Nem mortos!

Biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Belchior, Chacrinha, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio imaginam quais seriam os votos de seus biografados no Brasil de hoje

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de Doutor Sócrates: Futebolista, Filósofo e Lenda [Simon & Schuster, 400 p., ainda sem tradução no Brasil], declarou hoje (19) ao jornal Folha de S. Paulo: “Esses caras hoje em dia são o contrário do Sócrates. Ganham muito mais e se importam muito menos com o lugar de onde eles vêm. Sócrates era imprevisível e não posso falar por ele, mas creio que ele estaria chocado em ouvir jogadores do Corinthians ou de qualquer time grande, como Palmeiras ou Tottenham, falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”.

Downie se referia ao apoio de nomes como Felipe Melo (Palmeiras), Lucas Moura (Tottenham, da Inglaterra), Jadson e Roger (Corinthians) ao candidato de extrema-direita à presidência da república Jair Bolsonaro (PSL). O contraponto proposto pelo biógrafo se ancora, por exemplo, na atuação de Sócrates em movimentos como a Democracia Corintiana e a campanha Diretas Já!, ambas na década de 1980.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Chacrinha, Belchior, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio, que, baseados no profundo conhecimento que têm de suas personagens, imaginaram quais seriam seus votos no Brasil de hoje.

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Capa. Reprodução

Também biógrafo de Sócrates [Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Objetiva, 2014, 264 p.], o jornalista Tom Cardoso, ao mesmo tempo em que acredita que o ex-jogador poderia estar ainda mais à esquerda, reconhece sua postura libertária. “Acho que ele jamais concordaria com um clube tutelar, ele diria que o jogador é livre para se posicionar politicamente, seja ele eleitor do PT ou do Bolsonaro”, disse. “O Sócrates não ficaria surpreendido com o voto de algum jogador no Bolsonaro. Talvez ele discordasse, claro, como um homem progressista, de esquerda, de um eleitor do Bolsonaro. Mas ele não ficaria assustado com isso, ele sabia, deu várias declarações dizendo que o futebol brasileiro era muito conservador, era um espelho da sociedade”, continua.

“Ele achava que o PT, de quem ele acabou se tornando um crítico, tinha feito essa guinada ao pragmatismo político, através da Carta ao Povo Brasileiro, então eu tenho dúvidas se ele não estaria mais à esquerda do [Fernando] Haddad [candidato do PT] e não estaria mais entusiasmado pelo PSol, por exemplo”, imagina. Cardoso lembrou ainda que Sócrates chegou a ser secretário municipal de Esportes em Ribeirão Preto/SP numa das gestões de Antonio Palocci, tendo permanecido apenas seis meses no cargo, “ele meio que se desiludiu um pouco com aquela coisa preguiçosa da máquina do estado”. O camisa 8 também teria recusado diversos convites do PT para assumir o ministério dos Esportes na gestão de Lula. “Hoje, eu acho que ele votaria no Haddad, mas também poderia votar no Ciro [Gomes, candidato do PDT] ou no próprio [Guilherme] Boulos [candidato do PSol]”, opina.

75 kg de músculos e fúria. Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

Indago sobre Tarso de Castro [75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 2005, 280 p.], outro biografado de Tom Cardoso. “O Tarso é mais difícil. Eu acho que ele pregaria um voto útil contra o Bolsonaro. Tem o Ciro, que é do PDT do [Leonel] Brizola, mas não tem nada de brizolista, o Tarso era brizolista, antes de tudo, mas tinha simpatia pelo Lula, fez uma grande entrevista com o Lula, acho que em 1982, para a [revista] Careta. Acho que ele estaria inclinado pelo voto a quem tivesse mais chance para ganhar do Bolsonaro”, especula sobre a posição do jornalista, da patota do Pasquim.

Belchior. Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

O biógrafo Jotabê Medeiros foi direto sobre que opinião teria Belchior [Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, Todavia, 2017, 237 p.] sobre o capitão reformado do exército: “Belchior era antifascista. Foi combatente da liberdade até a morte – embora afastado da vida social, angustiava a ele o mergulho que o Brasil deu na via antidemocrática nos últimos anos. Sua defesa da liberdade o posta como um claro adversário de tudo o que Bolsonaro representa”, diz.

O jornalista aposta no voto do compositor cearense: “Belchior é Lula. Lula é Belchior. Ele estaria com o maior líder popular do País em todos os tempos. Caminharia ao lado de Haddad, não tenho a menor dúvida”, coloca as fichas.

