Rumos, Maranhão na Tela e Ilha do Amor têm inscrições abertas

Caminhada Rumos acontece hoje em São Luís

A Caminhada Rumos Itaú Cultural encosta hoje (12) em São Luís. O encontro, que tem por objetivo divulgar o edital do programa e tirar dúvidas de artistas e produtores culturais, acontece das 18h30 às 20h30, no Teatro Sesc Napoleão Ewerton (Condomínio Fecomércio, Av. dos Holandeses, Jardim Renascença II), com entrada franca. Estarão presentes Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação, e Valéria Toloi, de Educação e Relacionamento do Itaú Cultural.

As inscrições para o Rumos Itaú Cultural estão abertas desde o dia 3, exclusivamente no site do programa, e a Caminhada percorrerá as 27 capitais brasileiras, já tendo chegado a Cuiabá/MT, Porto Velho/RO, São Paulo/SP e Teresina/PI.

Sobre o assunto, Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com Ana de Fátima Sousa.

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade
Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de Comunicação do Itaú Cultural. Foto: Denise Andrade

Zema Ribeiro – A Caminhada Rumos tem o objetivo de desburocratizar o acesso do artista ao edital e programa? Por que às vezes um artista que se preocupa menos com a burocracia acaba perdendo espaço para um artista que tem produção por trás. O que o Itaú Cultural tem feito no sentido de corrigir essa distorção?
Ana de Fátima Sousa – A Caminhada é uma oportunidade de aprendermos juntos. Nós como instituição buscamos estar presentes e abertos para entender as demandas de cada lugar e melhorar o programa a partir dessas trocas. E para o artista é uma chance, sim, de tirar dúvidas sobre o edital e sobre políticas culturais e também melhorar suas práticas. Acreditamos muito no poder desses encontros.

Nos últimos anos tem sido mais difícil manter um programa da envergadura do Rumos? Quais as principais dificuldades?
O Itaú Cultural tem no Rumos um de seus principais programas estruturantes. E, por isso, tem caráter de perenidade. Nosso desafio é sempre manter neste programa um processo de escuta ativa em relação aos diferentes territórios do país, às necessidades da arte e da produção contemporâneas.

Como se dá o financiamento do programa Rumos Itaú Cultural?
O programa Rumos conta com verba direta. Não faz uso de leis de incentivo.

Como tem sido a participação, a presença do Nordeste no programa Rumos? Há uma preocupação do programa em regionalizar a seleção de projetos apoiados?
O Nordeste tem excelente participação no programa Rumos tanto em quantidade quanto em qualidade dos projetos artísticos e de pesquisa. No ano passado tivemos dois maravilhosos projetos selecionados vindos do Maranhão. O que queremos é tornar esta presença ainda mais potente.

O jornalismo brasileiro passa por uma crise. O Rumos apoia projetos na área, sobretudo o jornalismo cultural, mais afeito às pautas do Rumos?
Sim, o Rumos acolhe, apoia e aposta em projetos de jornalismo cultural. Acreditamos na relevância de nossos jornalistas e críticos na produção de conteúdo e de reflexão sobre nossas artes e nossa cultura.

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MARANHÃO NA TELA ESTÁ COM INSCRIÇÕES ABERTAS

Colagem de Silvana Mendes. Reprodução
Colagem de Silvana Mendes. Reprodução

Estão abertas desde o último dia 10 as inscrições para a mostra competitiva e as rodadas de negócios do Festival Maranhão na Tela, que este ano será realizado entre os dias 5 e 14 de dezembro.

As inscrições para a mostra competitiva são gratuitas e para as rodadas de negócios variam de R$ 100,00 a R$ 120,00. O Maranhão na Tela foi idealizado pela cineasta e produtora Mavi Simão em 2006 e este ano chega a sua 12ª. edição, realização da Mil Ciclos Filmes. A artista visual Silvana Mendes venceu o concurso e assina a identidade visual do festival em 2019.

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FESTIVAL ILHA DO AMOR RECEBE INSCRIÇÕES ATÉ O DIA 20

Até o próximo dia 20 de setembro artistas nascidos ou radicados há pelo menos três anos no Maranhão podem se inscrever para o I Festival Ilha do Amor, que acontecerá no dia 23 de novembro na Concha Acústica Reinaldo Faray, na Lagoa da Jansen.

