershwin), “já que a gente está num festival de jazz e blues”.

A banda sai e Horta torna ao violão. Presta uma homenagem a João Gilberto. Lembra que influenciado pelo baiano fez uma música aos 13 anos, O barquinho vem, “embora mineiro não tenha mar”, brincou. Canta Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), acompanhado pelo coral da plateia.

Ao elogiar novamente o Teatro Arthur Azevedo, lembra-se do dia em que foi ao Carnegie hall ver a Filarmônica de Viena regida por Leonard Bernstein. “Eu fiquei no sétimo ou oitavo andar, vendo os músicos lá embaixo. Esse Teatro Arthur Azevedo não brinca em serviço”, afirmou, antes de tocar um tema de Henry Mancini.

A banda volta e Toninho Horta troca o violão pela guitarra no meio da música, enquanto cita Josias Sobrinho, Nosly e Papete. Lembrou-se de Leandro Gomes, “meu primeiro produtor em São Luís na década de 1980, há quase 40 anos. Essa eu dedico aos grandes talentos do Maranhão”, oferece antes de tocar Beijo partido.

Já em clima de bis, mandou Manuel, o audaz (mais uma parceria com Fernando Brant), para delírio da plateia. E agradeceu: “Quero saudar o Tutuca”, o produtor já havia tentado trazê-lo em outras edições do festival. “Minas agradece vocês pelo bom gosto. Esse estado é um país”, finalizou.

Serviço

O 11º. Lençóis Jazz e Blues Festival acontece dias 16 e 17 de agosto (Circuito São Luís, Concha Acústica Reinaldo Faray, Lago da Jansen); e dias 23, 24 e 25 de agosto (Circuito Barreirinhas, Av. Beira-Rio). Entre os destaques da programação – acesse completa – estão Paula Santoro, Trio Corrente, Bebê Kramer, Zé Paulo Becker (com participação especial de Roberta Sá), Blues Etílicos, Afrôs, Mahmundi, Gildomar Marinho, Elizeu Cardoso, Quarteto Buriti (com participações especiais de Gabriela Marques, Célia Maria e Milena Mendonça), Dani Black, Rita Benneditto e Wilson Zara (que encerra a programação com seu tradicional Tributo a Raul Seixas).

Buscas e reflexões

Reprodução
Reprodução

 

Em determinada altura do espetáculo, já não sabemos se Orlando é homem ou mulher. E isto pouco importa. Uma das facetas desta peça do repertório do Grupo Expressões Humanas, de Fortaleza/CE, é justamente fazer o espectador se perguntar onde mora, onde guarda seu preconceito.

Três atores em cena e um músico (ou eu deveria dizer quatro atores?) – Juliana Veras, Marina Brito e Murilo Ramos, mais Zéis –, um cenário enxuto, com cabides com roupas que serão usadas ao longo do espetáculo – e oito figurantes, previamente escolhidos pela produção. Acompanhamos a jornada da protagonista, do protagonista, em busca dos sentidos da vida, da arte, do amor. Do sexo.

O espetáculo é baseado em Orlando: uma biografia, de Virginia Woolf, que se inspirou parcialmente na vida íntima de Vita Sackville-West, amante da escritora. O texto já teve também adaptação cinematográfica. Esta, de fôlego (são cerca de duas horas de espetáculo), em cartaz em São Luís de ontem (6) a amanhã (8), sempre às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), leva assinatura de Rafael Barbosa e Herê Aquino, que a dirige.

A trilha sonora é um espetáculo à parte, acompanhando as viagens da quixotesca personagem, nascida homem na Inglaterra, acordada mulher na Turquia, atravessando mais de três séculos, com elementos do barroco, da música medieval, pitadas de canto gregoriano e ecos de vanguarda paulista.

Orlando tem ares de comédia, sobretudo quando o grupo tira sarro com a arte contemporânea, experimental, e com o seu próprio fazer artístico e a própria circulação, patrocinada pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura – aprovada ainda antes dos sistemáticos ataques e cortes do governo neofascista de Jair Bolsonaro.

Para rir (para não chorar) e pensar, como tem sido sempre necessário, num Brasil novamente respirando ares militares.

Serviço:

Divulgação
Divulgação

O Brasil na lama: um retrato

Foto: Marla Batalha

 

Uma peça é uma peça é uma peça. Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski, encenada pela companhia carioca Aquela Cia. de Teatro, com direção de Marco André Nunes, é uma peça impactante. Por vários motivos, a começar pelos caranguejos para além do título – também há areia e lama –, a princípio em uma gaiola, depois interagindo com os sete atores em cena.

Vi a peça em São Paulo, em março do ano passado, e poderia dizer tratar-se da mesma peça, antenadíssima com o atual momento político vivido no Brasil – naquela ocasião já trazia à cena o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido poucos dias antes. Agora acompanha a tragédia brasileira até o governo Bolsonaro.

Com um power trio em cena fazendo ao vivo a trilha sonora do espetáculo, evocando a memória e grandeza de Chico Science, Caranguejo Overdrive conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos num mangue aterrado que vai à Guerra do Paraguai, nas fileiras do exército brasileiro. Quando volta, ajuda a explicar o falso patriotismo que rege o atual governo militar/izado. “Éramos uma multidão de famintos, analfabetos, sem disciplina”, diz ele, já sem saber se é homem ou caranguejo, ave, Josué de Castro!

Cosme tem distúrbios mentais, decorrentes da violência aprendida no campo de batalha e da fome. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo, é um resumo do Brasil: não há mais mangue, aterrado, não há mais alimento para os miseráveis, que têm que se contentar com excrementos, até a inanição e a consequente morte.

O ex-combatente é um deles, que tem que sucumbir a constantes e vexatórias abordagens policiais, um estranho em sua própria pátria. Através de sua figura e de uma prostituta, personagens comuns em zonas portuárias, Caranguejo Overdrive perpassa a história do Brasil a partir do que de mais ridículo e caricato há em cada governante, desde Getúlio Vargas, passando pelos militares até os eleitos após a redemocratização, chegando novamente ao militar, com a prostituta que serve de guia ao homem-quase-caranguejo, cujo fio de humanidade aos poucos se esvai. Ela narra diversos episódios em espanhol – foi arrancada violentamente do Paraguai natal.

Caranguejo Overdrive ironiza ainda a eterna insuficiência de recursos para a área cultural, agravada no presente governo com a extinção do Ministério da Cultura – a circulação da peça, que se encerra em São Luís, após passar por Belém e Teresina, é apresentada por um genérico Ministério da Cidadania, com patrocínio da Petrobras.

O texto debate temas que parecem ser eternos no Brasil, apesar de muita gente fingir acreditar que a corrupção é uma invenção recente no país. Uma miríade de assuntos que torna a peça atual e necessária: obras superfaturadas e inacabadas, megaprojetos sem discussão e planejamento necessários, remoções forçadas de populações, violência urbana, saúde mental, ausência do Estado.

Para quem não está dando conta de acompanhar as notícias do hospício nacional, uma curiosidade: o tempo todo, ao longo de hora e meia de espetáculo, há sempre pelo menos duas ações se desenrolando simultaneamente no palco, o que convida o espectador a um processo de edição (“a memória é uma ilha”, ave , Wally Salomão!): só assim se pode tentar dar conta do Brasil.

Serviço

Caranguejo Overdrive tem última sessão hoje (6), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Somente 100 ingressos – a plateia assiste ao espetáculo no palco do teatro, disposta em meia lua. Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro uma hora antes da apresentação.

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

Amizade e sentimento

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato e Cláudio Nucci foram direto ao assunto quando subiram juntos ao palco do Teatro Arthur Azevedo, ontem (2): abriram o show com Sapato velho, composição do segundo em parceria com Paulinho Tapajós. Era o início do desfile de um repertório diretamente ligado à memória afetiva do público presente, entre hits de rádio e temas de novela, além de reverências a compositores de sua predileção, passando por várias fases das carreiras de ambos, conhecidos desde o grupo Cantares, antes do Boca Livre, portanto há mais de 40 anos, uma retrospectiva sentimental para artistas e plateia.

Atravessando a cidade (Juca Filho), faixa de Pelo sim, pelo não, disco gravado pela dupla em 1985, traduz a delicadeza do reencontro, nesta turnê com que estes dois grandes artistas ora atravessam o país em Liberdade e movimento, canção que dá título ao show, a velha Bicicleta do Boca Livre, de Zé Renato, que ganhou letra de Nucci anos depois.

Acontecência (Cláudio Nucci) havia sido cantada por Zé Renato em seu show mais recente em São Luís, no Clube do Chico. “A gente tá muito feliz de estar aqui em São Luís, no palco do Arthur Azevedo. Zé Renato veio mais recentemente, eu fazia muito tempo. Obrigado!”, Cláudio Nucci fez as honras.

A hora e a vez (parceria da dupla com Ronaldo Bastos), tema da novela global Roque Santeiro, foi o número seguinte, que antecedeu Cá já, de Caetano Veloso, o primeiro entre os compositores a quem prestaram reverências para além do repertório autoral.

Anunciaram, em seguida, Gilberto Gil e Dominguinhos, antes de cantar Lamento sertanejo. Quando passaram a Ânima (Zé Renato e Milton Nascimento), imediatamente lembrei-me da história contada por Zé Renato naquele show no Clube do Chico: Chico Buarque ia colocar letra na melodia, mas quando Milton ouviu e disse que o faria, Zé Renato desconvidou o autor de A banda.

A dupla cantou Benefício (Zé Renato e Hamilton Vaz Pereira), que a Banda Zil, integrada por ambos mais Ricardo Silveira, Marcos Ariel, Zé Nogueira, Jurim Moreira e João Batista, lançará em dvd em breve (a faixa integra o repertório do único disco do grupo, de 1987).

Com Blackbird (Lennon e McCartney) tornaram a celebrar compositores de sua predileção, seguiram a esbanjar seus talentos em seus instrumentos, as vozes e os violões. Por falar em voz como instrumento, seguiram com Papo de passarim (Xico Chaves e Zé Renato), outra trilha de novela (Sinhá moça), que Zé Renato refez em seu disco em dueto com Renato Braz (2010), por ela intitulado.

De Bebedouro (2018), seu disco mais recente, Zé Renato pinçou Noite, uma das duas parcerias com Joyce Moreno registradas no álbum, num momento em que ficou solitário no palco. Ainda sozinho reverenciou a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes em O amor em paz, depois de lembrar as três vezes em que encontrou profissionalmente o maestro soberano. “Profissionalmente foram poucas vezes, mas a gente se encontrava bastante, numa churrascaria que era o escritório dele”, revelou, para gargalhadas da plateia.

Depois foi a vez de Cláudio Nucci ficar sozinho. Cantou Rio de março, em cujo registro no disco Integridade (2018, todo dedicado à parceria dele com Felipe Cerquize) divide os vocais com Zélia Duncan. A letra é forte e atual, diante da barbárie vivida no Rio de Janeiro (sob Witzel, no Brasil sob Bolsonaro): “Rio de Janeiro/ Rio degenerou/ Rio regenera”, trocadilha um trecho da letra.

Para a companheira Dri Gonçalves – “ela está curtindo aí na plateia, cheguei numa idade em que já não posso viajar sozinho”, troçou – ofereceu Serenin, parceria do maranhense (nascido no Piauí) César Nascimento com o carioca Vicente Teles.

Com Zé Renato de volta ao palco, enquanto ajeitava os cabos do violão, Nucci contou uma história: “quando o Boca Livre surgiu, muita gente achava que a gente era mineiro. A gente ouviu muito essa turma e isso acabou se refletindo no nosso som, no repertório de nosso primeiro disco. Tanto é que quando as pessoas diziam que a gente era mineiro a gente não desmentia”, afirmou, fazendo o público rir.

“Eu sou capixaba e ele é paulista”, revelou Zé Renato. Nucci continuou: “eu quando ouço música no rádio, primeiro eu presto atenção na música, depois é que vou me ligar na letra. Essa que a gente vai fazer agora, no começo eu achava que era para uma mulher; depois percebi que “corpo pintado de branco e marrom” não fazia sentido e descobri que a música foi feita para uma cachorrinha que tinha morrido”. E cantaram Diana (Fernando Brant e Toninho Horta).

Toada (Na direção do dia) (parceria da dupla com Juca Filho) foi o momento de a plateia cantar junto, seguida de Pelo sim, pelo não (parceria de ambos com Juca Filho), outro tema com que a dupla compareceu ao repertório de Roque Santeiro. O fecho do roteiro ficou a cargo de Matança (Augusto Jatobá), do repertório de Xangai, noutra sutil mensagem política do show. A música versa sobre desmatamento, mas para além desse problema, no Brasil militarizado de 2019, soa atualíssima no verso “quem hoje é vivo corre perigo”.

Cláudio Nucci não chegou a deixar o palco e atendendo aos gritos de “mais um!” cantou sozinho Quero quero (parceria com Mauro Assumpção). O grand finale ficou a cargo de outro clássico do Boca Livre: Quem tem a viola (parceria de ambos com Juca Filho e Xico Chaves) fechou a apresentação com a plateia em êxtase, momentos que certamente ficarão na memória de cada presente.

Concerto de orquestras de violões abriu encontro em São Luís, ontem

Foto: Zema Ribeiro

 

Um bom público compareceu na noite do feriado de ontem (1º.) ao Teatro Arthur Azevedo para prestigiar o concerto de abertura do I Encontro Interinstitucional de Violões – cujas atividades já aconteciam desde a manhã, no Convento das Mercês. O espetáculo teve entrada franca.

Além de concertos, a programação inclui oficinas, workshops, masterclasses, palestras e curso de regência, numa realização da Orquestra de Violões da Uema-Emem, em parceria com instituições como a Universidade Estadual do Maranhão (Uema), Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), Convento das Mercês, Teatro Arthur Azevedo, Escola de Música Municipal Maestro Nonato (de São José de Ribamar) e Orquestra Maranhense de Violões, além do apoio do Grand São Luís Hotel e do Restaurante Flor de Vinagreira.

O professor Roberto Fróes, que regeu a Orquestra de Violões da Uema-Emem, a segunda a se apresentar na noite de ontem, ressaltou a importância do encontro – São Luís não realizava um do tipo há pelo menos sete anos –, da valorização do instrumento e do destaque alcançado pelo violão na identidade musical nacional.

Os concertos – impossível falar no singular – de ontem foram oportunidades de ouvir um repertório quase sempre restrito às escolas de música ou para iniciados. O interesse do público presente demonstra que a plateia gosta do que é oferecido, para se jogar lenha na fogueira daquele velho debate sobre o porquê de a mídia insistir em oferecer apenas o que em tese é mais palatável.

Regida por Domingos Nélio Soares, a Orquestra Maranhense de Violões apresentou as seguintes peças: Camiño de Felanitx, Dança andaluza (ambas de Eythor Torlakson) e Em la playa (folclórica espanhola). Fechando sua apresentação foram de Bela mocidade (Francisco Naiva e Donato Alves), clássico do Bumba-meu-boi de Axixá, quando duas violonistas do grupo trocaram seus violões por ukulele e chocalho. O público cantarolou junto, numa demonstração de que erudito e popular podem ocupar o mesmo espaço. O grupo é formado por Alessandro Freitas, Kevin Wesley, Linda Yang, Mariana Morgana, Admary dos Santos, Carlos Felipe e Luana Gomes.

