Utilidade pública

Cássio Loredano. piauí, #98, novembro/2014

 

“O declínio dos Sarney”. A manchete de capa da piauí #98, de novembro/2014, anuncia a ótima reportagem em que Malu Delgado relata a derrota eleitoral do mais longevo grupo político brasileiro.

Fui assinante da revista, em seu início, por dois ou três anos. Hoje é das que compro em banca, sempre.

Neste novembro já passei por Dácio (Praia Grande), Angela (Deodoro), seu João (João Lisboa) e outras bancas Ilha adentro. Nem sinal da publicação.

Pode ser uma espécie de último suspiro antidemocrático da oligarquia, como já fizeram com a Caros Amigos, quando a revista trazia “A candidata que virou picolé”, sobre o aborto das intenções presidenciais de Roseana Sarney, matéria de Palmério Dória (que depois transformou o texto num livrinho, que saiu pela mesma editora Casa Amarela que publicava a revista). À época também desapareceu das bancas maranhenses.

Diante de meus reclames, amigos e amigas ofereceram-se a comprar a revista em outros estados e me enviar, me ceder seu código de assinante, colar a matéria em word e me enviar e até mesmo me ensinar: “digite quaisquer nove números no campo do código de assinante e dá pra ler a íntegra do texto”.

Com o texto em mãos, colei-o na íntegra do facebook, anunciado por boa parte desse texto que colo aqui de novo. Sabe-se lá por que, talvez algum limite de caracteres por post que eu desconheça, a rede social publicou-o incompleto. Pois baixem-no aí em pdf e espalhem!

A raposa e as urnas

[letra pra um samba de breque e ocasião, que permanece sem melodia. Escrevi por conta deste episódio e o título me veio, óbvio, inspirado no saudoso Reginaldo Rossi]

 

Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)
Charge de Carlos Latuff originalmente publicada no Vias de Fato (agosto/2014)

Vocês se lembram por que
O urubu ficou com raiva do boi
Mas a raposa tá contente
Eu vou contar por que foi

Um amigo do rei ganhou
Uma licitação
Pra cuidar de urna eleitoral
(num curral)
Lá no Maranhão

É muita cara de pau
Um amigo da família
Vestir pele de cordeiro
Pra beneficiar a matilha

Refrão

As urnas vão
De ferry atravessar a baia
E o Maranhão continua
A ser notícia ruim todo dia

É tanta água
Mas não mata minha sede
Agora além do ferry (e da lancha)
A urna também é do Cantanhede

Samba de protesto

Os “excluídos” em ação em Diverdade, show de 14/12/2013

Não sou contra a vinda de artistas de outros estados para o que quer que seja no Maranhão. Ser contra seria bairrismo, embora a vinda de artistas de fora para eventos como o carnaval e os festejos juninos por aqui não cumpra o papel que deveria, de intercâmbio cultural. Tampouco artistas nossos são enviados a outros estados com essa intenção (Barrica e Bicho Terra pra gringo ver não contam).

Para o carnaval deste ano o Governo do Maranhão anunciou uma vasta programação com nomes pagos a peso de ouro. Gente do quilate de Daniela Mercury, Diogo Nogueira, Elba Ramalho, Monobloco e o onipresente (local) Bicho Terra, entre outros – confesso que senti falta da Alcione no Bloco dos Apaniguados.

O compositor Cesar Teixeira está fora da programação carnavalesca, sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (Secma), pasta comandada por Olga Simão. Não é a primeira vez que o artista é excluído de programações do tipo, sem justificativas, num gesto de retaliação política – o autor de Oração Latina é reconhecidamente uma histórica voz de resistência à oligarquia Sarney.

Notem os poucos mas fiéis leitores: o problema não é ele estar fora da programação carnavalesca. É saber que critério o excluiu. “É inadmissível que um órgão cultural do governo, na ausência de editais, se aproprie do erário público para decidir quem deve ou não participar de programações culturais públicas, exercendo uma espécie de censura institucional àqueles artistas que não rezam na cartilha do governo Roseana Sarney”, declarou em uma rede social Irinete Chaves, esposa e produtora do compositor.

No Maranhão há muitos artistas frutas de estação, isto é, aqueles que se adequam aos períodos carnavalesco e junino – muitas vezes utilizando-se inclusive do vasto repertório de Cesar Teixeira, autor de clássicos tocados à exaustão em ambos os períodos, mas não só – e depois somem, para reaparecer na próxima… estação.

Não é o caso de Cesar Teixeira, cuja obra, reconhecida nacionalmente nas mais diversas vozes, tem importância, riqueza e variedade, e deveria ser valorizada pelos gestores de cultura de nosso estado, provavelmente o último da nação que ainda não adota o princípio republicano dos editais para a convocação de artistas para compor suas programações oficiais, na contramão do que indica, por exemplo, o Ministério da Cultura.

Festival – Sábado passado (15), em um festival de música carnavalesca organizado pelo Sistema Mirante de Comunicação – de propriedade da família da governadora Roseana Sarney –, uma música de Cesar Teixeira, Dias felizes, defendida pelo grupo Lamparina, sagrou-se vice-campeã, surpreendendo a muita gente, este blogueiro inclusive. Isto é, em terreno hostil, a marcha-rancho conseguiu comprovar o talento de seu autor.

Silêncio constrangedor – Através da assessoria de comunicação, este blogue indagou à secretária Olga Simão que critérios haviam norteado a exclusão de Cesar Teixeira da programação do carnaval maranhense. Até o fechamento da matéria, a Secma não se pronunciou – como o fez também quando o compositor foi deixado de fora da temporada junina do ano passado.

Maranhão, outro excluído – Pouco antes do fechamento deste texto, através do blogue da jornalista Vanessa Serra, ficamos sabendo que Chico Maranhão, outro importante artista maranhense de reconhecimento nacional, também foi excluído da programação carnavalesca oficial.

Das redes sociais às portas dos palácios

No Ministério Público e Tribunal de Justiça o expediente foi uma quarta-feira de cinzas às avessas. Roseana Sarney desde cedo mandou fechar o acesso ao Palácio dos Leões

Boto na conta do PT a queima da bandeira do PSTU, ainda no início da manifestação, ontem (19), na Praça Deodoro, em São Luís. O PT, tido como um partido diferente, terminou com as esperanças de muita gente em nome da governabilidade e da aliança com Sarney. Não descobriu nem inventou a corrupção, como insistem alguns, em geral por má-fé, mas acabou com a esperança, depois que esta venceu o medo.

Por causa do PT grande parte da população já não acredita mais em partidos políticos. Mas convenhamos: queimar uma bandeira de uma agremiação partidária é um retrocesso (a ditadura militar também fez isso), seja lá de que partido for. Acreditar que não permitir bandeiras em um ato irá torná-lo apartidário – ou pior: apolítico – é ilusão (pra não dizer outra coisa): tiraram as bandeiras do PSTU, mas mantiveram os carros de som do PMDB.

Tal gesto autoritário serve tão somente à velha direita, tanto é que a principal coluna política do jornal O Estado do Maranhão, o Estado Maior (link para assinantes com senha), de hoje (20), tira onda com o episódio: “Luiz Noleto, um dos chefes do partido, não respeitou a proibição e foi para a Praça Deodoro fantasiado de PSTU, com camiseta e bandeira. Tomaram-lhe a bandeira e a queimaram, e por pouco não arrancaram-lhe a camiseta vermelha”, escreveu o colunista. Só neste trecho caberiam vários “sic” (nem vou perder tempo em comentar a blogosfera suja).

Não faltam motivos para protestar, o que, no Maranhão, justificaria um protesto por dia. O povo saiu do facebook e foi às ruas, como mais ou menos apregoava um cartaz, ontem. Foi um momento bonito de ver: o movimento provou ter corpo – as estatísticas falam de entre 10 e 20 mil pessoas nas ruas, cada propósito tem sua medida. Infelizmente faltou cabeça.

Nosso provincianismo esperou que São Paulo – e outras capitais Brasil afora, em seguida – se mexesse para que a copiássemos – nossos meios de comunicação não se fizeram de rogados e também copiaram os de lá, filtrando do protesto apenas aquilo que lhes interessava. Em um quesito foram além, mas isto já é costume pras bandas de cá: se valeram da “pressa” para justificar erros grosseiros, sobretudo na internet.

O #vempraruaslz é um movimento importante que mostra a força e utilidade que podem ter as redes sociais – embora houvesse gente ali apenas para garantir alguns registros justamente para alimentá-las. Não é um movimento de vândalos como quer fazer crer parte da mídia. Sou contra qualquer ato de vandalismo e não bato palmas para pichações no muro do La Ravardiere nem para vidraças quebradas no dos Leões, os palácios sedes dos executivos municipal e estadual, como também não acho bacana quebrar o carro do Sistema Mirante, mesmo o grupo representando e sendo o porta-voz de muitos dos motivos pelo quais se protestava ontem.

Sobram motivos para Sarney virar alvo de qualquer protesto no Maranhão

A mobilização popular é necessária. “Governo e feijão só vai na pressão”, diz o dito popular. Mas toda mobilização deve ter objetivos claros, mesmo que sejam muitos, no caso ludovicense. A de ontem, pautada principalmente na questão da mobilidade urbana na capital maranhense, incluía ainda temas como protestos contra a PEC 37 (que tira o poder de investigação do Ministério Público), o deputado racista e homofóbico Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e seu medieval projeto de “cura gay”, e o eterno “fora Sarney”, entre muitos outros.

De acordo com informações de Márcio Jerry, secretário municipal de Comunicação, publicadas em seu perfil no tuiter, o prefeito Edivaldo Holanda Jr. dispôs-se a conversar ainda ontem com lideranças do movimento, que não foram identificadas (hoje começou a circular no facebook uma lista de reivindicações endereçadas aos governos municipal, estadual e federal).

Esta desorganização, em certa medida, demonstra que o movimento não tem dono. Ou mesmo que não há um movimento único. A grande maioria era de jovens estudantes, muitos pela primeira vez em uma manifestação do tipo, o que não a torna menos legítima, como também não o fato de serem, em geral, cidadãos bem nutridos, que “de carrão chegam mais rápido à revolução”, como bem cantou o compositor cearense. Ali cabia de tudo, de quem não sabia bem o porquê de estar participando do protesto à “apartidários” filiados a partidos políticos, além, é claro, de gente que dava algum sentido à data histórica. A porção que “precisa estar atenta e forte”, como cantaram os baianos, para que uns poucos não lhe reservem o velho papel de massa de manobra, de que supostamente tentaram escapar ao queimar a bandeira do PSTU.

É bastante difícil dizer qualquer coisa sobre o que aconteceu ontem em São Luís, seja pela pluralidade da manifestação (com tudo o que isso tem de bom e ruim), seja por tudo de novo que traz em si (protagonistas, forma de mobilização etc.). Este blogue esperará e acompanhará os próximos episódios, tentando garantir uma cobertura com alguma lucidez e equilíbrio, além do apoio ao que o movimento combinar com nossa postura de esquerda, já que aqui não vendemos pseudo-imparcialidade.

Pseudo-concurso público, jornalismo (?), mentira, reitoria, opinião, papado e egolatria

“Confirmado concurso público para o HU”, afirma a manchete de capa de O Estado do Maranhão de hoje (17). No interior do jornal o que se lê é um mega-release (link para assinantes do jornal, com senha), embora o texto não seja tão longo, isto é, nada que justificasse uma manchete de capa, propaganda descarada da gestão do magnífico reitor Natalino Salgado.

Se não se trata disso, o que justifica um jornal anunciar com tamanho destaque um “concurso público” cujo edital só será lançado mês que vem?

Não se iludam a população em geral e em especial os concurseiros de plantão: os aprovados no “concurso público” não serão os novos servidores públicos federais; serão terceirizados, celetistas, com contrato temporário e consequente prazo de validade pré-determinado.

O jornal pode até chamar o “processo seletivo simplificado” de “concurso público”, já que qualquer pessoa que venha a atender os requisitos especificados no edital, quando este for publicado, poderá concorrer ao mesmo; mas não devia criar a falsa ilusão de que tudo corre às mil maravilhas e os problemas que restam serão sanados com “o maior concurso público já realizado na história do Maranhão”, conforme afirmou o megalômano reitor em matéria (link para assinantes do jornal, com senha) do mesmO Estado do Maranhão em 19 de janeiro passado, sobre o mesmo assunto.

Pasmem, poucos mas fieis leitores: a seleção de 3.500 novos servidores do Hospital Universitário, cujo edital somente será lançado em março próximo, já é notícia no jornal da família Sarney há um mês.

