Para reconhecer nossa identidade

A fotógrafa Marcela Bonfim revela outra Amazônia em 33 imagens impressas em madeira. Abertura da exposição acontece hoje (22), na Galeria de Artes do Sesc Deodoro

A fotógrafa Marcela Bonfim conversou com Homem de vícios antigos durante a montagem da exposição. Retrato: Zema Ribeiro

Marcela Bonfim formou-se em Economia na PUC-SP em 2008. Vivia numa bolha, como ela mesma conta a Homem de vícios antigos, em entrevista concedida durante a montagem de sua exposição, (Re)conhecendo a Amazônia negra: povos, costumes e influências negras na floresta, cuja vernissage acontece hoje, às 18h30, na Galeria de Artes do Sesc Deodoro (Praça Deodoro, Centro). Na ocasião haverá apresentação da performance Corporeira, de Ana Regina Arcanjo, com participação de Shamach Pacheco.

“Eu acreditava na meritocracia, eu achava, por estar naquele lugar [a PUC-SP], aquele lugar é uma redoma, você se sente aceito. Nessa saída pro mercado de trabalho meu castelo começou a ruir, os conceitos que eu tinha. Eu nem abordava minha negritude, era uma questão muito delicada para mim”, lembra. “Eu cheguei a participar de um debate com o [hoje vereador em São Paulo Eduardo] Suplicy, ele a favor das cotas e eu contra. Ali podia ter surgido um novo [o também vereador Fernando] Holiday, olha o perigo!”, confessa, arrependida.

Após formada, Marcela ficou durante um ano procurando trabalho e esbarrando no racismo. “Você se inscreve pela internet; quando chega, tem um grupo de pessoas e quem vai contratar fica falando apenas para algumas, não adianta você mudar de lugar. As pessoas diziam que eu era uma pessoa capaz, mas eu fui descobrir isso quando eu fui para Rondônia: uma amiga percebeu que eu já não me sustentava em São Paulo, não tinha emprego, não conseguia nada, e ela falou: “meu pai tem passagem de ida e volta; você vai; se gostar, fica, se não gostar, beleza!”. E eu fui, em 2010. Chegando lá enfrentei uma terra que eu nunca imaginei visitar. Rondônia não existia no meu imaginário. Chegando lá enfrentei o que todo mundo enfrenta, o fluxo migratório, era uma nova coisa. Eu não esperava que a fotografia fosse surgir. Eu comprei uma câmera fotográfica por que eu comecei a perceber que tinha muitos negros e a questão mais central dessa história é que eu andava nas ruas e as pessoas perguntavam se eu era barbadiana. E eu perguntei: o que é barbadiana? E começaram a perguntar se eu era Johnson, e a perguntar por vários sobrenomes em inglês, quando me disseram que eram as famílias negras tradicionais de Rondônia. Na hora eu entrei em parafuso: família tradicional não combina, nesse esteio social, com negro. Isso começou a me trazer uma autoestima, até eu conhecer um barbadiano de verdade. Foi um choque. Os barbadianos são os negros do Caribe”, ela relembra sua ida a Rondônia, onde acabou fixando residência à beira do Rio Madeira.

Algumas imagens da exposição. Fotos: Marcela Bonfim. Reprodução

Em 33 fotografias, Marcela Bonfim registra diversas diásporas, migrações internas e externas, a fotografia funcionando também como um espelho para a paulista de Jaú. A exposição fica em cartaz até 18 de junho e integra a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes.

“Na verdade, houve uma diáspora muito grande, não só de Barbados, como de Granado, várias ilhas, lá por 1909, 1910, eles começaram a chegar à Amazônia. Uns ficaram no Pará, outros no Amazonas, e um grande contingente em Rondônia. Esse grande contingente foi aproveitado pela [estrada de ferro] Madeira Mamoré. Isso são teses: uns dizem que foram para trabalhar na Madeira Mamoré, outros dizem que já era uma diáspora e quando esses negros chegam, de colonização inglesa, eles já chegam engenheiros, professores, telégrafos, na época era uma profissão necessária para aquele empreendimento. Segundo as pessoas dizem, pode ser a primeira mão de obra assalariada negra, com dignidade, os barbadianos. Antes de eu conhecer um barbadiano, uma amiga minha, artista plástica, me pintou uma barbadiana. O mais interessante é que é um pescoço gigante, o que você percebe a princípio é o pescoço. Eles têm um senso de pertencimento muito grande em relação à história deles. Eles mesmos se diferenciam por ter a forma de colonização inglesa e a nossa que foi a portuguesa. Isso me trouxe uma coisa aos olhos que nunca tinha trazido: esse aspecto de beleza. Pela primeira vez eu acho que achei um negro bonito. Eu comecei a me sentir, poxa, se estão me chamando de barbadiana, isso me trouxe uma autoestima muito grande, e também me trouxe uma dignidade. A partir desse momento eles me levaram para a casa deles, da família Johnson, eu pude participar da família. E quando eu entrava, eu me sentia diferente do que eu me sentia em São Paulo. Eu me sentia um pouco reduzida na PUC, me protegia”, comenta sobre ressignificar sua própria negritude.