Na sequência foi a vez da Orquestra de Violões da Uema-Emem, formada por Tiago Fernandes, Uriel Ewerton, Davi Farias, João Marcos Costa, Gabriel Veras e Emanoel Gomes. Roberto Fróes, que cumpriu bem o ofício de mestre de cerimônias, com a dose certa de bom humor, dança enquanto rege, talvez a celebrar o sucesso do evento – merecida comemoração.

O grupo executou Brumas (da Suíte modal), de Paulo Porto Alegre, Schafe können sicher weiden, apresentada pelo regente pela tradução, As ovelhas podem pastar em segurança, de Johann Sebastian Bach, e três movimentos (dos seis da peça) de Variações sobre um tema de Brouwer: Tema, Dança e Final. O cubano Leo Brouwer é desde sempre uma das maiores referências contemporâneas em composição para violão e as peças executadas exploram diversas possibilidades do instrumento.

Bruno Cipriano solou uma máquina de escrever num dos momentos mais inusitados do concerto – dos concertos: A máquina de escrever, de Leo Wilczek. A plateia riu, em estado de graça. O grupo encerrou sua apresentação executando um arranjo inédito de João Pedro Borges para Boi da lua, de Cesar Teixeira, ao lado de Bela mocidade um dos maiores clássicos do período junino do Maranhão. Roberto Fróes contou uma curiosidade: integrava uma camerata com Domingos Nélio entre o fim da década de 1990 e início dos anos 2000, quando receberam o presente de Sinhô, à época seu professor, mas o grupo acabou antes e o arranjo permaneceu inédito até ontem.

As duas orquestras voltaram juntas ao palco, sob regência da professora Verónica Pascucci, “uma das responsáveis pela existência do curso de música da Ufma”, como destacou Fróes. Tendo por solista Davi Farias e contando com a participação especial de Joaquim Santos (contínuo), “uma referência nacional em se tratando de violão”, como também salientou Fróes, os grupos executaram o Concerto em D (RV 93), uma das peças mais conhecidas de Antonio Vivaldi.

A programação do I Encontro Interinstitucional de Violões segue até sábado (4), no Convento das Mercês, com as presenças de Alessandro Freitas, Cristiano Braga, Domingos Santos, Endro Fadell, João Pedro Borges, Joaquim Santos, Júnior Maranhão, Marcelo Moreira, Orlando Fraga, Roberto Fróes (coordenador do encontro) e Verónica Pascucci.

João do Vale, atual e eterno

Opinião. Foto: Marla Batalha
Vicente Melo: gigante como o gigante João do Vale. Foto: Marla Batalha

 

A publicidade em torno da temporada Grandes Espetáculos do Maranhão (Gema), que movimentou os fins de semana de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, com reprises à altura de seu nome e sua sigla, afirmava sem medo de errar: “para encerrar com chave de ouro”, referindo-se ao musical João do Vale: o gênio improvável, reapresentado sexta-feira, sábado (em duas sessões) e ontem.

A superprodução leva ao palco a trajetória de João Batista do Vale, eleito por voto popular o maranhense do século 20. Começa com o então deputado Rubens Paiva, cassado e desaparecido pela outra ditadura militar, convocando trabalhadores e estudantes à resistência pelas ondas da Rádio Nacional, na data daquele golpe.

É um espetáculo comovente, a equilibrar-se entre a genialidade do protagonista (magistralmente interpretado por Vicente Melo), o contexto político da época em que o nome de João do Vale firmou-se como compositor – apreciado por nomes como Chico Buarque (Leonardo Fernandes), Fagner e Fernando Faro, que produziram juntos um disco do maranhense em 1982 – e o bom humor típico do autor de Pipira (com José Batista) e Peba na pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), até seu falecimento, em 1996.

O elenco inteiro está à altura e todo o roteiro musical do espetáculo é executado e interpretado ao vivo, por banda liderada pelo violonista Júnior Maranhão. Merece destaque a interpretação de Carcará (parceria com José Cândido) – com trechos da Missa agrária (Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Lyra) – por Milena Mendonça, que encarna Maria Bethânia.

O Brasil é um país de improbabilidades, se não o que explica a genialidade de nomes como João do Vale, Aleijadinho e Carolina Maria de Jesus, para ficarmos em uns poucos exemplos? Tendo um sonho como guia, João do Vale foi ousado, pegou carona em caminhão e desceu para o eixo Rio São Paulo em busca de ser artista – o que de fato já era, mas só ele mesmo acreditava. Servente de pedreiro, teve as primeiras músicas gravadas por Marlene (Juliana Cutrim) e, quando as cantava na obra, os colegas zombavam, não acreditavam ser dele.

O roteiro da peça lida bem com temas como o preconceito racial e geográfico enfrentado por João, negro e nordestino, bem como com a crueldade da outra ditadura militar. Foi em 1964 que estreou o show Opinião, com texto de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, com João do Vale, Zé Keti (Tiago Andrade) e Nara Leão (Nicole Meireles), convertida de musa da bossa nova em cantora de protesto.

De protesto, aliás, João do Vale também entendia. Suas músicas estão recheadas de mensagens questionando o status quo. Só não vê – ou ouve – quem não quer: Minha história (com Raymundo Evangelista), Sina de caboclo (com J. B. de Aquino) e o próprio Carcará, entre muitas outras. Ficamos a imaginar os petardos que estaria disparando contra a ditadura eleita em outubro passado.

Espetáculo à altura do homenageado, João do Vale: o gênio improvável circulará por algumas capitais brasileiras este semestre, além de outras cidades do interior do Maranhão (passou por algumas na turnê De Teresina a São Luís). Para quem perdeu esta recente oportunidade, volta a se apresentar em São Luís por ocasião do aniversário do Teatro Arthur Azevedo, em junho. A temporada Gema atestou a ótima safra de espetáculos teatrais atualmente produzidos no Maranhão. A ideia do diretor do TAA Celso Brandão é realizá-la anualmente, no período das férias de início de ano. As antenas da curadoria estão sempre de pé.

Artista de obra relevante e atual, João do Vale segue vivo. Vida longa ao musical que o homenageia e ao Gema!

O batalhão de um homem só

Foto: Marla Batalha

 

Já disse aqui e acolá, mas não custa repetir: certos artistas têm uma impressionante capacidade de premonição, o que os torna artistas maiores.

É o caso de Lauande Aires e particularmente de O miolo da estória, da Cia. de Artes Santa Ignorância, reapresentado ontem (10) no Teatro Arthur Azevedo (em cujo palco chegou pela primeira vez), dentro da programação do Gema – Grandes espetáculos do Maranhão, que promove o reencontro do público com destaques da produção teatral local recente. Aliás, estamos em ótima safra.

Sozinho em cena, Lauande encarna um batalhão. João Miolo, seu personagem, é um operário da construção civil, que sonha. Sonhar, aqui, verbo literalmente intransitivo. “Nunca deixe de sonhar” é o seu principal conselho. Os tempos são duros e ele se veste com a roupa da utopia.

João Miolo faz rir, não aquele riso fácil, mas um riso que leva à reflexão, ao criticar a mobilidade urbana enquanto pedala rumo ao serviço. No traçado da massa com a colher de pedreiro, percute, pá e enxada idem. O carro de mão vira carcaça. Tudo nele é bumba meu boi, embora não haja, a rigor, em cena, nada que lembre o folguedo.

João se machuca e faz promessa, como antigamente se originava a maioria dos grupos de bumba meu boi no Maranhão. Mas não soa saudosista. O monólogo critica as relações trabalhistas e mesmo não sendo encenado há cinco anos, soa atual e necessário. É um retrato do trabalhador que sua para pagar as contas e poder se divertir de vez em quando, a cada fim de semana ou temporada junina. É, pelo recorte de um brasileiro, um retrato fiel do Brasil.

Ao fim do espetáculo, Lauande cumprimentou, na plateia, Geovane (vulgo Bomba), miolo, hoje no Bumba meu boi da Madre Deus, que um dia viu subir de joelhos os 47 degraus da Capela de São Pedro, na tradicional homenagem ao santo, num 29 de junho. Tocado por sua devoção e sacrifício, acompanhou-o noutros eventos, colhendo elementos para a pesquisa que resultou nO miolo da estória.

Selecionada em edital da Ancine, a peça vai virar filme, dirigido por Lucian Rosa, com roteiro dele e Lauande Aires. As filmagens devem se iniciar em junho deste ano, em São Luís, conforme também anunciou ontem.

Pequena coleção de emoções

Foto: Rodrigo Oliveira

 

Dirigindo para o trabalho vi hoje uma cena que me botou comovido como o diabo, ave, Paulo Mendes Campos!

Um casal se beijava no canteiro central de uma avenida. Gente humilde que acabara de descer do ônibus, ao menos foi o que imaginei, a caminho do trabalho. Era uma despedida temporária, supus também, como se quisessem que o beijo fosse uma espécie de empréstimo, adiantamento da saudade que sentiriam um do outro enquanto durassem seus expedientes.

Confesso mesmo que senti vontade de parar o carro e contemplar a cena. Não fotografar. Apenas assistir, como um voyeur invulgar. Mas nem ousei por que os motoristas que, apressados como sempre, não perceberam a singularidade daquela cena, logo estariam atrás de mim, buzinando e me amaldiçoando até a quinta geração com os palavrões mais vulgares possíveis.

Adiante, pensei ser hoje meu dia de sorte: enquanto o carro deslizava sobre a ponte do São Francisco e um pequeno engarrafamento se anunciava na avenida Beira-Mar, mirei o céu e vi uma revoada de pássaros que me fez lembrar aqueles patos que migram em bando, sobretudo nos desenhos animados do Pica-Pau. Ou a memória da infância me trai?

Ando tão à flor da pele, Zeca Baleiro, que ontem fui ver uma peça teatral, um musical adolescente baseado em um filme americano que nunca me interessou. Fui ao teatro movido pelo interesse (jornalístico) na cena local, que tem proporcionado ao público interessado uma boa safra de espetáculos, o que pode ser comprovado na programação do Gema, boa sigla de Grandes Espetáculos do Maranhão (confira a programação completa), que começou no final de semana passado com a adaptação “codoense” de O auto da compadecida, da Companhia Gracielle Costa, e segue neste fim de semana com O miolo da história, de Lauande Aires, e adiante com Pai e filho, da Pequena Companhia de Teatro, Chico, eu e Buarque e João do Vale, o gênio improvável, realizações do próprio Teatro Arthur Azevedo.

High School Musical Brasil, parceria da Oficina de Interpretação SLZ com a Troupe Parabolandos (SP), a peça de ontem, é pueril como todo cinema americano que só o poema de Leminski salva: “podem ficar com a realidade/ esse baixo-astral/ em que tudo entra pelo cano/ eu quero viver de verdade/ eu fico com o cinema americano”. No fim das contas é sobre o amor e suas descobertas adolescentes. Segurei as lágrimas uma ou duas vezes. “Homem não chora”, não é, Pablo do Arrocha?

Na saída, pude comentar o espetáculo com os amigos que me acompanhavam, diante de uma cerveja gelada servida na Feira da Tralha. Sempre me ressenti da ausência de botecos nos arredores dos teatros, para que os que quisessem esticar os comentários, a noite, prosear. A Feira da Tralha não é bem um boteco, mas o sebo faz as vezes de. Ontem conversamos ao som de Janis Joplin e Raul Seixas.

A noite foi arrematada – e nós arrebatados – pela sabedoria de Alvaiade, da Velha Guarda da Portela: “o dia se renova todo dia/ eu envelheço cada dia e cada mês/ o mundo passa por mim todos os dias/ enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, samba que muito cantarolei ninando José Antonio. “A natureza é perfeita/ não há quem possa duvidar/ a noite é o dia que dorme/ o dia é a noite ao despertar”.

O tempo de Elomar

Elomar e João Omar durante o concerto “Muntano o Mondengo”, sexta-feira (24), no Teatro Arthur Azevedo. Foto: Zema Ribeiro

 

Além da obra monumental, extensa e singular, que fala por si só, o anacronismo faz de Elomar uma figura ímpar.

Diversas vezes durante o concerto Muntano o Mondengo, apresentado no Teatro Arthur Azevedo, sexta-feira passada (24), o artista declarou sua inadequação ao tempo em que vivemos, como se tivesse “descido na estação errada”, para usar suas próprias palavras.

Aos 80 anos, Elomar está em plena forma: pensamento afiado, memória idem, para lembrar as quilométricas letras de suas composições, as mãos dando conta de suas elaboradas melodias. “Se eu voltasse no tempo e fosse fazer tudo de novo, eu ia fazer como rock. Três acordes, às vezes um, e tá tudo certo. E a juventude gosta”, declarou, num dos muitos pontos do show em que fez a plateia rir. A sério, relacionou as opções musicais do povo à situação em que o país se encontra.

“Eu já nem devia estar cantando, minha música está fora de moda”, disse, modesto, ao mesmo tempo em que agradecia a presença do público, que compareceu em bom número ao teatro, aproveitando talvez uma das últimas oportunidades de assistir Elomar por estas bandas. Suas apresentações devem ficar cada vez mais restritas à Casa dos Carneiros, fazenda em que mora e onde construiu um espaço para a apresentação de óperas.

O artista não gosta de viajar de avião, o que torna ainda mais difícil grandes deslocamentos. Ao relembrar o trajeto que fez até São Luís e projetar o que faria de volta até Vitória da Conquista, tornou a brincar: “avião de rico vai direto, de pobre vem pingando. A gente saiu de Vitória da Conquista, foi pra Salvador, de lá para Recife, pernoitamos em uma pensão, de lá para cá. Afora que os pousos são sempre difíceis, eu não sei como é que ateu anda de avião”, afirmou, fazendo a plateia cair na gargalhada.

Outra inadequação de Elomar aos tempos modernos é a dependência humana do celular. Como no show que apresentou no mesmo palco em 2014, novamente o cerimonial foi direto ao frisar a proibição de filmar ou fotografar o espetáculo – tomei a liberdade de fazer um único registro, pensando em ilustrar o que viesse a escrever sobre o show. Em ambas as ocasiões, o menestrel de Vitória da Conquista apresentava, no repertório, alguns temas inéditos.

Numa de suas saídas do palco, em que o filho João Omar ficava sozinho, ao violão, executando peças compostas por Elomar, como Calundu e cacoré, voltou demonstrando insatisfação: disse que não tocaria mais nenhuma das peças inéditas previstas no script. E lembrou-se de diversas ocasiões em que shows seus foram parar “no tubo”, fazendo novamente a plateia gargalhar ao aportuguesar o youtube.

João Omar lembrou-se do tempo em que só encontrava partituras ao viajar, e de como tirava músicas de ouvido, escutando discos como Violão Brasil, do violonista maranhense Turíbio Santos, com a participação especial do idem ibidem João Pedro Borges. Acabaria tomando aulas com ambos e a eles dedicou São João Xaxado, outra peça para violão solo de Elomar.

Depois Elomar voltou atrás e apresentou composições inéditas, entre árias e trechos de óperas, demonstrando o engano de quem acredita ser o baiano um daqueles artistas que vive do passado. Entre suas músicas mais conhecidas, apenas Faviela, Corban e Clariô, a que convidou o público a cantar junto, já no bis – “bis é um porre”, declarou após os pedidos de “mais um”.

Arquiteto de formação, Elomar não poupou elogios à beleza do Teatro Arthur Azevedo, além de fazer os devidos agradecimentos aos técnicos – som e luz irretocáveis, “sem uma microfonia, um piado”, declarou – e à produção, realizada por cúmplices capitaneados pelo “cavaleiro” Aidil Filho, “um idealista” que trouxe Elomar pela segunda vez à ilha – foi quem “tomou a iniciativa” (significado da expressão que intitula o concerto de sexta passada) e encabeçou a organização do concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, em 2014.

O time de cúmplices parece disposto a novas empreitadas. Resta saber se pode contar com o aval de Elomar, que certamente sempre terá um público disposto a ouvi-lo.

João Omar: muitos anos de jornada

“Anda, muntemo o mondengo pra nóis í prá lá” é o verso que fecha Na quadrada das águas perdidas, faixa-título do elepê que Elomar lançou pela Discos Marcus Pereira em 1979.

Muntano o mondengo é o nome do concerto que o compositor apresenta, acompanhado do filho João Omar, amanhã (24), em São Luís, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) – os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00 e estão à venda na bilheteria do teatro.

A expressão que batiza o espetáculo significa “tomando a iniciativa” e traduz a forma como um artista outsider – com o perdão do estrangeirismo que ele próprio condenaria – consegue percorrer o país: depois de passagens por Recife e João Pessoa, Elomar chega à São Luís trazido por um fã.

“Um cavaleiro”, “um idealista”, certamente adjetivaria o próprio Elomar, sobre Aidil Filho, o fã transmutado em produtor ocasional. Elomar costuma dizer não ter fãs, mas cúmplices: é a mais pura verdade.

Outra coisa que o título do concerto expressa é a sintaxe sui generis da obra de Elomar Figueira Melo, 80, arquiteto de formação, baiano de Vitória da Conquista, toda construída sobre o que o próprio chama de “linguagem dialetal sertaneza”, objeto de estudos acadêmicos por nomes de peso como Jerusa Pires Ferreira e Ernani Maurílio, para citarmos apenas dois – autores do rico glossário de elepê Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar, lançado pela Kuarup em 1986.

Além dessa espécie de língua própria, que nem de longe torna sua obra hermética, não para além do desinteresse da grande mídia e consequentemente do grande público, há uma geografia particular, que mescla a que circunda o chão em que nasceu e onde vive, e um mundo habitado por cavaleiros, vaqueiros, tropeiros, princesas, donzelas, retirantes, bois “incantados” e muitas referências bíblicas – sobre o que se destaca o livro Tramas do sagrado: a poética do sertão de Elomar [Vento Leste, 2007], de Simone Guerreiro.

Somando-se tudo isto, temos um artista de mitologia própria, para o qual contribuiu também sua fama de recluso. Elomar não dá mais entrevistas – e são raras as que concedeu ao longo da carreira. Quem conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos foi seu filho João Omar, violonista que o acompanha em mais esta passagem por São Luís – a última já conta quatro anos.

Ao longo da entrevista, João Omar sempre se refere a Elomar como “meu pai” ou “o bode”, apelido que ganhou dos animais que cria na fazenda Casa dos Carneiros, paisagem de sua Cantiga de amigo (1973), e que inspiraram o cartunista Henfil (1944-1988) a criar o Bode Francisco Orellana.

João Omar, vocês passam por São Luís trazidos por uma produção não profissional, um fã idealista. Isso traduz a afirmação de Elomar de que não tem fãs, mas cúmplices. Este tipo de iniciativa é uma alternativa para artistas que não estão na programação de rádios e tevês?
Estamos nessa jornada de tropeiros, vamos dizer assim, tropeiros da música. Essa produção de fã, o Aidil, que se propôs a fazer isso, é algo que, de uma certa forma, revive tempos passados, no qual não havia produtores, na realidade havia esses amigos que articulavam apresentações. Um detalhe para o qual eu sempre costumo chamar a atenção, daquela época, é o seguinte: antes havia mais encontros, inclusive, os artistas iam para a casa dos amigos, se encontravam mais uns com os outros e chegavam a produzir coisas interessantes, encontros que mudavam até mesmo o rumo de suas carreiras, ou que influenciavam. Um encontro destes, por exemplo, foi o do meu pai com o Henfil. Depois desse encontro, foi tão impactante para o Henfil, que ele criou o personagem do bode que comia livros etc. Então é isso, é uma produção de fã, de malungo, a gente fez em Recife, em João Pessoa, mas não obstante a isso meu pai tem uma produtora que acompanha ele e também presta esse agenciamento, a Rossane Nascimento.

Qual será a base do repertório em São Luís?
O repertório é de algumas das canções antigas dele, que eu até me impressionei de meu pai retomar, para estudar o violão, por que não é fácil recordar músicas que tocou há muito tempo, como Cavaleiro do São Joaquim, que é do primeiro disco dele [Das barrancas do Rio Gavião, de 1973]. Tem trechos de óperas, como a ópera A carta, a Faviela, que já é uma canção conhecida, mas que faz parte de um quadro de ópera. Eu executo também alguns solos de violão do disco que eu gravei, Ao Sertano [2015], e a gente faz esse passeio, procura evocar essas tropas, essas cantigas de tropeiro nessa apresentação, mas não fica só nesse território. E meu pai, que gosta muito de contar histórias, ele vai falar bastante sobre o que ele tem feito.

O nome do espetáculo, verso de Na quadrada das águas perdidas, significa tomemos a iniciativa, outra tradução de um fazer artístico ímpar. A seu ver, o que é mais interessante e único na obra de Elomar, tão diversa em formatos e temáticas?
Na realidade o que eu acho interessante é meu pai conseguir viver, conviver com o povo do lugar, com vaqueiros, tropeiros, trabalhadores rurais, e conseguir absorver a cultura deles, o linguajar deles, as crenças, toda essa coisa, e transformar em um trabalho autêntico, por que na realidade o trabalho dele é singular, não tem assim alguém parecido aqui no Brasil. Existem sim pessoas que se influenciaram por ele, mas é um trabalho muito único, muito próprio dele, no qual ele também se inspirou nos trovadores medievais, para fazer as cantigas, sofre sim essa influência. Mas ele também bebeu na seresta, nos ritmos nordestinos, no xaxado, no martelo, então o trabalho dele tem essa singularidade de poder conviver e extrair dali e fazer um trabalho único, que não é necessariamente cópia de músicas tradicionais, da música tradicional do sertão.

Sua entrada no meio musical era inevitável sendo filho de Elomar? Você chegou a aprender outros ofícios?
Eu comecei desde cedo a estudar música, estudei junto com meus irmãos, minha irmã e meu irmão, mas eu que segui no estudo com mais dedicação. Eu chegava a ir para a fazenda estudar oito horas de violão e meu pai percebendo isso, na realidade ele não me deu aulas de violão, eu que ficava olhando ele tocar e tentava copiar. Ele pelo menos ensinou onde era o dó no violão e nós saímos lendo métodos de violão. Mas ele me pôs nos palcos, quer dizer, nós três, tocando flauta doce, eu com sete anos de idade, meu irmão com oito e minha irmã com nove. Mas só aos 14 anos que eu me apresentei mesmo com um violão, com ele, lá em [Vitória da] Conquista. A partir de lá venho acompanhando ele nessa jornada, que já faz muitos anos [risos]. E sempre essa parceria, de Dom Quixote e Sancho Pança, por esse Brasil afora, tentando levar essa cultura, essa arte, essa música, sei lá, resgatar culturas, resgatar não, guardá-las, guardar tesouros e fazer com que as pessoas se encontrem com esses tesouros de alguma forma.