A quem interessa toda essa propaganda enganosa? É capaz de o jornal, mês que vem, publicar outra matéria, adiando o lançamento do edital: a adesão do HUUFMA à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) é questionada pelo Ministério Público Federal; isto é, o processo seletivo simplificado pode sofrer adiamento. Ou nem acontecer. É à EBSERH que os novos servidores selecionados no “concurso” estarão vinculados. Serão terceirizados por uma empresa pública de direito privado, isto sim a realização da privatização da saúde usando recursos públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

O texto não foca no processo seletivo, assunto que talvez se resolvesse num parágrafo ou nota, jamais justificando manchete de capa. Alardeia “18 obras (…) em execução no HUUFMA” entre “reformas, ampliações e construção de novas alas” e lembra estar “entre as melhores organizações de saúde do mundo que se destacam na divulgação da produção científica”, conforme ranking do Webometrics Ranking of World Hospitals. Um trecho do texto chega a informar (?) até mesmo quantos acessos teve o site do HU de agosto para cá e o número de profissionais que compõe sua assessoria de comunicação. Estes, certamente empenhados: só assim para conseguir uma dominical manchete de capa com exercícios de futurologia.

O pseudo-concurso público do Hospital Universitário é encoberto por fumaça, não a da inocente diamba desde sempre fumada pelos blocos da UFMA, mas talvez também a do conclave que escolherá o próximo papa com a renúncia de Bento XVI: longe do assunto da capa dO Estado do Maranhão, na página de Opinião do jornal, o sumo pontífice, digo, o magnífico reitor escreve sobre a renúncia papal e a igreja (que frequenta assiduamente). Sob o título Exemplo de abnegação e altruísmo (link para assinantes do jornal, com senha), o texto de Natalino Salgado, imortal da Academia Maranhense de Letras, é só elogios a Ratzinger, cuja renúncia é por ele classificada de “atitude imprevisível e, ao mesmo tempo, corajosa”.

“Estranho ato, muitos disseram, mas que se coaduna com esta época em que a velocidade é o substantivo primordial. Ou, como lembra o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que nada é feito para durar. Mal nos acostumamos com o teólogo Joseph Ratzinger a levar sobre si a missão petrina, deparamo-nos com seu perfil sereno a explicar que este seu radical ato é antecedido de demorada meditação e exame de consciência diante de Deus”, prossegue o reitor, parecendo esquecer-se da “solidez” de seus mandatos e dos de outro imortal, o dono do jornal em que escreve, mesmo sustentados por eleições ilegítimas. A última do reitor registrou “uma abstenção gigante, solenemente ignorada pela ASCOM, cada vez mais transformada em assessoria de comunicação do reitor e não da universidade, que alardeou uma vitória esmagadora”, conforme resgatou Flávio Reis em O dono da UFMA.

“As questões em jogo, na Itália e no mundo todo, transcendem a fé, sincera ou não. Vivemos uma época intelectualmente e moralmente pobre, instigada pelos avanços tecnológicos e arrepiada por demandas inovadoras em choque com a doutrina eclesiástica. De aborto a casamento gay. Enquanto isso, a Igreja de Pedro tenta em desespero impor seus vetos e se agarra aos dogmas, cada vez mais inviáveis à luz da razão”, bem lembra Mino Carta no editorial da CartaCapital desta semana, assuntos em que o reitor não toca em seu artigo, mantendo a média do costume bem maranhense de transformar em santo qualquer um que morra ou renuncie.

Voltando aO Estado do Maranhão: a Coluna do Sarney (link para assinantes do jornal, com senha) sobre os 43 anos da ponte do São Francisco é uma imodesta aberração em que ele se põe, por conta da efeméride, a evocar bravatas do tempo em que era governador. Mas Sarney sempre escreveu com o ego, e tão mal, que se seu artigo não fosse, cúmulo da egolatria, publicado na capa do jornal, muita gente sequer o leria ou saberia que existe.

PT de Sarney deixa Marlon Botão de fora da propaganda eleitoral gratuita

A dobradinha Lula/Sarney é a principal responsável pela atual esquizofrenia do Partido dos Trabalhadores. Se a situação já é(ra) muito ruim no plano nacional, o quadro piora se nos detivermos ao Maranhão, onde o PT sempre se caracterizou pelo combate à oligarquia local.

