As mil almas de Tatá Aeroplano

Tatá Aeroplano lançou seu primeiro disco em 2004, Onda híbrida ressonante, como frontman do grupo Cérebro Eletrônico. O artista voa pelo chão: é um legítimo flaneur paulistano, que curte a cidade a seu modo, tendo estabelecido com a capital paulista uma relação bastante particular – e inspiradora.

De lá para cá vieram outros três discos com o Cérebro Eletrônico (Pareço moderno, de 2008, Deus e o diabo no liquidificador, de 2010, e Vamos pro quarto, de 2013), dois com o Jumbo Elektro (Freak to meet you, de 2004, e Terrorist!? The last álbum, de 2009), outro grupo de que foi vocalista, na persona de seu alter ego Frito Sampler – personagem que já lançou, por sua vez, dois álbuns solo: Aladins Bakunins [2015] e Cosmic Damião [2016].

Alma de gato. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano acaba de lançar o quarto álbum de sua carreira solo: Alma de gato [2018], sucessor de Step psicodélico [2016], Na loucura & na lucidez [2014] e Tatá Aeroplano [2012]. Ou quinto, se contarmos Vida ventureira [2017], que dividiu com a cantora Bárbara Eugênia.

É isto mesmo: entre bandas, solos, alter ego e duo, são 13 discos (em 14 anos), o que o torna um dos mais profícuos operários da música no Brasil. Isso sem contar suas colaborações em discos de outros artistas, tocando, produzindo, fornecendo composições – para ficarmos num único exemplo, a recente produção de Diamantes na pista [2018], estreia da cantora Malu Maria, parceira dele em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, uma das oito faixas de Alma de gato.

Alma de gato é um disco que, por um lado, demonstra o amadurecimento do artista, percebido a começar pelo maior entrosamento com a banda que o acompanha desde o primeiro disco solo. Por outro, mantém o clima bucólico-psicodélico que já é uma espécie de marca de seu trabalho autoral.

“No fim de 2016 mudei de Santa Cecília para o bairro da Vila Romana […]. Esse novo disco que chega está cheio de vivências e experiências de nova fase na cidade de São Paulo”, pontua o artista no release que ele mesmo escreveu. “Batizei o novo álbum em homenagem ao belo pássaro Alma de Gato, que avisto direto pelas ruas e praças da região, e me inspirou a escrever a canção Mil almas de gatos”, continua. O disco é “mais um lançamento de Aeroplano pelo selo não identificado Voador Discos” e “conta com a distribuição digital da Tratore” – a exemplo de toda sua discografia, está disponível para download gratuito em seu site.

Por ocasião do lançamento de Alma de gato, Tatá Aeroplano conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos, a que se refere diretamente.

Retrato: Luiz Romero

Homem de vícios antigos – Tatá, você é um paulistano, homem da metrópole, mas teus discos têm um frescor pastoril, embora urbano, bucólico. Acho que um bom rótulo para teu trabalho, se ele coubesse em um, seria bucólico-psicodélico. Nele, esse equilíbrio entre coisas aparentemente tão díspares, no entanto, soa bastante natural. Como você enxerga isso?
Tatá Aeroplano – Zema , bucólico-psicodélico, tem tudo a ver com a música que eu tenho feito. Eu passei uma boa parte da infância e da adolescência no bairro do Passa Três, um vilarejo na zona rural que fica perto da cidade de Tuiuti, no interior de São Paulo. Também vivi em São Paulo, depois fui pra Bragança Paulista na adolescência e com 18 anos voltei pra morar em Sampa. Eu passei muito tempo vivendo a metrópole, mergulhado na cidade, nas noites, escutando sons de todos os tempos, assistindo shows de todas as galeras que vêm morar na cidade, artistas, amigos. Porém, sempre vivi em São Paulo como se eu estivesse vivendo no sítio, de uma forma simples, nunca tive carro, sempre gostei de caminhar e com isso estabeleci uma relação interiorana dentro da cidade, caminhando dia e noite. Hoje, quando tenho uns dias mais tranquilos, passo uns dias na natureza, observando pássaros, conectado com uma essência que eu nunca perdi e que me guia até hoje. E quando estou em São Paulo, vivendo agora na Vila Romana, faço altas caminhadas com a Malu [Maria, cantora e parceira], andamos seis quilômetros pra pegar um cine ou simplesmente curtir o movimento da Avenida Paulista.

Alma de gato é nome de um pássaro, mas também pode ser entendido como a essência do felino, libertária, com seu tempo todo particular. São ângulos possíveis de ouvir este teu novo disco?
Sim, total, Zema. Quando eu comecei a observar o pássaro Alma de Gato foi caminhando por Sampa. Eu ainda não tinha reconectado minha essência espiritual com os pássaros e um dia eu fui participar de um ensaio no estúdio do Guilherme Kastrup [percussionista], que fica no Alto da Lapa, e no quintal da casa dele tem uma vegetação linda com várias árvores e pela primeira vez eu prestei atenção numa Alma de Gato que pulava de galho em galho. Mexeu comigo, pois é um pássaro grande, multicolorido, meio pré-histórico e que se mexe nas árvores numa mistura de gato e macaco. Logo depois eu tive um sonho em que a [jornalista e radialista] Patrícia Palumbo me dizia que eu tinha que voltar a observar os pássaros que eu vi na infância, que eles não tinham sumido, pelo contrário, que ainda veria muitas espécies de pássaros que eu não tive a oportunidade de ver na infância. A partir daí, em Sampa, ou em qualquer cidade ou sítio que eu visite, a Alma de Gato sempre esteve presente. Batizar o álbum com esse nome é também brindar a essência felina, libertária, o voo da mente, porque a gente pode ser de tudo um pouco quando a gente mentaliza e observa, até nos movimentos mesmo, a gente passa a ser um pouco felino nas andanças, nos saltos, na vida. De uns tempos pra cá tenho vivido experiências maravilhosas com várias espécies de pássaros, insetos, plantas e árvores. A gente pode se reaproximar dessa natureza que tem tanta coisa pra ensinar e mostrar pra gente, é como receber fragmentos, estilhaços do elo perdido.

Alma de gato é conduzido por parceiros teus de longa estrada e demonstra um amadurecimento em relação aos discos anteriores. Foi mais fácil fazê-lo? Você o considera seu trabalho mais bem acabado?
É o quinto disco que eu gravo no estúdio Minduca com Bruno Buarque [bateria e percussão], Junior Boca [guitarra] e Dustan Gallas [contrabaixo e sintetizadores]. A gente vive uma sintonia, astral e amizade que fica mais bonita a cada disco, entramos em estado de festa quando gravamos. A gente é uma banda e isso me deixa totalmente realizado e sempre quando terminamos um novo álbum, fico já pensando o que faremos no próximo. Nesse disco eu vivi alguns momentos onde tive que buscar energia e concentração para gravar. Cores no quarto é uma música que veio de uma vez, gravei o momento da criação e levei alguns meses para pegá-la novamente. Tive que me isolar por alguns dias para me familiarizar com a canção. Quando fomos gravar o disco, aproveitei o melhor momento para a gente tocá-la. A base que está no álbum é do primeiro take. As músicas desse disco caminharam prum lugar novo, nesse ponto foi um desafio que com o passar do tempo foi ficando cada vez mais gostoso. Eu perdi a referência e o controle por diversas vezes, e isso foi muito bom. Não sei dizer se é o disco mais bem acabado que a gente fez, mas a gente está tão entrosado na vida e no estúdio, que naturalmente isso vai parar nas canções. Alma de gato abriu um caminho novo para os próximos trabalhos. Estou curioso sobre o que vamos fazer daqui pra frente.

Parceiras mais ou menos recentes, como Bárbara Eugenia, com quem você dividiu disco ano passado e turnê europeia este ano, e Malu Maria, de quem produziu o disco de estreia, comparecem à Alma de gato. Essa brodagem que marca a cena paulista me parece fundamental em teu fazer artístico, concorda?
Uma das coisas que me movem são os outros e seus devires. Desde pequeno sou assim. Gosto muito de escutar novos sons e conhecer novos artistas. Vivo de braços abertos pro desconhecido, pro mistério e encontros musicais. Esse disco está repleto de parcerias. Com a Malu Maria eu compus Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols. Com Luiz Romero, que é de Recife e mora em Sampa, rolaram as parcerias Deixa voar e Hoje eu não sou. Com o poeta cearense radicado em Sampa Daniel Perroni Ratto rolou a canção Colorir de carnavais. Com Beto Antunes, que é mineiro de Milho Verde, foi a vez de se inspirar e criar algumas partes juntos de O alienista da Vila Romana. E do João Sobral, que nasceu em Sobral no Ceará, eu gravei a composição de sua autoria Vida inteira. A Bárbara, a Julia Valiengo e a Ciça Góes, que participaram do disco anterior, também estão presentes nesse álbum. Eu gosto muito desse criar coletivo natural, sem pensar muito. Esse disco nasceu de parcerias feitas principalmente à noite, sem combinar, sem pensar muito a respeito, e quando eu me dei conta, o disco estava pronto. Isso tem feito cada vez mais a minha cabeça: deixar o inconsciente consciente nos momentos de inconsciência total.

Teus discos também trazem uma abordagem bastante particular do carnaval, aqui representada por Colorir de carnavais, uma música alegre, alto astral, mas que fala de superação, de curar uma dor de amor com outro amor. É algo autobiográfico?
Essa canção nasceu a partir do poema presente no livro de poemas Vozmecê do Daniel Perroni Ratto, num domingo à tarde, no Condomínio Cultural que fica na Vila Anglo. O Ratto me deu o livro e eu abri direto na página com a letra de Colorir de carnavais. Automaticamente eu comecei a cantar a melodia da música, a Malu Maria, que estava filmando, registrou o momento e na hora soube que ali estava uma canção vibrante. Depois que eu gravei a música, captei a essência da letra, que foi escrita por um amigo de longa data: com o Daniel Ratto eu tive uma banda, chamada Luz de Caroline. Nessa banda ele cantava e eu tocava brinquedos que passavam por um pedal de delay e reverbe. Daí que nascem as grandes parcerias da vida. Agora, falando sobre a letra da música, alguns amigos que passaram por momentos de separação e superação se conectam a história da letra e isso eu chamo de magia e encontro, porque a letra do Daniel me representou totalmente, é uma história universal.

O título Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, de longe o que mais chama a atenção à primeira vista, dialoga diretamente com o verso de Caetano Veloso em Sampa, “os Novos Baianos passeiam na tua garoa”, embora tua música, diretamente, nada tenha a ver com a de Caetano. Ela de algum modo serviu de inspiração?
Com certeza, o Caetano Veloso é uma inspiração eterna, bem como Gilberto Gil, Itamar Assumpção, Chico Buarque, Os Mutantes, Novos Baianos, Tom Zé, João Gilberto, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Alceu Valença, Zé Ramalho, Gal Costa, Maria Bethânia, Elis [Regina]… só pra ficar nos artistas do fim da década de 1960 e começo dos 1970. Hoje minhas influências também são os amigos contemporâneos que compõem e fazem música, eles me guiam totalmente. Quando eu terminei de compor essa canção com a Malu Maria, me veio o título referência na hora, pensei na canção do Caetano. Achei até um pouco exagerado colocar a palavra “sapateiam” em vez de “passeiam”. Eu quis dar aquela espetada na galera que vive escutando e louvando a vida inteira artistas gringos e passam batido com a nossa música que tem tanta coisa maravilhosa. Um adolescente brazuca conhecer o Sid Vicious sem saber quem são os Novos Baianos, soa surreal, mas foi o que aconteceu numa noite de show no Teatro de Bolso do IV Mundo e inspirou a feitura da música em parceria com a Malu.

Ainda falando em Os Novos Baianos sapateiam na garoa dos Sex Pistols, há um verso, bonito e sutil, que fala em virar à esquerda. Como se posiciona Tatá Aeroplano nestes tempos sombrios em que o Brasil está mergulhado?
Eu nasci canhoto e dobrei a esquerda. Cada vez mais eu consigo captar o espírito do tempo político de cada época. Através da literatura, história e poesia, quando a gente volta séculos e séculos para trás, se conecta com o estado de espírito político de pessoas que viveram no passado e naturalmente se posicionavam corporal e espiritualmente com as forças da natureza, questionando as brutalidades empenhadas pelas religiões, tradições, coisas que com o passar do tempo carregam uma energia que eu quero passar longe. A realidade que vivemos é que a gente ainda corre o risco de viver preso dentro das religiões, do conceito de família, se você é católico ou evangélico você se torna uma propriedade. Vive-se um tipo de aquietação espiritual, já que te é privada a possibilidade de certas transcendências, pecados, culpas e não se pode tocar em algumas feridas. A gente entrega uma parte do nosso livre arbítrio para outros decidirem. O momento político que vivemos é muito delicado. Sofremos o Golpe [maiúscula dele], domínio das bancadas ruralistas, cristãs, evangélicas a mil por hora e o #EleJamais como uma ameaça real. Mesmo assim sou otimista e acredito que vamos representar nessa eleição. Nasci canhoto, gauche, assim como você, sou um maluco por vícios antigos. Na escola alguns professores tentaram me fazer escrever com a mão direita. Eu chegava em casa e fazia a lição com a mão canhota, no dia seguinte, a professora reclamava e dizia pra eu refazer com a direita, que doideira isso, né? Então, sou mais Zema, [o cantor e compositor Juliano] Gauche, Galírio [o cantor e compositor Gustavo Galo, integrante da Trupe Chá de Boldo], Anelis [Assumpção, cantora e compositora], Karina [Buhr, cantora e compositora], Dustan, Boca, Bruno, Bárbara, Malu, Sobral, Tulipa [Ruiz, cantora e compositora], Ratto, Lenis [Rino, percussionista]… Esse é o nosso estado de espírito, que naturalmente se posiciona frontalmente contra esse estado atual estabelecido através do Golpe contra a Dilma.

A longa O alienista da Vila Romana, que fecha o disco, evoca a balbúrdia de Mutantes, com citações a Macunaíma, Dorival Caymmi e, talvez, Machado de Assis, entre outros, e reúne nada menos que 25 participações especiais, “via rede”. Como foi organizar e conceber isto?
Essa música nasceu de uma noite de bebedeira fumaceira na Casa Gramo, com o Beto Antunes Lanterna, que é muso inspirador e parceiro de alguns trechos da canção. No dia seguinte à bebedeira geral eu fui com a Malu a pé até a feira orgânica no Parque da Água Branca e eu ainda estava meio embriagado do dia seguinte quando os versos todos vieram. Primeiros as cabras e bodes e depois a ideia do Beto Antunes como o Beto Lanterna, uma espécie de Alienista da Vila Romana. Na hora eu saquei que tinha chegado uma música balbúrdia que ia encerrar o disco novo, e assim eu fui fazendo com os amigos da boemia total. A música foi se transformando numa peça teatral e aí fui inserindo áudios que recebi e que achei que podiam entrar e alguns áudios eu pedi especialmente para entrar na música. Enviei [uma mensagem pelo] whatsapp para alguns amigos dizendo “me envia um áudio de cinco, seis segundos falando de um tal de Alienista da Vila Romana”. Faltou o Tom Zé nessa música. Essa peça é uma mistura de devaneio, loucura, cinema marginal de inspiração Sganzérlica, o “MacunaCaymmicamente” veio como um sugestão da Liara [Gattolini, amiga], que foi assistir show junto com o Lucas [Paolillo, amigo] na Sensoria Discos, e o Lucas disse “Tatá, a Larissa está usando direto o termo MacunaCaymmicamente”, e ele entrou na música. Eu fui inserindo áudios até o último dia da mix. Foi como fazer um prato bem doideira mesmo, misturando tudo sem saber como vai ficar o sabor. Ou melhor, são aquelas coisas que a gente faz sem pensar no sabor e sim nas sensações. eu acho que vou escrever uma peça de teatro a partir desse música. Béeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeee Béeeeeeeee.

Você já se referiu à sua própria produção fonográfica, à feitura de seus discos, comparando o processo à produção de alimentos orgânicos no Brasil, em pequena escala, lutando contra o poderio dos grandes produtores. Por outro lado, disponibiliza gratuitamente cada trabalho quando do lançamento, apesar de ainda acreditar no formato físico do disco. Como você equaciona todas estas questões?
Zema, eu comecei a disponibilizar os álbuns inteiros em mp3 de forma gratuita em 2012, quando lancei meu primeiro trabalho solo. A partir daí, o que aconteceu foi que me conectei com uma galera que gosta de ter o registro em cd. Como eu vendo os discos através do site e eu mesmo que cuido disso, descobri que tem muita gente que ainda gosta de ter o cd, ou o Vinil, que colecionam. Hoje os serviços de streaming dão o norte total, a cada ano mais e mais gente escuta a música nas plataformas youtube, spotify, deezer e afins. Com isso o número de downloads no meu site caiu muito. Mas as vendas de cds, lps, da caixa de Pandora [com todos os discos] e tals, continuam iguais, o que me possibilita lançar os discos ainda nos formatos cd e vinil. Ainda existe um galera massa que cultua vícios antigos. Assim como nós!

