São Luís no plural

[o amigo Gutemberg Bogéa, editor do suplemento JP Turismo, encomendou um texto exaltação à ilha, por ocasião de seu aniversário de 406 anos, completados hoje (8); o texto, abaixo, saiu ontem (7), no Jornal Pequeno]

Uma singela homenagem ao 406º. aniversário da capital maranhense. E para você: São Luís de quê?

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Foto: Marcia Carvalho

São Luís completa hoje (8) 406 anos de fundação – há controvérsias. Na última quarta-feira (5), a escritora Clarissa Carramilo presenteou a cidade com Cidade espanto, seu romance de estreia, em concorrida sessão de autógrafos ocorrida na Livraria Leitura (São Luís Shopping).

Cito o livro da jovem autora por que uma coisa salta aos olhos em suas páginas: a relação que cada ludovicense estabelece com sua terra natal. Adoramos exaltá-la, mas no íntimo, também acreditamos sermos os únicos que podemos esculhambá-la. Imagine alguém nascido em qualquer outra cidade falando mal de São Luís perto de você?

Começa uma troca de argumentos sem fim, uns exagerados, sempre na perspectiva ufanista de que “vivemos na melhor cidade da América do Sul”, como cantou o poeta referindo-se a outra. A Cidade espanto que intitula o romance de Clarissa Carramilo está lá, ao longo de suas páginas, com suas belezas, lugares únicos e problemas.

Mais de quatro séculos de história cantados em verso e prosa, entre inúmeros epítetos: Athenas brasileira, Jamaica brasileira, Ilha do amor, Ilha rebelde, capital brasileira da cultura, cidade patrimônio cultural da humanidade, Ilha bela, Ilha magnética, no título de duas músicas tornadas patrimônio imaterial pela Assembleia Legislativa do Maranhão, de Carlinhos Veloz e César Nascimento, respectivamente, que adotaram São Luís como berço, bebendo de sua inesgotável fonte cultural e retribuindo com uma obra à altura.

São Luís das Pedras da rua, os loucos que qualquer cidade tem, catalogados pelo saudoso Lopes Bogéa no livro homônimo – todo mundo já trombou com um: de um Zé da Chave onipresente em bons shows musicais a Maria do Copo, sempre disposta a mais uma dose, entre muitos outros.

São Luís dos pregoeiros, em que uns apregoam que no passado era melhor: tempos de cinemas fora de shopping centers, Roxy, Alfa, Eden, Monte Castelo, Rex, Passeio, de bares como o Moto Bar, Risco de Vida, Baixo Leblon. Outros a enxergar – merecidamente – beleza na pulsação de espaços como o Bar do Léo, o Chico Discos e a rediviva Fonte do Ribeirão, cartão postal do centro da cidade, ocupada por samba, reggae e outras levadas.

São Luís cujo aniversário é colado a feriado nacional, garantindo um feriado prolongado, merecido descanso a seus trabalhadores e trabalhadoras, para inveja de quem nasceu e vive noutros cantos do Brasil – este ano caiu num sábado, mas de qualquer forma, está valendo.

São Luís das praias, destino de boa parte dos que passam este feriadão por aqui. São Luís onde, no entanto, já não dá mais para vacilar com janelas abertas, pois não há mais dia e hora para chover, levando a comparações gaiatas, em tempos de memes, com Belém e Londres.

São Luís da Feira da Praia Grande – ou Mercado das Tulhas – e, agora, da dominical Feirinha São Luís, em que é possível tomar café ouvindo a banda tocar e já emendar uns chopes artesanais até a hora do almoço e além.

São Luís do reduto boêmio da Madre Deus, berço do samba da Ilha, de “bicho terra e bicho homem, que o tempo espalha e não consome toda magia”, salve a Madre Ilha de Ivandro Coelho e de todos que se aventurem respirar seu ar, que quem vem uma vez para sempre quer ficar.

São Luís do bumba meu boi e do tambor de crioula, do peixe frito com arroz de cuxá, da juçara com camarão seco, da tiquira sem poder tomar banho, reza a lenda – como tantas outras, a carruagem de Ana Jansen, a manguda, entre tantas histórias que seu Antonio Vieira não cansou de contar nos fins de tarde na banca do Dácio, no Estacionamento da Praia Grande.

São Luís da Praia Grande que uns insistem em chamar de Reviver, nome de inacabado projeto de revitalização do centro histórico ludovicense, que abarca ainda os bairros do Desterro e do Portinho.

São Luís do Oscar Frota e da Zona do Baixo Meretrício, por onde supostamente o reggae teria sido introduzido, por discos de vinil trazidos por marinheiros de suas viagens. O resto, a história se encarrega de contar.

A repórter e a cidade

Cidade espanto. Capa. Reprodução

 

Impressiona a maturidade e o pleno domínio da linguagem de Clarissa Carramilo em seu romance de estreia, Cidade espanto [Editora Oito e Meio, 2018, 94 p., R$ 36,00]. A escritora prova já ter nascido pronta, presenteando os leitores com um enredo bem urdido, em que várias tramas se cruzam, sem perder a mão ou exagerar.

O título refere-se ao fato de a cidade de São Luís ser personagem – o parágrafo inicial, por exemplo, dialoga diretamente com o de O mulato (1881), de Aluízio Azevedo.

“Os fatos narrados e seus personagens pertencem ao universo da Ficção”, adverte a autora, como de praxe, mas ficção e realidade convivem na escrita ousada da autora, que mete o dedo em diversas feridas abertas, bastante conhecidas pelos que habitam a capital maranhense – mas que, no entanto, não tornam a leitura mais difícil ou menos desagradável para gente de outras plagas.

Clarissa Carramilo se vale de suas experiências profissionais para inventar personagens – ou apropriar-se delas –, inclusive a cidade de São Luís.

Antonela Azevedo, a protagonista, um alter ego da autora, é repórter destemida, que deixa claro de que lado está, sem tornar sua literatura algo panfletária: comprometida com a defesa dos direitos humanos, contrária ao golpe político-jurídico-midiático que destituiu do poder a presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff, que ousa peitar os patrões pelas coisas e causas que acredita.

Jornalista de formação, a escritora tira onda com a própria profissão, apontando contradições aparentes que acabaram naturalizadas com o tempo: chefes que conhecem menos o ofício que seus subordinados, a ditadura dos textos curtos (pois leitor de internet só curte textão em treta de rede social), a interferência da ideologia dos patrões (os donos dos veículos) sobre a redação final, jornalistas que não leem, além das relações com a ansiedade e o álcool.

A autora equilibra-se ainda entre o thriller, cada capítulo batizado por uma mulher são os bastidores das pautas em que Antonela Azevedo se envolve, enredando também o leitor, e histórias de amor, contadas ou vividas.

Serviço

Autora e obra em uma das paisagens do romance. Foto: divulgação

Clarissa Carramilo lança Cidade espanto amanhã (5), às 19h, na Livraria Leitura (São Luís Shopping). A noite de autógrafos contará com bate-papo da autora com a escritora Camila Chaves e a jornalista Bruna Castelo Branco. A obra foi selecionada pelo Edital de Apoio a Publicação de Obras Literárias da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema).

Lançamento do Lençóis Jazz e Blues Festival terá show de Leila Maria, hoje

A cantora Leila Maria. Foto: divulgação

 

“Em minha gestão o Tutuca não ganhará nada, está fora. A briga com o Ronald [Pinheiro, compositor] mostrou o quanto ele estava engajado politicamente com o grupo que faz oposição ao nosso”, desferiu o então secretário de Estado da Cultura Luiz Bulcão, em entrevista, cerca de um mês após a consolidação do golpe que tirou Jackson Lago (1934-2011) do Palácio dos Leões e devolveu a cadeira de governadora a Roseana Sarney.

Ainda não sabíamos, mas em 2009 aconteceria a primeira edição do maior feito de Tutuca como produtor: o hoje longevo Lençóis Jazz e Blues Festival, que colocou o Maranhão definitivamente no mapa das grandes produções do gênero – aquela primeira edição contou com o patrocínio da Cemar, ainda sem a chancela da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com que a empresa continuou a parceria, até hoje.

Hoje (27), logo mais às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), acontece o lançamento da comemorativa 10ª. edição do festival, que em 2018 terá, como de praxe, duas etapas: a primeira em Barreirinhas, entre os dias 10 a 12 de agosto, e a segunda em São Luís, no fim de semana seguinte (17 e 18).

No lançamento do festival quem canta é a carioca Leila Maria, que a crítica especializada costuma dizer tratar-se da voz brasileira de Billie Holiday. Os ingressos para o evento podem ser trocados na bilheteria do teatro por um quilo de alimento não perecível, cuja arrecadação será revertida em favor da Creche Caminhando com Cristo, do Parque Jair (São José de Ribamar/MA).

Entre as atrações confirmadas para a edição de 2018, o cantor e compositor mineiro Lô Borges, que presta homenagem aos 75 anos do parceiro Milton Nascimento; o gaitista Jefferson Gonçalves, bluesman talvez de presença mais constante nestes 10 anos de festival; o pianista pernambucano Amaro Freitas, grata revelação da música instrumental brasileira; Fauzi Beydoun, artista à frente do fenômeno reggae Tribo de Jah, desta feita mostrando sua porção bluesman; o pianista acriano João Donato, um dos inventores da bossa nova (se apresenta em São Luís dia 17 de agosto, data em que completa 84 anos de idade); o gaitista brasiliense Gabriel Grossi; a cantora carioca Taryn Szpilman; o reinventor do bandolim Hamilton de Holanda; e o violonista piauiense Josué Costa, outra jovem e grata revelação da música instrumental brasileira – programação completa no site do festival.