Em 2010 o Diretório Nacional do partido do então presidente da República passou por cima de tudo e todos, impondo apoio do PT à então candidata Roseana Sarney, filha do presidente do Senado, contrariando a maioria local, que havia decidido pelo apoio à Flávio Dino (PCdoB) para a disputa pelo Governo do Maranhão. Dois anos depois foi fácil ter a maioria, com vitória folgada do ex-comunista e atual vice-governador do Maranhão Washington Oliveira sobre o deputado estadual Bira do Pindaré, com o cearense disputando as eleições com apoio da oligarquia que um dia combateu (ou ao menos dizia combater).

E se digo que a dobradinha Lula/Sarney foi a principal responsável por isso, não estranhem: não é a única. Vantagens individuais, cafezinhos, anuidades, empregos e promessas outras também deram uma ajudinha.

A questão agora é que não dá para falar pura e simplesmente que Fulano de Tal é candidato do PT. É necessário esclarecer que Beltrano é candidato do PT antissarney e Ciclano é candidato do sarno-PT.

Explico: este blogue, por exemplo, apoia a candidatura de Nelsinho, do PT antissarneyista. O número dele é 13.555, a quem interessar possa. Outro candidato do mesmo campo, digo, do PT antioligárquico, é Marlon Botão, 13.200, outro bom nome para a Câmara Municipal. O primeiro é professor de educação física das redes públicas municipal e estadual, mestre de Capoeira, ligado ao Laborarte; o segundo, Relações Públicas, com atuação em assessorias no movimento sindical. Mas, bem, isto aqui não é horário eleitoral gratuito nem este blogue recebe para fazer propaganda, vamos ao que interessa.

Recebo, estupefato, a notícia de que Marlon Botão teve seu programa de tevê censurado na primeira semana de propaganda eleitoral gratuita. O motivo: não querer atrelar seu nome ao do candidato à prefeito da oligarquia Sarney, o citado Washington Oliveira, tido como “cerca velha”, à boca miúda, por diversos outros nomes que, no entanto, não tiveram a coragem e a postura de Marlon Botão, Nelsinho e uns poucos outros, de não pedir votos ao vice-governador que quer ser prefeito.

Ambos têm apoio do deputado estadual Bira do Pindaré, outro nome do PT que não se rendeu ao modus operandi oligárquico, o que certamente incomoda bastante as hostes petistas. “Sarney sabe que temos o apoio do deputado federal Domingos Dutra e do deputado estadual Bira do Pindaré e quer impedir a nossa presença na Câmara dos Vereadores”, analisa Marlon Botão no texto que recebi por e-mail de um amigo comum.

O diretório municipal do PT em São Luís havia sido notificado sábado (18) para garantir a participação do candidato no horário eleitoral; no sábado seguinte (25), ontem, o notificado foi Marlon Botão, pelo “juiz Fernando Mendonça, nos autos da Representação 87211/2012, proposta pela Coligação “Juntos por São Luís”, para responder, em 24 horas, sobre o pedido de retirada de matérias do seu site de campanha com a concessão de direito de resposta e aplicação de multas”, também de acordo com o texto recebido por e-mail.

A coligação alega que a responsabilidade pela gravação dos programas é do PT. Marlon Botão diz que outros candidatos o fizeram por conta própria, incluindo a gravação de externas. Cabe lembrar que o candidato é sócio de uma produtora e tem condições de elaborar seu próprio material. Ele disse que não aceitará censura e que irá lutar por seu direito (veja a seguir o programa censurado).

Um Maranhão Sarney-free

O Maranhão tem jeito? Nesse momento de saúde frágil (dele), que pensamentos dedica ao ex-presidente José Sarney?

Anseio muito por uma virada política do Maranhão. É um estado soterrado por corrupção, miséria e usura. Mas é também lindo, rico e culturalmente abençoado. Não posso desejar a morte do Sarney, porque isso contraria meus princípios, afinal fui criado em família católica, não fui ensinado a torcer pela morte de ninguém, nem mesmo do inimigo. Mas a única perspectiva de mudança que vislumbro pro Maranhão depende da morte política de seu legado tirano.

*

Zeca Baleiro a Pedro Só na Billboard Brasil nº. 30 [maio/2012, capa: Keith Richards e Mick Jagger]. Sobre seu O disco do ano, um dos temas da entrevista de que catei o trecho acima, escrevo em breve por aqui.

