Crônica de feira

Retrato: Zema Ribeiro

 

Peço quentinhas de bisteca e pescada, fritas na hora. Como demoraria alguns minutos, resolvo pedir uma cerveja. Minto: havia vários restaurantes no entorno, inclusive a quilo, em que eu me serviria mais rapidamente, mas resolvo adentrar a tradicional Feira da Praia Grande com o intuito de uma transgressora cerveja em plena quinta-feira antes do meio-dia.

Quando me serve a cerveja, Roxinha, apontando para o padrão “véu de noiva”, diz: “essa aqui resolve todos os problemas. Eu quando tomo uma assim vou nos Estados Unidos e volto no Iraque”, certamente referindo-se aos sabores da embriaguez e ressaca. “É de uma dessas que estou precisando”, penso. “A senhora gosta?”, indago e ela ri. “Não quer tomar um copinho?”, ofereço. “Rapaz”, ela diz e se interrompe, sem aceitar, como se a resposta fosse “não bebo durante o expediente”.

As frituras continuam chiando no interior do restaurante e ela liga a tevê. Uma reportagem dá conta de acidentes causados por mangas em Balsas: as frutas caem das mangueiras e esmagadas por pneus transformam-se numa lama viscosa, levando motoqueiros e ciclistas a derrapagens, pelo menos foi o que eu entendi sem prestar muita atenção, um olho no celular, outro no gibi do Tex.

“Com farinha é bom demais”, comenta Maria Ferreira, a Roxinha. “Manga e jaca mole”, complementa. “Eu saí do interior, mas o interior não saiu de mim”, confessa, revelando a saudade de Brejo, sua cidade natal, a 313 km da capital, onde passa até três anos sem ir.

Finalmente ela me serve os bandecos em uma sacola. Agradeço e digo que vou apenas terminar a cerveja. “Fique à vontade”, ela recomenda, sentando-se para terminar de ver o telejornal.

“Posso tirar um retrato seu?”, peço permissão. “Claro!”. Aponto o celular e fotografo Roxinha – com o contrabaixista Nema Antunes (conversando com o também contrabaixista Mauro Sérgio, encoberto por ela) ao fundo. Mostro-lhe o resultado: “ficou bom?”, pergunto. “Ficou, escritinho uma mucura”, ri de si mesma. E completa: “a gente tem que brincar. Depois que cai duro não dá mais”.