Das barrancas do Rio Gavião está completando 45 anos em 2018. Alguma deferência especial a seu repertório durante o concerto?
Sim. Ele vai fazer a música Cavaleiro do São Joaquim, que fala praticamente dele. Ele como o menino do São Joaquim, como nascido nessa região, que na realidade é em [Vitória da] Conquista. É um disco maravilhoso, que fez esse lançamento incrível e teve sim uma repercussão muito importante. Vinicius de Moraes escrevendo [o texto de apresentação do disco] atrás, na capa dele, então meu pai está revivendo essa música assim, nesse concerto. Está no repertório.

Você era bastante jovem quando gravou violões em Xangai canta [cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de] Elomar, em 1986. Foi tua primeira experiências profissional? Relembra um pouco aquele período e os bastidores desta gravação.
A gravação do disco de Xangai nessa quadra foi um momento mágico pra mim. Primeiro que eu comprei meu primeiro violão com meu dinheiro, meu cachê, na época, que meu pai me deu. Comprei o Shigemitsu Sugiyama, que eu toquei, estou tocando com ele. Um amigo meu, [o violonista] Cao Alves, levou em São Paulo, deu uma reajustada no violão, está ótimo. Naquela quadra, os bastidores da gravação, me lembro que estava lá o Mário de Aratanha, que era da Kuarup, meu pai e Xangai, meu pai tocando pra Xangai cantar, ele escrevendo arranjos, acho que foi uma das primeiras vezes que ele escreveu para instrumentos de corda e sopro. Então ele estava naquela dúvida: “será que eu consigo escrever bem para esses instrumentos?”. Então, ele estava no chuveiro e falou: “é, Deus me ensina a escrever pra esses instrumentos”. Meu pai é muito cristão, a fé dele é muito forte, inclusive tem lá a gravação de A meu Deus um canto novo, já com arranjo de Jacques Morelembaum [violoncelista], já a segunda vez que Jacques estava junto com meu pai, primeiro foi no Auto da Catingueira [1983], e depois lá, nessa gravação. Foi um momento muito especial, músicos excelentes, um ambiente muito agradável. E pra mim é um dos discos mais belos que Xangai já gravou, Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar. É um apanhado de gêneros que meu pai faz e que também de certa forma evoca tropeiros e vaqueiros.

Apesar da aversão de Elomar à internet, você acredita que ela traz novos admiradores, sobretudo de novas gerações, à sua obra? A propósito, como vocês lidam com o fato de o consumo de música hoje se dar majoritariamente por via digital?
Traz novos admiradores, eu mesmo encontrei com uma moça, lá em Belo Horizonte, quando nós fomos tocar, que ela disse que encontrou meu pai no youtube, por que estava em reprodução automática, e ela achou curioso e buscou mais músicas, viu que ele estava se apresentando em Belo Horizonte, no Sesc, então ela foi conferir, foi assistir, gostou muito. É muito curioso ter um público jovem indo a concertos de meu pai. Mas quanto à questão de mídias digitais, acho que meu pai preferiria até o vinil. Ele acha que essa reprodutibilidade assim é uma coisa ruim para o artista, por que afinal de contas ele faz o disco, todo mundo copia, todo mundo solta na internet de forma gratuita. Na realidade querem uma gratuidade que é o pão que o artista ganha.

A cantora Titane lançou recentemente um disco [Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, 2018] inteiramente dedicado ao repertório de Elomar. Em entrevista, ela reconheceu a força que vocês deram a ela durante todo o processo. O que vocês acharam do resultado final?
A Titane fez essa gravação desse disco, foi uma inspiração dela, por que ela participaria na gravação do dvd do Auto da Catingueira. Mas como não foi adiante, ela acabou se envolvendo mais de perto com a obra dele e resultou nisso, na gravação de um disco. Ela é muito segura, ela tem o jeito próprio dela de cantar, uma pessoa muito profissional, muito carinhosa, muito carismática. Ela aproximou do bode, foi na fazenda, acho que a produção de um disco foi muito boa, ainda mais com músicos que trabalharam também nas transcrições das canções dele, como o Hudson Lacerda. Nós gostamos muito do cuidado dela, do interesse dela, e meu pai tem, de certa forma, permitido gravações de músicas dele por muitos grupos diferentes. Para o seu susto, ou para o susto do público, dois rappers no Rio de Janeiro gravaram O violeiro, foi uma autorização que meu pai deu. Ele gostou muito de ver como pessoas de um grupo, de uma cultura diferente, escolherem uma música dele, em dialeto, pra fazer o rap. Foi muito interessante, nesse sentido. A Titane não, ela já é da cantoria, dessa música popular, da música popular mineira, ela é uma representante já tradicional, uma pessoa conhecida da gente de muito tempo. Então, é muito mais tranquilo nesse sentido, de absorver o trabalho de meu pai, de traduzi-lo, e de produzir algo, assim, dentro de uma estética, com todo cuidado que ela merece. E na realidade, a apresentação é muito bonita, a apresentação de lançamento que ela fez, toda a parte cênica maravilhosa, ela está de parabéns.

O disco mais recente de Elomar é O menestrel e o sertão mundo [2016], gravado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense. Há quatro anos vocês passaram por São Luís com o concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, supostamente título de um novo disco. Como está este? Há planos de novo disco ou novos discos?
Gravamos esse disco com a orquestra da UFF e foi uma experiência maravilhosa, músicos excelentes, o maestro Tobias [Volkmann], de uma educação e de um acolhimento incríveis. Foram todos muito cuidadosos e foi um momento muito especial. Gostei muito de executar a Antífona [Número 11 Alfa, Ecos de uma Estrofe de Habacuque] para violão e orquestra, foi uma experiência incrível tocar com eles. Apresentamos lá, em Niterói e na [Sala] Cecília Meireles. O Riachão do Gado Brabo está parado, está a metade já gravado, e ainda falta concluir o restante. Meu pai é meio enrolado nesse sentido [risos], confesso. Talvez que ele se preocupe mais em escrever do que em gravar as músicas, por que a escrita perpetua muito mais do que a gravação. Então ainda está em projeto a conclusão deste trabalho. Eu não sei te dar uma data, nem te dar maior segurança quanto a quando ele vai estar pronto. Mas é sim um projeto. Esse seria o que poderia ser considerado como o último disco cancioneiro dele.

Além de músico acompanhante de teu pai há bastante tempo, você desenvolveu uma carreira acadêmica e uma carreira como solista e concertista de violão. Como é administrar estas agendas todas?
Não tem sido nada fácil administrar, por que eu tenho que cuidar de orquestra jovem, eu sou atualmente coordenador do Núcleo Neojiba, lá em Vitória da Conquista. Neojiba são Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Tenho que trabalhar, desenvolver outros trabalhos, arranjos para cd, as composições próprias, que eu também trabalho em composição, sair para concertos, realmente é uma agenda que está bem apertada. Mas eu tenho procurado dar conta dela, ou seja, 24 horas com música. Eu acredito que nós temos um trabalho importante a fazer, registrar, escrever, e a gente tem que buscar mais apoio pra ter um tempo mais específico pra dedicar, e talvez até dizer não para muitas propostas, se não o tempo não dá para produzir tudo. Mas eu tenho me dedicado sim a tocar com meu pai, primeiro por que já tocamos há tanto tempo, é uma parceria, já somos muito malungos na realização das apresentações, ele confia muito em mim, na pegada de meu violão para fazer o apoio junto com ele, nos entendemos imediatamente. Ele está cada vez mais cansado, já está com 80 anos, não é muito fácil sair viajando para tocar. Então, cada vez mais serão menos apresentações, e provavelmente as apresentações tenderão a ser mais lá mesmo, na localidade da gente, em Vitória da Conquista, lá na fazenda Casa dos Carneiros, onde ele construiu uma caixa cênica para realizar óperas, e tem também a sala, que é o Teatro da Lírica Mineira, uma sala menor, bem menor, mas para música de câmara, acústica. Então, não é fácil dar conta disso tudo, mas eu estou grudado, junto com o bode. É uma briga doida a gente, falando a verdade, eu sempre reclamo com ele sobre instrumentação, orquestração, e tal, mas no fundo ele me ouve, a gente acaba se entendendo em relação à produção dessas coisas, por que tem toda uma parte técnica, que a gente tem que passar a limpo partituras, para que esse universo da música sinfônica, esses músicos sinfônicos compreendam de forma melhor, uma música que pra eles ainda é nova ou está distante da própria cultura tradicional europeia. Então, precisa de muitas indicações, meu pai às vezes despreza essas indicações, mas eu sempre repito pra ele que é importante a gente encher de indicações pra que eles entendam e consigam mergulhar cada vez mais na música dele.

