De Holanda para Holanda

Samba de Chico. Capa. Reprodução
Samba de Chico. Capa. Reprodução

 

De gerações distintas, são dois craques da música brasileira. Um, gênio da composição, letrista e melodista esmerado, que também interpreta; outro, instrumentista inventivo e habilidoso, renovador de seu instrumento, inventor do bandolim de 10 cordas, que também compõe.

Dois de Holanda, ambos cariocas, o tributado Chico Buarque, e Hamilton, que lhe presta homenagem. O encontro – literal, já que o homenageado canta em duas faixas – não poderia ser diferente do ousado Samba de Chico [Biscoito Fino, 2016].

Se por um lado, a quem lê o repertório na contracapa, antes de ouvir o disco, pode parecer o que de fato é, um best of Chico Buarque, com todas as músicas por demais conhecidas e bastante assobiáveis – com exceção da faixa que dá título ao disco, da lavra de Hamilton de Holanda –, é justamente aí que mora o perigo, explicado em texto no encarte: “o desafio foi grande e agradável. Gravar um disco de músicas com letra, todas bastante conhecidas, sem letra, instrumental. O objetivo era encontrar um novo caminho para chegar ao mesmo destino: a emoção”. Missão cumprida.

Chico Buarque é autor solitário de quase todo o repertório. Em parceria apenas Piano na Mangueira (com Tom Jobim), Atrás da porta e Trocando em miúdos (ambas com Francis Hime). Ele próprio volta a temas que há tempos não cantava e afaga as mãos que lhe homenageiam: empresta sua voz a A volta do malandro e Vai trabalhar, vagabundo, endossando o álbum.

No geral mantendo-se fiel aos arranjos originais, Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas e direção musical) é acompanhado por Thiago da Serrinha (percussão), Guto Wirtti (contrabaixo acústico) e André Vasconcelos (contrabaixo acústico). Além do homenageado outros convidados são o pianista italiano Stefano Bollani (em Piano na Mangueira e Vai trabalhar, vagabundo) e a cantora catalã Silvia Perez Cruz (em Atrás da porta e O meu amor), garantindo charme extra com seu português com sotaque.

O projeto gráfico de Samba de Chico tem um mercado como locação. “Claro que não foi uma fácil escolha de repertório, daria pra gravar vários discos com sambas de Chico”, adverte o mesmo texto. Não faça ouvidos de mercador a esta seleção, eis o cofo com as escolhas de Hamilton de Holanda, no ano em que se celebram seus 40 anos de vida e os 100 anos de samba.