“Quando eu comecei a andar na cidade, conheci o primeiro barbadiano, senti a autoestima elevada, comecei a sentir o trânsito de muitos negros: esse aqui é maranhense, a família é do Maranhão, paraense, eu comecei a olhar as configurações da imagem dessas pessoas, e junto com tudo isso me trouxe uma necessidade de conhecer a própria história de Rondônia: o fluxo da seringa, da Madeira Mamoré, os ciclos econômicos, o garimpo, a hidrelétrica”, comenta o processo de aproximação com aqueles que retrata.

Homens e mulheres, velhos e crianças em sua vida cotidiana: os vincos do tempo no close de um rosto, sorrisos, pés que caminham, mãos que preparam uma farofa de tartaruga. As fotografias de (Re)conhecendo a Amazônia negra são impressas em madeira.

Marcela continua: “Uma questão que ficou na minha cabeça: o que você quer fazer com isso? Transformar isso num produto? Isso me trouxe uma relação: onde é que eu posso expor essas pessoas? A gente está numa terra onde a madeira é fundamental e, além disso, onde ela diariamente é consumida de forma predatória. Isso é muito parecido com nosso próprio corpo dentro da Amazônia. É muita gente, em Guaporé [rio que deu nome ao extinto território, hoje Rondônia], é incrível, o número de maranhenses, o Maranhão também está lá. Eu conheci o Maranhão em Rondônia. Era outra terra que eu não tinha acesso. Quando a gente está em São Paulo a gente pensa no Rio de Janeiro, até Minas, ou mais pra baixo. Só! Eu ralei quando eu comecei a me colocar na parede”.

A ideia de imprimir em madeira veio da fala de uma de suas personagens. “Tinha uma cidade chamada Barbadian Town, onde os barbadianos se aglomeraram, a população local começou a hostilizar: bonito era um francês falando francês, um negro falando inglês era bastante desafiador na época. Uma pessoa que eu estava querendo fotografar, o pai dizia que era barbadiano, mas não era. Era um status dos negros, ser barbadiano naquela época. A mãe era branca. A primeira pergunta que eu faço para a pessoa que eu estou interessada em fotografar é como ela se reconhece. É essa pergunta que o Brasil tem que começar a se fazer. Ela disse: “ô, minha filha, eu sou negra [imita seu gesto, batendo a palma da mão direita no braço esquerdo], isso aqui é madeira de bater em doido! São 300 anos e nós ainda estamos aqui, plantados e de pé”. Começou a me dar essa onda: vou botar isso na madeira. Estou aprendendo esse processo de expor essa montagem agora. Essa aqui é a 16ª. abertura. Nós já caminhamos por 10 estados. A escolha tem esse significado, perto da minha realidade”, revela.

Para Marcela, “não tem como pedir desenvolvimento de um país, não tem como pedir prosperidade, não tem como pedir “chega de violência!” se a gente não reconhecer nossa identidade e ela é muito negra e muito indígena. É um processo de militância, eu me sinto uma militante”, se identifica.

Ela continua, situando o lugar do negro ao longo do tempo, a resistência e as lutas pela superação do racismo: “é um processo de invisibilização. O meu corpo é invisível. A sociedade só me enxerga nas situações em que eu esteja vulnerável, para me apontar, me culpar. O negro no Brasil nasce negro e embranquece para ser aceito. Hoje faz três anos que a mostra está circulando. A população negra brasileira, em sua maioria, vai embranquecendo, é uma questão de necessidade. Antigamente, na colônia, quando eles alforriavam o negro, praticamente eles assinavam um termo de negação de cor. Você via o uso de pó de arroz, hoje não se usa mais, mas nosso comportamento é como se fosse um pó de arroz na cara. Isso é uma coisa natural no Brasil, a criança nasce no Brasil com 300 anos, nasce num corpo destruído, praticamente se anula, se invisibiliza, passa a ter comportamentos que não são seus. A cultura do capitão do mato está enraizada na sociedade brasileira como um todo, não é uma questão do negro, como uma vez um certo candidato proferiu, até o Holiday. A história do capitão do mato é uma cultura brasileira, do oprimido oprimir o próprio oprimido. Isso é um movimento muito complicado. A gente chegou onde chegou por que esse processo ainda existe, está enraizado, esse momento é a oportunidade de a gente olhar para isso”.

Rondônia segue sendo um aprendizado para Marcela Bonfim. “Nós estamos falando de uma terra onde nasceu Teresa de Benguela. Aliás, ela foi deslocada. Ela é como se fosse um Zumbi, mas mulher. A história de Teresa de Benguela aconteceu em Rondônia. Para você ver como não era qualquer negro que eles traziam. Ela organizou um quilombo com regime de parlamento, organizou a questão da produção, tinha tudo muito organizado, é uma figura que poderia estar nos livros, poderia estar me ajudando a me sentir melhor na minha própria pele. A gente não tem referência, acaba ignorando nossa própria história. Aí vêm falar que negro é racista? Não existe: ele pode ser ignorante. Ele foi condicionado a essa ignorância”, ensina.

“Ocupar o lugar de economista, ocupar esse outro lado, o lado de trás da fotografia, me ajuda a dignificar meus pares. Se você for olhar a fotografia de 500 anos atrás no Brasil e a de hoje é praticamente a mesma. A própria história da violência dos nossos corpos foi chancelada por esse processo fotográfico. Ninguém sabia que Machado de Assis era negro. A história do capitalismo é a própria história da fotografia, de botar o negro num lugar bem longe desse lugar de protagonista. Nossos corpos sempre estiveram expostos da maneira que a branquitude quis: na favela, morto. As condições de exposição do negro continuam sendo as mesmas. É um corpo jogado para quem quiser ver, mas nas piores condições. Estou falando com meus pares, me reconheço nisso. Por mais que existam histórias tristes, vou dar dignidade. É onde me encontro comigo todo dia”, finaliza.

Dose dupla de poesia

Foto: Letycia Amorim

 

Fui surpreendido positivamente com o ótimo público que lotou o Buriteco Café, ontem (14), para ver dois espetáculos de poesia, algo raro mesmo para espetáculos musicais, não só na casa.

A noite integrava a programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes e apresentou os recitais Mormaço, de Elizeu Braga, poeta rondoniense, e Miolo de pote: da cacimba de beber, da maranhense Lília Diniz.

Mormaço é o nome dado ao clima abafadiço no que a São Luís de hoje se parece muito com Porto Velho. “Aqui vocês também chamam mormaço?”, perguntou o poeta à plateia, após descer as escadas, as luzes da casa todas apagadas, empunhando uma lamparina acesa enquanto recitava uma lenda indígena sobre a morte.

Seu repertório é contundente, sua poesia diz muito sobre o atual estado de coisas brasileiro. “Paulo Freire me ensinou/ eu aprendi na boca de um professor/ agora eu sei a diferença/ entre oprimido e opressor”, ensina um poema em ritmo de embolada.

O poeta Celso Borges fez uma ligeira participação especial recitando seu clássico Matadouro (musicado por Lourival Tavares), enquanto Elizeu manuseava uma máscara de bumba meu boi que depois viria a usar.

O poeta simula um diálogo, algo como um pai Francisco com o dono da fazenda, a atualizar o auto do bumba meu boi em tempos de relações trabalhistas cada vez mais esfaceladas, o tal do “negociar com o patrão”.

Depois, Elizeu, rosto coberto com a máscara, faz de uma bandeira do Movimento dos Sem Terra o couro de si mesmo tornado bumba meu boi, dançando, com o percussionista Totó Sampaio simulando uma zabumba em uma caixa. Não é só o mormaço que une o poeta a São Luís e seu povo.

Lília Diniz é conhecida dos maranhenses. Faz uma poesia brejeira, com a simplicidade do povo maranhense, exalando a força das mulheres: lavadeiras, lavradoras, quebradeiras de coco, Cecília Meireles, Cora Coralina – todas sua inspiração.

