O racismo nosso de cada dia

Foto: Adeloya Magnoni. Divulgação
Foto: Adeloya Magnoni. Divulgação

​O título é um spoiler: Traga-me a cabeça de Lima Barreto trata realmente disso. A peça foi apresentada ontem (22), no Teatro ​​Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jd. Renascença II), integrando a programação do projeto Palco Giratório.

Interpretado por Hilton Cobra, o monólogo da carioca Cia. dos Comuns, livremente baseado nos livros Diário íntimo e Cemitério dos vivos, obras póstumas de Lima Barreto, simula um julgamento do escritor pelo I Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado em São Paulo, em 1935, pela Sociedade Brasileira de Eugenia, fundada por Renato Kehl, um racista que se supunha cientista. O ator em cena dialoga com áudios e textos projetados na tela, remontando falas do citado congresso e trechos de seus anais.

Ainda não se haviam completado 50 anos da abolição da escravidão no Brasil e as teses fundamentais do evento eram notoriamente racistas: defendiam abertamente a eliminação da população negra, quer pelo cruzamento de brasileiros com europeus (brancos), quer pela eliminação física de “degenerados” e “desgraçados”, para repetir aqui termos então usados.

Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido exatos sete anos antes da abolição da escravidão no Brasil, autor de clássicos da literatura brasileira, entre os quais Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), Os bruzundangas (1923) e Clara dos Anjos (1948), era pobre, preto, louco e alcoólatra.

A peça contrasta o horror do racismo infelizmente ainda vigente com a força da negritude que ousou contrariar as previsões da época, de que em 70 anos já não existiriam negros no Brasil, opiniões saídas das mentes e bocas, tidas por eles mesmos como superiores, de gente como Monteiro Lobato e Nina Rodrigues.

Um trunfo da montagem é certa desconexão cronológica: Lima Barreto, falecido em 1922, é julgado num evento de 1935 e chega a narrar a morte do próprio pai, ocorrida três dias depois da sua, o que permite também à dramaturgia trazer para dentro da cena o racismo bolsonarista, destilado pelo presidente da república e por seus fiéis e ferozes seguidores e eleitores (os ainda não arrependidos). É triste, cruel e preocupante saber que somos governados por alguém que apoia, se não todas, a maioria absoluta das teses daquele deplorável evento.

Apesar da tragicidade, há um quê de comédia, por exemplo na fina ironia com que Machado de Assis é tratado: “certamente minha obra seria outra se em vez de álcool eu me nutrisse de chá de camomila”, diz Lima Barreto a certa altura. “E eu estaria batendo papo às cinco da tarde com o inacreditavelmente imortal Merval Pereira”, ironiza.

O jornalista e o presidente da república não são os únicos contemporâneos lembrados no texto. Para comprovar que o racismo no Brasil de 2019 é o mesmo de 1935, o Lima Barreto da Cia. dos Comuns lembra Marielle Franco e Anderson Gomes, além de crianças assassinadas pela necropolítica de Wilson Witzel. É a população negra e pobre que continua a ser exterminada cotidianamente. “Anotem o que estou lhes dizendo: Conceição Evaristo jamais chegará à Academia Brasileira de Letras”, vaticina.

Em vida e obra, em 1935 ou 2019, Lima Barreto (ainda) tem razão. Infelizmente.

As armas dos poetas

Foto: Zema Ribeiro

 

Se você é daqueles que acha poesia falada um troço chato, hermético, para iniciados, e ao ouvir a palavra sarau imagina gente com aqueles trejeitos forçados a dar ênfase neste ou naquele verso ao recitá-los, esqueça. Ou melhor, conheça o grupo Tatamirô de Poesia.

De Macapá/AP eles trouxeram à São Luís, na programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes, o espetáculo Palavr(arma)dura, apresentado ontem (13), no Teatro Sesc Napoleão Ewerton. O trio se revela aos poucos, como a escrever verso a verso o longo poema sonoro em que a plateia mergulhará ao longo da apresentação.

Antes de entrarem, um por um, em cena, a parafernália no palco já chama a atenção. Por exemplo o meio manequim sobre o qual se sustenta um laptop. Seu figurino (assinado por Paulo e Ilce Rocha) evoca nossas raízes ancestrais africanas. Tudo faz sentido.

Suas vozes se misturam a instrumentos musicais inusitados, percussão eletrônica, bases eletrônicas, guitarra e efeitos. Há jogos de cena, recursos teatrais, mas eles mesmos afirmaram, em rápido bate-papo ao fim do espetáculo: ninguém ali é ator. Tudo está a serviço da palavra.

Palavras fortes, o repertório, entre autoral e de poemas clássicos, de forte conteúdo político, passam por Waly Salomão, Paulo Leminski, Matsuo Bashô, Alice Ruiz, Vladimir Maiakovski e muitos outros. A costura dos textos lembra mártires contemporâneos como Dorothy Stang e Marielle Franco. Presentes!

Herbert Emanuel e Adriana Abreu revezam-se entre vozes e instrumentos musicais diversos. Thamires Werneck sopra instrumentos nada convencionais, o didgeridoo e o morsing, de cano e madeira, espécies de grandes berrantes, numa sonoridade que evoca o Uakti – a instrumentista é o terço mineiro do grupo.

Entre loops, ruídos e sobreposições de vozes, eles dão o seu recado, vestidos de poesia, os versos as únicas armas dos poetas. E que armas potentes, ao menos para aqueles que estão dispostos a serem atingidos.

Serviço

Hoje (14), no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), acontecem os recitais Mormaço – de Elizeu Braga (RO) – e Miolo de pote – de Lília Diniz (MA), às 18h30 e 19h30, respectivamente. Entrada franca. Programação completa no site do Sesc/MA.

Convergência em T

Meu corpo é politico. Cartaz. Reprodução

Quatro histórias se cruzam em Meu corpo é político [drama/documentário, Brasil, 2017, 71 minutos], documentário da diretora paulista Alice Riff. As personagens fogem ao padrão heteronormativo vigente e o grande trunfo do filme reside em revelar-lhes em ações cotidianas. O quarteto mora em distintas periferias da cidade de São Paulo.

A câmera-corpo acompanha-as no dia a dia: um operador de telemarketing, uma professora ocupando o cargo de direção de uma escola, uma jovem fotógrafa que coloca sua arte a favor da militância pelos direitos de transexuais e uma artista do funk idem.

Meu corpo é político é didático sem ser panfletário. É um mergulho ousado na temática, a apontar questionamentos que deveriam ser feitos por cada um de nós, diante de tema (relativamente) novo, pouco abordado, ao menos com a devida responsabilidade, sobretudo por (grande) parte da mídia.

O olhar sensível de Alice Riff passa a merecer ainda mais respeito justamente por ela tê-lo devotado a seu próprio mergulho no universo dos Ts da sigla LGBTQI+: sendo mulher cisgênero (e aqui o resenhista não foge ao lugar comum de enquadrar seres humanos no binarismo que rege/ia a identidade de gênero), ela consegue contar, com louvor, as histórias a que se propõe.

O roteiro é bem urdido, entremeando as vidas de Fernando Ribeiro, Paula Beatriz, Giu Nonato e Linn da Quebrada, que além de protagonistas, assinam o roteiro do filme com Alice Riff.

Se todo corpo é político, o corpo de um/a transgênero o é ainda mais, vivendo em estado permanente de ameaça, e na iminência de toda forma de violência. Existir é político: resistir se faz necessário.

Em uma época em que um presidente recém-eleito ameaça toda sorte de cotas e de censura o mais importante mecanismo de acesso ao ensino superior do país, o filme de Alice Riff é peça fundamental na re/educação da sociedade, ou ao menos da parcela ainda disposta a abrir a mente.

Selecionado pelo mais recente edital do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro (Prodav), que garante a produção de conteúdo audiovisual para a veiculação em emissoras públicas, uma versão estendida de Meu corpo é político foi exibida ontem (12), no Cine Teatro Aldo Leite (Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão – DAC/UFMA, Canto da Viração, Centro), na mostra Corpos Elétricos, que integra a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, do Sesc/MA.

A sessão foi seguida de debate com a diretora, a atriz Áurea Maranhão e o técnico em cultura do Sesc/MA Fábio Azevedo. A programação continua daqui a pouco, com Uma mulher fantástica [drama, 2017, direção: Sebátian Lelio, duração: 104 minutos; classificação indicativa: 14 anos], às 16h, e Corpo elétrico [drama, 2017, Marcelo Caetano, 94 minutos, 16 anos], às 18h. As sessões têm entrada franca.

Veja o trailer de Meu corpo é político:

Um palhaço brasileiro

Foto: Zema Ribeiro

 

​”Era uma vez uma boca de fumo. Nessa boca de fumo havia drogas e doces. Chapeuzinho Vermelho encheu uma cesta de doces, botou na garupa de sua bizinha para levar para a vovó e saiu pilotando pela floresta. No meio do caminho apareceu o lobo. “O que tem na garupa, Chapeuzinho?”, perguntou. “Doces para a vovó”. “Me dá a metade?”. “Não posso, são para a vovó”. O lobo insistiu, pedindo quantidades menores, até arrematar: “Se você não me der os doces, eu pego um atalho, chego antes de você na casa da vovó, mato ela e toco o terror em você; todo mundo conhece a história, vem o caçador e me mata. Dois homicídios por causa de um punhado de doces. É isso que você quer para sua vida?”.

O palhaço Klaus (Márcio Douglas) atualiza a história infantil para os perigosos ares que o Brasil respira no momento. Para bom entendedor, uma fábula basta. Foi longamente aplaudido pelo ótimo público presente ao Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde foi apresentado ontem (24) o espetáculo da La Cascata Cia. Cômica, de São José dos Campos/SP, integrando a programação do Palco Giratório, do Sesc. E arrematou, irônico, para a plateia novamente irromper em aplausos: “isso sim é uma história infantil: ninguém morre!”.