“Um compositor que escreveu “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, identificando os alvos prioritários dos ataques de racismo, exclusão e misoginia, sempre demonstrou saber perfeitamente quem são os inimigos a serem combatidos”, arremata.

Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

Mais comedido é Fabrício Marques, biógrafo de Wander Piroli [Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito, Coleção Beagá Perfis, Conceito Editorial, 2018, 256 p.]. “Seria leviano de minha parte tentar adivinhar as posições políticas do Wander Piroli. O que posso pressupor, com base nas opiniões dele, é que ficava indignado especialmente com a desigualdade social de nosso país e com as injustiças contra minorias. Como afirmou o jornalista João Paulo Cunha, a principal característica do jornalista e escritor mineiro foi o compromisso humano. Acho que essa postura dá pistas sobre as inclinações dele”, comenta.

Chacrinha. A biografia. Capa. Reprodução

Biógrafo do pernambucano Abelardo Barbosa, que fez fama como Chacrinha [Chacrinha: a biografia, Casa da Palavra/Leya, 2014, 328 p.], Denilson Monteiro segue a linha de Marques: “Seria muito arrogante da minha parte determinar qual seria o pensamento do Chacrinha se estivesse vivo hoje. Mas analisando tudo o que ele sofreu durante a ditadura civil-militar, tendo até sido preso, acredito que ele jamais apoiaria um candidato simpático a esse período tão perverso da história do país”, lembra.

Mas arrisca-se a opinar sobre o “não-voto” do velho Guerreiro em um possível segundo turno: “Partindo do que eu respondi anteriormente, o que  acredito é que num segundo turno, Chacrinha, que participou da campanha das Diretas, jamais votaria em um candidato como Jair Bolsonaro”, afirma.

Clarice,. Capa. Reprodução

Opiniões parecidas têm os biógrafos de Clarice Lispector e Sérgio Sampaio. O americano Benjamin Moser, autor de Clarice, [Companhia das Letras, 2017, 576 p.], afirma: “Clarice teria compartilhado o mesmo nojo que todos sentimos quanto a este senhor. Creio que estaria apoiando Fernando Haddad, mas é impossível saber ao certo”.

Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! [Muiraquitã, 3ª. edição, 2017, 288 p.], biografia do cantor e compositor capixaba, opina: “Como não cheguei a conhecer Sérgio, não sei precisar qual era sua orientação política, mas decerto seria de esquerda ou centro-esquerda. Sendo assim, acho improvável que uma candidatura como a de Bolsonaro o seduzisse. Arrisco dizer que ele votaria no Haddad ou no Ciro”.

Eu quero é botar meu bloco na rua. Capa. Reprodução

O capitão não conseguiu capitalizar o lamentável atentado à faca que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora/MG, no último dia 6 de setembro e, internado desde então, enfrenta, para usarmos metáforas do campo que abre este texto, o futebol, trombadas de gente que veste o mesmo uniforme: sua rejeição, que já era grande, cresce a cada declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), e de seu principal conselheiro na área econômica, Paulo Guedes, a quem o candidato apelidou “posto Ipiranga”. Nas últimas pesquisas, o candidato tem oscilado dentro da margem de erro.

Pelo visto, a rejeição ao ideário autoritário do deputado é grande também entre personalidades que permanecem vivas através de suas obras. Não é mesmo estranho ouvir de alguém, quando perguntado se votaria em Bolsonaro: “nem morto!”.

O espírito de Tarso de Castro

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro. Cartaz. Reprodução

 

Tarso de Castro foi um divisor de águas no jornalismo brasileiro, para além do clichê da afirmação e de qualquer julgamento por sua vida pessoal. É daqueles personagens de vida tão intensa que nos dá a impressão de que a maior dificuldade sobre remontar sua trajetória é escolher que histórias contar.

Não há hipérbole no título A vida extra-ordinária de Tarso de Castro [documentário, Brasil, 2018, 90 min.], que deve atrair novas atenções à memória do jornalista, continuando o trabalho do biógrafo da lenda Tom Cardoso, que comparece ao documentário, – seu 75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros saiu pela editora Planeta em 2005.

Inventor de Pasquim, Enfim e Folhetim (suplemento da Folha de S. Paulo, jornal no qual chegou a ser o colunista mais lido do país na década de 1980), Tarso, filho do jornalista Múcio de Castro, enveredou pelo jornalismo praticamente criança, visitando as oficinas tipográficas de O Nacional, que o pai mantinha em sua Passo Fundo natal. Mudou-se para o Rio de Janeiro onde, entre o jornalismo e a boemia virou ele próprio um sinônimo de Ipanema.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro é uma bela e divertida homenagem ao “outro cabeludo” do clássico Detalhes, de Roberto Carlos. O filme foge de depoimentos convencionais, em que entrevistados encaram câmera ou entrevistador e mostra telefonemas e mesas em que amigos relembram o ícone, além de imagens de arquivo em que o próprio Tarso de Castro aparece, entrevistando, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e Leonel Brizola – indagando ao então presidenciável, de forma de algum modo pioneira, sobre a posição de seu partido sobre o tema da homossexualidade, tabu à época.

Seu sucesso com as mulheres é ilustrado por trechos de diálogos de filmes brasileiros – sem falar uma palavra de inglês, namorou, por exemplo, a atriz Candice Bergen, que depois se casaria com o cineasta Louis Malle, levando Tarso a gracejar: “dos Malles o menor”.

O filme garante boas risadas, mas seu objetivo é reconhecer a grandeza de Tarso de Castro. Há um exercício de futurologia – ou presentologia, já que ele faleceu em 1991, antes de completar 50 anos – quando especula-se o que o jornalista estaria fazendo hoje, em tempos de golpe e internet. Tarso flertava com o poder enquanto bon vivant, adorava luxos como beber bem, tendo, no entanto, sempre se posicionado contra o status quo – foi preso pela ditadura militar, por exemplo. Seu filho, o ator João Vicente, já fez novela na Globo e é um dos nomes do coletivo humorístico Porta dos Fundos, cuja audiência de qualquer vídeo supera as maiores tiragens do Pasquim.

Entre depoimentos de Jaguar, Sérgio Cabral (o pai, obviamente!), do recém-falecido Luiz Carlos Maciel, todos seus companheiros na chamada “patota do Pasquim”, dos jornalistas Palmério Dória, José Trajano e do ator Paulo César Pereio, além de Gilda Midani (mãe de João Vicente), Ada Maria de Castro (mãe de Tarso, já falecida) e Lilian Pacce, entre outros/as, o filme de Leo Garcia e Zeca Brito não soa saudosista, apontando semelhanças e diferenças entre o Brasil e a imprensa brasileira de hoje e os vividos por Tarso de Castro, cuja morte, em decorrência de problemas hepáticos por conta do alcoolismo, completou 27 anos no último dia 20 de maio.

Neste sentido, o filme extrapola o personagem, deixando clara a impossibilidade conjuntural de um novo Tarso de Castro ou um novo Pasquim, apesar das semelhanças entre, por exemplo, os golpes militar de 1964 e político-jurídico-midiático de 2016. Ele mesmo afirmava que a democracia no Brasil é intervalo.

Não é que Tarso, se estivesse vivo, fosse achar o jornalismo ou tudo uma porcaria. Como nos ensina o saudoso Millôr Fernandes, também seu ex-colega no hebdomadário, cito de memória: “numa roda é fácil identificar o jornalista: é o que está criticando o jornalismo”. Ele já achava uma porcaria. Talvez por isso tenha se sobressaído: por tentar (e conseguir) fazer diferente (e melhor).

Àquela época já anunciava, enterrando uma das maiores lendas ensinadas e repetidas sobre o ofício: “eu sou um jornalista honesto: eu sou parcial”. Invertida a equação – não era o bar a extensão da redação do Pasquim, mas o contrário –, Tarso conta sua teoria para a invenção do jornalismo: a profissão foi inventada pelo primeiro que transformou uma conversa de bar em texto. E já ali apontava para uma das misérias do jornalismo atual: jornalistas não vão mais ao boteco ou à rua à cata de histórias, contentando-se com os releases enviados pelas assessorias.

Nome comprovadamente fundamental para o jornalismo brasileiro e, portanto, para o Brasil, Tarso de Castro ressurge, nesta comovente cinebiografia, num momento em que é imperativo discutir o jornalismo e sua função social, sobretudo diante da turbulência como a que o Brasil volta a atravessar.

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Veja o trailer de A vida extra-ordinária de Tarso de Castro: