Cardume de talentos

Baiacu. Capa. Reprodução

 

O espírito libertário da poeta Hilda Hilst ronda a Casa do Sol, em Campinas/SP. O espírito libertário de Hilda Hilst e de seus 150 ou 160 cachorros, ninguém sabe ao certo.

A Casa do Sol abrigou uma residência artística, capitaneada por Angeli e Laerte, dois de Los Tres Amigos, grupo de quadrinhistas que a seu modo reinventou o panorama das HQs no Brasil entre o final da década de 1970 e início da de 80, com revistas como Chiclete com Banana e Piratas do Tietê, na ativa até hoje – Glauco, el tercer amigo, foi assassinado, junto a seu filho Raoni, em 2010.

A residência artística reuniu, além dos pais de Bob Cuspe e Muriel, artistas dos traços e das letras. 10 participaram da residência, e a eles se somaram os editores e outros escritores e poetas. A escalação completa: André Sant’Anna, Anna Cláudia Magalhães, Bruna Beber, Daniel Galera, Diego Gerlach, Fabio Zimbres, Gabriel Góes, Guazzelli, Ilan Manouach, Juliana Russo, Laura Lannes, Mariana Paraizo, Mateus Acioli, Paula Puiupo, Pedro Franz, Powerpaola, Rafael Sica e Zed Nesti.

Esse timaço deu na Baiacu [Todavia, 2017, 320 p.; R$ 84,90], bonito livro (ou revista?), batizada pelo peixe (venenoso) que “tem essa propriedade de inchar e ficar maior e assustar o tubarão que vem devorá-lo”, como afirma Laerte no editorial, um texto adaptado da abertura da residência artística, em 2017. “Mas o baiacu tem uma outra coisa, que é maravilhosa. O bicho faz uma mandala. No fundo do mar. Ele fica raspando a barriga na areia, horas e horas… Depois, visto de cima, é uma mandala, um círculo perfeito, com linhas geométricas indo para todos os lados. E ele faz aquilo por quê?… Por tesão”, continua.

Ou seja: a revista (ou livro?) já transpira arte desde o batismo, desde a capa (de Zed Nesti).

Na Baiacu a noção de autoria está diluída: são poucos os trabalhos assinados. É claro que há um índice ao final e você não é obrigado a lê-la (ou lê-lo?) na sequência. É possível saltar artistas, ir direto ao/à seu/sua predileto/a. Ou tatear às escuras: ler sem saber quem desenha ou escreve (é claro que, por exemplo, Angeli e Laerte, entre outros/as, têm traços característicos), tentando adivinhar.

Há cadernos de esboços, estudos, Mauricio de Sousa desquarado, ilustrações da casa, prosa, poesia. Arte e ficção dialogam e, imitando a vida, debatem, aqui e ali, o Brasil contemporâneo. A função da arte (ou sua inutilidade), o deslumbramento de novos ricos, o empoderamento de mulheres, negros/as e homossexuais, a violência, o Brasil sob a égide do golpe político-jurídico-midiático e machista que toma o país de assalto há quase dois anos, ideais de consumo como sinônimo de felicidade (enquanto humanos perdem empregos para máquinas), a própria dificuldade com os processos criativos ao longo da residência, direitos humanos, drogas, religião, vasto leque, sem abrir mão da ironia e do bom humor.

Gerações e vozes distintas numa encruzilhada artística cada vez mais rara. Não é todo dia que se vê um livro (ou revista?) tão volumoso(a), com (tanto) conteúdo (de qualidade), se inchando contra o vazio, o mau gosto, o bom mocismo, a isenção e nossas tristes mazelas. O agradecimento a Toninho Mendes, entre muitos/as outros/as, é mais que justo.

E a Baiacu ainda traz encartado o hilariante zine Pirarucu, argumento e arte de Diego Gerlach, complemento à altura, outro peixe poderoso, tirando onda com a residência, o ofício do artista de quadrinhos, o governo ilegítimo, sem poupar sequer o editor André Conti.

Após a/s leitura/s, a pergunta que não quer calar é: terá a revista (ou livro?) uma segunda edição? Quando?

Violência: ficção, realidade e atualidade

Nunca se chegou a um consenso sobre o cangaço: bandidos ou heróis? O que é mais interessante notar é o fascínio que o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, exerce até hoje, passado tanto tempo de sua atuação e dizimação.

Jurados de morte. Capa. Reprodução

Uma das histórias de Jurados de morte [Dupla Criação/7 Cores Gráfica e Editora, 2017, 26 p.; pedidos pelo e-mail teclandocomadupla@gmail.com ou telefone (98) 3227-7688] parte da sobrevivência inusitada de Cara de Cão, um cangaceiro cujo nome, pelas mãos e imaginações de Iramir Araújo e Beto Nicácio, autores da HQ, remonta a Cara de Cavalo, da icônica bandeira “seja marginal, seja herói” do artista plástico pré-tropicalista Hélio Oiticica.

Araújo e Nicácio, com anos de relevantes serviços prestados aos quadrinhos no Maranhão – convém lembrar que hoje, 30, celebra-se o Dia do Quadrinho Nacional –, atuam em todas as frentes: no mercado publicitário, na produção e publicação e na crítica, tendo mantido durante muito tempo colaboração com veículos de comunicação da ilha.

Esta Jurados de morte, lançada em dezembro passado na Comic Con Experience 2017, em São Paulo, tem os componentes de um bom faroeste: ação, violência, bom humor. Na primeira história, um grupo de cangaceiros é chacinado pela polícia – os macacos, como eram comumente chamados –, com apenas Cara de Cão sobrevivendo, no que reside o elemento surpresa da trama. Araújo e Nicácio partem de um elemento histórico (o cangaço) para sobrepor sua ficção.

Na segunda, uma trama em que a honra dita o preço da vida e esta flerta o sobrenatural. A história se passa em uma cidade do interior do Brasil, em que os poderes econômico e político têm estreitas relações. A revista não traz a típica advertência, mas bem poderia: “qualquer semelhança é mera coincidência”. À guisa de apresentação, troçam Araújo e Nicácio: “não duvide se lhe dissermos que as duas histórias desse volume nos foram contadas tal como as narramos, com um ou outro exagero ou uma ou outra omissão. Não duvide se lhe afirmarmos que, por as termos revelado, estamos, também nós, jurados de morte”.

Em ambas não fica delimitada sua localização no tempo – a do cangaço, obviamente, é mais fácil imaginar. Mas histórias como as de Jurados de morte podem acontecer em qualquer tempo e lugar: é que temas como a violência continuam atuais e reais, mesmo quando tratados sob as tintas da ficção.

Herança portuguesa

O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação

 

“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.

Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.

Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez.
Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.

Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria?
A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.

Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é?
A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.

No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório?
Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.

Arte: Diego Dourado/ Divulgação

Catirina e Pai Francisco em quadrinhos – para além do auto do bumba meu boi

Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução
Catirina e Pai Francisco. Capa. Reprodução

 

O quadrinhista Beto Nicácio volta ao universo da cultura popular do Maranhão em Catirina e Pai Francisco [Dupla Criação, 2016, 40 p.], nova hq que lança hoje, às 19h, na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande).

Em preto e branco, optando pela limpeza típica do cartum (também uma linguagem pela qual o autor se aventura), a revista vai além do auto do bumba meu boi, remontando ao ciclo do gado, quando Pai Francisco ainda era criança e seu pai deu a vida para salvar o dono da fazenda, seu patrão.

O que Beto Nicácio faz é uma livre adaptação da lenda, talvez a enriquecendo. Não concentra-se apenas no enredo em que Catirina, grávida, deseja a língua do mimoso, o boi predileto do patrão. Embora não fuja dele.

Caminho natural da publicação seria adentrar o ambiente de escolas públicas e privadas, contribuindo para a difusão da cultura popular do Maranhão, em linguagem acessível para todas as idades. A revista tem a preocupação didática de, ao final, explicar detalhes, propor atividades e o consequente aprofundamento dos leitores em temas abordados na história em quadrinhos.

Autor, entre outros, de A lenda da carruagem encantada de Ana Jansen, sobre outra conhecida lenda destas plagas, o autor já tem outros projetos mixando as tradições do Maranhão e a nona arte. Mas cada coisa a seu tempo e agora é tempo de São João.

A noite de autógrafos será regada a mingau de milho e na ocasião, uma arte original da hq será sorteada entre os presentes. A revista custa R$ 20,00.

Masterpiece

O herói e a lenda. Capa. Reprodução
O herói e a lenda. Capa. Reprodução

Fui alfabetizado por Tex Willer. Explico: tendo aprendido a ler um pouco antes, aos sete anos descobri as coleções de revistas do ranger de meus tios. Devorei um a um os volumes de minha primeira paixão literária. E logo passei a montar a minha própria coleção. Lembro particularmente de um sebista reclamar do “dois por um” normalmente praticado nas operações de escambo: ele achava que duas Turma da Mônica eram muito finas, referindo-se ao número de páginas, para valer um Tex.

Até o início da adolescência cheguei a ter uma razoável coleção com mais de 400 exemplares. Lamentei quando cupins deram cabo em boa parte dela. O que se salvou teve algum sebo como destino: seria muito difícil, numa era pré-internet, conseguir novamente os volumes destruídos. Passei anos sem voltar a ler Tex e fui devolvido ao vício pelo Breganejo Blues, de Bruno Azevêdo: o mito bonelliano era leitura de cabeceira – ou de porta-luvas – do taxista, detetive “de corno” nas horas vagas.

Está nas bancas o belo volume de Tex, O herói e a lenda, de Paolo Eleuteri Serpieri [Mythos Editora, maio/2016, 50 p., R$ 29,90]. “No Oeste, se a lenda se encontra com a realidade, vence a lenda” é o mote – de John Ford, no clássico O homem que matou o facínora – que ancora a história, que o autor dedica a Sergio Bonelli.

Mote que me faz lembrar a ocasião em que Ricardo Calil entrevistou João Gilberto pelo facebook – ou quem quer que assinasse seu perfil na rede social. Realidade ou lenda? Pouco importava: a revista Trip [março/2011] publicou a entrevista –na ocasião já citava o faroeste.

Em 1913, em Nova York, Kit Carson está internado num hospital psiquiátrico, também um asilo para idosos. Recebe a visita de um jovem historiador e, a princípio aparentemente cansado, chega a tratar mal uma enfermeira que ousa despachar a visita, julgando que o velho quisesse ou precisasse dormir. Logo Carson começa uma narrativa lembrando um feito cruel de Tex.

Na aventura colorida, o longevo personagem – publicado em diversos formatos há mais de 70 anos – já veste camisa amarela e calça azul, mas está como eu particularmente nunca o tinha visto antes: cabeludo. Como, em parte, o Carson que narra os feitos a seu interlocutor (guardo o inesperado desfecho para não estragar a surpresa dos leitores), lembrando a bravura e o heroísmo do companheiro de tantas aventuras, que se conheceram durante o episódio que conta, em que Tex vence sozinho uma legião de índios e brancos, liberta uma moça e chega a discutir com autoridades – bem ao estilo que o consagrou.

Ao jovem que ouve Carson e ao diretor do lugar em que ele está internado pode ficar a dúvida sobre Tex ter existido ou não passar de lenda. “Você percebeu que esse homem tem muita fantasia? Ele conta coisas que não aconteceram”, o segundo adverte o primeiro. Lenda ou realidade, importa mais estarmos diante de uma verdadeira obra de arte.

Modo de vida: poesia

Os párias Raimundo Garrone, Ademar Danilo e Marcello Chalvinski conversaram com o Homem de vícios antigos no Cafofo da Tia Dica. Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

“Não confio em ninguém com mais de 30”, diz o hit dos Titãs. 2016 marca os 30 anos da publicação da primeira edição da revista Uns & Outros, que ao longo de oito exemplares veiculou os poetas da Akademia dos Párias.

O nome do grupo trazia em si uma provocação: colocava os párias, isto é, a ralé, num local sagrado, a academia – referiam-se provocativamente à Academia Maranhense de Letras (AML). Na outra academia, a Universidade Federal do Maranhão, exercitavam a liberdade, a maioria deles no curso de Comunicação Social.

A Akademia dos Párias congregou, ao redor de poesia, álcool e drogas um estilo de vida que acabou por devolver à cidade de São Luís o status de cidade de poetas – para além do modorrento título, sempre contestável, de Athenas brasileira.

Jovens estudantes, alguns já formados, tomavam de assalto bares com seus recitais caóticos –porém sinceros. Os 30 anos da revista e, portanto, do grupo que a publicava, serão celebrados amanhã (19), a partir das 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com o lançamento de A poesia atravessa a rua, antologia que reúne 25 poetas publicados nos oito números da Uns & Outros.

No Cafofo da Tia Dica (por detrás da Poeme-se), Homem de vícios antigos conversou com os jornalistas Ademar Danilo e Raimundo Garrone e o publicitário Marcello Chalvinski, representantes de duas gerações (ou dentições) da Akademia dos Párias, todos poetas – ao menos em algum momento da vida –, todos publicados na Uns & Outros.

Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)
Foto: Leide Ana Caldas (10/5/2016)

Vocês abandonaram a poesia?
Raimundo Garrone – Eu continuo escrevendo, mas não publico.
Ademar Danilo – Eu me embruteci. O jornalismo me tirou da poesia.
Marcello Chalvinski – Eu publiquei três livros de poesia [Anjo na fauna, Temporal e Dom Juan] e o romance O plano [Prêmio Literário Gonçalves Dias da então Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão, 2008], e já estou com outro [de poesia] para publicar.

Garrone, um dia alguém vai achar inéditos em tua gaveta.
Garrone – Como aquela poeta americana, Emily Dickinson. Não é que eu queira ser póstumo, não. Poeta é quem se considera.
Ademar –“Inverno, primavera/ poeta é quem se considera”.
Garrone – Zeca [Baleiro] musicou [o poema de Paulo Leminski de cujo trecho Ademar lembrou]. Uma das coisas que me chamou muita atenção foi uma entrevista atribuída a Ferreira Gullar na qual ele diz que quando alguém o chama de poeta, ele diz ter vontade de responder “poeta é a mãe!”. Acaba sendo um xingamento, enxergam o poeta como aquela pessoa complacente, aquela pessoa no mundo da lua, ainda é uma ideia que se tem.

Poeta acaba sendo uma espécie de mestre ou compadre, aqui em São Luís é uma saudação. Muita gente aqui se aventurou de algum modo na poesia.
Marcello – Uma coisa interessante no Fernando Abreu é que, uma vez ele me disse, ele sabia que ia ser poeta desde que nasceu. Ele já tinha essa noção. Tem uma coisa que eu gosto de registrar: mais ou menos quando eu conheci essa turma, no final da década de 1980, acho até que foi Fabreu quem me falou, sobre a questão da verdade que a poesia precisa ter. Poesia só é poesia se ela tiver verdade, se ela tiver vivência, essa coisa intrínseca. Já na década de 90 eu tive outra constatação de que a poesia, na verdade, é uma forma de viver. O que se registra no livro são poemas, a poesia é a forma de viver dos poetas. Eu continuo publicando, alguém já disse que sucesso e fracasso são iguais, os dois são ilusões. Pra mim importa fazer, produzir, viver dessa forma: a poesia como jeito de ser, existir e perceber as coisas. O que sobra desse filtro é que vai ser o poema, aquilo que sobra, o que a cachaça não apaga e a noite não elimina da memória.
Garrone – Um detalhe importante em relação aos párias é que os párias não eram um movimento literário, mas uma forma comportamental, seja pelo ambiente político da abertura [o processo de redemocratização brasileiro, após 21 anos de ditadura militar], muitos de nós começamos a conviver na universidade, que vivia com a cabeça muito fechada em função do regime.
Ademar – Foi importantíssimo para aquela época. Nós, de certa forma, resgatamos a poesia para o dia a dia da cidade. Nós declamávamos, nós vendíamos revistas, nós tínhamos uma presença poética na cidade.
Marcello – Não era só escrever e publicar. Tinha os recitais, os párias, performances.

Esta mesa tem duas gerações da Akademia dos Párias. Deste lado a primeira geração, fundadora, e deste a segunda dentição, com Marcello, mais novo. Como é que vocês se conheceram e chegaram à Akademia?
Garrone – A UFMA foi um catalisador.
Marcello – Quando eu conheci a turma estava saindo o “quinto dos infernos” [a quinta edição da revista Uns & outros], Fabreu já tinha me convidado, mas eu não entreguei os poemas.
Garrone – Existiam uns bares que eram referência. Por exemplo, no beco do teatro tinha um bar que a gente sabia que só dava artista. Então a gente ia pros bares sabendo que íamos encontrar.
Marcello – E rolava recital. Não era uma poesia só textual, só escrita, só impressa. Era uma poesia que era feita nos bares, subíamos nas mesas e começávamos a recitar.
Ademar – A gente vivia isso.

Marcello, o que te trouxe à São Luís?
Marcello – Eu sou de Curitiba, tenho uma vida errática. Eu viajei, por 10 anos eu fiquei viajando o Brasil, com o trabalho que eu fazia, com cartografia, e escolhi um lugar para ficar. Eu gosto muito das pessoas daqui.

Vocês se conheceram na UFMA no curso de comunicação?
Ademar – Eu fazia Direito. Nós [ele e Garrone] éramos vizinhos. Os maus hábitos nos aproximaram.
Garrone – Aos 50 não se fala em vícios, se fala em hábitos [risos].
Marcello – Acho que no princípio toda a turma, a primeira dentição, era quase totalmente formada por estudantes da UFMA. A segunda dentição, ZéMaria Medeiros, Joe Rosa, eu mesmo, ninguém era aluno da UFMA.
Garrone – O Comunicarte [tradicional encontro promovido pelos cursos de Comunicação Social e Artes] tinha feito um impresso, com vários poetas, e nós resolvemos fazer a Uns & outros. Ela foi um embrião, a partir dali a gente se aproximou mais, fosse para mostrar que todo mundo podia fazer poesia, por que aqui em São Luís tem aquela coisa da tradição.
Ademar – Nós tivemos um incentivo muito grande do pessoal do Guarnicê [suplemento então encartado no jornal O Estado do Maranhão, depois uma revista independente], que eram Celso Borges, Joaquim Haickel, [Roberto] Kenard, Paulinho. Eram jovens, mas já casados, já tinham terminado os cursos, e nos acolheram. A palavra é essa: o pessoal do Guarnicê acolheu os párias. Ajudavam a gente a imprimir, eles já trabalhavam, Celso já era casado, Joaquim já era deputado, eles ajudavam. Era uma geração acima da gente.
Garrone – Naquela época não havia internet, os jornais circulavam bastante e você via ali, no domingo, aquele encarte, num jornal oficial, da família [Sarney, proprietária do Sistema Mirante de Comunicação], mas tinha algo diferente. Ousado, digamos assim. Isso acabou.

Afora a poesia o que vocês destacariam como elementos de interesse comum?
Ademar – Nós tínhamos estilos de vida parecidos. A maior parte de nós tinha militância estudantil, pensava coisas semelhantes, frequentava lugares semelhantes. Eu levei todo mundo pro reggae, todo mundo virou regueiro.
Marcello – Todo mundo progressista, libertário e doido.
Garrone – Havia também uma identificação com a geração beat, a coisa do pé na estrada. Eu e esse aqui [Ademar], a gente tem várias histórias de estrada [risos].

Qual foi a repercussão da primeira Uns & outros? Foi uma coisa pensada ou foi uma coisa meio “vamos reunir quem está escrevendo e ver no que é que dá”? Como é que foi isso?
Garrone – Já tinha essa base do jornal do Comunicarte. O que deu repercussão foi o lançamento, no Sapecas Bar [hoje extinto; na Rua das Flores, por detrás da Igreja de São João]. Pegávamos as revistas, todo mundo liso, e entrávamos nas salas de aula [na UFMA], pedíamos licença e entrávamos, recitávamos.
Marcello – A gente foi pra UFPA em 1993.
Ademar – Nós não achávamos que era uma coisa assim à toa. Nós já tínhamos inserção na sociedade. Naquele tempo eu já trabalhava em rádio, todos nós fazíamos movimento estudantil, nós tínhamos presença na universidade, presença na sociedade. A gente sabia que aquilo ia repercutir. O que a gente não tinha era uma estratégia de marketing pensada, mas a gente não fez à toa. A gente fez sabendo que era possível fazer. Era uma revista de-vez-em-quandal.
Garrone – Saia mais ou menos de seis em seis meses.
Marcello – Uma coisa que eu acho importante que se diga dos párias é que quando íamos fazer um recital eram poemas autorais, próprios, e muitas vezes de improviso. Diferente de outros que faziam leituras de poemas, vão ler Drummond, poemas já… [interrompe-se]. Com a gente, de vez em quando rolava um Baudelaire, um Launtréamont, mas a maioria eram poemas nossos.
Garrone – Os nossos recitais eram junkies mesmo. Tinha gente que batia palma e tinha gente que vaiava, jogavam copos, nós acontecíamos.
Marcello – Eu me lembro do Beco Cultural, a gente botou umas mesas no palco e ficou o microfone ali, a gente bebendo em cima do palco, de vez em quando um levantava, com seus papéis ou não, recitava um poema e as coisas iam fluindo. Assim eram as apresentações dos párias.
Garrone – Todos bêbados!

Uma coisa menos comportada. Era um grogue ao vivo.
Garrone – Era um grogue.
Ademar – O pouco que lembramos era assim [gargalhadas gerais].
Garrone – O Diário Oficial [do Estado do Maranhão], quando era publicado no Sioge [o Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado, hoje extinto], ele tinha um encarte cultural, era Alberico [Carneiro Filho, escritor e professor] que era o editor. Ele ia fazer, nós já tínhamos publicado a última revista, eu era editor de cultura de O Imparcial, e não sei por que cargas d’água, ele quis convidar os párias para fazer um recital lá no Sioge, nessa festa. Lá estavam Jomar [Moraes, escritor, membro da AML], a academia. Foi um escândalo!
Ademar – Diga-se de passagem, o Jomar Moraes não gostava nada de nós. Escreveu artigos detonando a qualidade da Akademia dos Párias. A Academia Maranhense de Letras não gostava, por que o próprio nome Akademia dos Párias mostrava essa contradição, a academia como essa coisa pompa e pária que é a ralé da sociedade.

Quer dizer, havia uma intencionalidade quando vocês batizam o grupo.
Ademar – Claro!
Garrone – Tem um poema de Bráulio Tavares, chamado Amor e verdade, que é um poema assim: “me dá tua mão!/ toca aqui [toca a calça na altura do pênis]/ sentiu? Acredita agora?” Quando eu fiz isso lá no Sioge, aí pronto, a família maranhense… [risos] ao ponto que acabaram com a festa, não nos pagaram o cachê.
Ademar – Nessa mesma época houve uma premiação, dessas premiações fajutas, do produtor que faz, os melhores do ano, e o melhor do ano na área cultural é o diretor financeiro não sei o quê que tem. Aí convidaram os párias para essa festa de melhores do ano no Casino [Maranhense, então um tradicional clube na avenida Beira Mar], onde estava a nata da inteligência formal de são Luís, os tidos inteligentes, acadêmicos e tudo mais, e era o troféu Apolônia Pinto de Cultura do Maranhão. E lá pelas tantas, eu já trabalhava na Mirante, o locutor do evento era [o radialista] César Roberto. Nós éramos temidos, as pessoas sabiam que a gente ia aprontar alguma. César Roberto na apresentação, eu trabalhava junto com ele, eu chego de surpresa nele, por detrás do microfone e digo: “César, a Akademia dos Párias vai fazer uma homenagem à cultura”, e César Roberto, confiando no seu amigo de trabalho [risos]. Tinha um camarote com Jomar Moraes, que era presidente da Academia Maranhense de Letras, e César Roberto anuncia: “e a partir de agora a Akademia dos Párias no troféu Apolônia Pinto vai fazer uma homenagem à cultura!”. Isso era de madrugada, e não se sabe de onde Paulo Melo Sousa [poeta e jornalista] aparece com um abacaxi, todos embriagados, e nós decidimos oferecer à Academia Maranhense de Letras. Era o troféu Apolônia Pinto, nós resolvemos oferecer o troféu Apolônia Pênis [risos]. Quando a gente se espanta Paulão jogou o abacaxi no camarote e esse abacaxi saiu caindo por cima deles lá, aquele alvoroço, a festa acabou por ali.
Marcello – Uma vez nós fomos convidados para representar a Akademia dos Párias num simpósio do curso de Letras da UEMA. Fomos Fernando Abreu, Joe Rosa e este seu amigo. Teve apresentação de todo tipo de poesia. A gente entra depois do coral da Igreja Maranata. A gente se apresentou e foi falar um pouco da poesia erótica. Cada um disse um poema e eu falei um poema de Bráulio Tavares. Quem tinha me convidado era uma professora que estava bem na minha frente. Era o Poema da Buceta Cabeluda, que tem versos como: “a buceta da minha amada é cabeluda/ e cabe linda na palma da minha mão”, quando eu falei mão, olhei para a professora ela estava vermelha, “a buceta da minha amada é cabeluda/ é o alfa e o ômega dos meus segredos/ e na minha língua é lambda”, quando eu falei lambda, a professora não estava mais lá. No final a confusão foi tão grande, a gente estava autografando livros, a meninada pirou, um professor que ia se apresentar depois da gente, disse “olha, eu ia fazer uma coisa meio escandalosa, mas depois dos párias eu vou parecer um anjinho”… e eu estava feliz, vendendo livro, dava pra beber, era aquela coisa, poesia e álcool, álcool e poesia. Aí chega a professora, com outro professor, vieram me dar uma bronca, por que eu tinha feito aquela coisa pornográfica. Eu argumentei: “mas professora, o objetivo da universidade não é atritar as inteligências?”, e eles “não, mas não sei o quê”, eu tentei argumentar, mas eles insistiram, eu virei e disse: “olha, eu já fiz [recitei] o poema, vocês querem que eu faça o quê, agora, com essa buceta, que eu raspe?” [gargalhadas]. Sempre havia um tipo de confusão por causa da ousadia. É como Garrone falou: ou aplaude ou vaia, indiferente não fica.
Garrone – Uma coisa engraçada é que uma vez fomos para Arari, ficamos hospedados na casa do prefeito, um evento só para professores e havia um poema de [Antonio Carlos] Alvim que dizia “grande e lúcida a buceta de Lúcia”, e nós pensávamos que íamos chocar, que fosse o inverso, mas eles receberam super bem. Havia uma preocupação em dizer ou não, e fomos surpreendidos. Para ver a contradição.
Ademar – O fato é que a Akademia dos Párias devolveu a imagem de São Luís como terra de poetas. O pessoal via aquele monte de moleque fazendo poesia. Boa ou ruim, mas fazendo poesia e projetando a poesia na cidade. A Akademia dos Párias foi muito importante para os anos 1980, para a cena cultural de São Luís, foi fundamental.

Vocês falaram há pouco de vender revistas em salas de aula. Quer dizer, havia certo respeito dos professores.
Ademar – Não era tanto respeito, era certa inevitabilidade.
Garrone – A gente pedia licença e entrava. Se eles dissessem não, a gente entrava do mesmo jeito.
Ademar – Isso nós herdamos do movimento estudantil.
Garrone – A universidade como uma casa aberta, era uma compreensão nossa. Você tinha relação com o Sá Viana [bairro por detrás da UFMA], não tinha muros. A gente sempre discutiu que a universidade era o espaço para se exercer a liberdade que a sociedade não permitia. Esse era o discurso que a gente tinha, não o discurso que se tem hoje de que a universidade é um grande colégio.

Nesse aspecto vocês não pensam que o ambiente universitário hoje não está meio estéril?
Ademar – Sem dúvida alguma! É outra realidade.
Garrone – Hoje em dia é o cara entrar, fazer o dever de casa, se formar, fazer o trabalho certinho e acabou. Não tem experiência nenhuma, não viaja.
Ademar – Não existe mais movimento estudantil. Hoje o movimento estudantil se sustenta com emissão de carteiras de estudante. O movimento estudantil não vai mais para os retornos pedir pedágio para a população ajudar na luta estudantil.
Garrone – Papai e mamãe bancam. Hoje se vai para encontro de estudantes, vai de avião, fica em hotel.
Ademar – Isso não existia na nossa época. A gente ia para a rua tentar arrumar dinheiro para viajar de ônibus e ficar em alojamento, em colégio. Hoje o movimento estudantil é uma máquina de fazer dinheiro, há empresas especializadas em organizar encontros. Isso não é saudosismo, pode parecer “ah, na minha época era melhor”, não era, era uma forma diferente de ver o mundo, as coisas eram mais conquistadas.

Que livros de cabeceira vocês elegeriam?
Ademar – [Charles] Bukowski em primeiro lugar, sem dúvida nenhuma, tipo obras completas.
Marcello – Os beatniks, Gregory Corso, [Lawrence] Ferlinghetti.
Ademar – Todo mundo lia muito e várias coisas.
Garrone – Na poesia tinha [Paulo] Leminski, antes de Leminski virar pop, digamos assim, a gente já lia. Chacal era uma referência, passou por aqui. Tinha Os Camaleões [grupo de poetas integrado por, entre outros, Pedro Bial] do Rio. Como a gente viajava muito para encontros, a gente conhecia grupos em salvador e trocávamos com o que fazíamos. Os irmãos [Augusto e Haroldo de] Campos. Ademar tinha Mulheres, de Bukowski, foi o primeiro que a gente viu. Nós tínhamos só uma livraria, que era a Espaço Aberto, aqui na Rua do Sol, era a livraria de Josias Sobrinho [compositor].
Marcello – Talvez uma das maiores divisas da Akademia dos Párias seja de Ferreira Gullar. Aquele trecho “loucos são todos em suma/ uns por pouca coisa, outros por coisa alguma”.
Ademar – Saiu em todos os números [como uma espécie de epígrafe] e representava a nossa loucura mesmo.
Garrone – Bráulio Tavares eu conheço duma edição da Abril que vendia em bancas. Com a Companhia das Letras é que começou a surgir uma literatura mais voltada para nosso caminho. A primeira tradução de [Vladimir] Maiakovski que eu li foi uma tradução portuguesa horrível. Aí tu vai ler a dos irmãos Campos com Boris Schnaiderman, é outra coisa!

O que do espírito pária está mantido intacto em vocês, hoje?
Ademar – Eu digo com toda tranquilidade: eu era um jovem rebelde. Hoje eu sou um coroa rebelde. Eu nunca perdi o meu sentimento de contestação. Ao longo do tempo eu exerci esse sentimento de contestação de várias maneiras, na política partidária, cheguei até a ser vereador, larguei a política partidária, é uma página totalmente virada, mas continuo firmemente com minhas posições políticas, continuo firmemente atendendo e entendendo minha formação de esquerda. Só não tenho mais militância, mas continuo com a mesma visão crítica, claro que hoje com a perspectiva de alguém com 53 anos, que não é igual à de quem tem 18 anos. Mas eu continuo na rebeldia, acreditando e desacreditando na humanidade.
Garrone – Além disso que Ademar falou, está dentro de mim, mas eu me preocupo, por que eu não quero mexer nisso. Não dá para conciliar essa coisa mais pária com essa coisa mais profissional, família. Se eu começar a beber eu sei como é que eu sou, eu me conheço. Até a relação com a poesia, ela não vai te dar sustento, mas te dá comportamento. Eu temo começar a dar mais espaço para o lado poético e menos para o lado jornalístico, por que a poesia me leva, de certa forma, para a anarquia, para a falta de regras, uma série de coisas que eu sei que estão em mim. Não quer dizer que todo mundo seja assim. Eu te garanto que no dia 19 eu vou estar morto de bêbado aqui [aponta para a livraria Poeme-se], por que eu tenho que beber para fazer isso, faz parte de meu espírito, faz parte de minha relação com ela [a poesia]. Dito isso, eu prefiro deixá-la ali, o diabinho está ali, é melhor não cutucar com vara curta.
Marcello – O que aconteceu comigo é que, como eu falei, eu não nasci poeta. Eu descobri a poesia e fui entender que a poesia só é poesia se tiver verdade. A poesia é uma forma de viver. Eu vivo dessa forma e não aprendi outra de lá pra cá. Não mudou nada, só a idade, os joelhos que doem, mas o fígado ainda está bom. Ainda tem muito álcool para transformar em poesia, muita poesia para ser transformada em álcool. Esse é o lado pária que permanece.

Uma amizade atávica

JP Turismo conversou com os poetas Celso Borges e Fernando Abreu sobre o lançamento de Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, antologia que celebra os 30 anos do movimento poético que agitou a Ilha

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O JP TURISMO

Os poetas Celso Borges e Fernando Abreu durante entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: ZR (29/4/2016)
Os poetas Celso Borges e Fernando Abreu durante entrevista no Cafofo da Tia Dica. Foto: ZR (29/4/2016)

Quando Fernando Abreu voltou à São Luís – “eu sou daqui, mas só nasci aqui; passei a infância em Grajaú”, localiza –, foi estudar piano. A Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo funcionava ao lado de sua casa, na Rua da Saavedra, no Centro da cidade, o que gerou uma pergunta de um desconfiado Gilles Lacroix, então professor do instrumento na instituição: “mas é só por isso que você quer estudar piano?”, referindo-se ao fato de ele morar perto da escola. “Não. Quero estudar piano por que quero ser músico”, respondeu.

Foi por pouco: Fabreu, como hoje o jornalista e poeta é conhecido pelos amigos mais íntimos e leitores em geral, não tinha, no entanto, piano em casa, para as lições. Olga Mohana, então diretora da EMEM, orientou-o a procurar dona Maria Eugênia Borges, que morava na Rua da Paz, também no Centro, e tinha um piano em casa. Era a mãe do poeta Celso Borges. Fabreu tinha por volta de 14 anos e CB estava às voltas com o lançamento de Cantanto [ed. do autor], sua estreia na poesia, de 1981.

“Uma amizade atávica”, exclama Fabreu, para lembrar-se, logo depois, de que o avô de Celso ajudara seu pai a se estabelecer em São Luís. “Ele ficou anos ocupando um imóvel, sem pagar aluguel. Com a barbearia custeou seu curso de odontologia, depois pagou os aluguéis, mas nada teria acontecido sem aquela força”, agradeceu.

As lembranças vão se emendando umas às outras como cigarros acesos nas baganas dos anteriores, embora ninguém fume durante a entrevista regada a água e coca-cola. No Cafofo da Tia Dica, detrás da Livraria Poeme-se, na Praia Grande, converso com os poetas sobre os 30 anos que a Akademia dos Párias, movimento integrado por eles nas décadas de 1980 e 90, completa em 2016, e que será comemorado com o lançamento da antologia Akademia dos Párias: a poesia atravessa a rua.

“Eu sou mais ou menos seis anos mais velho que toda a turma”, revela Celso, à época já formado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – onde grande parte dos párias se encontrou, principalmente nos corredores do curso de Comunicação Social –, pai de família e com carteira assinada no Sistema Mirante de Comunicação. “Eu tinha completa liberdade na rádio [Mirante FM, inaugurada há pouco], levei Ademar Danilo [jornalista e dj] para fazer o Reggae Night, ele já tinha um conhecimento fabuloso do ritmo”, lembra.

“A gente ouvia Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff. Foi através de Ademar que começamos a ouvir outros nomes da Jamaica”, enumera Fabreu. “O estúdio era pequenininho, mas uma vez Celso levou a galera lá, botou a gente sentado no chão, crivou de perguntas e publicou uma entrevista”, conta. O papo saiu na Guarnicê, que era um encarte do jornal O Estado do Maranhão – depois a revista circularia de forma independente –, editada por Celso com Roberto Kenard e Joaquim Haickel.

Ronaldão lendo um poema no lançamento do número 3 da revista Uns & Outros, no bar de Betto Pereira, no São Francisco, em 1986 ou 87. Foto: acervo Párias.
Ronaldão lendo um poema no lançamento do número 3 da revista Uns & Outros, no bar de Betto Pereira, no São Francisco, em 1986 ou 87. Foto: acervo Párias.

“Outro cara importante foi Ronaldão. Era um cara versado em Bob Dylan, Kraftwerk, Pink Floyd. Encarnou um personagem, sumiu. Ninguém sabe por onde anda. A última vez que eu falei com ele, ao telefone, foi em 1997. Guaracy [Brito Jr.] também já sacava muito de música, Joy Division”, Celso lista outros autores de poemas que estarão na antologia.

Indago-lhe o critério de seleção. Ele não titubeia: “primeiro os poemas que sobreviveram ao momento; depois, poemas que tinham o espírito pária. São 25 poetas, muitos deles só publicaram ali, na Uns & outros [revista editada pela Akademia dos Párias], naquele momento”, revela. O único poema que não saiu na revista foi justamente Pária, de Celso Borges, que encerra seu Pelo avesso [1985]: “somos poucos/ cada vez menos/ somos loucos/ cada vez mais”, diz um trecho do poema, que não por acaso ilustrava a camisa que o poeta escolheu para conversar com o JP Turismo. Vestido de preto, Fabreu saudava o citado Bob Marley e sua One love. Paz, amor e poesia, bem traduzindo o clima pária.

Influências – O surgimento da Akademia dos Párias se dá no apagar das luzes da ditadura militar brasileira, que assombrou o país por 21 anos. “Coincidiu também com uma abertura gráfica, editoras como a Brasiliense começaram a publicar [Paulo] Leminski, Chacal, John Fante, [Charles] Bukowski”, lista Fabreu. “Caprichos e relaxos, Drops de abril, Pergunte ao pó, Cartas da rua e Mulheres eram bíblias, uma espécie de Pentateuco particular”, enumera CB.

Galera Pária no antigo Hotel Quatro Rodas, em 1986. Foto: acervo Párias
Galera Pária no antigo Hotel Quatro Rodas, em 1986. Foto: acervo Párias

“Nós éramos amados e odiados em igual medida. Muita gente adorava, a gente vendia revistas, fazia saraus em bares e, claro, bebia muito. Outros chamavam a gente de “viado”, por que era tudo muito orgânico, a gente se abraçava, se beijava em público”, lembra Fabreu. E completa, pensando em Allen Ginsberg, Jack Kerouac e companhia: “mal comparando, éramos como os beats, ao redor de quem orbitavam também figuras que não escreviam ou escreviam ocasionalmente”.

Uns & outros – A revista Uns & Outros teve oito números publicados em 10 anos – o último saiu em 1996. “Havia uma necessidade de publicar. As pessoas estavam escrevendo, de repente se reunia o material, se cotizava e pensava-se que com o dinheiro da venda da revista a gente pagaria o que ficou devendo na gráfica e investiria no próximo número: mas a farra era grande e nunca havia caixa”, ri Fabreu.

“Gosto de pensar na importância da revista. Havia um vazio. Se pensarmos no que foi feito em termos de agito literário nas décadas anteriores, é nada. É claro que havia os livros de [os poetas Bandeira] Tribuzzi, Nauro [Machado], [José] Chagas – mas outras leituras nos interessavam mais. A Uns & Outros serviu para mostrar que poesia podia ser feita por quem não é da Academia Maranhense de Letras e eu gosto de pensar que anos depois, embora soe estranho, já que eu fiz parte também, influenciou, por exemplo, a revista Pitomba!”, celebra Celso.

ServiçoAkademia dos Párias: a poesia atravessa a rua, a antologia, será lançada no próximo dia 19 de maio (quinta-feira), às 19h, na livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, Praia Grande), com recital de poesia.

[Jornal Pequeno, JP Turismo, sexta-feira, 6 de maio de 2016]

Gritos que não calam

Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo
Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo

 

Um grito urgente e desesperado ilustra em preto e branco a capa de Fúria, novo petardo poético que Celso Borges lança hoje (16), logo mais às 19h, na Galeria Trapiche Santo Angelo (em frente ao Terminal de Integração da Praia Grande), com entrada franca – a revista custa R$ 20,00 e por ocasião do lançamento, quem comprá-la leva de brinde um cartão postal de Diego Dourado, que assina as ilustrações de Fúria – incluindo capa e contracapa.

Eles já estiveram juntos em Trezeatravéstreze, exposição na Galeria Hum (São Francisco) que juntou 13 poetas e 13 artistas plásticos em um diálogo cultural entre poesia e artes plásticas no mínimo interessante e quiçá então inédito por estas plagas – a que torna agora este par.

Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos
Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos

 

A noite de autógrafos terá exposição de reproduções de 10 ilustrações da revista, além de performance poético-teatral de Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine. Ela interpreta Zuleika, ele Tavares, com base em Bazar Belle Epoque, poema de Celso que acabou ficando de fora da revista, em que o poeta critica a sociedade de consumo.

A maioria dos poemas é publicada pela primeira vez em Fúria, apesar de Celso Borges, aqui e acolá, já os ter dito em palcos diversos. Desde XXI (2000), seu primeiro livro-cd, o poeta vem experimentando os atritos entre o poema pensado para o suporte de papel (o livro, no caso, agora, a revista) e o poema se aproximando da música (para além de uma leitura com fundo musical), ele que também é letrista de música e coleciona um invejável rol de parceiros.

Nos últimos anos o poeta tem se apresentado em diversos espetáculos, com vários formatos e parceiros, fazendo a poesia subir ao palco como atração principal. Ele já fazia isso em São Paulo, onde morou por 20 anos, mas coincidiu da frequência se acentuar com seu retorno à Ilha natal, em meados de 2009. Os poemas de Fúria já foram experimentados no palco e bem merecem também registro em disco.

Não à toa conhecido como “homem-poesia”, Celso Borges é um dos maiores poetas e agitadores culturais destas plagas. Desde fins da década de 1970, quando cursava jornalismo na Universidade Federal do Maranhão, participou da feitura de diversas revistas, e Fúria é também uma espécie de homenagem a elas: Arte e Vivência, Guarnicê, Uns & Outros e mais recentemente a Pitomba!, que editou com Reuben da Cunha Rocha e Bruno Azevêdo, por cuja editora homônima se publica o lançamento de hoje. É também uma homenagem a Coyote e Oroboro, duas importantes revistas de literatura nacionais, em que CB também foi publicado, além de fazer uma “calorosa referência à Navilouca, revista de um único e decisivo número, no início dos 70, inspiração presente em quase tudo o que fiz editorialmente”, como ele mesmo afirma em Em lugar de um livro, à guisa de apresentação da revista.

O poeta “está sempre inventando novas guerrilhas para manter sua maquinaria sensível em movimento”, atesta o poeta Ademir Assunção em Fúria contra a falta de delicadeza, um baita endosso ao fazer poético de CB.

Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução
Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução

 

A sintonia entre as ilustrações nervosas de Diego Dourado – também poeta – e os poemas furiosos de Celso Borges desafina o coro dos contentes: “prefiro a fúria hemorrágica/ às rimas de hemorroidas”, avisa em Cuidado! Poemas e ilustrações – com ecos de Picasso, Edvard Munch e de nossa violência cotidiana – nascem desse incômodo com o que está posto e parece tão natural.

Por não ser natural uma cidade decrépita transformar seus casarões patrimônio da humanidade em estacionamento surgem poemas como Blockbuster, escrito num acesso de fúria quando o poeta recebeu a notícia de que a casa em que Aluísio Azevedo escreveu O mulato viraria estacionamento. Seu “refrão” é “estacionamento o caralho!/ estacionamento o caralho!”

Ou Canção do exílio: a vingança e Louvação pelo avesso, em que ele destripa poemas canônicos de Gonçalves Dias e Bandeira Tribuzzi, sem perder a delicadeza nem o respeito e o bom humor. Neste, publicado no jornal Vias de Fato, por ocasião do aniversário de 400 anos da capital maranhense, ele saúda: “parabéns, atenas brasileira/ pelos decanos parnasianos/ pelos orelhas de abanos/ parabéns, frança equinocial/ pelos roseanos carcamanos palacianos/ parabéns, ilha do amor, ilha magnética/ pelos danos e esganos”; naquele, opera um mash up de Luiz Ayrão com Gonçalves Dias, em meio à imundície fruto de nossa falta de educação cotidiana e do descaso político (tão ou mais imundo quanto): “olhe aqui preste atenção esta é a nossa canção/ minha terra tem fios elétricos/ onde cantam os bentivis/ nas prisões cabezas cortadas/ no palácio leões senis/ (…)/ nas calçadas cocôs de cães, na assembleia os imbecis”.

“Raiva é energia”, nos ensinou John Lydon. Fúria é energia e urgência, que os berros não podem ficar presos à garganta.

Catirina

Catirina. Capa. Reprodução. Ilustração: Cesar Teixeira

 

Mulher, mãe, negra, trabalhadora rural, vítima de violências e violações de Direitos Humanos. Esta é Catirina, tão cantada em verso e prosa, símbolo da resistência do povo do Maranhão ante as mazelas nossas de cada dia – o modelo predatório de desenvolvimento, o avanço do agronegócio e suas monoculturas, o trabalho escravo, a fome, a opressão, os piores indicadores de desenvolvimento entre as unidades federadas.

Casada com pai Francisco, quantos herdeiros seus estão detidos em Pedrinhas? Quantos outros vivendo abaixo da linha da pobreza? Quantos outros pedindo esmolas nos semáforos? Catirina quer comer a língua do boi, quer satisfazer seu desejo, mas não olha nem pensa só no próprio umbigo.

Expor nossas vergonhas é o primeiro passo para uma reflexão profunda sobre o assunto, para que possamos superar os problemas.

Refletir sobre diversos temas-problemas da realidade maranhense, a fim de colaborar para sua superação é o objetivo desta revista Catirina que o/a leitor/a tem em mãos. Da crise no sistema penitenciário à violência urbana e no campo e o extermínio da juventude negra, entre outras tristes e trágicas realidades que deverão ser abordadas em números futuros. Infelizmente.

Não à toa batiza esta publicação um dos personagens mais importantes do auto do bumba meu boi do Maranhão, uma das mais conhecidas manifestações de nossa cultura popular. Catirina gesta a vida, a esperança e o futuro, que se constroem na luta!

[Amanhã é o lançamento do número zero da revista Catirina, saiba mais]

Utilidade pública

Cássio Loredano. piauí, #98, novembro/2014

 

“O declínio dos Sarney”. A manchete de capa da piauí #98, de novembro/2014, anuncia a ótima reportagem em que Malu Delgado relata a derrota eleitoral do mais longevo grupo político brasileiro.

Fui assinante da revista, em seu início, por dois ou três anos. Hoje é das que compro em banca, sempre.

Neste novembro já passei por Dácio (Praia Grande), Angela (Deodoro), seu João (João Lisboa) e outras bancas Ilha adentro. Nem sinal da publicação.

Pode ser uma espécie de último suspiro antidemocrático da oligarquia, como já fizeram com a Caros Amigos, quando a revista trazia “A candidata que virou picolé”, sobre o aborto das intenções presidenciais de Roseana Sarney, matéria de Palmério Dória (que depois transformou o texto num livrinho, que saiu pela mesma editora Casa Amarela que publicava a revista). À época também desapareceu das bancas maranhenses.

Diante de meus reclames, amigos e amigas ofereceram-se a comprar a revista em outros estados e me enviar, me ceder seu código de assinante, colar a matéria em word e me enviar e até mesmo me ensinar: “digite quaisquer nove números no campo do código de assinante e dá pra ler a íntegra do texto”.

Com o texto em mãos, colei-o na íntegra do facebook, anunciado por boa parte desse texto que colo aqui de novo. Sabe-se lá por que, talvez algum limite de caracteres por post que eu desconheça, a rede social publicou-o incompleto. Pois baixem-no aí em pdf e espalhem!

Sopa de letrinhas

Com vasta obra dedicada ao público infantil, Wilson Marques é o patrono da 8ª. Felis. Foto: divulgação

 

É bastante possível que mesmo entre não leitores, digo, aqueles que só leem por obrigação, a memória de algum livro bata forte se perguntarmos sobre a infância, tenha sido esta abastada ou não.

Ainda que os livros fossem castigos, num distante biblioteca do passado, a memória passeará entre Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Lewis Carrol ou Antoine de Saint-Exupéry, entre inúmeras outras possibilidades.

A literatura infantil é o tema da 8ª. Feira do Livro de São Luís, que neste 2014 tem como patrono o escritor Wilson Marques, pai do personagem Touché, que protagoniza diversas aventuras na capital maranhense, ajudando a contar e compreender um pouco de sua história, lendas e encantos.

O personagem de Cervantes por Picasso. Reprodução

O herói-mirim de Wilson Marques é conhecido de muitas crianças, uma espécie de amigo íntimo. Não por acaso o escritor é um dos mais conhecidos destas plagas, requisitado por plateias diversas que, agora, ganha merecida homenagem desta 8ª. Felis. O mercado o chamaria de best seller local.

Como a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento imaginários, é inglória a luta de pais e educadores contra concorrentes reais a roubar dos livros nossas crianças: toda a tecnologia existente de diversões eletrônicas e cada vez mais portáteis parece empurrar a literatura para o campo do “chato” e do “desinteressante”.

É para ajudar a compreender e mudar este quadro – ou ainda, aliar as tecnologias (não por acaso tema da Felis passada) – que se propõem tema e patrono da Feira deste ano, evento já consagrado no calendário cultural da cidade de São Luís, não apenas por força da Lei que garante sua realização, constituindo-a em uma política de Estado.

Infância. Capa. Reprodução

“A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”, relembra Graciliano Ramos na abertura de um de seus clássicos, não por acaso intitulado Infância (1945). Pois não sabemos, mas num futuro que desconhecemos quando de nossas primeiras aventuras literárias, nossas lembranças terão cheiro e sabor, confundindo-se por vezes com a própria infância.

Como a memória olfativa e auditiva do músico João Pedro Borges, que sob o sol de meio dia saiu à rua para comprar um picolé, após o descanso de depois do almoço, o rádio espalhava a melodia de Coração que sente, valsa de Ernesto Nazareth, a música para sempre marcada pelo cheiro de sorvete, quando o menino enfiou a cabeça no carrinho para escolher o sabor. Não é literatura, mas bem poderia ser. Não é?

A paixão do poeta e jornalista Fernando Abreu pelos livros começou quando, ainda garoto, ficou incumbido de ajudar a cuidar da biblioteca de sua escola, em Grajaú. Ali se tornou um leitor voraz, hábito que o para sempre menino carregaria para sempre.

O livro das ignorãças. Capa. Reprodução

Ninguém traduziu melhor em poesia a aventura rumo ao desconhecido que são a infância e a própria literatura do que o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A inventividade de sua poesia, o espanto ante o desconhecido – incluindo suas invencionices – dão a exata dimensão do quão bonito e agradável pode ser embrenhar-se em esquinas que não sabemos onde vão dar.

Sandiliche. Capa. Reprodução

Ronaldo Bressane, convidado da Felis do ano passado, acaba de lançar Sandiliche, um conto que remonta a um amigo imaginário do irmão. Nosso Viriato Corrêa conta que seu Cazuza apressou o amor aos livros por amor às calças. Explique-se: o protagonista de seu clássico desejava trocar as roupinhas de menina por calças de menino. E deu jeito de entrar cedo na escola, único rastro de civilização no povoado em que nascera. É assim que começa a sua história.

Cazuza. Capa. Reprodução
Isabel Comics! Capa. Reprodução

Bruno Azevêdo e Karla Freire, casal de escritores premiados, contaram os dois primeiros anos de sua filha nos dois volumes de Isabel Comics, que deixaram de publicar para que a menina não crescesse como uma personagem de HQ. Desconheço maneira mais original de tratar uma coleção de fotografias.

Nem tudo porém é alegria na infância. Há relatos trágicos e comoventes de infâncias perdidas, como no poema Paisagem feita de tempo, de Joãozinho Ribeiro: “debaixo da ponte há um mundo/ feito de gente esquecida/ crianças sonhando infâncias/ infâncias queixando a vida”. Ou nos registros “biográficos” dos protagonistas de Pixote – Infância dos mortos e Aracelli, meu amor, ambos de José Louzeiro, e Eu, Cristiane F., 13 anos, drogada, prostituída, de Kai Hermann e Horst Rieck.

Ler é viajar, é dar asas à imaginação, e a literatura nos permite ser criança, super-herói, mocinho ou bandido, poeta, índio, pirata, bicho, qualquer coisa. Aventure-se conosco!

[texto que escrevi pra revista da #8felis, distribuição gratuita pelos espaços da Feira, que segue até 9 de novembro no Desterro (Convento das Mercês e praças da Igreja e da Flor do Samba). Conheça a programação completa]

Insight Photo recebe trabalhos até 15 de agosto

Contemplada em edital da Funarte, primeira revista maranhense de artes visuais será publicada em setembro

Dinho Araujo/ Risco Coletivo. Divulgação
Dinho Araujo/ Risco Coletivo. Divulgação

 

Um dos significados de insight, gringa palavra já absorvida por nosso português, é “revelação repentina”. É o estalo, aquela lampadazinha que acende sobre a cabeça de quem tem uma ideia, como nos desenhos animados. “Eureca”, exclamaria Arquimedes.

Daí que uma turma da pesada está armando uma revista chamada Insight Photo, com previsão de lançamento para setembro do corrente, aberta ao recebimento de trabalhos até 15 de agosto.

Contemplada pelo XII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia (Funarte, 2013), a revista terá distribuição gratuita em versões impressa e on-line.

“A revista abre um espaço para que tanto fotógrafos consagrados quanto aqueles em formação possam mostrar seu trabalho, além de estimular no público o debate, a visão e a reflexão sobre o campo da fotografia”, afirma Carolina Libério, professora da UFMA e uma das curadoras da revista, em time que tem também o consagrado Márcio Vasconcelos.

A revista é maranhense, mas recebe trabalhos de fotógrafos de qualquer lugar do país, nas categorias artigos e trabalhos fotográficos. O regulamento completo pode ser acessado no site da revista.

Um acerto que deve servir de exemplo

Quer se concorde ou não com a escolha da candidata, a iniciativa da revista CartaCapital, de declarar apoio à reeleição de Dilma Rousseff, é digna de elogio.

A semanal da editora Confiança anunciou em editorial a opção pela petista. No texto, justificou a escolha, embora não lhe tenha poupado de críticas, sobretudo à equipe de ministros e ao duradouro relacionamento com o PMDB, partido do vice Michel Temer, também candidato à reeleição.

Impossível não lembrar o pioneirismo da revista Trip, quando abdicou da publicidade de cigarros e iniciou uma campanha que resultou no fim dos anúncios de tabaco em publicações brasileiras. A mesma Trip, depois, tomou partido quando do referendo do desarmamento.

Outros veículos nacionais e locais deveriam lhes seguir os exemplos e anunciar de que lado estão. A blogosfera, idem. Seria melhor para todos/as: candidatos/as, partidos, veículos, jornalistas e, principalmente, leitores/as. Afinal de contas, sabemos: imparcialidade jornalística é quimera.

Este blogue mesmo, como de praxe, anunciará em breve suas escolhas. Quantos mais terão coragem e independência?

Pitomba, hoje, domingo e sempre!

Um lançamento de uma nova edição da revista Pitomba é sempre algo que merece ser noticiado. Seja para saudar os que a fazem, seja para festejar sua insistência, permanência, teimosia, longevidade. Ou os poucos mas fiéis leitores pensam que é fácil fazer uma revista independente no Maranhão, sem os costumeiros apadrinhamentos políticos (o que tiraria a independência da revista) ou o apoio da iniciativa privada, ainda tão tímida para este tipo de empreitada? No fundo, cega, de moralismo, conservadorismo e, às vezes, reacionarismo.

Pitomba, a revista, tem vitaminas contra tudo isso, incluindo as energias e inventividades artísticas e contestadoras de Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha, os editores, que têm seguido a máxima que eles mesmos gritaram no editorial do número inicial da revista: “quer fazer, faz!”

Pitomba rima com bomba e não à toa esta é sua logomarca. Cada número é uma explosão de alegria, como o é cada festa de lançamento. Hoje no Chico Discos, domingo no Sebo no Chão.

Pitomba neles!

POR FLÁVIO REIS

A primeira vez que ouvi falar em Pitomba como nome de uma editora foi mais ou menos há cinco anos. Era uma reunião entre amigos, inclusive livreiros, sobre a organização de uma editora e Bruno Azevêdo, que tinha ideia semelhante, foi contatado, aparecendo já com a sugestão do nome Pitomba, que causou estranheza geral. Achei até bom para os textos que ele fazia, bastante influenciados pela linguagem dos quadrinhos, mas ruim para os livros que tínhamos em mente publicar de imediato, sobre São Luís e o Maranhão. O projeto da editora “séria”, entretanto, gorou muito cedo. A obsessão de Bruno com a Pitomba, felizmente, não.

Conseguiu, então, um logotipo canalha para o selo, uma pitomba que é também uma bomba, expressando de forma bem inteligente a dupla face da coisa, e começou a publicar livros e outros materiais. Os livros sempre trazem seis tópicos colocados como manifesto, programa ou algo similar, ou talvez apenas uma grande tiração com isso tudo, afirmando que a palavra “não é palavra, antes de ser ouvida” e, se há de ser dito, “que seja dito com cacófatos e microfonias, pra que, assim, quem ouça também diga” (…) “porque a informação não se pertence e a posse de ter é a posse de dar e é essa posse que reivindicamos”. No resumo, “porque para além do caroço, que é quase tudo, existe a casca, que se quebra, e existe a polpa, que se quer: pitomba!” Sacou?

Pois é, muita gente sempre torceu o nariz pra esse “manifesto” da Pitomba, mas ele continuou lá. Nesse tempo ainda inicial, Celso Borges voltava de São Paulo, após vinte anos, enquanto Reuben da Cunha Rocha fazia o caminho inverso, não sem antes eles se cruzarem, resultando na invenção de uma revista sem periodicidade ou critério de classificação. Decidiram embarcar no nome e na tirada do logotipo e batizaram a nova cria com o mesmo nome da editora.

