Sopa de letrinhas

Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação

 

É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.

Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.

A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.

O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução

O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.

Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.

É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.

Infância. Capa. Reprodução

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.

Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?

A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.

O livro das ignorãças. Capa. Reprodução

Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.

Sandiliche. Capa. Reprodução

Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.

Cazuza. Capa. Reprodução
Isabel Comics! Capa. Reprodução

Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.

Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.

Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!

[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]

Gente, livro e pedra

O blogueiro, de latinha na mão, com os poetaços Ademir Assunção e Marcelo Montenegro (Foto: Igor de Sousa, o DP)

Como se árvores brotassem por entre os paralelepípedos, a 7ª. Feira do Livro de São Luís rendeu bons frutos. A começar pelo convite, prontamente aceito, de assumir uma página mensal neste Atual, imensa honra. É o Maranhão falando para o Brasil, depois de ter ouvido o mundo falar durante a #7FeliS.

Sérgio Cohn é poeta-autor-editor cujo trabalho acompanho há bastante tempo, proprietário da editora Azougue, responsável por tanta coisa boa no mercado editorial brasileiro nos últimos anos, da coleção Encontros, das entrevistas do Bondinho, de beats e Mautner e tantos outros, ele, um dos convidados da #7FeliS, ocasião em que falou justamente sobre o tal mercado editorial.

Este ano a Feira do Livro expandiu-se: continuou com a função de vender livros, mas foi além, e em 10 dias trouxe à São Luís alguns personagens fundamentais para o fazer literário brasileiro. Tendo como patrono o poeta Nauro Machado, quase oitentão com 40 livros publicados, e como homenageados Aluísio Azevedo, Catullo da Paixão Cearense, Salgado Maranhão e Zelinda Lima, a Feira fez valer ainda a máxima de outro homem das letras, centenário em 2013: Vinicius de Moraes. “A vida é a arte do encontro”, dizia.

A literatura deixou de ser do gueto, algo para iniciados, e encontrou a cidade. Uma na outra, outra na uma, e esbarrões entre sorrisos e abraços. Esquinas, becos, ruas, ladeiras, praças, auditórios, teatros, galerias, sacadas, escadarias e azulejos, tudo havia sido ocupado pela poesia, como num velho poema de Gullar.

Escritores se encontraram com a gente do lugar, a Praia Grande finalmente revivida, como um lugar propício aos fazeres artísticos, com seu acervo arquitetônico entre o que merece ser chamado patrimônio e suas ruínas cinematográficas, o espaço finalmente valorizando, após umas poucas iniciativas, as pessoas, verdadeiro patrimônio maior de qualquer lugar.

Manhãs, tardes, noites e madrugadas tomadas pela programação da Feira e pela “hora extra” que se fazia entre o Mundico – para provar sua deliciosa anchova na brasa –, o Chico Discos e o Bar do Léo, com seus incríveis acervos e o conhecimento artístico, sobretudo musical, dos proprietários. As histórias engraçadas de Josoaldo Rego e a comanda infalível de Marília Oliveira, os autógrafos de Benjamin Moser a Andréa Oliveira e Rita Luna Moraes – que Talita Guimarães pegou em sua Programação, o que não a fez se emocionar menos. Ambientes que também encantaram Sérgio Cohn, Fabiano Calixto, Ademir Assunção, Marcelo Montenegro, Marcelo Watanabe, Xico Sá, Rodrigo Garcia Lopes, Bráulio Tavares, Caco Pontes e outros.

Admirador do trabalho de todos e de alguns outros que não consegui ver ou encontrar, o calçamento da Praia Grande parecia ter se transformado em feito de nuvens, eu perambulando entre o trabalho e o prazer – aqui plenamente conciliáveis – como O sonhador insone: “tudo é nascente/ o sol pleno de setembro (e outubro, permita-me adulterar o poema)/ traz da mão/ do garoto que passa/ um cheiro de fruta (…)// (a vida já é um tempo/ por demais interessante)”.

A busca idílica de Marcelo Montenegro pela Fonte do Bispo – e outras paisagens do Poema Sujo – e a conquista de novos leitores de poesia: “não pude resistir quando ele disse que era um punk do ABC”, revelou Igor de Sousa, assumidamente um desajustado punk no apelido DP, ao adquirir o belo exemplar dA canção do vendedor de pipocas, de Fabiano Calixto.

A visita de Ronaldo Bressane à Fundação da Memória Republicana, nome pomposo do museu, ou antes, da catacumba do Sarney, “único museu de São Luís com ar condicionado”, onde clássicos da literatura produzida no Maranhão ficam em “aquários”. “Vamos quebrar os aquários, vamos quebrar a fundação, vamos quebrar o Sarney!”, convidou encerrando sua fala na mesa mais transgressora da Feira, dividida com Allan Sieber, Bruno Azevêdo e Iramir Araújo. Gente que sabe o que fala.

Fracasso da Raça, o nome da banda com que Ademir Assunção lançará em novembro seu novo disco, Viralatas de Córdoba, virou jargão anticapitalista. Os atendentes de telemarketing das operadoras de telefonia ou internet ou tv a cabo ou cartão de crédito ou loja ou banco não resolvem o seu problema? É o Fracasso da Raça. Você chega a um estabelecimento a fim de resolver um problema e é direcionado a um telefone, “retire do gancho e siga as instruções”, é o Fracasso da Raça.

Os poemanchetes de Caco Pontes, tornando pura poesia o que nosso jornalismo tem de pior. Letra de música é poesia e vice-versa? Ricardo Corona e sua poesia étnica, sons ganhando sentido, em diálogo com Bráulio Tavares, multiartista consciente de seu próprio fazer, sua fala ilustrada por canções, 35 anos desde a primeira gravação de Elba Ramalho para uma delas, Caldeirão dos mitos.

“Embora haja tanto desencontro nessa vida” você perde a palestra de Alice Ruiz, “A poesia muda o mundo?”, e levanta da mesa pouco antes de ela chegar. Não se pode ter tudo. Alguns autógrafos que te acompanharão pra sempre, a emoção cravada num livro de sua modesta coleção, para uns um orgulho bobo, a vida não foi feita para ser entendida, “a vida já é um tempo/ por demais interessante”, um eco.

A Feira também fez sentido por estar localizada ali nos arredores da Feira da Praia Grande, uma das mais famosas e charmosas da cidade. A Feira virou uma verdadeira festa e deixa saudades. Deixou muita gente com a cabeça ainda mais cheia e a pilha-fila de livros por ler aumentada. A Feira ainda será assunto em rodas reais ou virtuais durante muito tempo.

Sua mais perfeita tradução é o sorriso enérgico do poeta Celso Borges, seu curador. O seu nunca cansaço, a sua eterna capacidade de se emocionar com cada dia e acontecimento, feito criança de brinquedo novo. A serpente pode até não ter acordado ainda. Mas seu sono foi certamente incomodado com tanto barulho.

[Textinho que escrevi pro Atual, “o último jornal da Terra”, do grande Sérgio Cohn, da Azougue. Balanço sentimental da 7ª. Feira do Livro de São Luís, cuja equipe de curadoria tive o prazer e a honra de integrar, escrito imediatamente após a hora da xepa, em outubro passado]

Feira do Livro de São Luís cresce em sua sétima edição

[NO Imparcial de hoje; aqui com umas poucas modificações e acréscimos]

Evento acontecerá na Praia Grande e pela primeira vez terá convidados internacionais

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

A maior Feira do Livro que São Luís já teve. É o que promete a curadoria do evento, coordenada pelo poeta e jornalista Celso Borges. “Trata-se de uma feira de retomada. Foi visível o abandono do evento em suas últimas edições. É também a primeira Feira com convidados internacionais”, adianta.

Auxiliam-no nos trabalhos de curadoria o escritor Alberico Carneiro, o poeta Josoaldo Rego e o jornalista Zema Ribeiro. “São três figuras ligadas ao universo literário: Alberico é editor de um importante suplemento literário, o Guesa Errante, e também um autor de ficção; Josoaldo é um poeta respeitado nacionalmente; e Zema tem praticado a crítica literária num cenário infelizmente hostil”, justifica.

A 7ª. Feira do Livro de São Luís (Felis) acontecerá entre os dias 27 de setembro e 6 de outubro, em diversos espaços da Praia Grande, no Centro Histórico da Capital: Morada dos Artistas, Univima, Teatro João do Vale, Praça Nauro Machado, Beco Catarina Mina, Praça Valdelino Cécio, Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (incluindo o Cine Praia Grande, o Teatro Alcione Nazaré e a Galeria Valdelino Cécio), entre outros.

O tema da 7ª Feira é “Livro e leitura: do impresso ao virtual sem perder a poesia”, que, segundo Celso Borges, busca “tratar de questões como a convivência do objeto livro, o livro de papel que alguns temos tanto prazer em tocar e ler, com os formatos digitais”. Mas as diversas palestras, mesas redondas, oficinas e lançamentos de livros abordarão diversos outros temas.

O poeta em frente à sua efígie na praça que leva seu nome

Patrono – O poeta Nauro Machado é o patrono desta edição, que homenageia ainda o poeta Catullo da Paixão Cearense, por seus 150 anos de nascimento, o escritor Aluísio Azevedo, por seus 100 anos de falecimento, o poeta Salgado Maranhão, maranhense há muito radicado no Rio de Janeiro, e a folclorista Zelinda Lima, que como todos terá um espaço batizado com seu nome, onde será exposta a relação da literatura com a gastronomia.

A cerimônia de abertura será realizada no Centro de Criatividade Odylo Costa filho, a partir das 18h30min de 27 de setembro, com a presença de autoridades. Em seguida, o poeta Ivan Junqueira ministra a palestra “A obra de Nauro Machado no contexto da poesia brasileira”, que será mediada pelo também escritor Ricardo Leão.

Benjamin Moser proferirá a palestra “Que mistérios têm Clarice?”

Entre os nomes confirmados para a 7ª FELIS estão o do americano Benjamin Moser (autor de Clarice, biografia da escritora Clarice Lispector), os jornalistas Xico Sá (Big Jato) e Ronaldo Bressane (V.I.S.H.N.U.), os escritores Mário Prata (Os Anjos de Badaró) e Bruno Azevêdo (A intrusa), o biógrafo Fernando Morais (Os últimos soldados da Guerra Fria), o quadrinista Allan Sieber (É tudo mais ou menos verdade), a professora Lucia Santaella (PUC-SP) e a ensaísta Walnice Nogueira Galvão, estudiosa das obras de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Também virão a São Luís o poeta Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, Bráulio Tavares, letrista, especialista em ficção científica, e a poeta Alice Ruiz, duas vezes ganhadora do prêmio Jabuti de Poesia.

“Será uma grande feira, qualitativa e quantitativamente. A Feira manterá o espaço para o comércio de livros, que sabemos que é importantíssimo, mas deixará de ser somente isto, como foi nos últimos anos. Muita gente interessante falando sobre temas tão diversos, muitos deles pela primeira vez em São Luís”, comemora o curador.

Poesia – A poesia tem especial destaque na programação. O Beco Catarina Mina será tomado por recitais de poesia e música. Deles participarão nomes como Ademir Assunção (A voz do ventríloquo), Marcelo Montenegro (Garagem Lírica), Rodrigo Garcia Lopes (Canções do Estúdio Realidade, cd), Fernando Abreu (aliado involuntário), Oliveira de Panelas, Bráulio Tavares, Artur Gomes, Alan Mendonça, Ricardo Corona (Curare), Lirinha, Lúcia Santos, Reuben da Cunha Rocha, Lilia Diniz e Adeilton Lima, entre outros.

“São Luís tem uma tradição poética bastante forte, portanto é natural que vários dos homenageados desta feira sejam poetas. Os convidados contribuirão com discussões em mesas redondas e palestras e aproveitando a passagem pela ilha também apresentarão seus espetáculos, como têm feito em seus locais de origem e Brasil afora”, anuncia Celso Borges, referindo-se a espetáculos de poesia que ocorrem em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Outras linguagens – Engana-se quem pensa que a 7ª. Felis estará restrita ao tripé livro, leitura e literatura. “Já estaria de bom tamanho, mas vamos além”, provoca Celso Borges. A programação contará com shows musicais, esquetes, oficinas de dança, percussão e grafite. Entre os destaques estão o espetáculo Os operários da agonia, de Tácito Borralho, sobre a obra de Nauro Machado, e o show Bandeira de Aço 35 Anos, que homenageia um dos discos mais importantes da música brasileira feita no Maranhão. “Afora a programação que os próprios escritores com certeza irão armar, um circuito alternativo, paralelo, off-feira, durante suas estadas por aqui. Serão 10 dias bastante intensos, para ficar na história. Ao menos até a próxima feira”, finaliza.

O evento é uma realização da Prefeitura de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Cultura (Func), correalização do Serviço Social do Comércio (Sesc/MA) e da Secretaria Municipal de Educação (Semed). E, tem apoio das Universidades Federal e Estadual do Maranhão, Associação dos Livreiros do Maranhão (Alem), Governo do Estado Maranhão, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secma) e da Secretarias Estadual de Educação (Seduc) , e o patrocínio da Vale.

7ª. FELIS EM NÚMEROS: Mais de 100 autores convidados > 38 estandes > 36 palestras > 27 cafés literários> 25 saraus poéticos > 12 espaços culturais > 10 shows de música > 2 convidados internacionais

A intrusa: adquira já a sua!

O escritor Bruno Azevêdo reuniu os 12 capítulos de A Intrusa, folhetim que publicou ao longo do ano passado no jornal Vias de Fato, e publica agora um livro com sua história de amor, voltada sobretudo ao público feminino, nos moldes de hits de bancas de outrora, vide Julia, Sabrina e Barbara Cartland, entre outros que eu sempre vi tia Sara comprando e lendo.

Com ilustrações de Eduardo Arruda, capa de Frédéric Boilet, e prefácio de Xico Sá, a obra, que será lançada em maio, já pode ser adquirida no site da Beleléu, que lança a obra junto da Pitomba.

Em tempo: 18 de maio (sábado), às 14h30min, Bruno Azevêdo divide uma mesa com Ronaldo Bressane e Pedro Franz, sob mediação de Augusto Paim, sobre Narrativas gráficas sequenciais na Festipoa Literária.

Blablablá

Uma vez, a gente bebendo lá em Imperatriz, o Cuenca me disse que eu era “a cara do Pratinha”. Já não sei: do encontro com o autor de O único final feliz para uma história de amor é um acidente pra cá, ganhei peso mais do que devia. Outro dia uma queridamiga, que não sabia do que já havia me dito o escritor, disse a mesma coisa. É, talvez eu pareça um pouco, não sei… ao menos o Antonio Prata é engraçado, coisa que eu tento ser sempre, mesmo quando a maré não tá pra peixe.

Abaixo o cronista entrevistado por Ronaldo Bressane, na estreia do Blablablá, mês passado:

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Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

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Um sonho-poema-em-prosa de Roberto Bolaño (foto) traduzido por Ronaldo Bressane no Pernambuco deste mês. O suplemento traz ainda uma entrevista com Lourenço Mutarelli, entre outras coisas bacanas.

Sócrates, brasileiro

Ontem fui ao Chorinhos & Chorões, como entrega a foto acima, em que apareço com o titular do programa Ricarte Almeida Santos e os compositores Joãozinho Ribeiro, Josias Sobrinho e Chico Saldanha. A tríade foi entrevistada pelo primeiro, divulgando o show Rosa Secular II, que apresentam sábado que vem (10), às 21h, no Bar Daquele Jeito (Vinhais).

O show é mais ou menos uma reprise de Noel, Rosa Secular, que apresentaram ano passado e, a pedidos, no comecinho deste ano – e que está concorrendo na categoria “melhor show” no Prêmio Universidade FM, a maior premiação da música produzida no Maranhão.

Digo mais ou menos por que, desta feita, além de Noel Rosa também serão homenageados outros bambas centenários, Assis Valente, Ataulfo Alves, Cartola, Mário Lago e Nelson Cavaquinho, além dos saudosos e eternos maranhenses Antonio Vieira, Cristóvão Alô Brasil, Dilu Mello, João Carlos Nazaré e Lopes Bogéa. O show contará com as participações especiais de Célia Maria, Lena Machado, Lenita Pinheiro e Léo Spirro, como eu já disse aqui.

Mas não é disso que quero falar: ao adentrar o estúdio da Rádio Universidade FM ontem, a primeira notícia que recebi foi bastante triste: a subida (ontem, 4) de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, vulgo Dr. Sócrates (1954-2011) – avesso a computadores em fim de semana, salvo raras exceções, não fui atrás de ler uma linha sobre o assunto e escrever isto aqui é a primeira coisa que faço nesta manhã de segunda-feira, após o Corinthians ter conquistado seu quinto título nacional (também ontem, 4).

Um jogador cerebral. Um dos fundadores, em plena ditadura brasileira, da Democracia Corintiana, que levou também para dentro das quatro linhas a luta pela redemocratização do país. Em campo ou fora dele, Sócrates nunca deixou de pensar.

Participou de duas copas do mundo, em 1982 e 86, sem ter vencido nenhuma. Azar das copas! Sócrates era a tradução humana da frase-pergunta que abre Catatau, o romance-ideia de Paulo Leminski: “que flecha é aquela no calcanhar daquilo?” Quem o viu jogar ou viu videotapes – dá um google aí no youtube agora! – sabe do que estou falando.

Colunista da CartaCapital, comentarista da TV Cultura, apresentador do Canal Brasil, o paraense era do tempo em que o esporte bretão e a mídia não fabricavam ídolos milionários da noite para o dia. Talvez por isso – ou não – ele tenha se dividido entre o futebol e a medicina. E depois ocupado os meios de comunicação de forma crítica – no último canal, nem sei se seu programa chegou a ir ao ar, gestado já em meio às complicações de saúde que o matariam ontem (4).

Em meio à geral, em geral acrítica, de torcedores, jogadores, dirigentes, cartolas e outros, Sócrates era voz dissidente, que despejava críticas e elogios a quem os merecesse, sendo ácido ou doce, conforme a necessidade. Não erraram seus pais quando batizaram-no com nome de filósofo.

Uma grande perda para o futebol e a inteligência nacionais, num dos raros casos em que essas duas categorias conseguem se conciliar. Descanse em paz, Doutor Sócrates! E que seu exemplo – necessário – possa ser seguido por mais gente por aqui.

Em sua memória e homenagem deixo a sinfonia de pardais abaixo, que ouvi e fotografei hoje pela manhã, antes de sair de casa.

P.S.: atualizo o post às 13h23min para recomendar, sobre o assunto, a subida do doutor, três belos textos: dois de Ronaldo Bressane e um de Xico Sá.

P.S.2: e às 8h55min do dia 6, este de Marcelo Montenegro.