Tássia Campos e Ana Marques reverenciam Adriana Calcanhotto e Marisa Monte em “Onde andarás”

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O show no Clube do Chico passeará por diversas fases das obras de duas das mais importantes cantoras e compositoras surgidas no Brasil nos últimos 30 anos

Desde o final da década de 1980, Marisa Monte e Adriana Calcanhoto consolidaram-se como duas das mais talentosas cantoras e compositoras surgidas no Brasil em todos os tempos. A carioca estreou em disco em 1988, com a explosão do hit Bem que se quis, versão de Nelson Mota para E po’ che fa’ (Pino Daniele); a gaúcha, dois anos depois, com Enguiço, disco do hit Naquela estação (Caetano Veloso/ João Donato/ Ronaldo Bastos), a que compareciam ainda regravações de nomes tão diversos como o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, além de Eduardo Dussek e Roberto Carlos.

Não é exagero dizer que influenciaram todo mundo que veio depois, como o fizeram Gal Costa e Maria Bethânia mais de 20 anos antes. Versáteis, Adriana Calcanhotto e Marisa Monte seguiram trilhas distintas, mas com obras com traços em comum: a permanente qualidade de seus discos e shows, as carreiras paralelas (Marisa com os Tribalistas e Adriana com o Partimpim, voltado ao público infantil, mas também encantando adultos), a constante presença na programação do rádio e o permanente diálogo com a poesia – Marisa trouxe Eça de Queiroz para sua Amor, I love you (parceria com Carlinhos Brown), Adriana musicou Ferreira Gullar e Mário de Sá-Carneiro e é parceira de Antônio Cícero.

Adriana Calcanhotto e Marisa Monte serão lembradas em um show dedicado a seus repertórios. As talentosas Tássia Campos e Ana Marques irão passear por várias fases de suas carreiras, entre grandes sucessos e músicas menos conhecidas. Na ocasião serão acompanhadas por Jhoie Araújo (violão sete cordas), Rui Mário (sanfona e teclado) e Richard (bateria).

Tássia Campos tem seu nome reconhecido como uma das cantoras mais requisitadas da cena MPB de São Luís. Tem no currículo, entre outros, os troféus “Revelação” e “Show do ano” (com o Trio 123), do extinto Prêmio Universidade FM, então a maior honraria da música produzida no Maranhão. Ana Marques, sócia-proprietária do Clube do Chico, reservava seus dotes artísticos apenas para amigos, em jam sessions após os shows da casa, mas resolveu, agora, colocar seu talento a serviço do público em geral. Já não era sem tempo.

Onde andarás, que dá título ao show, é parceria de Caetano Veloso com o poeta maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). A música já foi gravada por ambas, além de pelo próprio Caetano e pela irmã Maria Bethânia. Outros números do repertório da homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte são Clandestino (Mano Chao), Esquadros (Adriana Calcanhotto), Inverno (Adriana Calcanhotto) – gravadas por Adriana Calcanhotto –, Balança pema (Jorge Benjor), Dança da solidão (Paulinho da Viola) e Na estrada (Carlinhos Brown/ Marisa Monte/ Nando Reis) – gravadas por Marisa Monte. No fim das contas, o show, além de uma homenagem a elas, é também um tributo a seus parceiros e a compositores eternizados em suas vozes.

Serviço

Divulgação
Divulgação

O show Onde andarás – Homenagem a Adriana Calcanhotto e Marisa Monte acontece no Clube do Chico (R. Uirapuru, 17, Parque Shalon), dia 2 de agosto (sexta), às 21h. Os ingressos custam R$ 20,00 (antecipados; R$ 25,00 na hora). Reservas pelo telefone: (98) 98113-5547.

Em nome dos mineiros

Foto: Zema Ribeiro
Foto: Zema Ribeiro

 

O mineiro Toninho Horta subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo com um papel na mão, que colocou sobre a mesa onde já repousava um copo d’água, com as bordas cobertas por um guardanapo.

Sentou-se, empunhou o violão e agradeceu por estar ali, “em nome dos mineiros, Lô Borges, Beto Guedes, Bituca, é muito bom estar aqui, abrindo a 11ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, num tempo em que é grande a representatividade da música instrumental brasileira lá fora”, apontou.

Revezando-se entre temas cantados e instrumentais, começou o show com Durango Kid (parceria dele com Fernando Brant), gravada por Milton Nascimento na década de 1970. Em Aqui ó (da mesma dupla) citou o tambor de crioula, elogiando a grandeza da cultura popular do Maranhão.

Seguiram-se Igreja do Pilar, dedicada a Ouro Preto, e Meu amor infindo,  homenagem a mãe, falecida em 2013. “Ela foi a primeira a reconhecer meu talento, tocava bandolim na banda ​​de meu avô”, lembrou.

Ainda sozinho ao violão tocou Ville kids friends, que compôs durante um curso que ele ministrou na Escandinávia. Em seguida convidou Marcelo Carvalho para assumir um dos dois teclados dispostos no palco. Com ele tocou Waiting for Angela.

Na sequência, somam-se ao duo Israel Costa (violão), anunciado como guitarrista, e Renato Serra (teclado). O quarteto toca Diana (outra parceria com Fernando Brant), sucesso do Boca Livre. “Se tiver alguma Diana na plateia, peço desculpa, mas essa música foi feita para uma cachorrinha. Já que Manuel era um jipe”, lembrou, fazendo a plateia rir, antecipando outro hit que não faltaria ao set list.

Leonel Almeida (contrabaixo) e Ronald Nascimento (bateria) acabaram de completar o grupo enquanto Toninho Horta troca o violão pela guitarra. Atacam de Voo dos urubus, com Horta a princípio tocando de costas para a plateia, a reger o grupo. Depois é a vez de Summertime (Ira e George Gershwin), “já que a gente está num festival de jazz e blues”.

A banda sai e Horta torna ao violão. Presta uma homenagem a João Gilberto. Lembra que influenciado pelo baiano fez uma música aos 13 anos, O barquinho vem, “embora mineiro não tenha mar”, brincou. Canta Desafinado (Tom Jobim e Newton Mendonça), acompanhado pelo coral da plateia.

Ao elogiar novamente o Teatro Arthur Azevedo, lembra-se do dia em que foi ao Carnegie hall ver a Filarmônica de Viena regida por Leonard Bernstein. “Eu fiquei no sétimo ou oitavo andar, vendo os músicos lá embaixo. Esse Teatro Arthur Azevedo não brinca em serviço”, afirmou, antes de tocar um tema de Henry Mancini.

A banda volta e Toninho Horta troca o violão pela guitarra no meio da música, enquanto cita Josias Sobrinho, Nosly e Papete. Lembrou-se de Leandro Gomes, “meu primeiro produtor em São Luís na década de 1980, há quase 40 anos. Essa eu dedico aos grandes talentos do Maranhão”, oferece antes de tocar Beijo partido.

Já em clima de bis, mandou Manuel, o audaz (mais uma parceria com Fernando Brant), para delírio da plateia. E agradeceu: “Quero saudar o Tutuca”, o produtor já havia tentado trazê-lo em outras edições do festival. “Minas agradece vocês pelo bom gosto. Esse estado é um país”, finalizou.

Serviço

O 11º. Lençóis Jazz e Blues Festival acontece dias 16 e 17 de agosto (Circuito São Luís, Concha Acústica Reinaldo Faray, Lago da Jansen); e dias 23, 24 e 25 de agosto (Circuito Barreirinhas, Av. Beira-Rio). Entre os destaques da programação – acesse completa – estão Paula Santoro, Trio Corrente, Bebê Kramer, Zé Paulo Becker (com participação especial de Roberta Sá), Blues Etílicos, Afrôs, Mahmundi, Gildomar Marinho, Elizeu Cardoso, Quarteto Buriti (com participações especiais de Gabriela Marques, Célia Maria e Milena Mendonça), Dani Black, Rita Benneditto e Wilson Zara (que encerra a programação com seu tradicional Tributo a Raul Seixas).

Vieira inédito e festejado

Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro
Fim de festa: Lena Machado e Edilson Gusmão, juntos, interpretam Banho cheiroso. Foto: Zema Ribeiro

 

Desde o último 9 de maio começaram as celebrações em torno do centenário do compositor Antonio Vieira (9/5/1920-7/4/2009) – a ser completado em 9 de maio de 2020.

Capitaneada por Helena, sobrinha do artista, e pelas produtoras culturais Tatiana Ramos e Márcia Carvalho, uma temporada de shows tem percorrido diversos espaços da cidade, escalando sempre um par de artistas para explorar majoritariamente o repertório inédito deixado pelo compositor.

A estreia aconteceu no Bar Latino (Praia Grande), com Inácio Pinheiro e Tássia Campos; no mês seguinte, Alexandra Nicolas e Josias Sobrinho comandaram a festa, na Feirinha São Luís (Praça Benedito Leite, Centro).

A banda que acompanha as duplas é sempre a mesma: ​Arlindo Carvalho (percussão, foi companheiro de Vieira no Regional Urubu Malandro e integrou, com ele, a primeira formação do Regional Tira-Teima, na década de 1970), Rui Mário (sanfona e teclado), Thiago Fernandes (violão sete cordas), Danilo Santos (flauta e saxofone), Sadi Ericeira (cavaquinho), Ronald Nascimento (bateria) e Davi Oliveira (contrabaixo).

Ontem (9) foi a vez de Edilson Gusmão e Lena Machado, que se apresentaram no Anfiteatro Beto Bittencourt (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). Revezando-se no palco, cada qual cantou meia dúzia de canções.

Edilson Gusmão abriu o show com Mulata bonita, primeira composição de Vieira, escrita quando ele tinha 16 anos. Destacou-se em seu repertório a interpretação do choro inédito Aquele rapaz, que versa sobre um homem que, abandonado pela mulher, entrega-se ao álcool. Mas as lentes de Vieira nunca são moralistas, pedindo-nos que não julguemos o personagem.

