É de Cesar e quem não ouve não sabe o que é tão bom

Cesar Teixeira, no bis, com seu batalhão pesado. Foto: Zema Ribeiro

 

Cesar Teixeira é um artista incomum e necessário. Na lida desde fins da década de 1960, quando suas primeiras composições foram ouvidas em festivais estudantis de música, o compositor (e cantor e jornalista e artista plástico e alguns etc.) lançou ontem (18), em show no Teatro Arthur Azevedo, o segundo disco de sua carreira, o já festejado Camapu.

O cenário adornado de palmeiras evocava os climas e ares nordestinos e rurais do disco, cujo título é nome de fruto agridoce outrora muito comum por cercas e quintais e atualmente vendido a peso de ouro em supermercados.

O show começou por Aves de rapina, toada nordestina que remete à Guerrilha do Araguaia – todo o repertório de Camapu foi composto nas décadas de 1970 e 80 – e demonstrava, de cara, a atualidade e o vigor da obra poética e musical de Cesar Teixeira, além da necessidade de que falamos abrindo este comentário.

Por falar em guerrilha, não faltaram, ao longo da apresentação, citações ao saudoso poeta Nauro Machado, através da repetição de um bordão seu, com que saudava os conterrâneos: “meu poeta, meu cabo de guerra”, dizia Cesar Teixeira aqui e acolá.

Baiãozinho, na sequência, a demonstrar que apesar das tragédias e dos sucessivos golpes, é preciso festejar. A sanfona de Rui Mário, que também toca piano e assina a direção musical do disco e do show, será sempre destaque, em banda que se completou, ontem, no palco, com João Neto (flauta), “só está aqui por que é sobrinho de Josias [Sobrinho, produtor executivo do disco e do show]”, troçou o anfitrião, Wanderson Silva (percussão), Marquinhos Carcará (percussão), “que herdei do finado Papete“, Mano Lopes (violão sete cordas), Regina Oliveira, Raquel Ávila e Mairla Oliveira (vocais), além das intervenções de Jorlielson Lima (violoncelo) e da participação de Thaynara (violino).

A primeira convidada da noite foi Lena Machado, que cantou, com um arranjo mais amaxixado ainda Flanelinha de avião. “Eu gravei essa música no meu primeiro disco [Canção de vida, 2006], mas não fiquei satisfeita com o resultado. Agora eu gravei de novo no meu terceiro disco [referindo-se a Batalhão de rosas, que será lançado este semestre]. Tem Cesar Teixeira de novo!”, afirmou, comemorando a presença constante do compositor no repertório de seus discos. “Agora você não vai mais presa por que gravou música minha”, afirmou o dono da noite, lembrando as ditaduras de 1964 e 2016, que enfrentou e enfrenta, fazendo uso de uma das palavras-chave daquele momento histórico: liberdade. “Algo de que tanto precisamos, neste país escroto”, disparou.

“Este teatro foi erguido por mãos possivelmente ainda escravizadas. Aqui tem o suor de negros que trabalharam em sua construção. É um teatro popular, não é um teatro das elites”, mandou, sem disfarçar algum desconforto e nervosismo em estar naquele palco, longe de mise-en-scène. “Eu sou da zona, do botequim”, afirmou, citando lugares em que se sentia mais à vontade. Cantou a modinha Lua do mangue, cujo cenário é uma zona portuária, acompanhado apenas do piano de Rui Mário, do sete cordas de Mano Lopes e do violoncelo de Jorlielson.

O xote Juçara voltou à seara política, com sua letra que cita etnias indígenas (Guajajara e Guajá, na véspera do “dia do índio”) e heróis e heroínas da esquerda (Dandara, Victor Jara, Violeta Parra). Aqui e acolá ouviam-se gritos isolados de “Lula livre!” e “Fora Temer!”. “Eu agora vou chamar uma morena juçara”, fez trocadilho ao convidar ao palco Flávia Bittencourt, que interpretou a bela e dolorosa Dolores, gravada pela cantora em Sentido [2005], seu disco de estreia. No meio da interpretação, acompanhada apenas pelo mesmo trio de Lua do mangue, sentou-se no banco em que o compositor estava apoiando seu copo. Quase chorando, confessou: “é impossível cantar essa música sem se emocionar. Aliás, Cesar só tem música linda, não tem uma que se possa dizer mais ou menos. Lembro quando eu ia gravar meu primeiro disco, ele me passou uma fita k7, olha eu entregando minha idade [risos], e eu ouvia uma atrás da outra e foi difícil escolher. Eu gravei apenas duas, ficou um monte por gravar”.

Durante as entradas e saídas das participações especiais – que não duetavam com o autor do repertório da noite – Cesar Teixeira por vezes se atrapalhou com os microfones. Recebia de quem deixava o palco e usava-o, em vez do do pedestal, gerando reclamações de um ou outro, na plateia. A princípio, levou na esportiva, lembrando João Gilberto: “tem muito bêbado aqui”, fazendo rir a grande maioria do público presente. Diante da insistência, calou os que não entendiam a grandeza do momento: “tem gente que não entende que as palavras precisam ser usadas nos momentos certos”.

“Meu pai não me criou, mas era uma espécie de ídolo”, afirmou Cesar Teixeira referindo-se ao também compositor Bibi Silva. “Nos finais de semana ele me levava a programas de auditório em rádios. A gente andava ali pelos Apicuns [na região central de São Luís] e nessas ocasiões eu conheci uma grande figura”, revelou, chamando ao palco Célia Maria, que teve a enorme honra e responsabilidade de interpretar duas pérolas da porção sambista do compositor (a que ele deve dedicar o próximo disco, conforme anunciou na única entrevista de divulgação do show, que concedeu ao Chorinhos e Chorões de Ricarte Almeida Santos na Rádio Universidade FM): Lápis de cor, gravada por ela em Célia Maria [2001], seu único disco até aqui, e Das cinzas à paixão.

“Vou cantar aqui algo que fiz com meu pai. Esse refrão é dele”, anunciou antes de entoar a bela Toada de passarinho, um bumba meu boi sotaque de matraca. Depois era a vez do transe do boi de zabumba, com seu ritmo frenético: Cesar Teixeira cantou Boi de Medonho e em seguida chamou Rosa Reis para rodar a saia colorida e interpretar Mutuca, gravada por ela em Balaio de rosas.

Mairla Oliveira, filha de Regina Oliveira, ex-esposa de Cesar, afirmou ser inegável ter seguido a carreira musical. Abraçou-o, ao contar: “este homem foi meu pai por seis anos”. Depois tirou onda: “ele adorava um forró, minha mãe ia atrás, no Corta-Jaca, não era, Cesar?”. “Já fui bom disso”, respondeu gracejando e deixando o palco, onde ela cantou e dançou o Forró do Corta-Jaca. Na sequência o grupo Lamparina prestou-lhe homenagem, entregando um ramalhete. Ao abraço coletivo reagiu com um faceiro “isso é malandragem!”, para mais risos da plateia.

A interpretação do coco Camapu contou com a participação especial do mímico Gilson César, num diálogo com Cesar Teixeira sobre os vários nomes da fruta, citados na letra da música, que dá título ao disco. “Quando eu era criança eu chamava era canapum”, confessou, para gargalhadas da plateia, que em grande parte certamente se identificou com o “equívoco”. Aos versos iniciais “ê moço,/ que tu leva nesse cofo?”, com a banda reforçada pelo violoncelo de Jorlielson, Gilson desceu a plateia, com o cofo pendurado no ombro, distribuindo camapus imaginários aos presentes.

Cesar Teixeira interpretou a íntegra do repertório de Camapu. Única música interpretada por ele de seu disco anterior [Shopping Brazil, 2004], Namorada do cangaço foi cantada a plenos pulmões pela plateia, evocando as memórias de Waldick Soriano (1933-2008), ídolo citado na letra, e Dércio Marques (1947-2012), não citado, o primeiro a gravá-la [em Fulejo, de 1983]. “Viva o cangaço!”, finalizou, de punho erguido.

“Depois de Lamparina, eu vou chamar um casal que rima, Criolina”, convidou Alê Muniz (único homem em meio às “mulheres de Cesar”) e Luciana Simões, responsáveis, há cinco anos, pela organização de um show que uniu artistas da jovem e velha guardas em tributo ao antológico Bandeira de aço [1978], em que Papete, graças aos esforços do publicitário e pesquisador Marcus Pereira, registrou em disco as primeiras composições de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe. “O pai desse aqui tocava flauta comigo”, disse apontando para Alê, referindo-se ao flautista Célio Muniz, cujo sopro está registrado no choro Ray-ban, em Shopping Brazil.

“Vocês olhando daí pensam que é fácil, eu mesmo, pareço estar tranquilo, mas aqui por dentro está uma reviravolta”, comentou Alê Muniz sobre a emoção de participar daquela noite histórica. “Eu conheci Cesar Teixeira através do meu pai, que foi através de quem eu conheci Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e tantos outros, e foi o meu primeiro contato com essa música, essa cultura popular do Maranhão. Pra mim é uma imensa honra estar aqui, ainda mais por que essa música é um hino”, prestou as devidas reverências antes de cantarem – e dançarem – Bandeira de aço, com Luciana Simões hasteando um leque feito bandeira.

Em feitio de oração, a Ladainha de Alcântara ganhou os reforços do violino de Thaynara Oliveira e do violoncelo de Jorlielson Lima, com os percussionistas fazendo as caixas e as backing vocals empunhando bandeiras (vermelhas) do Divino.

“Muita gente lembra de um samba que eu compus há algum tempo”, comentou Cesar Teixeira ao cantar, à capela, os versos “salve as mulheres da zona/ e as que choram na Praça de Maio”, de Poema sujo, o samba-enredo da Turma do Quinto em 1985, no que foi imediatamente acompanhado por parte do público.

O compositor agradeceu aos presentes pelas doações (os ingressos para o show foram trocados por um quilo de alimento não perecível), que serão destinadas a famílias carentes do Desterro, bairro do Centro Histórico da capital maranhense. “Lá, mulheres fundaram a Associação das Prostitutas do Maranhão, que realizou em setembro do ano passado um seminário nacional da categoria. São, em sua maioria, mulheres que criam os filhos sozinhas”, lembrou, antes de cantar a toada de bumba meu boi de orquestra que mais tem acalentado crianças no Maranhão desde sua primeira gravação, em 1978: foi acompanhado em uníssono pelo público em Boi da lua.

Ao se retirar do palco e ouvir os pedidos de “mais um”, voltou acompanhado de seu batalhão pesado. Entre músicos da banda, convidados especiais, equipe de produção e o parceiro de Sindicato do Samba Joãozinho Ribeiro, entoaram juntos outro clássico (este ainda não registrado em disco pelo autor): a tristemente atualíssima Oração latina, momento-síntese da comunhão entre palco e plateia numa noite que se tornaria histórica acontecesse o que acontecesse.

Faixa-bônus – Engana-se quem pensa que a festa acabou: sábado (21), a partir de meio-dia, no Bar do Léo (Hortomercado do Vinhais), Cesar Teixeira autografa Camapu, a quem interessar possa.

Um sebo novo na ilha. Alvíssaras!

Os sócios Riba e Natan. Foto: Zema Ribeiro

 

Há mais de 10 anos entrevistei a saudosa Moema de Castro Alvim, então proprietária do sebo Papiros do Egito, para um trabalho de faculdade – o resultado viria a ser publicado depois, no Overmundo.

Naquela conversa – uma das muitas que tivemos ao longo de mais de 20 anos de amizade – ela alertou para uma equação que não fechava: enquanto faculdades particulares eram abertas, livrarias e sebos se fechavam.

A pulga atrás da orelha me acompanha até hoje.

São Luís é uma cidade que convive com vários títulos – ou apelidos, como queiram. Uns se justificam por si só. Outros acabam ganhando status de verdade de tanto se repetirem, na perspectiva de Goebells, ministro da propaganda nazista.

Um bom exemplo é a rixa entre os atenienses e jamaicanos locais. A meu ver a questão se encerra facilmente: enquanto quase ninguém lê, os clubes de reggae estão lotados – e não, a meu ver, uma coisa não inviabiliza a outra.

Acompanho há algum tempo o trabalho do professor Natan Máximo, que já teve sebo fixo no Centro da cidade (na Rua das Flores), mas que ultimamente tem literalmente montado a barraca em eventos culturais como o projeto RicoChoro ComVida na Praça, de que acompanhou boa parte das edições: enquanto o público prestigiava a boa música no palco, podia também adquirir livros, cds e vinis usados.

A barraca de Natan, com seu caráter agregador e a presença do sócio Riba (outro, não o do Poeme-se), acabou por ganhar o nome de Feira da Tralha, exibido na faixa na fachada do sebo – fixo – que ele e Riba (ambos na foto que abre este post) inauguram hoje, às 18h, no térreo do Edifício Colonial (sala 8, esquina das ruas Godofredo Viana com Sol, Centro).

A inauguração terá apresentação do Regional Deu Branco, formado por Cleiton Canhoto (violão sete cordas), Erivan Neri (flauta), Jamil Cartágenes (cavaquinho), Kleiton Groove (trombone) e Valdico Monteiro (pandeiro). O grupo terá as participações especiais de Joãozinho Ribeiro e Rosa Reis. Na ocasião serão vendidos caldo de sururu e cerveja.

É outra coisa de que há tempos me ressinto: não há um bar nas proximidades do Teatro Arthur Azevedo, para o caso de uma resenha regada a chope e bom papo, após este ou aquele espetáculo. A Feira da Tralha é um sebo, não um bar, mas poderá em parte preencher essa lacuna. Tomara!

De um modo ou de outro, é sempre motivo de comemoração a inauguração de um sebo, uma livraria, uma loja de discos, uma banca de revistas e estes estabelecimentos em extinção – ou melhor, na contramão.

Divulgação

Criolina lança clipe antecipando o carnaval

O carnaval vem aí e o Criolina solta novo videoclipe na rede. A menina do salão (Alê Muniz/ Luciana Simões) ainda nem esfriou e eles já saem com Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões), música que batiza o bloco (ou vice-versa?) que o casal Alê Muniz e Luciana Simões comandará na segunda-feira de momo (12).

O nome do bloco homenageia Bota pra moer, um dos “doidos antológicos” de São Luís, catalogado pelo saudoso e múltiplo Lopes Bogéa no igualmente antológico Pedras da rua [Sioge, 1988]. Antonio Lima, seu nome de pia, pernambucano de Caruaru, viveu na capital maranhense, onde protagonizou histórias hilárias. Era hábil em matemática, conseguindo dizer, de cabeça, em poucos segundos, quantos dias, meses e anos a pessoa tinha vivido até ali, a partir de sua data de nascimento. Outra habilidade sua era ler naturalmente um jornal. De cabeça pra baixo.

Mas folclórica mesmo ficou a história de quando se tornou porta-bandeira da famosa Greve de 51. São Luís ficou paralisada pela revolta popular contra a posse do governador Eugênio Barros. Bota pra moer puxava o bloco dos descontentes até o Palácio dos Leões, quando viu o aglomerado de policiais montados a cavalo e passou a bandeira a quem estava a seu lado, dizendo: “até aqui eu trouxe. Daqui pra frente, vocês arranjem um mais doido do que eu”.

O novo clipe do Criolina antecipa o clima do que o bloco promete para este carnaval. Bota pra moer, o bloco de Alê Muniz e Luciana Simões não é oportunista: o casal tem balançado o coreto desde que optou por viver em São Luís e produzir a partir daqui, dando uma contribuição fundamental para a organização e a profissionalização da cena musical, com o advento do Festival BR 135, produzido anualmente por eles. Homenageia uma figura folclórica da cidade. Garante o diálogo multicultural durante a folia, algo já destacado no carnaval recifense e inaugurado cá por estas plagas ano passado com o Bloco do Baleiro, sucesso absoluto de público e destaque incontestável do reinado de Momo de ano passado. E realizaram dois ensaios abertos e gratuitos do bloco, na Avenida Beira-Mar, no Centro da cidade.

“Queremos circo, queremos pão/ queremos a libertação”, começa a letra, que traz também a epígrafe da Akademia dos Párias: “loucos somos todos em suma/ uns por pouca coisa/ outros por coisa alguma”. E para não esquecer que o carnaval é também um momento político: “vai querer, vai querer/ bota pra moer/ vai querer, vai querer/ pra gente poder/ sem temer sem temer sem temer”, segue a letra, entre explícita e sutil.

Para o corredor da folia, o Criolina terá como convidados a Bateria da Favela do Samba, o bloco Fuzileiros da Fuzarca, a cantora Rosa Reis e o DJ Pedro Sobrinho, além da participação especial a cantora Elza Soares, entre o estrondoso sucesso de A mulher do fim do mundo [2015] – uma das faixas é intitulada Pra fuder (de Kiko Dinucci, de algum modo antecipando o diálogo com Bota pra moer) – e as gravações de Deus é mulher, novo disco que lançará este ano.

Para o videoclipe, o Criolina contou com as participações especiais de Rosa Reis, Lucas Santtana (que participaram do BR 135 ano passado), Chico César e Zeca Baleiro (que animaram o Bloco do Baleiro ano passado), acompanhados de João Simas (guitarra), Sandoval Filho (teclado) e Thierry Castelo (bateria). A direção do clipe é de Arthur Rosa França, com imagens (em São Luís) de Laila Razzo e direção de estúdio de Rovilson Pascoal (em São Paulo) e Alê Muniz (em São Luís).

Assista o videoclipe de Bota pra moer (Celso Borges/ Alê Muniz/ Luciana Simões):

Obituário: João Madson

João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão
João Madson em raro registro sem cavanhaque. Foto: Arquivo O Estado do Maranhão

 

Conheci João Madson há quase década e meia, ali pelas imediações do Bar de Seu Adalberto (Praia Grande), onde, à época, acontecia o evento semanal A Vida é uma Festa!, capitaneado pelo poeta-músico ZéMaria Medeiros, há tempos transferido para a Companhia Circense de Teatro de Bonecos. Já era uma lenda do underground local, sempre acompanhado de um copo, um cigarro e um sorriso.

“Se melhorar, estraga”, sua voz talhada pelos vícios respondia sempre ao invariável “como vão as coisas?” que eu disparava toda vez que o reencontrava, sempre impecável cavanhaque (a antiga foto em p&b que ilustra este post é exceção), amarelado de fumo, ele, há décadas, radicado em São Paulo.

Chegamos a trabalhar juntos, na Faculdade São Luís, onde ele prestava consultoria ou coisa que o valha em marketing; tinha formação em jornalismo e publicidade e equilibrava-se entre as áreas e a música, sua paixão.

Compositor menos conhecido do que deveria, é autor de um punhado de clássicos, ao menos para mim. Um exemplo é Sinhá Madona, sucesso de Rogéryo du Maranhão, lembrada pela jornalista Andréa Oliveira, ao lamentar em uma rede social o falecimento do artista, vítima de enfisema pulmonar, na madrugada de ontem (16), aos 62 anos. O compositor registrou a música com adesão de Gabriel Melônio em São João Madson Com Vida, último disco gravado por ele, em 2003.

“Dorme em sono perfeito/ minha antiga cidade/ sinhá, vou buscar o dia/ antes da claridade// Corre, Sinhá Madona/ bem de frente da janela/ vem ver como é bela a lua/ que se esconde no coqueiro/ vem ver como é bonito/ meu boi dançar no terreiro”, diz a letra. O cd é recheado de participações especiais: Didã, Rosa Reis, Alê Muniz, Erivaldo Gomes, Eliésio, entre outros.

Em shows recentes a cantora Alexandra Nicolas anunciou que gravará O segredo do coco. “Essa, quem me ensinou a cantar foi Didã” – intérprete da música em São João Madson Com Vida –, geralmente anuncia, antes de começar: “Tira o coco do coqueiro/ bota pra quebrar/ tira o leite desse coco/ que eu quero tomar/ rala o coco, soca o coco/ pra cunhã coar/ que o segredo do coco é peneirar// O segredo do coco é o leite/ o azeite na hora de apurar/ é o cheiro cheiroso na cozinha/ cunhãzinha preparando o jantar// Traz tucupi/ traz tacacá/ taca o coco na cuia/ pra cunhã coar”, diz a letra.

Uma vez irrompeu Bagdad Café adentro, em plena Praia Grande, cantando Stalone Strauss, cujos vocais divide com o sobrinho Alê Muniz no disco derradeiro: “Me dê um tom e um tema/ que eu vou cantar um poema/ um roteiro pra cinema/ enredo de carnaval// Me dê um tipo e um trato/ que eu faço mesmo é no ato/ só me assine um bom contrato/ que eu quero é virar o tal// E vou gravar um cd/ do bom da eme pê bê/ para estourar no Japão// Você só vai me ver/ em clipes da eme tê vê/ no Domingão do Faustão// E vou trocar o meu nome/ por outro que se consome/ um nome comercial/ um nome bem estrangeiro/ só pra ganhar mais dinheiro/ vou ser Stalone Strauss”, transbordava irreverência.

Em 2005 venceu o Festival Maranhense de Música Carnavalesca, promovido pelo Sistema Mirante de Comunicação, com seu Frevo na chuva: “E foi aí que eu te achei na chuva/ foi um barato muito legal/ você toda molhadinha/ só entrou na minha/ por que era carnaval// E era frevo na chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ você no meu guarda-chuva/ quero ver, quero ver, quero ver/ Venha, vamos botar pra moer/ eu e você fazendo o frevo ferver”.

É dele também um dos mais astutos jingles de propaganda político-partidária que já ouvi: quando candidata a prefeita em 2004, Helena Heluy (PT) tinha como adversários Ricardo Murad, João Castelo e Tadeu Palácio. Madinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos, mandou bem: “Não quero Murad Castelo/ nem mesmo erguer Palácio/ amo demais São Luís/ eu quero é ser feliz/ é 13 de cima abaixo// Helena, o Lula lá já falou/ eu voto em quem vale a pena/ por isso eu voto em Helena/ pra nossa ilha do amor” – cito de memória, a exemplo das outras letras lembradas neste post.

Este obituário traz alguns poucos exemplos da genialidade de João Madson. Sua perda é, em si, uma tragédia. E revela outra: nossa falta de cuidados com a memória, em tempos virtuais. Experimentem “dar um google” com o nome dele (o que fiz, à cata de foto para ilustrar esta singela homenagem póstuma): as ocorrências são insignificantes (inclusive demorei a publicar este texto em busca de foto decente para ilustrá-lo).

Laborarte comemora 43 anos com vasta programação

Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge "Cara de Borracha"; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu
Trupe do Laborarte em foto de data e autoria não identificadas. Da esquerda para a direita: Claudio Ribeiro, Zeca Baleiro, Joãozinho Ribeiro e Jorge “Cara de Borracha”; abaixo: Jorge do Rosário, Rosa Reis, Paulinho Oliveira e Saci Teleleu

 

Diversos movimentos convergiram para o nascente Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, fundado em 11 de outubro de 1972. Música, teatro, artes plásticas, fotografia, cultura popular: para tudo havia espaço em seus departamentos, ocupados por nomes que fariam história neste estado, como Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe, Murilo Santos, Wilson Martins, Regina Telles, Tácito Borralho, Rosa Reis, Nelson Brito, Mestre Patinho, Dona Teté e Joãozinho Ribeiro, entre outros, em diferentes épocas.

O Labô, como é comumente chamado pelos mais íntimos, completa 43 anos domingo (11) e preparou vasta programação, inteiramente gratuita, para comemorar. Ano que vem, o casarão 42 da Rua Jansen Müller (Centro) será enredo da Escola de Samba Flor do Samba no carnaval.

Ao longo da programação (veja completa ao final do post), uma videoinstalação apresentará documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte, acumulados ao longo de mais de quatro décadas de atividades ininterruptas.

Entre as montagens iniciais merecem destaque Espectrofúria [1972], recentemente reencenada, sobre texto de Eduardo Lucena, que recebeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem em Niterói/RJ, Os Sete Encontros do Aventureiro Corre-Terra ou O Cavaleiro do Destino, de Josias Sobrinho e Tácito Borralho [prêmio Mambembe de 1978], Agonia do Homem [1972], poemas de Nauro Machado adaptados por Otto Prado, Mártir do Calvário [1973], em que Ubiratan Teixeira interpretou Pilatos, e Marémemória [1974], baseado no livro-poema homônimo de José Chagas, cuja foto de Josias Sobrinho e Cesar Teixeira fazendo um par de violeiros encabeça este blogue.

De 30 anos de Laborarte, reportagem do último, aliás, cato informações para este texto. O do compositor-fundador foi publicado em 19 de outubro de 2002 no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, e está também na coletânea Maranhão Reportagem [Clara Editora, 2002], organizada por Félix Alberto Lima.

Entre os destaques da programação de aniversário, acontece hoje (9) a noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, em que Camila Reis, com transcrições de Gustavo S. Correia e ilustrações de Layo Bulhão, transpõe para partituras, cantos entoados nos festejos do Divino e na dança do Cacuriá, e Vem cá curiar o cacuriá, de Inara Rodrigues, sobre a dança em que ambas as autoras dão – ou já deram – passos. O primeiro tem patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura; o segundo foi premiado no Concurso Literário Cidade de São Luís.

Moda, dança e poesia dão o tom da noite de amanhã (10). A partir das 20h Tieta Macau, Deuzima Serra, Moisés Nobre e Raimunda Frazão – uma das homenageadas da 9ª. Feira do Livro de São Luís – apresentam performances nas áreas.

Na sequência, Joãozinho Ribeiro atrela à programação de aniversário do Laborarte o show que tem apresentado ao longo deste ano, lançando seu disco de estreia, Milhões de uns – vol. 1. Nesta ocasião, a apresentação terá as participações especiais de Josias Sobrinho e Rosa Reis.

“Para mim é uma honra e um prazer fazer valer o dito popular, “o bom filho à casa torna”. Minhas relações com o Labô têm tempo e história”, declarou o compositor, autor da maioria das músicas do espetáculo carnavalesco-teatral Te gruda no meu fofão. “Alegria maior ainda é poder dividir o palco com Josias Sobrinho e Rosa Reis, nomes de importância fundamental, em diferentes épocas, para o surgimento e a continuação do Laborarte nas trincheiras em prol de nossa cultura popular”, continuou. “Darei um presente ao Laborarte, o público pode esperar uma surpresa”, prometeu, deixando o mistério no ar.

A noite de sábado guarda espaço ainda para show das Afrôs e a programação se encerra no domingo de aniversário (11), com um cortejo do Cacuriá de Dona Teté na Feira do Livro (Praia Grande), às 17h30, cujo encerramento também acontece na data.

Como afirmou Cesar Teixeira em seu texto de há 13 anos, “nomes de pessoas e considerações sobre o trabalho do Laborarte não caberiam nesta página – dariam um livro”. Faça parte dessa história!

Programação

Hoje (9), a partir das 20h

Receba! – Dança, Negritude, Pertencimento, com Luana Reis
Noite de autógrafos dos livros Cantigas Divinas, de Camila Reis, e Vem Cá Curiar o Cacuriá, de Inara Rodrigues
Instalação fotográfica Chuseto, de Jesús Pérez
Videoinstalação – documentários, espetáculos e outros acervos históricos do Laborarte
Roda de Capoeira Angola com os mestres Nelsinho, Patinho e convidados
Shows de Rosa Reis e Camila Reis
Palco livre

Amanhã (10), a partir das 20h

Exibição de vídeo de Moda e intervenção Beltranesca, com Tieta Macau
Solo de dança popular com Deuzima Serra
Performance Poéticas, com Moisés Nobre, Raimunda Frazão e convidados
Show de Joãozinho Ribeiro – Lançamento do cd Milhões de uns, com participação especial de Josias Sobrinho e Rosa Reis
Cânticos aos 43 anos de Laborarte
Show das Afrôs

Domingo (11), às 17h30

Cortejo do Cacuriá de Dona Teté na 9ª. Feira do Livro de São Luís (Praia Grande)

Camila Reis Brito mergulha no universo do Divino e do Cacuriá em livro pioneiro

Cantigas Divinas. Capa. Reprodução
Cantigas Divinas. Capa. Reprodução

 

Até a abertura dos cursos de música das universidades Estadual e Federal do Maranhão a Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo, fundada em 1974, foi, durante muito tempo, responsável pela formação da quase totalidade de nossos músicos em atividade. Durante um bom período foi também questionada com base em uma equação simples: se a maioria dos músicos ali formados iria atuar com cultura popular, em carreiras solo ou em grupos, por que a base do currículo era erudita?

As coisas vêm mudando pouco a pouco, mas partindo dessa premissa, a musicista Camila Reis Brito lança hoje (17), às 19h, no Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro), com entrada franca, o livro Cantigas Divinas [Laborarte, 2015, 41 p., distribuição gratuita, disponível para download no site do projeto], conjunto de partituras de músicas executadas por caixeiras, na Festa do Divino Espírito Santo e no Cacuriá – dança tipicamente maranhense originada na festa e coreografada em seu encerramento. O livro será distribuído gratuitamente a escolas, bibliotecas e instituições de ensino de música.

Filha de dois expoentes da cultura popular do Maranhão, o ator e diretor Nelson Brito e a cantora Rosa Reis, Camila, qual os pais, membro do Laboratório de Expressões Artísticas (Laborarte) e brincante do Cacuriá de Dona Teté, pioneiro e mais famoso grupo da dança, indagava-se o porquê de nunca ter visto, no currículo de sua formação musical, peças – do Divino e do cacuriá – que faziam parte de seu círculo de convivência na cultura popular.

Daí surgiu a ideia de Cantigas Divinas, realizado pelo Laborarte com patrocínio da Fundação Cultural Palmares e Ministério da Cultura, em que ela e o cantor, compositor e professor Gustavo S. Correia transcrevem 20 partituras de músicas bastante conhecidas de foliões e “folioas” do Divino (e do cacuriá). A obra é ilustrada por Layo Bulhão, coordenador do Festival de Arte Contemporânea do Maranhão e da revista Insight Photo.

As cantigas são apresentadas “em linguagem infantil e didática com o objetivo de possibilitar que estas músicas façam parte de trabalhos de iniciação musical e de fazer um registro destas em formato de partitura”, afirma a autora na apresentação do livro. O livro de Camila deve interessar não só a maranhenses, já que a Festa do Divino Espírito Santo é uma manifestação de catolicismo popular presente em todo o território nacional.

Nas páginas de Cantigas Divinas estão contemplados um breve histórico acerca da festa, de quem a faz, do cacuriá, além de um glossário. Nas partituras estão cantigas de todas as fases dos festejos. O leitor ou músico, como se em procissão, passeia por versos que emocionam, como “meu Divino Espírito Santo/ a vossa capela cheira/ cheira cravo, cheira rosa/ cheira flor de laranjeira” (de Cheira flor de laranjeira), a músicas tornadas hits pela saudosa voz de Almeirice da Silva Santos, mais conhecida pela alcunha de Dona Teté. Quem não já cantou (e/ou dançou) o Choro de Lera, Passarinho verde, Mariquinha, Jacaré e Jabuti? Todas as músicas do livro são de domínio público.

Cantigas Divinas reúne em sua feitura as doses certas de necessidade, ineditismo, devoção e paixão. Um livro importante não só para os que fazem a cena da cultura popular do Maranhão, mas também para eruditos e mesmo àqueles que só cantam no chuveiro ou ninando as crianças.

Chorografia do Maranhão: Carbrasa

[O Imparcial, 19 de dezembro de 2014]

O percussionista, que já integrou grupos como o Regional Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha e Espinha de Bacalhau, é o 42º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Mais conhecido como Carbrasa, o percussionista João José Pinto Silva não sabe a origem do apelido. Um vizinho começou a chamá-lo e pegou.

Nascido em Cururupu, em 17 de abril de 1954, Carbrasa aportou na Ilha capital aos 13 anos de idade, motivado pela vontade de estudar. Aos 18, como carteiro, começou nos Correios, de onde ainda é funcionário.

Carbrasa é filho de João Pedro Silva, proprietário de embarcação, “tinha o Iate São João e transportava mercadorias”, e Maria Ferreira Pinto Silva, doméstica.

O percussionista participou de alguns dos grupos mais importantes do samba e choro no Maranhão, tendo integrado o Instrumental Pixinguinha – primeiro regional maranhense a gravar um cd, já sem ele na formação –, Regional Tira-Teima – o mais longevo em atividade, prestes a lançar disco de estreia – e o Espinha de Bacalhau.

Hoje Carbrasa integra o Três no Choro, formado por três Joões: ele, João Neto [flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014] e João Eudes [violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de fevereiro de 2014].