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Ouça Alma de gato:

Vida (a)ventureira do outro lado do Atlântico

 

Os caminhos de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano já se cruzavam havia algum tempo. Artistas de trajetórias distintas, ano passado chegou o momento de registrarem esse encontro: gravaram e lançaram juntos o álbum Vida ventureira [2017], coleção de delicadezas que agrega elementos de rock rural, folk, psicodelia e punk, com a sonoridade ora remetendo a Zé Rodrix, ora a Kraftwerk, em 12 faixas cerzidas por bucolismo.

Tatá Aeroplano já comparou o (seu) ofício de fazer discos à produção orgânica de vegetais: em pequena escala, sem preocupação com a grandeza dos números, mas com a qualidade e alimentando uma fatia importante da população. Múltiplo, já esteve à frente das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e se divide entre ele mesmo e o personagem Frito Sampler, que já assina dois álbuns de sua vasta discografia.

Após sua estreia em 2010, com Journal de Bad, Vida ventureira é o segundo, digamos, casamento musical de Bárbara Eugenia. O primeiro foi o álbum Aurora [2014], dividido com Chankas, guitarrista da banda Hurtmold. Sua Coração, faixa que abre É o que temos [2013], integrou a trilha sonora da novela global Velho Chico. Foi em seu segundo disco, aliás, que a parceria com Tatá Aeroplano começou: deles, ela gravou Eu não tenho medo da chuva e não fico só.

Produzido por eles com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque (os cinco assinam os arranjos coletivos), Vida ventureira é um disco que simula um road movie, sobre um casal que cai na estrada. “A vida ventureira é a vida ao Deus dará/ é vida pé na estrada/ mania de jogar/ as coisas lá pro alto e se mandar”, avisa a letra da faixa-título. “Jogados nesta saga/ viemos descobrir/ novos horizontes/ pra se sorrir”, continua.

Os versos iniciais de As asas são escadas pra voar – “se eu te contar o que eu sinto/ você vai me dizer que também já sentiu desse jeito” – dialogam diretamente com os de Petróleo do futuro – “Ah, se eu soubesse lhe dizer/ o que eu sonhei ontem à noite, você ia querer/ me dizer tudo sobre o seu sonho também” –, do primeiro disco da Legião Urbana [1985].

Em Pro mundo virar shopping uma crítica feroz, mas bem humorada, à sociedade de consumo, máquina azeitada por preconceitos, antenada com o noticiário, citando o Nobel de Literatura Hermann Hesse e o lendário Flávio Basso, por sua alcunha mais conhecida, Júpiter Maçã.

Tatá e Bárbara vivem em São Paulo. Vida ventureira é uma espécie de escape: um disco que exala tranquilidade e doçura em contraponto à violência e ao corre-corre da metrópole. “O verde das matas nos dá/ calma, coragem, sentido pra continuar”, entrega O verde das matas.

Tanto ele quanto ela se preparam para lançar discos novos este ano. Enquanto isso, estão na Europa, onde iniciaram ontem (22), a Portugal e Galícia Tour, com shows em cidades como Coimbra e Lisboa, entre outras, serviço completo no e-flyer abaixo. Avisem os amigos d’além mar!

Arte: Julia Valiengo. Divulgação

Frito Sampler volta à carga

Alter-ego de Tatá Aeroplano, personagem acaba de lançar Cosmic Damião, seu segundo disco. Criador/criatura conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Cosmic Damião. Capa. Reprodução
Cosmic Damião. Capa. Reprodução

Num ano de tantas tragédias, o Cérebro Eletrônico anunciou o fim da banda. Cada um de seus integrantes, agora, toca sua carreira solo. Exceto Tatá Aeroplano. O vocalista toca suas carreiras solo: ele lançou este ano seu terceiro disco, Step psicodélico, e acaba de sair o segundo disco de seu alter-ego Frito Sampler: Cosmic Damião [à venda em seu site, onde também pode ser baixado gratuitamente].

À primeira leitura ou audição, pode soar óbvio, mas o trocadilho é genial. Chega a ser irritante que ninguém tenha pensado antes em Cosmic Damião para título de qualquer coisa. “Foi um lance muito louco, surgiu do nada. A gente compôs a música e no fim do dia eu disse: “isso é cosmic alguma coisa”, e a Julia [Valiengo, da Trupe Chá de Boldo, que encarna a personagem Grace Ohio nos discos de Frito Sampler] arrebatou: “Cosmic Damião”. O nome Cosmic Damião veio de uma maneira cósmica e natural mesmo, revela Tatá Aeroplano/Frito Sampler em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos.

Cosmic Damião traz algumas semelhanças em relação a Aladins Bakunins, o disco de estreia de Frito Sampler: a presença de Julia, inclusive na capa, que traz só o nome do personagem (e não o título do disco), o canto em uma língua inventada, a psicodelia. “O que rolou foi que quando fechou o show de lançamento [do disco Aladins Bakunins] em agosto de 2015, eu me reuni com o Moita Mattos [guitarra], o Marcos Till [contrabaixo], o Pedro Gongom [bateria], Otávio Carvalho [sintetizadores] e a Julia [voz] pra fazer o show. No primeiro encontro pro show de lançamento, em vez de ensaiar o novo disco, em uma tarde surgiram quatro novas canções arranjadas de maneira coletiva, entre elas Cosmic Damião, Smashing Funkin, Amsterdam Hippie Hunters e Haribo Honey Moon”, conta.

“Esse disco foi mais coletivo que o anterior, mais amplificado também: mais banda, tanto que o Frito batizou a banda como Hippie Hunters”, continua, emendando um comentário sobre o estado de espírito que é encarnar Frito Sampler: “eu sempre gostei de escutar todo tipo de música, coisas do Brasil e coisas de fora, mas não aprendi a falar nem entender a língua inglesa. Desde pequeno eu compus letras em português com melodias. Em 1995 eu compus minha primeira canção com uma melodia em palavras de origem inglesa, mas sem nexo nenhum, e desde então em meio as canções com letras em português, surgem algumas em “embromation”. Então com o Frito Sampler, eu consigo dar margem a essa viagem de fazer uma música que cause sensações sem necessariamente dizer algo, ter uma letra ou contar uma história. Quando Aladins Bakunins ficou pronto eu fiquei um tempo no sítio onde passei parte da minha infância e me deixei levar pela natureza totalmente. Durante as bandas que eu tive, uma coisa que me incomodava um pouco, era uma certa vontade da galera de fazer música cantada em inglês, pensando em comunicar com o mundo, ou pedir pra eu colocar uma letra em inglês numa canção “embromation” para ter sentido. Eu sempre achei nada a ver querer falar com o mundo numa língua que não é nossa. Eu sou simples: não sei falar inglês e não vou aprender mais [risos]. Mesmo porque sempre amei e escutei canções cantadas em outras línguas que não conheço e isso me traz sensações indescritíveis de conexão e compreensão cósmica. Inconsciente Ativado. A maior parceria do Frito Sampler é com o Paulo Beto [Anvil FX] e a banda Zeroum, onde criamos desde 2006 dezenas e dezenas de canções, passamos por fases diversas, eu sempre cantando coisas sem sentido”.

Numa cena em que todo mundo toca com todo mundo, o segundo disco solo de Frito Sampler é uma realização coletiva, envolvendo um punhado de talentosos artistas. Tatá Aeroplano/Frito Sampler comenta a feitura do disco: “eu chamei o Gongom e o Moita Mattos depois de um show em que vi os dois tocando com a Juliana Perdigão [cantora e jornalista]. O Moita e o Gongom super sintonizados e improvisando ao vivo. Eu pensei que essa sintonia  ia dar muita liga, já que a Julia e o Gongom são da Trupe Chá de Boldo também. Do Marcos Till sou fã faz tempo. Adoro o Tigre Dente de Sabre e a sonoridade que ele consegue trazer da música eletrônica, tocada com muito sentimento, e o Otávio Carvalho [Vitrola Sintética], produziu comigo o primeiro [disco do] Frito e tocou nesse também, fez sintetizadores e mandou baixo em duas canções. Levantamos as canções em poucos ensaios, tem o DNA de todo mundo nelas: solos do Moita, riffs do Till, ideias do Gongom, linhas de baixo do Ota, melodias e vocais da Grace, ops, Julia! Levamos essa naturalidade toda pro estúdio e gravamos tudo ao vivo”.

