Cultura em 2011

Aos 45 do segundo tempo, às vésperas do fechamento da edição de dezembro do Vias de Fato (nº. 27, capa acima, ora nas melhores bancas da Ilha), inventei de fazer uma retrospectiva cultural. No último dia 12 encaminhei a uma pá de agentes culturais um e-mail com a seguinte pergunta: “Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?”.

Alguns responderam, outros não; outros ainda o fizeram depois do fechamento do jornal. O blogue traz abaixo um mix do que saiu na edição impressa do mensal com respostas que chegaram depois à caixa de e-mails do blogueiro (os depoimentos em itálico só aparecem acá).

RETROSPECTIVA CULTURAL

O jornal Vias de Fato traz aos leitores uma retrospectiva construída a muitas mãos – a coletividade uma característica da publicação. Veja o que diversos agentes culturais destacaram entre os acontecimentos do ano que se encerra

ZEMA RIBEIRO

Ano em que o mensal Vias de Fato completou dois de circulação ininterrupta – apesar de todas as dificuldades – e véspera do quarto centenário da capital maranhense – há controvérsias – 2011 foi marcado por diversos acontecimentos na área cultural.

Em vez de fazer uma retrospectiva certamente incompleta, resolvemos ouvir gente da área, que entende do assunto. Maranhenses ligados ao setor, residentes ou não aqui ou mesmo nem nascidos, mas com alguma ligação com o estado, destacaram o que de bom e ruim aconteceu no ano que se encerra.

“Para o bem ou para o mal, no campo cultural, o que você destacaria numa retrospectiva particular do ano que se encerra?” foi a pergunta feita pelo Vias de Fato. Leia abaixo as respostas.

O crítico Alberto Jr.: otimismo

“A primeira coisa que me vem à cabeça ao pensar em cultura neste ano de 2011 é a palavra ‘otimismo’, sobretudo em relação ao trabalho que muitos artistas vêm desenvolvendo de forma independente na busca de uma cena cultural cada vez mais urbana e ‘conectada’ com as experiências desenvolvidas em outros estados.

Um exemplo disso é o pessoal do gênero pop/rock, que, neste ano, conseguiu produzir shows e eventos fazendo circular pela ilha bandas alternativas com trabalho autoral e promovendo esse diálogo musical dentro dos circuitos nacionais de festivais de música independente. Cito aqui o Coletivo Velga, Garibaldo e o Resto do Mundo, Gallo Azzuu, Megazines, Nova Bossa, entre outros.

Beto Ehongue, Dicy Rocha, Tássia Campos, Milla Camões, Bruno Batista e Djalma Lúcio me fizeram bater muitas palmas em todos os projetos que estiveram envolvidos.

Algumas casas noturnas também me ofereceram bons encontros e boas experiências sonoras. Salve o Odeon Sabor e Arte que voltou com boas energias e a novidade regueira que é o Porto da Gabi. Experiências transcendentais.

No difícil campo das artes cênicas, a Pequena Companhia de Teatro, a Santa Ignorância Cia. de Teatro e o talento do dramaturgo Igor Nascimento não deixaram eu me acomodar na confortável resignação de fruir de espetáculos simples. Foram geniais!

Tivemos quatro festivais de cinema com programação de qualidade e algumas com caráter popular que me fizeram chorar com a vida e arte de grandes artistas e inclusive com alguns filmes que serviram bem mais do que ter pago qualquer valor para um analista ou psicólogo. Quando a ficção ajuda até a tua subjetividade.

Enfim, pelos exemplos que citei, percebe-se a pouca referência a instituições ou órgãos públicos como apoiadores desses projetos. O otimismo está aí: essa sensação de testemunhar experiências culturais contemporâneas que nos afastam de qualquer saudosismo ou nostalgia com outras décadas e colocam nossos sentidos para viver o presente, sem vícios, sem dependências e com a coragem de quem confia na autoestima de nossa produção cultural contemporânea.

E o próximo ano será bem melhor!”

Alberto Júnior, radialista e crítico musical

“O fato mais marcante foi a grande quantidade de shows em São Luís no início do ano. Foi uma verdadeira explosão de bons shows e shows inéditos ou quase inéditos em São Luís. Infelizmente o ano de 2011 não prosseguiu com a grande “leva” de shows, talvez por acanhamento de muitos produtores, mas os primeiros meses do ano foram realmente surpreendentes. Só para lembrar, tivemos apenas em abril, Pitty, Marcelo D2, Lobão, Richie Spice, Doro Pesch e outros. O primeiro semestre de 2011 também nos agraciou com shows de Jason Mraz, Adriana Calcanhotto, Marcelo Camelo, Blues Etílicos, Arnaldo Antunes e muitos outros. O segundo semestre também pode ser lembrado com shows do Teatro Mágico e os internacionais Blind Guardian e Flo Rida. Dezembro será fechado com chave de ouro com show de Paulinho Moska, em mais uma edição do Prêmio da Rádio Universidade. Com certeza esqueci de mencionar vários outros shows, mas todos esses shows provaram que São Luís pode sim receber grandes nomes da música brasileira e exportações da música pop”.

Andréa Barros, jornalista, ex-assessora de comunicação da Lima Dias Turismo, agência responsável pela vinda de muitos dos shows citados à capital maranhense

Ehongue lembra a dinheirama despejada no carnaval carioca em detrimento dos artistas que produzem no Maranhão

“Queria tanto estar agora escrevendo algo de bom sobre os rumos culturais de nossa cidade/estado em 2011, sério mesmo. Queria poder dizer que grandes eventos aconteceram e melhor ainda acreditar que o ano seguinte mostra uma luz clara no fim do túnel, mas não dá. Ficamos carentes de políticas culturais onde ainda prevalecem as decadentes e assistencialistas programações de São João e Carnaval.

Os milhões dedicados à escola de samba Beija Flor, a Praia Grande abandonada e outros milhões dispersados em uma árvore de natal são só algumas das aberrações que indicam que nossa terra anda completamente na contramão das necessidades. Isso tudo merece um DELETE.

Fora da esfera oficial aconteceram coisas boas, como por exemplo o Prêmio Nacional de Música recebido pela dupla Alê Muniz e Luciana Simões. Isso serve de inspiração para toda uma geração de músicos maranhenses que mesmo sem o apoio ou a lembrança dos órgãos que trabalham com cultura continuam teimando com talento e criatividade.

Em 2012 desejo a todos um ano mais sincero e promissor.”

“Beto Ehongue, compositor e produtor musical, homem à frente das bandas Negoka’apor e Canelas Preta

“Destacaríamos, em 2011, o Papoético como uma ideia que germinou e está criando raízes no panorama cultural da cidade. Apesar de ainda não ter a visibilidade necessária na mídia, está se expandindo entre as pessoas que pensam e se preocupam com a cultura em São Luís e no Maranhão. Como evento, São Luís, Outros 400 [temporada de nove shows apresentada pelo compositor Joãozinho Ribeiro e convidados no Novo Armazém] foi um acontecimento que reuniu a nata da música e da cultura maranhenses nos últimos meses do ano.

Também citaríamos o Café Literário, promovido no [Centro de Criatividade] Odylo Costa, filho, organizado pela professora Ceres Fernandes e, finalmente lembramos, para lamentar, o pouco caso que a Prefeitura de São Luís dedicou à Feira do Livro, um evento agregador e com grande potencial econômico, turístico e cultural, mas que está sendo continuamente esvaziado devido à miopia dos atuais administradores da cidade”.

Beto Nicácio, arte-educador, publicitário e quadrinhista, e Iramir Araújo, historiador, publicitário e quadrinhista, a Dupla Criação

Para Mesito, Feira do Livro foi decepcionante

“A decepcionante 5ª. Feira do Livro de São Luís (Felis). Para mim foi a maior decepção cultural nos últimos tempos”.

Bioque Mesito, poeta

Para o editor da Pitomba!: "De mal (...) quase tudo que tenha (...) alguma oficialidade"

“O Papoético é um lance massa! É o que vejo de mais interessante, por ser um lance coletivo e agregador, sem falar na pinga. De mal houve quase tudo que tenha as mãos de alguma oficialidade: tombamento do boi, feira do livro, essas coisas”.

Bruno Azevêdo, escritor, autor de Breganejo Blues e O Monstro Souza, editor da revista Pitomba! e, a partir deste número, colunista do Vias de Fato

“Na música eu destacaria a trajetória de sucesso de Cine Tropical, que deu o Prêmio da Música Brasileira ao Criolina. Na literatura, o lançamento de aliado involuntário, novo livro de poemas de Fernando Abreu”

Celso Borges, poeta e jornalista, parceiro da Alê Muniz e Luciana Simões em São Luís-Havana, faixa que levou o troféu de melhor música no Prêmio Universidade FM 2010

Prêmio do Criolina e livro de Fabreu foram os destaques para CB, aqui visto em uma de suas elogiadas performances

“Vamos logo para o bem.
Mesmo não sendo lá essas coisas, difícil não destacar no ano de 2011, no campo cultural e longe dos afagos oficiais, os lançamentos primorosos dos CDs de Bruno Batista e de Nosly, o amadurecimento  da dupla Criolina, a garra e a beleza das performances de Celso Borges, o Papoético do Paulão [o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa], o Café Literário, o livro do Fernando Abreu, os Outros 400, projeto de Joãozinho [Ribeiro] etc . Saldo positivo.

De tristeza: a continuada  favelização da Praia Grande e a perda de D. Teté.”

Chico Saldanha, compositor, lançou Emaranhado em 2007 e, ao lado de Cesar Teixeira, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho, levou o troféu de melhor show do ano no prêmio Universidade FM 2011

Memória cinemetográfica

“Como a minha área de atuação é o cinema, acho que é importante destacar que em 2011 tivemos várias mostras e festivais. Isso é uma importante conquista para o público, que certamente teve acesso a produções destacadas no cenário nacional e no internacional.

Não podemos esquecer também esse maravilhoso trabalho do cineasta Murilo Santos de devolver às comunidades aquilo que a sua câmera registrou com o passar dos anos, tanto na forma de sessões como na de belos painéis fotográficos, além dos novos vídeos gerados nesses encontros.”

Francisco Colombo, cineasta e professor universitário, curador das mostras de Cinema Infantil e Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, realizadas em São Luís em 2011

Gildomar Marinho entra em estúdio em janeiro para gravar sucessor de Olho de Boi (2009) e Pedra de Cantaria (2010)

“O destaque é o próprio jornal, com sua linha editorial que se configura um contraponto à cultura vivenciada no Maranhão atualmente, eivada de vícios, paternalismos e extremamente violenta contra qualquer perspectiva de emancipação cultural. Vias vai às veias, às tripas, aos fatos. Um soco no estômago de uma elite autocrática. Um sopro de vida à verdadeira imprensa livre”.

Gildomar Marinho, compositor

Para Lena Machado, destaque foi o show de Cesar Teixeira

“O show Bandeira de Aço de Cesar Teixeira em julho, no Circo da Cidade. Ver o nosso querido poeta feliz e à vontade no palco, cantando clássicos, além de apresentar inéditas como Cubanita e Boi de Medonho foi maravilhoso. Tão bom que não canso de perguntar: e aí, Cesar, quando seremos presenteados com o segundo?!!”

Lena Machado, cantora

Descaso com artistas entre as lembranças de Milla Camões, que estreia em disco ano que vem

“O que me marcou de forma positiva foi o Lençóis Jazz e Blues Festival. Claro, houve a minha participação, mas muito mais pelo fato de São Luís ter entrado, definitivamente, na rota comercial deste tipo de música, no Brasil. Além de, por falar em rota, termos tido também, bons shows (apesar de, às vezes, a preços exorbitantes, por conta da falta de espaço adequado para as apresentações ou mesmo falta de compromisso dos contratantes), boas peças de teatro, enfim. Vi um suspiro de qualidade entrando nas veias da cidade e isso me deixa feliz. Dois fatos me deixam extremamente triste: a falta de responsabilidade e compromisso de donos de bares, casas noturnas e governantes com a música em geral (não pensem que calotes, prejuízos etc., acontecem só com uma fatia: inclua aí TODOS os estilos), e, embora redundante, a pergunta anual, que continua sem resposta: “Até quando?”; e a perda de figuras importantes de nossa cultura, a exemplo de Dona Teté. Seu cacuriá continuará vivo, por que existem pessoas dispostas a se comprometer com seu legado. Mas quantos mestres morreram, esquecidos em interiores deste Estado, quantas culturas, quantas danças estão entrando em extinção, por não haver interessados em repassar ao próximo seu conhecimento? Aulas de cultura popular, de arte em geral, nas escolas; a aprovação e inclusão definitivamente dessa Lei [que torna obrigatório o ensino de música nas escolas], seria de grande valia. E que 2012 nos traga felicidade, poesia, música e arte ao cubo!”

Milla Camões, cantora

Falecimentos de Carlos de Lima e Dona Teté entre os maus momentos lembrados por Moema

“Tivemos bons e maus momentos, alegres e tristes. Com certeza a morte de D. Teté e a do Sr. Carlos Lima foram nossas grandes perdas. Alegres foram os outros momentos, incluindo (para quem gosta): o carnaval, as festas juninas, as feiras, principalmente a de livros e a de artigos de vários paises. O lançamento do livro de Aymoré Alvim, meu irmão, foi um dos melhores momentos da nossa Academia. Lamentáveis os fatos que envolveram o Prof. Saraiva [acusado de racismo por estudantes da UFMA], manchando uma reputação construida com muito sacrifício, ao longo de muitos anos”

Moema de Castro Alvim, sebista, proprietária do Papiros do Egito

Papoético de Paulão entre os mais lembrados na retrospectiva

“Acompanhei pouco as agitações culturais este ano. Só estive mesmo ligado no Papoético, mas, acho que a revista Pitomba! fez a diferença. Fazer literatura, no Maranhão, hoje em dia, é ato de heroísmo e publicar é altruísmo puro. A Pitomba! deu uma importante contribuição, aliando agitação literária com um material de qualidade, gerando, inclusive, polêmica, o que serviu para oxigenar o cenário da cultura local”.

Paulo Melo Sousa, jornalista e poeta, coordenador do Papoético, tertúlia semanal realizada no Chico Discos (Rua 13 de Maio, Centro)

“Eu destacaria o filme A alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, bem como a Trilogia Coração no Fogo, da qual o filme faz parte, pelas razões que já expus aqui. É um cinema que produz, com suas imagens oxigenadas, outras maneiras de ver. Munição pesada para a imaginação, o sonho e a coragem”.

Reuben da Cunha Rocha, jornalista e poeta

Ricarte Almeida Santos lembra bons momentos, apesar da ausência de política cultural, objeto de seu estudo no mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA)

“Para o bem: o projeto Outros 400 [temporada capitaneada pelo compositor Joãozinho Ribeiro, no Novo Armazém]; o show Rosa Secular II [com Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e convidados, Bar Daquele Jeito, 10/12]; o lançamento do cd Eu não sei sofrer em inglês, o segundo de Bruno Batista;  o show Bandeira de Aço, de Cesar Teixeira [Circo da Cidade, junho]; a Mostra de Cinema Infantil [Cine Praia Grande, 12 e 13/10]; o Festival Guarnicê de Cinema; as várias rodas de choro em vários locais da Ilha (de shoppings a botequins); o lançamento do cd A Canção de Cartola na voz de Léo Spirro. Para o mal: nem um passo dado no sentido de uma política cultural para o Maranhão; o governo de Roseana Sarney financiando o carnaval da Beija Flor carioca; a morte de Dona Teté; a cultura de eventos que ainda prevalece; e o abandono da Praia Grande”.

Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, apresentador do dominical Chorinhos & Chorões, às 9h, na Rádio Universidade FM (106,9MHz)

Urias critica parte da classe artística

“São Luís, 400.000 lamentos. Um povo é o reflexo de seu governo ou o governo é reflexo do seu povo? Estamos no ápice da mediocridade no nosso fazer cultural (talvez com exceção para as “brincadeiras” populares). Uma secretaria medíocre, cercada de nós, artistas ainda mais medíocres, que sempre pensamos que nosso trabalho é a maravilha. A miséria que vem nos cercando, sem dúvida, vai sendo refletida na qualidade de nossos produtinhos “inventados” e não criados com um debruçar sobre si mesmo para por em prática um processo que venha alterar e complementar a consciência de quem somos nós. Ouvi outro dia de um amigo “artista”: “Ah!, esse negócio de processo (!!!!), de treino e ensaio pesado me enche o saco. Agora tudo é processo! Eu quero mais é fazer!”. Acho que todos nós realmente temos o direito de fazer o que nos dá na telha e nos desejos, mas na minha liberdade de pensar, penso também que esse papo é de “artista” que não tem que batalhar para viver da arte que faz e tem casa, comida e roupa lavada, além de não dar a mínima pro seu crescimento pessoal, o que por si só justifica a busca de um processo de trabalho..”

Urias Oliveira, ator premiado internacionalmente, botando o dedo na ferida

Wilson Marques é outro que destaca o cinema em 2011

“Destaco o primeiro Festival Internacional de Cinema, da Lume, evento de alto nível que infelizmente foi pouquíssimo prestigiado pelo público de São Luís”.

Wilson Marques, escritor, lançou em 2011 A Lenda do Rei Sebastião e o Touro Encantado em Cordel

ZéMaria Medeiros destaca evento próprio e descaso com artistas pelo poder público

“Os 9,7 anos de A Vida é uma Festa, os lançamentos dos cds Onde tá o coro, de ZéMaria Medeiros & A Casca de Banana, e Arriba Saia, de Omar Cutrim, os falecimentos de Mundica e Dona Teté, os atrasos entre seis meses e um ano para pagamento de cachês de artistas, um absurdo!, o carnaval 400 anos da Beija Flor, ridículo!, o desprezo da produção musical do Maranhão pelos maranhenses, em valorização do axé, breganejo, pornoforró e tchans!”

ZéMaria Medeiros, poeta e músico, comanda há mais de nove anos o happening A Vida é uma Festa, que acontece semanalmente às quintas-feiras na Praia Grande

Rosas, Tetés e Joanas

JOÃOZINHO RIBEIRO*

Encantamento de D. Teté, premiação do Rosa Secular como melhor show do ano, posse de Joana Bittencourt no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão… qual assunto tomar como tema desta coluna? A tarefa não parece das mais simples, porém não pode ser excludente, afinal de contas existe uma relação de causa e efeito recíprocos em todos eles, que não nos permite optar deliberadamente por um só, excetuando os demais.

D. Teté virou azulejo na madrugada do último sábado, após uma vida inteira de encantamentos e magias, dedicada ao reforço e valorização das nossas ancestralidades, deixando para todos um legado imenso de cantorias e atitudes que servirão de exemplo para as presentes e futuras gerações. Como mulher, negra, mãe, avó, artista, companheira e pessoa humana, nem física ou jurídica, da maior dignidade.

Da simplicidade de mestra da cultura popular do Maranhão a postura de sacerdotisa africana, quando puxava as ladainhas no Laborarte ou em qualquer outro espaço que exigisse a sua altiva intervenção. Ultimamente, em suas raras aparições públicas, sentada num troninho, armado exclusivamente para a altura da sua majestosa presença, que tanto encantou o mundo, extrapolando as fronteiras do país, sob os auspícios e incentivo do guerrilheiro Nélson Brito.

De sua criativa cantoria ficarão para sempre em minha memória uns versos cantados pelo seu Cacuriá, que parecem ter sido feitos sob encomenda para Amália, minha mãe inesquecível, cujo apelido carinhoso de infância era Mariquinha:

“Mariquinha morreu ontem,
ontem mesmo se enterrou
na cova de Mariquinha
nasceu um pé de fulô”.

Almerice era o seu nome de batismo, que muitos poucos conheciam. Teté, este sim, ganhou o mundo e penetrou os terrenos das nossas imaginações através das danças sensuais do Cacuriá e das inúmeras e insinuantes letras e melodias, que até hoje nos incitam e excitam quando são executadas. Uma delas mereceu o coro das vozes minha, de Josias Sobrinho, Chico Saldanha e de todos os presentes na última edição do show Rosa Secular II, realizada no dia 10/12, no Bar Daquele Jeito, com a plateia de pé, cantando comovida em uníssono:

“Lera chorou, Lera chorou
eu te disse, Lera,
vão te tomar teu amor”.

De Teté para Noel: deu a Rosa Secular na cabeça, como costumam dizer os apontadores do jogo do bicho. Só que a coisa não foi obra de nenhum “palpite infeliz” de alguma pessoa amiga ou das pessoas que detesto, conforme atestam os versos do poeta da vila; porém, o reconhecimento de mais de trezentos jurados que resolveram agraciar o Rosa Secular com o prêmio Universidade FM 2011, na categoria “Melhor Show do Ano”.

Da esquerda para a direita: Joãozinho Ribeiro, Chico Saldanha, Cesar Teixeira e Josias Sobrinho, protagonistas do melhor show do ano para o prêmio Universidade FM 2011

Um justo presente natalino para uma produção eminentemente coletiva, realizada em janeiro de 2011 no Bar Daquele Jeito, encharcada das humanidades e emoções dos compositores Cesar Teixeira, Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho; dos convidados especialíssimos, Léo Spirro, Célia Maria, Lena Machado e Lenita Pinheiro; dos talentos criativos dos artistas plásticos, Lena Santos e Ton Bezerra; do acompanhamento dos músicos maravilhosos: Arlindo Carvalho, Vandico, Domingos Santos, João Soeiro, João Neto e Juca do Cavaco; do auxílio luxuoso da Sociedade Artística e Cultural Beto Bittencourt e de todos os seus integrantes; da cumplicidade solidária de Zema Ribeiro e Marla Silveira.

Enfim, de todos apoiadores, poucos mas sinceros, e, principalmente, do público que lotou a casa e mostrou que ainda há espaço na cidade para eventos musicais que possam dar vez e voz para as pessoas expressarem seu “direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios (…)”, como está destacado no artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Foi respeitando este direito de participação, que o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão abriu as suas portas na noite do 15 de dezembro último para receber, em seu respeitável quadro de sócios, uma das figuras mais queridas e solidárias, representante legítima do engenho e arte da cultura maranhense, agora confreira – Joana Bittencourt.

Com justiça e mérito intelectual, nossa “mãe” e “irmãzinha” do coração, poeta, escritora, compositora e diretora teatral – Joana Bittencourt -, que transformou sua própria residência num Ponto de Cultura para abrigar a Biblioteca Dinâmica Mário Meirelles, passou a ocupar a cadeira nº. 36 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, patroneada por Jerônimo Viveiros. Motivo de orgulho e glória para todos nós que a guardamos no lado esquerdo do peito.

Com esta última coluna do ano, agradeço a paciência e desejo a todos os leitores, do fundo deste combalido coração de poeta, um FELIZ NATAL!

*Publicado no Jornal Pequeno do último 19 de dezembro, data em que o blogueiro completou 30 anos de idade.

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Grande notícia!: o show Rosa Secular terá bis dia 14 de janeiro de 2012, no Bar Daquele Jeito (Vinhais), às 22h. Mais detalhes por aqui em breve.

E o mundo não se acabou

Nem vai se acabar antes de Rosa Secular II. Abaixo, palhinha da composição de Assis Valente, interpretada por Chico Saldanha, durante ensaio para o show de amanhã (10) no Daquele Jeito (Vinhais).

Os pouco mais de dois minutos foram gravados na manhã de hoje, na casa de Arlindo Carvalho por Lena Machado (sim, este é o link pro blogue da moça, que, como se cantasse, estreia na blogosfera em grande estilo).

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E hoje é aniversário de Ricarte Almeida Santos, a quem o blogue deseja tudo de bom e muita música!

Sócrates, brasileiro

Ontem fui ao Chorinhos & Chorões, como entrega a foto acima, em que apareço com o titular do programa Ricarte Almeida Santos e os compositores Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha. A tríade foi entrevistada pelo primeiro, divulgando o show Rosa Secular II, que apresentam sábado que vem (10), às 21h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais).

O show é mais ou menos uma reprise de Noel, Rosa Secular, que apresentaram ano passado e, a pedidos, no comecinho deste ano – e que está concorrendo na categoria “melhor show” no Prêmio Universidade FM, a maior premiação da música produzida no Maranhão.

Digo mais ou menos por que, desta feita, além de Noel Rosa também serão homenageados outros bambas centenários, Assis Valente, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago e Nelson Cavaquinho, além dos saudosos e eternos maranhenses Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil, Dilu Mello, João Carlos Nazaré e Lopes Bogéa. O show contará com as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro, como eu já disse aqui.

Mas não é disso que quero falar: ao adentrar o estúdio da Rádio Universidade FM ontem, a primeira notícia que recebi foi bastante triste: a subida (ontem, 4) de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, vulgo Dr. Sócrates (1954-2011) – avesso a computadores em fim de semana, salvo raras exceções, não fui atrás de ler uma linha sobre o assunto e escrever isto aqui é a primeira coisa que faço nesta manhã de segunda-feira, após o Corinthians ter conquistado seu quinto título nacional (também ontem, 4).

Um jogador cerebral. Um dos fundadores, em plena ditadura brasileira, da Democracia Corintiana, que levou também para dentro das quatro linhas a luta pela redemocratização do país. Em campo ou fora dele, Sócrates nunca deixou de pensar.

Participou de duas copas do mundo, em 1982 e 86, sem ter vencido nenhuma. Azar das copas! Sócrates era a tradução humana da frase-pergunta que abre Catatau, o romance-ideia de Paulo Leminski: “que flecha é aquela no calcanhar daquilo?” Quem o viu jogar ou viu videotapes – dá um google aí no youtube agora! – sabe do que estou falando.

Colunista da CartaCapital, comentarista da TV Cultura, apresentador do Canal Brasil, o paraense era do tempo em que o esporte bretão e a mídia não fabricavam ídolos milionários da noite para o dia. Talvez por isso – ou não – ele tenha se dividido entre o futebol e a medicina. E depois ocupado os meios de comunicação de forma crítica – no último canal, nem sei se seu programa chegou a ir ao ar, gestado já em meio às complicações de saúde que o matariam ontem (4).

Em meio à geral, em geral acrítica, de torcedores, jogadores, dirigentes, cartolas e outros, Sócrates era voz dissidente, que despejava críticas e elogios a quem os merecesse, sendo ácido ou doce, conforme a necessidade. Não erraram seus pais quando batizaram-no com nome de filósofo.

Uma grande perda para o futebol e a inteligência nacionais, num dos raros casos em que essas duas categorias conseguem se conciliar. Descanse em paz, Doutor Sócrates! E que seu exemplo – necessário – possa ser seguido por mais gente por aqui.

Em sua memória e homenagem deixo a sinfonia de pardais abaixo, que ouvi e fotografei hoje pela manhã, antes de sair de casa.

P.S.: atualizo o post às 13h23min para recomendar, sobre o assunto, a subida do doutor, três belos textos: dois de Ronaldo Bressane e um de Xico Sá.

P.S.2: e às 8h55min do dia 6, este de Marcelo Montenegro.

Pétalas de rosas seculares marcam trilha da boa música

Show Rosa Secular II repete tributo a Noel apresentado ano passado mas vai além, homenageando nomes nacionais e locais

"Meus tempos de criança" abre tributo a Ataulfo prestado por Itamar Assumpção

“Eu daria tudo o que tivesse/ pra voltar aos tempos de criança/ eu não sei pra quê que a gente cresce”. Muito marmanjo por aí canta, com algum saudosismo, os versos de Ataulfo Alves. Outros, desejam ter nascido noutra época. Há ainda quem simplesmente admire “música de velho”, sendo, por vezes, alvo de chacota. Pouco importa, quase rima involuntária.

Foi João Gilberto quem apresentou a música de Assis Valente aos Novos Baianos

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”. Assis Valente já havia subido quando os Novos Baianos de Morais, Galvão, Baby, Pepeu e Paulinho Boca de Cantor regravaram um de seus maiores clássicos, em Acabou Chorare (1972), eleito pela revista Rolling Stone como o maior álbum brasileiro do século 20. Não é pouco!

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”. Ou era a Guerra dos Mundos, cuja história foi recentemente recontada pelo professor Francisco Gonçalves e sua equipe de pesquisadores, que botou os pingos nos is deste importante capítulo da radiofonia maranhense, ou era a impressão do povo com um blockbuster hollywoodiano qualquer. Nem uma coisa, nem outra: era novamente Assis Valente, o mesmo compositor que “vestiu uma camisa listada e saiu por aí” ou, feminino antes de Chico Buarque, “meu moreno fez bobagem”.