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Ouça Leila Maria em Swing, brother, swing (Clarence Williams/ Walter Bishop/ Lewis Raymond):

Rita Benneditto: uma artista em constante reinvenção

Foto: Márcio Vasconcelos

 

O público maranhense tem reencontro marcado com Rita Benneditto na próxima sexta-feira (8), aniversário de São Luís, ocasião em que a artista fará um show dentro da programação do Governo do Maranhão pelos 405 anos da capital. Ela sobe ao palco do Espigão Costeiro da Ponta d’Areia às 21h.

Como seu conterrâneo Zeca Baleiro, Rita também está completando 20 anos de carreira fonográfica em 2017: seu primeiro disco foi lançado em 1997, com produção dele e Mário Manga (ex-Premeditando o Breque), e repertório que incluía Antonio Vieira, Carlos Careqa, Márcio Greyck e Vital Farias, entre outros.

Em entrevista exclusiva a Homem de vícios antigos, por telefone, ela comentou o repertório do show, o início da carreira, influências, a importância do Maranhão em seu fazer artístico, as parcerias com Jussara Silveira e Teresa Cristina, novos projetos, a mudança de nome artístico e, assunto inevitável nestes tristes tempos, política.

Foto: Marcos Morteira

Você é uma das artistas maranhenses mais bem sucedidas nacionalmente, ao lado de Alcione e Zeca Baleiro, mas por outro lado faz poucos shows por aqui. A que você acha que se deve essa ausência e qual a sensação de reencontrar o público maranhense numa ocasião como o aniversário da capital do estado?
Eu lamento muito que eu vá muito pouco a São Luís, que é a minha terra. Eu acabo tendo que concordar quando muita gente diz que santo de casa não faz milagre [risos]. Eu gostaria de ir sempre, uma ou duas vezes por ano, no calendário de festas de São Luís. É meu porto seguro, é o lugar onde eu comecei, são minhas referências, onde eu formatei toda minha história. Eu tenho um trabalho de pesquisa muito grande com a cultura popular brasileira, e especialmente a cultura do Maranhão. Eu sempre digo em qualquer lugar onde eu vou, que o Maranhão, junto com Pernambuco e Bahia, é a tríade máxima do Nordeste e da cultura. É o alicerce, por que as tribos africanas, o povo africano, o povo que se deslocou para essas regiões, o povo negro e ameríndio, tem um poder muito grande, concentrou um poder muito grande e estabeleceu uma cultura muito forte. Mas geograficamente o Maranhão se prejudica um pouco, por que não está muito próximo desses eixos aqui onde as coisas normalmente funcionam mais. Eu lamento muito que eu não consiga. Quando eu vou eu tento fazer um show no teatro, as pessoas acabam nem indo, meu ingresso custa 80, 60 reais, elas querem pagar 400 reais num desses caras aí. O Nordeste tem uma cultura popularesca muito grande, um consumo de sofrência e popozão [risos], eu não tenho como questionar, eu tenho um trabalho específico. Eu lamento que eu vá muito pouco a São Luís, eu me ressinto disso, mas tá tudo bem, a gente quando vai, vai feliz. Minha expectativa, sempre que eu vou, é maravilhosa, por que eu vou encontrar o público maranhense, eu vou fazer o melhor de mim cantando coisas minhas, coisas da minha terra, ainda mais quando é uma festa tão especial como o aniversário da cidade, por que concentra um número maior de pessoas, é público, é de graça, de graça entre aspas, por que nós pagamos impostos [risos].

Falando nisso, o que o público pode esperar em termos de repertório? Que banda te acompanha? Fale um pouco do show.
Na verdade eu tou com uma banda agora um pouco reduzida, um trio, power trio mesmo, bateria, baixo e guitarra. É o Ronaldo Silva, que é filho do Robertinho Silva, que é um grande músico, percussionista, baterista, o Pedro Dantas, que é meio maranhense, carioca, foi criado aí no Maranhão, é baixista, toca hoje com a Lucy Alves, com a Vanessa da Mata, garoto novo e muito bom, e o Fred Ferreira, que é guitarrista aqui do Rio de Janeiro, está comigo já há um tempão, faz a direção. Eu reuni na verdade músicas de vários de meus trabalhos, não dá para fazer tudo, é apenas um show, tem outras atrações, o espaço dos shows serão divididos entre as pessoas que vão se apresentar [além dela sobem ao palco Carlos Gomes, Cláudio Fontana, Criolina e Tom Cléber]. Eu reuni canções de meus discos anteriores, Filhos da precisão, de Erasmo Dibell, Divino, que é meu com Zeca Baleiro, tem De mina, de Josias Sobrinho. Eu quero cantar Ilha bela, tem um tempão que eu tenho vontade de cantar, que é do Carlinhos Veloz e ele faz uma homenagem linda a São Luís do Maranhão, Tambor de crioula, de Oberdan e Cleto Jr., as coisas do Tecnomacumba, que todo mundo curte e gosta, Cavaleiro de aruanda, Moça bonita, Deusa dos orixás, estou pensando em fazer um reggae mais clássico, o Police and thieves, que foi um dos primeiros reggaes que eu ouvi, do Junior Murvin, quando eu morava na Cohab. Eu reuni várias coisas, quero fazer um show dançante, a gente vai estar na rua, na beira da praia, quero fazer uma festa bem legal. Vai ter reggae, vai ter macumba [risos], vai ter balada. Eu espero agradar meu público maranhense, eu não tenho o que dizer, nem reclamar, eu me sinto muito bem recebida pelo público do Maranhão. Mesmo indo pouco aí eu sei que as pessoas gostam de meu trabalho e a gente tem que ir na luta, fazendo, trabalhando, sempre com amor e alegria.

Tua carreira começa colada com Zeca Baleiro, vocês lançam os discos de estreia juntos, o teu primeiro produzido por ele com o Mário Manga, mas passado algum tempo vocês se descolam. Foi um processo natural esse afastamento? Ou é um afastamento só ilusório, vocês não se afastaram? Como é essa relação, hoje?
A gente ficou muitos anos muito juntos, unha e carne. Eu sempre digo que eu sou a voz das canções de Zeca Baleiro [risos], e que ele é meu compositor, por que a gente tem realmente uma afinidade musical muito grande e também afetiva, nós somos do mesmo estado, a gente cresceu em São Luís. Eu acabei indo pra São Paulo, depois acabei convencendo-o a ir a São Paulo para morar, ele foi quem dirigiu meu primeiro show no Maranhão, o Cunhã, depois quando ele foi pra São Paulo ele acabou participando junto com Mário Manga da direção do meu primeiro disco. É uma pessoa extremamente presente no meu trabalho e eu tenho muito orgulho disso. Mas o tempo e o fato de ele ter ficado em São Paulo e eu ter vindo morar no Rio, isso naturalmente afastou a gente, afastou bastante. A gente tem pouco contato, porém, sempre que a gente tem contato é sempre amoroso, é sempre com afeto e boa memória das coisas. Agora mesmo ele me convidou para participar aqui de uma noite de forró que teve na Fundição Progresso. Foi ótimo nosso reencontro, a gente cantou várias músicas juntos. Sempre que a gente pode estar junto, a gente está, mas não mais como era antigamente, aquela coisa bastante presente e constante como era no período em que a gente se conheceu e no período em que eu morei em São Paulo. Acho que é natural, ninguém se perdeu, mas ninguém está mais tão próximo, a vida vai seguindo, a gente com ela, e as coisas vão mudando naturalmente. Mas eu tenho muito amor e muito respeito a Zeca, ao trabalho dele e tudo o que a gente viveu junto.

Ele acabou de lançar um álbum digital de duetos iniciando as comemorações de 20 anos de carreira, que é uma marca que você também atinge agora em 2017, do ponto de vista fonográfico. Vocês já tinham carreiras antes, mas o marco que se considera para efeito de comemoração, como ele me disse em uma entrevista, é o lançamento do primeiro disco. Você está preparando algum trabalho específico para celebrar este marco?