Ele segue comentando o processo de gravação: “a gente fez uma pausa no primeiro dia de ensaio, já tinha pintado Smashing Funkin e Cosmic Damião. Daí eu fiquei brincando no Microkorg [um tipo de teclado] e o Till chegou com o Gongom. Eu disse pro Till, “manda uma levada no baixo, tipo “Caçadores de hippies em Amsterdam”, surrealismo biritisco fumacê”, e aí nesse dia rolou a canção Amstedam Hippie Hunters, que tem mais de 10 minutos. Foi um prazer criar coletivamente. No fim desse dia alguém disse “Frito Sampler & The Hippie Hunters”, é algo que remete aos anos 1960, 70 e 90, é bem ligado a essas décadas esse momento”.

Pergunto-lhe o que ativa o Frito e como os que o cercam, fora dos discos e shows, ou ele mesmo, sabem em determinados momentos estarem falando com Tatá Aeroplano ou Frito Sampler – dúvida que era também do repórter. “O que ativa o Frito é a liberdade de pensamento e expressão, uma ligação com a ingenuidade, a infância e também com a política. De não fazer questão de cantar e querer se conectar com o mundo cantando uma língua que não seja a nossa. Me sinto conectado espiritualmente quando as músicas chegam via Frito. Não sei explicar direito, às vezes nos shows incorporo mesmo, é uma coisa louca. O Frito é um personagem que não interfere nos discos autorais cantados em português [de Tatá Aeroplano]. Nós vamos envelhecer juntos, e para cada disco que eu fizer [idem], o Frito vai fazer um dele. É o pacto que eu fiz comigo mesmo acerca disso [risos]”.

Diante do verbo “incorporar”, pergunto se há algo de religioso no Frito. “É uma religação com o ancestral, o que vem antes da religião, mas conectado com a natureza, o sagrado. Sentir, sentir a lua. Fishing Neil Young foi composta numa pescaria: peguei uma traíra imensa nesse dia, limpei e preparei para toda a família comer. Isso é religioso pra mim”.

Os títulos de algumas faixas de Cosmic Damião trazem referências explícitas a Neil Young e Smashing Pumpkins. Ele cita outras: “Fishing Neil Young é porque no dia eu estava pescando, na época escutando-o diariamente. Smashing Funkin nasceu em cima de um riff do Marcos Till, que remete aos anos 90, aí lembramos do Smashing… Haribo Honey Moon tem algo de Mutantes ritalístico [a fase com Rita Lee] no ar, Cosmic Damião já é um axé, Lauren To Heaven é a resposta de Lou Reed para o Oh! My Lou [música gravada pelo Cérebro Eletrônico] que o Frito emplacou no Vamos Pro Quarto [quarto disco da banda]. Em Lauren To Heaven, o Lou pede para Lauren ir visitá-lo cosmicamente. São as viagens loucas do Frito!”.

Como ele havia citado a política no ativar o Frito, indago-lhe sobre o atual momento político por que passa o país. “Vivemos um momento político que é de tirar o sono. Dá tristeza e raiva ver o que fizeram com a Dilma e como as coisas têm caminhado desde então. O mundo virou a chavinha total pra direita. Consumir e destruir, destruir e consumir, é o que a nova ordem prega: mais carros, mais dívidas, força motriz para alimentar o capitalismo desenfreado com que não compactuo. Há tempos que escolhi um modo de vida mais simples. Não tenho carro, ando muito a pé, uso os transportes públicos e raramente pego um táxi. É possível viver com muito pouco, sim. Nos últimos anos eu fiz essa escolha. É uma mágica  e tem a ver com o zen budismo tudo isso. Evito gastar grana com as empresas estabelecidas, compro quase tudo de que preciso de pequenos produtores rurais e artesãos. O que eu ganho com minhas discotecagens, shows e vendas de discos, essa graninha que entra, dou de volta aos pequenos produtores. Como músico sou um pequeno produtor e me organizei pra ser assim, um ser orgânico e simples. Então, consigo diariamente passar por esse momento em que vivemos e encontrar cada vez mais pessoas que compartilham desse mesmo ideal em que vivo”, finaliza.

Ouça Cosmic Damião (Frito Sampler/ Moita Mattos/ Marcos Till/ Pedro Gongom/ Julia Valiengo):

O transe criativo de Tatá Aeroplano

Step psicodélico. Capa. Reprodução

Tatá Aeroplano não para. Ou, para não perder o trocadilho com seu nome artístico, Tatá Aeroplano não pousa: no máximo faz escalas. Entre um disco e outro. Entre uma ideia e outra. Artista outrora à frente de bandas como Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico, hoje ele se divide entre a sua própria carreira solo e a de seu alter ego Frito Sampler – ele anuncia para breve o sucessor de Aladins Bakunins.

Ontem (27), Tatá Aeroplano disponibilizou em diversas redes seu terceiro álbum solo: Step psicodélico [Voador Discos, 2016]. É seu disco mais plural, ao menos do ponto de vista do leque de parceiros: Peri Pane (Todos os homens da terra), Dustan Gallas (na faixa-título), Flávio Lima (Outono à toa), Gustavo Galo (Luz no fim da tela), Luiz Gayoto (Aventureiros), Juli Manzi (Eu Inezito) e Julia Valiengo (Copo de pedra e a faixa-título), voz onipresente no disco, ela que assina ainda as fotografias do encarte e o projeto gráfico do trabalho.

Metade do disco estava pronta em um dia – um dia inspirado, em que ele compôs ainda outras quatro faixas, que acabaram ficando de fora, mas que serão lançadas um dia. Além dos citados parceiros, Tatá Aeroplano cercou-se de nomes requisitados da nova cena: Junior Boca (guitarra), Bruno Buarque (bateria e percussão) e Dustan Gallas (baixo e teclado) fazem a base, num disco que tem ainda participações especiais do poeta arrudA, Bárbara Eugênia e Ciça Góes.

Sobre o lançamento, Homem de vícios antigos conversou com Tatá Aeroplano.

O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo
O múltiplo Tatá Aeroplano em clique de Julia Valiengo

Seus trabalhos são marcados por canções que são, de algum modo, retratos do cotidiano. A música me parece uma coisa orgânica em você. A impressão que se tem é que Tatá Aeroplano está o tempo todo pensando em e fazendo música. É correto pensar assim?
Isso veio comigo desde pequeno. Compus a primeira canção, letra e melodia, com seis anos de idade. Nos últimos tempos, acho que com a idade, abrindo a mente e o corpo para coisas novas, eu tenho vivido epifanias musicais, entro numa espécie de transe criativo incorporativo, as letras e melodias chegam e eu escrevo. Metade desse novo álbum surgiu assim. Lembro que o Peri Pane me mostrou a letra de Todos os homens da terra numa madrugada em que estávamos participando do disco Frou Frou da Bárbara [Eugênia]. Ele me mostrou a letra e a melodia me veio na hora, eu tinha recém chegado da minha turnê em Portugal e estava com a música dos artistas Sergio Godinho e Fausto na cabeça. O Peri gravou eu cantando e no dia seguinte logo cedinho me enviou a música com ele tocando e cantando. Entrei nesse estado de transe criativo, o Gustavo Galo tinha me enviado uma letra por e-mail, abri o computador e fui nela e assim nasceu Luz no fim da tela. Nesse mesmo dia peguei o violão e compus, na sequência, Dois lamentos, Step psicodélico e Passando o chapéu na noite purpurina. Em menos de 24 horas metade do disco nasceu. Eu tenho que agradecer a generosidade do cosmos comigo, viu?

Quais as principais influências de Tatá Aeroplano no geral e, particularmente neste Step psicodélico?
Eu sou apaixonado por música de todos os tipos. Eu gosto de escutar e conhecer coisas novas. Então, no ano passado, quando fui pra Portugal, trouxe comigo os primeiros álbuns do compositor e cantor Sergio Godinho, intitulados Pré-histórias e Sobreviventes, e também dois discos clássicos do músico e compositor Fausto, Por esse rio acima e O despertar dos alquimistas. Me apaixonei por eles, é a mesma sensação que eu sempre tive desde criança e adolescente descobrindo músicas novas. Eu coloco esses discos pra rolar e meu corpo e minha mente são tomados por uma sensação indescritível de prazer. Então eles foram grandes influências no meu estado de espírito no ano passado, assim como The Kinks, nos últimos três anos. Eu vou escutando tudo que vem de novo e me faz um bem danado, pirei com o disco da Alice Caymmi, com o disco da Ava [Rocha], acompanhei as gravações do amigo Juliano Gauche e seu belíssimo disco Nas estâncias de Dzyan, Hélio Flanders [vocalista do Vanguart] com seu disco solo, Trupe Chá de Boldo veio com o álbum Presente, com canções alto astral, dançantes. Isso tudo vai virando dentro da minha cachola e acabou reverberando no Step psicodélico. Gravando esse disco, pensando nas referências gerais, de todos os tempos, eu acho que eu sou um ser humano em constante estado de psicodelia, eu realmente estou imerso dentro dessa sonoridade, me faz tão bem escutar discos assim. A canção Por esse rio acima, do Fausto, tem uma psicodelia fabulosa ali que não é a psicodelia sessentista, mas como os instrumentos estão lá, as vozes, o violão. Sei lá, eu amo isso mesmo.

Step psicodélico é coalhado de referências: Gal Costa, Lanny Gordin, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Roberto Villar, Arnaldo Baptista. Como foi o processo de feitura do disco, desde a composição até a escolha do repertório?
Pois é, como eu disse, cinco canções nasceram em menos de 24 horas. Aliás, nesse dia eu ainda compus mais quatro que ficaram de fora, mas que, com certeza, lançarei num futuro breve. As referências de Outono à toa, minha parceria com o incrível amigo, compositor e pássaro da Boemia, Flavio Lima, ser afestanista e retrofuturista. Em 2007 ele colou em casa e me mostrou uma canção instrumental, eu cantei uma letra e melodia inteira nessa base instrumental… e ele foi embora. Alguns meses depois ele me liga e diz que a nossa música tinha ficado muito legal. Quando ele me enviou a gravação, estava tudo ali… a letra de Outono à toa foi composta automaticamente e conta uma história do menino que grava os discos da Gal Costa pra menina que ele gosta e eles vão ver um show do Lanny Gordin e depois vão ver um filme do François Truffaut… O último metrô e Atirem no pianista são filmes dele. Então, essa letra é um apanhado de coisas que eu tinha vivido de fato. E nesse exato momento escuto Velvet Underground, e Sunday morning e o primeiro álbum deles como um todo, me tocam profundamente até hoje. Em Luz no fim da tela, minha parceria com outro canário psicodélico, o mister Gustavo Galo, aí aparece o Ozualdo Candeias, a quem eu dediquei o Na loucura & na lucidez [2014, seu segundo disco solo] e o mestre Sganzerla, referência total eterna. Essa música que eu fiz com o Galo, a gente terminou mesmo, a letra e tudo, em dezembro do ano passado, nos encontramos em casa, tomando birita e proseando… e a letra fala que no fim nós somos curvas, não tem jeito, somos inquietos e quem anda torto não tem conserto… Aí eu chego finalmente em Roberto Villar, que aparece em Eu Inezito, parceria com meu amigo príncipe, o mister Juli Manzi. Eu amo os dois discos que o Roberto Villar gravou e tem dias que eu coloco esses discos e fico cantando e dançando sozinho aqui no apartamento e daí me lembro do meu pai, quando ele tomava umas a mais ele me ligava e ficava me mostrando pelo telefone as músicas que ele estava escutando em estado de epifania. Isso é muito bom!

Este terceiro disco de carreira traz um leque mais amplo de parceiros, um disco solo menos, digamos, solitário. Como se deu essa mudança?
É um disco de parcerias e de amizade, de confidentes da música. Conviver e gravar com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque me levou ao novo momento na minha vida e pude finalmente voar do jeito que eu sempre quis, porque eles são amigos que viajam juntos, a gente cria juntos os arranjos, é tudo coletivo e tudo parceria. E nesse disco a Julia Valiengo esteve presente total, cantamos juntos boa parte das canções e meus amigos de copo e de estrada estiveram juntos com a gente nessa festa: Peri Pane, Flávio Lima, Gustavo Galo, Juli Manzi, Bárbara Eugênia, Lenis Rino, arrudA e Ciça Goes.

Tatá Aeroplano solo, Frito Sampler, Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico, um requisitado dj na noite e um instrumentista bastante frequente em discos de amigos. Como é encarar e se dividir entre todas estas personas?
Confesso que isso tudo me deixa às vezes totalmente fora da casinha. Fico meio louco, mas com o passar do tempo fui acostumando a lidar com todas essas personas. Me inspiro no Fernando Pessoa e seus heterônimos. O ciclo do Jumbo Elektro foi muito intenso e bacana e acabou no Frito Sampler, assim como o ciclo com o Cérebro Eletrônico acabou também, não vamos mais lançar discos nem fazer shows. Com a chegada do Frito e meus trabalhos autorais, ficou humanamente inviável levar tantas bandas ao mesmo tempo, porque, apesar de ser maluco das ideias, eu vivo profissionalmente da música que eu faço, então foquei total no Frito Sampler, que é uma viagem incrível e me dá um prazer maravilhoso, e também nos meus discos autorais… Ah, o [segundo] disco do Frito está quase pronto e lanço ele em alguns meses… É muita coisa, e eu amo mesmo essa diversidade.

A banda que te acompanha neste Step psicodélico também é bastante concorrida, todo mundo toca com vários outros artistas, entre discos e shows. Como foi conciliar as agendas e o processo de gravação?
A gente sempre combina um período do ano onde nossas agendas estão mais tranquilas, que é no fim do ano… ou como foi o Step psicodélico, gravado em janeiro e início de fevereiro. A gente pega uma semana e vive o disco dia e noite. Isso é uma coisa muito boa, cada vez mais os discos demoram menos pra ficar prontos!

A faixa-título ecos de marcha e clima carnavalescos, com direito a “batom vermelho na boca dos meninos”, uma celebração à psicodelia, como entrega o título. A realidade brasileira, com seu momento político, ao contrário, parece não haver o que comemorar. Como você tem acompanhado os diversos retrocessos perpetrados neste campo?
Acompanho esse retrocesso com muito pesar e receio, mas tenho muita esperança na arte libertária. A música que eu crio, sinto que uma parte dela é libertária e exalta o estado de espírito conectado a isso. Agora vivemos um momento crucial em entender melhor isso tudo. Eu estive algumas vezes na Ocupação da Funarte em São Paulo, fiz uma apresentação com o Galo, o Gauche e o Peri, e tem muita gente mobilizada para combater esse tipo de político e política arcaica, opressora. As ocupações são incríveis nesse sentido. Sim, eu passo batom vermelho às vezes e às vezes saio na rua de peruca rosa pela cidade. É minha maneira de fazer política, não tenho o dom de escrever sobre política. Em Step psicodélico eu falo das casas noturnas de São Paulo, algumas foram lacradas como o Puxadinho, a própria “Nossa Casa” sofreu com isso, por conta de uma especulação imobiliária sem escrúpulo nenhum. Os caras não querem saber, eles querem fazer mais dinheiro, custe o que custar. E por isso eu canto: batom vermelho na boca dos meninos… Serralheria, Francisca, ciclovias… Eu quero mais! Ciclovias é o futuro total! Eu sou um andarilho do meu tempo, não tenho carro e nunca terei um, me conectei com a natureza, com existências que estão por aqui antes da gente, tudo isso me faz refletir e apontar para coisas novas. Estou terminando de ler A queda do céu do Davi Kopenawa [e Bruce Albert, Companhia das Letras, 2015; leia um trecho], eu recomendo que todos leiam esse livro o mais rápido possível: é um evangelho atual sobre como a gente não tem noção nenhuma do que anda fazendo por aqui. Eu sei que o momento é terrível, o que eu sei fazer desde pequeno é música, nunca pensei em fazer música para um mercado, e acho que a música nesse sentido, quando é feita dessa maneira livre, ela é um lance que entra dentro da gente e nos dá muita força pra lutar contra esses caras que chegaram no poder da maneira que chegaram.

Julia Valengo aparece em nove das 10 faixas, dividindo os vocais com você, repetindo experiências de Bruno Batista, em , com Dandara, e Marcelo Jeneci, em De graça, com Laura Lavieri, para citar nomes de sua geração. É uma tendência?
Pois é, eu a Julia nos amarramos na Banda do Mar, o disco do [Marcelo] Camelo com a Malu [Magalhães], escutamos bastante. Eu sempre pirei com o disco do John [Lennon] com a Yoko [Ono], o Double fantasy e eu a Julia já tínhamos feito um disco nesses moldes, o Aladins Bakunins do Frito Sampler. A gente já dividia uns vocais bem loucos e cantamos junto praticamente no disco inteiro. Foi natural, a gente tem um show que são dois erês, voz e violão. Lá cantamos Aventureiros, Cadente e tal… então levamos isso pro disco, buscamos umas vozes bem diferentes e nossas vozes combinam, timbram, às vezes não dá pra saber que é quem, vozes psicodélicas, que eu gosto tanto! A Julia foi uma presença incrível em Step, gravou comigo pacas, criou e assinou todo o projeto gráfico do disco. Fez as fotos, pensou locação e tudo mais.

O lançamento virtual de Step psicodélico aconteceu sexta-feira (27), em diversas plataformas virtuais, e o disco físico estará disponível a partir de semana que vem. Já há shows de lançamento agendados? E qual a perspectiva de apresentações no Nordeste, particularmente em São Luís do Maranhão?
Tenho muita vontade de tocar por aí, vamos tentar articular algo para São Luís em breve! O show de lançamento em breve vai pintar, estamos fechando os primeiros shows! O disco já está disponível para download no meu site e também está à venda no meu site.

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Ouça Step psicodélico no youtube:

Morte, dança e pequenos detalhes

Nas estâncias de Dzyan.Capa. Reprodução
Nas estâncias de Dzyan. Capa. Reprodução

 

125 anos após sua morte, a escritora russa Helena Petrovna Blavatsky [1831-1891] deu, por acaso, título ao segundo disco solo de Juliano Gauche, um dos mais interessantes cantores e compositores surgidos neste século. Ele acaba de lançar Nas estâncias de Dzyan [EAEO, 2015], sucessor do ótimo homônimo Juliano Gauche [2013]. A frase foi encontrada pelo artista em A doutrina secreta, de 1888.

Além dos discos solo, a discografia de Juliano inclui ainda Quanto mais pressa mais de vagar [2003], Feliz feliz [2008] e Veneza [2012], com a banda Solana, e Hoje não! [2009], dedicado ao repertório de Sérgio Sampaio, com o Duo Zebedeu, formado por Fábio do Carmo (violão sete cordas) e Júlio Santos (violão). As nove faixas de Nas estâncias de Dzyan foram sendo compostas, sem haver necessariamente uma preocupação do artista em moldar um novo álbum.

Entre o primeiro solo e este há muitos pontos em comum – o fato de ambos terem nove faixas é apenas um deles. Das de Juliano Gauche, apenas Sérgio Sampaio volta, de Tatá Aeroplano, não era assinada por ele; em Nas estâncias de Dzyan, a exeção é 1,99, de João Moraes. Este é um disco sobre a morte, revela o compositor, apesar de pontos solares (para além do berrante amarelo do projeto gráfico assinado por Mariana Coggiola), ecos de Jovem Guarda e Animals.

Nas estâncias de Dzyan foi gravado em duas semanas nos estúdios EAEO e a ficha técnica também guarda semelhanças com o anterior. Juliano Gauche, que apenas cantava no disco anterior, neste assume também os violões, divididos com Junior Boca, que empunha ainda guitarras e assina os arranjos com Tatá Aeroplano. A banda se completa com João Leão (teclados), Daniel Lima (contrabaixo) e Gustavo Souza (bateria). O disco pode ser ouvido e baixado no site do artista.

Juliano Gauche conversou com o Homem de vícios antigos sobre sua trajetória, influências, a mudança do Espírito Santo para São Paulo, a “síndrome” do segundo disco, apostou suas fichas no talento do parceiro João Moraes e ainda encontrou tempo para um faixa a faixa, quase uma segunda entrevista. Sobre a possibilidade de se apresentar em São Luís revela estar esperando um convite. O show de lançamento de Nas estâncias de Dzyan acontecerá no próximo dia 31 de março, no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Divulgação
Foto: Nino Andres

 

ENTREVISTA: JULIANO GAUCHE

Como você chegou a Dyzan e suas estâncias? Não temeu ser tachado de hermético ao batizar este segundo disco?
Estava lendo um livro da Blavatsky e passei por essa expressão, que guardei e depois usei como título da música que abre o disco. Quando mandei o arquivo pro Tatá Aeroplano, o arquivo chegou com este título, pois era o nome da primeira música. Quando encontrei o Tatá depois disso ele foi logo dizendo: “adorei o nome do disco”. E eu disse meio rindo: “mas eu ainda não escolhi o nome do disco”. E ele: “mas não é Nas estâncias de Dzyan?”. E eu: “bem, até tinha pensado nisso, mas achei esquisito demais até pra mim”. E ele: “não, é ótimo. São duas palavras incomuns, soa bem”. Assim, assumi. Acho sim um título estranho, hermético e tal. Mas minha vida é cheia dessas coisas. Tenho mais é que assumir mesmo.

Apesar de discos com a banda Solana e com o duo Zebedeu, como foi lidar com a síndrome do segundo disco?
Minha relação com o ato de compor é de muita sorte. A inspiração é sempre muito generosa comigo. Eu realmente gosto de fazer isso. E faço sem, necessariamente, pensar em disco. Acho saudável e divertido compor. Quando chega a hora de fazer um disco eu simplesmente já estou apaixonado pelas músicas. O processo de gravar é muito natural. E o primeiro disco teve uma recepção tão carinhosa que entrei neste novo com total segurança.

Você guarda semelhanças, inclusive físicas, com seu conterrâneo Sérgio Sampaio, homenageado em teu primeiro disco com a regravação de Sérgio Sampaio Volta, de Tatá Aeroplano, e a cuja obra você dedicou Hoje não!, com o Duo Zebedeu. É sua maior referência?
Adoraria ser tão próximo do Sampaio como geralmente sugerem. Mas sou vira-lata demais pra isso. O Sérgio tem uma classe, um polimento, um esmero, que eu passo longe. As referências que eu mais carreguei na vida foram o John Lennon, o Roger Waters, Raul Seixas, Renato Russo… Compositores de dois, três acordes, melodias simples, letras espirituosas e poéticas. Adoro João Gilberto, Tom Jobim, Chet Baker, Billie Holiday… mas sei que tô muito longe disso.

O que mudou com sua saída do Espírito Santo natal para São Paulo?
Caí na real. Fui obrigado a prezar mais pela lucidez, pelo equilíbrio. No Espírito Santo eu podia bancar o doido sem maiores problemas: sempre tinha quem segurava minha onda. E ainda me escondia numa banda. Em São Paulo é jogo duro. Não tenho rede de apoio pro trapézio. Ao mesmo tempo que isso quase acabou comigo, também me fez crescer muito profissional e pessoalmente.

A ficha técnica de Nas estâncias de Dzyan guarda semelhanças com a de Juliano Gauche, seu disco anterior: em ambas figuram nomes como Tatá Aeroplano e Junior Boca, entre outros. Quais as principais semelhanças e diferenças entre os dois discos que você apontaria?
No primeiro disco eu simplesmente cantei. Como eu tinha acabado de gravar o último disco com o Solana, eu pedi ao Tatá que me ajudasse na produção do disco solo, por que eu estava muito cansado e confuso. E ele fez tudo com a ajuda do Junior Boca: montou a banda, cuidou dos arranjos, mixagem, tudo. Neste disco novo eu meio que reassumi o controle das coisas. Até mesmo por sugestão do Tatá e do Boca. Tive mais tempo e calma pra pensar em tudo. E desta vez eu produzi o disco, participei dos arranjos, acompanhei toda a mixagem ao lado do João Noronha, enfim, este foi o disco em que mais trabalhei diretamente.

Disco é cartão de visita, artistas têm que inventar outras formas de se sustentar já que a vendagem de discos já não garante. Você disponibiliza seus discos para audição online e download, além de lançá-los, fisicamente. Como se equilibrar nesta corda bamba?
É com os shows que a gente recupera esse prejuízo. “Antigamente” [aspas dele] pagava-se jabá para que o disco circulasse; hoje em dia a gente dá o disco de graça: é quase a mesma coisa. Tudo para que as pessoas se interessem pelo show, que é onde está a grandeza deste trabalho.

Não creio que distribuir o disco possa ser comparado com jabá, já que neste caso, o volume de dinheiro é violento e responsável por fazer novos astros e estrelas, bastante descartáveis. Como você lida, enquanto artista, com a infeliz certeza de que, apesar de ser mais talentoso que um monte de gente que toca bem mais em rádio ou aparece na tevê, sua obra infelizmente ficará restrita a um círculo mais específico?
Sim, claro. O que eu tentei colocar é que não ganho dinheiro com o disco, mas também não pago pra ele tocar. Ele anda, lentamente, claro, mas sozinho. Isso graças a essas novas formas de distribuição. Não acredito nessa coisa de música boa e música ruim. Se alguém gosta de uma música, pra ele, ela é boa. A música tem diferentes finalidades. E as pessoas podem escolher o que faz bem pra elas, o que elas querem sentir ao ouvir uma música naquele momento. Agora mesmo estava aqui lendo a revista da UBC [União Brasileira de Compositores] e uma compositora estava reclamando de como a música no Brasil tá ruim, que só ela e a turma dela fazem música de qualidade. Que hoje em dia as músicas só têm dois acordes, o que é o meu caso. Além disso ser mentira é de uma pobreza tão grande, isso é tão fascista. A diversidade é a grande riqueza do Brasil. Isso tem que ser glorificado. Agora, se alguém tem mais grana pra investir no seu trabalho, essa pessoa terá mais resultados, mais alcance, isso é lógico, natural, matemático, e não deveria ser fonte de inveja, não. Eu me sinto confortável com o meu tamanho, com o meu lugar. É exatamente proporcional ao quanto consigo investir. E ainda acredito que o tempo me será muito generoso.

Por falar em shows, como está a agenda? Alguma perspectiva de São Luís do Maranhão?
As propostas de shows estão chegando bem. É claro que agora estamos totalmente focados no lançamento do disco, que será 31 de março, no Sesc Pompeia. Mas já estamos começando a colorir a agenda. Ainda não pintou um convite para ir à São Luís do Maranhão, não. Mas bem que poderia.

A sonoridade de Muito esquisito lembra muito a Jovem Guarda. É outra referência importante?
Pois é. Na verdade este é um dos arranjos mais despojados do disco. Eu não queria que ela ficasse séria e disse: “ah, vamos fazer uma coisa bem básica, bem popular. Vamos tentar a mesma levada de Meu amigo Pedro, do Raul. Ih, não deu certo. Vamos tentar a levada de Quando, do Roberto. É… assim tá legal. É isso. Beleza!”.

1,99 é de um lirismo comovente.
1,99 é uma música do João Moraes, um dos meus melhores amigos e parceiros. Ele também é de Cachoeiro [do Itapemirim]. É da família do Sérgio Sampaio. Ele que idealizou e produziu o Hoje não! E essa é uma dentre as dezenas de músicas lindas que ele tem. O disco dele é um dos discos que eu mais tenho esperado.

Você é casado com sua produtora. O quanto isso ajuda ou atrapalha, já que, em tese, não se separa a vida pessoal da vida artística?
Na verdade eu me casei com uma publicitária. A Sil [Ramalhete] trabalhava numa agência de publicidade quando nos conhecemos. O primeiro trabalho de produção dela foi com os shows do disco Hoje não! E ela só cresceu nessa área depois disso. E é maravilhoso isso. Hoje a gente fala a mesma língua, vivemos as mesmas coisas. Eu a ajudo no que posso com a produtora dela, a Ramelhete Produções, e ela cuida do meu trabalho com um amor que ninguém teria. Claro.

NAS ESTÂNCIAS DE DZYAN – FAIXA A FAIXA

Ouça Nas estâncias de Dzyan:

A faixa título, a meu ver, dialoga com a abertura do disco anterior: se nesta você diz “se eu cair… me trate do jeito que você quiser”, o título daquela era justamente, e de repente, Cuspa, maltrate, ofenda.
Tem ligação sim. Estética e conceitualmente. Mas em Cuspa… eu falava pra Sil sobre nossa relação. Quase que instigando ela a ser ofensiva com quem não via com bons olhos nossa relação. Tipo: manda esse povo todo à merda. Por que “em meu mundo você”… Já em Nas estâncias… é mais um pedido de desculpas que eu faço pro mundo e pra quem tá do meu lado. Tipo: eu sei que eu faço merda. “mas como eu ia saber…”

Ouvi ecos de Animals na guitarra de Animal.
Pois é. Tem esse eco sim, ideia do Boca.

Alegre-se é a canção mais “solar” do disco, concorda?
Sim. Alegre-se é a mais solar. É justamente uma proposta para sair e tomar um sol, um ar…

Teus discos têm muito de autobiográficos. O clarão é outro exemplo, de otimismo, inclusive.
A ideia é essa. No fundo, eu acho que eu me comporto como um escritor. Sempre me projetando nas palavras. E tenho mesmo andado bem otimista.

Ela [O clarão] é irmã de Um canto que leve seus olhos pro espaço.
Acho que sim. É um discurso bem parecido mesmo.

E de algum modo também de Pode se deixar levar, onde o casal protagonista se separa apenas “de mentirinha”.
Pode se deixar levar é mais rotineira. Sobre pequenos desentendimentos. Mas ainda assim tem essas sentenças espiritualistas, tipo: “e não tem nada, meu bem, que vá fazer tanto mal/ Pode se deixar levar”, como quem diz: relaxa!

E Canção do mundo maior encerra o disco, quase rotulando-o, mas sem nunca limitá-lo: Nas estâncias de Dzyan é, no fundo, um disco de amor?
No fundo é um disco sobre a morte. Canção do mundo maior é só sobre a morte. E é claro, o reflexo da morte na vida. Nas pequenas coisas.

Um final surpreendente…
[Risos] Está tudo nos detalhes.

Os vários planos de Tatá Aeroplano

Cantor e compositor conversou com o blogue sobre seu novo disco, Aladins Bakunins, protagonizado por seu personagem Frito Sampler

Aladins Bakunins. Capa. Reprodução
Aladins Bakunins. Capa. Reprodução

 

Tatá Aeroplano é um inquieto. Seu ritmo de produção, difícil de medir; rotulá-lo, simplesmente impossível. Ele inventou e integra/ou bandas como Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e agora ataca de Frito Sampler. Além disso, é dj e produtor (vide o ótimo homônimo de estreia do capixaba Juliano Gauche) e, entre outros, participou de Vira lata na via láctea, mais recente disco de Tom Zé.

Frito Sampler, alter ego de Tatá Aeroplano, era o vocalista da Jumbo Elektro, e acaba de lançar Aladins Bakunins, seu disco de “estreia”, já à venda em seu site, onde também pode ser baixado de forma gratuita. O show de lançamento do álbum está marcado para 26 de agosto, no Sesc Pinheiros/SP. O disco tem produção de Tatá Aeroplano, Otávio Carvalho e coprodução de Júnior Boca (parceiro de Tatá na produção do citado Juliano Gauche) em algumas faixas.

Em Aladins Bakunins Frito Sampler dá vazão à experiência iniciada pelo artista na saudosa Jumbo Elektro: canta numa língua inexistente baseada no anglo-saxão. Assim, é possível ler coisas como Cats and gatz ou Ladies, soldies and fantasys, além de Love, melodies and more nothing, entre outras, entre os títulos das 10 faixas do álbum.

Frito Sampler surgiu em um sonho. Aladins Bakunins, o título do álbum, em uma pesquisa na internet: buscando outra coisa, as palavras apareceram juntas e ele não teve dúvidas em usá-las para batizar o novo trabalho.

Nele estão traços característicos da obra de Tatá Aeroplano, com altas doses de psicodelia evocadas desde a capa, num disco de conteúdo freak, às vezes folk, alucinante, mais alegre aqui, ou melancólico acolá, como se pudéssemos prever o que, de repente, a formação original dos Mutantes estaria fazendo em pleno século XXI.

Tatá Aeroplano – ou Frito Sampler – conversou com o blogue. Esbanjando simpatia, ao fim do e-mail em que respondeu a entrevista, mandou um “viva a música e obrigado pelas perguntas”. Aos produtores da Ilha, um toque: é grande sua vontade de tocar aqui.

O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor... Foto: Divulgação
O plural Tatá Aeroplano: cantor, compositor, instrumentista, DJ, produtor… Foto: Divulgação

 

ENTREVISTA: TATÁ AEROPLANO

Já foi dito que a música é a única linguagem universal. O que o levou a cantar numa língua inexistente?
Quando aprendi tocar violão na adolescência, a segunda canção que compus junto com o violão foi uma que não tinha uma letra em português, e sim umas palavras “desconexadas”, puxadas pro anglo-saxão… Foi um lance natural, que sempre teve momentos na minha onda criando. O que aconteceu com o Frito foi isso. Tive um surto cantando essa linguagem louca em 2013 [durante a gravação da trilha sonora do longa-metragem De menor, de Caru Alves de Souza]… Fiz um monte de músicas assim e me deixei levar por isso, como tinha feito com o Jumbo Elektro, minha banda de 10 anos atrás.

Homem à frente de Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, carreira solo de Tatá Aeroplano, e agora Frito Sampler. Qual a sensação de ser vários?
Depois que eu vi o filme Holy Motors do Leo Caraix, entendi que sempre fui vários… Dei corda pra isso… Adoro me jogar na noite… Adoro acordar cedo… Gosto de correr… De andar pela city… De tomar umas… De tomar várias… As composições sempre vieram de todos os lados e influenciadas por tudo o que eu vivo… Entendi que sempre fui vários… Tem o que acorda cedo.. O que não dorme… O que toma litros de café… O que bebe todas… Eu convivo com todos eles… E se dou mais corda pra um… O outro reclama… Minha cabeça é uma loucura das boas.

 

Frito Sampler é mais que a reunião de sobras que não couberam em discos de tuas bandas ou tua carreira solo. É possível explicá-lo?
São as músicas que baixaram sem muita explicação lógica, como as cantadas em português, que também chegam do nada, a maioria é assim… O lance de sobras, são aquelas bandas que fazem 50 músicas pra tirar 10 pro disco… O meu problema, na real, é que componho centenas de coisas a cada ano… Daria pra fazer uns discos bem loucos… Então tô vendo até que ponto posso dar asa às loucuras… Porque pretendo no futuro… Fazer um disco de inéditas a cada seis meses… Falando em baixar… Tenho uma banda com o Paulo Beto… Chamada Zeroum, lá eu sempre cantei nesse idioma também… [o artista enviou os links com os vídeos usados nesta entrevista]

 

Aladins Bakunins é divertido e tem a marca de Tatá Aeroplano. Fora a língua inventada, o que difere basicamente Frito Sampler de Tatá Aeroplano?
O Frito é esse cara que aparece no clipe Frank Black Meeting Calling Days [faixa que abre Aladins Bakunins]: ele tem uma namorada andrógina de peruca rosa também e tem amigos como o pássaro psicodélico da floresta… A Ohana… A Sofi Anaho… Ele frequenta a noite e se joga geral… Esse é o Frito, canta numa língua que não existe… É o cara que veio do campo pra cidade. Já meu trabalho de compositor traz as canções em português, tem a psicodelia e a ironia que carrego comigo e em tudo que eu faço coloco um pouco dessas referências todas.

Com tantas identidades é difícil conciliar tantas agendas? Tem ainda a de produtor, dj…
O mais difícil mesmo é conciliar todos esses personagens malucos aqui dentro da cachola… Quanto a agenda… A prioridade total pro trabalho autoral, os álbuns do Tatá [Tatá Aeroplano, de 2012, e Na loucura e na lucidez, de 2014]… E nos respiros… Pirações… Como eu disse… Minha meta é um disco a casa seis meses.

Conheces São Luís? Gostaria de tocar aqui? O que falta?
Nossa, tenho muita vontade de ir pra São Luís. Eu preciso saber quem pode me ajudar a ir praí fazer shows! Quero muito ir!

A geração Y (d)e Tom Zé

Vira lata na via láctea. Capa. Reprodução

 

 

Desde o disco manifesto do movimento tropicalista, em 1968, Tom Zé mostrou-se um dos mais férteis compositores daquela geração. Relegado ao ostracismo na década de 1980, foi redescoberto graças à garimpagem de David Byrne, que o devolveu a prateleiras de lojas de discos e a palcos, no Brasil e no exterior. Os episódios são bastante conhecidos.

Também o descobriram e redescobriram-no novas gerações de músicos brasileiros, seja através de regravações ou da influência confessa. De Com defeito de fabricação (1998) para cá, o iraraense tem mantido um intenso diálogo criativo com artistas mais jovens – Tom Zé conta 78 anos, com fôlego de adolescente.

Vira lata na via láctea [2014], seu disco mais recente, é recheado de exemplos, entre parcerias e participações especiais. A zombeteira Geração Y (GY), faixa de abertura, tira onda com o amor, as manifestações de rua e a tecnologia: “oh, oh, yes!/ wireless/ um ET/ dentro do HD/ mas, além disso/ o ambiente é compromisso/ porque já somos o pós-humano/ a nova turma antropomórfica do bando”, diz a letra da parceria com Henrique Marcusso.

Entre os destaques, Pour Elis, homenagem à Elis Regina, em que Tom Zé musica um texto de Fernando Faro – um dos homens de tevê mais importantes para a música brasileira –, cantada em dueto com Milton Nascimento. A pequena suburbana, que fecha o disco, é um marco: trata-se da primeira parceria do baiano com o conterrâneo Caetano Veloso, cantada em dueto com o próprio.

Parceria com Criolo, Banca de jornal, um “samba-editorialista”, como o classifica o próprio Tom Zé, em que divide os vocais com o rapper, é, de longe, a mais radiofônica, com a letra inspirada citando diversos jornais e revistas brasileiros: “Veja! Isto É – poca/ lenha/ no grande bate-boca/ e ainda escrevo/ uma Carta Capital/ para os Caros Amigos/ desta banca de jornal”.

Entre parcerias, composições e participações especiais, ainda comparecem ao disco Tiago Araripe (autor de A quantas anda você?), Elifas Andreato (parceiro em Salva humanidade), Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada, parceiro em Guga na lavagem; violão), Tim Bernardes (O Terno, parceiro em Papa perdoa Tom Zé; voz, guitarra, órgão, percussão), Kiko Dinucci (guitarra, violão, percussão), Rodrigo Campos (cavaco), Silva (programação), Tatá Aeroplano (Cérebro Eletrônico; apitos, brinquedos, coro) e Trupe Chá de Boldo (vocais e arranjos).

A depender dessas trocas, fusões e ousadias, no auge das juventudes – a própria e as alheias –, o garoto Tom Zé ainda vai (cada vez mais) longe.

Confiram Tom Zé e Criolo em Banca de jornal:

Pra ouvir a dois (de preferência)

Muito se tem falado atualmente em Bárbara Eugenia, sobretudo por ela ter resgatado a cantora Diana de um suposto limbo, através da regravação de Porque brigamos, sucesso na voz da ex-mulher de Odair José, a versão brasileira de I am… I said, de Neil Diamond, feita por Rossini Pinto.

É o que temos. Capa. Reprodução
É o que temos. Capa. Reprodução

Mas É o que temos (2013) – título de seu segundo disco, sucessor do inspirado Journal de Bad (2010) – tem muito mais. Tem um pé no brega, rótulo rejeitado por Diana, mas dá frescor à influência da jovem guarda, atualizando guitarras (pilotadas por Edgard Scandurra) e órgãos setentistas (por Astronauta Pinguim).

Se no primeiro disco destacava-se o frevo Sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar, com participação de Otto, em É o que temos ela acerca-se de nomes como Pélico (Roupa Suja, parceria de ambos), Mustache e os Apaches (I wonder, dela) e Tatá Aeroplano (Eu não tenho medo da chuva e não fico só, parceria de ambos).

A coletividade sempre foi seu um de seus pontos fortes: Bárbara Eugenia começou a carreira na trilha sonora de O cheiro do ralo (filme de de Heitor Dahlia, baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli), a convite do produtor Apollo 9; depois dividiu o espetáculo Les provocateurs, homenagem ao mago Serge Gainsbourg, com Edgard Scandurra, cheio de participações especiais, entre as quais Arnaldo Antunes. A marca se mantém em seus discos.

Neste É o que temos a carioca radicada em São Paulo desnuda ainda mais sua porção compositora: sozinha ou em parceria assina todo o disco, as exceções justamente Porque brigamos e Sozinha (Me siento solo, de Adanowsky, traduzida livremente por ela). Canta em português, inglês (I wonder, You wish, you get it e Out to the sun) e francês (Jusqu’a la mort).

Bárbara Eugenia brinda-nos com um disco romântico, em muito explicado – como se o amor carecesse de explicações – pelas inspirações confessas, reveladas em seu encarte, colorido como sua música: “Adanowsky, Diana, Air, Devendra Banhart e Bealtes, sempre!! Muito amor!! iéié”. É o que temos não é pouco. E o que vocês queriam mais?