Um baile de cinema

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Cartaz. Reprodução

 

Um homem montado em um jumento transforma-se numa espécie de minotauro. Um minotauro moderno pode ter como segunda parte do corpo uma motocicleta. E é por uma espécie de labirinto que somos conduzidos ao longo do poético Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos [documentário, Brasil, 2016, 80 minutos], de Sergio Oliveira, com roteiro dele, Leo Pyrata e Renata Pinheiro, estreia nacional da semana – em São Luís em cartaz no Cine Lume.

O filme é povoado por jumentos, burros, jegues e outros animais que puxam carroças, além de bodes, cachorros e galinhas. Prescinde de palavras ao acompanhar uma viagem do grupo que lhe intitula, carinhosamente conhecido também pela sigla Super Oara, outro destaque musical da cidade que já deu ao Brasil o Coco Raízes de Arcoverde e o Cordel do Fogo Encantado, estes, nomes tidos como representantes de uma cultura mais “pura”, “genuína”, do lugar, apesar do flerte do último com o rock’n’roll.

Mescla o fazer musical do grupo, entre guitarra, contrabaixo, bateria, percussão, saxofone, trompete, trombone e piano, sob a regência do maestro Beto, à vida cotidiana do município do sertão pernambucano, distante 256 km da capital Recife, entre obras, trânsito, o tanger dos animais, o fim de feira, uma corrida de jegues, um inusitado encontro de easy riders agrestes, crianças brincando.

Em um de seus ônibus, a Super Oara vai de Arcoverde a Serra Talhada tocar em um aniversário de 15 anos, na sede da AABB local. Seu repertório, como o nome do grupo indica, é especializado em standards americanos, e ao longo do filme ouvimos clássicos como New York, New York (John Kander/ Fred Ebb), sucesso de Frank Sinatra, Bridge over troubled water (Paul Simon), regravado entre outros por Elvis Presley (a que vimos um dos integrantes da banda vendo um vídeo em um laptop durante a citada viagem), Fly me to the moon (Bart Howard), já gravada por aqui por Paula Toller, In the mood (Joe Garland), por aqui tema da minissérie Agosto, baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca, e, entre outras, Am I black enough for you (Kenny Gramble/ Leon Huff), sucesso de Billy Paul, na cena em que uma espécie de Michael “moonwalk” Jackson cover dança com o bumba meu boi de Arcoverde.

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, o filme, não se pretende uma cinebiografia do grupo quase sexagenário, tanto é que só do maestro Beto sabemos o apelido, ao longo de sua duração – quantos brasis há no Brasil por conhecermos? É um cinema inventivo, de puro deleite, que abusa da força poética das imagens, entre a realidade (documental) e a fantasia, à revolução dos bichos orwelliana, em que também os burros cantam e dançam.

É ao mesmo tempo um belo tributo à cultura nordestina e um retrato – não necessariamente uma crítica – das influências estrangeiras que chegam ao lugar. Se a elite criticou a substituição de jumentos por motocicletas, “graças ao Bolsa Família”, o documentário revela um convívio harmonioso entre uma e outra ferramentas, o que acaba por se tornar uma perfeita metáfora intercultural.

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Veja o trailer: