João do Vale, infância e resistência

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Ontem (11) o compositor João do Vale completaria 85 anos. Hoje (12) é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, a santa negra padroeira do Brasil. Amanhã (13), a jornalista e escritora Andréa Oliveira participa de programação voltada ao público infantil na Livraria da Associação Maranhense dos Escritores Independentes (Amei), no São Luís Shopping.

A programação da Amei marca as comemorações do mês da criança e a escritora participa da roda de conversa “Arte e infância em João do Vale”, às 15h, com entrada franca. Na sequência, ela autografará livros aos interessados.

Andréa Oliveira é autora de dois livros sobre o artista negro eleito maranhense do século XX, em 2000, através do voto popular: o esgotadíssimo João do Vale: mais coragem do que homem [Edufma, 1998] e o infantil João, o menino cantador [Pitomba!, 2017], ilustrado por Fernando Mendonça, além de Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba-meu-boi do Maranhão [Clara, 2003].

Ela começou a acalentar a ideia do livro quando contava as histórias do pedreirense para Pedro e Clarisse, seus dois filhos, quando se equilibrava entre realidade e fantasia, recurso que levou às páginas de João, o menino cantador. Ela foi a primeira jornalista brasileira a noticiar o falecimento de João do Vale, em 6 de dezembro de 1996.

Andréa Oliveira conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

João, o menino cantador foi lançado há um ano e meio. Como tem sido a receptividade do público, não só o infantil, ao livro?
Esse livro vem me dando muitas alegrias, embora a maioria das pessoas não tenha o hábito de dar retorno ao autor. As manifestações que mais me marcaram foram as de algumas professoras que me enviaram fotos e relatos sobre atividades que realizaram em sala de aula com as crianças. Há algumas semanas fiquei surpresa quando uma amiga de infância enviou uma foto de uma livraria em Caxias onde encontrou o João menino [como ela se refere carinhosamente à própria obra] e recebi uma encomenda de Alcântara, de alguém que se interessou pelo livro. Gosto muito de ser encontrada por causa do livro, isso me alimenta. Mas nada se compara ao contato com as crianças, as perguntas que fazem, a troca. Isso me renova como mãe e ao mesmo tempo volto a ser criança.

Escritores tendem a, depois de lançado um livro, ficar observando o que gostariam de mudar. Nesse sentido, se teu livro fosse lançado hoje, no que ele seria diferente?
Tenho muito isso desde os tempos em que trabalhei em jornal impresso. Era ver a matéria publicada e achar muita coisa pra mudar. Até hoje sou assim, mas com o João menino, talvez porque tenha levado muito tempo entre escrever e publicar, todas as edições foram feitas até ele sair. Mas teve uma coisa interessante que aconteceu há bem pouco tempo. Foi quando me dei conta de que nada na capa do livro informa o que de fato ele é: a biografia do compositor João do Vale para crianças. João, o menino cantador pode ser a história real ou inventada de qualquer João. E olha que antes de sair o livro passou pelo meu crivo, do Celso [Borges, poeta e marido da autora], do Bruno Azevêdo [escritor e editor], que como editor que trouxe inúmeras contribuições. E aí, só muito tempo depois é que percebi isso e falei com o Claudio Lima [cantor, escritor e designer, autor do projeto gráfico do livro] para bolar um selo. Agora, nas livrarias, o livro tem um selo vermelho onde se lê: Biografia de João do Vale para crianças de todas as idades.

João do Vale completaria aniversário ontem, hoje é dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, e amanhã você participa de um evento voltado ao público infantil, na Amei. Como está pensado este momento e o que você oferecerá ao público e espera dele?
Nossa Senhora Aparecida é um símbolo do Brasil no campo da fé como João do Vale é um símbolo da música popular de resistência. Nunca precisamos tanto dessas duas forças! Eu pensei nesse encontro para marcar o aniversário do João e oferecer a história de sua vida como presente para as crianças. Acredito que toda criança brasileira – especialmente as que nasceram no Maranhão – têm direito de conhecer a história dele. Pensei em um encontro bem simples, de leitura, conversa e audição de algumas canções. Eu espero exatamente isso, compartilhar a história e conversar sobre João do Vale. Se eu soubesse cantar, cantaria com todo o coração, mas vou levar discos. E ainda neste mês, dia 20, tenho um novo encontro em torno do livro durante a Festa do Livro de Itapecuru-Mirim [Flim], integrando a caravana do Sesc no evento, ao lado do Claudio Lima [autor de Esplêndido: o guará que não conseguia ficar vermelho, Oca Maranhão, 2017]. Vamos falar de literatura infantil e celebrar o prazer de ler.

O Brasil vive um momento de tensão, em uma acirrada disputa política. João do Vale, através de sua obra, particularmente sua presença no elenco do show Opinião, foi um oponente à ditadura militar brasileira. Recentemente indaguei os biógrafos de Belchior, Clarice Lispector, Chacrinha, Sérgio Sampaio, Sócrates, Tarso de Castro e Wander Piroli sobre quais seriam suas prováveis posições em relação às eleições no Brasil. Como você acredita que seria o comportamento do maranhense do século XX nesta altura do século XXI?
O João do Vale felizmente seguiu na vida como um menino, no que isso tem de incrivelmente criador e também tem de ingênuo. No entanto, intuitivamente ele sempre caminhou ao lado do povo e não por acaso foi aclamado O Poeta do Povo. Poetas são faróis ao longo da história da humanidade e com João não poderia ser diferente. Ontem mesmo em conversa com os amigos, imaginando hipoteticamente a possibilidade de voltarem às trevas, lembrei que no período da ditadura, quando Caetano Veloso e Chico Buarque foram exilados em países da Europa, João do Vale se escondeu em Pedreiras. Quem criou os versos de Carcará não seria um deles. João era flor e coragem, arte e pé no chão. Era, não. É.

Blogosfera no dial

Acervo Rádio Universidade FM

Ontem participei, com o camarada Alberto Jr. (como eu gostaria que ele tivesse um blogue para linkar no nome dele), do quadro Roda de Conversa, no Santo de Casa, na Rádio Universidade FM (106,9MHz), capitaneado por Gisa Franco.

O tema era “a importância dos blogues na difusão da música maranhense”, mas creio que fomos além.

Comentamos de nossas experiências como blogueiros, citamos blogues importantes, fiz cobranças públicas a quem já teve blogues e precisa voltar a ter e a quem nunca teve mas tem muito o que dizer, rimos um bocado e aproveitei para fazer o meu comercial, divulgando a 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes (termina hoje, 30) e shows de Chiquinho França (hoje, 30), Edvaldo Santana (7/11) e Patativa (19/11).

Quem perdeu no rádio pode ouvir o papo aqui, agora. Mais uma vez agradeço a atenção e paciência dos/as ouvintes e o carinho dos/as que fazem a Rádio Universidade FM.

O rádio, Parafuso e eu

Começo de setembro passado, a trabalho em Brasília/DF, meu celular toca. Era Valéria Santos, produtora da Rádio Universidade FM. Disse-me rapidamente que estavam produzindo um Janela Cultural em homenagem ao mestre José de Ribamar Elvas Ribeiro, mais conhecido como Parafuso. De cara topei dar um depoimento e ela gravou na hora, pelo telefone. Ela tornaria a ligar, já que as operadoras de telefonia não ajudam e a ligação caiu.

No dia em que o programa foi ao ar, eu estava novamente viajando. Hoje, com o amigo Alberto Jr., fui ao Santo de Casa, na mesma Universidade FM, falar com Gisa Franco no quadro Roda de Conversa sobre a relação entre a blogosfera e a difusão da música do Maranhão. O papo rolou agradabilíssimo. Reencontrei amigos e amigas e conheci Valéria pessoalmente. Ela me avisou que o programa dedicado a Parafuso estava disponível, na íntegra, no youtube.

Lembro que o lendário sonoplasta havia lançado recentemente, em concorrida noite de autógrafos no Bar do Léo, o livro Memórias de um Parafuso, de título autoexplicativo.

A quem interessar possa, aí está o programa:

Hoje: Ponte Brasil-Benin na Casa de Nhozinho

A Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185, Praia Grande) recebe hoje e amanhã a Mostra Cultural Pedra da Memória, projeto-ponte que ligou o Brasil ao Benin, através de seus terreiros.

A Mostra já visitou São Paulo, onde a exposição fica em cartaz no Museu Afro até o último dia de 2012. Nela há um livro de fotografias, feitas em ambos os países, memórias de Euclides Talabyan, o Pai Euclides da Casa Fanti-Ashanti, desenhos de Carybé, além de exposição fotográfica, um documentário homônimo (dirigido pela querida Renata Amaral; é dela a iniciativa do projeto) e roda de conversa com participantes do projeto.

Hoje (16), às 19h30min, acontecem a abertura da exposição e o lançamento do livro Pedra da Memória. Amanhã (17), às 16h, roda de conversa com Vodunnon Daagbo Avimadjenon Ahouandjinou, um líder espiritual do Benin, o Babalorixá Euclides Talabyan, o professor Brice Sogbossi, antropólogo beninense radicado no Brasil, e a produtora Renata Amaral.

O conjunto Pedra da Memória (expo, livro, roda e doc) faz um resgate histórico importante e traz um material inédito e precioso sobre as tradições populares brasileiras e beninenses, em uma aproximação poética e reveladora, com a intenção de fazer o caminho inverso da “Árvore do Esquecimento”, onde os escravos eram obrigados a “dar voltas” para esquecer suas origens, e fomentar os re-conhecimentos.

Toda a programação é gratuita. O livro, na ocasião do lançamento, será vendido por R$ 50,00.