A crítica social que sempre marcou o trabalho do mestre – “era chamado de mestre por que era um mestre”, alertou o elegante Augusto Pellegrini, outro mestre, de cerimônias, da noite – compareceu ao repertório de Lena Machado em Zé do lixo, atentando para a pouca atenção dispensada pela sociedade aos garis.

Em sua interpretação para A pedra rolou, a cantora incorporou os graves e o bailado de Célia Maria, referência em interpretação e quando o assunto é a obra de Vieira, sempre reverenciado por ela.

No bis, o dueto dos artistas em Banho cheiroso, na base do improviso, parecendo antecipar a necessidade de um descarrego que exigiria o dia de ressaca, com os falecimentos de Paulo Henrique Amorim e Chico de Oliveira. Sinais de Vieira.

Em breve os áudios das apresentações serão disponibilizados em plataformas de streaming.

Solo e bem acompanhado pelo público

Foto: Zema Ribeiro

 

Quando Geraldo Azevedo, trajando uma camisa de listras e estrelas em tons acinzentados, subiu ao palco do Teatro Arthur Azevedo ontem (30), levou na esportiva um problema técnico que impedia a amplificação de seu violão. Superado o percalço, abriu seu show com Ê minha vida (Geraldo Azevedo/ Capinan), antes de brincar, referindo-se ao sobrenome comum: “posso dizer que é meu tio-avô, Arthur Azevedo”, para risos da plateia.

Agradeceu por estar de volta à ilha e continuou: “a inspiração deste espetáculo é o disco que eu fiz em 1995, Ao vivo contigo; mais recentemente eu pensei em registrar em vídeo”, disse, referindo-se ao dvd recém-lançado Solo contigo, no formato voz e violão. Para gargalhada do público, arrematou: “essa é a segunda sessão. Amanhã vai ser a primeira”, anunciou, referindo-se ao fato de a apresentação de ontem ser uma sessão extra, pois a de hoje, para quando o show estava originalmente marcado, ter esgotado os ingressos.

O roteiro seguiu com Inclinações musicais (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha). Depois, o pernambucano enalteceu alguns parceiros, citando a honra de ter feito música com, por exemplo, Mário Lago. “Ele dizia que para falar de amor não precisa falar correto, basta falar ao coração”, lembrou, antes de cantar a hilariante Amor de gramática, parceria de ambos.

“Com ele eu não fiz música, mas a gente era parceiro de vida, dividimos palcos no Brasil e fora”, revelou, antes de cantar Estácio, eu e você, e terminar de punho erguido: “viva Luiz Melodia!”.

O desfile de parceiros continuou. “Esse anda comigo há muito tempo; é meu técnico de som, mas descobri que é também um ótimo compositor. Vou cantar uma dele: Sérgio Peres”, anunciou antes de A saudade me traz.

No ano do centenário de Jackson do Pandeiro não podia faltar uma homenagem a ele, que Geraldo Azevedo revelou ser uma de suas referências. “Ainda tive a honra de dividir o palco com ele”, reverenciou, antes de cantar Já que o som não acabou (Geraldo Azevedo/ Geraldo Amaral/ Alceu Valença).

“A partir desse momento é Solo contigo”, anunciou, ficando em pé e trocando de violão. “Vocês têm que participar”, convocou o público. É literalmente uma antologia, um desfile de clássicos: O principio do prazer (Geraldo Azevedo), Canta, coração (Geraldo Azevedo/ Carlos Fernando), aplaudida desde a introdução, Veja (Margarida) (Vital Farias) – em que o verso “gasolina vai subir de preço” virou “gasolina já subiu de preço”, numa crítica sutil ao governo de Jair Bolsonaro.

É impressionante a comunhão entre o artista e seu público ludovicense, mesmo sendo Geraldo Azevedo um habitué da ilha. Tanto querer (Nando Cordel/ Geraldo Azevedo), Pensar em você (Chico César), Caravana (Alceu Valença/ Geraldo Azevedo) – “bonito o coro, obrigado!”, agradeceu o cantor – Chorando e cantando (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo), outra aplaudida desde a introdução, Você se lembra (Geraldo Azevedo/ Pippo Spera/ Fausto Nilo).

Após quase quatro minutos de introdução, com o público já acreditando que a música ficaria em sua versão instrumental, diante dos efusivos aplausos, o artista convertido numa espécie de guitar hero, tirou o chapéu em agradecimento ao público antes de começar a cantar Bicho de sete cabeças (Geraldo Azevedo/ Zé Ramalho/ Renato Rocha), que acabou emendada com Dona da minha cabeça (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Em Dia branco (Geraldo Azevedo/ Renato Rocha) transformou o “pedaço de qualquer lugar” em “um pedacinho de São Luís do Mará”, antecipando o clássico de Carlos Fernando que não pode faltar a seu set list em se tratando de shows na “ilha bela” – a citada comunhão era tanta que nem houve os tradicionais chatos pedindo “aquela”. Ontem souberam esperar e pareciam estar satisfeitos com a seleção.

“Eu fiz esse dvd, mas eu estou cheio de músicas novas. Estou fazendo um disco, quem sabe no segundo semestre eu termine e venha mostrar outro disco diferente”, aventou, para delírio da plateia, antes de cantar Um paraíso sem lugar (Ela e eu) (Geraldo Azevedo/ Fausto Nilo).

Para Moça bonita (Geraldo Azevedo/ Capinan) a plateia bateu palmas marcando o ritmo e nela Geraldo Azevedo emendou Sabor colorido (Geraldo Azevedo), lembrando a gravação do Cantoria 2, e Sabiá (Luiz Gonzaga/ Zé Dantas).

Na gravação de Canção da despedida no LP A luz do solo (1985), Geraldo Azevedo registra a saga para gravar a música: antes, havia colocado em várias relações de repertório para discos novos e a censura vigente na ditadura militar impedia a gravação; finalmente ele gravava ali a parceria com Geraldo Vandré, de letra atualíssima nestes tempos bicudos, de presidente homofóbico: “um rei mal coroado não queria/ o amor em seu reinado, pois sabia/ não ia ser amado”. Ontem, afirmou, antes de cantar: “meu parceiro nessa é complicado, eu não consegui a liberação para gravar nesse dvd mas ela sempre está com a gente”, disse, referindo-se ao sucesso, do verso “amor não chora, eu volto um dia”, que anunciava que o show estava se aproximando do fim.

“Eu não podia sair sem cantar essa canção”, afirmou antes de Terra à vista (Carlos Fernando), composta em homenagem a São Luís do Maranhão, certamente um ponto de identificação forte entre o artista e seu público local – na década de 1980, muita gente por aqui achava que Geraldo Azevedo era maranhense.

“Eu faço há muito tempo carnaval em Pernambuco, continuo fazendo. Eu fiz um EP de frevos, está nas redes sociais para quem quiser ouvir”, convidou, antes de Quatro dias de amor (Geraldo Azevedo/ Maciel Melo), cujos versos finais cantou se retirando do palco: “o amor de carnaval/ chega quarta-feira vira cinza e tchau”.

Aos gritos de “mais um!” voltou para atender com Táxi lunar (Geraldo Azevedo/ Alceu Valença/ Zé Ramalho), com a iluminação – impecável – simulando, em tons de vermelho, uma espécie de abdução e seu violão magistral fazendo as vezes do motor de uma nave espacial. Sai de cena aplaudido de pé, com o público – que cantou junto quase o show inteiro – a confirmar que as canções de Geraldo Azevedo fazem parte do imaginário coletivo, ajudando a contar as histórias de que são trilha sonora.

“Tu é qualhira, porra?”

Foto: Zema Ribeiro

Ninguém que tenha ouvido qualquer disco ou canção ou visto qualquer apresentação duvida do talento de Cláudio Lima: não cabe em si de tanto.

Corajoso e ousado, ele soltou seus demônios ontem (17), Dia Internacional de Combate à Homofobia, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande), em Com a lira, cujo repertório é dedicado à temática homoafetiva na música popular brasileira – e/ou de compositores homossexuais.

O trocadilho do título, com a expressão tipicamente maranhense “qualhira” (ou “qualira”), usada para designar homossexuais, afeminados etc., já anunciava o conteúdo do show.

Com a lira é o grito de resistência de Cláudio Lima diante da violência perpetrada historicamente contra homossexuais, quadro que deve se agravar com a política armamentista do governo federal.

Num formato econômico, Cláudio Lima acercou-se dos talentosos Totti Moreira (violão e guitarra) e Luís Cruz (guitarra, bateria e programações) para dar seu recado.

A direção de Marcelo Flecha potencializou o gigante que Cláudio Lima já era. No cenário pendiam formas evocando chifres de veado e costela de veado. O cantor trajava uma camisa brilhosa, que ele não tardaria a tirar, ficando apenas com a de baixo, a calça com suspensório e um sapato de salto e sem traseira.

Sou rebelde (Manuel Alejandro, versão de Paulo Coelho), sucesso de Leno e Lilian regravado por Chico César, abre o espetáculo, marcando o primeiro arrebatamento musical de Cláudio Lima, ainda na infância. Segue-se Homem com h (Antonio Barros), hit de Ney Matogrosso.

“Este show é um ato de resistência contra o empoderamento da imbecilidade”, anunciou Cláudio Lima. Para completar, divertindo-se/nos: “um pouquinho de qualhiragem”.

Balada do louco (Rita Lee e Arnaldo Baptista) ele cantou sem o auxílio do microfone, percorrendo o L formado pelas cadeiras da plateia. Daniel na cova dos leões (Renato Russo e Renato Rocha), da Legião Urbana, ganhou arranjo reggae, o que aconteceu também com Malandragem (Cazuza e Frejat), sucesso de Cássia Eller. Nesta, ele trocou o “eu troco um cheque” da letra original por “eu fumo um beque”.