Encanto. Capa. Reprodução

Pra te falar a verdade eu nunca fiquei muito ligada nessa coisa de tempo. Tempo no sentido “ah, 25 disso, 30 daquilo”, acho que o tempo é muito relativo em relação a isso. Eu não gosto de demarcar esse tipo de tempo pro meu trabalho, tudo é tão cíclico, tão permanente e impermanente, que eu prefiro ir fazendo as coisas. Como hoje as mídias mudaram muito, os discos físicos quase não vendem, a gente está tendo que se desdobrar em formas de lançamento. Eu sempre tive como ponto forte de meus trabalhos os meus shows, os meus projetos. Por exemplo o projeto Tecnomacumba começou sem disco nenhum, só depois de três anos lançado que eu fui gravar o primeiro registro dele em estúdio. Ele durou 12 anos em cartaz, muito em consequência dos shows que eu fiz. Eu estou muito mais envolvida com os shows, os projetos de shows, do que necessariamente os registros disso, o disco. A produção é muito alta e acaba não tendo retorno do investimento. Mas a gente tem que estar lançando, sempre. Eu estou optando por lançamentos pequenos, de EPs ou single, não necessariamente um disco de 14 músicas. Estou com dois projetos agora em cartaz, o Zabumba Beat, que eu estreei aqui em São Paulo em agosto, que é uma reverência aos tambores do Brasil, de norte a sul, especialmente a zabumba, que é um instrumento africano que está presente em vários ritmos brasileiros, especialmente os ritmos do xote, forró, que junto com a sanfona e o triângulo formam a trindade máxima das festas juninas do brasil. Zaumba Beat por que de novo eu estou explorando os timbres eletrônicos, as possibilidades todas que a tecnologia pode nos dar, ressaltar o som original dos tambores, os couros verdadeiros, grandes, ancestrais. É um show que deu megacerto, além do Ronaldinho Silva eu chamei o Donatinho, que é o filho do João Donato para fazer toda a parte eletrônica, dos sintetizadores. E paralelo a isso eu também estou com um projeto chamado Suburbano Coração, que é totalmente diferente, sou eu e o maestro Jaime Alem, que foi maestro de Maria Bethânia durante muitos anos. A gente sempre quis estar junto, sempre quis fazer um trabalho nosso, e a gente se juntou em voz e violão, viola, são instrumentos de cordas. A gente estreou no circuito Sesi, agora está indo pra São Paulo, está começando a rodar. São dois projetos que eu estou bastante envolvida no momento. Paralelo a isso eu continuo fazendo o que eu hoje chamo de Tecnomacumba Encantada, por que eu juntei o Tecnomacumba com o Encanto, estou fazendo este show com os dois discos de carreira misturados.

Adorei os nomes dos projetos, Suburbano Coração e principalmente Zabumba Beat.
Eu abro o projeto com Urrou, de Coxinho, uma vinheta, depois engato ele no Mimoso, de Ronald Pinheiro. Eu vou costurando, minha ideia é ressaltar os ritmos. Mesmo que eu escolha músicas tradicionais, como músicas de Luiz Gonzaga, ou João do Vale, Coroné Antonio Bento, a ideia é ressaltar os ritmos brasileiros onde a zabumba é muito presente. Estou tentando com isso destacar mais a ritmia do Maranhão. As pessoas conhecem pouco a ritmia do Maranhão, por que o compasso do Maranhão é diferenciado do resto do país. Enquanto todo mundo trabalha em quatro por quatro, no Maranhão a gente trabalha em três [risos]. Todos os ritmos são ímpares, o tambor de mina, o divino, as pessoas talvez tenham dificuldade em assimilar um pouco isso. Parece besteira mas não é. Tem De mina, que é uma música que eu gravei no Encanto, de Josias Sobrinho, eu quis destacar justamente o ritmo do tambor de mina, mas eu gravei num gênero que é extremamente atemporal, que é o rock. Por que tudo é rock! Destacar isso de uma maneira sem perder o valor do ritmo, sem perder a força da mina, por que é tão rica a nossa ritmia do Maranhão, que eu não sei nem te dizer quanto. Então eu quero nesse Zabumba Beat destacar mais ainda o tambor de crioula, o boi de zabumba, aquele ritmo alucinante do sotaque de zabumba, de Pindaré, de uma maneira que possa chegar a todos os lugares do mundo. Não tou preocupada em ser purista, nem quero destruir o que é original, e o que é a célula mãe. Eu quero apenas destacar a ritmia do nosso estado que é fantástica.

O nome inevitavelmente me lembrou o Bumba Beat de Otávio Rodrigues, eu não sei se você lembra do programa de rádio.
Sim, eu me lembro. Me lembro muito disso, do Doctor Reggae e o Bumba Beat dele. Eu não podia botar Bumba Beat por que já tinha marca registrada.

Falar em marca registrada, você mudou o nome, há cinco anos, de Rita Ribeiro para Rita Benneditto, com dois n e dois t. Como é que você avalia essa mudança hoje, passados estes anos. Mudou algo na própria Rita ou foi só o nome artístico mesmo?
Menino, eu já assimilei, graças a Deus, muito rápido.

O público também, não?
Muita gente do Brasil, de vários lugares, ainda me conhece por Rita Ribeiro. Eu não entrei em nenhuma paranoia por isso. Eu não fiquei neurótica, nem reclamando. Me chamam de Rita Ribeiro, eu digo “olha, agora mudou”, na boa. Acho que tem tempo para ser assimilado. Acho que o que me deu muita força, me respaldou muito na mudança de nome foi descobrir que eu não tinha um público qualquer, eu tenho um público extremamente fiel a meu trabalho. Não é mais nem fã, é fiel mesmo. As pessoas estavam mais interessadas na minha música, na minha voz, do que necessariamente no fato de eu ter trocado o nome. Tem gente que “ah, eu preferia Ribeiro”, “ah, mas Benneditto tá lindo”. Eu acho maravilhoso, quisera eu há muitos anos já ter pensado nisso, por que é o nome que está dentro da minha história toda, meu pai se chamava Fausto Benedito Ribeiro, eu nasci na cidade de São Benedito do Rio Preto, aí perto dos Lençóis, eu sou devota de São Benedito, o preto velho das almas de angola, que eu reverencio na umbanda brasileira, e Benedito quer dizer abençoado. É um processo realmente lento, eu preciso cada vez mais ir enfatizando, mas já está tão assimilado, muita gente já me chama de Rita Benneditto, muita gente já se identifica, tanto é que meu próximo trabalho, quando eu resolver fazer um disco novo, eu não sei quando, vai ser Benedito seja, o nome.

Você tá ótima de títulos, hein?
[Risos] Ai, que bom! Rita Benneditto, Benedito seja, tem até música. Eu fiz uma brincadeira com um repentezinho com meu nome. Eu sei que é um processo, não foi fácil, construir uma carreira de 20 anos, com Rita Ribeiro e ter que mudar, você tem que ter muita coragem, muita segurança no que faz, e paciência para fazer essa transição. Graças a Deus eu tive tudo isso e depois de cinco anos eu posso dizer que estou cada vez mais Benedito seja.

A gente falou já um pouco de Zeca Baleiro, você citou no repertório que está preparando para o show nomes como Carlinhos Veloz e Erasmo Dibell, e agora nestes novos projetos o Ronald Pinheiro, o Coxinho. Antes de vocês saírem para São Paulo e você migrar para o Rio, aqui você trabalhou com gente como Cesar Teixeira, Chico Maranhão e Josias Sobrinho. Eu queria que você comentasse um pouco a relação com estes mestres e apontasse outros nomes da música do Maranhão que você admira, respeita, reverencia, enfim, que são importantes para tua formação.
Olha, você já falou tudo. Na verdade esses caras são a minha escola, mesmo. Chico Maranhão, Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, Cesar Teixeira. É uma galera que eu tenho um grande respeito, são grandes mestres mesmo. Sem falar nos outros mestres, que são anteriores a eles, que são Mestre Felipe, Leonardo, Pai Euclides, e tantos outros mestres onde eu bebi na fonte. Eu tenho uma bagagem muito grande de coisas muito boas e ricas do Maranhão. Eu tive que sair da minha terra, infelizmente num período em que a gente não tinha muita opção de viabilização do trabalho local, por que, como eu te falei, geograficamente fica um pouco deslocado e a gente precisa circular. Mesmo o Rio de Janeiro sendo o caos que é, e é realmente um caos, as pessoas têm uma ilusão às vezes que o Rio de Janeiro, por exemplo, é uma cidade onde tudo acontece, mas não é tanto assim. O caos impera aqui, é muita gente batalhando por seus espaços, mas é necessário, por que tá tudo muito próximo de tudo. Se você precisa de um contato, de viabilização de alguma coisa, as coisas acontecem, eu não sei te explicar. É uma dinâmica outra, natural, é uma cidade cosmopolita, é uma cidade com uma projeção mundial. Eu trago mesmo comigo, “trago no bolso um colar e uma bola de meia” [cantarola De Cajari pra capital, de Josias Sobrinho], eu trago essa referência muito grande, fica muito claro para o povo daqui o quanto eu sou reverente a estrutura musical da minha terra. A maneira que eu canto, meu canto é muito influenciado por esse compasso que eu te falei. Eu, por exemplo, gravando Encanto, eu gravei Santa Clara clareou, de Jorge Benjor, ela é uma música feita em compasso quatro por quatro, “Santa Clara clareooou” [cantarola], eu transferi pro ritmo da mina, o Benjor pirou, ficou enlouquecido com o arranjo, eu mudei o compasso dela, eu desestruturei para torná-la uma oração dentro do tambor de mina. A mesma coisa eu fiz com Água do Djavan, “água pra encher” [cantarola], que eu trouxe para o universo do divino espírito santo, eu tenho naturalmente uma forma de cantar diferenciada sob influência da ritmia do Maranhão. Por tudo que eu vivi, absorvi, por ter nascido aí, por ter esse negro dentro de mim, o negro maranhense, do Daomé, do Guajajara, por ter essa influência do nosso povo muito naturalmente na minha história. Como disse Itamar Assumpção, que fez uma música pra mim, tá na cara que tá no sangue. Então, esses caras me influenciaram muito, são mestres comprometidos com a palavra, com a poesia, são mestres que têm um compromisso com a história, sem falar nos poetas todos, maranhenses, que são fantásticos. Nossa terra é muito rica. Eu lamento ainda que não tenha havido uma projeção a nível nacional do poder cultural do Maranhão, de uma forma comercial, mercadológica, do nível de Pernambuco e Bahia, só pra dar um exemplo. O Maranhão tem um potencial absurdo, era para ter um calendário de atividades culturais durante o ano, era para ter um carnaval multicultural, um São João multicultural, era para ter um intercâmbio. Isso é só o que eu acho, eu não tenho fórmula para nada. Mas eu acho que a gente já deveria estar num nível, não só eu, Alcione e Zeca Baleiro, mas tantos outros com potencial tão grande quanto o nosso, ou até maior, que possa projetar mais ainda a nossa cultura, tornar o Maranhão mesmo um estado… o norte está se projetando absurdamente, com a referência muito do bumba meu boi do Maranhão, e a guitarrada, o tecnobrega, o norte está bombando no sul do Brasil, não é só o açaí não [risos]. E a gente precisa entender, precisa se unir mais, por que a Bahia funciona? Por que os baianos se juntam para projetar essa história toda pra fora.

Você falou em multiculturalidade e intercâmbio. Em sua carreira você já dividiu discos com Teresa Cristina e Jussara Silveira. Eu queria que você comentasse um pouco as dores e as delícias desses processos.
[risos] Quando a gente começa um projeto a gente tem sempre as expectativas de que ele seja o melhor possível, a gente quer, a gente acredita. As meninas são extremamente talentosas, cada um tem sua carreira. A ideia do projeto é minha, inclusive o nome, Três meninas do Brasil, meu pai tocava muito essa música pra mim, Meninas do Brasil, de Moraes Moreira [e Fausto Nilo], era eu e Teresa, a princípio, a gente acabou chamando a Jussara. Foi feito pela Manaxica Produções, que é meu selo fonográfico, produtora. A gente estava assim, aquela coisa, estávamos a fim de fazer. Ah, vamos fazer um disco de samba? Não, vamos fazer um disco que passe pela história do Brasil, contando coisas, referências minhas, de Jussara e de Teresa. Aí eu chamei o maestro Jaime Alem, foi meu primeiro contato com ele, nessa época ele estava envolvido demais com Maria Bethania, aí eu acabei envolvendo Maria Bethania na história, perguntei se ela não queria lançar o disco pelo selo dela, ela tem um selo chamado Quitanda na Biscoito Fino, o maestro fez a ponte, ela adorou o projeto, acabou que a gente gravou pelo selo dela. Foi um encontro feliz. A gente ficou dois anos só fazendo este projeto, a gente lançou o disco, fez shows, tinha sempre aquela dificuldade de conciliação de agendas, de cada uma ter seus projetos, sua carreira, acabava ficando conflitante, não casavam as datas, aí a gente resolveu encerrar. A gente já fez o disco, fez os shows, não conseguimos percorrer o Brasil todo, temos um disco aí lançado para a eternidade e um encontro nosso também marcado por um tempo. Foi muito bom. Depois eu gravei um outro disco com Jussara, lançado em 2014, chama Som e fúria, nós fomos para a Chapada Diamantina, é um disco surreal, sem comprometimento comercial nenhum, a gente queria fazer uma viagem pelos cantos matriciais brasileiros, onde a voz é o fio condutor, e a gente se meteu num sítio no Capão, na Chapada Diamantina durante 25 dias, produzidas por José Miguel Wisnik e Alê Siqueira, e saiu um disco assim que mais parece uma trilha sonora de um balé, de um filme. Eu particularmente gosto muito, uma viagem bem rica. Foi um desdobramento de meu encontro com Jussara, depois de Três meninas. Com Teresa a gente não realizou mais nada, com Jussara ainda deu esse fruto que é Som e fúria, a gente vai fazer show em novembro em São Paulo.

Além desse show no aniversário de São Luís, tua vinda te permite, dessa vez ou normalmente, passear, fazer coisas que você gosta no Maranhão? Em tua memória, o que você recomenda a turistas e nativos? O que não se pode perder em estando no Maranhão?
Eu sempre dou um jeito de ir e tentar ficar um tempo. Eu vou ficar uma semana, estou louca para ir aos Lençóis, ficar pelo menos dois dias, tomar um axé daquela terra, daquele vento, daquela coisa toda, daquele portal. Pra mim os Lençóis são um portal, é uma riqueza, uma maravilha do mundo. Aquilo é um portal mágico, transcendente, você vai ali você se revê em todos os aspectos, como ser humano, você se redimensiona em todos os aspectos. Isso é uma coisa que eu pretendo fazer, pretendo também matar minha saudade da minha juçara, do meu banho de mar marrom, encontrar meus amigos, eu tenho observado que São Luís está com um movimento cultural bastante intenso, o Samba da Fonte, o reggae lá na Praia Grande, as coisas estão se movimentando, as pessoas estão se mexendo. A gente nunca foi de esperar por governo nenhum, sem desmerecer governo de ninguém, a cultura maranhense sempre foi independente nesse sentido, as pessoas sempre se reinventaram, as festas sempre aconteceram nas suas fontes. Se eu puder ir à Casa Fanti Ashanti eu vou, quero ver minhas amigas que eu amo. Quero ver se eu encontro Joãozinho [Ribeiro], Cesar Teixeira, meus queridos que eu gosto muito de estar junto. Tanta coisa que eu gostaria de fazer, ficar com a família, a família é enorme, sempre tem um evento, sempre a gente quer estar junto. É pouco tempo para fazer tudo que eu quero, mas eu quero usufruir o máximo que eu puder da minha terra e recomendo a quem vá a São Luís conhecer a cidade, a cidade é linda, o Centro Histórico eu não sei como está agora, a última vez que eu vi fiquei muito triste, estava muito detonado, isso me angustiou, mas a cidade continua com sua magia. Todas as pessoas que vão ao Maranhão, a São Luís, que voltam e me falam, ficam extremamente encantadas com o lugar, com a energia do lugar. E olha que a gente sabe dos problemas todos que nossa terra tem, as dificuldades todas. Eu não entendo por que reelegeram esse prefeito, um homem que não tem compromisso nenhum com a cultura, que não se identifica, não estimula, nem tem cuidado com a cidade. São coisas que eu não tenho resposta, só tenho a lamentar quando vou e vejo que a cidade fisicamente está abandonada, um patrimônio histórico desses jogado, sem nenhum cuidado. Também sei que tem muitas coisas boas acontecendo e eu quero só pensar nas coisas boas e nas mudanças. Acho ótimo que a gente esteja com outra administração no governo, por que isso nos tira um pouco daquela aura de poder oligárquico, que a gente vinha há 40 anos, acho que a mudança de poder é importantíssimo, para que a gente possa ter a capacidade de escolha, de avaliação. Então, eu acredito muito na minha terra, no potencial de minha terra e quero poder, na medida do possível, com meu trabalho, com minha voz, levar o Maranhão, para onde eu for.

Ainda falando um pouco das paisagens, dos pontos turísticos. Não sei se vai dar tempo ou se você vai passar por lá, faltou um que você cantou, com Edvaldo Santana, em seu último disco, você fez uma participação especial, em Ando livre.
Ah, no [Bar do] Léo! Ah, eu quero ir. Você viu que música linda que ele fez? Linda aquela música, boleraço, maravilhoso. Eu falei: “cara, você fez essa música para eu cantar”. E ele disse: “foi”. E me botou pra cantar num tom altíssimo. Mas eu adorei, falei: “oh, que maravilha”. Mas eu vou lá sim, quero ir lá, inclusive para ouvir essa música com ele. Olha aí que lugar, que maravilha que São Luís tem, um lugar como esse. Aquele menino do Centro, também, como é?

O Chico Discos?
Chico Discos também, que figura! Como é que essa figura construiu esse espacinho tão especial? Por isso que eu digo que o maranhense se reinventa. As coisas não param, as pessoas estão em movimento, precisam estar em movimento para que as coisas aconteçam. Aí é que o governo, as pessoas percebem que o movimento aconteceu. Mas eu acho o seguinte: mesmo vendo a dificuldade que todos os grupos culturais estão tendo no Maranhão, eu vi isso num São João em que eu fui, acho que ano passado, eu ainda vejo que os mestres estão ali na luta, na guerra, na batalha, para manter suas tradições vivas, por que não pode morrer, não tem como morrer. A gente tem que manter isso vivo na memória e no corpo dos jovens de hoje, para fazer a coisa continuar. É um trabalho bonito, e ficar pra história. “Maranhão, meu tesouro, meu torrão” [lembra o título da toada de Humberto de Maracanã].

Uma pergunta inevitável nestes tempos: você mora no Rio de Janeiro, onde a gente tem percebido de modo mais acentuado essa crise política e econômica, professores com salários atrasados, universidades correndo o risco de fechamento. Com que sensação você tem acompanhado ao longo do último ano e meio o noticiário político brasileiro?
Cara, eu acho que nós estamos vivendo uma era do cão. Caótica e, sei lá, extremamente negativa e trevosa. Eu não sei por que tanto retrocesso, eu não sei como é que a gente pode avançar e a gente avançou, e depois retrocedeu de uma forma tão bruta. Ficou tão evidente que nós fizemos realmente uma situação ainda de escravidão, de subserviência, de ditadura, e na verdade estava assim um pouco camuflado por alguma teia que a gente não conseguia ver, mas que na verdade está enraizada demais na estrutura política e social brasileira. Realmente o pequeno grupo de empresários, gente que domina, a corte, pode-se dizer assim, ela não quer abrir mão de nada pelo povo, ninguém está interessado no povo, ninguém está interessado na melhora do país. Você vê, um cara desses ainda estar no poder, diante de tantas acusações, diante de tantas evidências, é por que ele não está sozinho, ele está com uma corja de abutres do mesmo nível dele, sustentando o processo que está lá. O Rio de Janeiro foi o estopim da história, a cidade está caótica, a violência voltou como uma onda imensa, assustadora, um tsunami, a gente dorme com rojões, tiros, parece assim que a gente está num desses países tipo Iraque, ou coisa parecida. A gente não sabe o que está acontecendo. Eu, graças a Deus, nunca sofri, nenhum tipo de violência, eu vivo realmente, posso dizer, até um mundo à parte dentro do universo carioca, mas eu vejo como é que a cidade está depredada, no sentido da insegurança das pessoas, do medo, do desespero, da revolta, da impaciência, da intolerância. Ninguém tem tolerância com nada, as pessoas estão se agredindo no meio da rua umas às outras. Isso está acontecendo num nível nacional e universal, mundial. Nós estamos vivendo momentos de grandes tensões mundiais, o planeta está realmente num processo de transmutação, é doloroso. A gente é uma transição, estamos passando por este processo de mudança, que a gente não sabe onde vai dar. Eu, como sou uma figura muito espiritualizada, eu sempre penso no melhor, eu sempre penso que todo caos gera mudança e é uma mudança sempre positiva, mas o processo está sendo muito doloroso, pra nós artistas, então, a gente tem sofrido baque assim brutal, sabe? De viabilização dos projetos, verbas despencando, até o sistema Sesc, que é um dos maiores sistemas culturais do Brasil, despencou nos orçamentos, os empresários locais não têm mais estrutura para levar os shows, os cachês caíram horrores, o Ministério da Cultura é uma coisa que a gente não sabe pra que serve nem o que é. Sucatearam a cultura brasileira. Em nível de criatividade, nós também estamos um pouco perdidos, o que está predominando hoje no Brasil, eu não estou aqui condenando nada, mas é o funk, o sertanejo e o brega, é só isso que a gente vê. Isso está sufocando a outra parte criativa da música, especificamente da música, tem muita gente fazendo coisa legal, mas tem oportunidade nenhuma, condição nenhuma de levar adiante, sem estrutura. Realmente é um momento extremamente delicado, não sei o que vai dar, não sei como é que a gente não consegue tirar esse cara, eu não vejo solução de ocupação. Ocupação pra mim é entrar naquele congresso e tocar uma bomba.

Concordo.
É preciso inverter aqueles polos daquelas duas bacias, nada se justifica mais, a gente está se repetindo nas redes sociais, todo mundo “fora, Temer!, fora, Temer!, Temer, fora!”, e nada acontece, eles estão cagando e andando pra gente: “fodam-se vocês, nós vamos fazer o que a gente quiser, nós vamos aprovar leis que a gente quiser, nós vamos fazer e acontecer aqui e vocês não vão dizer nada”, e a gente não está dizendo nada, a passividade do povo brasileiro está num nível que a gente diz assim: “vamos pra onde, gente?” Eu não sei o que fazer, sinceramente eu não sei o que fazer. Tem horas que eu me sinto tão impotente. A minha maneira de protestar é através da minha arte, é através do meu canto, chamando a atenção das pessoas para o que a gente pode fazer juntos, o que a gente pode mudar, o que a gente não pode desistir, mas é pouco, é muito pouco diante da situação que a gente está vivendo, é nada. Eu sempre digo assim: “o palco é um palanque, o artista, um militante”. A gente tem que continuar resistindo, mas tá danado, tá puxado, tá difícil. E essa mudança estrutural da política, uma democracia em que você é obrigado a votar, eu não entendo isso, nunca entendi por que você é obrigado a votar em uma democracia, que gera esse bando de candidatos que na verdade são um bando de gente que vem pendurada em outros, só pra ocupar espaço, esses salários exorbitantes desses caras. Nem partidos de esquerda, que a gente já nem tem mais, se dignam a diminuir esse valor desses salários. Isso aí é um gasto absurdo para o povo brasileiro manter esses caras lá, no nível que eles vivem e usufruem. Cara, tudo errado! Universidades sucateadas, saúde sucateada, a dignidade do povo sucateada. Olha, eu realmente não estou com palavras muito boas para te dizer em relação a isso.

*

Veja Rita Benneditto em De mina (Josias Sobrinho):

Coco pra todo gosto

Fotos: Paula Barros

 

Os integrantes do Coco de Zambê de Mestre Geraldo, entre tocadores, cantadores e dançadores, vindos de Tibau do Sul/RN, multiplicaram-se: um deles percorreu a plateia convidando o público à dança. Logo, praticamente todos os presentes integraram-se à animada roda nos jardins do Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, Centro), ontem (28).

Era a estreia do circuito Sonora Brasil 2017/2018 em São Luís. Zambê é o nome de um dos instrumentos utilizados pelo grupo: um irmão do tambor grande de nosso tambor de crioula, com que identifiquei algumas semelhanças. Este tambor é também chamado de pau furado ou oco de pau e é o maior e mais grave dos instrumentos. Isto eu descobri lendo o belo catálogo distribuído pelo Sesc aos presentes. Compõem ainda a “parelha”, o chama, um tambor menor – para seguir no paralelo com o nosso tambor de crioula, equivaleria ao meião – e ainda uma lata de tinta, de 18 litros, percutida por um par de varetas. Todos tocados amarrados à cintura dos tocadores.

Não há mulheres no Coco de Zambê, embora as presentes entre o público não se tenham feito de rogadas e tenham participado, dançando, cantando os refrões e batendo palmas. Ao fim da apresentação, espécie de bis, a coisa se configurou numa oficina, com curiosos experimentando os instrumentos inusitados.

Sobre o Coco de Zambê, outra coisa que descobri lendo o catálogo foi que “há notícias de sua existência desde 1903, quando foi publicada no jornal A República, órgão oficial do governo do Rio Grande do Norte, a notícia cujo conteúdo repudiava com veemência a prática de um “samba” que acontecia na casa de um sujeito conhecido como Paulo Africano, no município de Tibau do Sul. Também Mário de Andrade, na década de 1920 faz, com entusiasmo, alusão à “brincadeira””.

A aproximação com o samba aí se dá pelo preconceito da época: era uma espécie de rótulo para qualquer ajuntamento de negros. Outras aproximações perceptíveis do Coco de Zambê se dão com o frevo e a capoeira – seus dançadores apresentam-se nus da cintura pra cima.

Mestre Geraldo, que dá nome ao grupo, foi fundamental para evitar o desaparecimento do Coco de Zambê, no fim do século passado. “Liderando um grupo familiar, retomou o zambê buscando fidelidade à sua prática tradicional”, também li no catálogo.

O grupo torna a se apresentar amanhã (30), às 19h, em Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), com entrada franca.

Outros grupos de coco apresentam-se em São Luís e Caxias/MA, até a próxima quarta-feira. Veja a programação:

Casa do Maranhão (Praia Grande), 19h:
Hoje (29): Coco de Iguape (CE).
Amanhã (30): Coco de Tebei (PE).
Segunda (31): Samba de Pareia de Mussuca (SE).
Segunda (31), das 9h às 12h e das 14h às 17h: Oficina de Coco de Roda: da Pisada ao Verso, com Adiel Luna/PE. Vagas limitadas. Inscrições gratuitas pelo telefone (98) 3216-3830.

Três Corações (Praça Salustiano Rego, Caxias/MA), às 19h:
Amanhã (30): Coco de Zambê (RN).
Segunda (31): Coco de Iguape (CE).
Terça (1º./8): Coco de Tebei (PE).
Quarta (2): Samba de Pareia da Mussuca (PE).

Beleza silenciosa para deleite e superação de preconceitos

Divulgação

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, como diz o ditado, quantos sinais de Libras valerão uma imagem?

Há algo de inestimável na escrita da luz das pessoas surdas que puseram seu talento e sua arte à prova nesta Impressão do silêncio, muitos/as deles/as envolvendo-se com fotografia pela primeira vez.

A proposta em si já foge do óbvio e os fotógrafos foram além, revelando detalhes que poderiam passar despercebidos a olhares menos atentos. Deus e o diabo moram nos detalhes, para quem crê num ou noutro. Ou em ambos. Ou em nenhum.

Alcântara, Raposa, São José de Ribamar e São Luís são vistas por outros ângulos. Pedra de cantaria, paralelepípedo, piçarra, asfalto, cimento e mar, entre isto e o céu infinitas possibilidades.

Gente, paisagem, religiosidade popular, patrimônio cultural, gastronomia. Tudo é inspiração e tema para o olhar atento e sui generis dos artistas aqui revelados e reunidos.

Em tempos de instagram e da instantaneidade de um narcisismo em que a exposição e o número de likes quase sempre são preocupações maiores que a qualidade da fotografia, este livro prova que fotografar é bem mais que apertar um botão.

Eternizar o efêmero, uma das traduções da arte fotográfica. O resultado poético que temos em mãos é fruto de trabalho e persistência. Temos aqui 15 novos artistas da fotografia – é mais coerente falar em artistas que em profissionais, embora eles estejam aptos para atuar no mercado – revelados pela disposição de Veruska Oliveira em ensinar o que sabe e aprender o que muitos de nós ainda precisamos: deficiência não é um limite. Ao menos não deveria ser.

Portanto, além do deleite, além de apreciarmos a beleza e a diversidade capturadas pelas lentes desta turma, sua contribuição primeira está para além do que vemos, contribuindo para a superação de preconceitos.

Este livro revela ao mundo o talento de novos fotógrafos, mas é muito mais que um belo cartão de visitas. Transpondo Leminski para a ocasião, seu poema poderia afirmar: “vai vir o dia em que tudo que eu veja seja poesia”. Eis que este dia chegou.

*

Baita honra fazer parte deste belo e necessário projeto, a convite da querida, talentosa e imprescindível Veruska Oliveira. O texto acima é um dos que escrevi pro livro, que será lançado na próxima sexta-feira, conforme o serviço da imagem abaixo.

Divulgação

10 músicas (+1) para viver São Luís

[publicado originalmente nO Imparcial de hoje (8)]

Uma playlist afetiva com repertório que tem a Ilha capital como inspiração

Economista de formação marxista, quase padre, o jornalista Bandeira Tribuzi acabou alçado à condição de poeta oficial da cidade de São Luís do Maranhão: são dele a letra e música de Louvação a São Luís, hino da capital maranhense. Triste ocaso/acaso, ele morreria aos 50 anos, em 1977, exatamente no dia em que a capital maranhense, segundo as contas oficiais e afrancesadas, completava 365 anos. “Oh, minha cidade, deixa-me viver!”, começa sua mais conhecida criação.

Qual um Damião que busca visitar o trineto, palmilhando a ilha madrugada adentro, no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, percorreremos aqui uma playlist: 10 músicas para lembrar São Luís, singela homenagem à cidade por seu aniversário – há controvérsias!

Lances de agora, o antológico elepê de Chico Maranhão gravado em quatro dias na sacristia da secular igreja do Desterro, é impregnado de São Luís do Maranhão, cidade onde ninguém nasce e vive impunemente, como cravou solenemente em texto na contracapa o produtor Marcus Pereira, responsável pelo registro, em 1978. Entre outras, lá está Ponta d’Areia, de um dos versos mais bonitos da história da MPB: “caranguejeira namorando a parede”.

Durante muito tempo, a Ponta d’Areia reinou absoluta entre as praias da capital maranhense: mais próxima do centro da cidade, com fácil acesso a partir de barcos ou ônibus – antes ou depois da construção da Ponte do São Francisco –, era a diversão barata dos finais de semana de minha infância. Também é lembrada pelo compositor Cesar Teixeira em Ray-ban: “na Ponta d’Areia eu vendi protetor/ dei uma de cego na igreja, doutor/ no dia do eclipse eu vendi meu ray-ban”, diz a letra, que lembra também o Cine Rialto, outrora instalado na Rua do Passeio, Centro, onde os fundadores assistiram ao filme que viria a batizar o mais longevo bloco carnavalesco da cidade: Os Fuzileiros da Fuzarca.

Em 1996, quando lançou seu segundo disco, Cuscuz clã, Chico César invadiu o dial e causou alguma estranheza com uma parceria com Zeca Baleiro: tratava-se de Pedra de responsa, batizada por uma gíria para classificar os melhores reggaes, que agitam a pista em clubes de São Luís, mas gravada pelo paraibano como um carimbó. “É pedra, é pedra, é pedra/ é pedra de responsa/ mamãe, eu volto pra ilha/ nem que seja montado na onça”, diz o refrão. No ano seguinte, em seu disco de estreia, Por onde andará Stephen Fry?, o maranhense registraria a composição como reggae, dedicando-a aos compositores Cesar Teixeira, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro.

Não há ludovicense que não se balance ou não comece a assobiar Ilha bela, ao ouvir seus primeiros acordes: “que ilha bela/ que linda tela conheci/ todo molejo/ todo chamego/ coisa de negro que mora ali”. Pernambucano que foi beber nas águas musicais do Rio Tocantins, em Imperatriz, Carlinhos Veloz, é um dos artistas mais respeitados de nossa música popular, sucesso de público por onde passa.

Outra faixa irresistível neste quesito é Ilha magnética, de César Nascimento, maranhense por acaso nascido no Piauí. A canção faz jus ao título e magnetiza o ouvinte ao lembrar as belas paisagens, sobretudo litorâneas, da capital maranhense, numa época em que o município de Raposa, citado entre as praias, ainda não havia sido emancipado: “Ponta d’Areia, Olho d’Água e Araçagy/ mesmo estando na Raposa/ eu sempre vou ouvir/ a natureza me falando/ que o amor nasceu aqui”.

A ilha é mesmo tão magnética que desperta paixão até em quem nunca pisou a areia de suas praias ou os paralelepípedos de seu Centro Histórico. “É o tambor de crioula/ é a Casa de mina/ é a estrela do norte/ boi bumbá que me ilumina”, acerta em cheio o compositor Paulo César Pinheiro no misto de bumba meu boi e tambor de crioula São Luís do Maranhão, música gravada por Alexandra Nicolas em Festejos (2013), seu disco de estreia. Adiante, ele “se encanta-nos” com as “ruas de pés de moleque” e “casario de azulejos”.

Alê Muniz e Luciana Simões, o duo Criolina, em parceria com o poeta Celso Borges, erguem uma bela ponte poético-musical até a ilha de Cuba em São Luís-Havana, faixa de Cine Tropical (2009). Nela, mesclam-se paisagens das ilhas maranhense e caribenha, além de mestres da música cubana e do bumba meu boi: é linda a participação do terceiro autor, recitando os nomes de, entre outros, Compay Segundo, Coxinho, Omara Portuondo, Zé Olhinho, Pablo Milanés e Humberto de Maracanã.

Outra parceria com a assinatura de Celso Borges que não poderia faltar a esta playlist é A serpente (outra lenda), dele com Zeca Baleiro e o percussionista argentino Ramiro Musotto, já falecido. Com participações especiais do saudoso compositor Antonio Vieira, que recita trecho de um sermão do padre escritor seu xará, Chico Saldanha e Josias Sobrinho, a música acabou ganhando uma dimensão política, por versos ácidos como “eu quero ver/ quero ver a serpente acordar/ pra nunca mais a cidade dormir”.

No recém-lançado Bagaça (2016), seu quarto disco, Bruno Batista presta bela homenagem a capital em A ilha, desmistificando ícones e totens. Nela, lembra o poeta Nauro Machado, cujas barbas saem para passear, na letra. Autor de mais de 40 livros, falecido em novembro passado, ele próprio confundia-se com a cidade, parte integrante de sua paisagem.

Bonus track – Outro “estrangeiro” que homenageou maravilhosamente São Luís foi o pernambucano Carlos Fernando, autor de um hit do repertório de Geraldo Azevedo, habitué de palcos da cidade. Em seus shows por aqui nunca falta Terra à vista. Quem nunca se emocionou ao ouvir os versos “Sã, sã, sã, São Luís do Mará”, das duas uma: ou não é ludovicense ou nunca ouviu a música, falha que deve ser corrigida agora mesmo. Como a maior parte do repertório aqui apresentado, é fácil de encontrar no youtube. Buscar!

Reencontros de Nando Cruz em Imperatriz

Músico participará do tributo Toca Raul, que o amigo Wilson Zara apresenta na cidade dia 27 de agosto

 

O cantor e compositor Nando Cruz. Foto: Paulo Couto
O cantor e compositor Nando Cruz. Foto: Paulo Couto

Após dois discos lançados, Nando Cruz se prepara para gravar o DVD Déjà vu, em que registrará canções de seus dois álbuns, inéditas e clássicos da música popular brasileira e internacional. Com patrocínio do Banco da Amazônia (Basa) e apoio cultural da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e Sesc/TO, a gravação acontece 17 de setembro, no Teatro do Sesc Palmas, às 20h30, na capital tocantinense.

O cantor, compositor, violonista e gaitista exerce atualmente um cargo executivo na Secretaria Municipal de Cultura de Miranorte, no Tocantins, cidade pela qual confessa ter muito carinho, onde também movimenta o Ponto de Cultura Engenho Cultural.

Besouro barroco [2005], o disco de estreia, foi totalmente gravado em Imperatriz, cidade que acolheu este maranhense nascido no Rio Grande do Norte. O segundo, Passo preto (ou Blues e aboios) [2011] foi gravado no Rio de Janeiro, com produção do multi-instrumentista Christiaan Oyens – parceiro de Zélia Duncan.

No próximo dia 27 de agosto, Nando Cruz retorna à Imperatriz para um reencontro especial. Ele será um dos artistas que cantará na abertura de Toca Raul, tributo a Raul Seixas que Wilson Zara apresentará na cidade [no Rancho da Villa, às 22h], com patrocínio da Potiguar, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão [dia 20 de agosto, às 21h, na Praça dos Catraieiros (Praia Grande), Zara apresenta o show em São Luís, com participação especial de Louro Seixas e abertura de Marcos Magah e Tiago Máci].

Segundo o artista, o que o trouxe a Imperatriz foi o acaso. “O destino era Brasília, mas quis o eterno que fosse em Imperatriz, coisa que agradeço muito, pois foi onde bebi não só das águas do Tocantins, mas da fonte caudalosa, como diz Raul, que é a música produzida na cidade. Por sinal, onde vou ouço algum músico elogiar ou pessoa comum falar acerca do nível altíssimo da arte como um todo produzida lá”, elogia, por sua vez.

“Ter com meu amigo e irmão Zara é sempre uma festa. São anos de irmandade e cumplicidade. Wilson é uma pessoa extremamente humana, no melhor sentido da palavra, um cara que me influenciou em todos os níveis, certamente como um profundo conhecedor de música, e música que eu digo aqui é em caixa alta, um repertório fino, de extremo bom gosto, que acabou por influenciar minha composição”, confessa Nando Cruz.

O outro artista que cantará na abertura é o imperatrizense Tony Gambel, que vem firmando seu nome em festivais – algo que Nando Cruz fez há alguns anos: é dele o hit Beija, que ganhou as rádios do Maranhão após o êxito em uma das edições do festival Canta Imperatriz. A música está em Besouro barroco. “Por isso beija, me beija/ beija que o tempo passa, eu sei/ por que a vida perde a graça/ se me negas o teu beijo/ serei solidão/ solidão e desejo”, diz a letra.

Gambel e Cruz cantarão repertório autoral, mas este reconhece a importância de Raul Seixas para a música do Brasil. “Na verdade eu não era assim fã ardoroso do maluco beleza e foi justamente ele, Zara, quem me mostrou o quanto Raul é profundo e ao mesmo tempo simples, e é essa receita que persigo ate hoje em composição. Agora sei o quanto Raul é importante pra música popular brasileira. Subir no palco pra cantar meu trabalho, ainda mais abrindo pra um dos maiores intérpretes de Raul Seixas no Brasil, e homenagear esse grande gênio criativo baiano, é algo que nunca se esquece”, diz.

Nando Cruz lembra como conheceu Zara. “Foi na época em que cantava e morava num bar que era também a casa de Erasmo Dibbel [cantor e compositor], outro mano querido do coração. [O bar] Chamava se Sol e Lua e era um lugar fantástico por onde passavam os maiores artistas do Maranhão e uma vez quando o Didi – esse é o jeito carinhoso que Erasmo chama o Zara – apareceu lá e cantou nas muitas canjas que rolavam no bar, nos aproximamos e formamos a primeira dupla não sertaneja de Imperatriz [risos]. Já mudei pro apê do cara e começou assim nossa irmandade, que durou alguns anos nos palcos da cidade e em outras paragens”, conta.

[O Imparcial, ontem]

Para analfabetos políticos e cinéfilos em geral

Num clássico poema de sua lavra, o alemão Bertolt Brecht cravava: “o pior analfabeto é o analfabeto político”. Arrisco dizer, décadas depois: o pior analfabeto político é o que pede a volta da ditadura militar, tendo ou não passado pelo regime de trevas que subjugou o Brasil entre 1964 e 85.

A este tipo de analfabeto, literalmente jogando luz sobre o período, o Cine Praia Grande oferece, a partir deste domingo (27), a mostra Golpe nunca mais, fruto de parceria do cinema com a Cantaria Filmes, Petrini Filmes e Cineclub Amarcord. A partir de domingo, sempre às 18h, com entrada franca, quatro filmes sobre o citado período.

De resto, segue a programação normal da sala de cinema do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), com Malala [EUA, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 88 minutos, direção: David Guggenheim], sessões às 15h e 16h30, e Chico – artista brasileiro [Brasil, documentário, classificação indicativa: 10 anos, 115 minutos, direção: Miguel Faria Jr.], sessões às 20h (exceto terça-feira). Os ingressos custam R$ 14,00 (meia para casos previstos em lei). Às segundas-feiras, meia para todos. Alunos de cursos do CCOCf pagam R$ 5,00.

Útil para analfabetos políticos, Golpe nunca mais é aberta a qualquer apreciador/a de cinema nacional de qualidade que queira ver ou rever os títulos da mostra, de graça.

Mostra Golpe nunca mais – Programação

Domingo, 27

Batismo de sangue [de Helvécio Ratton. Brasil, drama, 2006, 110 minutos] São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos, passando por terríveis torturas.

Segunda, 28

Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução
Cabra marcado para morrer. Cartaz. Reprodução

Cabra marcado para morrer [de Eduardo Coutinho. Brasil, documentário, 1984, 119 minutos. Narração: Ferreira Gullar] Início da década de 1960. Um líder camponês, João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo golpe militar de 1964. 17 anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus 10 filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

Terça, 29

O que é isso, companheiro? Cartaz. Reprodução
O que é isso, companheiro? Capa. Reprodução

O que é isso, companheiro? [de Bruno Barreto. Brasil/EUA, drama, 1997, 110 minutos] O jornalista Fernando (Pedro Cardoso) e seu amigo César (Selton Mello) abraçam a luta armada contra a ditadura militar no final da década de 1960. Os dois se alistam num grupo guerrilheiro de esquerda. Em uma das ações do grupo militante, César é ferido e capturado pelos militares. Fernando então planeja o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (Alan Arkin), para negociar a liberdade de César e de outros companheiros presos.

Quarta, 30

Retratos de identificação [de Anita Leandro. Brasil, documentário, 2014, 71 minutos] Na época da ditadura militar, os presos políticos eram fotografados em diferentes situações: desde investigações e prisões até em torturas, exames de corpo de delito e necropsias. Hoje, dois sobreviventes à tortura veem, pela primeira vez, as fotografias relativas às suas prisões. Antônio Roberto Espinosa, o então comandante da organização VAR-Palmares, testemunha sobre o assassinato de Chael Schreier, com quem conviveu na prisão. Já Reinaldo Guarany, do grupo tático armado ALN, relembra sua saída do país em 1971, em troca da vida do embaixador suíço Giovanni Bucher. Ele conta como foi sua vida no exílio e fala sobre o suicídio de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, com quem vivia em Berlim. Com essas revelações e testemunhos, segredos de um passado obscuro do país voltam à tona.

Roberto Farias e Murilo Santos serão homenageados no 8º. Maranhão na Tela

Festival acontece de 21 a 26 de março no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, com programação gratuita

A oitava edição do Maranhão na Tela acontece entre os próximos 21 a 26 de março, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho e Teatro João do Vale, na Praia Grande. Já consolidado nos calendários cinematográfico e cultural da capital maranhense, o festival homenageia os diretores Murilo Santos e Roberto Farias, este às vésperas dos 83 anos que ele completa dia 27 de março.

Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução
Cena de Roberto Carlos em ritmo de aventura. Frame. Reprodução

Meia dúzia de filmes de Farias serão exibidos em cópias digitalizadas durante o festival, incluindo a “trilogia do Rei”: Roberto Carlos em ritmo de aventura [1968], Roberto Carlos e o diamante cor de rosa [1970] e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora [1971]. O clássico Pra frente, Brasil [1982] será exibido na sessão de abertura do festival. Os outros títulos de Farias que serão exibidos na mostra que o homenageia são Assalto ao trem pagador [1962] e o documentário O fabuloso Fittipaldi [1974].

A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação
A idealizadora e produtora do Maranhão na Tela em cerimônia de edição anterior do festival. Foto: divulgação

Novidade nesta edição, o que faz o festival se aproximar ainda mais do nome Maranhão na Tela, é a homenagem a cineastas maranhenses, começando, este ano, por Murilo Santos. “O nome do Murilo foi, desde sempre, o único que cogitamos para ser o primeiro homenageado maranhense. Ano que vem teremos uma lista, chegaremos a um consenso, mas esse ano é só dele”, declarou a idealizadora e produtora do Maranhão na Tela Mavi Simão, revelando ter sido consenso o nome do homenageado. “O Murilo tem uma importância histórica pro cinema maranhense que não tem similar. A forma como ele atuou e atua é única!”, continuou.

Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução
Desenho de Joaquim Santos para Quem matou Elias Zi? Frame. Reprodução

Murilo também terá seis títulos exibidos no oitavo Maranhão na Tela: Um boêmio no céu [1974], Tambor de crioula [1979], Quem matou Elias Zi? [1982], com trilha sonora e desenhos do irmão Joaquim Santos, Na terra de Caboré [1986], Marisa vai ao cinema [1995] e Fronteira de imagens [2009].

Mavi Simão avalia a evolução do festival ao longo das edições e o investimento constante em formação, uma característica do evento anual. “O Maranhão na Tela sempre teve um foco, um objetivo claro, que é o de contribuir para fomentar a produção local, e esse direcionamento acredito que dê uma solidez pro festival. Outro compromisso que me move é o de sempre tentar superar a edição anterior e assim vamos caminhando. O compromisso do festival sempre foi com o fomento e, dentro do meu parco raio de alcance, a melhor forma de fazer isso é investindo em formação. O conhecimento inquieta as pessoas”, afirmou.

Sobre o atual momento vivido pelo cinema no Maranhão, particularmente no que tange a notícias recentes como os anúncios do governo estadual de uma escola de cinema e um edital para o audiovisual maranhense, ela comemora: “Estamos vivendo um momento ímpar, um antes e depois da produção audiovisual maranhense. Agora sim, vislumbro mais concretamente a inserção da produção local na cena nacional. E a escola vai ter um impacto enorme nesse processo! Finalmente temos um governo que reconhece a importância estratégica do audiovisual”.

Cartaz de Quase memória. Reprodução
Cartaz de Quase memória. Reprodução

Além das homenagens, o Maranhão na Tela terá uma vasta programação com aproximadamente 350 títulos, entre pré-estreias, estreias, retrospectivas e animações. Na primeira categoria estão Quase memória, de Ruy Guerra, baseado no livro de Carlos Heitor Cony, Um filme de cinema, de Walter Carvalho, Para minha amada morta, de Aly Muritiba, e Prova de coragem, de Roberto Gervitz, com atuação de Áurea Maranhão.

A mostra Maranhão de Cinema, uma das que compõem a programação do Maranhão na Tela, tem 36 filmes, divididos em duas categorias: uma competitiva, com títulos inéditos, e uma retrospectiva, com obras que marcaram a produção audiovisual no estado nos últimos 40 anos – destaque para a filmografia de Murilo Santos. A curadoria é assinada por Mavi Simão com o diretor Josh Baconi e Raffaele Petrini, diretor do Cine Praia Grande, que abrigará a maior parte da programação desta oitava edição do festival, realização da Mil Ciclos Filmes, com patrocínio da Oi e da Rede de Óticas Diniz, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e apoio cultural da Oi Futuro.

Sobre destaques da programação, Mavi preferiu não se comprometer, tamanho o envolvimento e o cuidado com cada detalhe da produção. “Cada filme, cada curso, cada convidado, cada espectador faz o festival ser como é. Tô aqui pensando e não consigo destacar algo ou alguém em especial. Tenho uma relação passional com o Maranhão na Tela, tudo o que acontece a cada edição é especial pra mim”, finalizou.

Olhar poético sobre a degradação

Algumas imagens da exposição Tombamento, de Vicente Jr.

 

Em Tombamento o fotógrafo Vicente Jr. volta ao cenário-objeto de sua primeira exposição: Desterro: a cara da comunidade, que integrou a programação da 8ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), em 2014, no Convento das Mercês.

Se na primeira, gente e pedra dialogavam em imagens que já evidenciavam o ambiente decrépito, nesta o olhar se volta às construções, “aqui tudo parece construção e já é ruína”: Tombamento trocadilha o tombo do patrimônio arquitetônico com o tombo iminente dos mal conservados casarões da Praia Grande, Desterro e Portinho, os três bairros que compõem o Centro Histórico ludovicense, que podem desabar a qualquer momento.

A exposição fotográfica individual de Vicente Jr. é também um diálogo de técnicas, entre o digital e o analógico, em que antagoniza a instantaneidade destes tempos virtuais, ele mesmo usuário contumaz de redes sociais como o Instagram – cuja conta (@vicentefjunior) dá pistas do tipo de imagem que veremos na Galeria de Arte do Sesc Deodoro, onde a vernissage de Tombamento acontece nesta quinta-feira (18), às 18h30. A exposição pode ser visitada até 29 de março, em dias úteis, das 9 às 17h, com entrada franca.

Vicente Jr. conversou com o Homem de vícios antigos sobre a exposição.

O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação
O fotógrafo Vicente Jr. em ação. Foto: divulgação

Sua primeira exposição teve o Desterro como cenário-objeto. Agora você volta ao Centro Histórico da ilha. O que te instiga nestes ambientes degradados?
Enquanto produzia as imagens para a minha primeira exposição foi inevitável pensar a respeito do lamentável estado de abandono dessa área dita tombada. Foi quando surgiu a ideia de utilizar as possibilidades poéticas da ambiguidade do verbo tombar. Vi nessa ambiguidade do tombo uma possibilidade poética, uma caminho para desenvolver esse trabalho. Meu olhar é atraído por essas camadas sobrepostas de tempo, que cria uma textura nas imagens. Essa decadência possui um charme e é impregnada de história. Gosto também de partir de alguns clichês inerentes ao Centro Histórico, como por exemplo, o de cidade turística, cidade dos azulejos e dos casarões, e desconstruí-los. Às vezes fico extasiado diante de algumas imagens que mais parecem paisagens de algum filme cyberpunk.

Quantas fotos compõem a exposição?
A exposição consiste em oito fotografias analógicas e 11 digitais, totalizando 19 fotografias. Também deixei exposta a câmera analógica de plástico simples e precária com que fiz essas imagens.

Por que a opção em fotografar em analógico?
A princípio o projeto era para ser exclusivamente analógico, mas achei melhor utilizar as duas tecnologias. Proponho um diálogo entre elas. É evidente a hegemonia do digital em nossos dias hipermodernos e sua velocidade tanto de produção, quanto de divulgação das imagens. A opção pela tecnologia analógica foi de ir contra a corrente. Resgatar esse outro tempo, mais lento e os processos químicos da revelação que têm mais a ver com a natureza das imagens que mostro. Assim uma tecnologia não exclui a outra, mesmo com toda a dificuldade de trabalhar com o analógico. Eu mesmo não possuía mais uma câmera dessas. Perguntei aos amigos se alguém ainda tinha e um deles me presenteou com uma. O próprio filme quase não se consegue encontrar aqui em São Luís e existe apenas um laboratório que ainda resiste e faz a revelação dos negativos. É realmente remar contra a maré.

Sua relação com a fotografia é profissional, hobby ou ambas as coisas?
Cara, começou como um hobby e não deixará nunca de ser. Mas as coisas estão acontecendo e adquirindo outros contornos. E tenho me dedicado somente à fotografia ultimamente.

Em Desterro: a cara da comunidade, sua exposição inaugural, o elemento humano era presença constante no conjunto de fotografias, convivendo com o elemento pedra. Nesta, Tombamento, os humanos desaparecem. Você acredita fazer um jogo de futurologia, denúncia social ou ambas as coisas através de sua arte?
Então, na minha exposição anterior eu quis mostrar que apesar de todo descaso e por que não dizer, “desterro” daquele bairro que apesar dos estigmas, como por exemplo, a violência, a prostituição e o tráfico de drogas, possui um sentimento de comunidade muito forte e foi inevitável o enfoque nas pessoas inseridas ali. Em Tombamento, as pessoas somem! Surgem os animais de rua vagando sem destino, carros e motos que não deveriam circular ou estacionar por ali. Como falei antes, algumas imagens lembram filmes cyberpunk, desabitadas, devastadas. Assim, futurologia. Não tem como fugir da denúncia social! Acaba fazendo as pessoas pensarem um pouco acerca do tema e reflitam. Será que esse patrimônio está realmente tombado? Será que as gerações futuras terão acesso a ele?! Acredito no poder das imagens de instigar o pensamento, a reflexão. Esse poder não é uma exclusividade da palavra escrita ou oral.

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”

Bumba meu dub

Vibração poética. Foto: ZR (12/12/2015)
Vibrações poéticas. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.

Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).

Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.

Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.

Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.

“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.

Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.

A incansável máquina humana de fazer música

Foto: ZR (11 12 2015)
Curumin e Os Aipins. Foto: ZR (11/12/2015)

 

Que Curumin é um músico que sabe o que fazer no estúdio já estamos cansados de saber e seus três discos são a prova disso. Em Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012), ele compõe, canta, toca, sampleia e reinventa a música pop(ular) produzida no Brasil.

Que Curumin sabe o que fazer no palco, o show dele ontem (11), na programação do Festival BR135, sua primeira vez em São Luís, não deixou a menor dúvida. Pilotando bateria e samples, trajando calça vermelha, chapéu e uma camisa quase nas cores do Sampaio Corrêa (o laranja predominava, em vez do vermelho), o artista estava escoltado pelos Aipins José Nigro (contrabaixo e samples) e Lucas Martins (guitarra e samples), “uma banda que tá há muito tempo tocando junta”, como revelou em entrevista ao Homem de vícios antigos.

Curumin canta, toca, programa, protesta, improvisa, não se dá descanso ao longo de toda a apresentação, em que emenda uma música na outra, como se fosse uma máquina de fazer música – embora não o faça mecanicamente e o prazer em tocar, e particularmente em tocar em São Luís, era perceptível. Não há vazios em sua música – ou nas poucas alheias que interpreta. É de um vigor impressionante.

Começou por Vestido de prata (Jorge Alfredo Guimarães), sucesso do novo-baiano Paulinho Boca de Cantor, regravada por ele no disco mais recente. Com quase uma década, Mal estar card atualiza o momento político cretino que o Brasil atravessa. Samba Japa traduzia o sentimento dos que lotaram a praça: na música, a menina sonhou e sambou ali, “no meio da rua na Avenida Central ela não podia parar”; os que estávamos na Praça Nauro Machado também não.

O refrão de Compacto foi cantado pela plateia, em resposta aos “Eu só quero ouvir” de Curumin. Seguiram-se Passarinho, de Russo Passapusso, Selvage e Afoxoque, com o trio esbanjando versatilidade, habilidade e alegria, esta última entrecortada pela caixa de música que abre Salto no vácuo com joelhada (que ele não cantou), preenchida por rimas improvisadas contra “a polícia que trata todo estudante como maconheiro” e a corrupção na política – não disse, mas certamente se referia à São Paulo e a guerra travada pelo governo Alckmin contra estudantes ocupando escolas para mantê-las abertas, contra projeto de “reorganização” do governador.

Mistério Stereo foi dedicada às pessoas que ainda amam, “são poucas”, disse. Vem, menina foi a única música de Achados e perdidos que compareceu ao repertório. Ao vivo, o bloco final ganhou em peso. Em Kyoto o protesto voltou à baila, contra as elites que querem decidir o destino dos menos favorecidos; em Caixa preta Zé Nigro enfiou de incidental trechos de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, de Fausto Fawcett; Magrela fever tornou a praça uma grande festa em clube de carnaval, com direito a trenzinho e tudo.

Sabe-se lá se a polícia local tomou para si os protestos de Curumin, mas, diante das ameaças de tomarem o palco e acabar com o show na marra, após negociações com a produção, não coube bis. Policiais alegavam ter o show extrapolado o horário – o que se fosse o caso, mereceria uma honrosa exceção.

Incansável, Curumin fez quase duas horas de um show impecável, um apanhado do melhor de sua carreira. Certamente teria pique para mais, ao menos o bis, mas nem isso tirou o brilho da noite e, particularmente de sua apresentação, que ficará por muito tempo na memória dos que presenciaram esse momento grandioso e raro.

Comunhão

Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Projeto BR135
Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135

 

Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.

Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.

Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.

Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.

Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.

Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.