Klaus é um palhaço aposentado. No monólogo tragicômico ele compartilha sua experiência animando festas infantis. O palhaço é uma metáfora: alvo de toda sorte de preconceitos e violência. Politicamente incorreto, a personagem bebe e fuma em cena. Beira o desalento. Logo de cara, adverte: “quem está em busca de algo lúdico, algo mágico, pode ir embora”. Soa cruel, mas é apenas sincero.

Animo festas, o espetáculo, se vale do universo infantil para debater temas em torno das relações de trabalho: qualificação, violência, preconceito, assédio, direitos. E também realização e felicidade: não à toa a pergunta “você é feliz?” aparece diversas vezes no texto, dirigida ao palhaço, quando ele relata encontros com pessoas diversas após as festas.

Hábil ao embrulhar estes questionamentos no “inocente” mundo das crianças, Klaus provoca gargalhadas na plateia durante o espetáculo inteiro. Beira o nonsense quando, por exemplo, saca um canivete ao ameaçar as “crianças” (dois adultos escolhidos aleatoriamente em meio ao público) para que deixem a aniversariante (outra adulta idem) vencer o jogo da dança das cadeiras – quando joga luz sobre outro assunto em voga no Brasil: a corrupção.

“Todo DJ é um “filha” da puta”, provoca: “a gente pede uma música, ele sempre toca outra. O DJ é aquele cara que não aprendeu a tocar um instrumento, mas teve dinheiro pra comprar o equipamento”, ataca. Provocar é uma especialidade de Klaus, que vai parar numa penitenciária após provocar um policial. É outra história em que se equilibra entre o hilariante e a denúncia social, a debater a questão carcerária, tema sempre urgente e quase sempre escamoteado, não apenas no período eleitoral.

Vez por outra, a palavra palhaço é injustamente usada como xingamento. Klaus define a si mesmo como um palhaço profissional. Ousa peitar contratantes, aniversariantes e quem mais achar que deve em nome de sua dignidade, que não desaparece sob uma camada de tinta e maquiagem. Ao contrário de muitos (não apenas palhaços) que se deixam tanger como gado para o abatedouro, ele dá um importante alerta a quem, por ação ou omissão, em nome de valores no mínimo dúbios, se arrisca a abdicar de seus próprios direitos. Klaus é brasileiro e se reinventa para existir e resistir.

Serviço

O grupo La Cascata Cia. Cômica apresenta hoje (25), às 17h, o espetáculo Precisa-se de um mané, no Cine Teatro Aldo Leite (Palacete Gentil Braga, Rua Grande, 782, Centro). A entrada é gratuita. A programação integra o projeto Palco Giratório, do Sesc.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

Um concerto brasileiríssimo

A pianista Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha. Foto: divulgação

 

Um bom público se fez presente ontem (7) ao Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), onde, pouco depois das 18h aconteceu mais uma edição do projeto Concertos Sesc Partituras.

Na ocasião as atrações eram a pianista Rose Mary Fontoura e os bambas do Instrumental Pixinguinha: João Neto (flauta), Nonatinho (pandeiro), Raimundo Luiz (bandolim), Juca do Cavaco e Domingos Santos (violão sete cordas).

O grupo já existe há 27 anos, embora sua formação tenha variado desde então e a história é bastante conhecida: formado nos corredores da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo (Emem), o Instrumental Pixinguinha foi o primeiro grupo maranhense a dedicar um disco inteiramente ao choro: Choros maranhenses (2005) reúne composições de seus integrantes e pérolas de mestres já falecidos, todos nascidos no Maranhão.

O repertório do concerto foi executado sem amplificação, apenas com o som natural dos instrumentos, como é a proposta original de projetos como o Concertos Sesc Partituras e o Sonora Brasil. Dividido em duas partes, a apresentação, no primeiro momento, revezava os integrantes do Instrumental Pixinguinha em duos com a também professora da Emem Rose Mary Fontoura, como na valsa Zinha (Patápio Silva), que abriu o espetáculo com ela acompanhada pela flauta de João Neto – na sequência, outra composição de Patápio Silva com a mesma formação, Serenata d’amore.

Raimundo Luiz (bandolim) e Domingos Santos (violão sete cordas) executaram Rios (Paulinho Martins). “Carlos Gomes, um dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos”, reverenciou o professor Raimundo Luiz, ao duetar com Rose Mary Fontoura em Al chiaro di luna.

Depois foi a vez de ela ficar sozinha no palco e interpretar duas peças de “uma mulher que eu admiro bastante, uma mulher à frente de seu tempo”, como enfatizou ao anunciar Chiquinha Gonzaga e suas Atraente, mais pulsante, e Tamoio, de andamento mais lento, como ela mesmo indicou – a confessada influência é perceptível na maestria de suas execuções.

O dueto de bandolim e violão sete cordas se repetiu no baião Minha terra, de Jorge Cardoso – bandolinista que é uma das atrações da temporada 2017 do projeto RicoChoro ComVida na Praça, cuja edição inicial acontece no próximo dia 20 (sexta-feira), às 19h, no Anfiteatro Betto Bittencourt, no mesmo Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, tendo como atrações o dj Pedro Sobrinho, o Regional Deu Branco e o encontro de gerações de Josias Sobrinho e Tiago Máci, voltamos à nossa programação normal.

Outra peça de Chiquinha Gonzaga encerrou o primeiro bloco da apresentação: o Candomblé, de visível influência africana, executada por Rose Mary Fontoura (piano), Nonatinho (pandeiro) e João Neto (flauta e pífano).

A segunda parte do concerto concentrou-se em uma pequena amostra do repertório de Choros maranhenses, único disco do Instrumental Pixinguinha lançado até aqui. “Estas músicas, nossas, ainda não estão no site do Sesc, mas nós já estamos providenciando. Aí qualquer um vai poder executar”, anunciou Raimundo Luiz, referindo-se ao acervo do site Sesc Partituras, em que está disponível para download a maior parte das peças executadas no concerto de ontem.

O quinteto começou por Lembro-me de você assim, feita por Juca do Cavaco em homenagem a seu falecido sogro – ele cumprimentou a esposa, na plateia, antes do início da execução –, tocando, na sequência, Miritibano (Domingos Santos), choro autobiográfico – o título é o gentílico de Miritiba, hoje Humberto de Campos, no interior do Maranhão, terra natal do autor –, e Elegante (Raimundo Luiz), antes da qual o pedagógico Juca do Cavaco fez deferências à Rádio Universidade FM, “a 106,9”, enfatizou a frequência, em cujo prêmio anual a música foi vencedora há alguns anos e por cuja frequência vai ao ar, nas manhãs de domingos, o Chorinhos e Chorões, do qual Juca é ouvinte assíduo e virou bordão, apresentado por Ricarte Almeida Santos, “um dos maiores batalhadores pelo choro em nosso estado”.

Talvez o momento de maior emoção do concerto tenha sido a execução, pelos seis músicos, do belo Choro axixaense, do compositor José Maria Fontoura, pai da pianista e autor da melodia do hino daquele município da região do Munim – a letra do hino é da poeta Mary Silva Fontoura, sua mãe.

Rose Mary Fontoura e o Instrumental Pixinguinha foram aplaudidos de pé por uma plateia em êxtase. Ainda de pé, a pianista anunciou o bis: Chiquinha Gonzaga voltava a aparecer, com Gaúcho, com a pianista novamente acompanhada do grupo completo. Um fecho sublime para um concerto de repertório brasileiríssimo, que dá algumas provas a quem porventura insista em duvidar: há plateia para a música que não encontra espaço em grandes meios de comunicação; vivos ou falecidos, nossos mestres não devem nada a ninguém em termos de qualidade; e é preciso investir cada vez mais em projetos/espaços de fruição como o Sesc Partituras.

Coco pra todo gosto

Fotos: Paula Barros

 

Os integrantes do Coco de Zambê de Mestre Geraldo, entre tocadores, cantadores e dançadores, vindos de Tibau do Sul/RN, multiplicaram-se: um deles percorreu a plateia convidando o público à dança. Logo, praticamente todos os presentes integraram-se à animada roda nos jardins do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro), ontem (28).

Era a estreia do circuito Sonora Brasil 2017/2018 em São Luís. Zambê é o nome de um dos instrumentos utilizados pelo grupo: um irmão do tambor grande de nosso tambor de crioula, com que identifiquei algumas semelhanças. Este tambor é também chamado de pau furado ou oco de pau e é o maior e mais grave dos instrumentos. Isto eu descobri lendo o belo catálogo distribuído pelo Sesc aos presentes. Compõem ainda a “parelha”, o chama, um tambor menor – para seguir no paralelo com o nosso tambor de crioula, equivaleria ao meião – e ainda uma lata de tinta, de 18 litros, percutida por um par de varetas. Todos tocados amarrados à cintura dos tocadores.

Não há mulheres no Coco de Zambê, embora as presentes entre o público não se tenham feito de rogadas e tenham participado, dançando, cantando os refrões e batendo palmas. Ao fim da apresentação, espécie de bis, a coisa se configurou numa oficina, com curiosos experimentando os instrumentos inusitados.

Sobre o Coco de Zambê, outra coisa que descobri lendo o catálogo foi que “há notícias de sua existência desde 1903, quando foi publicada no jornal A República, órgão oficial do governo do Rio Grande do Norte, a notícia cujo conteúdo repudiava com veemência a prática de um “samba” que acontecia na casa de um sujeito conhecido como Paulo Africano, no município de Tibau do Sul. Também Mário de Andrade, na década de 1920 faz, com entusiasmo, alusão à “brincadeira””.

A aproximação com o samba aí se dá pelo preconceito da época: era uma espécie de rótulo para qualquer ajuntamento de negros. Outras aproximações perceptíveis do Coco de Zambê se dão com o frevo e a capoeira – seus dançadores apresentam-se nus da cintura pra cima.

Mestre Geraldo, que dá nome ao grupo, foi fundamental para evitar o desaparecimento do Coco de Zambê, no fim do século passado. “Liderando um grupo familiar, retomou o zambê buscando fidelidade à sua prática tradicional”, também li no catálogo.

O grupo torna a se apresentar amanhã (30), às 19h, em Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), com entrada franca.

Outros grupos de coco apresentam-se em São Luís e Caxias/MA, até a próxima quarta-feira. Veja a programação:

Casa do Maranhão (Praia Grande), 19h:
Hoje (29): Coco de Iguape (CE).
Amanhã (30): Coco de Tebei (PE).
Segunda (31): Samba de Pareia de Mussuca (SE).
Segunda (31), das 9h às 12h e das 14h às 17h: Oficina de Coco de Roda: da Pisada ao Verso, com Adiel Luna/PE. Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (98) 3216-3830.

Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), às 19h:
Amanhã (30): Coco de Zambê (RN).
Segunda (31): Coco de Iguape (CE).
Terça (1º./8): Coco de Tebei (PE).
Quarta (2): Samba de Pareia da Mussuca (PE).

Verdade e fantasia: João do Vale para crianças

O voto popular deu a João do Vale o merecido título de maranhense do século XX. O cantor e compositor, um dos mais importantes do Brasil em todos os tempos, é tido como um dos pilares da música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Marinês – que gravaram suas músicas.

Cantador de coisas simples, imortalizou em suas composições sua terra e sua gente. Minha história, comovente autobiografia musical, é um ótimo exemplo.

João do Vale – Mais coragem do que homem [Edufma, 1998], biografia escrita pela jornalista Andréa Oliveira, há muito está esgotada. Não é disputada a tapas e a peso de ouro em sebos simplesmente por que não se encontra.

Ela conviveu com o ídolo durante seus últimos anos. Após o sucesso no sul maravilha, João do Vale retornou para sua Pedreiras natal, no interior do Maranhão, para reencontrar a vida simples que tanto o inspirou, o pé no barro do chão, o dominó com os amigos na esquina, o Lago da Onça e a Rua da Golada, Mané, Pedro e Romão, imortalizados em clássicos como Pé do lajeiroPisa na fulô e a já citada Minha história.

João – O menino cantador. Capa. Reprodução

Apaixonada pela vida a obra de João do Vale, Andréa Oliveira volta a seu personagem no infantil João – O menino cantador [Pitomba!, 2017, 36 p.], em que busca contar para crianças a/s história/s do artista, valorizando sua infância.

“Era uma vez”, começa o livro, evocando a clássica abertura dos contos de fadas. O livro nasceu do desejo de Andréa Oliveira, autora ainda de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão (2003), de contar a história de João do Vale aos filhos, à época ainda crianças – entre a ideia e a publicação foram sete anos.

A autora mescla a precisão jornalística e seu compromisso com a veracidade dos fatos ao universo fabular. Garante às crianças, como ela declarou em entrevistas, os direitos à verdade e à fantasia, no que o próprio João do Vale foi um craque.

Em meio à narrativa de Andréa Oliveira, trechos de músicas de João do Vale (não há quem não se pegue cantando ao ler) e ilustrações do artista plástico Fernando Mendonça, cuja simplicidade certamente despertará o interesse das crianças em produzir suas próprias ilustrações, “completando” as originais do livro – o projeto gráfico é do cantor e designer Claudio Lima. Literatura, música e artes plásticas redescobrindo, para as novas gerações, a importância do autor de Estrela miúda e Na asa do vento.

A narrativa é linear, acompanhando João do Vale desde sua infância até o falecimento, passando por sua ida ao Rio de Janeiro, de carona em caminhões, o trabalho na construção civil, as primeiras gravações, o sucesso, a resistência à ditadura militar – do que o clássico Carcará é metáfora exemplar.

Mas engana-se quem pensa que a história tem final triste: a autora atesta, com razão, que João do Vale permanece vivo, prova disso é sua obra, até hoje cantada e assobiada por muitos, e este livro, cuja beleza e delicadeza reavivam a memória do artista – este realmente merece ser chamado de “popular” – e, além de comover os que já lhe conhecem, certamente despertará o interesse dos que porventura ainda não.

Num tempo em que em geral crianças interessam-se mais por celulares e tablets que por livros, João – O menino cantador tem também uma difícil tarefa de conquistar novos leitores. Que, curiosos, poderão voltar aos eletrônicos para descobrir João do Vale através do youtube e de outros aplicativos.

Serviço

A noite de autógrafos de João – O menino cantador, de Andréa Oliveira, acontece nesta quinta-feira (1º. de junho), às 18h30, na Sala de Exposições do Condomínio Fecomércio – Sesc/Senac (Av. dos Holandeses, Calhau). Haverá pocket show com Ivandro Coelho interpretando repertório de João do Vale. Publicado pela editora Pitomba!, o livro tem apoio do Sesc/MA

As lâminas despidas de Nuno Ramos

Uma das peças de Só lâmina, com os versos "igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso"
Uma das peças de Só lâmina, com os versos “igual ao de um relógio/ submerso em algum corpo,/ ao de um relógio vivo/ e também revoltoso”

 

Nuno Ramos é um dos mais importantes artistas brasileiros da atualidade. E além de artista, um pensador das artes. Artista plástico, compositor (assina 11 das 12 faixas de Pedaço duma asa, de Mariana Aydar) e ensaísta, para citarmos apenas algumas de suas multiplicidades – em nenhuma delas ele se contenta em ser “meia boca”.

Ele não vem à São Luís, mas o Sesc/MA inaugurou hoje (18), em sua Galeria de Artes na Praça Deodoro (Centro), a exposição Só lâmina, baseada no poema Uma faca só lâmina, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, de 1955, e dedicado ao também diplomata Vinicius de Morais.

As 10 telas de Só lâmina são de 2007. Oito medem 1,55×0,75 e duas medem 1x1m. Nuno Ramos usa espelho/vidro, metal, pelúcia e tinta a óleo para compor os desenhos em relevo, que simulam a violência do movimento da lâmina, como a rasgar a delicadeza humana – como no poema que evoca.

Nas placas de metal, trechos dos versos cabralinos. “Das mais surpreendentes/ é a vida de tal faca:/ faca ou qualquer metáfora,/ pode ser cultivada./ E mais surpreendente/ ainda é sua cultura:/ medra não do que come/ porém do que jejua.”, diz um trecho do poema.

Nuno Ramos não se contenta com o bidimensional das telas. Só lâmina se completa com a escultura sonora Carolina, colagem sonora de palavras do cotidiano, trechos de músicas e poemas ditos pelos atores Gero Camilo e Marat Descartes por mais de duas horas, além do vídeo Luz negra, de pouco mais de 10 minutos, realizado em parceria com o artista Eduardo Climachauska, o Clima, cujo experimento é tocar sob a terra Juízo final, de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho, compositor cuja vida e obra já foi tema de ensaio de Nuno Ramos (publicado na edição inaugural da revista serrote [IMS, março/2009], teve trechos aproveitados no encarte de Rei vadio, disco de Rômulo Fróes dedicado ao repertório do sambista). A morte que permeia toda a obra do homenageado é vista (e ouvida) por outra perspectiva.

Em cartaz até 14 de julho, Só lâmina pode ser visitada gratuitamente das 9 às 11h e das 14 às 17h, em dias úteis. O poema de João Cabral começa: “Assim como uma bala/ enterrada no corpo,/ fazendo mais espesso/ um dos lados do morto;/ assim como uma bala/ do chumbo mais pesado,/ no músculo de um homem/ pesando-o mais de um lado;”; e termina: “por fim à realidade,/ prima, e tão violenta/ que ao tentar apreendê-la/ toda imagem rebenta”.

Clique sobre os verbos para VER Luz negra, LER e/ou OUVIR Carolina.

O respeitável cidadão faker

Frame de Cidadão Kane. Reprodução
Frame de Cidadão Kane. Reprodução

 

Antes da fama mundial com Cidadão Kane [1941, 119 minutos], Orson Welles transmitiu, em 1938, uma adaptação radiofônica de A guerra dos mundos, de H. G. Wells.

Em outubro de 1971, a rádio Difusora, ao completar 16 anos, repetiu a experiência, com a diferença de que, nos Estados Unidos de mais de 30 anos antes, os ouvintes sabiam tratar-se de obra de ficção.

A invasão marciana anunciada pelos radialistas de cá, entre os quais o sonoplasta Elvas Ribeiro, vulgo Parafuso, em cuja insuspeita opinião Cidadão Kane é o melhor filme de todos os tempos, foi tratada como se fosse real, assustando alguns ouvintes.

A história é deliciosamente contada em Outubro de 71: memórias fantásticas da Guerra dos Mundos, organizado pelo professor Francisco Gonçalves da Conceição, hoje secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular.

Lembro o episódio por conta da mostra Mr. Faker – Orson Welles e a autoria na indústria do cinema, que o Sesc/MA abre amanhã (12), às 18h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), de graça – os ingressos podem ser retirados na bilheteria do cinema, com meia hora de antecedência a cada sessão.

“Faker (impostor) é uma referência recebida por Orson Welles por criar um conceito estético em sua obra onde o falso foi utilizado como essência da própria arte para confrontar e desmascarar a realidade em busca da verdade”, explica o texto de divulgação da mostra.

Serão exibidos 11 filmes de Welles, a começar por sua estreia, Cidadão Kane, interpretado pelo próprio diretor. Indicado ao Oscar em várias categorias, o filme levou a estatueta de melhor roteiro original. O diretor tinha então, apenas 25 anos.

Cidadão Kane retrata a vida do fictício Charles Foster Kane, baseada na do real William Randolph Hearst, barão da mídia estadunidense, dono de uma rede com mais de 30 jornais, personagem fundamental para o conceito de imprensa marrom.

Entre os filmes da programação também está A marca da maldade [1958, 95 min.], misto de policial e suspense, digno de Hitchcock. Com música de Henri Mancini (autor do antológico tema de A pantera cor de rosa), a obra escancara a questão da corrupção e violência policial, com sua fábrica de provas contra quem deseja incriminar – mais atual, impossível.

Veja a programação completa da mostra Mr. Faker – Orson Welles e a autoria na indústria do cinema:

Amanhã (12)
18h30: Cidadão Kane

13 (quarta-feira)
16h: Grilhões do passado [1955, 93 min.]
18h: Verdades e mentiras [1973, 89 min., colorido]
20h: A marca da maldade

14 (quinta)
16h: Falstaff: o toque da meia noite [1965, 98 min.]
18h: O estranho [1946, 95 min.]
20h: Macbeth [1948, 89 min.]

15 (sexta)
14h: A dama de Shangai [1947, 87 min.]
18h: Dom Quixote [1992, 116 min.]
20h: Soberba [1942, 88 min.]

16 (sábado)
14h: O processo [1962, 107 min.]
18h: Cidadão Kane
20h: Verdades e mentiras

Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

Vai ter peitinhos! E muito mais!

França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação
França, Marçal e Dinucci, o Metá Metá. Foto: divulgação

 

A programação completa ainda não está fechada, mas o Sesc/MA já anunciou os shows de abertura e encerramento da programação da 10ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, que acontece entre os próximos dias 25 de novembro e 3 de dezembro, em diversos espaços em São Luís e Raposa (este blogue voltará ao assunto em momento oportuno).

O show de abertura será do Metá Metá, formado por Thiago França (saxofone), Kiko Dinucci (guitarra, violão e voz) e Juçara Marçal (voz). É um dos mais interessantes grupos brasileiros em atividade, com um caldeirão sonoro em constante ebulição, onde cabe de tudo. Atualmente o trio prepara o terceiro disco e em maio passado liberou um EP de aperitivo para download.

O encerramento fica por conta do show Selvática, em que Karina Buhr lança seu terceiro disco – a pernambucana nascida na Bahia esteve em São Luís em outubro, quando participou da Feira do Livro. O álbum foi financiado por crowdfunding e pode ser baixado no site da artista. A ex-Comadre Florzinha é uma das mais autênticas artistas brasileiras: plural, é compositora, atriz, cantora, escritora, desenhista, feminista, enfim, uma mulher de atitude.

Encarnado. Capa. Reprodução
Encarnado. Capa. Reprodução

Uma curiosidade é que tanto Karina Buhr quanto Juçara Marçal sofreram censura por terem estampado peitos nas capas de seus mais recentes discos – no caso da integrante do Metá Metá o álbum solo Encarnado (2014, disponível para download no site de Juçara).

Selvática. Capa. Reprodução
Selvática. Capa. Reprodução

Enquanto a capa de Selvática (2015) estampa foto da cantora com os seios à mostra e foi censurada pelo facebook, a de Encarnado traz uma mulher com o rosto coberto por um véu vermelho e os mamilos expostos. O iTunes recusou-se a disponibilizar o álbum, sugerindo à cantora modificar a capa – desenhada por Dinucci – para veiculá-lo na plataforma. Obviamente Juçara Marçal se recusou.

Os episódios envolvendo as artistas, a rede social e a plataforma refletem os tempos sombrios em que vivemos, em que avança uma onda neoconservadora, infelizmente não apenas no Brasil. Ainda bem que ainda podemos contar – e ver e ouvir – com artistas “de peito”. Literalmente!

Confiram Karina Buhr em Eu sou um monstro (Karina Buhr):

Confiram Metá Metá em Trovoa (Maurício Pereira):

Sinfonia operária

 

Metropolis (1927), de Friz Lang (1890-1976), caberia bem nas estantes de cinema mudo ou musical. A cidade futurística do filme assusta, ainda que considerados os padrões cinematográficos atuais, sobretudo se levarmos em conta que o filme previa o futuro (século XXI) em que vivemos hoje.

Uma das obras-primas do Expressionismo alemão, o filme é carregado de interpretações exageradas, de personagens de certo modo caricatos, distorção da realidade e (ab)uso de luz e sombras, características daquela escola. Para os representantes do movimento era impossível representar o mundo como ele é. Acreditavam que a imagem (cinematográfica) deveria projetar o conteúdo espiritual do homem.

Nove meses e mais de 30 mil figurantes custaram sua feitura e o parto do monstrengo. À segunda classificação possível, entre as citadas, devemos sua estrutura: Metropolis é dividido em três partes, Prelúdio, Intermezzo e Furioso.

A formação religiosa do diretor, filho de pai católico e mãe de origem judia, também comparece: o filme é uma espécie de atualização da alegoria bíblica da Torre de Babel, retratando a revolta de operários contra seus patrões. Aqueles, nos porões do mundo, literalmente uma espécie de inferno, fazendo a máquina girar para que estes poucos, no paraíso do lado de cima, lucrem e gozem a partir do sacrifício alheio.

Seu personagem central, o ganancioso Joh Fredersen (Alfred Abel), só se preocupará com a classe operária ao saber que seu filho Freder (Gustav Fröhlich), por conta de sua paixão por Maria (Brigitte Helm), está entre os que se revoltam com seu império – e por conta disto corre o risco de morrer.

Há quem diga também ser Metropolis uma espécie de premonição ao nazismo de Adolph Hitler. Talvez seja tudo isso. Por conta de O testamento do Dr. Mabuse (1933), Lang foi convidado por Joseph Boebbels, ministro da propaganda (do) nazista, a assumir o cargo de supervisor do departamento de cinema de seu ministério. Ele fingiu-se lisonjeado, agradeceu o convite, recusou-o e, após a reunião, pegou um trem para Paris, de onde só voltaria 25 anos depois.

Fritz Lang dirigiu 43 filmes entre 1919 e 1960. Com roteiro de Thea von Harbou, que acabou sucumbindo ao nazismo que ele recusou, Metropolis é sua obra mais conhecida.

Uma última curiosidade: pouco depois de estrear, Metropolis sofreu drásticos cortes e alterações. Desde então, mais de um quarto do filme era dado como perdido, somente tendo sido recuperado em 2008, quando uma cópia quase completa do filme foi encontrada em Buenos Aires, ainda que bastante danificada. A versão reconstituída a partir dessa cópia é a mais completa do filme, com 148 minutos.

*

Metropolis será exibido hoje (21), às 18h30, no Cine Praia Grande (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na abertura da mostra Sombras que assombram – O expressionismo no cinema alemão, realização do Sesc/MA

Composta por nove filmes, a mostra fica em cartaz até a próxima sexta-feira (24), com entrada franca (ingressos devem ser retirados na bilheteria, com meia hora de antecedência a cada sessão).

No último dia de sessões da mostra, Stella Aranha (graduada em Artes Visuais e mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão) ministrará o workshop O expressionismo no cinema alemão, às 14h30, no mesmo local, também com entrada gratuita.

Confira a programação completa no site do Sesc/MA.

Após percorrer seis capitais brasileiras, exposição de Dinho Araújo será aberta hoje (11) em São Luís

Divulgação

 

Muita coisa me impressionou na gigantesca programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, em que tive a honra de trampar ano passado. Foram dias intensos, doidos e doídos, que valeram muito a pena. O epíteto de “maior evento de arte e cultura do Maranhão” não é mero slogan.

Na Casa de Nhozinho, um dos muitos espaços da cidade com que a Aldeia – literalmente uma aldeia – dialogou, tomei conhecimento das obras de João Cosme e Dinho Araújo, que respectivamente apresentavam as exposições fotográficas Abstraturbano e Liturgias do Corpo.

O segundo está com nova exposição a partir de hoje (11) na Galeria de Arte do Sesc Deodoro – a vernissage acontece às 18h30 e a exposição fica em cartaz até o próximo dia 20 de março, com visitação gratuita e aberta ao público.

Dos dias em que a ausência é marca, a exposição, chega à São Luís depois de ter percorrido outras seis capitais brasileiras, ano passado, pelo projeto Sesc Amazônia das Artes.

Composta por fotos, objetos e um vídeo, a exposição apresenta “um olhar crítico e poético sobre identidade, patrimônio e memória, contrapondo visões antagônicas sobre São Luís. No trabalho, memórias pessoais se entrelaçam à experiência coletiva, ambas servindo de inspiração a um registro sutil que sublinha como somos marcados pela ausência”, de acordo com o texto de divulgação distribuído aos meios de comunicação.

“Como analogia ao nosso vazio existencial, a leitura da cidade requer um olhar atento às lacunas e fissuras. Um caso exemplar é a paisagem do Centro Histórico, marcada tanto pela força expressiva do seu conjunto arquitetônico quanto pela sua descaracterização (consequência da demolição de imóveis e da remoção dos azulejos das fachadas). Beleza e depredação, memória e esquecimento: pares antagônicos que costuram as representações locais e as projeções externas que fazem de nós. Como uma composição sem letra, essa reflexão transcende à experiência local, conectando de modo singular os polos da identidade, do patrimônio e da história”, continua o release.

O artista – Dinho Araújo é arte-educador, designer e artista plástico, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Entre 2012 e 2013 foi professor do Departamento de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além da Aldeia Sesc Guajajara de Artes já expôs em eventos como a Feira do Livro de São Luís (2013) e Salão de Artes Visuais da Prefeitura de São Luís (2010), entre outros.