Encontro lembra 10 anos do falecimento de Caldeira

Tem início hoje, às 16h, no Auditório Mário Meireles (CCH/UFMA) o encontro Pensando na fronteira: leituras cruzadas de Ribamar Caldeira, organizado por amigos, ex-alunos, admiradores, gente enfim que, de uma forma ou outra, foi por ele influenciado.

“Ele está completando 10 anos [de falecimento] e um grupo de amigos, ex-alunos, gente que gostava de Caldeira, que tiveram nele uma força propulsora, provocadora, de áreas diferentes, resolveu lembrar seu pensamento, sua influência, neste encontro. De dentro da UFMA tem gente de uns quatro ou cinco departamentos, gente de fora da UFMA e gente que não tem muito a ver com a Universidade. Ali são vários tentáculos. O encontro tenta abordar algumas das áreas por onde ele transitou, com ênfase nas Ciências Sociais, na História, Economia Regional, já que no momento da tese dele ele está muito voltado pra isso, é sobre a formação do parque fabril aqui [Origens das indústrias no sistema agroexportador maranhense (1875-1895). Estudo micro-sociológico da instalação de um parque fabril em região do nordeste brasileiro no final do século XIX, orientado pela Dra. Maria Isaura Pereira de Queiroz. USP, 1989], e a Política, que foram os primeiros escritos dele, ainda da década de 70, analisando eleições locais. O Mestrado foi em Ciência Política falando das interventorias aqui após a revolução de 30″, explica, em depoimento exclusivo a este blogue, o professor Flávio Reis (do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA), um de seus ex-alunos, que coordena a mesa de abertura, “Ciência e provocação: lembranças de Caldeira”, cujo expositor será o professor Flávio Soares (História/UFMA).

José de Ribamar Chaves Caldeira nasceu em Pedreiras/MA em 21 de julho de 1940. “Foi um pioneiro dos estudos de Sociologia e Ciência Política no Maranhão, desenvolvendo, ao longo de décadas, trabalhos variados, enfocando problemas de nossa formação histórica. Professor sui generis, seu conhecimento vasto e diversificado, avesso às especializações estéreis, levou a um estímulo constante ao trabalho interdisciplinar, na contracorrente dos inúmeros nichos de saber que começavam a dar o tom da produção intelectual da universidade brasileira, a partir dos anos 1980”, conforme material de divulgação do encontro.

À “caldeira” sempre fervilhante de ideias que já trazia no nome, Flávio Reis chama de vulcão: “Um cara que era imbatível na conversa. Era um vulcão ambulante ali pela UFMA naquele tempo. Encontrá-lo era uma tremedeira: “éguas, Caldeira! O quê que pode vir?” Invariavelmente, se estivesse rolando uma discussão ele ia logo discordar. O papo de Caldeira era provocar o raciocínio, ainda no final do regime militar. Você tava dizendo uma coisa que parecia óbvia e ele dizia “não, isso aqui não é assim”, e dali gerava toda uma discussão. Isso, pra ele, é que era o exercício do magistério. Ao mesmo tempo ele era o cara que não tinha nada a ver com esse negócio de aula, compromisso burocrático, programação, nota. Ele era de uma irresponsabilidade absurda! Não faltava aula. Era quase o único que vivia exclusivamente para a atividade intelectual. Ao mesmo tempo o sujeito que era o protótipo do camarada que não tinha muito compromisso com a burocracia institucional tinha tudo a ver com a alma da atividade. O que orgulhava Caldeira era, além da família, a biblioteca [particular]”, lembra.

“Caldeira é um professor que exerceu o magistério de uma forma extremamente original e que teve uma influência em muita gente aqui, em gerações. Era um cara que tava no início dessa tentativa de formar um raciocínio daqui que fosse pautado nas ciências sociais tal qual ela estava se desenvolvendo principalmente por São Paulo, que era por onde ele tinha muita atração e por onde o pensamento dele muito caminhou. Ele tem uma referência forte inicial de Sociologia, Formação Econômica do Brasil, da Política. Mas conhecia também muita etnologia. Transitava por áreas. Foi uma das primeiras coisas diferenciais aqui. Imagina, início da década de 1980, encontrar um sujeito que tinha mais de cinco mil livros. Hoje até não é uma coisa de espantar, mas no final da década de 70? O encontro com Caldeira, pra muitos de nós ali na universidade, no início da década de 80, significava sair da infância, de um tipo de estudo que ainda tinha no ensino médio uma referência forte. Ele era quem jogava [o conteúdo] de uma maneira a aproximar dos autores, ele falava como se os autores estivessem próximos, e com o tempo a gente ia pegando também. Então era [os sociólogos] Florestan [Fernandes], Fernando Henrique [Cardoso], Otávio Ianni, Maria Isaura [Pereira de Queiroz], Celso Furtado. Era uma salada de doido”, continua, entusiasmado.

O professor Caldeira chegou a ocupar a cadeira nº. 8 da Academia Maranhense de Letras, cujo patrono é Gomes de Sousa, o que a muitos pode parecer uma contradição “Infamado, muitas vezes tomado pela chama que a paixão do saber é capaz de proporcionar, defendia hoje com ardor o que recusaria com veemência amanhã”, voltamos ao material de divulgação. “Foi num momento em que já não estávamos mais tão próximos. Nunca tivemos nenhum tipo de briga, mas meu tempo de maior proximidade com Caldeira foi até o início dos anos 90. De qualquer maneira nos causou uma estranheza, pois nós fomos formados ali, e um dos alvos era o tipo de reflexão sobre o Maranhão que saía de dentro da Academia”, conta Flávio Reis.

Pergunto se visionário era uma palavra que bem traduziria o saudoso professor. “Até certo ponto. Um cara como Caldeira conseguia perceber na frente uma pasmaceira como a que aconteceu na universidade. Isso ele dizia com todas as letras, que a universidade tava caminhando pra um tipo de exaltação dessa formação burocrática, e que a jogada não era essa. A jogada era, como ele dizia, viver na fronteira, misturando coisas de um lugar, de outro. Não foi esse tipo de pensamento que vigorou aí”.

Confira a programação do encontro.

PENSANDO NA FRONTEIRA: LEITURAS CRUZADAS DE RIBAMAR CALDEIRA

Auditório Mário Meireles (CCH/UFMA), 17 a 19 de junho de 2013

17, 16h: Ciência e provocação: lembranças de Caldeira
Expositor: Flávio Soares (departamento de história/ UFMA)
Coordenador: Flávio Reis (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

18, 16h: Ciências Sociais e História: duas paixões
Expositores: Claudio Zannoni (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA), Mirtes Santos Barros (departamento de artes visuais/ UFMA) e Manoel Barros Martins (departamento de história/ UFMA)
Coordenadora: Sandra Nascimento (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

18, 18h: Oligarquias e sistemas políticos
Expositores: Flávio Reis (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA) e Paulo Rios (Faculdade São Luís)
Coordenadora: Ilse Gomes (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

19, 16h: Economia regional e mudança social
Expositores: Saturnino Moreira (economista, professor aposentado da UEMA) e Moacir Feitosa (departamento de economia/ UFMA)
Coordenador: Marcelo Carneiro (departamento de sociologia e antropologia/ UFMA)

19, 18h: O professor e o acadêmico
Expositores: José Ferreira (departamento de comunicação social/ UFMA) e Benedito Buzar (jornalista e historiador, presidente da Academia Maranhense de Letras)
Coordenador: José Reinaldo Ribeiro Barros Júnior (economista, IBGE)

Por um bom debate

Os posts recentes sobre a UFMA e seu reitor geraram algum debate, cá no blogue e fora dele. Alguns comentários grosseiros e/ou anônimos foram apagados, regras da casa. As caixas estão abertas a qualquer um/a, não precisa concordar comigo nem com qualquer autor que eu publique por aqui, mas carece ser educado/a, como buscamos sempre ser, e dar a cara pra bater, como sempre fazemos.

O texto abaixo, que recebi por e-mail, poderia estar na caixa de comentários, já que é resposta a um. Dada a importância do assunto, trago-o aqui para o espaço principal do blogue, provocar o bom debate uma de suas funções.

A Maria José a que ele se refere no início é a comentarista a quem responde, não é nenhum trocadilho infame e de viés homofóbico com o nome de pia do blogueiro, como já ousaram vis jornalistas, hoje desafetos, o morto & o vivo.

E cabe lembrar: é hoje (20) a eleição para a nova diretoria do Colégio Universitário (Colun).

Senhora Maria José, bom dia!

Sou Bartolomeu Mendonça, Sociólogo e titular da disciplina Sociologia no COLUN/UFMA. Não a conheço, mas frente a sua defesa do “Dono da UFMA” sustentada em uma pretensa verdade, achei-me no direito de lhe conceder algumas informações. As quais estendo ao debate.

1. É inverídico afirmar que a gestão anterior era composta por uma Diretora da APRUMA e mesmo que o fosse não há nada que impeça e é até saudável para a instituição ter gestores afinados com as causas dos servidores, das lutas trabalhistas que historicamente demonstram que contribuem para o aperfeiçoamento doas instituições públicas.

2. Quanto à sociologia e a perseguição ao professor:

A perseguição à Sociologia e ao seu ministrante no COLUN ocorreu logo após a Gestão não Eleita tomar posse. Quando solicitei minhas cadernetas da disciplina Sociologia, que já vinha ministrando normalmente desde o início do ano, a Coordenação de Ensino Médio, também não eleita, encaminhou-me documento, muito mal escrito, diga-se, informando que deveria procurar o Coordenador de minha área (Ciências Humanas) e redistribuir minha carga horária, numa indicação de que não mais deveria continuar ministrando as aulas. Neste ínterim, o coordenador indicado do Ensino Médio divulgou aos alunos das minhas turmas que a Sociologia não era disciplina obrigatória e que, portanto, eles não tinham nenhuma obrigação de participar das minhas aulas.