As inscrições são gratuitas, pelo site do festival. As 12 músicas selecionadas para a final serão gravadas em um cd. O resultado da seleção será anunciado pela coordenação do festival no próximo dia 30 de setembro. Haverá premiações para o primeiro, segundo e terceiro lugares, além de melhor intérprete.

Radiografia de um gênio

Raphael Rabello: o violão em erupção. Capa. Reprodução

 

​Logo nas primeiras páginas de Raphael Rabello: o violão em erupção [2018, Editora 34, 349 p.; R$ 64], o jornalista Lucas Nobile adverte: desista o leitor em busca das ​​tragédias pessoais do artista de vida curta e obra extensa. É um livro mais sobre a obra que sobre o personagem.

Cavaquinista diletante, Nobile escreveu a biografia do mais importante violonista de sua geração, falecido aos apenas 32 anos de idade após deixar como legado a participação em mais de 600 faixas em discos de artistas de todos os espectros da música popular brasileira.

Precoce, Raphael Rabello (1962-1995) encantou a família ainda na infância ao executar, para a surpresa dos parentes, o Brejeiro de Ernesto Nazareth. Dali para encantar o mundo, literalmente, não demorou: aos 13 anos fez sua primeira gravação em disco, um compacto da cantora Gisa Nogueira, em 1976, iniciando então sua profícua trajetória profissional.

Revolucionário, reinventou várias vezes o violão. Migrou do de seis para o de sete cordas e tornou este protagonista: de instrumento de acompanhamento a solista, escrevendo seu nome em capas de discos de artistas, colocando o violão em pé de igualdade a vozes como as de Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso e Nelson Gonçalves. E pé de igualdade aqui não é força de expressão: Raphael Rabello não era o tipo de músico que buscava aparecer mais do que deveria, com firulas desnecessárias. Colocava-se na medida do que este ou aquele trabalho exigia, como o faz Nobile ao reconstituir essa trajetória em texto – o livro tem patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural e é também fartamente ilustrado por imagens de acervos diversos, além de relacionar todos os discos em que Raphael Rabello tocou, entre solos, grupos, como músico acompanhante e póstumos.

Membro dOs Carioquinhas (nome dado pelo jornalista Sérgio Cabral, o pai, não o corrupto), embrião da Camerata Carioca, grupo responsável pela revalorização e, por que não dizer, revitalização do Choro, em meados da década de 1970 e início da de 80, Raphael Rabello já nasceu pronto, como a ele se referiram vários professores (que se tornaram amigos), entre os quais Jayme Florence, o Meira (que também ensinou ninguém menos que Baden Powell) e Radamés Gnattali, cuja diferença de 56 anos era literalmente zerada na música.

Da esquerda para a direita: Turíbio Santos, Raphael Rabello, João Pedro Borges e Jonas, em imagem que figura no livro. Acervo Raphael Rabello

A parceria e amizade com os maranhenses Turíbio Santos e João Pedro Borges, com quem, como integrante do conjunto Choros do Brasil, gravou os discos Choros do Brasil (1977) e Valsas e Choros (1979), também está lá, devidamente registrada pela pesquisa acurada de Nobile – apoiada em mais de 130 entrevistas –, que maneja a prosa fazendo grande reportagem: dá à biografia o status de jornalismo (em vez de tentar romancear, como fazem alguns biógrafos) e a este o de grande literatura.

O conhecimento musical do autor, que além de músico diletante atua na grande imprensa como repórter e crítico, permite a análise mais apurada de determinadas gravações e discos do biografado, no que o caráter crítico do texto biográfico aproxima Raphael Rabello: o violão em erupção de Belchior: apenas um rapaz latino-americano [Todavia, 2017], de Jotabê Medeiros.

A relação de Lucas Nobile com a obra de Raphael Rabello não é recente: desde que ouviu o antológico Mistura e manda (1983), de Paulo Moura, em que Rabello figura na ficha técnica, ao violão sete cordas, o autor, picado pelo vício antigo de fuçar fichas técnicas e encartes, passou, por hobby, a colecionar discos em que o músico toca. Como ele também confessa no início do livro – que tem prefácio de Zuza Homem de Mello, autoridade em música (brasileira ou não, popular ou não) e orelha de Edson Natale, gerente de música do Itaú Cultural –, a brincadeira ficou séria quando, em 2012, ao escrever uma reportagem para a Folha de S. Paulo sobre os 50 anos que o violonista completaria, percebeu o quanto era escassa a bibliografia sobre o gênio. A lacuna está devidamente preenchida.