Educação, só na fachada

Maranhão tem 161 escolas com nome dos Sarney, mas 61% dos moradores não têm ensino básico

CHICO OTÁVIO

Nome de Roseana Sarney ainda não cobriu o de Paulo Freire em escola rebatizada, mas já está nos uniformes escolares

No ano em que foi declarado patrono da educação brasileira, Paulo Freire (1921-1997) ficou menor no Maranhão. Por decisão da Secretaria estadual de Educação, o nome do educador será apagado da fachada do prédio anexo de uma escola pública de Turu, bairro de São Luís. Em seu lugar, será pintado o novo nome da escola: Centro de Ensino Roseana Sarney Murad. Os uniformes dos alunos já foram mudados.

No Maranhão, o sobrenome Sarney já está em 161 escolas, mas a mudança em Turu não deve ser interpretada apenas como mais um sinal do culto à família de Roseana. Para a direção da escola, o importante é ter a certeza de que o nome da governadora pintado na fachada atrairá mais recursos e outros paparicos da administração central de um estado onde 61% das pessoas, com 10 anos de idade ou mais, não chegaram a completar a educação básica (de acordo com dados do Censo 2010). Isso é sarneísmo, movimento político liderado pelo senador José Sarney (PMDB), que comanda o Maranhão há quase cinco décadas.

— Sarney nem mora aqui. Seu controle só é ativado em momentos muito específicos — disse o professor Wagner Cabral, do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Sarneísmo, uma história de 47 anos

Reportagem publicada ontem no GLOBO revelou a existência de uma rede de falsas agências de turismo que fornece mão de obra barata, arregimentada no interior do Maranhão, para a lavoura de cana-de-açúcar e para a construção civil do Sudeste e do Centro-Oeste. Para os especialistas ouvidos pelo jornal, o fenômeno é resultado de uma perversa combinação de fatores, da má distribuição da terra à tragédia educacional no estado, todos fortemente associados ao sarneísmo.

Desde 1965, quando José Sarney (PMDB) assumiu o governo maranhense, o grupo do atual presidente do Senado venceu dez eleições para governador, chefiou o Executivo local por 41 anos e só perdeu o controle político do estado em duas ocasiões: quando o aliado e então governador José Reinaldo Tavares rompeu com o sarneísmo, em 2004, e dois anos depois, quando Jackson Lago (PDT) derrotou sua filha e herdeira política, Roseana, que concorria ao terceiro mandato de governadora. Mesmo assim, por pouco tempo: em 2009, Lago teve o mandato cassado por compra de votos.

O sarneísmo é um movimento diferente de outras correntes políticas, como o getulismo ou o brizolismo. Não se sustenta na adoração da figura do líder e nem tem uma base popular. Em lugares como Codó, Timbiras e Coroatá, cidades a 300 quilômetros de São Luís, que formam uma espécie de enclave do trabalhador barato no interior do estado, só se vê o nome Sarney em prédios públicos. Todavia, a cada abertura das urnas eleitorais, a família reafirma um poder que nem a estagnação econômica foi capaz de ameaçar.

— De um lado, Sarney é homem de ligação com o governo federal. Tem poder em Brasília por ser uma peça fundamental no jogo da governabilidade. De outro, mantém as prefeituras de pires na mão — sustenta Wagner Cabral.

— Ele fala por uma questão ideológica e política. Sarney proporcionou um salto de progresso no estado. Os fatos históricos são diferentes — rebate o jornalista Fernando César Mesquita, porta-voz de Sarney.

No Maranhão, a força do sarneísmo está na pequena política. Quando descobriu que a escola Paulo Freire, onde trabalha, seria rebatizada com o nome da governadora, a professora Marivânia Melo Moura começou a passar um abaixo-assinado para resistir à mudança. A retaliação não demorou:

— A direção ameaçou transferir-me — disse a professora, que mora no mesmo bairro da escola e vai de bicicleta ao trabalho.

A Secretaria de estado da Educação alega que o anexo da escola Paulo Freire mudou de nome porque foi incorporado à estrutura, já existente, do Centro de Ensino Roseana Sarney Murad, “devido à necessidade de uma estrutura organizacional, com regimento, gestão e caixa escolar próprios, no referido anexo”.

O Maranhão, onde quase 40% da população é rural, é uma espécie de campeão das estatísticas negativas. Enquanto o Brasil tem 28% de trabalhadores sem carteira assinada, o percentual no estado supera os 50%. Na relação dos 15 municípios brasileiros com as menores rendas, listados pelo IBGE, nada menos do que dez cidades são maranhenses. O chefe do escritório regional do Instituto, Marcelo Melo, acrescenta ainda que apenas 6% dos maranhenses estudam em cursos de graduação, mestrado e doutorado. Separados, os números já assustam. Se combinados, o efeito é devastador.

— O resultado desses índices de qualificação é uma mão de obra de baixa qualidade.

O professor Marcelo Sampaio Carneiro, do Centro de Ciências Sociais da UFMA, explicou que a estrutura do mercado de trabalho no Maranhão possui duas características principais. A primeira é a elevada participação do trabalho agrícola no conjunto das ocupações, com destaque para os postos de trabalho gerados pela agricultura familiar. Por conta de diversos fatores, ele disse que tem havido uma forte destruição de postos de trabalho nesse setor. De acordo com o Censo Agropecuário, em 1996 existiam 1.331.864 pessoas ocupadas no campo maranhense; em 2006 esse número baixou para 994.144 pessoas. Isso explica, por exemplo, o arco de palafitas miseráveis que cerca o centro histórico de São Luís.

A segunda é a inexistência de ramos industriais dinâmicos que consigam absorver essa oferta de mão de obra, já que a principal atividade industrial no Maranhão é o beneficiamento primário de produtos minerais, como a fabricação de alumínio e alumina pela Alumar e a produção de ferro-gusa por pequenas unidades fabris instaladas ao longo da Estrada de Ferro Carajás. Por esse motivo, o estado, que nos anos 50, 60 e 70 do século passado recebia migrantes, passou, a partir dos anos 1980, a exportar mão de obra. E nem mesmo a sistemática transferência de recursos, via programas sociais, foi suficiente para deter esse esvaziamento:

— A transferência de renda pode até livrar as famílias da fome, mas não é capaz de dinamizar a economia da região — disse Carneiro.

[O Globo, 7 de maio de 2012, grifos do blogue]

Maranhão: violência e barbárie

O presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos, Pe. Jean Marie Van-Damme, publicou Nota sobre a violência no Maranhão, em que comenta os recentes acontecimentos/homicídios no estado. A nota pode ser lida no site da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, no blogue do Tribunal Popular do Judiciário ou ainda no blogue Outros Olhares, do advogado Igor Almeida.

Nove entidades da sociedade civil maranhense, entre as quais a SMDH e a Cáritas Brasileira Regional Maranhão, ambas com assessoria de comunicação deste blogueiro, publicaram nota convidando a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) a conhecer o Maranhão e seu ambiente de barbárie.

A nota é fruto de uma polêmica gerada por declarações do jornalista Emílio Azevedo à Rede Brasil Atual, no calor dos recentes acontecimentos/homicídios nas últimas semanas no Maranhão, sobretudo a execução do jornalista Décio Sá. Um dos coordenadores do jornal mensal Vias de Fato, Azevedo se viu alvo de uma campanha covarde e raivosa, por parte de jornalistas que não se veem na barbárie citada por ele, a exemplo do que já havia acontecido com o advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA.

Ambos foram atacados diuturnamente por jornalistas ligados à Mirante/Sarney, que preferem se enxergar no mundinho cor-de-rosa, cor-de-roseana que nem o bárbaro, cruel e covarde assassinato de Décio Sá serviu para provar que não existe.

Pequena amostra do jornalismo de Marco Aurélio D’Eça

Marco Aurélio D’Eça é, digamos assim, o que era Décio Sá quando vivo, o que talvez lhe soe como elogio. Espécie de boneco de ventríloquo, extremamente alinhado aos patrões, marionete a dizer ou repetir o que àqueles interessa, subserviente dos pés até o último fio de cabelo. A diferença, mínima, entre um e outro era que o recém-assassinado ao menos sabia escrever, tinha um mínimo de talento. Na verdade, dominava a técnica e tinha objetividade, não era dono de um texto grandioso, rebuscado.

O advogado Luis Antonio Câmara Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Seccional Maranhão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MA) escreveu este texto sobre o assassinato de Décio Sá e o contexto em que o mesmo está inserido. Pedrosa, respeitadíssimo, é uma das maiores referências quando se trata de Direitos Humanos, não só no Maranhão, mas no Brasil.

