Tim Maia: bom filme, apesar dos problemas do livro que o inspirou

 

Em Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia [Objetiva, 2007, 392 p.], de Nelson Mota, o cantor genial e doidão começa pesando 60 quilos em 1954 e termina com 120 em 1997 – morreria em 15 de março de 1998, e a última frase do livro trata justamente disso.

Maior problema do livro, essa cronologia do peso – por que por demais linear – é também o maior problema de Tim Maia [Brasil, biografia, 140 minutos], filme de Mauro Lima inspirado no livro do jornalista.

Talvez por que a vida de Sebastião Rodrigues Maia tenha sido, por si só, cheia de altos e baixos. Do menino entregador de marmitas ao primeiro lugar nas paradas com o disco de estreia, à prisão por roubos e posse de drogas nos Estados Unidos, à gravação de Roberto Carlos para Não vou ficar, à adesão do artista a seita Universo em Desencanto: está tudo lá.

Tim Maia, o filme, de fotografia inspirada, consegue resgatar o clima e o ambiente de uma época, percorrendo o que de mais importante aconteceu na trajetória meteórica do biografado, cuja vida curta – morreu aos 55 anos, vítima dos excessos a que se submeteu – mesclou, em iguais proporções, a genialidade e a doideira.

Um dos grandes trunfos do filme é justamente não optar por um ou outro Tim Maia, mas tentar mostrar que suas duas bandas se retroalimentavam – e às vezes entravam em curto-circuito.

Outra opção interessante é a história ser narrada por Fábio (Cauã Reymond) – Juan Zenón Rolón, cantor paraguaio radicado no Brasil, inicialmente padrinho de Tim na noite carioca, depois músico de sua banda –, autor de outro livro sobre o professor de violão de Roberto e Erasmo: Até parece que foi sonho: meus trinta anos de amizade e trabalho com Tim Maia [Matrix, 131 p.], lançado no mesmo ano do livro de Nelson Motta.

Personagem controverso, sobretudo depois das discussões sobre biografias não autorizadas – suscitadas sobretudo a partir da censura que impôs a Paulo César de Araújo e a Editora Planeta por Roberto Carlos em Detalhes –, o Rei, ainda antes de receber a coroa, é retratado de forma exageradamente caricata.

Por falar em biografias, Tim Maia é um capítulo importante da cinematografia brasileira de um gênero que, apesar de cada vez mais difícil de ser realizado, tem produzido bons frutos ao longo dos últimos anos.

Lourival Tavares lança Enluarado no Teatro da Cidade

[release]

Divulgação

Oitavo disco da carreira do maranhense radicado em São Paulo será lançado em show intimista. Além de repertório autoral, espetáculo trará obra de grandes nomes da música brasileira

Com 29 anos da gravação de seu primeiro disco, o cantor e compositor Lourival Tavares volta a se apresentar em São Luís. O show será sexta-feira (11), às 20h, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Na ocasião o músico lançará seu oitavo disco, Enluarado, mesmo título do espetáculo.

O repertório de Enluarado terá a íntegra do disco, que inclui, entre outras, Muito romântico, de Caetano Veloso (gravada por Roberto Carlos), e Pequeno concerto que virou canção, de Geraldo Vandré. No show, Lourival Tavares passeará também por músicas de outros discos seus, casos de Matadouro, parceria com o poeta Celso Borges, Velha calça de xadrez, parceria com Josias Sobrinho e Éden Bentes, além da obra de artistas que admira, como João do Vale, Luiz Gonzaga e Betto Pereira, de quem gravou Ana e a lua.

Enluarado é uma espécie de apanhado de sua trajetória. O disco, junto com o dvd O laço do olhar, aponta os destaques de sua produção e nomes que foram importantes para a sua formação musical. O dvd conta com a participação especial de Jarbas Mariz, músico da banda de Tom Zé, que já havia gravado com Lourival Tavares em seu disco ao vivo Na colheita dos versos. No palco ele será acompanhado por Marcos Lussaray (violão e guitarra).

“O roteiro do show é baseado no repertório do disco Enluarado, acrescido de músicas que gosto de cantar. Mas é claro que seu formato enxuto, somos eu e mais um músico no palco, permite certa flexibilidade. O público pode aguardar algumas surpresas”, avisa Lourival Tavares, natural de Santa Inês/MA, hoje radicado em São Paulo.

O músico voltou à São Luís para participar da temporada junina. “Fiz algumas apresentações, recarrego as baterias, as energias para viver em São Paulo e criar. Resolvi aproveitar o prolongar da passagem para lançar o disco novo em minha terra natal”, revela.

Serviço

O quê: show Enluarado
Quem: Lourival Tavares
Quando: 11 de julho (sexta-feira), às 20h
Onde: Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy)
Quanto: R$ 20,00 (R$ 10,00 para estudantes e demais casos previstos em lei)
Maiores informações: (98) 8122 0009

Chorografia do Maranhão: Wanderson

[O Imparcial, 13 de outubro de 2013]

Dos ritmos da cultura popular do Maranhão ao choro, o passeio desenvolto do percussionista Wanderson, 17º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Wanderson dos Santos Silva iniciou sua trajetória artística no bumba meu boi mirim Capricho Sesiano, organizado por Dona Laura, professora de artes das unidades Lara Ribas e Ana Adelaide Belo do Serviço Social da Indústria, popularmente conhecidas como Sesi do Santa Cruz e Sesi da Alemanha.

Nascido em 11 de abril de 1980 na Maternidade Benedito Leite e criado por perto do primeiro, o percussionista até hoje mora no Conjunto Radional. Filho de Silvio Matos da Silva, farmacêutico falecido, e Maria Ribamar dos Santos da Silva, cabelereira, Wanderson seguiu as trilhas percussivas: do Capricho Sesiano passou ao Barrica, em paralelo aos estudos e ao esporte – chegou a disputar várias edições dos Jogos Escolares Maranhenses e formou-se em Administração.

Membro do Regional Chorando Calado, grupo que integrava o cardápio musical do Bar e Restaurante Chico Canhoto à época do Clube do Choro Recebe, o músico hoje se orgulha de já ter tocado com quase todos os chorões da cidade.

Professor da Banda do Bom Menino do Convento das Mercês, atualmente Wanderson está em estúdio, gravando um disco instrumental autoral, um passeio por toda sua formação musical, o que inclui bumba meu boi, tambor de crioula, tambor de mina e choro – um pé na modernidade sem tirar o outro da tradição. Ele conversou com a chororreportagem no Chico Discos, antes de seguir para o Teatro Arthur Azevedo, onde seu set percussivo já estava montado para mais um show de sua agenda.

Foto: Rivanio Almeida Santos

Como era a vivência musical na tua casa, na tua infância? Geralmente era aos fins de semana, meu pai só descansava aos domingos, então ele botava o som o dia todo para tocar. Eu escutava Altemar Dutra, essas músicas mais ou menos dessa época, Roberto Carlos.

Ele comprava discos? Comprava discos, cds, k7s. Até hoje eu guardo, tenho comigo.

Que outras vivências musicais você tinha? Em casa, praticamente foi assim, influências também de meus irmãos mais velhos, que eram quem botavam o som na época, tipo Titãs. Meu outro irmão que escutava bastante samba, por incrível que pareça, hoje é evangélico e não escuta mais nada. Eu via a turma de meus irmãos tocando. Lá onde eu moro a influência musical é praticamente zero.

Mas eles tocavam instrumentos? Brincavam de tocar percussão, atabaques, faziam aquela rodinha de samba.

Daí veio a tua vontade de aprender a tocar percussão? Também teve aquela influência da escola. Por volta da terceira série, por aí assim, eu cantei no Capricho Sesiano [grupo de bumba meu boi formado por alunos do Serviço Social da Indústria – Sesi]. Cantei lá, toquei durante uns três anos seguidos, Moça Laura [professora de artes], chegamos até a viajar para Belém.

Como você escolheu o estudo da percussão? Por volta de 14 anos de idade comecei a me interessar por tocar. Eu sempre escutei bastante música regional, bastante boi, sempre gostei de boi, das músicas daqui da região. Eu tinha uma irmã, Darlene, ela pegou e me levou pra Madre Deus. A gente foi, digamos assim, beber da fonte. Eu quero aprender, eu vou na Madre Deus, naquela época era assim, os melhores percussionistas tocavam na Madre Deus. Peguei minha mochila e fui com ela. Fui fazer o teste para o Bicho Terra, não era aquele alvoroço que é hoje, a gente ainda tocava como bloco tradicional, na rua. Fiz o teste e fiquei. De lá comecei a ter as influências de ritmo, comecei a pesquisar, ir pra Madre Deus, estudar percussão. Por volta de 1994, 95, por aí assim. Ainda não tinha nem projeto Viva [de revitalização e construção de praças em diversos bairros da capital] nem nada.

Você não chegou a buscar outra profissão? Na época eu fazia assim: eu tive influências também, depois, de canto coral. Eu cantei três anos no [Coral] Lilah Lisboa, de Chico Pinheiro [professor da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo e membro das bandas da Companhia Barrica e Bicho Terra]. E paralelamente, na escola, eu fazia esportes. Normal, jogava basquete, JEMs [os Jogos Escolares Maranhenses], essas coisas tudinho. Mas sempre paralelo com o estudo da música. Em 2001, 2000 eu já fui trabalhar de auxiliar administrativo, no Laboratório Salomão Fiquene, aí eu saía de lá, quando era época de São João eu ia tocar, época de coral eu ia pro coral, era tudo ali perto, o coral era na São Pantaleão, o laboratório era no Apicum.

Você sempre recebeu apoio da família, da mãe, do pai, para trilhar o caminho da música? No começo foi difícil. Minha mãe ela queria que eu estudasse, como toda mãe, estudar, fazer vestibular. Meu grande passo para a música foi depois do falecimento de meu pai. Meus irmãos viram e disseram “vamos pra cá!”, por volta de 96, quando eu entrei na Escola de Música.

Quando você cita o falecimento de seu pai, ele era o mais radicalmente contra? Não. Ele era a favor de tudo. A mãe que geralmente era “não, é pra estudar”. Fazia parte de tudo, mas não podia largar o estudo. Por exemplo: se fosse pedir um livro de música, aí era difícil ela entender, hoje a gente já tem como garantir.

Antes da Escola de Música você já tocava profissionalmente? Eu tocava com o Barrica. Toquei com o Barrica 15 anos, cheguei novinho lá.

Que instrumentos você tocava lá? Todos os instrumentos de ritmo regional. Eu entrei pra tocar no Bicho Terra. De lá fiz um teste e passei pro Barrica. Eu fui o primeiro a ser de fora da Madre Deus a entrar pro grupo, de percussão. Era só gente do meio. Dessa forma foi que eu procurei a Escola de Música e outras fontes, por que por ser de fora tinha preconceito, botavam até o pé pra eu cair tocando.

Com quantos anos você entrou na Escola de Música? Eu entrei em 1996, com 15, 16 anos.

Pra estudar percussão mesmo? Pra estudar cavaquinho. Não tinha o curso de percussão.

E aí? Estudei, toquei cavaquinho durante uns quatro anos. Toquei nesses grupos de samba, tocava em rodas de samba, fui um dos primeiros cavaquinhos do Retoque, um grupo que tinha lá no Belira. E paralelamente tocava percussão no Barrica. Meu primeiro instrumento na Escola de Música foi violino. Só que quando eu peguei o violino eu não me adaptei e o instrumento era caro. Peguei uma poupança que eu mesmo fiz, naquela época mamãe não apoiava, a poupança eu fiz com um bolão da Copa [do Mundo] de 1994, ninguém acreditou que o Brasil ia pros pênaltis, eu ganhei o dinheiro todinho. Saquei o dinheiro e comprei meu primeiro cavaquinho, meu primeiro instrumento. Aí mudei de curso. Meu primeiro professor, na época, foi até Raimundo Luiz [bandolinista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 15 de setembro de 2013]. Depois de Raimundo que eu fui ter aula com Juca [do Cavaco, professor de cavaquinho da EMEM]. Depois é que entrou o curso de percussão na Escola de Música. Mas paralelamente eu já tocava percussão no Barrica e estudava cavaquinho na Escola. Tinha essa coisa dessas influências do samba, e eu misturava essa coisa do samba com os ritmos regionais. Até no Barrica.

Quando você mudou para percussão na Escola? Eu fui da primeira turma. Acho que 1997, 98.

Nem terminou o curso de cavaquinho? Não, eu tranquei. Paralelamente eu fazia os dois. Depois me decidi pela percussão.

Quem são teus principais mestres da percussão? Na Escola era Jeca, meu professor. Dei uma parada durante uns dois anos, fiquei só no Coral, parei por conta de problemas familiares, tava jogando JEMs, quando eu retornei, já era Nonatinho [percussionista do Instrumental Pixinguinha] o professor.

Você disse que passou uns 15 anos no Barrica. Sua saída de lá é mais ou menos recente. A que se deveu? A eu me profissionalizar mesmo. A eu correr atrás do meu trabalho.

No sentido de que o Barrica é um espaço amador? Não, no sentido de que o Barrica tem um dono e eu resolvi ser meu próprio dono. Decidi virar um profissional da música. Lá são pequenos cachês, é de grupo. Lá você não é visto, é visto o grupo: a Companhia Barrica.

Hoje você consegue viver de música? Consigo. Hoje eu tenho outros trabalhos paralelos, mas eu consigo.

Quais são esses trabalhos paralelos? Eu tenho minha carreira acadêmica. Sou graduado e pós-graduado em administração. Estou pensando em dar aulas em faculdade. Justamente visando um futuro, por que a carreira musical tem certos limites, na minha opinião. Na Europa o cara é dentista e toca na orquestra, não tem essa história de ser músico e ser só músico, tu tem outra alternativa, tu pode fazer as duas coisas paralelamente. Eu bati muito de frente aqui, o cara é só músico, quer ser só músico. Infelizmente o nosso mercado não dá pra isso. Eu tenho amigos que moram fora, vivem de música e vivem bem. É o que eu sempre digo: tu quer viver bem ou tu quer sobreviver? São coisas bem diferentes.

Antes de formado, você conseguiu viver bem de música? Com música você sobrevive. Viver bem, bem, é difícil. São poucos os que conseguem.

Você não acha que no teu caso essa condição decorre de ser um cara novo? Tipo, daqui a 10 anos você poderia estar vivendo bem de música? Eu acho que o mercado, aqui em São Luís, é um pouco complicado. Talvez se eu fosse pra fora.

Quem são os percussionistas que você mais admira aqui em São Luís? [Carlos] Pial, meu amigo, me ajudou bastante quando comecei a tocar. O próprio Jeca, aquela história, a gente não descarta da onde a gente veio. Zé Pretinho, um cara bom pra poxa. E outros, os grandes mestres. No Barrica, quando entrei, como passei por muito preconceito, eu ia comendo de outras fontes, pra já chegar lá sabendo. Em vez de aprender só lá, como eles não queriam me ensinar, “não, tu é de fora, então eu não vou te ensinar, se tu quiser, tu olha, tu aprende”, eu ia por fora, eu ia na Liberdade, eu ia nos encontros que tinha no Reviver [o bairro da Praia Grande], eu participei dos primeiros Pungar, encontros de tambor de crioula, Leonardo [mestre de tambor de crioula] ainda vivo. Então a gente ia por esse caminho, observando, conversando com Zé Olhinho [mestre de bumba meu boi].

E no cenário nacional? Qual é o nome que chama tua atenção? [Marcos] Suzano, que hoje é meu amigo, Celsinho Silva, meu amigo também, fiz oficinas com eles, saí daqui, peguei meu ônibus, fui bater em Teresina, oficina com Suzano. Na linha do pandeiro eu digo que tenho umas cinco influências: Jorginho do Pandeiro, Celsinho Silva, Marcos Suzano, Bira Presidente [pandeirista do grupo Fundo de Quintal] e Jackson do Pandeiro. Fora também o estilo de tocar de pandeiro diferente aqui, do pessoal do Fuzileiros da Fuzarca [bloco carnavalesco da Madre Deus]. E influência assim que eu tenho da percussão geral, eu gosto muito do Gustavo di Dalva, que toca com Gilberto Gil, Leonardo Reis, são os grandes nomes de percussão mais ou menos nesse jeito que eu gosto de tocar. Por que tem várias linhas: tem o cara que é do axé, tem o cara que é do forró…

A gente sabe que a percussão é um mundo. Na falta de instrumentos, até numa mesa dessa aqui você vai fazer música. Em que instrumento você se sente mais à vontade? O que eu sinto mais à vontade são os instrumentos de percussão maranhense, por essa vivência toda que eu tive durante esses 15 anos lá dentro da Companhia [Barrica], eu colhi muito. Os próprios músicos, o próprio Zé Pretinho, o pessoal lá de frente da percussão, eles dizem que eu fui o único que soube pegar de lá e botar em outro lugar. Os instrumentos daqui, o pandeiro de couro, que eu estudei mais, e os instrumentos também de samba, que vem do tempo em que eu tocava cavaquinho.

Quais seriam esses instrumentos maranhenses? Zabumba, tamborito, pandeirão, tambor de crioula – a parelha, eu toco todos três –, vindo pro lado do carnaval, contratempo, retinta, particularmente todo instrumento maranhense eu toco. A própria caixa do divino, que é um instrumento tocado por mulheres, lá no Barrica quem tocava era eu.

Além de Barrica e Bicho Terra de que outros grupos você já participou? Quando eu saí, que eu decidi me profissionalizar, eu já toquei com quase tudo que é grupo de São Luís.

Mas como integrante? Como integrante praticamente só lá. Toquei em grupos de samba: toquei no Retoque, desde a época do cavaquinho eu tirava mais festa. Eu tava nesse processo: cavaquinho, percussão, nessa briga. Ou eu escolhia um ou outro. Podia chegar num ponto que eu não seria melhor em nenhum, eu seria mediano nos dois. Então eu decidi estudar.

E grupo de choro? Choro foi o seguinte: quando eu entrei na Escola eu vi o [Instrumental] Pixinguinha tocando e eu sempre me interessei. E eu tinha comigo que eu não sabia tocar pandeiro. Aí eu vi aquilo e disse: vou aprender isso aí. Comecei a estudar e o primeiro grupo de choro, formado, bonitinho, foi o Chorando Calado. Na época em que eu entrei, éramos eu, Jordani [percussão], Tiago [Souza, sax e clarinete], Wendell [Cosme, cavaquinho e bandolim] e João [Eudes, violão]. Depois Jordani saiu, ficamos só nós quatro.

Qual a importância do Chorando Calado pra você? A gente é uma família, nós quatro. Quatro irmãos. Através de muito estudo, muita repetição, ensaio, a gente conseguiu essa abertura no meio dos grupos grandes que já existiam aqui, de chorões. A gente recebeu, como éramos da Escola, muito apoio do Pixinguinha, a maioria eram nossos professores, botavam a gente pra tocar nos eventos lá. Às vezes a gente sabia só 10 músicas. Hoje quando a gente se junta, é só olhar um pro outro.

Mas o Chorando Calado nunca mais fez apresentações como Chorando Calado. O que está faltando? Tiago! Nós chegamos a botar outros, [os flautistas] Lee Fan, [João] Neto, até Zezé [Alves, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], mas a gente decidiu não usar mais o nome. Até por que teve a história do Clube do Choro [Recebe] dar um tempo. Eu tenho esperança que volte, foi uma escola pra gente na época. Um projeto de suma importância, na época era o nosso palco. Ali que a gente começou a fazer nosso trabalho, a ter novidades no repertório.

Fora o Chorando Calado, você integrou outros grupos de choro? Eu já toquei com o Pixinguinha, um tempo em que o Nonatinho se afastou. Já toquei nOs Cinco Companheiros, com Osmar do Trombone [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013]. Essa vivência [no Clube do Choro Recebe] fez com que eu tivesse o prazer de hoje já ter tocado com praticamente todos os grupos de choro daqui.

Daqui a pouco quando você terminar essa entrevista, vai participar da gravação de um dvd [o show Justiça de Paz e Pão, em que servidores do Tribunal Regional do Trabalho no Maranhão interpretaram obras de compositores maranhenses]. De que discos você já participou? Já, bastante discos. [O compositor Luiz] Bulcão, [a cantora] Teresa Cantu, cds e dvds. Várias bases de bumba meu boi. [O cantor] Mano Borges é um trabalho constante, uma das pessoas que na época em que fui tentar me profissionalizar foram pessoas que me deram apoio, começaram a me injetar nas coisas, Oberdan [Oliveira, guitarrista], Antonio Paiva [contrabaixista]. Outra influência de que lembrei agora, que eu tive na infância, bastante grande, foi a Casinha da Roça. Eu cresci naquilo ali.

A gente percebe essa vivência, essa tua natureza da cultura popular do Maranhão em tua base percussiva. Como você percebe a relação da percussão da cultura popular do Maranhão com a prática do choro? É possível fazer esse encontro? Você acha interessante? É possível, é bastante interessante, até por que essa questão do ritmo maranhense não é valorizado pelo maranhense, mas quando a gente viaja, que dá uma volta por outros ares, é o diferencial. É o que tu chega, é o que tu mostra, e o pessoal fica de boca aberta.

Cabe no choro? Cabe. Inclusive a gente lá no Chorando Calado botava muito boi, bloco misturado com choro. Cabe. É uma célula a mais. O choro em si é um gênero, então ele agrega um monte de ritmos. Eu sou um admirador da cultura popular do Maranhão. Meu set up tem um monte de instrumentos de fora, mas tem os instrumentos daqui pelo meio. Eu não me esqueço de onde eu vim. O Barrica, pra mim, foi uma escola. Quando eu viajava, eu sempre ia conversar com músicos, ia atrás de informação, sempre fui bastante curioso.

O que é o choro para você? Tanto quanto é o bumba boi é uma influência musical muito grande. É visto com preconceito, como música de velho, mas na verdade é uma música muito difícil. Eu digo pra meus alunos: todos os que vão pra linha do choro se tornam bons músicos. Os compositores de choro são grandes mestres da música. O choro não tem música feia. Até as mais atuais, a qualidade é lá em cima.

Com toda essa vivência já demonstrada na seara da cultura popular, você se considera um chorão? Considero. Até meus amigos dizem que quando vai pro lado do choro eu sou meio ranzinza. Eles, “não, Wanderson, é por que tu é chorão” [risos]. Eu me considero. Eu ouço choro todo dia: Zé da Velha, Silvério Pontes, Tira-Poeira, Época de Ouro, Zé Nogueira. Eu escuto tudo, os tradicionais, os modernos. As músicas de choro que eu mais gosto vêm daquele tempo que eu tocava cavaco: gosto muito de Naquele Tempo, de Pixinguinha, Minhas mãos, meu cavaquinho, de Waldir [Azevedo]. É essa linha que eu gosto mesmo de escutar, de sentar pra escutar.

Você tocou no disco inédito de Joãozinho Ribeiro [Milhões de Uns, disco de estreia do compositor, gravado ao vivo no Teatro Arthur Azevedo, em novembro de 2012]. O que significou para você? Você vê o quanto o trabalho do maranhense é esquecido. Ali eram só composições antigas, só que totalmente atuais. Tem muita música ali que eu nem sonhava em tocar, são atuais, podem tocar em qualquer lugar. Foi uma experiência muito boa, os músicos, todo mundo voltado pro show. Eu já escutava muito [a música] Milhões de Uns, quando eu me vi naquele local tocando, era uma coisa que eu almejava fazer e hoje eu faço parte. Pessoas com quem eu nem sonhava tocar.

Com programa fraco, Globo quer continuar ditando moda no mundo da música pop(ular)

A bancada do Superstar. Foto: João Miguel Jr./ Rede Globo/ Divulgação

A TV Globo estreou ontem (6) mais um programa caça-talentos. Apresentado por Fernanda Lima – que não convenceu –, Superstar oferece à banda vencedora um prêmio que inclui um carro exclusivo, 500 mil reais em dinheiro e um contrato com a gravadora Som Livre, que lança gente como Roberto Carlos e as trilhas das novelas da emissora.

Exibido após o Fantástico, o programa é parecido com o recém-exibido The Voice, por que não basta copiar, tem que manter os nomes estrangeiros. Dá até pra dizer que este Superstar é um The Voice de bandas. Na bancada, os futuros padrinhos das bandas classificadas, Ivete Sangalo, Fábio Jr. e Dinho Ouro Preto, além do público, através de um aplicativo, ajudam a definir quem passa às próximas fases.

O do meio, ao menos na estreia do programa, era o mais equilibrado. A baiana era a “deslumbrada”, dançando e vibrando e apertando rapidamente o sim azul a qualquer coisa que aparecesse; o Capital Inicial, sempre iniciando suas frases com um ridículo “velho”, apertava o não vermelho a qualquer coisa que destoasse de algo mais próximo do rock, uma espécie de preconceito de gênero – musical.

Bandas diversas, de estilos idem, se apresentaram ontem, entre repertório autoral e covers. Nada fora do comum, nada digno de nota, eu diria. Podem até me pedir a paciência que eu finjo ter, que era o primeiro programa e blá blá blá. Não creio. Não acredito no formato. Dali pode até sair a nova sensação das paradas de sucesso, a nova febre musical do momento, mas nunca um Roberto Carlos, para citarmos novamente um eterno campeão de vendas. Talvez a emissora atinja seu objetivo: dá a uns desconhecidos a chance de gravar um disco com grande tiragem, alguma fama e a volta ao ostracismo. Difícil fugir deste esquema, não se iludam. Ou talvez eu seja ranzinza demais, vontade (ou esperança) de ver algo diferente e inteligente na tevê aberta (é possível!).

Uma coisa, a meu ver, ficou provada: o público que assistiu ao programa ontem é bem mais criterioso que o trio de sua bancada.

O futuro da censura

Entre lançamentos e reedições, outras obras podem ter o mesmo infeliz destino desta

Muito já se falou no assunto e eu só não vi mesmo a opinião do Lobão, que agora engrossa o coro de colunistas reaça da Veja. Em pauta as biografias e a censura prévia. Talvez o velho lobo esteja quieto por já ter escrito – com o grande Cláudio Tognolli – sua autobiografia.

Até aqui, de tudo o que foi dito, fico com Alceu Valença e Benjamin Moser. O grupo formado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paula Lavigne e Roberto Carlos – perdoem se esqueço alguém – é simplesmente ridículo, a começar pelo nome: Procure saber é um exemplo de pura arrogância.

A meu ver, quem já foi vítima de censura não tem o direito de se tornar censor.

Existem biografias boas e biografias ruins, como tudo na vida. Mas não será a censura que fará este filtro de qualidade. Num momento em que está muito em voga a pauta memória, justiça e verdade, por conta da Comissão Nacional que, apesar dos limites, procura esclarecer crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura militar brasileira, é no mínimo triste o comportamento da dita elite da emepebê.

Para além do interesse público, pra mim o buraco é bem mais embaixo. Agora censuram biografias. Já imaginou se num futuro próximo tentam censurar a literatura? Deliro? De jeito nenhum. Um ótimo exemplo é a clássica página 73 do Bregajeno Blues – Novela Trezoitão, de Bruno Azevêdo. Leiam-na e tirem suas próprias conclusões.

Este post vai com um abraço ao Paulo César de Araújo!

O maior segredo do Brasil é a tal da perna de pau do Roberto Carlos. Não pode comentar isso. É feio. É errado.

Podem reparar. Já viram isso em alguma revista? Programa de tv? Nada, não sai nada! É a informação mais subversiva do país. Entra governo, sai governo, aparece a nova promessa da música brasileira, morre a nova promessa da música brasileira, fulano chifra cicrano, Nelson Gonçalves abre o jogo, mas ninguém fala da perna de pau do Rei.

Teresa Cristina cai no bom rock

Cantora uniu-se à banda carioca Os Outros e dedicou disco ao universo poético na obra de Roberto Carlos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Não é a primeira vez que Teresa Cristina dedica um disco inteiro à obra de um compositor. Sua estreia, em 2002, com o Grupo Semente, se deu em A música de Paulinho da Viola, disco duplo em que passeou pelo repertório do portelense.

Há pouco mais de 10 anos ela foi figura de proa na redescoberta do samba a partir da Lapa, bairro carioca que deu ao Brasil diversos outros talentos do gênero. Teresa Cristina seria rotulada como sambista – ou cantora de samba –, limite que quase nunca coloca, por exemplo, Paulinho da Viola entre nossos grandes compositores. Como se o samba fosse coisa menor.

A intérprete não precisava provar nada para ninguém, mas, versátil, mostra que é bem mais que sambista ao dedicar um disco inteiro à obra de Roberto Carlos. Ou, antes, ao universo “real”, já que não se limita a composições dele, solo ou em parceria com Erasmo Carlos.

Roqueira – A fórmula é conta que fecha certeira: Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deck, 2012) passeia por um repertório que o faz fugir do óbvio, a começar por “transformar” a cantora em roqueira. Pela ousadia é um disco tão ou mais importante que As canções que você fez pra mim (1993), que Maria Bethânia dedicou ao repertório do ídolo da Jovem Guarda, para ficarmos em um exemplo mais ou menos próximo.

Com um disco lançado – Nós somos os outros (Bolacha Discos, 2006) – a banda carioca acompanha Teresa Cristina ao longo de 14 faixas, que viraram disco de estúdio após o encontro dela com o quarteto para um show em homenagem a Roberto já há alguns anos. O vocalista Botika canta solo em Você não serve pra mim (Renato Barros). Além dele, Os Outros são Eduardo Sodré (guitarra), Rafael Papel (guitarra) e Vitor Paiva (baixo e ukulele).

Yuri Villar (sax tenor, sax soprano, flauta e triângulo), Ricardo Rito (teclado e sanfona) e Antonio Neves (bateria) completam a “cama e mesa” de Teresa Cristina, garantindo o ar roqueiro e jovem-guardista do disco – embora o repertório se concentre na fase entre o “movimento” e o romantismo mais desbragado que culminaria na novelesca e comercialíssima Esse cara sou eu.

Aos descontentes com o Roberto de hoje em dia, um disco para ser ouvido sem susto: a música mais nova é Cama e mesa (1981). Emoções, do mesmo disco, por exemplo, ficou de fora, como Detalhes (1971), do disco em que foram pescadas Como 2 e 2 e I love you. A quem o acha datado, não o conhece, ou conhece apenas dos especiais de fim de ano na Rede Globo, este disco é ótima introdução, um rebobinar competente de parte importante de sua obra.

Escoltada pelOs Outros, Teresa Cristina mostra versatilidade em homenagem a Roberto Carlos

Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos: repertório

1. Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos), 1976
2. A janela (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1972
3. Como 2 e 2 (Caetano Veloso), 1971
4. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1973
5. O moço velho (Sylvio Cesar), 1973
6. Do outro lado da cidade (Helena dos Santos), 1969
7. O portão (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974
8. Você não serve pra mim (Renato Barros), 1967
9. Quando (Roberto Carlos), 1967
10. Nada vai me convencer (Paulo Cesar Barros), 1969
11. Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1981
12. I love you (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1971
13. As curvas da estrada de Santos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1969
14. Despedida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974

[O Estado do Maranhão, 21 de junho de 2013]

Maranhão 70

O discreto aniversário de 70 anos de Chico Maranhão, “um ser criador”.

ZEMA RIBEIRO

O compositor durante show no Clube do Choro Recebe (Restaurante Chico Canhoto) em 27/10/2007

Como era de se esperar, não houve estardalhaço midiático pelos 70 anos de Chico Maranhão, compositor tão importante quanto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, outros ilustres setentões da senhora dona Música Popular Brasileira. Nem os meios de comunicação de Pindorama nem os timbira deram qualquer atenção à efeméride.

“Para mim é uma data como outra qualquer”, me diz o compositor ao telefone, em 17 de agosto passado. A afirmação não demonstra arrogância, mas simplicidade e desapego. Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho, “nome usado unicamente para guardas de trânsito e delegados, com os quais ele não permitia a intimidade de seu verdadeiro nome – Maranhão”, como afirmou Marcus Pereira na contracapa de Lances de Agora (1978), há pouco mais de um ano descobriu um erro em seu registro de nascimento. “Nasci 17 e no registro consta que nasci 18; agora eu comemoro as duas datas”, diz. Avesso a comemorações, no entanto, o autor de Ponto de Fuga passou as datas em casa, lendo Liberdade, de Jonathan Franzen.

Puro acaso (ou descaso?), 17 de agosto foi a data em que o Governo do Estado do Maranhão anunciou a programação cultural oficial do aniversário dos controversos 400 anos de São Luís, em que figuras como Roberto Carlos, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo & Luciano desfilarão pela fétida Lagoa da Jansen, os shows sob produção da Marafolia, com as cifras mantidas em sigilo, em mais uma sangria nos cofres públicos. Como outros artistas de igual quilate domiciliados na Ilha, Chico Maranhão ficou de fora.

“Quando eu tava em São Paulo [estudando Arquitetura e já envolvido com música, participando dos grandes festivais promovidos por emissoras de televisão, na década de 1960] e resolvi vir embora, muita gente me desaconselhou. Eu vim, sabendo para onde estava vindo. Sou feliz aqui, apesar de ver a cidade crescendo desordenadamente, de saber que daqui a algum tempo acontecerá aqui o que já aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador: você não poder mais sair de casa ou por que não há espaço para seu carro ou por que você pode ser assaltado em qualquer esquina”, conta Chico, que revela estar com um disco praticamente pronto. “Estou esperando passar esse período de campanha eleitoral, em que os estúdios ficam todos ocupados para finalizar”.

Maranhão (1974)…

A obra musical de Chico Maranhão tem uma qualidade extraordinária e ao menos três discos seus são fundamentais em qualquer discografia de música brasileira que se preze: Maranhão (1974), do mais que clássico frevo Gabriela, defendido em 1967 pelo MPB-4 em um festival da TV Record, Lances de Agora(1978), de repertório impecável/irretocável, gravado em quatro dias naquele ano, em plena sacristia da Igreja do Desterro, na capital maranhense, e Fonte Nova (1980), da contundente A Vida de Seu Raimundo, em que Maranhão recria, a sua maneira, a barra pesada da ditadura militar brasileira (1964-85) e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI.

… Lances de Agora (1978)…

A trilogia é tão fundamental quanto rara: lançados pela Discos Marcus Pereira, os discos estão esgotados há tempos e confinados ao vinil. Curiosamente nunca foram relançados em cd, como os trabalhos de Canhoto da Paraíba, Cartola, Donga, Doroty Marques, Papete e Paulo Vanzolini, para citar apenas alguns poucos nomes produzidos e lançados pelo publicitário, que após mais de 100 discos em pouco mais de 10 anos, acabaria se suicidando, acossado por dívidas.

… e Fonte Nova (1980): a trilogia fundamental de Chico Maranhão

A estreia fonográfica de Chico Maranhão data de 1969. À época, seu nome artístico era apenas Maranhão e ele dividiu um disco brinde com Renato Teixeira, um lado para composições de cada um. Do seu já constava Cirano (que apareceria novamente em Maranhão e Lances de Agora), para a qual Marcus Pereira já nos chamava a atenção à qualidade literária desta obra-prima. “Este disco merece um seminário para debate e penitência”, cravou certeiro o publicitário na contracapa de Lances de Agora. Bem poderia estar se referindo à obra de Maranhão como um todo.

Formado em Arquitetura pela FAU/USP, na turma abandonada por Chico Buarque, a formação acadêmica de Maranhão, também Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE, certamente influencia sua obra musical, onde não se desperdiça nem se coloca à toa uma vírgula ou nota musical, em que beleza e qualidade são a medida exata de sua criação. “Na verdade, sou um criador, não me coloco nem como arquiteto nem como músico, sou um homem criador, o que eu faço eu vou fazer com criatividade, com qualidade”, confessou-me em uma entrevista há sete anos.

A obra de Chico Maranhão merece ser mais e mais conhecida e cantada – para além do período junino em que muitas vezes suas Pastorinha e Quadrilha (parceria com Josias Sobrinho, Ronald Pinheiro, Sérgio Habibe e Zé Pereira Godão), entre outras, são cantadas a plenos pulmões por multidões que às vezes sequer sabem quem é seu autor.

A reedição de seus discos em formato digital faria justiça à sua obra infelizmente ainda pouco conhecida, apesar de registros nas vozes de Célia Maria (Meu Samba Choro), Cristina Buarque (Ponto de Fuga), Diana Pequeno (Diverdade), Doroty Marques (Arreuni), Flávia Bittencourt (Ponto de Fuga e Vassourinha Meaçaba), MPB-4 (Descampado Verde e Gabriela) e Papete (Quadrilha), entre outros.

As palavras de Marcus Pereira, em que pese o número hoje menor de lojas de discos, continuam atualíssimas. A contracapa agora é de Fonte Nova: “‘Lances de Agora’, o mais surpreendente e belo disco jamais ouvido pelos que a ele tiveram acesso, nesta selva do mercado brasileiro onde, em 95% das lojas, encontram-se apenas 100 títulos de 20.000 possíveis. Esses 100 discos privilegiados todo mundo sabe quais são. Este ‘Fonte Nova’ é um passo além de ‘Lances de Agora’. Quem duvidar, que ouça os dois. Mas os seus discos são de um nível poético e musical que, no meu entender, não encontra paralelo na música brasileira”.

[Vias de Fato, agosto/2012]

São Luís: os 400 anos e sua imprensa

Jornais da capital maranhense repercutiram o anúncio pelo Governo do Estado do Maranhão das festividades de comemoração dos controversos 400 anos de São Luís.

Da família da governadora Roseana Sarney O Estado do Maranhão é o que traz a maior matéria sobre o assunto, o que não quer dizer a melhor (ou a menos pior). O texto, entretanto, não passa de um grande publieditorial, em vez de jornalismo, cometendo equívocos como dizer que a Biblioteca Pública Benedito Leite será inaugurada quando o correto seria dizer reinaugurada.

A governadora do Maranhão Roseana Sarney e o prefeito de São Luís João Castelo não dialogam; isto é, em alguns dias deverá ser anunciada outra programação oficial dos 400 anos da capital maranhense pelo segundo, em ritmo de campanha pela reeleição.

Não houve qualquer planejamento para a pretensa megafesta que se avizinha e o caos deve se instalar na Lagoa da Jansen, palco dos shows. Artistas como Gilberto Gil, Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Alcione, Zeca Pagodinho e Rita Benneditto (que todos os jornais continuaram chamando Rita Ribeiro, mesmo após a mudança do nome artístico da cantora) não têm agendas tão simples de se encaixar em uma programação em cima da hora.

Perguntas básicas que deveriam ter sido feitas por algum/a jornalista presente à coletiva em que a filha do presidente do Senado anunciou a programação: quanto custará aos cofres públicos a farra dos 400 anos? Quanto custa cada cachê das megaestrelas contratadas e anunciadas? De onde sairão estes recursos?

A cobertura domesticada do anúncio das festividades, com o Jornal Pequeno limitando-se a copiar o G1 (no Maranhão sinônimo de Mirante), fez-me lembrar do saudoso Millôr Fernandes, colecionado por Ruy Castro em Mau humor: uma antologia definitiva de frases venenosas [Companhia das Letras, 2007]: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

O engodo Paula Fernandes

(OU: A FALSA NINFETA)

“A marca registrada da mineira são os figurinos com cintura marcada, decotes e minissaias. Ela sabe o que isso provoca. “Paula sempre pede para encurtar a saia e apertar a cintura o máximo que puder”, conta Fabiola Senra, consultora de estilo da artista. Fora dos palcos, usa blusinha e calça jeans. “Ela já me disse que não gosta do visual ‘Barbie sertaneja’, mas são negócios”, diz o amigo e ex-assessor da cantora, Mauricio Santini. Gostando ou não, o fato é que Paula não está preocupada em ser cool. Ela representa o oposto das cantoras festejadas pelos críticos, como Tiê, Karina Buhr e que tais: usa de todo o seu arsenal para ser cada vez mais popular e ganhar dinheiro. Tem funcionado.”

Antes do vídeo, trecho da matéria Lady Paula, assinada por Ana Luiza Leal na revista Alfa [nº. 15, nov.2011, p. 78-79, Pelé na capa].

No vídeo, Paula Fernandes canta e dança um tema da novela global O Clone, recentemente reexibida [a ele chegamos, na busca do YouTube, através de dica em outro trecho da matéria, p. 80].

A confissão acerca do visual ‘Barbie sertaneja’, na modesta opinião deste blogueiro, traduz o que de fato é Paula Fernandes: um engodo. Antes, confesso: o er… an… crítico musical que aqui lhes escreve um dos que sempre que necessário elogia merecidamente estrelas como Tiê, Karina Buhr e não só, Céu, Mariana Aydar, Tulipa Ruiz, Juliana Kehl, Ceumar, Patrícia Ahmaral, Roberta Sá, Lena Machado, Tássia Campos e tantos outros nomes deste país de cantoras.

Quiçá não seja só o virual ‘Barbie sertaneja’ o que lhe desagrada: talvez Paula Fernandes sequer goste de música sertaneja, tendo caído de paraquedas no filão. Isto é, canta música sertaneja como poderia cantar qualquer outra coisa que esteja (ou estivesse) fazendo sucesso (forró, pagode, calipso etc.) e isso nada tem a ver com versatilidade. Se não, vejamos: ela estourou para o Brasil após um mise-en-scène em que era a ninfeta derramando-se para o “coroa” mais popular do país (em termos musicais, já que outro “coroa” superpopular estrela a capa de Alfa): Roberto Carlos. A partir daí tem sabido como ninguém explorar sua imagem, vide, novamente, as confissões da matéria (ou do trecho que recortamos para acá).

Ou seja, “a imagem sexy no palco e o vozeirão de mulher em contraste com o jeitinho virginal e meio moleca virou a cabeça dos homens” [Alfa 15, p. 76]. O que ela quer é capitalizar, discordo com o “vozeirão” (ela quase não abre a boca para cantar e isto está longe da naturalidade de, por exemplo, Marisa Monte). Paula Fernandes sabe que a beleza não dura para sempre, logo, o quanto puder ganhar em menos tempo, usando mais da beleza (fabricada?) que do canto (idem?), ganhará, para que, em poucos anos, passado seu boom, possa gozar uma confortável aposentadoria.

Em tempo: Paula Fernandes se apresenta hoje em São Luís, na Nova Batuque (Cohama), à caça de mais níqueis para atingir seu intento.

Semana Sérgio Sampaio

SARAVÁ RELANÇA SINCERAMENTE

Em 2005 Zeca Baleiro inaugurava seu selo Saravá Discos lançando Ode descontínua e remota para flauta e oboé – De Ariana para Dionísio, coleção de 10 poemas do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), de Hilda Hilst, musicados pelo maranhense e interpretados por um time feminino de primeira linha da MPB, e Cruel, póstumo inédito de Sérgio Sampaio.

Fã confesso de Sampaio, Baleiro anunciaria, pouco tempo depois, o desejo de trazer ao formato digital Sinceramente (1982), disco do capixaba que até pouco tempo era encontrado apenas em vinil ou para download na internet.

Demorou, mas Sinceramente finalmente é relançado: disco tão bom quanto raro, foi o último lançado em vida, de forma independente, por Sampaio, que morreria 12 anos depois, em 1994, aos 47 do primeiro tempo.

Em 2007, quando Sérgio Sampaio completaria 60 anos, fiz pequenas entrevistas com algumas pessoas acerca de sua vida e obra. A ideia era escrever uma matéria por ocasião da data. Acabou não rolando. As entrevistas e depoimentos permaneceram inéditos.

Para festejar o lançamento Saravá, inicio aqui uma série de posts para tirá-los das gavetas virtuais. Ou colocá-los, sabe-se lá.

Começo com Zeca Baleiro, que me respondeu por e-mail, dia 12 de abril de 2007, as cinco perguntas abaixo, sobre Sampaio, Cruel e um site dedicado à memória do artista (que este blogueiro não tem notícias atuais sobre o mesmo ter sido lançado ou não).

ENTREVISTA: ZECA BALEIRO

ZEMA RIBEIRO – Qual a importância, o devido lugar de Sérgio Sampaio na música popular brasileira?

ZECA BALEIRO – Acho que o Sérgio, junto a outros de sua geração como [Jards] Macalé, [Jorge] Mautner e [Luiz] Melodia [que participa de Sinceramente] inauguraram uma mistura de música brasileira com blues e rock, diferente da que foi experimentada pelos tropicalistas, muito bem-sucedida. Hoje seriam chamados de ecléticos, mas eram muito mais que isso, eram artistas muito intuitivos e sagazes que abriram uma picada nova, vigorosa e com muita, muita poesia.

Por que artistas de seu quilate morrem, na miséria, em quase completo desconhecimento por parte da maioria da população? Não saberia discorrer sobre o tema, que é muito complexo. Não gosto de simplificações, há sempre muitos fatores a serem analisados, inclusive a própria postura do artista diante do mundo, do mercado, do “sucesso”. Enfim, difícil dar qualquer palpite sobre isso.

O que significa para você produzir um disco póstumo de um grande ídolo? O resultado satisfez tuas expectativas, sejam elas comerciais, estéticas, emocionais etc.? Sobretudo emocionais. Pra mim foi um acerto de contas com o Sampaio, com o que a sua música causou em mim, de uma forma definitiva. Foi um disco também muito bem recebido pela crítica. E tem tido uma venda modesta mas satisfatória, sempre crescente.

De onde partiu a ideia de lançar um site, cuja intenção, imagino, é, além de preservar a obra de Sampaio, torná-la conhecida dos mais novos? Quem está envolvido neste projeto? Há muita gente envolvida no projeto, que começou após uma conversa com Angela e João, sua ex-mulher e seu filho. Há colaboradores como Sérgio Castellani, jornalista e grande fã do Sampaio; Rodrigo Moreira, que escreveu sua biografia e Sérgio Natureza, parceiro do Sampaio e grande poeta e compositor. Acho importante a existência do site, pois garante um pouco mais de permanência do Sampaio, o personagem, pois sua música já está no panteão dos grandes, mesmo que o mundo a desconheça.

O lançamento de Cruel cumpre uma função importantíssima no sentido de difundir a obra de Sampaio, mas a tiragem é pequena, bem como o relançamento dos discos do compositor em cd, cujas tiragens, idem, logo se esgotam. A que você credita o, ainda hoje, quase total desconhecimento da obra do autor de Eu quero é botar meu bloco na rua, como Sampaio é mais comumente lembrado, pelos brasileiros? Sampaio teve um sucesso estrondoso com o [Eu quero é botar meu] Bloco [na rua], vendeu mais de 500 mil cópias à época, um verdadeiro fenômeno de vendas, comparável apenas a Roberto Carlos, seu conterrâneo e maior vendedor de discos do país. Depois disso, sua carreira desandou, e embora tenha feito discos artisticamente fantásticos, foram grandes fiascos comerciais, o que o relegou a um grande ostracismo. A desinformação do público também colabora, por isso é tão importante a criação do site.

Doc didático reconta história do rock brasileiro, ainda que de forma superficial

Rock brasileiro – História em imagens [documentário, Brasil, 2009, 70min., direção: Bernardo Palmeiro], exibido ontem (9) no Maranhão na Tela, traça um panorama da cena rock no Brasil desde o seu início até os dias atuais. Do nascimento, entre a Jovem Guarda e a Tropicália, com Roberto e Erasmo Carlos, Gilberto Gil e Os Mutantes, passando por Novos Baianos e Raul Seixas – talvez o nome mais importante do gênero no Brasil até aqui –, até a falta de rebeldia e excesso de emotividade de nomes contemporâneos como Fresno e NX Zero.

É um filme linear e extremamente didático, perfeito para iniciantes no assunto – o filme foi feito para uso em escolas, fico sabendo depois da sessão. A montagem tem seus defeitos, com excesso de branco nos cortes e “colagens” das imagens anunciadas no título – fala-se, por exemplo, em Secos & Molhados, e fotos de Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad, integrantes do revolucionário conjunto, sobrepõem-se umas às outras, tentando em vão uma unidade. Incomodam também as capas de discos de Raul Seixas passando em frente ao depoimento de Charles Gavin (ex-baterista de Ira! e Titãs, responsável pelo relançamento em cd de discos fundamentais da música brasileira, hoje apresentador de programas sobre música no Canal Brasil).

Outro defeito pode ter sido justo a falta de recorte: impossível cumprir a promessa do título em pouco mais de uma hora de filme. O assunto dá muito pano pra manga e nomes importantes são esquecidos ou subestimados. Tim Maia, por exemplo, tem sua importância para o rock nacional, seja ao ensinar Roberto e Erasmo a tocar violão, seja ao influenciar Os Mutantes – “Qualquer semelhança com Tim Maia é mera coincidência”, nos avisam Rita e os irmãos Baptista no encarte do Jardim Elétrico (1971) –; Chico Science parece ser apenas mais um, surgido nos anos 1990. Não é. Francisco Ciência – como o chamaria um radical Ariano Suassuna – é o responsável pelo último movimento da música brasileira, o manguebeat, uma personalidade importantíssima no panorama da música brasileira recente.

Pitty, num depoimento que soa meio arrogante, diz algo como “não é por eu ser baiana que eu tenho que colocar um berimbau no rock”, referindo-se ao hibridismo que muitos tentaram, sem sucesso – ou com sucesso e sem qualidade. Acerta a moça ao dizer que na Nação Zumbi isso soa(va) natural, sem forçar a barra – eu acrescentaria aí o mundo livre s/a, para ficar apenas em mais um nome do movimento pernambucano. Lobão e Lulu Santos, gostemos ou não, são outros dois nomes simplesmente “esquecidos”. Vivas à lembrança de Júlio Barroso e sua Gang 90.

Embora o filme não traga imagens raras não deixa de ser pelo menos engraçado analisar o figurino de astros como Cazuza – com uma calça coladíssima num Rock in Rio – e/ou as bermudas e camisas coloridas d’Os Paralamas do Sucesso – noutro. Ou no mesmo. Ou num Hollywood Rock, sei lá.

Embora reconheçamos as dificuldades para se conseguir falar com determinados artistas, a voz em off do narrador é recurso que poderia facilmente ser dispensado com mais depoimentos. Os de Liminha são um capítulo à parte: tendo tocado com Os Mutantes, produziu discos d’Os Paralamas do Sucesso, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Nação Zumbi, entre outros. Ele, quase a própria história do rock brasileiro.