Documentário reverencia Humberto de Maracanã e contribui para a manutenção de seu legado

O mestre Humberto de Maracanã. Foto: Diana Gandra
O batalhão pesado de Maracanã. Foto: Diana Gandra

 

É necessário reconhecer a importância do trabalho empreendido pelo grupo A Barca, ao longo de 20 anos de existência – um novo disco celebrando a marca deve ser lançado até o fim do ano –, no registro de manifestações da cultura popular brasileira. Guardadas as devidas proporções, seu trabalho se irmana a mapeamentos fundamentais como as pioneiras Missões de Pesquisas Folclóricas empreendidas por Mário de Andrade ainda nos anos 1930 e todo o catálogo da gravadora Discos Marcus Pereira, do publicitário aficionado por música popular, realizado entre os anos 1960 e 70.

Dito isto, merece especial destaque a paixão da contrabaixista Renata Amaral pela cultura popular do Maranhão. Com o grupo, ela foi responsável pelo lançamento de discos como os do Baião de Princesas, Tambor de Crioula de Taboca, Tambor de Mina Raiz Nagô, Bumba Meu Boi de Encantado Garotos do Cruzeiro, manifestações da Casa Fanti Ashanti, do Bumba Meu Boi de Costa de Mão Brilho da Sociedade, Tenda São José e Estrela Brasileira, do Bumba Meu Boi de Maracanã.

Renata também assina direção e roteiro do documentário musical Pedra da Memória (2013), que acompanha uma viagem do babalorixá Euclides Talabyan ao Benin.

Guriatã. Capa. Reprodução

No último dia de São João (24 de junho), Renata Amaral lançou, durante a cerimônia do batizado do Bumba Meu Boi de Maracanã, na sede do grupo homônimo, na comunidade idem, no interior da Ilha de São Luís, o documentário Guriatã [Brasil, 2018, 90 min.], com direção e roteiro também assinados por ela – o projeto foi selecionado pelo edital Rumos Itaú Cultural.

A musicista e cineasta conviveu com Humberto por cerca de duas décadas, inclusive como integrantes do Ponto BR, coletivo que reúne mestres de cultura popular de várias regiões do Brasil. O que se percebe no filme é um misto de intimidade, comunhão e devoção.

Estrela de primeira grandeza, interpretado por vozes como Alcione e Maria Bethania, Humberto Barbosa Mendes (1939-2015) era um homem simples, do povo. Lavrador. Sobretudo de versos. Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura.

O guriatã do título é uma alcunha adotada pelo próprio Humberto, assim reconhecido por pessoas próximas e pelos milhares de seguidores e seguidoras de seu batalhão pesado. Curioso é que o passarinho que lhe deu apelido é conhecido por imitar o canto de outros pássaros, embora Humberto de Maracanã fosse dono de um canto e uma poesia extremamente originais – não à toa vários depoimentos apontem-no como único, maior.

É impactante ver a emoção causada por seu canto e sua capacidade de liderança. É comovente o relato de Walter França – mestre de maracatu, também seu companheiro no coletivo Ponto BR – sobre a primeira vez que ouviu uma toada do maranhense e sua vontade imediata de conhecer o compositor. É curiosa a revelação da porção sambista do protagonista. É sublime o registro de Humberto junto a Pai Euclides e Mestre Apolônio, todos já falecidos. É engraçado compartilhar de momentos descontraídos, a diretora transformando qualquer espectador em íntimo do ídolo.

A lembrança de toadas de pique – equivalentes aos repentes de violeiros no universo do bumba meu boi – também garante boas risadas, com Humberto em geral vencendo os desafios. Mesmo quando se fala em seu falecimento, a reverência com que é tratado atenua a dor da perda e aponta para a perpetuação de seu legado – a grande família, consanguínea e comunitária, de Mestre Humberto tem mantido viva e acesa a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã, para o que também o documentário de Renata Amaral dá contribuição inestimável.