Azeda e sincera

Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução
Rita Lee: uma autobiografia. Capa. Reprodução

 

Rita Lee: uma autobiografia [Globo, 2016, 294 p., R$ 44,90] não era a primeira incursão da ex-Mutantes e ex-Tutti-Fruti no mundo literário – a mais recente, Storynhas [Companhia das Letras, 2013, 96 p., R$ 39,90], ilustrada por Laerte, trazia pequenas histórias expandidas do sucesso que fazia no twitter. É bem escrita, apesar do miguxês típico das redes sociais, aqui a autora inventando novas palavras, acolá chamando todo mundo de fofo ou fofa, quase uma Hebe Camargo – outra que recebe o adjetivo ao longo da narrativa de capítulos curtos.

É inegável a importância e o pioneirismo de Rita Lee, 70 anos em 2017, para a afirmação feminina, extrapolando inclusive os limites do ambiente machista do rock – e de resto, da música brasileira de modo geral, ainda que vivamos em um país de cantoras. “O clube do Bolinha afirmava que para fazer rock “precisava ter culhão”, eu queria provar a mim mesma que rock também se fazia com útero, ovários e sem sotaque feminista clichê”, diz.

O livro segue uma ordem cronológica, da infância à aposentadoria – Rita Lee não grava ou lança disco novo desde Reza [2012] – e tem sacadas bem humoradas, sobretudo na parte inicial, dedicada ao casarão em que vivia com os pais e as irmãs.

A cantora e compositora não poupa sequer a si mesma e narra, nunca perdendo o bom humor, desde o estupro com uma chave de fenda que lhe tirou a virgindade a problemas com drogas, lícitas ou não, um aborto, passando por cirurgias das cordas vocais e hemorroidas, censura durante a ditadura militar, entre tantas aventuras glamourosas ou não, mais ou menos típicas do universo dos famosos, incluindo o casamento com Roberto de Carvalho, cujo namoro teve por cupido Ney Matogrosso, de cuja banda ele então fazia parte, e os dias que passou grávida na prisão – com direito a estardalhaço midiático, à época.

Os bichos de estimação (incluindo cobras e jaguatiricas) que teve ao longo da vida ganham destaque nas páginas da autobiografia de Rita Lee, que confessa ser a defesa dos animais a única bandeira que empunhou na vida.

“Numa autobiografia que se preze, contar o côtè podrêra de próprio punho é coisa de quem, como eu, não se importa de perder o que resta de sua pouca reputação. Se eu quisesse babação de ovo, bastava contratar um ghost-writer para escrever uma “autorizada””, afirma. Só se autocensura ao citar um episódio ocorrido em Aracaju, quando o texto do livro vem tarjado (portanto ilegível) ao longo de duas páginas.

Senhora de si, por vezes soa arrogante ou pretensiosa, mesmo quando quer posar de modesta, quando critica este/a ou aquele/a disco ou música de sua autoria. Noutras, deselegante e ressentida, sobretudo ao lembrar os tempos vividos com os irmãos Arnaldo Baptista – seu ex-marido – e Sérgio Dias, companheiros de Mutantes.

“Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela”, justifica-se, apontando os dedos para críticos e jornalistas como Carlos Calado, autor de A divina comédia dos Mutantes [Editora 34, 1995, 358 p., R$ 64,00].

A autobiografia de Rita Lee perpassa toda sua discografia, desde O’Seis pré-Mutantes, até o derradeiro solo, com opiniões da cantora sobre tudo – é bastante dura ao falar de Tecnicolor, gravado pelos Mutantes em Paris em 1970, e só lançado no Brasil em 2000, outra oportunidade em que alfineta Sérgio Dias, segundo ela o responsável pelo lançamento tardio do álbum renegado. Para ela, ele é um dos que não aceitam que aqueles bons tempos não voltam mais graças aos deuses da música, para quem lançamentos do tipo, e revivals como os shows no Barbican Theatre, em Londres, em 2006 (que viraram cd e dvd), em que Os Mutantes tiveram Zélia Duncan nos vocais, servem apenas para os velhinhos pagarem os geriatras.