Sua poesia também debate temas tornados mais urgentes no Brasil que quer legalizar o desmatamento e a exploração predatória de recursos naturais não renováveis, o que ela equilibra com sua ginga sensual, entre poesia e música, sobretudo o coco – durante a apresentação, canta e toca pandeiro, acompanhada por Chico Nô (seu conterrâneo, de Imperatriz, ao violão) e Totó Sampaio (percussão).

Lília é leve até ao pedir para trocarem seu microfone, fez isso divertindo o público, que diante de tanta graciosidade cantou junto e bateu palmas.

A programação do Sesc Amazônia das Artes segue até 18 de maio em diversos pontos da cidade.

As armas dos poetas

Foto: Zema Ribeiro

 

Se você é daqueles que acha poesia falada um troço chato, hermético, para iniciados, e ao ouvir a palavra sarau imagina gente com aqueles trejeitos forçados a dar ênfase neste ou naquele verso ao recitá-los, esqueça. Ou melhor, conheça o grupo Tatamirô de Poesia.

De Macapá/AP eles trouxeram à São Luís, na programação do 12º. Sesc Amazônia das Artes, o espetáculo Palavr(arma)dura, apresentado ontem (13), no Teatro Sesc Napoleão Ewerton. O trio se revela aos poucos, como a escrever verso a verso o longo poema sonoro em que a plateia mergulhará ao longo da apresentação.

Antes de entrarem, um por um, em cena, a parafernália no palco já chama a atenção. Por exemplo o meio manequim sobre o qual se sustenta um laptop. Seu figurino (assinado por Paulo e Ilce Rocha) evoca nossas raízes ancestrais africanas. Tudo faz sentido.

Suas vozes se misturam a instrumentos musicais inusitados, percussão eletrônica, bases eletrônicas, guitarra e efeitos. Há jogos de cena, recursos teatrais, mas eles mesmos afirmaram, em rápido bate-papo ao fim do espetáculo: ninguém ali é ator. Tudo está a serviço da palavra.

Palavras fortes, o repertório, entre autoral e de poemas clássicos, de forte conteúdo político, passam por Waly Salomão, Paulo Leminski, Matsuo Bashô, Alice Ruiz, Vladimir Maiakovski e muitos outros. A costura dos textos lembra mártires contemporâneos como Dorothy Stang e Marielle Franco. Presentes!

Herbert Emanuel e Adriana Abreu revezam-se entre vozes e instrumentos musicais diversos. Thamires Werneck sopra instrumentos nada convencionais, o didgeridoo e o morsing, de cano e madeira, espécies de grandes berrantes, numa sonoridade que evoca o Uakti – a instrumentista é o terço mineiro do grupo.

Entre loops, ruídos e sobreposições de vozes, eles dão o seu recado, vestidos de poesia, os versos as únicas armas dos poetas. E que armas potentes, ao menos para aqueles que estão dispostos a serem atingidos.

Serviço

Hoje (14), no Buriteco Café (Rua Portugal, Praia Grande), acontecem os recitais Mormaço – de Elizeu Braga (RO) – e Miolo de pote – de Lília Diniz (MA), às 18h30 e 19h30, respectivamente. Entrada franca. Programação completa no site do Sesc/MA.

Para continuar sendo floresta

O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)
O fotógrafo José Medeiros na vernissage de Já fui floresta. Foto: ZR (8/4/2016)

 

Mais de 30 fotografias compõem Já fui floresta, do fotógrafo sul-mato-grossense José Medeiros, que inaugura a edição 2016 do Sesc Amazônia das Artes. A vernissage aconteceu ontem (8), na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a exposição fica em cartaz até o dia 6 de maio.

Medeiros foi o primeiro fotógrafo a registrar o ritual de passagem dos indígenas Ikpeng, no Parque Indígena Médio Xingu, no Mato Grosso. O ritual fotografado por ele dura um ano inteiro e acontece a cada cinco. Marca a entrada dos indígenas na idade adulta – para eles não há adolescência. É quando aprendem a caçar, casam-se cedo.

O conjunto de fotografias de Já fui floresta retrata os costumes, alegrias, alimentos consumidos, o convívio harmonioso com a natureza na bela paisagem. Mais que fotografando e filmando, Medeiros passou um ano convivendo com os indígenas e observando o quanto ainda são explorados e estigmatizados, o que lhe causa indignação.