Fazia uma tarde nublada em São Luís quando Carbrasa concedeu seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 42º. da série, na Fonte do Ribeirão.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

De onde vem o apelido Carbrasa? Meu nome é João José Pinto Silva e eu venho de uma cidade do interior chamada Cururupu. Lá, se você verificar, tem bastante pessoas que são músicos, compositores. Um exemplo disso é Tião Carvalho. Vim pra São Luís, aqui estou há mais de 50 anos. Na minha adolescência eu vim morar num bairro chamado Boa Vista, entre o Monte Castelo e Camboa. Depois fui morar num bairro chamado Vila Bessa. Nesse bairro, na Rua Nova, precisamente, defronte à minha casa tinha uma pessoa que nós fizemos uma grande amizade. Ele toca violão, e nós estudantes de segundo grau, depois vestibular, ele foi ser bioquímico e farmacêutico. Mas ele era daqueles camaradas que gozava de todo mundo. Não sei por que cargas d’água ele me colocou esse apelido de Carbrasa. Aí ficou no bairro: Carbrasa, Carbrasa, Carbrasa… Lá perto, no bairro, tinha um restaurante, naquela época, aqui chamavam restaurante de base: Base do Germano, Base do Rabelo… essa era a Base do Edilson, um senhor que tomava de conta, era o dono da base, ele e a esposa dele. Eu tinha começado a trabalhar, hoje ainda sou funcionário dos Correios, e nos finais de semana, principalmente aos sábados, nós íamos para a Base do Edilson tomar cerveja e fazer uma brincadeira lá, de violão e percussão. Lá nós, eu e mais três amigos, Joacilo [Frota, cavaquinista, hoje perito criminal em Imperatriz], Luiz Carlos, começamos a fazer uma roda, violão e percussão, um ganzá, um tamborinzinho, e as pessoas gostavam, tanto é que a conta nós não pagávamos. As pessoas que estavam nas mesas e gostavam de nossa apresentação musical pagavam. Daí essa coisa foi evoluindo. Depois esse meu amigo aprendeu a tocar cavaquinho, já fazia umas coisas de choro, aqueles choros de Waldir Azevedo, próprios para cavaco, ele já fazia aquilo ali.

Como era o ambiente musical de tua infância? O que você ouvia quando era criança? Lá no interior era música popular brasileira da época. Nelson Gonçalves, Jamelão, Orlando Silva. No interior acontecia o festejo, Nossa Senhora das Graças, e o Carnaval. Quando viemos para São Luís eu já comecei a separar, já fui ouvir Chico Buarque, principalmente, Caetano, Gil, a nata da música popular brasileira. Mas também não deixando de lado o que se chamou na época de Jovem Guarda, Roberto Carlos nem tanto, mas o resto da Jovem Guarda.

Você ainda lembra muito da infância em Cururupu? Recordo. Na verdade eu vim embora para São Luís com 13 anos. Lembro de colégio, das brincadeiras de roda. Meu lugar, eu nasci num povoado, Valha-me Deus, numa das ilhas do arquipélago de Maiau, nas reentrâncias maranhenses, são várias ilhas, cada uma um povoado. Era uma ilha que eu considero um paraíso, guardadas as devidas proporções. Eu volto lá até hoje, meu irmão tem casa lá, eu até convido vocês para irem um dia visitar o lugar. Tem um festejo lá, o Festejo de Nossa Senhora das Graças, em maio, é uma festa grande. Vai muita gente de São Luís, tanto conterrâneo como pessoas do entorno, de outros povoados, Ajerutiua. A atividade de sustento das famílias era a pesca, somente pesca. Como é uma ilha, não permitia você ter plantios, a força mesmo era a pesca. Na minha família são cinco irmãos, quatro homens e uma mulher.

Não tinha muita musicalidade envolvida? Não tinha. Lá só tinha um serviço de alto-falante. Não lembro se nesse serviço de alto-falante tocava choro, por exemplo. No rádio, meu pai comprou um rádio, a gente ouvia principalmente a rádio Educadora e a Difusora, que tinham uma potência maior na transmissão, aqueles programas que rodavam música popular brasileira. Quando eu vim embora para São Luís, lá onde eu morava tinha Seu João, acho que ele já até morreu, esse senhor, e nos finais de semana ele botava os discos dele de choro, Jacob [do Bandolim], Carlos Poyares.

Aquilo já te chamava a atenção? Que idade você tinha? Já. De 13 pra 14 anos. Me chamava a atenção, pô, que música é essa?

Com 13 anos de idade o que te trouxe à São Luís? A vontade de querer estudar.

Você veio sozinho, então? Vim sozinho, morar com uma tia. Fui estudante de colégio público, Universidade. Sou bacharel e licenciado em Geografia.

Você chegou a exercer a profissão? Não. Eu fui trabalhar nos Correios e eu não fui para o lado de professor.

A partir de quando e de que estímulo você passou a se envolver com música? A partir da minha adolescência, quando eu fui morar na Vila Bessa e eu conheci esse amigo. Antes, já tinha um grupo de pessoas no Caminho da Boiada, apesar de eu não morar lá, mas conheci as pessoas, no carnaval nós saíamos nos blocos de rua. Depois, no Caminho da Boiada, existia um bloco chamado Turma do Lamê, um dos primeiros blocos organizados, eu participei desse bloco, durante vários anos. Era aquela coisa do samba enredo, nós fazíamos aquela coisa do samba. A música, o que me despertou maior interesse, foi exatamente o samba. Daí, consequentemente, veio o choro, junto.

Você sempre foi percussionista? Que instrumentos você toca? Sempre fui percussionista. Toco pandeiro, na verdade, meu primeiro instrumento percussivo profissional foi um instrumento chamado timba. É um atabaque atravessado na horizontal tocado com uma vassourinha de aço, a mão direita na vassourinha, a mão esquerda no couro. Esse instrumento, eu tive contato com ele quando Roberto Rafa [cantor e compositor], que morava também lá na Vila Bessa, essa coisa de ele me conhecer tocando lá na Base do Edilson, com Joacilo, a gente fez amizade, ele sempre participava de festivais de música popular maranhense, e ele me chamava, às vezes, para fazer um zabumba, e eu ia com ele. Depois ele começou a tocar na noite, num barzinho chamado Duas Nações. Do lado da Prefeitura [o prédio sede da Prefeitura Municipal de São Luís, na Praça Pedro II, Centro] tem um local agora que é uma coisa de tambor de crioula [o Centro Cultural Mestre Amaral], era a Base da Lenoca, e antes era o Bar Duas Nações. Lá tinha uma música ao vivo e Roberto Rafa foi pra lá. Como ele precisava de uma percussão, ele me chamou.

Isso era mais ou menos quando? Década de 1980. Ele viu uma pessoa chamada Biriba, que tocava essa percussão, dessa forma. Biriba viu alguém no [Hotel] Quatro Rodas tocando isso [timba], um cidadão chamado Paulo Tripa, era paulista, veio com o irmão, Joran Coelho, tocar no Quatro Rodas. Lá em São Paulo essa coisa era muito difundida, essa timba. Ele aprendeu, aí, “Carbrasa, Biriba aprendeu a tocar uma percussão, tu não quer aprender com ele?”. Eu disse que precisava do instrumento, a vassourinha, para saber como era a levada. Biriba foi lá em casa, me passou a informação, em meia hora eu já estava tocando, modéstia à parte. Isso foi numa quinta, quando foi na sexta, a gente já foi para o bar, lá pro Duas Nações. Aí começamos a fazer MPB.

Você começou fazendo MPB com Roberto Rafa. E tua inserção nos grupos de choro, deu-se a partir de quando? Com essa coisa de tocar com Joacilo, fui conhecendo outras pessoas, aí já me apresentaram um pandeiro. Só que o pandeiro, na época, não existia pandeiro em São Luís. Existiam uns pandeiros com uma platinela diferente, não era pandeiro como é hoje. As platinelas eram diferentes do que são essas platinelas, hoje côncavas. Fui apresentado a uma pessoa, não lembro o nome, ele me passou a forma de como se toca o pandeiro hoje. A minha namorada, que hoje é minha esposa, foi para o Rio e de lá ela trouxe um pandeiro da Ao Bandolim de Ouro [famosa loja carioca de instrumentos musicais, reduto de chorões]. Mas antes, para eu tocar, eu comprei um pandeiro que tinha as platinelas diferentes, e tinha uma pessoa, Joquinha, do 310 [o Regional 310, famoso grupo de samba e pagode do circuito ludovicense], ele fazia, não sei de que forma, as platinelas côncavas, e a gente ouvia esse som que se ouve hoje. Também não me passou a forma de como ele fazia, a gente entregava o pandeiro para ele, ele arrumava, e ia. O pandeiro melhor que eu tive, eu ganhei de presente, da Ao Bandolim de Ouro. Aí já comecei a tocar pandeiro, aí chegou Paulo Trabulsi [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de dezembro de 2013], começando a tocar cavaquinho, eu já comecei a conhecer as pessoas, tipo Biné [do Cavaco], Zequinha [do Sax], os Irmãos Gomes [o trio se completa com o violonista Bastico, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], conheci Agnaldo [Sete Cordas, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013], conheci mestre Sampaio [violonista sete cordas], mestre Serra da Flauta [Serra de Almeida, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 3 de março de 2013], e outros que tocavam, que já morreram, que tocavam choro. Dos que estão vivos aí, mestre Pitoco, tocava sax, com esses todos eu toquei choro, participei de rodas. Grupos mesmo foi quando fui convidado para compor o Regional Tira-Teima.

Então você chegou a compor o Tira-Teima durante uma época? Sim. Lembro muito bem que era bandolim, Adelino Valente [bandolinista e pianista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 20 de julho de 2014], violão era mestre, o mestre dos mestres, que eu considero, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], Fernando Cafeteira [violonista], Vieira [Antonio Vieira, compositor e percussionista], na percussão, Hamilton Rayol [cantor], que fazia voz, o cavaquinho base era Paulo Trabulsi. Aí depois eu saí. Até hoje o Tira-Teima se mantém, com outra formação. Depois disso eu já conheci Jansen [o bandolinista César Jansen, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 21 de setembro de 2014] e outros mais novos do choro, Juca do Cavaco [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 13 de abril de 2014], a gente tinha um grupo, a gente sempre saía. Aqui na Rua do Ribeirão existia um barzinho, onde é a secretaria [pensativo, tenta lembrar], como é o nome dessa secretaria aqui? [os repórteres respondem: Fundação Municipal de Cultura]. Embaixo dessa secretaria tinha um bar chamado Cafofo, lá nós nos reuníamos, eu, Juca, Vadeco [percussionista], Natan, todas essas pessoas tocavam choro. Tocam choro! Nós com nossas namoradas, éramos um grupo grande, mais de 10 pessoas. Todo fim de semana ou estávamos no aniversário de alguém, ou no Cabeça Branca, um bar que tinha na Ponta d’Areia. Depois veio o grupo Alma Brasileira, que teve vida curta, muito curta mesmo, depois fui para o Regional Pixinguinha [o grupo Instrumental Pixinguinha]. Na época que a Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo] era na Rua Antonio Lobo, esse grupo ensaiou a Suíte Retratos [do maestro gaúcho Radamés Gnattali], era a peça principal, e outros choros, para compor o repertório do espetáculo, que apresentamos no teatro [Arthur Azevedo]. Acho que foi o show de choro, em São Luís, que eu participei, e o melhor que eu já vi, acabamento, arranjos, detalhes. Tanto é que ensaiamos quase oito meses.

Então você é um dos fundadores do Pixinguinha? Sim, fundador do Pixinguinha. Eu, Jansen, Biné, Paulinho [Santos, flautista], Solano [o violonista sete cordas Francisco Solano, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 26 de maio de 2013], Domingos [Santos, violonista sete cordas, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 16 de março de 2014] e Marcelo [Moreira, violonista]. Esse era o Regional Pixinguinha.

Quando você aprendeu a tocar já estava praticamente adulto. Ainda estava morando com teus pais? Eles não criaram nenhum problema nessa tua opção pelo batuque? É, eu tinha por volta de 17 anos. Não criaram, até me incentivaram.

Você conciliou os estudos? Estudos, trabalho. Eu já trabalhava na época, era carteiro. Fiz o concurso dos Correios com 18 anos, foi logo meu emprego.

Se você tivesse que definir quem foi o seu principal mestre, quem você apontaria? Percussão? [pensativo] Deixa eu pensar. Que me ensinou percussão, assim, eu não tive um professor específico. Eu ia pela coisa da intuição e do interesse de aprender, de ouvir, colocar o ouvido naquilo ali e depois fazer e executar. Logicamente que eu rendo graças a essa pessoa chamada de Biriba, que me ensinou e daí eu fui desenvolvendo. Com essa percussão eu toquei durante muito tempo, com [os cantores] Lula Bossa, com J. Nogueira. Nos bares da vida, na noite de São Luís, praticamente com todo mundo, com Betto Pereira [cantor, compositor e artista plástico], principalmente com ele. O primeiro local em que tocamos foi um bar chamado Cabeça de Peixe, na Camboa, começamos lá, eu e Betto, violão e timba. Depois fomos incorporando outras pessoas ao grupo, Zezé da Flauta [Zezé Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], Jeca de percussão e Mauro Travincas de contrabaixo. Eu lembro muito bem que a gente fez até uma bandinha chamada Amor de Canela. Nós ensaiávamos essa banda lá na casa de Betto, a gente passava o repertório para tocar no Cabeça de Peixe. Depois fomos tocar no Bar Ruínas, na avenida Beira Mar, subindo a Rua do Egito. Era Ruínas por que lá eram só pedras, sem reboco. Tocamos em outros locais. A noite de São Luís acontecia ali na [avenida] Castelo Branco. Eu, Betto Pereira e Zezé fomos tocar na inauguração de um bar, chegou um cidadão e ele simplesmente pegou o extintor de incêndio, bêbado, abriu, aquele pó químico e sujou todo mundo. Era o bar Trem das Onze. Depois esse barzinho acabou, mas não em função deste episódio, mas aconteceu isso [Carbrasa batuca o pandeiro posando para fotos].

Você já viveu de música? Ou a música sempre foi uma atividade complementar? A música para mim sempre foi uma atividade complementar, nunca sobrevivi de música. Já recebi cachês, que complementam a minha renda familiar. Eu continuo tocando, não com a mesma intensidade que era na época. Hoje eu participo de um grupo de choro chamado Três no Choro, eu, João Eudes e Neto, a gente toca todo sábado na Caves du Vin. São três Joões. Como Neto viajou, acho que foi defender a dissertação dele lá em Minas, aí nesse mês agora, quem vai tocar lá é Robertinho Chinês [bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 28 de abril de 2013].

Além de grupos como o Tira-Teima, Instrumental Pixinguinha, Alma Brasileira e Três no Choro você também já participou de grupos de samba. Quais foram? De grupo profissional eu participei do Arco Samba. Por que Arco Samba? Arco era nossa associação dos Correios, uma associação recreativa. A associação na época comprou os instrumentos pra gente, éramos eu, Jansen, Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013], Josebel, que saiu dos Correios, Bento, que era funcionário dos Correios, mas morreu, Djalma, que tocava ganzá. Foi feito pra gente fazer uma coisa informal na associação, a gente se reunia para tomar cerveja, as pessoas foram conhecendo e chamando a gente para tocar, nas casas de São Luís. E teve também o Espinha de Bacalhau, eu, Vadeco, Chico Chinês [percussionista], Benivaldo [percussionista], o violão sempre quem tocava era Costa Neto, era considerado no violão. Às vezes ele não ia, chamavam João Eudes, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] Se bem que Luiz Jr. quando foi, eu já tinha saído. Dos novos eu já tive contatos, amizades com todo mundo, Robertinho, Wendell [Cosme, bandolinista e cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 24 de novembro de 2013], mais recentemente Rafael Guterres [cavaquinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 18 de maio de 2014], ele organiza grupos para tocar em eventos, me chama para tocar.

Hoje você está só no Três no Choro? O Espinha de Bacalhau acabou? É. Do Espinha de Bacalhau eu saí. Atualmente eu só integro o Três no Choro.

Além de percussionista você desenvolve outras habilidades na música? Não. Só toco percussão. Qualquer dos instrumentos populares brasileiros, os instrumentos de samba todos.

Você já participou de gravações de discos? Lembra alguns? Já. [pensativo]. Não sei se esse disco já está pronto, mas do grupo Café com Leite e Pão, um grupo de samba que é Neto, Quirino [percussionista]. Gravei no primeiro disco de Rosa Reis, com o Pixinguinha, ela gravou Estrela, de Joãozinho Ribeiro, o grupo participou. Disco de carnaval, eu fiz um ano toda a parte de percussão.

E shows? Que artistas você acompanhou além de Roberto Rafa? Betto, Lula Bossa, passei seis anos tocando com ele. Desses que hoje são famosos praticamente todos. Com Lula Bossa foi aí que me apurou mais o ouvido para a questão da bossa nova. Nós fomos também colegas de colégio. De figuras nacionais participei de shows de Dona Ivone Lara e Diogo Nogueira. Fiz participação tocando também com J. Nogueira, hoje ele mora em Londrina, grande voz. Eu participei também de um grupo que não tinha nome, era eu, Paulo Trabulsi, Serra e Sadi [Ericeira, violonista], irmão de Paulo.

Para você o que significa o choro, qual a importância dessa música para você? Em termos de música brasileira, instrumental, é a principal música para mim. É a música que eu mais gosto de tocar. Ela exige muito.

Você se considera um chorão? Eu me considero. Pela experiência que eu tenho, pelo tempo vivido tocando choro, a coisa formal, a informalidade, as rodas de choro. Só por isso aí eu já me considero um chorão.

Folia divina no Teatro

Divulgação
Divulgação

 

Com roteiro musical baseado nos diversos momentos da festa do Divino Espírito Santo, que tradicionalmente acontece em diversas cidades maranhenses, o show Divinas Folioas será apresentado na próxima sexta-feira (22), às 21h, no Teatro Arthur Azevedo.

As folioas – o dicionário registra o termo “folionas” – que comandarão o espetáculo são Jacy Gomes, Luzia Assunção, Maria Rosa, Rosa Barbosa e Roxa. As direções geral e artística são assinadas por Rosa Reis, que ao lado de Tayse, fará participação especial.

O quinteto de caixeiras será acompanhado por Hugo (violão), Zezé Alves (flauta e direção musical) e Danilo Santos (clarinete). A produção é do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão, o Laborarte, de acordo com o material de divulgação recebido por este blogue.

O repertório contempla a abertura da tribuna, buscamento, batizado e levantamento do mastro, dança das caixeiras, alvorada, alvoradinha, Santana, salvas do Divino e outros cânticos tradicionais e o carimbo das caixeiras. Da ficha técnica constam ainda os nomes de Márcio Vasconcelos (fotos e arte), Maurício Vasconcelos (fotos e arte), Tamara Marques (figurino e maquiagem), Cláudio Vasconcelos (cenário) e Oscar Castro (iluminação).

Os ingressos podem ser adquiridos antecipadamente na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro) ou na bilheteria do teatro, no dia do espetáculo. Custam R$ 30,00 (preço único).

Diretora de Divinas Folioas, a cantora Rosa Reis, respondeu as seguintes perguntas ao blogue.

Desde sua fundação o Laborarte tem tido um papel importante na pesquisa e difusão de manifestações da cultura popular do Maranhão, fazendo jus a seu nome. Divinas Folioas se insere nesta trajetória. Qual o espaço destas manifestações, hoje, em tempos de apelo a uma música de mais fácil consumo pelo mercado, em geral desvinculada de quaisquer tradições? Sim, o Laborarte tem oferecido à população oficinas de toques e cânticos de caixas, contribuindo com a formação de novas caixeiras, e com o conhecimento dos vários momentos da festa do Divino, desde a abertura da tribuna, quando o Espirito Santo desce, até o momento de fechamento e logo a seguir o carimbó das caixeiras. O espaço ainda é a população dos terreiros, dos barracões, dos pesquisadores e estudiosos, do povo que tem fé na terceira pessoa da santíssima trindade. A música ainda está no contexto da religiosidade, mas pode ser trabalhada em vários aspectos. Eu mesmo, no meu trabalho, já gravei músicas do divino com arranjos de guitarra e outros instrumentos.

Qual a importância de um espetáculo como este, no sentido de colaborar para a divulgação e perpetuação das tradições em torno da festa do Divino Espírito Santo? Queremos dar visibilidade ao trabalho das caixeiras com um espetáculo onde o público possa apreciar a individualidade de cada uma, o canto com seus timbres e melodias, os sons percussivos dos tambores, no caso as caixas, com suas variações nos toques e andamentos, e ao mesmo tempo passar informação e conhecimentos sobre o ritual da festa, em que momentos se faz essa cantiga ou aquele toque; e dessa forma contribuir para a divulgação deste rico espetáculo.

Em agosto passado, as caixeiras dialogaram respeitosamente com o jazz da cubana Yillian Canizares, durante seu show em São Luís, na programação do Lençóis Jazz & Blues Festival. O que significou para você ter presenciado e participado daquele momento sublime? Foi uma forma de mostrar a população que a música do Divino é universal, que pode ser tocada com outros instrumentos sem perder a sua essência, a sua sonoridade. Foi um momento mágico e de muita sabedoria da cubana em ter convidado o grupo. Sem preconceitos.

Festa para Pixixita reúne tribo da música

Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito
Em edição anterior da Tribo do Pixixita, a cantora Flávia Bittencourt, acompanhada pelo Instrumental Pixinguinha, com Chico Nô ao pandeiro. Foto: Taciano Brito

 

Não conheci José Carlos Martins (1/4/1952-12/4/2002), o Pixixita, pessoalmente. Sua fama, no entanto, está impregnada de tal modo na cidade que é impossível não se sentir, de algum modo, próximo dele.

Alguns músicos citaram-no como professor, amigo ou influência, ao longo da série Chorografia do Maranhão. A um deles, Ricarte Almeida Santos, um dos parceiros da empreitada, respondeu: “eu não tive a honra de conhecê-lo, mas conheci Nelsinho, um cara bacana, gente fina”.

É por aí.

Nelsinho é filho de Pixixita. Também é, já, uma espécie de lenda urbana, professor de capoeira, o sorriso sempre a iluminar a ensolarada São Luís, que vez em quando a gente encontra flanando por aí, por aqui, por ali.

Pixixita era professor da Escola de Música. Feições indígenas, entre a inocência de um curumim e a sabedoria de um pajé. Mais que a música, sua grande paixão, o professor foi um cultivador de amizades.

Maranhense de Imperatriz, o cantor e compositor Chico Nô é um dos que não escondem a amizade, admiração, carinho, respeito e saudades de Pixixita, falecido em 2002, em um acidente automobilístico.

Em 2004, no evento semanal A vida é uma festa, Chico Nô homenageou o mestre amigo. Da tertúlia capitaneada pelo poetamúsico ZéMaria Medeiros, a Tribo do Pixixita – como passou a ser chamada a homenagem – ganhou vida própria e não existe abril sem ela, no calendário cultural da cidade que Pixixita tanto amou.

Produzida por Luiza Maria, Chico Nô e Nelsinho, a Tribo do Pixixita chega em 2015 à sua 12ª. edição, agregando uma constelação de craques da música produzida por estas plagas (sem contar os que aparecem sem ser anunciados), mais “pixixitesco” impossível: Angela Gullar, Beto Ehongue, Chico Nô, Chico Saldanha, Criolina, Erivaldo e Didã, Flávia Bittencourt, Gerude, Instrumental Pixinguinha, Josias Sobrinho, Marcos Magah, Ronald Pinheiro, Rosa Reis e Sérgio Habibe.

A festa acontece no Malagueta (Renascença II), neste sábado (11), às 20h30. Os ingressos custam R$ 20,00, à venda no local.

Divino jazz

Sublime encontro: Yilian Canizares com Rosa Reis e as caixeiras na derradeira noite do Lençóis Jazz e Blues Festival. Foto: Taciano Brito
Sublime encontro: Yilian Canizares com Rosa Reis e as caixeiras do Divino na derradeira noite do Lençóis Jazz e Blues Festival. Foto: Taciano Brito

 

Só soube da existência da cubana Yillian Canizares através do amigo Ruan Didier. Mais ainda: que ela estaria na sexta edição do Lençóis Jazz e Blues Festival, sábado passado (9), na noite de encerramento do mesmo.

Catei uns vídeos no youtube e me mandei para a Maria Aragão, palco ludovicense do festival que aconteceu também em Barreirinhas, fazendo jus ao nome, uma semana antes.

Cheguei à praça ainda a tempo de ver mais da metade do show de Joyce Moreno. À tarde, por do sol, Ponta do Bonfim, noite, tinha ido verouvir Alberto Trabulsi (acompanhado por Reuber Rocha, guitarra, e Guilherme Raposo, teclado, num set de MPB, fechando com uma bela autoral, cujo título não memorizei), Bruno Batista (ao violão, acompanhado por Luiz Jr. se revezando entre violão sete cordas, guitarra e banjo, esbanjando inéditas, mostrando que compõe cada vez melhor, além de uma especialíssima participação de Claudio Lima) e Danilo Caymmi (que cantou e tocou flauta, acompanhado de André Siqueira ao violão, passeando por repertório autoral, do pai e de Tom Jobim, que descobriu-o cantor, sobre o que você lerá mais numa entrevista que publico em breve).

Fechados os parênteses, devo dizer: Joyce e Yilian Canizares foram os únicos shows que vi do 6º. Lençóis Jazz e Blues Festival. A brasileira é conhecida de longa data, tem presença razoável em minha coleção de discos e, há muito, ansiedade de minha parte por ver um show seu. A violinista e cantora cubana surpreende.

Quando vi seu pianista deixar o palco, imaginei que ela fosse atacar de Eche mis quejas al mar, em que canta e toca violino, acompanhada do baixista e do percussionista ao cajon. Acertei em cheio. Além do diálogo musical com este instrumento que se sobressai nessa música, ela dança. É de tirar o fôlego!

Mas o momento sublime mesmo, da noite, e eu apostaria do festival, se tivesse assistido a outros shows, foi quando Canizares dialogou com caixeiras do Divino, num encontro só comparável, talvez, ao de Maria Bethânia e Omara Portundo em disco e show.

Ela conversou com a plateia, arriscando-se ao português para o básico, “boa noite”, “obrigado”. O resto, perguntou se entendíamos espanhol e se arriscou, elogiou a beleza da cidade, agradeceu a presença do público, fora o que não consegui captar/memorizar. Alguém já disse que a música é a única linguagem universal.

De imediato me peguei perguntando: como será que se armou este encontro? Que mãos dos deuses da música teriam dado uma pitada destes temperos cubanos e brasileiros para este momento único, para o qual faltam adjetivos? Só a magia explica, se é que carece explicação.

Na hora, pensei que se escrevesse algo sobre o festival, a noite, ou os shows a que assisti, teria o título de “Divino jazz”.

Aí está.

Show Elas cantam Vieira celebrará 94 anos que compositor faria 9 de maio

Falecido em 7 de abril de 2009, obra de Antonio Vieira será lembrada na data em que compositor completaria 94 anos

O compositor em ação no também saudoso Clube do Choro Recebe. Foto: Pedro Araújo

No próximo 9 de maio, o compositor Antonio Vieira completaria 94 anos. “Se vivo fosse não cabe dizer, pois ele está vivo entre nós, através de sua lembrança e principalmente de sua obra”, afirma o percussionista Arlindo Carvalho, músico que privou da amizade do “velho moleque”, um dos organizadores do tributo que celebrará a data em São Luís.

Elas cantam Vieira: conosco não tem mosquito! é o nome do show que será apresentado sexta-feira, 9, às 20h, em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima (Av. Beira Mar, Centro). Subirão ao palco Alexandra Nicolas, Anna Cláudia, Camila Reis, Cecília Leite, Célia Maria, Lena Machado, Rosa Reis e Tássia Campos para festejar a obra do autor de clássicos do quilate de Cocada, Banho cheiroso e Tem quem queira, entre mais de 300 outras.

A banda que as acompanhará é formada pelos músicos Arlindo Carvalho (percussão), Caio Carvalho (percussão), Celson Mendes (violão), Danilo Miranda (sax alto e clarinete), Fleming (bateria), Mauro Travincas (contrabaixo), Osmar do Trombone e Paulo Trabulsi (cavaquinho). O espetáculo contará ainda com as participações especiais de Adelino Valente (piano) e Zezé Alves (flauta)

Com apoio da Fundação Municipal de Cultura (Func) e Museu da Memória Audiovisual do Maranhão/ Fundação Nagib Haickel (Mavam), o espetáculo é gratuito, mas recomenda-se a quem for, doar um quilo de alimento não perecível: a arrecadação será destinada a uma instituição de caridade da capital maranhense.

“Celebrar o legado de Vieira é também celebrar suas convicções, ele cuja obra e posturas traduziam diversas preocupações sociais”, finalizou Arlindo Carvalho.

[Este post sofreu correções às 9h15min de 6/5/2014]

Saudade de Pixixita (Ou: Um abraço em Nelsinho)

Contrariando o compositor baiano, Pixixita subiu há algum tempo para uma estrela colorida, brilhante. De lá, certamente continua cumprindo a missão que tinha cá na terra: legar às pessoas o amor pela música.

O saudoso José Carlos Martins, dono do apelido, com sua cara e jeito “de índio”, deixou uma legião de fãs e amigos. Seguidores, nestes tempos de redes sociais.

O homem é uma lenda. Quase todo mundo que tem algo a ver com música em São Luís conta alguma história envolvendo Pixixita. Ou foi seu aluno. Ou tomou uma com ele. Ou tirou um retrato, bonito como o preto e branco em que ele aparece com o também já saudoso Nelson Brito.

Durante muito tempo, aliás, pensei que meu amigo Nelsinho, muito provavelmente pelo sobrenome, fosse filho de Nelson Brito. Entre tantos afazeres, este herdeiro do espírito agregador de Pixixita tem por missão manter vivo o legado do pai: sua memória, o amor pela música, simpatia e o “um milhão de amigos pra bem mais forte poder cantar”, para citarmos outro compositor. Graças a estes, a missão de Nelsinho torna-se até fácil.

Seu pai não cheguei a conhecer, mas admiro-o já há algum tempo. Com o filho, este simpático professor de capoeira, já tomei umas tantas cervejas nesta vida e tanto mais pretendo fazê-lo.

Como sábado agora, quando os companheiros de tribo do saudoso pajé reúnem-se para mais uma festa ao redor das fogueiras acesas nos corações em nome do amor à música e à vida.

Liberdade abriu suas asas para ouvir o canto de seus filhos

[Sobre Filhos da Liberdade, ato-show apresentado ontem (31/3) em memória dos 50 anos do golpe militar]

Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func
Foto: Lauro Vasconcelos/ Ascom/ Func

Não lembro quem disse certa vez que caso o Rio de Janeiro fosse completamente destruído por uma tragédia, seria possível reconstruí-lo a partir da audição da obra de Noel Rosa.

A afirmação ilustra a riqueza de nossa música, sempre tão pródiga em registrar nossa história, nossos grandes compositores verdadeiros cronistas do cotidiano.

Com a ditadura militar não poderia ter sido diferente. E além de tudo o que nos vem à cabeça quando ouvimos a expressão, sempre cabem também algumas canções.

O show Filhos da Liberdade, realizado ontem (31/3) em frente ao Memorial Maria Aragão, na praça homônima, com Cesar Teixeira, Flávia Bittencourt, Josias Sobrinho, Lena Machado e Rosa Reis, trouxe ao público presente um bom punhado de canções de protesto.

Uma luxuosa banda acompanhou-lhes: Fleming Bastos (bateria), Leandro (percussão), Jayr Torres (violão), Carlos Raqueth (contrabaixo) e Rui Mário (teclado e sanfona).

O espetáculo foi precedido do cerimonial de Ricarte Almeida Santos (sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão) e de depoimentos de Francisco Gonçalves (presidente da Fundação Municipal de Cultura), Dom Xavier Gilles (bispo emérito de Viana), Bira do Pindaré (deputado estadual), Eurico Fernandes (ex-secretário de Estado de Direitos Humanos do Maranhão) e deste que vos fala (presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos), além de imagens do acervo de Murilo Santos, retratando o período e figuras emblemáticas de resistência à ditadura militar brasileira, como Manoel da Conceição e Maria Aragão.