Rita Lee: uma autobiografia é um livro gostoso de ler, que traz detalhes de bastidores de importantes períodos para a música brasileira, de pouco antes da Tropicália, passando pelo boom do rock nacional. Bem podia ser um pouco menos azedo, ou talvez a intenção seja mesmo essa, já que a polêmica em geral vende mais, podendo, portanto, significar mais grana para o geriatra. Uma coisa certamente não se pode dizer: que Santa Rita de Sampa – excomungada pela Igreja Católica – não tenha envelhecido com dignidade.

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Veja o clipe de Reza (Rita Lee/ Roberto de Carvalho), que dá nome a seu último disco:

Futebol, política e rock n’ roll em debate

 

No geral, nada importa mais para o brasileiro médio que o futebol. Por causa do esporte se morre e se mata, num fanatismo inexplicável. Não à toa o tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, no México, em 1970, com Pelé e companhia, foi usado como um reforço ao “ame-o ou deixe-o” travestido de civismo – e cinismo – da ditadura militar. Anos depois, o fim daquela década deu início ao maior movimento de contestação do regime dos generais em um clube de futebol: a Democracia Corinthiana.

O auge se deu em 1982 – quando a ditadura militar brasileira chegava à maioridade – e 83, com o Corinthians ganhando um bicampeonato paulista, com sobras de talento, futebol-arte, elegância e coesão. “Ganhar ou perder, sempre com democracia” era o slogan.

Paraense de nascimento, médico de profissão, socialista por opção, filósofo Brasileiro de batismo, Sócrates era o comandante da guinada à esquerda dentro do clube paulista, em que tudo passou a ser decidido coletivamente, reagindo a outra ditadura que ali se perpetuava, ganhando outras dimensões e conotações.

Os tempos eram outros, o rock brazuca, em seu nascedouro, ainda tinha algo a dizer, estádios não eram arenas, o futebol ainda não era apenas um esquema globalizado de jogadores com salários de cifras incontáveis, fora a publicidade, e ninguém tinha nada a ver com a vida privada dos craques.

Uma fala do apresentador Serginho Groisman sintetiza Democracia em preto e branco – futebol, política e rock n’ roll [Brasil, documentário, 90 min., direção: Pedro Asbeg], filme que resume bem essa história: estão ali os três assuntos do subtítulo, que em geral somos ensinados a não discutir – certamente por ranço da ditadura –, o último por mera questão de gosto (cada um tem o seu). Às vezes a conta era fechada com religião, outro assunto indiscutível – ouvi a advertência muitas vezes na infância e adolescência.

Narrado por Rita Lee e fartamente ilustrado pelo nascente brock e por golaços corintianos da época – torça-se ou não pelo alvinegro do Parque São Jorge, é inegável a categoria daquele elenco –, o filme traz depoimentos de músicos, jornalistas, jogadores de futebol e políticos, para contar um capítulo importante da história recente do Brasil, sob uma ótica bastante original.

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Acontece hoje (24), às 16h, no auditório Mário Meireles (Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal do Maranhão), a sessão de abertura da mostra Cinema Pela Verdade, que em 2015 chega à sua quarta edição.

Após a sessão, gratuita e aberta ao público em geral, este que vos perturba participa do debate com os professores Luiz Eduardo Lopes (História/ UFMA/ Pinheiro) e Adriana Facina (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/ Museu Nacional/ UFRJ), coordenadora pedagógica do projeto.

A menina que conquistou o coração dos mestres do choro

[Release para Festejos, estreia em disco de Alexandra Nicolas]

Festejar é o destino de Alexandra Nicolas e de seus ouvintes

Maranhense estreia em disco com repertório de Paulo César Pinheiro

Festejos sai pela Acari, maior gravadora especializada em choro do Brasil

Márcio Vasconcelos

TEXTO: ZEMA RIBEIRO

“Eu cheguei sem ninguém saber que eu vinha”. Desde antes de nascer Alexandra Nicolas já era uma surpresa. Filha de mãe solteira, foi cúmplice da genitora, que escondeu a gravidez enquanto pode. O pai, músico e boêmio, ela só viria a conhecer aos cinco anos de idade. Foi criada por três mulheres – a mãe, a tia e a avó.

Sua mãe gostava de cantar e foi em uma tertúlia que seus pais se conheceram. Desde cedo a menina pegou gosto pela coisa. “Eu cantava desde criancinha. E eu não podia sair das rodas, que eles me chamavam: “agora é a vez da menina!”. E eu me lembro, muito nova, de cantar músicas de Nelson Gonçalves, Silvio Cesar, Elizete Cardoso, Clara Nunes, Rita Lee, Novos Baianos, Genival Lacerda, Elba Ramalho”, cita entre gostos passageiros e referências que permanecem até hoje.

Acreditando nos sonhos, a adolescente Alexandra chegou a largar o curso de Pedagogia e foi ao Rio de Janeiro estudar canto, dança e teatro. Sua mãe hospedou-a num pensionato, à época inviabilizando a carreira: “Todos os lugares em que eu podia cantar eram à noite e eu tinha que voltar para casa antes da meia noite”, lembra a cinderela de então.

Do pensionato para a música? Nem pensar! Alexandra só pode mudar-se para um apartamento quando passou no vestibular para Fonoaudiologia, profissão em que se formou e exerceu por pouco mais de 10 anos – a música sempre em paralelo, nunca de menor importância, a vida entre o consultório e os palcos. Após coordenar o curso de fonoaudiologia em uma faculdade particular em São Luís, ela deixou a profissão. Da música, afastou-se apenas para dedicar-se às primeiras infâncias de seu casal de filhos, hoje com sete e seis anos. Uma parada apenas temporária, embora ela não viva, ainda hoje, exclusivamente de música.

“Tudo o que fiz até hoje foi por necessidade, por amor, por que eu não consigo fazer nada que eu não pense em fazer bem feito”, diz, talvez explicando a demora em gravar o primeiro disco, Festejos. Mas nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Eu já gostava muito do Paulo César Pinheiro, principalmente suas parcerias com Mauro Duarte, Sivuca, João Nogueira. Vinha de alguns shows por aqui e estava com a ideia de fazer um em homenagem a Clara Nunes. Numa viagem ao Rio, meu amigo Celson Mendes mandou um e-mail para Luciana Rabello. Segundo ele, ela poderia me dar algumas dicas. De início não acreditei muito que ela fosse responder. Ela respondeu e me convidou para ver e ouvir o bandão da Escola Portátil. Algo incrível! Todos os alunos da Escola Portátil, 40 pandeiros, 15 cavaquinhos, 10 flautas etc., juntas, sob uma árvore, tocando ao mesmo tempo com [o baterista] Bolão de maestro”. Terminada a apresentação, Luciana levou-a para tomar um chopp na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Era a rua em que ela tinha morado, e Amélia Rabello, irmã de Luciana, morava no mesmo apartamento que Alexandra ocupou em seus dias e noites cariocas. Sem saber, a anfitriã acabou escolhendo ainda a mesma mesa em que a maranhense costumava sentar vindo da faculdade.

Nada na vida de Alexandra acontece por acaso. “Então você quer homenagear a Clara Nunes? Mas você gosta da cantora ou do compositor?”, indagou Luciana Rabello ao notar que nove das 16 músicas do roteiro eram de Paulo César Pinheiro. “Eu tenho certeza que Clara Nunes ia adorar este show se você pudesse transcender isso. Você precisa se mostrar como artista, sair de detrás dela. Eu recebo 80 e-mails por dia de gente querendo homenagear Clara”, aconselhou-a. “Paulinho [forma carinhosa como se referem ao compositor maiúsculo] tem mais de 2.000 canções. Se quiser eu te dou tudo inédito”, ofereceu.

Luciana Rabello acabou por descobrir a voz autoral de Alexandra Nicolas, mesmo esta não sendo compositora, e assumiu a função de diretora musical de Festejos. Mais que isso, se tornou amiga íntima, uma irmã querida e escolhida. “Ela foi uma bênção de Deus na minha vida”, diz a maranhense.

Tudo começou em Senhora das Candeias, show que ela apresentou duas vezes no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, e que batiza o projeto patrocinado pela Eletrobrás, através da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, que permitiu a feitura de Festejos, que sai pela Acari Records, a maior gravadora de choro no Brasil. Inicialmente ela recebeu uma fita com 20 composições de Paulo César Pinheiro: era o repertório do espetáculo. Para o disco, a amostra aumentou para quase 60 músicas, das quais 13 foram escolhidas, entre inéditas – a maioria – e regravações.

“Eu quero essas mulheres da festa!”, escolheu. “Todas as que Paulinho canta, elas são fascinantes, lindas e sensuais. É um amor puro! Elas possuem uma beleza que ninguém consegue ver. Quase ninguém consegue ver a beleza de uma lavadeira. Aí eu vi a verdade. Não era fantasia. Era palpável”. Alexandra começava a eleger o repertório de seu disco. Entre idas e vindas foram quase dois anos só na seleção do repertório, mergulhada de cabeça, corpo e alma.

“Paulo César Pinheiro é a pessoa mais leve que eu já vi na vida. Não sei de onde tira tanta simplicidade. Nem parece que existe, me deu o maior presente. Ele me deu a bênção e disse: “se você tiver que gravar um disco, quero que você grave aqui [no Rio de Janeiro]. Foi a partir daí que eu descobri verdadeiramente meu caminho”.

A partir de então, muitas idas e vindas na ponte aérea São Luís – Rio de Janeiro. Com ela festejam Adelson Viana (sanfona), Celsinho Silva (percussão), Dirceu Leite (flauta, picolo), Durval Pereira (percussão), João Lyra (arranjos, violão, viola), Julião Pinheiro (violão sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho e produção musical), Magno Júlio (percussão), Marcus Tadeu (percussão), Maurício Carrilho (arranjos, violão sete cordas), Paulino Dias (percussão), Pedro Amorim (bandolim) e Zé Leal (percussão).

Ao final de um processo de aprendizado, amadurecimento, risos, lágrimas e muita emoção, o próprio Paulo César Pinheiro definiu a ordem das músicas no disco e, acima de qualquer suspeita, escreveu sua apresentação: “acho que a maranhense conseguiu um belo disco. Abram alas pra ela que a festa começou”, para ficarmos com apenas um trecho.

Embalada pelo capricho do design de Raquel Noronha, a bolachinha é ilustrada por fotos de Márcio Vasconcelos, que captam Alexandra Nicolas, risonha e faceira, no sobrado em que nasceu o dramaturgo maranhense Arthur Azevedo, em 1855, uma segunda coincidência literária – a primeira é que Paulo César Pinheiro, apesar de nunca ter estado em São Luís do Maranhão, conhece-a bem a partir da obra de Josué Montello, e escreveu uma música que leva o nome da capital maranhense, faixa que fecha o disco.

Alexandra Nicolas sonha: “Eu quero fazer o Brasil cantar”. Nada na vida dela acontece por acaso.

FAIXA A FAIXAMárcio Vasconcelos. Festejos. Capa. Reprodução

1. Mironga (Paulo César Pinheiro): “É uma música que abrange todas elas [as mulheres], uma espécie de resumo
do disco. São os homens tocando tambor para as mulheres dançarem e festejarem. É uma música completamente
masculina, mas eu consigo ver a mulher nela, as mulheres que dançam ao som do tambor. Ele descreve, na verdade, a maneira de tocar, como se aprende a tocar um tambor. No final ele diz que tem mironga aí, ou seja, tem algo muito especial na maneira de tocar. “Tem quem bate e faz zoeira/ tem quem toca como quê/ quem comprou tambor na feira/ esse não sabe bater./ Foi no couro e na madeira/ que me disse um alabê/ tocador de capoeira/ não é de maculelê”. Então ele começa a fazer uma série de pontuações no ato de tocar tambor e as mulheres, como ele diz no texto que me apresenta, estão mirongando ao som do tambor. Mironga é uma festa!”

2. Balacoxê de Iaiá (Paulo César Pinheiro): “Na hora em que eu li o título eu fiquei imaginando um bumbum enorme de Iaiá. Na verdade, Balacoxê veio por essa sensualidade, de cortar cana, da mulher, e eu fiquei fascinada, por que a maneira como Paulo cantou essa canção, o que eu ouvi, é como se estivesse na fala dele, essa mulher, Iaiá, que corta cana, que “bota a roda pra rodar/ eu só vejo esse desenho na cintura de Iaiá”. Foi uma canção em que eu me vi. Me perguntei, meu Deus, será que eu vou cantá-la eu vendo Iaiá ou eu sendo Iaiá? Eu acho que de todas que eu cantei, eu era a Iaiá. Tava em mim, passava por mim, essa história de “como eu vejo, com o punho nas cadeiras/ Iaiá fazer”. Essa descrição pra mim, essa mulher, essa Iaiá, ela é incrível”.

3. Passista (Paulo César Pinheiro): “Foi o primeiro refrão que me chamou muito a atenção: “seu povo já foi do cativeiro/ mas hoje que o samba é uma nobreza/ é ela que reina no terreiro/ do samba outra vez virou princesa”. Achei muito forte ele ter trazido como o povo dela sofreu e como hoje ela é uma rainha, comanda o samba na escola. Isso me fascinou, saber que tem muita gente que vai pra vê-la. O samba trouxe essa majestade pra ela”.

4. Coqueiro novo (Paulo César Pinheiro): “Foi a praia daqui. Uma homenagem à minha praia, à praia em que eu cresci, em que eu brinquei na areia e, lógico, às morenas do Cabedelo, na Paraíba, às quais ele se refere, que fazem acessórios com a palha do coqueiro, vivem disso. São mulheres sofridas, mas quando escuto, eu me vejo na praia, sombra, vento nos cabelos e água fresca. Uma valorização do trabalho dessas mulheres, transformando a palha em objetos, bolsas, cintos, acessórios femininos”.

5. Presente de Iemanjá (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Quando Luciana me mostrou ela falou de uma pessoa que tinha que dirigir os arranjos do disco, chamada João Lyra [que assina parte dos arranjos, violões e viola do disco]. A primeira vez que o ouvi cantando, fiquei fascinada por ele, com a alegria que ele põe na canção. E eu ouvi Presente de Iemanjá com ele cantando e me remete à fartura. Quando fala de “jogar a rede pro céu/ e a rede cai no mar/ o que cai na rede é peixe/ é presente de Iemanjá”, isso me vem como abundância, as mulheres tendo o que comer, os homens saem para pescar e trazem o pão de cada dia, o peixe para fazer o almoço. Eu me vejo numa vila de pescadores. Ele trouxe um arranjo fantástico com Toré de índio pra canção, ficou muito forte. Tem o canto pra sereia, por trás de tudo isso, que é muito marcante. Eu não cantei orixás no disco, mas cantei pra Iemanjá, que pra mim sempre foi uma mulher encantadora, embora eu de início não soubesse bem o que era um orixá. Eu sabia que ela vivia no mar e eu sempre lembro da Iemanjá da Ponta D’Areia toda vez que eu canto”.

6. Lavadeira (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Paulinho me mostrou essa canção, eu já fascinada pelas mulheres, e ele não me contou que ia me mostrar. Eu tava na cozinha da casa dele, comendo, e ele colocando músicas, que ele adora. Quando eu ouvi isso na cozinha eu saí correndo pra sala, “Paulinho, o que é isso?”, e ele já com o sorrisão aberto, por que sabia que eu ia me interessar pela música. Pedi pra ele botar de novo, ele botou. Eu ouvi na voz da Andréia, que é uma cantora que gravou a música. A Luciana perguntou, “mas Alexandra vai gravar? Já gravaram!” E ele disse “não importa. A Andréia sumiu. É ela [Alexandra] quem vai fazer essa música aparecer”. É a canção mais cinematográfica do disco, descreve tudo o que uma lavadeira faz. É de uma sensualidade, de uma sensibilidade tão profunda. A lavadeira passa a ser uma deusa em vez de uma simples lavadeira. Luciana faz um cavaquinho que dói na alma, Mauricio Carrilho fez o arranjo perfeito e ainda criou um canto para a lavadeira: “Lá lá lá ia lá ia/ Madalena foi lavar” e vai embora”.

7. Roda das sete saias (Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro): “Eu ouvi cantada por Roque Ferreira, em uma das minhas viagens ao Rio, me apaixonei pela festa. Ela tem oito minutos, é um samba de roda fantástico. Fala das festas populares, tudo o que é cantado nas rodas das festas. Imagina um festejo acontecendo num terreiro, numa casa de festa… os grupos se formam a partir das afinidades: uma roda de samba aqui, uma caixeira tocando ali. Versos que surgem dessas afinidades da festa compondo um samba de roda com a música de Roque Ferreira, a letra de Paulo César Pinheiro e o arranjo de Maurício Carrilho. Eu costumo dizer que não sinto os oito minutos. Termino de cantar e pergunto: “vixe, já foi?” Ela foi uma música muito eleita aqui na minha terra. Fiz uma sessão com os compositores para ouvirmos o disco e muita gente gostou dela, por que ela é forte, ela lembra a gente, ela é muito Maranhão, é nossa…”

8. Coco da canoa (João Lyra e Paulo César Pinheiro): “Eu sou apaixonada por coco. Eu fui atrás de outro coco. Eu já tinha um coco no disco, acho um ritmo que mexe muito comigo. Quando eu era pequena, eu ia para a Rua Grande, e tinha uma cega que cantava um coco com um chocalhinho. Eu cresci com o coco muito presente na minha vida, mamãe sempre cantava em casa. Eu busquei mais um coco e como eu já tava encantada com o trabalho do João Lyra, com a alegria que ele emprega nas coisas, foi uma das canções que eu trouxe. Ela fala de um flerte na praia, de uma mulher faceira que não sabemos bem se é uma mulher ou uma sereia encantada. Gostei muito desse coco meio embolado, gostoso demais”.

9. Coco (Paulo César Pinheiro): “O coco é uma paixão. Ele é um trava-língua e a Luciana me mandou como um desafio para uma fonoaudióloga [risos]. Quando eu ouvi, pensei: “não vou conseguir cantar nunca!” É muita coisa e tudo muito rápido. Quando cantei e vi que o teatro todo cantou de novo… eu ensinei apenas uma vez e quando cantei a segunda parte todo mundo riu de tão embolado que tudo fica… e lindo… Fala de quebrar o coco, das quebradeiras de coco, a maneira como quebram o coco, que fazem a roda. Eu ia muito pra Pinheiro passar férias e comia muito coco babaçu. E pra mim não valia comer coco babaçu guardado, que mofa. Eu queria ver era ver o coco babaçu tirado por dona Mariazinha, que trabalhava na casa de meu pai, e a gente ia lá para um cantinho do quintal, debaixo duma árvore, quebrar coco”.

10. Bisavó Madalena (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Foi outra pescaria. Paulinho já atrás dos seus tesouros guardados e ele tentava falar para mim como era a canção. Mas como não vou me apaixonar por uma música que fala da bisavó de Wilson das Neves? Que rodou o Brasil inteiro, que era dançarina de primeira e rodou o país dançando todos os ritmos e era boa de gogó, de samba, de bumba meu boi… quando ouvi fiquei encantada pela música. Wilson já gravou e eu não resisti, por que ela dá um resumo dessa matriarca que recebe esse festejo. E eu pretendo abrir o show com ela”.

11. Soberana (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro): “Wilson das Neves novamente. Essa música eu me lembro de Paulinho, ele não só me mostrou, mas ele dançou, me mostrando como eu devia fazer no palco com minha saia. Foi a maneira mais poética, mais romântica, mais soberana que eu vi um homem falar de uma mulher. Eu acho que qualquer mulher no mundo dava qualquer coisa para ser essa mucama à qual ele se referiu. Ela “nunca foi mucama de qualquer laia”. É a música que mais mexe comigo no disco. É a minha música! Eu sou apaixonada… As pessoas perguntam “qual é a música de trabalho?” Eu só digo Soberana. Eu sei que existe essa mulher, até por que eu sei de muitas mulheres que são soberanas. Mas você chega a duvidar, de tão incrível que ela é, você se pergunta, “é tudo isso?”, por que sempre escapa algo, ela é incrível”.

12. Ava Canindé (Paulo César Pinheiro): “Foi um Divino Espírito Santo que foi trazido para mim. Luciana mandou propositalmente, pois sabia que eu fui imperatriz na infância [em festejos do Divino, em Pinheiro, pagando promessas de sua mãe]. Eu sempre falo que vejo as mulheres indo para as festas do divino, as caixeiras, as arrumadoras da bandeira, e ela fala da simplicidade e da organização dessa festa. O dia a dia, como as pessoas se vestem, como chegam, descreve a cidade, a igrejinha. E João Lyra trouxe o que há de mais surpresa no disco, o arranjo dessa música. Para quase todos os músicos ela é a mais forte. João não conhecia a batida do Divino Espírito Santo, e no entanto ele trouxe sopros, viola. Ficou muito linda, simples, nostálgica. Para eu conseguir cantá-la do jeito que eu cantei eu me imaginava com João e Paulinho, em um morro bem alto, olhando lá de cima para esta cidade e cantando”.

13. São Luís do Maranhão (Paulo César Pinheiro): “A maneira como Paulo descreve o Maranhão, a impressão que a gente tem é a de que ele estava aqui, e de uma maneira também muito cinematográfica. Você consegue ver o boi de uma forma tão simples. Cantar minha terra foi uma honra, com a letra dele, então. E ele não conhece. Conhece através de Josué Montello e é capaz de conhecer até mais que eu, por que Paulinho quando vai em um assunto, ele vai fundo, vai além, muito além… Pra mim foi um presente, ele interferiu nesse arranjo, ele estava presente nessa gravação, acompanhou de perto [o saudoso parceiro João Nogueira era, até então, o último artista visitado por Paulo César Pinheiro em estúdio durante a gravação de um disco]. E nada como o nosso mestre Arlindo Carvalho para dirigir e dar esse toque de Boi de Pindaré. Ela fecha o disco, fecha com minha terra, fecha onde nasci, fecha com São Luís”.

Fito bem podia ser sigla de Fábrica de Invenção de Tom Zé

[antes, dois avisos: um: isso não é jornalismo; e outro: o blogueiro viajou às próprias expensas]

A plateia cantou junto o show inteiro. No repertório, várias fases da carreira

Há coisa de 10 anos, eu, menino recém-entrado na boemia, assisti a um maravilhoso show de Tom Zé no Circo da Cidade, em São Luís. A abertura ficou por conta de Cesar Teixeira e na plateia, lotada, estava o saudoso Mestre Antonio Vieira, cuja obra o baiano elogiaria durante o show.

Passei o espetáculo inteiro entre assisti-lo e conversar com dona Neusa Santana Martins, esposa e memória do gênio de Irará. Lembro que, ao saber de sua apresentação na Ilha, fiz contato com o escritório do tropicalista em São Paulo e consegui comprar alguns discos que me faltavam na coleção.

Eufórico, furei a fila dos autógrafos, levado por dona Neusa: apertei a mão da banda inteira, abracei Tom Zé, lembrei de Caetano Veloso, em seu Verdade Tropical, escrevendo algo sobre o brilho dos olhos daquele homem miúdo na estatura, gigante no que faz – pude comprová-lo pessoalmente. Peguei autógrafo em Jogos de armar – Faça você mesmo, então seu disco mais novo, cuja turnê chegava ali por 2002 ou 3 em São Luís. Algum fotógrafo, no camarim, fez um retrato nosso, eu, o fã, e Tom Zé, o ídolo – jornalismo era algo em que eu apenas engatinhava ainda e, como não ia resenhar o show, não primei pelo “distanciamento”. Na ocasião eu era tiete mesmo. O fotógrafo pegou meu telefone. Deveria me cobrar no trabalho, dias depois, e entregar a foto. Nunca cobrou. Nunca vi a foto (se ela existir e o fotógrafo por acaso estiver lendo isto aqui, ainda estou disposto a pagar).

10 anos depois ou quase isso, estou a passeio em Curitiba e, conhecendo a urbe num ônibus de turismo, próprio para tal, descemos, eu e minha esposa, no Museu Oscar Niemeyer, também conhecido como Museu do Olho, por causa de uma das formas extravagantes da arquitetura do gênio centenário e damos de cara com a programação do Fito, o Festival Internacional de Teatro de Objetos, invenção do Sesi.

O público era enorme em uma área montada ao lado do museu, com várias salas onde aconteciam os espetáculos, em que, pelos anúncios que vimos espalhados pela cidade, um saca-rolhas se transformava em uma bailarina, uma chaleira vermelha virava uma senhora irada e assim sucessivamente. Éramos turistas, minha esposa já havia concluído as obrigações de trabalho que a haviam levado à capital paranaense e agora curtíamos a cidade. Adentrando o recinto do Fito, Naná Vasconcelos encerrava um show e um locutor anunciava outras atrações. A última do dia (sábado, 26) seria Tom Zé. Em meio ao “teatro de objetos”, ele era anunciado como “música/contramúsica”, eu leria depois, no programa. “Vamos terminar o passeio e voltar para cá”, decidi sozinho pelo casal. A jardineira, um ônibus aberto que de meia em meia hora circula por nem lembro quantos pontos turísticos curitibanos, ainda nos levaria à Ópera de Arame e Pedreira Paulo Leminski – o poeta mereceria um capítulo à parte, que talvez eu escreva por aqui em breve – e em Santa Felicidade, onde degustamos lasanha e vinho artesanal deliciosos. Antes, já havíamos passado pelo Passeio Público.

Niemeyer sempre me interessa, mas, qual “os barzinhos do Largo da Ordem”, o Museu Oscar Niemeyer estava entre as dicas do amigo Ademir Assunção. “Grande Ademir!”, eu repetia enquanto passeávamos, por lá, na noite anterior, entre bonitos botecos como o Bar do Alemão e o Sal Grosso. Ali ainda voltaríamos no domingo, para comprar lembranças para as sobrinhas e uns poucos parentes, a grana era curta. “Só nós mesmo para fazermos turismo assim”, eu dizia. Felisos. Lisos, mas felizes.

Tom Zé apresentou um show bastante interessante, passeando por diversas fases da carreira: músicas compostas no período da ditadura militar, como Todos os olhos (primeiro verso: “de vez em quando todos os olhos se voltam pra mim”; último verso: “eu sou inocente”) e Augusta, Angélica e Consolação aos estudos de samba, Hein?, e pagode, O amor é um rock e ElaEu – esta, abriu o show e foi repetida no meio, a pedido de uma fã mais próxima ao palco. Em Menina, amanhã de manhã, ele lembrou, generoso mas não modesto, da gravação de Mônica Salmaso, talvez definitiva, para a canção. “Eu sou a Mônica, ele é o Salmaso”, disse apontando para Jarbas Mariz, com quem dividiu os vocais, “uma dupla caipira”, prosseguiu, “menina amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens”.

O baiano ri e faz rir, conta histórias, diverte-se divertindo. Tira sons percussivos de agogôs e esmeris – com as luzes apagadas, as faíscas-estilhaços iluminam aquela espécie de galpão, completamente lotado. Em O jingle do disco, faixa pouco conhecida de The hips of tradition, do período de sua redescoberta a partir do interesse de David Byrne por sua música na década de 1990, ele exibe réplicas de vinis, cujos cds eram vendidos por dona Neusa, além de esposa e memória, assistente, secretária, produtora, empresária e quantos ofícios ela puder dar conta, sempre simpática.

Cumprimentei-a, antes do show, comprei dois discos que ainda não tinha. Depois acompanhei, cantando, grande parte do show, gratuito. Em Xique-xique foi até possível arriscar uns passinhos de dança, ou balançar o corpo cansado, algo próximo de, o que o espaço permitia, talvez nem dois pra lá, dois pra cá, no galpão entupido de adultos e crianças, remanescentes da programação que teve início à tarde. No bis, 2001, “parceria com Rita Lee”, com a plateia cantando junto, Jimmy renda-se e Moeda falsa: Tom Zé, que já havia tirado onda com os curitibanos, mudou a letra, lembrando-se das colônias germânicas e europeias em geral que ajudaram a formar e ainda habitam a cidade. O show não terminaria com o “eles vão tomar no fiofó”, verso final de Moeda falsa. Educado, “Mister Tom Zí” – a pronúncia de seu nome pelos americanos que o (re)descobririam há algum tempo – agradeceria o carinho dos paranaenses que tão atentamente prestaram atenção em sua música e performance. Aliás, que fique o registro: não é qualquer um que faz aquilo aos quase 80. Muito pulo e jogo de perna que eu, aos 30, não arrisco.

Do Maranhão, estando ali por mera sorte, senti-me contemplado nos agradecimentos. Depois de mais ou menos hora e meia de show preferi não enfrentar a fila do camarim e arriscar finalmente ter minha foto com Tom Zé, embora tenha anunciado a vontade à dona Neusa, antes dele subir ao palco. Mas era preciso acordar cedo no domingo, data em que estava marcado nosso retorno à São Luís: no espaço de tempo que ainda sobrava, ainda havia turismo a fazer.

Charme

Um dos grandes acontecimentos musicais do ano é, certamente, o segundo disco de Marcia Castro, recém-lançado, sucessor do bem sucedido Pecadinho (2007). Olha que charmoso o videoclipe de De pés no chão (Rita Lee), faixa que batiza o trabalho. Outra regravação charmosa é a de Preta pretinha (Moraes Moreira/ Galvão).