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Ouça Calundu e Cacoré (Elomar), com João Omar:

Uma força da natureza

Foto: Fernanda Torres

 

Leila Maria não é apenas uma cantora: é uma força da natureza.

Força é palavra que bem a define, justamente por nunca ter vestido a camisa de, que quase sempre predestina as cantoras brasileiras e negras ao samba. Se rebolar, então…

Por falar em rebolado, Leila Maria dança o jazz.

O jazz pelo qual se apaixonou quando, criança, ouviu Night and day, de Cole Porter, na interpretação de Frank Sinatra.

“Eu achava que era música de velho. Eu era criança. Meu pai viajava muito, trazia discos, botava para ouvir, minha mãe dançava. Eu já estudava inglês, sou professora de inglês. Um dia eu prestei atenção na letra e foi uma paixão que eu carrego até hoje”, revelou.

A música foi um dos números do repertório de altíssimo nível apresentado pela cantora, ontem (27), no Teatro Arthur Azevedo, durante a cerimônia de lançamento da 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival.

Falar em altíssimo nível em se tratando de Leila Maria é fácil: é capaz de ela arrepiar o público cantando até um simples parabéns a você.

Não é para qualquer uma ser chamada de “a voz brasileira de Billie Holiday”, como a crítica especializada costuma se referir a ela, que dedicou um disco, vencedor do Prêmio da Música Brasileira, ao repertório da americana.

A noite foi a grande escola de Leila Maria, os pianos-bares cariocas: o luxuoso Hotel Novo Mundo, a Modern Sound, entre outros palcos privilegiados. Na verdade, privilegiado é o público que a prestigia. “Vocês precisam saber: vocês também são parte do show. Se a gente saísse de casa e vocês não estivessem aqui, não era show, era ensaio”, disse, simpática e sincera.

Quando cantou Cry me a river (Arthur Hamilton), tirou onda: “alguém aí lembra da Kelly Key? Ela dizia “baba, baby, baby, baba”. Essa música é a mesma coisa. Quando eu cantava na Modern Sound, cantei três anos lá, as pessoas puxavam as giletes para cortar os pulsos. Tem uma coisa de vingança muito forte nessa letra. Você pisa e depois quer de volta? Nããããão…”. De música em música e história em história, conquistou e encantou o público.

Acompanhada por Fernando Costa (piano e vocais), Ricardo Costa (bateria) e César Dias (contrabaixo acústico), Leila Maria desfilou um repertório predominantemente cantado em inglês. Senhora do palco, deixou margem para o trio exibir seus talentos individuais, sobretudo em A night in Tunisia (Dizzy Gilesppie), tema originalmente instrumental que ganharia letra a pedido de Ella Fitzgerald.

Em português, com divisão diferenciada, cantou Desafinado (Tom Jobim/ Newton Mendonça), que dá título – Off key, em inglês – ao disco que ela dedicou a temas da bossa nova que se transformaram em standards de jazz lá fora.

“Agora eu vou cantar um samba. Mas eu vou cantar em inglês, que é para a discrepância ser maior”, gracejou, antes de mandar So nice, versão para o Samba de verão, dos irmãos Vale, Marcos e Paulo Sérgio.

Por falar em irmãos, os irmãos Gershwin, George e Ira, também compareceram ao repertório: The man I love abriu a apresentação da cantora e Summertime encerrou a noite.

“Apesar de ter conhecido pouco, eu adorei a cidade de vocês. Espero voltar mais vezes”, derramou-se. Com certeza o público que a viu ontem também espera. A julgar pelo show de lançamento e pela programação anunciada vai ser bonita a grande festa de comemoração pelas 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival.

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10 ANOS DE UM FESTIVAL NOTA 10!

[textinho que tive a honra de escrever para a programação do evento, distribuída desde ontem]

Uma década de existência ininterrupta consolida qualquer festival no calendário cultural de qualquer lugar. É o que celebramos nesta 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, que em 2018 segue firme em seus propósitos: a diversidade de linguagens, a formação de plateia, o intercâmbio, a qualificação de integrantes da cadeia produtiva da música, através das oficinas, e, é claro, muita diversão.

O êxito do festival, ao longo desse tempo em que é realizado, deve-se a uma conjugação de fatores: a qualidade dos artistas convidados e, consequentemente, de suas apresentações, as belezas dos cartões postais em que se insere – diversos pontos das cidades de Barrerinhas, “capital” dos Lençóis Maranhenses que batizam o evento, e São Luís, capital do Maranhão, tão diverso culturalmente.

Por falar neste aspecto, importante ressaltar a troca sempre promovida, não apenas entre músicos, ao juntar atrações nacionais a atrações locais, valorizando a estrada percorrida por artistas em sua missão de “ir aonde o povo está”, como cantou o poeta, mas também, antenas ligadas, como é dever de qualquer festival que se preze, apontando para o futuro, descobrindo novidades, antecipando tendências.

10 edições é um marco por si só histórico. Mas “um mais um é sempre mais que dois”, como cantou outro, e há coisas que a matemática pura e simples não explica, ao menos não completamente. Não são 10 edições quaisquer: em 2018 completam-se 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival, a que se deseja vida longa, pois muito ainda há por fazer e mostrar ao público do Maranhão – e que vem de outros lugares para prestigiar. Você, aí: junte-se a eles! Junte-se a nós!

Lançamento do Lençóis Jazz e Blues Festival terá show de Leila Maria, hoje

A cantora Leila Maria. Foto: divulgação

 

“Em minha gestão o Tutuca não ganhará nada, está fora. A briga com o Ronald [Pinheiro, compositor] mostrou o quanto ele estava engajado politicamente com o grupo que faz oposição ao nosso”, desferiu o então secretário de Estado da Cultura Luiz Bulcão, em entrevista, cerca de um mês após a consolidação do golpe que tirou Jackson Lago (1934-2011) do Palácio dos Leões e devolveu a cadeira de governadora a Roseana Sarney.

Ainda não sabíamos, mas em 2009 aconteceria a primeira edição do maior feito de Tutuca como produtor: o hoje longevo Lençóis Jazz e Blues Festival, que colocou o Maranhão definitivamente no mapa das grandes produções do gênero – aquela primeira edição contou com o patrocínio da Cemar, ainda sem a chancela da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com que a empresa continuou a parceria, até hoje.

Hoje (27), logo mais às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece o lançamento da comemorativa 10ª. edição do festival, que em 2018 terá, como de praxe, duas etapas: a primeira em Barreirinhas, entre os dias 10 a 12 de agosto, e a segunda em São Luís, no fim de semana seguinte (17 e 18).