Estreia de Cartola na Marcus Pereira tem time de primeira linha

“Esse trabalho fez a cabeça da minha geração e hoje sei que não fui só eu que passei meses tirando os acompanhamentos e tocando em casa junto com o disco”, afirmou, acerca da estreia de Cartola na Discos Marcus Pereira, o cavaquinhista e escritor Henrique Cazes, em Choro – Do quintal ao municipal, “obra de referência indispensável para estudiosos e amantes do choro e da música brasileira em geral”, como atestou o insuspeito antropólogo Hermano Vianna, no prefácio da citada obra.

“Chatice tudo isso para você, sou o primeiro a reconhecer, homem cheio de trabalhos e compromissos, em luta permanente contra o relógio para chegar onde deve pelo menos com atraso menor, mas no momento não me ocorre o nome de nenhuma outra pessoa a quem mandar isso que nem sei direito o que venha a ser”. O trecho parece ter sido escrito sobre estes nossos dias corridos, doidos e doídos. É do misto de autor, ator, escritor e compositor Mário Lago, em Manuscrito do heróico empregadinho de bordel (1979), num tempo em que o termo artista multimídia sequer havia sido inventado. Sim, é ele o compositor de Ai, que saudades da Amélia (com Ataulfo Alves), Aurora (com Roberto Roberti), Nada além (com Custódio Mesquita) e Fracasso, entre outros sucessos radiofônicos de outrora.

Nelson Cavaquinho, nascido em 1911, teve o registro alterado para ingressar nos quadros da polícia carioca: foi registrado como se nascido um ano antes. Membro da polícia montada, deixava o cavalo preso e ia beber nos botequins aos arredores do Morro de Mangueira. Um dia – ou, melhor dizendo, uma noite – o cavalo soltou-se, regressando ao quartel antes de seu “jóquei”. O autor de Juízo final (com Élcio Soares) foi dispensado. Sorte do samba nacional, da música brasileira, que quando pisa em Folhas secas (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), quer que “tire o seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor”, esta e a morte presenças constantes em seu temário.

De Noel Rosa sobram histórias geniais, pitorescas e engraçadas, o que inclui a recente homenagem do compositor Edu Krieger, que em tempos de Amy Winehouse, Kurt Cobain, Janis Joplins, Jim Morrison e Jimi Hendrix, entre outros, decretou: “rock’n roll pra valer foi Noel Rosa, que partiu sem chegar aos vinte e sete”.

Assis Valente, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago, Nelson Cavaquinho e Noel Rosa, os compositores-personagens acima, todos centenários, recebem homenagens de Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho em show que contará com as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro.

A apresentação acontece dia 10 de dezembro (sábado), data em que se celebra o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e que antecede o aniversário de nascimento de Noel Rosa, que ano passado recebeu homenagem do trio anfitrião mais Cesar Teixeira.

Saldanha, Ribeiro e Sobrinho, juntos, apresentaram-se em projeto no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2004. Antes, em São Luís, foram protagonistas do show Eu e meus companheiros, no Circo da Cidade e Bagdad Café. O trio de bambas e seus convidados serão acompanhados por um regional idem: Arlindo Carvalho (percussão), Domingos Santos (violão sete cordas), Fleming (bateria), João Neto (flauta), João Soeiro (violão), Juca do Cavaco, Osmar do Trombone e Vandico (percussão).

Além dos bambas supra, Rosa Secular II, reprise ampliada do tributo a Noel Rosa, prestado ano passado e repetido, a pedidos, no início deste, homenageará também maranhenses saudosos, eternos na memória de amigos e admiradores: Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil, Dilu Mello, João Carlos Nazaré e Lopes Bogéa.

Rosa Secullar II acontece dia 10 (sábado), às 21h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais). Os ingressos custam R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira).

Serviço

O quê: Show musical Rosa Secular II.
Quem: Chico Saldanha, Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho. Participações especiais: Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro.
Quando: dia 10 (sábado), às 21h.
Onde: Bar Daquele Jeito (Vinhais).
Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes com carteira).

[Release-colagem. Textos assim deverão aparecer com mais frequência por aqui. Em breve devo fechar o Ponte Aérea São Luís]