O repertório na íntegra e na ordem em que foi apresentado: Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros), interpretada pelo quinteto; Engenho de Flores e Três potes, ambas de Josias Sobrinho, interpretadas pelo próprio; Viola enluarada (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) e Flor do mal (Cesar Teixeira), por Flávia Bittencourt; Milhões de uns (Joãozinho Ribeiro) e A voz do povo (João do Vale e Luiz Vieira), por Lena Machado, com participação especial de Luiz Jr. (violão sete cordas); Carcará (João do Vale e José Cândido) e Gaiola (Joãozinho Ribeiro e Escrete), por Rosa Reis; Oração latina (Cesar Teixeira), cantada por todos, inclusive pelo público, de pé e marcando nas palmas; Samba pra Dedê, composta em homenagem a Maria Aragão, de Cesar Teixeira, por ele mesmo. O apoteótico final tornou a juntar a todos e todas no palco para uma sequência triunfal: Apesar de você (Chico Buarque), Vai passar (Chico Buarque e Francis Hime) e Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré).

Frase repetida por quase todos os depoentes, mestre de cerimônias e artistas, que acabou por virar slogan da noite, traduzindo a necessidade do compromisso coletivo pelo aprimoramento e fortalecimento da democracia – retroceder jamais: a luta continua!

Chorografia do Maranhão: Arlindo Carvalho

[O Imparcial, 18 de agosto de 2013]

“Eu nasci pra tocar tambor”. A frase é do engenheiro, professor de artes e percussionista – não necessariamente nessa ordem – Arlindo Carvalho, 13º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão. Ela resume bem o espírito de quem encara a música como um ofício, um prazer.

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Filho dos piauienses Caio José de Carvalho e Margarida Pinho de Carvalho, ele de Teresina, ela de Parnaíba, Arlindo José Pinho de Carvalho é o caçula de uma família de cinco irmãos: Michol, Alba, Célia, Caio e ele.

A mais velha, a folclorista Maria Michol, falecida em novembro passado, grande incentivadora do irmão, presenteou-lhe com a primeira bateria, comprada a prestações no Armazém Paraíba.

Arlindo nasceu em 2 de agosto de 1954, na Maternidade Benedito Leite, e desde então mora na mesma casa, na Rua dos Afogados, em frente à Padaria Santa Maria, no Centro da capital maranhense, onde ele recebeu a chororreportagem.

Durante a conversa, o percussionista que já tocou “com todo mundo aqui” lembrou a grande amizade com o compositor Antonio Vieira e revelou a vontade de escrever a biografia do pai, um guarda livros que fundou em São Luís o Centro Caixeiral, a Santa Casa de Misericórdia e a Liga Maranhense de Combate à Tuberculose.

Com o Regional Tira-Teima ele tira onda: “eu sou do original, não do genérico”, afirma sorrindo, para depois revelar a admiração, carinho e respeito que tem por todos. Formado em engenharia e artes, Arlindo nunca estudou música formalmente, mas é certamente um dos instrumentistas que mais aparece em créditos de discos e shows no Maranhão.

Você chegou a atuar na área de engenharia? Eu atuo na área de engenharia. Sou engenheiro do estado. Fui da Cohab, meu primeiro emprego, Companhia de Habitação Popular. Quando a Cohab mudou de nome, depois foi extinta, foi criada outra empresa, e todos nós que somos CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] fomos para lá. De lá eu fui pra onde quis: Secretaria de Trabalho e Urbanismo, Ceprama, até chegar na Secretaria de Cultura, Dona Zelinda [Lima, folclorista] me levou pra lá. Depois fui ser diretor do Teatro Alcione Nazaré, quando ainda era TPG, Praia Grande.

Tua família hoje, Michol, você, Alba, vocês são referências na área de cultura. De onde vem essa relação? Eu sempre vi isso e Michol sempre falou isso: papai era uma pessoa que gostava muito de bumba meu boi. Ele trazia muito bumba meu boi, muito tambor de crioula, ele levava Michol. Michol sempre acompanhou papai. Eu muitas vezes não fui, quando papai morreu eu tinha seis anos. As referências minhas são muito poucas, ela já tinha 10 anos, a memória afetiva de Michol é muito maior do que a minha, eu não lembrava muito.

Michol é quem cumpriu um papel central nessa história? Exato! Michol é quem foi a pessoa central. Eu quando comecei a tocar, Michol é que me deu a primeira bateria. Sempre apoiou. Michol, sim, era a pessoa que estava na linha de frente. Fez Serviço Social, depois fez Mestrado em Cultura Popular. Aí ela desenvolveu um trabalho de cultura popular, embora antes ela tenha trabalhado na Universidade, foi diretora do DAC [Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão]. Quando veio do Mestrado no Rio, ela começou no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e fez as casas de cultura todas.

Além da engenharia, você dá aulas. Depois de engenharia, formei em 1980, logo depois, trabalhando com a professora Nerine [Lobão], na Secretaria de Educação, como diretor da parte de engenharia, me deu vontade de fazer outra coisa. Aí eu fiz artes, educação artística na Universidade, me formei na especialidade de teatro. Fiz concurso para o estado e estou hoje no Liceu [Maranhense], dando aula de Artes. Da engenharia estou mais esperando me aposentar.

Então sempre houve outra profissão pra te sustentar, a música sempre foi uma diversão? Não era uma diversão. Mamãe sempre dizia “você quer ser o que quiser, eu apoio; agora peço pra você estudar uma profissão, ter uma profissão”. Por que isso dá uma base muito grande, você não fica tão refém da fragilidade da arte da música. Eu sempre toquei. Eu me formei, antes de me formar era músico, tocava com [os compositores] Chico Maranhão, Sérgio Habibe, toquei com o Coral [São João], com quem estou até hoje.

Qual era o universo musical da tua casa? Uma música que tem na minha memória, que eu nunca esqueci, é Cigarro de Paia [de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas], de Luiz Gonzaga, que não é dele, mas que ele canta. Essa música eu ouvia. A gente tinha uma coisa de ouvir rádio, o rádio era o grande lance. A gente ouvia o rádio dia de domingo, e eu me lembro de Cigarro de Paia, mas fora disso nenhuma relação de música. Fora o rádio aos domingos, nada.

Ele não era de comprar discos? Que eu me lembre não. Embora eu tenha uma coleção inteira de discos de [cera de] carnaúba. Tá tudo ali. Deve ser dele, eu não lembro, ele morreu eu era muito pequeno. Mas Caio, meu irmão, que tem uma memória de elefante, se lembra. Mas eu fiquei com a coleção de discos dele, de carnaúba. O primeiro disco de Jackson do Pandeiro tá bem ali guardado.

Quando você começou a se interessar por aprender música? Mamãe ganhou de presente no casamento dela uma bandeja de prata que eu quebrei de tanto tocar. Eu fazia como se fosse uma bateria, intuitivamente, sem ter uma noção do que era uma bateria. Mas eu fazia a mão esquerda de um jeito, a mão esquerda do outro, batia nos copos com os lápis que Michol me dava. Eu tinha minha bateria, mas não sabia que aquilo era música e que eu um dia fosse ser músico. Mas era uma coisa muito forte, embora eu nunca tenha visto ninguém tocar. Eu sempre aprendi minhas coisas sozinho.

Você não teve nenhum estudo formal de música? Nenhum! O estudo formal vem ser agora, com meu professor [Chico] Pinheiro que está me ensinando a escrita da percussão. Entrei na Escola de Música por dois anos, depois larguei, por que a professora Olga Mohana [ex-diretora da EMEM, famosa por determinar que instrumento o aluno tocaria] queria que eu tocasse piano e eu queria tocar era percussão.

O percussionista demonstra o “um, dois, três, quatro” que aprendeu com Mascote para a chororreportagem

Mesmo você não tendo o estudo formal de música, teve pessoas que foram referenciais pra ti. Dá pra citar algumas? [O compositor Antonio] Vieira foi uma pessoa que me ensinou a tocar afoxé e reco-reco. E ele me levou para aprender pandeiro com Mascote [o percussionista e violonista Antonio Sales Sodré]. Vieira disse “olha, Mascote, Arlindo é amigo meu e quer aprender a tocar pandeiro”. Mascote perguntou “meu filho, tu tem um pandeiro? É um, dois, três, quatro” [pega um de seus nove pandeiros e demonstra, acelerando rapidamente a batida]. Aí eu vim pra casa, botava o disco na radiola e acompanhava. Errava, acertava, e assim eu fui. Aprendi ouvindo, tentando imitar o disco.

Então você aprendeu instrumentos soltos? Instrumentos soltos. Eu, no meu tempo de Universidade, tinha um grupo chamado Terra e Chão. E a Universidade comprou alguns instrumentos: uma conga, um bongô, um surdo. Eu nunca tinha visto aquilo, mas intuitivo eu fui batendo as congas, o bongô. Tanto que, por exemplo, eu aprendi a tocar bongô pelo som do disco. Depois é que eu fui ver o pessoal tocando bongô, a técnica do bongô. O som que eu tirava, que eu tiro, é igual, mas o movimento não.  Tudo aquilo é intuitivo, eu aprendi intuitivamente.

Quando foi que começou tua convivência com Mestre Vieira? Vieira foi aluno de meu pai no Centro Caixeiral. Não sei quem me convidou, me parece que Adelino [Valente, pianista], morava aqui no [edifício] Caiçara. “Vai no Caiçara, tem um grupo de chorinho”. Aí eu encontrei Vieira, bate papo, já tinha uma atração mútua, Vieira e eu, depois que ele soube que papai foi professor dele, aí foi que ele gostou de mim mesmo. Aí sim, ele começou a pegar o afoxé, o reco reco, “meu filho é assim”. E eu deslanchei. Eu comecei a tocar bateria no [Colégio] Marista, o professor Celso Raposo, até hoje eu digo o nome dele, foi a pessoa que me desemburrou. Tá-tum-tum-tá, tá-tum-tum-tá [imita o som da bateria com a boca]. Bateria você erra, erra, é igual pandeiro, é igual andar de bicicleta: um dia você acerta e não erra mais.

Quem fazia parte do Terra e Chão? Eu, Wellington Reis, Joaquim, um garoto chamado Magno, depois passou o irmão dele, Frias. Aí tem Eliezer, que era flautista, Celso Raposo, nesse tempo não era mais baterista, era tocador de viola.

Isso era que ano? Foi antes do Tira-Teima? O Terra e Chão foi antes, 74, acho. O Tira-Teima é outra história.

E o repertório? Era autoral, a maioria [das músicas] de Wellington. Tinha um lance de um jazz nordestino, Luiz Gonzaga, aqueles grupos de pau e corda, Jackson do Pandeiro, minha referência.

Teus pais e irmãos te impediram de alguma coisa, em algum momento? Não. Pelo contrário. Mamãe sempre me deu muito apoio. Quando eu viajava, que acabava o dinheiro, ela mandava as passagens para eu vir. Sempre me deu muita força, sempre pedia pra eu estudar, pra eu não ficar refém de uma coisa que podia dar certo ou não. Michol me deu congas, bateria, ela tirava à prestação no Armazém Paraíba. Foram grandes incentivadores da minha carreira.

Em que mais Michol te inspira? Leitura. Ela me inspirou a ler, a perceber que você tem que ter uma bagagem literária muito grande, até para você pensar a música. Se você não tem sentimento, a gente não pensa à toa, tem que ter bagagem. Ela me inspirou nesse sentido.

Ser irmão de Michol, extremamente mergulhada no estudo da cultura popular, você um artista do ritmo. Há uma influência muito estreita aí, não é? Eu acredito que sim. Não vejo outra explicação. Até essa coisa intuitiva. Quando eu chegava em casa, que eu era mais garotinho, a primeira vez que eu peguei as congas e transmiti para as congas o tambor de crioula.

Você já viveu de música? Quando eu era estudante, no tempo do Terra e Chão, tinha uma bolsa, que eu dividia com Wellington, era muito boa. Agora viver, de no fim do mês esperar ter algum dinheiro…

De sustentar a casa, a família? Não, não. Eu sempre vivi música, engenharia, trabalhos de arte, que eu desenhava muito bem, pintava, essas coisas. Nunca vivi especificamente de música. Gostaria de ter vivido essa experiência.

De algum modo isso te frustra? Se a gente pensar numa perspectiva de carreira do Arlindo Carvalho percussionista. De jeito nenhum! Eu, por exemplo, quando fui tocar com Chico Maranhão, [a cantora] Diana Pequeno que era o grande nome daquele tempo, ela gostou tanto da gente, que ela foi 16 vezes ao show. Chamou a gente e convidou eu, Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013] e Ubiratan [Sousa, compositor e instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013]. Ubiratan ficou ainda com ela, Zezé veio embora. Eu lhe pedi perdão, “Diana, você me perdoe”, faltava um semestre pra eu terminar engenharia. Eu não ia abandonar tudo por um sonho. Mas não me arrependo. Eu construí uma carreira aqui, e falei uma vez num seminário desses de música, que sucesso é isso: é você na sua terra desenvolver um projeto. Até hoje eu sou uma pessoa respeitada, tenho o meu lugar garantido dentro da história da música popular maranhense.

Você chegou a tocar com Diana Pequeno? Não. Eu toquei aqui uma vez com Sérgio Ricardo [compositor, autor de trilhas do Cinema Novo, parceiro de Glauber Rocha]. A gente fazia a abertura do show dele aqui no Teatro Arthur Azevedo. Quando acabou o show, eu estava guardando meus instrumentos quando chegou um recado para eu ir falar com ele. “Olha, gostei imensamente de você. Eu quero que você toque comigo pelo menos quatro músicas”, aí eu toquei. Toquei com aquele [grupo] Água de Chile, que gravou com Milton Nascimento. Mas pra mim o mais importante é tocar com o pessoal daqui.

Entre nacionais e locais, sabemos que a lista é grande. Ah, toquei com tudo mundo aqui [gargalhadas dos chororrepórteres]. Não tem nenhum. Faltava Papete, outro dia eu toquei com ele. Antigos, novos, novíssimos e geração nova que é Caio [Carvalho, percussionista, filho de Arlindo], que já toquei com ele, muito.

Além do Terra e Chão de que outros grupos você participou? Terra e Chão, o Tira-Teima original. Eu sou do Tira-Teima original, o genérico não [risos]. Do genérico, Paulo [Trabulsi, cavaquinhista] era. É o único remanescente. Todos eles são excelentes. Eu vou ver o Tira-Teima lá naquele hotel, eu adoro ver Paulo tocar.

Urubu Malandro. Urubu Malandro eu fiz com Vieira. Eu fundei também o Sururu no Galinheiro.

O Surra Curuba? O Surra Curuba foi Vieira quem deu esse nome. Vieira foi uma pessoa importantíssima na minha vida.

A última cena dele em palco foi lá no Clube do Choro Recebe. Foi. Quando eu deixei ele em casa, ele sempre dizia “até o outro se nós vivo for” [sic]. Deixei na casa, sempre esperava ele abrir o portão. O mesmo procedimento. Eu sempre passo agora, a hora que eu passo, eu grito “ê, seu Vieira!”, e vou muito na sepultura dele. Eu sempre digo “seu Vieira, reze por mim”. A pessoa mais digna que eu vivi na minha fase mais adulta. Na fase de criança a minha meta era meu pai. Mamãe sempre falava muito bem, estudei muito a vida dele depois, pretendo lançar um livro sobre a vida dele, o que ele fez aqui dentro [de São Luís].

Dá pra dizer que teu pai foi tua maior inspiração enquanto homem e seu Vieira enquanto músico? Isso. Por que Vieira era uma pessoa que não deixava a gente criar nenhum tipo de soberba. Ele sempre colocava a gente no patamar da humildade. A referência de homem é meu pai, de dignidade, honestidade, de ser uma pessoa batalhadora, respeitadora. Vieira é uma figura que eu vejo como músico. Me inspirei muito nele.

Além de instrumentista, você desenvolve alguma outra habilidade na música? Arranjador, compositor… Não. Se algum dia eu compus alguma coisa eu escondi muito bem [risos]. A gente tem que saber o que a gente faz bem. Eu faço bem tocar tambor. Violão eu comprei, toco, mas nunca serei um bom violonista. Agora, tocar tambor, eu nasci pra isso.

Você não tem disco solo, mas já tocou em inúmeros discos. Os de Rosa [Reis], quando ainda eram vinis. O primeiro cd de Sérgio [Habibe], os discos de Chico Maranhão, Lances de Agora [1978] e Fonte Nova [1980]. Eu gravei com muita gente boa. Outra referência agora é [a cantora] Alexandra Nicolas, gravei uma única faixa [São Luís do Maranhão] do disco dela [Festejos, 2013], que foi gravado no Rio. É um bumba meu boi meio estilizado.

Ela fez aquele disco dentro do universo do choro. Os grandes nomes do choro. Como é que foi pra ti estar ali no meio? Eu toquei muito com Alexandra, o último show que ela fez aqui. Eu fiz uma amizade muito grande com Luciana Rabello [cavaquinhista, esposa de Paulo César Pinheiro, compositor]. Aí Luciana me ligou junto com Alexandra e queria que eu participasse desse disco tocando essa música. Fui para o Rio e tive a honra de ser dirigido no estúdio por Paulo César Pinheiro. Lógico que tinham os músicos que assinavam a direção, mas tudo eles se reportavam a Paulinho. Nada que ele não quisesse sairia no disco.

Ele foi uma espécie de supervisor. Ele foi uma espécie de supervisor geral. Ele dizia “é isso que eu quero”. Eu entrei com uma ideia de uma gravação mais lenta, um boi de sotaque de Pindaré. Ele disse “eu quero mais rápido”, mudou algumas coisas, pra mim foi uma honra. A própria Luciana, [o violonista] Maurício Carrilho também.

Você acompanha os grandes nomes da percussão no Brasil? Eu tenho loucura por Naná [Vasconcelos, percussionista]. Eu nasci no mesmo dia dele. A grande loucura que eu vivi foi quando eu ouvi o disco de Santana, Carlos Santana, guitarrista. A base dele era percussiva.

Qual foi o disco? O primeiro dele, que tem uma joia na capa. Quando eu ouvi aquele disco, Celso Raposo botou lá no Marista, eu pirei. Eu não consegui entender o que era aquilo, mas era aquilo que eu queria. Eu tenho discos e discos de percussionista. Escuto, tenho discos de percussão de todo o mundo. Robertinho Silva, adoro ouvi-lo tocar. Tem um cara da bateria que eu digo que eu incorporo, eu adoro: Edson Machado. Dois caras: Jackson do Pandeiro é minha grande paixão. Esse ano eu quero ir ao memorial, na terra dele, Alagoa Grande [Paraíba].

Na tua opinião, o que é o choro? O que significa este gênero? Se a gente for ver é a primeira música genuinamente brasileira. Carioca. Mas não ficou só no Rio. Hoje em dia a nova geração está voltando a ouvir chorinho, embora as rádios não toquem. Quando eu comecei a ouvir chorinho, a gente não percebe, mas se torna apaixonado, vai comprar discos. Você pode nem saber o que é, mas se torna apaixonado por chorinho. É uma coisa de alma, chorinho tem isso.

Você se considera um chorão? Eu sou um profissional. Profissional é você se dedicar. Eu não sei se sou chorão por que eu gosto de tudo. Eu gosto daquelas músicas do tempo da colônia, lançaram agora quatro discos, as músicas no tempo de D. João VI, eu gosto de ouvir uma coisa africana anterior a choro, lundu, eu escuto tudo. Eu escuto um choro de Anacleto de Medeiros, eu choro. Se ser chorão é ter essa alma, se identificar, você chorar até ouvindo. Mas choro também no lundu, no blues, no jazz.

Você passeia com a mesma desenvoltura por ritmos brasileiros, pelos ritmos de nossa cultura popular, por jazz. Em que praia você se sente mais à vontade? Eu me sinto à vontade em todas. Eu só toco bateria no Quarteto Insensatez. Chorinho, eu adorava tocar com Vieira. Era uma brincadeira! A gente nunca ensaiava. Era um ensaio, um dia antes do show, aqui em casa, a gente passava os tons e o resto era brincadeira. Eu quero é estar onde eu me sinta feliz, dentro da música. É ali que eu quero estar.

Você acha possível falar em um choro genuinamente maranhense? Maranhense, paulista, carioca, qualquer um é choro, é samba. É a mesma coisa do samba genuinamente maranhense. O que é o samba genuinamente maranhense? É a batucada dois por um, dos Fuzileiros [da Fuzarca, imita o som da batucada com a boca]. O grande erro nosso foi a gente tentar imitar as escolas de samba do Rio. Uma vez [o compositor baiano] Riachão estava numa discussão com [a cantora e compositora] Dona Ivone Lara, se o samba nasceu no Rio ou na Bahia. Eu, calado, chamaram Vieira. “Vieira, o samba nasceu aonde? No Rio ou na Bahia?” Ele disse “nem um nem outro, nasceu no Maranhão!” [gargalhadas]. E acabou a discussão.

Sarau de Bailados do Laborarte acontecerá sexta-feira (12)

Espécie de extensão do período junino em São Luís, o Sarau de Bailados promovido pelo Laborarte já é tradição. Desde 2011 realizado em maio, o baile popular acontecerá em 2013 como um lava-pratos do São João. A festa é capitaneada pela cantora Rosa Reis, pesquisadora dos ritmos de nossa cultura popular, e este ano tem, além de seu show, uma apresentação do cantor maranhense Tião Carvalho, radicado em São Paulo.

O repertório passeará por bumba meu boi, coco, carimbó, cacuriá, ciranda, maracatu, tambor de crioula e muito mais. A festa acontece nesta sexta-feira (12), às 21h, na sede do Laborarte (Rua Jansen Müller, 42, Centro). Os ingressos já estão à venda no local.

“O público vai ter um repertório dançante, o que torna o espetáculo participativo. A ideia é que todos entrem na roda pra dançar com gente, conhecendo e experimentando as peculiaridades dos ritmos maranhenses. No final, é o público quem constrói o espetáculo conosco”, promete Rosa Reis.