No lançamento do festival quem canta é a carioca Leila Maria, que a crítica especializada costuma dizer tratar-se da voz brasileira de Billie Holiday. Os ingressos para o evento podem ser trocados na bilheteria do teatro por um quilo de alimento não perecível, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair (São José de Ribamar/MA).

Entre as atrações confirmadas para a edição de 2018, o cantor e compositor mineiro Lô Borges, que presta homenagem aos 75 anos do parceiro Milton Nascimento; o gaitista Jefferson Gonçalves, bluesman talvez de presença mais constante nestes 10 anos de festival; o pianista pernambucano Amaro Freitas, grata revelação da música instrumental brasileira; Fauzi Beydoun, artista à frente do fenômeno reggae Tribo de Jah, desta feita mostrando sua porção bluesman; o pianista acriano João Donato, um dos inventores da bossa nova (se apresenta em São Luís dia 17 de agosto, data em que completa 84 anos de idade); o gaitista brasiliense Gabriel Grossi; a cantora carioca Taryn Szpilman; o reinventor do bandolim Hamilton de Holanda; e o violonista piauiense Josué Costa, outra jovem e grata revelação da música instrumental brasileira – programação completa no site do festival.

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Ouça Leila Maria em Swing, brother, swing (Clarence Williams/ Walter Bishop/ Lewis Raymond):

O tempo do Tira-Teima

Foto: Zema Ribeiro

 

O Tira-Teima tem um tempo todo particular. Grupamento de choro formado em meados da década de 1970 em São Luís do Maranhão, somente em 2016 gravou o primeiro disco, Gente do Choro, cujo show de lançamento aconteceu somente ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo.

O septeto que subiu ao palco ontem já difere do que gravou o disco, numa demonstração inequívoca de que o Tira-Teima é uma verdadeira escola, por onde passam grandes instrumentistas, do qual Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), único remanescente da formação original, acabou, por isso, firmando-se como uma espécie de líder natural.

Após um texto lido em off pelo jazzófilo Augusto Pellegrini, a poeta Vanda Cunha recitou uma espécie de currículo artístico do Tira-Teima enumerando qualidades e grandezas e  pedindo à plateia uma salva de palmas para o grupo – a cortina ainda estava fechada e ela atrapalhou-se para encontrar a fresta e tornar aos bastidores.

A noite foi aberta por Gente do Choro (Paulo Trabulsi), choro cantado interpretado por Zé Carlos (pandeiro e voz), cuja letra versa sobre o ofício do chorão, por ruas e bares, entre a música como profissão e diversão.

O Tira-Teima tocou durante cerca de hora e meia, desfilando repertório inteiramente autoral, entre faixas de Gente do Choro e inéditas, algo raro de se ver e ouvir em rodas de choro, em que quase sempre se pescam peças mais populares do vasto repertório chorístico brasileiro. Seguiram-se Companheiro (Francisco Solano e Paulo Trabulsi) e Meiguice (Paulo Trabulsi).

“É uma alegria, uma satisfação muito grande estar aqui, realizando este show de lançamento de nosso cd. A felicidade é maior ainda por sabermos que estamos entre amigos. Todos aqui são amigos e parceiros”, afirmou Paulo Trabulsi, agradecendo a presença de todos, com o público presente ao teatro comprovando o que já é sabido: o choro não é música de multidões, tampouco modismo, com fiéis ouvintes dispostos a boas doses de boa música em qualquer tempo, em qualquer templo – como Luiz Jr. se referiu ao Arthur Azevedo, merecidamente.

Em Imbolada (Serra de Almeida), um casal entrou dançando, a demonstrar que o choro também é música para tanto. Ainda mais quando em diálogo com o maxixe e puxada à embolada nordestina, com destaque para a flauta do autor.

Serra de Almeida puxou do cofo de inéditas Os degraus da matriz, lembrando a escadaria da igreja em que brincou na infância, em sua São Bernardo natal, no interior do Maranhão.

O potiguar Wendell de la Salles, sempre saudado como uma espécie de integrante honorário do Tira-Teima, com seu bandolim, substituiu o cavaquinho de Paulo Trabulsi em Dom Chiquin (Serra de Almeida), formação mantida para Anjo meu (Wendell de la Salles), que ele compôs em homenagem à sua filha, e Aguenta seu Florêncio (Wendell de la Salles), homenagem ao avô, que um dia vacilou com a porta do guarda-roupa aberta e o menino Wendell descobriu um cavaquinho e consequentemente a música. Para sempre!

O grupo voltou a ter a formação do início do show – na foto, em sentido horário, Zé Carlos (pandeiro e voz), Henrique Brasil (percussão), Sadi Ericeira (cavaquinho centro), Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Francisco Solano (violão sete cordas) e Luiz Jr. (violão sete cordas) – para executar Choro nobre (Serra de Almeida) e Expressivo (Paulo Trabulsi). Na sequência, músicos e plateia assistiram ao belo duo de sete cordas dialogando em Teimosinho (Luiz Jr.), momento em que o flautista aproveitou para dar uma conferida no whatsapp.

Luiz Jr. anunciou o próximo convidado: “meu professor”, disse, referindo-se ao violonista João Pedro Borges. “Vou aproveitar para fazer logo a propaganda: nós estamos trabalhando no Festival Internacional de Violão, que trará grandes instrumentistas à São Luís e terá direção do grande Turíbio Santos”, anunciou sem dar maiores detalhes.

Na sequência, todos os músicos deixaram o palco, exceto Serra. Flauta e seis cordas dialogaram em Simples como Serra (João Pedro Borges), faixa que fecha Gente do Choro. “É um enorme prazer estar entre amigos, com este grupo que vi nascer. Faço minhas as palavras de Tom Jobim: eu só faço música por encomenda. Mas antes que se pense em algo mercantilista, algumas encomendas vêm do coração e meu coração me encomendou essa homenagem a este grande amigo”, declarou o convidado especial.

Com a volta do grupo ao palco, Carlinhos da Cuíca cantou Pra ser feliz, música que o cearense Léo Capiba (1947-2014), outro ex-integrante do Tira-Teima, compôs em homenagem à sua esposa Sandra, registrada com a voz do autor em Gente do Choro. Depois Zeca do Cavaco emprestou a voz à futebolística Zona do agrião (Léo Capiba) e a Apelo, registrada no disco como de autor desconhecido, mas ontem corretamente creditada a Nhozinho Santos, pianista da Rádio Timbira, homônimo ao industrial que “inventou” o futebol por aqui e acabou dando nome ao estádio municipal.

Ricarte Almeida Santos, “embaixador do Choro no Maranhão”, comenda conferida pelo Instrumental Pixinguinha, leu um texto em que passeou pela trajetória e importância do grupo, destacando os talentos individuais de seus integrantes atuais e destacando nomes de outrora, como Adelino Valente, Antonio Vieira, Arlindo Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Fernando Cafeteira, Sérgio Habibe e, entre outros, Ubiratan Sousa, autor do choro que dá nome ao grupo, infelizmente não registrado em Gente do Choro nem lembrada no repertório de ontem.

Por vezes o som tentou atrapalhar, mas a noite seria memorável acontecesse o que acontecesse.

No bis o grupo, com o reforço de Wendell de la Salles, acompanhou em Gente do Choro o coro de vozes de ​Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos Cuíca, Fátima Passarinho, Gabriela Flor, Quirino, Zeca do Cavaco e até a jornalista Edivânia Kátia (assessora e produtora do grupo e do show de ontem).

Disco lançado, missão cumprida. Votos de vida ainda mais longa ao Tira-Teima, que ontem, mais uma vez, botou essa gente do choro para sorrir de alegria e êxtase.

É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom

Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro

 

Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.

O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.

O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.

Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.

Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).

A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.

“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.

O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.

Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.

“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.

“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.

Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.

A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.

Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [em Fulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.

“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.

“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.

Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.

“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.

O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.

Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.

Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.