Quando cantou Ilusão à toa (Johnny Alf), mandou: “essa música é do único homossexual da bossa nova”, ao que alguém na plateia retrucou: “que você sabe, não é, Cláudio?”. O cantor riu, concordando: em pleno 2019 ninguém mais deveria caber no armário.

Gilberto Gil compareceu ao repertório com duas em sequência: O veado, faixa pouco lembrada de Extra (1983), e Pai e mãe. Antes de River Phoenix – Carta a um jovem ator (Milton Nascimento) ele pediu “licença: essa eu quero dedicar ao meu boy”.

Única autoral do repertório, O medo (Cláudio Lima) é um rap de letra densa e ligeira, que trata de um tema central na vida da população LGBTQI+. Depois atacou de Minha carta (Tom Zé), única música do set list já gravada por Cláudio Lima (faixa de Cada mesa é um palco, de 2006, segundo disco do artista).

Era hora de uma dose dupla de Chico Buarque: após uma introdução em que evoca um cantor de ópera, mandou O que será? e em sequência Geni e o zepelim.

Parceria de Angela RoRô e Cazuza, Cobaias de Deus é apoteótica: Cláudio Lima canta sentado na poltrona vermelha que compõe o cenário e vem escorregando, evocando a agonia pública de Cazuza em decorrência do vírus HIV. Termina a música deitado no chão, bagunçando o tapete e anunciando que o show, visceral, está próximo do fim.

“A placa de censura no meu rosto diz:/ não recomendado à sociedade”. A letra de Não recomendado (Caio Prado) é uma cusparada na cara hipócrita da sociedade. Continua: “má influência/ péssima aparência/ menino indecente/ viado!/ pervertido/ mal amado/ menino malvado/ cuidado!”.

À porrada da letra original, Cláudio Lima tira onda mandando um recado sério, evocando o bullying sofrido por tantos na infância e adolescência: termina de cantar aos berros, com a pergunta violenta tantas vezes ouvida: “tu é qualhira, porra?”.

Aos gritos de “mais um!” e diante do impacto da plateia, emendou a música nela mesma, como quem acende um cigarro na bagana do anterior: atacou novamente de Não recomendado, repetindo trejeitos e a pergunta brutal.

Com a lira é destes espetáculos que não podem estacionar em uma única apresentação.

Amizade e sentimento

Foto: Zema Ribeiro

 

Zé Renato e Cláudio Nucci foram direto ao assunto quando subiram juntos ao palco do Teatro Arthur Azevedo, ontem (2): abriram o show com Sapato velho, composição do segundo em parceria com Paulinho Tapajós. Era o início do desfile de um repertório diretamente ligado à memória afetiva do público presente, entre hits de rádio e temas de novela, além de reverências a compositores de sua predileção, passando por várias fases das carreiras de ambos, conhecidos desde o grupo Cantares, antes do Boca Livre, portanto há mais de 40 anos, uma retrospectiva sentimental para artistas e plateia.

Atravessando a cidade (Juca Filho), faixa de Pelo sim, pelo não, disco gravado pela dupla em 1985, traduz a delicadeza do reencontro, nesta turnê com que estes dois grandes artistas ora atravessam o país em Liberdade e movimento, canção que dá título ao show, a velha Bicicleta do Boca Livre, de Zé Renato, que ganhou letra de Nucci anos depois.

Acontecência (Cláudio Nucci) havia sido cantada por Zé Renato em seu show mais recente em São Luís, no Clube do Chico. “A gente tá muito feliz de estar aqui em São Luís, no palco do Arthur Azevedo. Zé Renato veio mais recentemente, eu fazia muito tempo. Obrigado!”, Cláudio Nucci fez as honras.

A hora e a vez (parceria da dupla com Ronaldo Bastos), tema da novela global Roque Santeiro, foi o número seguinte, que antecedeu Cá já, de Caetano Veloso, o primeiro entre os compositores a quem prestaram reverências para além do repertório autoral.

Anunciaram, em seguida, Gilberto Gil e Dominguinhos, antes de cantar Lamento sertanejo. Quando passaram a Ânima (Zé Renato e Milton Nascimento), imediatamente lembrei-me da história contada por Zé Renato naquele show no Clube do Chico: Chico Buarque ia colocar letra na melodia, mas quando Milton ouviu e disse que o faria, Zé Renato desconvidou o autor de A banda.

A dupla cantou Benefício (Zé Renato e Hamilton Vaz Pereira), que a Banda Zil, integrada por ambos mais Ricardo Silveira, Marcos Ariel, Zé Nogueira, Jurim Moreira e João Batista, lançará em dvd em breve (a faixa integra o repertório do único disco do grupo, de 1987).

Com Blackbird (Lennon e McCartney) tornaram a celebrar compositores de sua predileção, seguiram a esbanjar seus talentos em seus instrumentos, as vozes e os violões. Por falar em voz como instrumento, seguiram com Papo de passarim (Xico Chaves e Zé Renato), outra trilha de novela (Sinhá moça), que Zé Renato refez em seu disco em dueto com Renato Braz (2010), por ela intitulado.

De Bebedouro (2018), seu disco mais recente, Zé Renato pinçou Noite, uma das duas parcerias com Joyce Moreno registradas no álbum, num momento em que ficou solitário no palco. Ainda sozinho reverenciou a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes em O amor em paz, depois de lembrar as três vezes em que encontrou profissionalmente o maestro soberano. “Profissionalmente foram poucas vezes, mas a gente se encontrava bastante, numa churrascaria que era o escritório dele”, revelou, para gargalhadas da plateia.

Depois foi a vez de Cláudio Nucci ficar sozinho. Cantou Rio de março, em cujo registro no disco Integridade (2018, todo dedicado à parceria dele com Felipe Cerquize) divide os vocais com Zélia Duncan. A letra é forte e atual, diante da barbárie vivida no Rio de Janeiro (sob Witzel, no Brasil sob Bolsonaro): “Rio de Janeiro/ Rio degenerou/ Rio regenera”, trocadilha um trecho da letra.

Para a companheira Dri Gonçalves – “ela está curtindo aí na plateia, cheguei numa idade em que já não posso viajar sozinho”, troçou – ofereceu Serenin, parceria do maranhense (nascido no Piauí) César Nascimento com o carioca Vicente Teles.

Com Zé Renato de volta ao palco, enquanto ajeitava os cabos do violão, Nucci contou uma história: “quando o Boca Livre surgiu, muita gente achava que a gente era mineiro. A gente ouviu muito essa turma e isso acabou se refletindo no nosso som, no repertório de nosso primeiro disco. Tanto é que quando as pessoas diziam que a gente era mineiro a gente não desmentia”, afirmou, fazendo o público rir.

“Eu sou capixaba e ele é paulista”, revelou Zé Renato. Nucci continuou: “eu quando ouço música no rádio, primeiro eu presto atenção na música, depois é que vou me ligar na letra. Essa que a gente vai fazer agora, no começo eu achava que era para uma mulher; depois percebi que “corpo pintado de branco e marrom” não fazia sentido e descobri que a música foi feita para uma cachorrinha que tinha morrido”. E cantaram Diana (Fernando Brant e Toninho Horta).

Toada (Na direção do dia) (parceria da dupla com Juca Filho) foi o momento de a plateia cantar junto, seguida de Pelo sim, pelo não (parceria de ambos com Juca Filho), outro tema com que a dupla compareceu ao repertório de Roque Santeiro. O fecho do roteiro ficou a cargo de Matança (Augusto Jatobá), do repertório de Xangai, noutra sutil mensagem política do show. A música versa sobre desmatamento, mas para além desse problema, no Brasil militarizado de 2019, soa atualíssima no verso “quem hoje é vivo corre perigo”.

Cláudio Nucci não chegou a deixar o palco e atendendo aos gritos de “mais um!” cantou sozinho Quero quero (parceria com Mauro Assumpção). O grand finale ficou a cargo de outro clássico do Boca Livre: Quem tem a viola (parceria de ambos com Juca Filho e Xico Chaves) fechou a apresentação com a plateia em êxtase, momentos que certamente ficarão na memória de cada presente.

Gildomar Marinho faz duas apresentações em São Luís

Cantor e compositor se apresenta hoje (9) no Talkin’ Blues (Cohajap) e sexta (11) no Buriteco Café (Praia Grande)

 

Gildomar Marinho e Luiz Cláudio durante ensaio. Foto: Otávio Costa/ A discoteca do veterinário

 

Maranhense radicado em Fortaleza/CE, Gildomar Marinho aproveita uma passagem pela ilha para fazer duas apresentações, reencontrando-se com o público conterrâneo. Com três discos lançados – Olho de boi (2009), Pedra de cantaria (2010) e Tocantes (2013) – o artista tem outros dois gravados, desde 2015, e ainda não lançados: Porta sentidos e Mar do Gil. “Vendi um carro para fazê-los”, revelou-me, bem humorado, numa conversa ainda àquele ano.

Gildomar Marinho (voz e violão) será acompanhado pelo percussionista Luiz Cláudio. O repertório passeará pela obra autoral de Gildomar Marinho, de temas assinados solitariamente a parcerias com nomes como os poetas Ely Cruz e Samara Volpony (dela ele musicou Contramaré, que dá título ao livro de estreia da arariense), o radialista Ricarte Almeida Santos e o jornalista Zema Ribeiro (que tem parcerias gravadas nos cinco discos de Gildomar). Ele também deve revisitar nomes como Erasmo Dibell (de quem gravou Navegante em Tocantes) e figuras da mpb como Belchior, Carlinhos Brown, Gilberto Gil e Noel Rosa.

“Serão apresentações descontraídas, em clima de confraternização”, promete. Hoje (9), às 21h, no Talkin’ Blues (Rua Auxiliar II, quadra 9, nº. 16, Cohajap), ele sobe ao palco às 21h, e terá como convidados Tutuca e Elizeu Cardoso; na sexta-feira (11), às 20h, no Buriteco Café (Rua Portugal, 188, Praia Grande), Gildomar terá como convidados, além de Tutuca e Elizeu Cardoso, Marconi Rezende, Chico Neis e Gabriela Flor. Em ambas as apresentações o couvert artístico individual custa R$ 10,00.