Isso tudo gerou um grande mal estar e cenas de constrangimento entre mim e os alunos. Pelo que eu e o professor Luiz Alberto, Coordenador da Área de Ciências Humanas, fomos procurar a Coordenação de Ensino Médio, e o coordenador informou que era aquilo mesmo, que não tinha Sociologia no 3º. ano do Ensino Médio, pois não constava do sistema de notas do COLUN.  Nós retrucamos dizendo que ele não poderia interpretar as coisas daquela maneira, fazendo uma inversão, pois na prática desde o ano passado (2011) o professor (Bartolomeu) já ministrava regularmente a disciplina para essa série e que ao invés dele procurar inserir no sistema a disciplina preferiu perseguir o professor e usar de subterfúgio para desrespeitar a legislação federal que previa a obrigatoriedade da Sociologia nas três séries do Ensino Médio. O coordenador de ensino médio foi irredutível e disse que eu deveria parar minhas aulas no 3º. ano imediatamente.

Naquele momento eu disse que só sairia de sala de aula se ele formalizasse aquela ação, já que o documento que havia emitido anteriormente está mal feito e confuso, e se ele não formalizasse, só sairia se mandasse a segurança me tirar à força de sala. Depois disso as dificuldades em sala com alunos pioraram, geralmente um terço dos alunos de modo rotativo participavam das aulas por conta do boato de que eu estava irregular em sala.

Diante disso fizemos diversas campanhas públicas sobre o ataque que sofria a Sociologia no COLUN, informando que a direção não eleita estava retirando-a do 3º. ano. Depois da grande repercussão de nossa campanha, que atingiu os fóruns nacionais, a direção recuou, mas continuou criando situações embaraçosas entre mim e os alunos, como deixar que em meu horário eles saíssem para aulas de educação física. Embora essa disciplina seja também necessária, ela tem seu horário específico, não precisava criar tal situação.

Após uns meses com muitas cobranças houve uma sessão do Conselho Diretor do COLUN (que equivale à Assembleia Departamental nos Departamentos) e ali conseguimos reverter a proposição da direção e foi aprovada a inclusão da disciplina no sistema de notas, que na prática já estava na grade do 3º. ano desde 2011, embora a contragosto, expresso claramente por pelo menos um de seus membros que disse “vamos deixar isso para outro momento, vamos fazer uma comissão para discutir a situação”, numa clara manobra de postergar a decisão que já há muito estava atrasada e criar uma irregularidade artificializada para continuar atacando ao professor e a sua disciplina.

O resultado disso tudo é que muitos alunos incitados pela direção perderam conteúdos e ficaram de reposição e boa parte desses estão de prova final, já que conseguimos reverter a perseguição tanto à Sociologia quanto ao professor, que também é diretor da APRUMA, o que não é crime. Não aceito ser atacado porque me organizo com meus pares para lutar por melhorias no trabalho e na educação.

Enfim, a perseguição ocorreu e foi muito forte e deliberada, os asseclas da reitoria viram uma oportunidade de servir ao seu senhor, perseguindo um colega e subtraindo os direitos dos alunos à disciplina. Não fosse a nossa resistência teríamos saído de sala de aula com o “rabo entre as pernas”, como se diz, e os alunos ficariam sem a vivência e os conteúdos da disciplina.

Deturpar os fatos, invertendo-os, a ponto de apresentar a direção não eleita (ou melhor interventora) como responsável pela inclusão da disciplina é um expediente vergonhoso, mas, pelo que se vê, infelizmente tornado corriqueiro. Além de tudo isso, essa figura do interventor, mesmo prevista na legislação, é uma coisa anacrônica quando se busca o aumento da participação em todos os níveis e é mesmo lamentável que a reitoria da UFMA tenha optado por este caminho e, principalmente, que professores ainda se disponham a este papel.

Respeitosamente,

Bartolomeu Mendonça

Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão

“A disputa política no Maranhão veio perdendo, ainda na segunda metade do século XIX, a característica de simples lutas entre famílias. Um setor político passou a controlar as instâncias de decisões, porém cada vez mais dependente do centro político nacional e submetido a suas pressões na regulagem das disputas. Apesar de atrelado socialmente aos grandes proprietários rurais, o seu locus de atuação, as relações com o aparelho do Estado e com o governo central, favoreceu a configuração de valores de identificação de grupo, sintetizados no interesse em manter o monopólio das funções de mando. Assim, é no espaço da mediação entre instâncias do sistema de poder e entre interesses privados e o Estado, que os grupos políticos se movimentam, sedimentam interesses próprios e comandam o processo de oligarquização da política”.

Flávio Reis, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, na quarta capa de seu Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007), esgotado. Este blogue orgulhosamente disponibiliza a raridade, leitura obrigatória, para download.