“Quando os indígenas vão à Cuiabá”, onde ele mora há vários anos, conta, “eu os hospedo em minha casa. Nada mais justo, já que eu me hospedo com eles, não levo comida quando vou às aldeias. Meus filhos os recebem com abraços. Outro dia, um indígena, fazendo doutorado, foi em uma escola e as crianças o receberam u u u [imita o som colocando e tirando a mão da boca várias vezes]. Isso me deixa bem triste”, confessa.

Comento que pouca coisa parece ter mudado desde 1500, vendo, na sala contígua à principal da Galeria, diversos espelhos, daqueles baratos, de moldura alaranjada, comumente vendidos em feiras. “Resolvi botar estes espelhos para provocar a reflexão. Os espelhos ficaram velhos, quebrados. O que restou aos índios? As molduras, que não servem para nada”, comenta, ao lado das únicas quatro fotografias coloridas da exposição, em que curumins emolduram seus próprios rostos.

Instantes antes, após ser entrevistado por uma emissora de tevê, comentou com a repórter: “esses pataxós que estão bem aí na praça [Deodoro] dão uma ótima pauta. É uma forma de eles viverem de seu próprio trabalho. Eles estão aí vendendo ervas, trazendo seu conhecimento popular”.

Pergunto se o homônimo José Medeiros, lendário fotógrafo que fez fama na idem O Cruzeiro, lhe influenciou o trabalho. “Sim, sem dúvida. Eu fiz vários cursos com Walter Firmo, que foi aluno de José Medeiros, não tem como não ser influenciado”, revela, citando outra lenda da fotografia brasileira, este ainda na ativa.

E ilustra com uma história interessante. Uma vez publicou a foto de um menino indígena dando uma bicicleta em uma bola sobre uma superfície de água. Ele saca o celular e me mostra a fotografia, perfeito exemplo de “instante decisivo”, o que por um instante me faz pensar algo como “se Henri Cartier-Bresson tivesse vindo ao Brasil”. Quando seu nome saiu, como autor da foto, começaram as contestações: José Medeiros não fotografava colorido, chegou a ouvir, de quem pensava ser a imagem de autoria do fotojornalista de O Cruzeiro, e não dele mesmo.

Indagado sobre o nome da exposição, ele não titubeia: “Já fui floresta sou eu. Eles continuam sendo e é importante que a gente se una a eles para garantir os meios para que continuem assim, apesar de que nas aldeias já há televisão, telefone, indígenas usando celular, computador. Isso não é necessariamente ruim, o convívio tem que ser saudável”.

Ele está oferecendo um curso de fotografia a indígenas. “Quero perceber como eles mesmos veem a floresta. E que maravilhoso deve ser um indígena fotografando São Paulo, por exemplo?”, indaga-se.

José Medeiros trocou o fotojornalismo por um exercício fotográfico mais documental. Autor do belo O pantanal de José Medeiros [2014], cujas fotografias valorizam a figura do pantaneiro, fugindo dos clichês, ele pode em breve mostrar ao público outra faceta: a de curador, revelando ao Brasil as fotografias frutos do curso que vem ministrando aos indígenas mato-grossenses.

Com curadoria de Wania de Paula e texto crítico de Nadja Peregrino e Angela Magalhães, Já fui floresta, de José Medeiros, pode ser visitada em dias úteis, das 9h às 17h, na Galeria de Arte do Sesc Deodoro (Av. Gomes de Castro, 132, Centro), até o dia 6 de maio.

Veja três fotografias da exposição:

O Charme do Choro, hoje, na Ilha

O nome do grupo é O Charme do Choro e quando assim se batizaram as meninas certamente estavam se referindo tanto ao gênero musical que executam quanto a si mesmas.

Sem pedantismo. As paraenses Camila Alves (violão sete cordas) Carla Cabral (cavaquinho), Dulci Cunha (flauta), Jade Guilhon (bandolim e violino), Laíla Cardoso (violão) e Rafaela Bittencourt (pandeiro) acabam de lançar seu disco de estreia, após seis anos de carreira, iniciada durante o projeto Choro do Pará, desenvolvido no estado vizinho. Os 14 choros do disco são todos assinados por compositores paraenses.

As meninas estão em São Luís e farão um show que leva o próprio nome do grupo, hoje, às 20h, no Teatro João do Vale (Rua da Estrela, Praia Grande), com entrada franca. A programação integra a mostra Sesc Amazônia das Artes, realizada pelo Sesc-MA.