Uma rara oportunidade de prestigiar o talento de Gildomar por estas bandas. Após as apresentações em São Luís ele volta à Fortaleza, onde tem comandado a temporada pré-carnavalesca do bloco Hospício Cultural, no bairro do Benfica – o equivalente à nossa Madre Deus –, que tem reunido cerca de 10 mil foliões a cada ensaio, aos domingos. A música que puxa o bloco é dele e versa de maneira bem humorada sobre os desmandos da vida política nacional.

O homem-tambor volta à terra do tambor de crioula

Carlos Pial se apresenta amanhã e depois em São Luís. Percussionista conversou com o blogue com exclusividade

Ano passado, o percussionista Carlos Pial fez um dos melhores shows do ano, conforme modestamente elegi, na votação anual para o site Scream&Yell, a que compareço a convite do editor Marcelo Costa.

Foi no circuito São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen. Em um show de música instrumental, Pial botou literalmente o povo para cantar e bater palmas, com o fascínio que exerce sobre a plateia – à qual literalmente adentrou, enquanto fazia soar seus instrumentos.

Bruxo, mago, alquimista. Para além de clichês, estas são palavras que traduzem a atuação de Pial no palco. Maranhense radicado em Brasília, costumeiramente se referem a ele como homem-tambor. Não é à toa.

O músico se reencontra com o público maranhense amanhã (5) e depois (6), com o show Alquimia dos Sons, título do dvd que gravou em Brasília/DF, e com o qual tem percorrido o Brasil, com patrocínio do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

Os shows acontecem às 21h, na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), com entrada franca. Pial será acompanhado por Hamilton Pinheiro (contrabaixo), Misael Silvestre (piano e teclados), Westonny Rodrigues (trompete), Agilson Alcântara (violão) e Pedro Almeida (bateria). Quarta-feira (5) o instrumentista terá como convidado o Henrique Duailibe Trio; quinta (6) é a vez do Jayr Torres Trio.

Por e-mail, Carlos Pial conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Foto: Marcia Foizer

Pial, onde você nasceu e quais são as suas primeiras lembranças musicais? Quando você começa a se interessar por percussão e decidiu que dedicaria a vida a isso?
Nasci em Tocoíra, um lugarejo ribeirinho entre Viana e Cajari, baixada maranhense. Sou de família tradicional de músicos de sopro, onde até hoje continua a tradição repassada de pai pra filhos. Minha vó por parte de mãe era folclorista e tocava caixa do divino. Nasci no dia 30 de junho, dia de São Marçal, um dia fortíssimo e importante em nossa cultura. Daí imagino que, apesar de toda influência dos metais, o que aflorou mesmo em mim foi a caixa e as catracas que minha vó tocava.

Maranhense radicado em Brasília, você acabou por construir uma das mais sólidas carreiras como percussionista no Brasil, seja em seu trabalho como artista solo, seja como músico a serviço de outros músicos ou ministrando oficinas. Mas a gente sabe que chegar até este ponto nunca é fácil. O que você gosta de destacar nessa trajetória?
Vida de músico sabemos que é difícil, e a do percussionista termina ficando mais difícil por ficar sempre no plano de fundo nos palcos, onde só aparecem os guitarristas, tecladistas, enfim [risos]. Com todo respeito a todos os colegas músicos eu tive uma atitude arriscada e que depois ficou prazerosa demais: a coisa de sair da cozinha e vir pra sala. Mostrando a cara mesmo! Onde comecei a desenvolver minhas composições e ideias que eu vinha desenvolvendo e observando meus ídolos maiores: [os percussionistas] Papete e Naná Vasconcelos. Brasília pra mim foi e está sendo um portal para outros povos, por ser uma cidade super cultural e de bom gosto. Através dela estou nesta turnê e consequentemente em minha cidade, claro!

Alquimia dos Sons tem muito de misturas, mas há uma coerência em teu trabalho, não é um cozinheiro maluco jogando qualquer ingrediente na panela. Como foi conceber este espetáculo?
[Risos] Boa! Mencionei cozinha na resposta anterior. O lugar mais gostoso de minha casa, adoro cozinhar e de repente isso me ajudou a usar os ingredientes certos na hora certa. Desde o início do meu trabalho solo sempre misturei ritmos, ideias, foi realmente resultado de pesquisas de trabalhos de alto nível no decorrer desses anos musicais. Alquimia dos Sons tem um pouco de cada momento que venho percorrendo ao longo de minha carreira.

Títulos como Somambembe, Salsamba, Samba candango e Norjazzteando já dão pistas de algumas fusões que comparecem a tuas composições. O que te inspira?
Então, falei um pouco disso na resposta anterior [risos]. Eu nunca gostei da coisa tradicional, ritmo tal, ritmo tal. Uma coisa é um arroz branco muito bom, outra coisa é um arroz de cuxá. Com a mistura dos ingredientes fica melhor o arroz. Penso assim nas minhas músicas.

Vi sua apresentação na edição de São Luís do Lençóis Jazz e Blues Festival ano passado, que elegi na ocasião como um dos melhores shows do ano. Ali, pode-se perceber o domínio que você tem da plateia, botando o público para fazer coro em um show de música instrumental. A que você credita essa empatia?
Muito obrigado por esse elogio. Respondendo sua pergunta, eu brinco com os amigos que sou um cantor frustrado [risos]. Brincadeira! Assisti muitos shows instrumentais, de jazz e outros, onde o músico sola meia hora e na maioria das vezes o público não entendia nada, ficava bocejando e muitas vezes até ia embora. Eu via muitas vezes as pessoas falando mal da música instrumental, até por não conhecer. Via muito o Naná Vasconcelos interagindo e eu via resultados. Achei que poderia fazer isso também. Terminei fazendo com um estilo próprio, e por onde ando percebo que venho agradando públicos de todas as idades.

Uma coisa que também chama a atenção em teus espetáculos é o uso da tecnologia. Você está ao vivo no palco e já vai gravando e usando essas bases gravadas, dialogando consigo mesmo. Como foi desenvolver essa linguagem?
Dando sempre os créditos do que faço sempre, confesso que aprendi muito bem as dicas do saxofonista maranhense Sávio Araújo [radicado em Portugal], com que dividi o palco durante muitos anos. Ele e novamente o mestre Naná Vasconcelos, com quem tive a honra de passar alguns dias em São Luís, num trabalho. Ele me deu muitos toques e foi pioneiro nessa coisa de um percussionista usar tecnologia. Terminei desenvolvendo minha própria forma de usar esta faceta.

Você já citou Papete e Naná Vasconcelos. Quem são os percussionistas fundamentais para tua formação? Por quê?
Papete, Naná Vasconcelos, Jeca [Jecowski], Erivaldo [Gomes], Airto Moreira, Paulinho da Costa. Por quê? Por que eles são os melhores!

Qual a sensação de voltar a tocar em casa, recebendo como convidados amigos de longa data? O que o público pode esperar destas duas apresentações?
A sensação é maravilhosa! Tocar com Henrique Duailibe, um músico extraordinário, com quem toquei muitos anos. Foi ele quem deu a maior força e gravei meu primeiro CD em seu estúdio. Jayr Torres, um dos melhores guitarristas do mundo em minha opinião, somos amigos de adolescência eu vi todo seu crescimento musical. Foi no trabalho dele que eu toquei pela primeira vez num show instrumental e isso foi fundamental para meu crescimento no gênero. O que o público pode esperar? Muito suingue, quebradeira e muita emoção. Porque estou levando aqui de Brasília os melhores músicos da cidade e alguns dos melhores do Brasil.

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Assista Mãe Natureza (Carlos Pial):

O recado eletroacústico de Flávia Bittencourt

O encontro de Flávia Bittencourt e Sandra de Sá em Eletrobatuque. Foto: Zema Ribeiro

 

Um ótimo público compareceu à Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen), ontem (26) à noite, para a gravação de Eletrobatuque, novo dvd da cantora Flávia Bittencourt.

Com uma banda enxuta, um quarteto formado por Felipe Tauil (percussão), Rui Mário (sanfona), Daniel Silva (violoncelo) e DeepLick (dj). A formação explora um casamento harmonioso entre instrumentos acústicos e timbres eletrônicos, num passeio por diferentes vertentes musicais.

A cantora estava muito à vontade, inicialmente trajando um vestido vermelho – depois trocado por um preto e branco, mais esvoaçante. No fundo do palco um telão projetava a diversidade brasileira, entre desenhos do planeta Terra, retratos de indígenas e de João do Vale e Luiz Gonzaga – artistas homenageados por Flávia Bittencourt na ocasião.

Do primeiro, ela lembrou Na asa do vento (Luiz Vieira e João do Vale); o segundo é citado em Escavucando o nada, inédita que ganhou de presente do baiano Carlinhos Brown.

Joel Farias e Fernando Saraiva, bailarinos da Companhia Pulsar, emolduraram algumas canções. Flávia Bittencourt também dançou, senhora da cena e de si.

Simbólico vê-la e ouvi-la cantar O sal da terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), diante da histórica encruzilhada brasileira, o sucesso do mineiro Clube da Esquina de versos como “quero não ferir meu semelhante/ nem por isso quero me ferir”, “vamos precisar de todo mundo/ pra banir do mundo a opressão” e “um mais um é sempre mais que dois”.

O repertório passeou entre sucessos da carreira da artista – a autoral Sentido, que intitulou seu primeiro disco, de 2005 –, inéditas – Escavucando o nada e Roseira (Flávia Bittencourt), single que já vem tocando na Rádio Universidade FM (que a cantora citou, agradecendo) – e clássicos da MPB, destaque para Espumas ao vento (Accioly Neto) e De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel), interpretada por ela ao teclado, com direito a introdução em francês.

Momento muito aguardado da noite, a participação especial de Sandra de Sá começou bem humorada: Flávia Bittencourt havia sentado num banquinho e dedilhava um ukulele, cantando os versos iniciais de Bye bye tristeza (Carlos Colla e Marcos Valle), quando chamou a carioca ao palco. Ela subiu escovando os cabelos, anunciando o próximo número que fariam juntas: Olhos coloridos (Macau), sucesso também conhecido por “Sarará crioulo”, uma espécie de título alternativo que a música ganhou.

Como se tratava da gravação do show para registro em dvd, este repórter imaginou que haveria mais repetições, que o show seria mais burocrático. Pouca coisa precisou ser refeita, tamanho o entrosamento entre cantora, músicos, dj e convidada. Quando anunciaram que iriam regravar Bye bye tristeza, Sandra de Sá tirou onda: “eu vou entrar de novo, faz de conta que vocês não me viram ainda”. O público entrou no jogo e vibrou ainda mais que quando da primeira entrada. Quando o público pediu mais uma para Sandra de Sá, a anfitriã anunciou que iria guardá-la para o bis. Aos gritos de “joga fora no lixo!”, lembrando o hit Joga fora (Paulo Massadas e Michael Sullivan) – que ela acabou não cantando –, outros responderam “joga Bolsonaro no lixo!” e um coro de “ele não” se iniciou.

Já era hora do bis e Flávia, agora ao violão, cantou Mar de rosas (Rose Garden, de Joe South, versão de Rossini Pinto), contando com o vocal de Sandra de Sá. Outro número sintomático do espetáculo foi o grand finale, também dividido pelas duas, com Fora da ordem (Caetano Veloso).

O dvd chegará depois, a saciar a curiosidade dos que não compareceram ao show de gravação ou o desejo de replay de quem lá estava – aos mais atentos o recado está dado.

Troque uma onça e um mico leão por um ingresso

Eduardo Dussek. Foto Academia de Ideias. Divulgação

 

Mês passado a roteirista potiguar Milena Azevedo esteve em São Luís, ministrando uma oficina de roteiros para histórias em quadrinhos. O grande trunfo das 20 horas em que passamos juntos, no Condomínio Fecomércio, foi ela ter ido além dos quadrinhos, se valendo de exemplo de outras expressões artísticas para transmitir o conteúdo a que se propôs.

Logo no primeiro encontro ela botou a turma para ouvir Brega-Chique (O vento levou Black), parceria de Dussek com Luiz Carlos Góes. Se hoje a letra do hit-título de seu disco de 1984, popularmente conhecido como Doméstica, poderia facilmente ser rotulada de “politicamente incorreta”, serviu bem à professora para ilustrar os exemplo de reviravoltas e clímax necessários para o assunto naquele momento.

Eduardo Dussek se apresenta hoje em São Luís, na sétima edição do projeto Ponta do Bonfim: amizade, música e por do sol. Um grupo de amigos se reúne, desde 2011, para trazer artistas que eles mesmos gostariam de ver no palco, mas que por uma série de razões, nunca (ou quase nunca) sobem aos palcos da ilha. Vendem ingressos limitados e fazem a história acontecer em uma casa no bairro que dá nome ao projeto, onde o fundo de palco é São Luís vista de outro ângulo. A quem nunca foi, é realmente uma maravilha.

Por lá, em anos anteriores, já vi shows de Bruno Batista, Ceumar, Danilo CaymmiRenato Braz e, entre outros, Cida Moreira, cantora e pianista que, destaco aqui pelo que tem em comum com o destaque de hoje: ambos, além de cantar, atuam também no teatro. São atores. O que torna a música que fazem sui generis, com toda essa expressividade traduzida nas interpretações – no que voltamos à Brega-Chique com que abro este texto. A propósito: dele, ela gravou Singapura, em Abolerado blues, seu disco de 1983.

Dussek também é bastante lembrado por Nostradamus, com que participou de festival da TV Globo em 1980, e o Rock da Cachorra, composição de Léo Jaime com que acabou flertando com a cena do chamado rock brazuca, na mesma década.

O artista, outro arquiteto da música (nem tão) popular brasileira – estudou arquitetura, além de música e teatro –, é único em sua mescla de bom humor e erudição, termos que bem poderia usar entre os parênteses onde convencionalmente se lê “letra e música”.

Sua apresentação hoje na Ponta do Bonfim será antecedida pelo dj Jorge Choairy, que, a julgar pela relação que sempre promove entre seu set list e o show ao vivo no palco, deve caprichar no escracho – não nego a curiosidade. Na sequência é a vez do show Caros Amigos, que marca o encontro de Marconi Rezende, Tutuca, Gabriela Flor e Chico Neis, que passeiam por um repertório de clássicos da MPB e da música popular produzida no Maranhão, incluindo temas autorais.

A programação da Ponta do Bonfim começa às 15h30 e os últimos ingressos disponíveis (R$ 70,00) podem ser adquiridos pelos telefones (98) 3235-5844, 99166-8736, 99117-0970.

João Omar: muitos anos de jornada

“Anda, muntemo o mondengo pra nóis í prá lá” é o verso que fecha Na quadrada das águas perdidas, faixa-título do elepê que Elomar lançou pela Discos Marcus Pereira em 1979.

Muntano o mondengo é o nome do concerto que o compositor apresenta, acompanhado do filho João Omar, amanhã (24), em São Luís, às 20h30, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro) – os ingressos custam entre R$ 60,00 e 100,00 e estão à venda na bilheteria do teatro.

A expressão que batiza o espetáculo significa “tomando a iniciativa” e traduz a forma como um artista outsider – com o perdão do estrangeirismo que ele próprio condenaria – consegue percorrer o país: depois de passagens por Recife e João Pessoa, Elomar chega à São Luís trazido por um fã.

“Um cavaleiro”, “um idealista”, certamente adjetivaria o próprio Elomar, sobre Aidil Filho, o fã transmutado em produtor ocasional. Elomar costuma dizer não ter fãs, mas cúmplices: é a mais pura verdade.

Outra coisa que o título do concerto expressa é a sintaxe sui generis da obra de Elomar Figueira Melo, 80, arquiteto de formação, baiano de Vitória da Conquista, toda construída sobre o que o próprio chama de “linguagem dialetal sertaneza”, objeto de estudos acadêmicos por nomes de peso como Jerusa Pires Ferreira e Ernani Maurílio, para citarmos apenas dois – autores do rico glossário de elepê Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar, lançado pela Kuarup em 1986.

Além dessa espécie de língua própria, que nem de longe torna sua obra hermética, não para além do desinteresse da grande mídia e consequentemente do grande público, há uma geografia particular, que mescla a que circunda o chão em que nasceu e onde vive, e um mundo habitado por cavaleiros, vaqueiros, tropeiros, princesas, donzelas, retirantes, bois “incantados” e muitas referências bíblicas – sobre o que se destaca o livro Tramas do sagrado: a poética do sertão de Elomar [Vento Leste, 2007], de Simone Guerreiro.

Somando-se tudo isto, temos um artista de mitologia própria, para o qual contribuiu também sua fama de recluso. Elomar não dá mais entrevistas – e são raras as que concedeu ao longo da carreira. Quem conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos foi seu filho João Omar, violonista que o acompanha em mais esta passagem por São Luís – a última já conta quatro anos.

Ao longo da entrevista, João Omar sempre se refere a Elomar como “meu pai” ou “o bode”, apelido que ganhou dos animais que cria na fazenda Casa dos Carneiros, paisagem de sua Cantiga de amigo (1973), e que inspiraram o cartunista Henfil (1944-1988) a criar o Bode Francisco Orellana.

João Omar, vocês passam por São Luís trazidos por uma produção não profissional, um fã idealista. Isso traduz a afirmação de Elomar de que não tem fãs, mas cúmplices. Este tipo de iniciativa é uma alternativa para artistas que não estão na programação de rádios e tevês?
Estamos nessa jornada de tropeiros, vamos dizer assim, tropeiros da música. Essa produção de fã, o Aidil, que se propôs a fazer isso, é algo que, de uma certa forma, revive tempos passados, no qual não havia produtores, na realidade havia esses amigos que articulavam apresentações. Um detalhe para o qual eu sempre costumo chamar a atenção, daquela época, é o seguinte: antes havia mais encontros, inclusive, os artistas iam para a casa dos amigos, se encontravam mais uns com os outros e chegavam a produzir coisas interessantes, encontros que mudavam até mesmo o rumo de suas carreiras, ou que influenciavam. Um encontro destes, por exemplo, foi o do meu pai com o Henfil. Depois desse encontro, foi tão impactante para o Henfil, que ele criou o personagem do bode que comia livros etc. Então é isso, é uma produção de fã, de malungo, a gente fez em Recife, em João Pessoa, mas não obstante a isso meu pai tem uma produtora que acompanha ele e também presta esse agenciamento, a Rossane Nascimento.

Qual será a base do repertório em São Luís?
O repertório é de algumas das canções antigas dele, que eu até me impressionei de meu pai retomar, para estudar o violão, por que não é fácil recordar músicas que tocou há muito tempo, como Cavaleiro do São Joaquim, que é do primeiro disco dele [Das barrancas do Rio Gavião, de 1973]. Tem trechos de óperas, como a ópera A carta, a Faviela, que já é uma canção conhecida, mas que faz parte de um quadro de ópera. Eu executo também alguns solos de violão do disco que eu gravei, Ao Sertano [2015], e a gente faz esse passeio, procura evocar essas tropas, essas cantigas de tropeiro nessa apresentação, mas não fica só nesse território. E meu pai, que gosta muito de contar histórias, ele vai falar bastante sobre o que ele tem feito.

O nome do espetáculo, verso de Na quadrada das águas perdidas, significa tomemos a iniciativa, outra tradução de um fazer artístico ímpar. A seu ver, o que é mais interessante e único na obra de Elomar, tão diversa em formatos e temáticas?
Na realidade o que eu acho interessante é meu pai conseguir viver, conviver com o povo do lugar, com vaqueiros, tropeiros, trabalhadores rurais, e conseguir absorver a cultura deles, o linguajar deles, as crenças, toda essa coisa, e transformar em um trabalho autêntico, por que na realidade o trabalho dele é singular, não tem assim alguém parecido aqui no Brasil. Existem sim pessoas que se influenciaram por ele, mas é um trabalho muito único, muito próprio dele, no qual ele também se inspirou nos trovadores medievais, para fazer as cantigas, sofre sim essa influência. Mas ele também bebeu na seresta, nos ritmos nordestinos, no xaxado, no martelo, então o trabalho dele tem essa singularidade de poder conviver e extrair dali e fazer um trabalho único, que não é necessariamente cópia de músicas tradicionais, da música tradicional do sertão.

Sua entrada no meio musical era inevitável sendo filho de Elomar? Você chegou a aprender outros ofícios?
Eu comecei desde cedo a estudar música, estudei junto com meus irmãos, minha irmã e meu irmão, mas eu que segui no estudo com mais dedicação. Eu chegava a ir para a fazenda estudar oito horas de violão e meu pai percebendo isso, na realidade ele não me deu aulas de violão, eu que ficava olhando ele tocar e tentava copiar. Ele pelo menos ensinou onde era o dó no violão e nós saímos lendo métodos de violão. Mas ele me pôs nos palcos, quer dizer, nós três, tocando flauta doce, eu com sete anos de idade, meu irmão com oito e minha irmã com nove. Mas só aos 14 anos que eu me apresentei mesmo com um violão, com ele, lá em [Vitória da] Conquista. A partir de lá venho acompanhando ele nessa jornada, que já faz muitos anos [risos]. E sempre essa parceria, de Dom Quixote e Sancho Pança, por esse Brasil afora, tentando levar essa cultura, essa arte, essa música, sei lá, resgatar culturas, resgatar não, guardá-las, guardar tesouros e fazer com que as pessoas se encontrem com esses tesouros de alguma forma.

Das barrancas do Rio Gavião está completando 45 anos em 2018. Alguma deferência especial a seu repertório durante o concerto?
Sim. Ele vai fazer a música Cavaleiro do São Joaquim, que fala praticamente dele. Ele como o menino do São Joaquim, como nascido nessa região, que na realidade é em [Vitória da] Conquista. É um disco maravilhoso, que fez esse lançamento incrível e teve sim uma repercussão muito importante. Vinicius de Moraes escrevendo [o texto de apresentação do disco] atrás, na capa dele, então meu pai está revivendo essa música assim, nesse concerto. Está no repertório.

Você era bastante jovem quando gravou violões em Xangai canta [cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de] Elomar, em 1986. Foi tua primeira experiências profissional? Relembra um pouco aquele período e os bastidores desta gravação.
A gravação do disco de Xangai nessa quadra foi um momento mágico pra mim. Primeiro que eu comprei meu primeiro violão com meu dinheiro, meu cachê, na época, que meu pai me deu. Comprei o Shigemitsu Sugiyama, que eu toquei, estou tocando com ele. Um amigo meu, [o violonista] Cao Alves, levou em São Paulo, deu uma reajustada no violão, está ótimo. Naquela quadra, os bastidores da gravação, me lembro que estava lá o Mário de Aratanha, que era da Kuarup, meu pai e Xangai, meu pai tocando pra Xangai cantar, ele escrevendo arranjos, acho que foi uma das primeiras vezes que ele escreveu para instrumentos de corda e sopro. Então ele estava naquela dúvida: “será que eu consigo escrever bem para esses instrumentos?”. Então, ele estava no chuveiro e falou: “é, Deus me ensina a escrever pra esses instrumentos”. Meu pai é muito cristão, a fé dele é muito forte, inclusive tem lá a gravação de A meu Deus um canto novo, já com arranjo de Jacques Morelembaum [violoncelista], já a segunda vez que Jacques estava junto com meu pai, primeiro foi no Auto da Catingueira [1983], e depois lá, nessa gravação. Foi um momento muito especial, músicos excelentes, um ambiente muito agradável. E pra mim é um dos discos mais belos que Xangai já gravou, Xangai canta cantigas, incelenças, puluxias e tiranas de Elomar. É um apanhado de gêneros que meu pai faz e que também de certa forma evoca tropeiros e vaqueiros.

Apesar da aversão de Elomar à internet, você acredita que ela traz novos admiradores, sobretudo de novas gerações, à sua obra? A propósito, como vocês lidam com o fato de o consumo de música hoje se dar majoritariamente por via digital?
Traz novos admiradores, eu mesmo encontrei com uma moça, lá em Belo Horizonte, quando nós fomos tocar, que ela disse que encontrou meu pai no youtube, por que estava em reprodução automática, e ela achou curioso e buscou mais músicas, viu que ele estava se apresentando em Belo Horizonte, no Sesc, então ela foi conferir, foi assistir, gostou muito. É muito curioso ter um público jovem indo a concertos de meu pai. Mas quanto à questão de mídias digitais, acho que meu pai preferiria até o vinil. Ele acha que essa reprodutibilidade assim é uma coisa ruim para o artista, por que afinal de contas ele faz o disco, todo mundo copia, todo mundo solta na internet de forma gratuita. Na realidade querem uma gratuidade que é o pão que o artista ganha.

A cantora Titane lançou recentemente um disco [Titane canta Elomar – Na estrada das areias de ouro, 2018] inteiramente dedicado ao repertório de Elomar. Em entrevista, ela reconheceu a força que vocês deram a ela durante todo o processo. O que vocês acharam do resultado final?
A Titane fez essa gravação desse disco, foi uma inspiração dela, por que ela participaria na gravação do dvd do Auto da Catingueira. Mas como não foi adiante, ela acabou se envolvendo mais de perto com a obra dele e resultou nisso, na gravação de um disco. Ela é muito segura, ela tem o jeito próprio dela de cantar, uma pessoa muito profissional, muito carinhosa, muito carismática. Ela aproximou do bode, foi na fazenda, acho que a produção de um disco foi muito boa, ainda mais com músicos que trabalharam também nas transcrições das canções dele, como o Hudson Lacerda. Nós gostamos muito do cuidado dela, do interesse dela, e meu pai tem, de certa forma, permitido gravações de músicas dele por muitos grupos diferentes. Para o seu susto, ou para o susto do público, dois rappers no Rio de Janeiro gravaram O violeiro, foi uma autorização que meu pai deu. Ele gostou muito de ver como pessoas de um grupo, de uma cultura diferente, escolherem uma música dele, em dialeto, pra fazer o rap. Foi muito interessante, nesse sentido. A Titane não, ela já é da cantoria, dessa música popular, da música popular mineira, ela é uma representante já tradicional, uma pessoa conhecida da gente de muito tempo. Então, é muito mais tranquilo nesse sentido, de absorver o trabalho de meu pai, de traduzi-lo, e de produzir algo, assim, dentro de uma estética, com todo cuidado que ela merece. E na realidade, a apresentação é muito bonita, a apresentação de lançamento que ela fez, toda a parte cênica maravilhosa, ela está de parabéns.

O disco mais recente de Elomar é O menestrel e o sertão mundo [2016], gravado com a Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense. Há quatro anos vocês passaram por São Luís com o concerto Ensaiando o Riachão do Gado Brabo, supostamente título de um novo disco. Como está este? Há planos de novo disco ou novos discos?
Gravamos esse disco com a orquestra da UFF e foi uma experiência maravilhosa, músicos excelentes, o maestro Tobias [Volkmann], de uma educação e de um acolhimento incríveis. Foram todos muito cuidadosos e foi um momento muito especial. Gostei muito de executar a Antífona [Número 11 Alfa, Ecos de uma Estrofe de Habacuque] para violão e orquestra, foi uma experiência incrível tocar com eles. Apresentamos lá, em Niterói e na [Sala] Cecília Meireles. O Riachão do Gado Brabo está parado, está a metade já gravado, e ainda falta concluir o restante. Meu pai é meio enrolado nesse sentido [risos], confesso. Talvez que ele se preocupe mais em escrever do que em gravar as músicas, por que a escrita perpetua muito mais do que a gravação. Então ainda está em projeto a conclusão deste trabalho. Eu não sei te dar uma data, nem te dar maior segurança quanto a quando ele vai estar pronto. Mas é sim um projeto. Esse seria o que poderia ser considerado como o último disco cancioneiro dele.

Além de músico acompanhante de teu pai há bastante tempo, você desenvolveu uma carreira acadêmica e uma carreira como solista e concertista de violão. Como é administrar estas agendas todas?
Não tem sido nada fácil administrar, por que eu tenho que cuidar de orquestra jovem, eu sou atualmente coordenador do Núcleo Neojiba, lá em Vitória da Conquista. Neojiba são Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Tenho que trabalhar, desenvolver outros trabalhos, arranjos para cd, as composições próprias, que eu também trabalho em composição, sair para concertos, realmente é uma agenda que está bem apertada. Mas eu tenho procurado dar conta dela, ou seja, 24 horas com música. Eu acredito que nós temos um trabalho importante a fazer, registrar, escrever, e a gente tem que buscar mais apoio pra ter um tempo mais específico pra dedicar, e talvez até dizer não para muitas propostas, se não o tempo não dá para produzir tudo. Mas eu tenho me dedicado sim a tocar com meu pai, primeiro por que já tocamos há tanto tempo, é uma parceria, já somos muito malungos na realização das apresentações, ele confia muito em mim, na pegada de meu violão para fazer o apoio junto com ele, nos entendemos imediatamente. Ele está cada vez mais cansado, já está com 80 anos, não é muito fácil sair viajando para tocar. Então, cada vez mais serão menos apresentações, e provavelmente as apresentações tenderão a ser mais lá mesmo, na localidade da gente, em Vitória da Conquista, lá na fazenda Casa dos Carneiros, onde ele construiu uma caixa cênica para realizar óperas, e tem também a sala, que é o Teatro da Lírica Mineira, uma sala menor, bem menor, mas para música de câmara, acústica. Então, não é fácil dar conta disso tudo, mas eu estou grudado, junto com o bode. É uma briga doida a gente, falando a verdade, eu sempre reclamo com ele sobre instrumentação, orquestração, e tal, mas no fundo ele me ouve, a gente acaba se entendendo em relação à produção dessas coisas, por que tem toda uma parte técnica, que a gente tem que passar a limpo partituras, para que esse universo da música sinfônica, esses músicos sinfônicos compreendam de forma melhor, uma música que pra eles ainda é nova ou está distante da própria cultura tradicional europeia. Então, precisa de muitas indicações, meu pai às vezes despreza essas indicações, mas eu sempre repito pra ele que é importante a gente encher de indicações pra que eles entendam e consigam mergulhar cada vez mais na música dele.

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Ouça Calundu e Cacoré (Elomar), com João Omar:

João Donato: “São Luís pra mim é o presente”

Pianista completa 84 anos hoje (17), quando se apresenta na cidade. Por telefone, ele conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos

Foto: Clever Barbosa

“São Luís pra mim é o presente”, me diz um simpático e sorridente João Donato, ao telefone, quando lembro-lhe a feliz coincidência: hoje (17), data em que completa 84 anos, ele se apresenta no Circuito São Luís do 10º. Lençóis Jazz e Blues Festival, na Concha Acústica Reinaldo Faray (Lagoa da Jansen).

O show do pianista acriano radicado no Rio de Janeiro, um dos inventores da bossa nova, acontece às 21h20, entre os de Gabriel Grossi e Taryn Szpilman – toda a programação do festival é gratuita. João Donato (piano) se apresenta acompanhado por Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo) e Ricardo Pontes (saxofone), um timaço que o acompanha “há 30, 40 anos”.

 

Outro presente que João Donato acaba de receber é o troféu de melhor disco na categoria música eletrônica do 29º. Prêmio da Música Brasileira, realizado na noite da última quarta-feira (15), no Theatro Municipal do Rio. O disco em questão é Sintetizamor, dividido com o filho Donatinho.

Sintetizamor. Capa. Reprodução

Sintetizamor é um trabalho que eu fiz com meu filho Donatinho, aliás, é mais trabalho dele do que meu”, comenta, modesto.

E continua, com a naturalidade de quem está acostumado, ao comparar a sensação de ganhar mais um prêmio a vencer um torneio de tênis: “É como ganhar um torneio de tênis, sei lá o quê. A sensação é a de que o que a gente está fazendo está dando certo, está sendo compreendido”, afirmou.

Na conversa rápida por telefone, Donato riu quando lembrei-lhe seu encontro com Marc Fischer, jornalista alemão que se suicidou antes de ver publicado Ho-ba-la-lá – à procura de João Gilberto [Companhia das Letras, 2011]. Ao recebê-lo fumando, é interpelado pelo repórter: “você deve ser o último brasileiro que ainda fuma”, no que o pianista retruca: “e provavelmente o último brasileiro vivo”, cito de memória.

A Mad Donato. Capa. Reprodução

Vivíssimo, acaba de lançar A Mad Donato [Discobertas, 2018], box com quatro cds – os inéditos Gozando a existência (1978), Naquela base (1988) e Janela da Urca (1989), além de um cd de raridades, incluindo encontros com Alaíde Costa, Djavan e Nara Leão.

“São músicas que não entraram nos meus outros discos anteriores por falta de espaço, ou por que não combinavam com o repertório. Pegaram o que sobrou, fizeram um apanhado, o Marcelo Fróes, e chamaram de Raridades. Músicas que não foram lançadas nos discos, mas que eram para ter sido lançadas quando foram gravadas. Tem uma gravação minha com a Nara Leão, mas nunca saiu”, comenta sobre o quarto disco da caixa.

E completa, sobre o conjunto: “Sobra sempre muita coisa nas gravações. Ou falta. Quando falta eles inventam qualquer coisa pra completar. E quando sobra fica pra trás e se perde no tempo, a não ser que venha alguém colecionando essas coisas antigas, como aconteceu agora, essa caixa com quatro discos”.

João Donato segue fazendo história, tendo e nos dando vários motivos para celebrar, inclusive o show de hoje à noite. “Vai ser animado, as músicas que a gente gosta de tocar e que as pessoas gostam de ouvir”, promete.

Uma força da natureza

Foto: Fernanda Torres

 

Leila Maria não é apenas uma cantora: é uma força da natureza.

Força é palavra que bem a define, justamente por nunca ter vestido a camisa de, que quase sempre predestina as cantoras brasileiras e negras ao samba. Se rebolar, então…

Por falar em rebolado, Leila Maria dança o jazz.

O jazz pelo qual se apaixonou quando, criança, ouviu Night and day, de Cole Porter, na interpretação de Frank Sinatra.

“Eu achava que era música de velho. Eu era criança. Meu pai viajava muito, trazia discos, botava para ouvir, minha mãe dançava. Eu já estudava inglês, sou professora de inglês. Um dia eu prestei atenção na letra e foi uma paixão que eu carrego até hoje”, revelou.

A música foi um dos números do repertório de altíssimo nível apresentado pela cantora, ontem (27), no Teatro Arthur Azevedo, durante a cerimônia de lançamento da 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival.

Falar em altíssimo nível em se tratando de Leila Maria é fácil: é capaz de ela arrepiar o público cantando até um simples parabéns a você.

Não é para qualquer uma ser chamada de “a voz brasileira de Billie Holiday”, como a crítica especializada costuma se referir a ela, que dedicou um disco, vencedor do Prêmio da Música Brasileira, ao repertório da americana.

A noite foi a grande escola de Leila Maria, os pianos-bares cariocas: o luxuoso Hotel Novo Mundo, a Modern Sound, entre outros palcos privilegiados. Na verdade, privilegiado é o público que a prestigia. “Vocês precisam saber: vocês também são parte do show. Se a gente saísse de casa e vocês não estivessem aqui, não era show, era ensaio”, disse, simpática e sincera.

Quando cantou Cry me a river (Arthur Hamilton), tirou onda: “alguém aí lembra da Kelly Key? Ela dizia “baba, baby, baby, baba”. Essa música é a mesma coisa. Quando eu cantava na Modern Sound, cantei três anos lá, as pessoas puxavam as giletes para cortar os pulsos. Tem uma coisa de vingança muito forte nessa letra. Você pisa e depois quer de volta? Nããããão…”. De música em música e história em história, conquistou e encantou o público.

Acompanhada por Fernando Costa (piano e vocais), Ricardo Costa (bateria) e César Dias (contrabaixo acústico), Leila Maria desfilou um repertório predominantemente cantado em inglês. Senhora do palco, deixou margem para o trio exibir seus talentos individuais, sobretudo em A night in Tunisia (Dizzy Gilesppie), tema originalmente instrumental que ganharia letra a pedido de Ella Fitzgerald.

Em português, com divisão diferenciada, cantou Desafinado (Tom Jobim/ Newton Mendonça), que dá título – Off key, em inglês – ao disco que ela dedicou a temas da bossa nova que se transformaram em standards de jazz lá fora.

“Agora eu vou cantar um samba. Mas eu vou cantar em inglês, que é para a discrepância ser maior”, gracejou, antes de mandar So nice, versão para o Samba de verão, dos irmãos Vale, Marcos e Paulo Sérgio.

Por falar em irmãos, os irmãos Gershwin, George e Ira, também compareceram ao repertório: The man I love abriu a apresentação da cantora e Summertime encerrou a noite.

“Apesar de ter conhecido pouco, eu adorei a cidade de vocês. Espero voltar mais vezes”, derramou-se. Com certeza o público que a viu ontem também espera. A julgar pelo show de lançamento e pela programação anunciada vai ser bonita a grande festa de comemoração pelas 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival.

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10 ANOS DE UM FESTIVAL NOTA 10!

[textinho que tive a honra de escrever para a programação do evento, distribuída desde ontem]

Uma década de existência ininterrupta consolida qualquer festival no calendário cultural de qualquer lugar. É o que celebramos nesta 10ª. edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, que em 2018 segue firme em seus propósitos: a diversidade de linguagens, a formação de plateia, o intercâmbio, a qualificação de integrantes da cadeia produtiva da música, através das oficinas, e, é claro, muita diversão.

O êxito do festival, ao longo desse tempo em que é realizado, deve-se a uma conjugação de fatores: a qualidade dos artistas convidados e, consequentemente, de suas apresentações, as belezas dos cartões postais em que se insere – diversos pontos das cidades de Barrerinhas, “capital” dos Lençóis Maranhenses que batizam o evento, e São Luís, capital do Maranhão, tão diverso culturalmente.

Por falar neste aspecto, importante ressaltar a troca sempre promovida, não apenas entre músicos, ao juntar atrações nacionais a atrações locais, valorizando a estrada percorrida por artistas em sua missão de “ir aonde o povo está”, como cantou o poeta, mas também, antenas ligadas, como é dever de qualquer festival que se preze, apontando para o futuro, descobrindo novidades, antecipando tendências.

10 edições é um marco por si só histórico. Mas “um mais um é sempre mais que dois”, como cantou outro, e há coisas que a matemática pura e simples não explica, ao menos não completamente. Não são 10 edições quaisquer: em 2018 completam-se 10 edições do Lençóis Jazz e Blues Festival, a que se deseja vida longa, pois muito ainda há por fazer e mostrar ao público do Maranhão – e que vem de outros lugares para prestigiar. Você, aí: junte-se a eles! Junte-se a nós!

Um terreiro apimentado

Foto: Zema Ribeiro

 

Entre os muitos presentes à Praça Maria Aragão nesta noite de São João – como de resto por outros arraiais por onde a maranhense Alexandra Nícolas passou com seu show Feita na pimenta –, poucos devem ter percebido estar diante de um show nacional, embora a artista tenha recebido o mesmo cachê de um/a artista local.

Longe de pretender aqui determinar uma hierarquia, sobretudo em detrimento do artista local. Digo isto tão somente para apontar que a artista trouxe a São Luís parte do grupo com que gravou seu segundo disco no Rio de Janeiro e frisar o profissionalismo com que encara qualquer compromisso, numa preocupação que inclui repertório, arranjos, figurino e, sobretudo, conquistar a aprovação do público.

O show de hoje começou atrasado, por conta da apresentação de uma dança country que não consta na programação do arraial. Como Alexandra Nícolas tinha outra apresentação agendada também para hoje, no Arraial do Sesc, precisou deixar o palco cantando menos do que o previsto. Mesmo com uma apresentação menor, ao longo dela a cantora conseguiu interagir com o público, botando o povo pra cantar e dançar junto.

“Quem aí troca um chamego por um like? Eu não troco”, perguntou e respondeu antes de mandar Chamego encantado (João Lyra/ Zeh Rocha): “ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, que chamego bom/ ai, ai, é um chumbrego só/ tô ficando assanhadinha/ vem dançar, me dá um nó”.

O repertório privilegiou faixas de Feita na pimenta – o locutor ao chamá-la ao palco cravou um “feito na pimenta”, que ela corrigiu com elegância, ao cantar a faixa-título (Marco Duailibe), cujo compositor estava na plateia. Antes, ensinou o refrão: “feita na pimenta/ feita na pimenta/ vê se não me atenta/ que eu sou feita na pimenta”, que o público imediatamente repetiu. Tá pegando fogo e Forrobodó, ambas de Betto Pereira, também não deixaram ninguém parado.

“Vamos conversar mais um pouquinho enquanto eles se resolvem”, ganhou tempo enquanto os técnicos ajustavam o som. “Maestro, me avisa quando for a hora”, pediu a João Lyra. “É hora de olhar pra quem está do seu lado”, provocou, antes de cantar Teu (Zeca Baleiro/ Anastácia). “Essa eu ganhei de Zeca Baleiro e ele cantou comigo no meu disco”, contou, emocionada.

Discípula de Jackson do Pandeiro, ela incluiu em seu roteiro De Teresina a São Luís (João do Vale/ Helena Gonzaga), O canto da ema (João do Vale/ Ayres Viana/ Alventino Cavalcante) e Na base da chinela (Rosil Cavalcanti/ Jackson do Pandeiro), esta com a letra incompleta, mas traduzindo bem o espírito da noite.

“Eu agora vou me despedir de vocês, mas pergunto: alguém aqui, nas próximas eleições, pretende votar em fuleiro?”, perguntou, para um “não” em uníssono. E mandou o Coco fulero (João Lyra/ Zé Rocha), delicioso trava-língua de cunho político, durante o qual apresentou a banda, um luxo só: Bebê Krammer (sanfona), Rui Alvim (saxofone) – impressionante o diálogo entre seus instrumentos –, João Lyra (guitarra, arranjos e direção musical), Arlindo Carvalho (percussão), Fleming Bastos (bateria), Regina Oliveira, Natália Coelho e Suassuna (vocais).

O povo queria mais, não sei se pelo costume do “mais um” ou se pelo show ter sido menor. Mas não há show menor quando se tem Alexandra Nícolas no palco.

O tempo do Tira-Teima

Foto: Zema Ribeiro

 

O Tira-Teima tem um tempo todo particular. Grupamento de choro formado em meados da década de 1970 em São Luís do Maranhão, somente em 2016 gravou o primeiro disco, Gente do Choro, cujo show de lançamento aconteceu somente ontem (19), no Teatro Arthur Azevedo.

O septeto que subiu ao palco ontem já difere do que gravou o disco, numa demonstração inequívoca de que o Tira-Teima é uma verdadeira escola, por onde passam grandes instrumentistas, do qual Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), único remanescente da formação original, acabou, por isso, firmando-se como uma espécie de líder natural.

Após um texto lido em off pelo jazzófilo Augusto Pellegrini, a poeta Vanda Cunha recitou uma espécie de currículo artístico do Tira-Teima enumerando qualidades e grandezas e  pedindo à plateia uma salva de palmas para o grupo – a cortina ainda estava fechada e ela atrapalhou-se para encontrar a fresta e tornar aos bastidores.

A noite foi aberta por Gente do Choro (Paulo Trabulsi), choro cantado interpretado por Zé Carlos (pandeiro e voz), cuja letra versa sobre o ofício do chorão, por ruas e bares, entre a música como profissão e diversão.

O Tira-Teima tocou durante cerca de hora e meia, desfilando repertório inteiramente autoral, entre faixas de Gente do Choro e inéditas, algo raro de se ver e ouvir em rodas de choro, em que quase sempre se pescam peças mais populares do vasto repertório chorístico brasileiro. Seguiram-se Companheiro (Francisco Solano e Paulo Trabulsi) e Meiguice (Paulo Trabulsi).

“É uma alegria, uma satisfação muito grande estar aqui, realizando este show de lançamento de nosso cd. A felicidade é maior ainda por sabermos que estamos entre amigos. Todos aqui são amigos e parceiros”, afirmou Paulo Trabulsi, agradecendo a presença de todos, com o público presente ao teatro comprovando o que já é sabido: o choro não é música de multidões, tampouco modismo, com fiéis ouvintes dispostos a boas doses de boa música em qualquer tempo, em qualquer templo – como Luiz Jr. se referiu ao Arthur Azevedo, merecidamente.

Em Imbolada (Serra de Almeida), um casal entrou dançando, a demonstrar que o choro também é música para tanto. Ainda mais quando em diálogo com o maxixe e puxada à embolada nordestina, com destaque para a flauta do autor.

Serra de Almeida puxou do cofo de inéditas Os degraus da matriz, lembrando a escadaria da igreja em que brincou na infância, em sua São Bernardo natal, no interior do Maranhão.

O potiguar Wendell de la Salles, sempre saudado como uma espécie de integrante honorário do Tira-Teima, com seu bandolim, substituiu o cavaquinho de Paulo Trabulsi em Dom Chiquin (Serra de Almeida), formação mantida para Anjo meu (Wendell de la Salles), que ele compôs em homenagem à sua filha, e Aguenta seu Florêncio (Wendell de la Salles), homenagem ao avô, que um dia vacilou com a porta do guarda-roupa aberta e o menino Wendell descobriu um cavaquinho e consequentemente a música. Para sempre!

O grupo voltou a ter a formação do início do show – na foto, em sentido horário, Zé Carlos (pandeiro e voz), Henrique Brasil (percussão), Sadi Ericeira (cavaquinho centro), Serra de Almeida (flauta), Paulo Trabulsi (cavaquinho solo), Francisco Solano (violão sete cordas) e Luiz Jr. (violão sete cordas) – para executar Choro nobre (Serra de Almeida) e Expressivo (Paulo Trabulsi). Na sequência, músicos e plateia assistiram ao belo duo de sete cordas dialogando em Teimosinho (Luiz Jr.), momento em que o flautista aproveitou para dar uma conferida no whatsapp.

Luiz Jr. anunciou o próximo convidado: “meu professor”, disse, referindo-se ao violonista João Pedro Borges. “Vou aproveitar para fazer logo a propaganda: nós estamos trabalhando no Festival Internacional de Violão, que trará grandes instrumentistas à São Luís e terá direção do grande Turíbio Santos”, anunciou sem dar maiores detalhes.

Na sequência, todos os músicos deixaram o palco, exceto Serra. Flauta e seis cordas dialogaram em Simples como Serra (João Pedro Borges), faixa que fecha Gente do Choro. “É um enorme prazer estar entre amigos, com este grupo que vi nascer. Faço minhas as palavras de Tom Jobim: eu só faço música por encomenda. Mas antes que se pense em algo mercantilista, algumas encomendas vêm do coração e meu coração me encomendou essa homenagem a este grande amigo”, declarou o convidado especial.

Com a volta do grupo ao palco, Carlinhos da Cuíca cantou Pra ser feliz, música que o cearense Léo Capiba (1947-2014), outro ex-integrante do Tira-Teima, compôs em homenagem à sua esposa Sandra, registrada com a voz do autor em Gente do Choro. Depois Zeca do Cavaco emprestou a voz à futebolística Zona do agrião (Léo Capiba) e a Apelo, registrada no disco como de autor desconhecido, mas ontem corretamente creditada a Nhozinho Santos, pianista da Rádio Timbira, homônimo ao industrial que “inventou” o futebol por aqui e acabou dando nome ao estádio municipal.

Ricarte Almeida Santos, “embaixador do Choro no Maranhão”, comenda conferida pelo Instrumental Pixinguinha, leu um texto em que passeou pela trajetória e importância do grupo, destacando os talentos individuais de seus integrantes atuais e destacando nomes de outrora, como Adelino Valente, Antonio Vieira, Arlindo Carvalho, Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Fernando Cafeteira, Sérgio Habibe e, entre outros, Ubiratan Sousa, autor do choro que dá nome ao grupo, infelizmente não registrado em Gente do Choro nem lembrada no repertório de ontem.

Por vezes o som tentou atrapalhar, mas a noite seria memorável acontecesse o que acontecesse.

No bis o grupo, com o reforço de Wendell de la Salles, acompanhou em Gente do Choro o coro de vozes de ​Anna Claudia, Augusto Pellegrini, Carlinhos Cuíca, Fátima Passarinho, Gabriela Flor, Quirino, Zeca do Cavaco e até a jornalista Edivânia Kátia (assessora e produtora do grupo e do show de ontem).

Disco lançado, missão cumprida. Votos de vida ainda mais longa ao Tira-Teima, que ontem, mais uma vez, botou essa gente do choro para sorrir de alegria e êxtase.