O jornalista Marco Aurélio D’Eça, na tentativa de desvirtuar o debate, cata uma frase, uma expressão solta, circula-a com uma série de bobagens e impropérios e acusa Pedrosa e a OAB/MA de se eximirem de responsabilidades no caso Décio. Em jornalismo chamaríamos de edição o que fez o blogueiro miranteano, embora seu blogue não mais esteja nos domínios do portal das organizações Sarney.

Edição é algo importantíssimo em jornalismo. É nela que você corta, apara, reescreve, corrige erros, enfim, deixa um texto com cara de publicável. Mas há quem use suas ferramentas para outra coisa. Exatamente como faz D’Eça, com toda desfaçatez, pensando que alguém acredita N’Eça.

A expressão usada por Pedrosa, “gorilas diplomados”, não é, nem quer ser racista, nem se refere a jornalistas em geral, nem sequer à maioria dos profissionais da área. Refere-se a membros de um pequeno grupo de bacharéis em comunicação truculentos, intolerantes, agressivos, gratuitamente violentos e que agem por instinto animal, às vezes tão somente o da sobrevivência. Tampouco faz alusão à cor da pele de Décio Sá, como D’Eça quer fazer crer: há gorilas diplomados de toda cor no grande zoológico da política e do jornalismo cometidos no Maranhão da cachaça, pão e circo.

Por aí há, além de gorilas diplomados, gorilas fardados (disparando contra adolescentes e indefesos de toda faixa etária), gestores gorilas e gorilas virtuais desfilando a máxima ultrapassada de que “direitos humanos só defendem bandidos”.

Criticar a OAB/MA, o presidente de sua Comissão de Direitos Humanos ou qualquer outra entidade ou seus membros por não emitirem nota(s) de repúdio sobre o caso Décio é apenas tentar induzir seus leitores ao erro: jornalistas devem (ou ao menos deveriam) escrever em seus textos o que as pessoas dizem, nunca o que supostamente teriam pensado.

As investigações do caso Décio estão acontecendo em uma velocidade satisfatória, acima da média de inúmeros outros casos envolvendo cidadãos comuns, anônimos que morrem sem às vezes ganhar uma linha sequer em página policial de jornal, quanto mais toda essa discussão sobre o contexto, a violência, a segurança pública e tudo o mais que se tem debatido (ou se tem tentado debater) nos últimos dias. Afinal de contas, o jornalista era amigo pessoal da governadora Roseana Sarney, como já apregoou um ou outro blogueiro em meio à grande repercussão que o crime ganhou.

Com uma amizade dessas, que diferença faz uma nota de repúdio da OAB/MA ou de outra organização?

Mídia eletrônica, controle social e poder econômico: particularidades da concessão da TV Difusora/ Rede Globo

Os que têm minha idade ou são um pouco mais novos devem se assustar e pensar: o blogueiro errou. TV Difusora? Rede Globo?

Eu, criança, lembro de, por exemplo, Zé Raimundo na Globo e da confusão causada em minha cabeça de menino quando a Globo deixou o canal 4 para o 10. Já nem lembro quem tinha os melhores desenhos animados, mas lembro de perder uns de que gostava por ficar esperando no canal errado.

O título do post roubo da dissertação que o jornalistamigo Franklin Douglas defende hoje, às 17h, no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFMA. A defesa acontece na sala de multimídia do programa, no Campus Universitário do Bacanga, e tem na banca os professores doutores Marina Maciel Abreu (orientadora), Josefa Batista Lopes, José Ribamar Ferreira Júnior e Ilse Gomes Silva (suplente), todos da UFMA.

“Abordo como a família Sarney tomou a Difusora dos Bacelar para si e, depois, acabou cedendo à família Lobão, para ter o controle da concessão da Globo. Afinal, significava selar a relação política-poder-mídia entre Sarney-Roberto Marinho no Maranhão”, contou o concludente de mestrado ao blogue, por e-mail.

“Para isso, acabaram com o Magno Bacelar, herdeiro do Raimundo Bacelar, que funda a TV no Maranhão em 1963, como principal parceiro de Assis Chateaubriand no Maranhão. Foi nossa a segunda televisão do Nordeste, uma das primeiras do país e, em sua primeira fase (emissora própria, sem rede), a cultura maranhense foi destaque: a TV transmitia das 18h30min às 22h, ao vivo, e já precursores da telenovela brasileira, Reynaldo Faray e Aldo Leite estavam lá dirigindo o teleteatro ao vivo. Imagina isso em 1960!!!”, conclui, entusiasmado.