Nascia a Pitomba, uma revista fora do sério, pra provocar e avacalhar, na trilha da literatura, das artes, mas num clima underground, de liberdade e doideira, que aqui sempre é difícil. Nada muito sofisticado, apesar da elaborada e agressiva diagramação, nem de bairrismos, nordestinismos e outras baboseiras, tão comuns em publicações regionais, apesar de trazer em seu cerne um princípio corrosivo que se volta diretamente contra a antiga cultura ateniense e contra a exaltação publicitária da cultura popular.

Material cru, pra saborear com sangue: poesia variada (da boa e da ruim, quem sou eu, hein), traduções, frases-bomba, desenhos malucos, fotografias, quadrinhos, novelas, fotonovelas, pornografia variada, sátira política, crítica cultural e o que mais pintar. Em quase três anos e apenas cinco números lançados, acredito que este seja um caso muito estranho em que nem os editores nem os (poucos) leitores parecem saber ao certo do que trata mesmo a revista e até o que esperar dela. Justamente aí, no entanto, reside o melhor da coisa. Existe uma diferença entre a editora e a revista, a primeira saiu da cabeça de Bruno e é dirigida por ele, a segunda, não. Mas uma é a cara da outra na disposição anárquica, no traço de caravana.

Pitomba não chegou a se configurar como “movimento” ou “coletivo”, é bem menos complicada, nem tem objetivo claro ou programa é, antes, fruto de uma f(r)icção de individualismos, que se estimulam e energizam no coletivo. Talvez se resuma mesmo apenas a um “estado de espírito”, uma caravana aberta aos acasos, onde ressoa a necessidade urgente de acelerar a destruição de determinadas ideias canonizadas sobre cultura e literatura, num lugar onde estes termos tornaram-se sinônimos de tombamento,  de exaltação vazia. Para isto, apostaram decisivamente na estratégia do atrito. Como disse Celso em entrevista: “eu acho que tem que manter o atrito, é uma característica da revista. Isso a gente não tem que abrir mão, nem é essa coisa do atrito, é a coisa da irritação mesmo”.

Na cultura da afirmação e do elogio em que vivemos, mergulhados na sedação da mediocridade, a estranheza e o incômodo que a revista pode causar se traduziu apenas no silêncio, no desconhecimento puro e simples. Nada de espantar, Narciso só repara nos seus próprios movimentos e na situação atual da cidade, quatrocentona em estado terminal, não consegue esboçar mais nenhuma reação senão aos clichês do próprio espetáculo.

Entretanto, tal reação (ou ausência de) nunca mudou nada na determinação dos editores, na lógica radical explicitada por Reuben: “nós não temos apoio, portanto faremos”. É um caso de combinação, de articulação entre o individual e o coletivo, de pulsações que se encontram na mesma pegada. Sem a diagramação, a anarquia e a putaria de Bruno, a revista perderia sua linguagem mais atual e desconcertante; sem Celso, a cara da poesia, sua capacidade de misturar códigos e, principalmente, a disposição de juntar, a revista sequer existiria; e sem Reuben, perderia na crítica cultural, feita diretamente ou através de traduções que são também finas transposições de situações, reflexões, e na experimentação, ou seja, perderia em densidade e aventura, risco.

No geral, um não gosta de poesia, enquanto outro não vive sem ela, nem se sente à vontade com os quadrinhos e outro transita mais facilmente entre estas linguagens; um gosta de brega, outro é roqueiro de raiz, mas aberto, ouve de tudo, enquanto outro anda garimpando todo tipo de experimentalismo e doidice sonora. No fundo, eles terminam se encontrando na eletricidade do rock e na firme disposição em embaralhar e ampliar o escopo do que seja literatura, sem nenhuma preocupação com convenções, prêmios, público, nada.

Pra fazer a revista, não é fácil, é uma briga. Segundo o depoimento dado em entrevista preciosa ao Vias de Fato, feita por Zema Ribeiro e Igor de Sousa, Celso precisa tocaiar Bruno e “hostilizá-lo” para a coisa começar a sair do papel e das ideias para o computador. Recolher o material nem é tanto o problema quanto traduzir isso tudo em forma gráfica, em diagramação. O processo costuma ser mais fácil quando está presente o ponto de união entre os extremos, Reuben. Mas ele mora longe, tornando o lance mais complicado. Foi o que vimos neste segundo semestre. Celso, envolvido com várias coisas, não obteve êxito na tocaia e Bruno conseguiu escapar, colocando todos os esforços no Isabel Comics! ano II, no Baratão 66 e outras iniciativas da editora Pitomba. Era muito difícil mesmo a missão de Celso, mas agora ele terá a ajuda de Reuben para tocaiar e prender Bruno, o passo decisivo para a elaboração da Pitomba.

Não tem a revista no final do ano (e que ano intenso!), mas tem uma festa de arromba da editora nesta quarta 11/12, no QG de quase todas as experiências de doideira que tem rolado nos últimos anos por aqui, o Chico Discos. É a Pitomba espocando pra valer, lançando de uma tacada mais quatro publicações de seu já variado catálogo, que até agora comporta quadrinhos, “novela trezoitão”, poesia, ensaios, “romance festifud”, e experiências para além de qualquer classificação.

É o caso do livro de Reuben, As Aventuras de Cavalodada em + Realidades Q Canais de TV, o mais louco dos novos lançamentos.  Manipulando principalmente o aforismo e outras formas fragmentárias, como o anúncio, a citação, a colagem, no ritmo da escrita sintética das redes, saturada de visualização e sonorização, o livro destila veneno pra todo lado, numa percepção ácida e virulenta da cultura do espetáculo e da brutalização do cotidiano. Respira e transpira todo o clima de insurreição cultural que já se insinua claramente em certos círculos da moçada mais criativa das cidades.

Em movimentos rápidos, toca em temas como circulação e apropriação dos espaços urbanos, através de figuras tão inesperadas como o mijador de rua e o skatista; a crise dos sistemas de signos, através do pixador (assim mesmo), “cavalo das ruas”, o anunciador do “estado da escrita na realidade onde vivemos”; ou as relações entre diamba e bruxaria, vale dizer, entre a maconha e experimento de sensações, a questão crucial da alteração da percepção num mundo de sobrecarga visual e atrofia de sensibilidades.

As Aventuras de Cavalodada estão carregadas da experiência urbana contemporânea, da redefinição da relação com o espaço, buscando discernir a “camuflagem superposta da comunicação das ruas”. Tenta mesmo fundir novamente cidade e literatura, na esteira dos modernistas mais radicais, e neste sentido é texto complexo, um grito contra o “pensamento pobre” e o “pensamento conveniente”. Pode até ser lido como pura curtição, mas, no fundo, é de leitura densa, na leveza enganosa da colagem de curiosidades ou reflexões ditas de maneira extemporânea.

Depois de alguns trabalhos publicados, entre eles o incrível O Monstro Souza, seguramente um dos retratos mais cruéis e cômicos já feitos da cidade de São Luís, realismo fantástico do século XXI, Bruno traz à luz o Baratão 66 (ou 69, depende da hora), uma novela em quadrinhos, misturando erotismo, sátira e crítica de costumes, ao seu estilo. Agora, no entanto, aparece mais afiado, com o controle maior do ritmo e do entrelaçamento das partes da narrativa, feita em camadas que se revelam aos poucos, como um saco infindável de surpresas.

 Este é um traço em que ele vem caprichando, principalmente com a experiência de A Intrusa, novela erótica em 12 capítulos, publicada originalmente como folhetim no jornal alternativo mensal Vias de Fato e também já disponível em forma de livro pela Pitomba. O enredo, desta vez, se desenrola numa casa que, durante o dia, funciona para depilação, cuja especialidade são os desenhos nos pelos pubianos, o Baratão 66; e, durante a noite, transforma-se num puteiro, o Baratão 69, onde se aceita tudo, menos “fazer cu fiado”.

Bruno fala da sacanagem e dos puteiros como traço identitário do maranhense e satiriza um futuro reconhecimento como patrimônio da cultura, através da instalação da Casa de Cultura Baratão 66. A trama é cheia de surpresas, envolvendo Francinete, a dona do bordel e seus ataques com as lembranças do marido, suas filhas e a ambição de deixarem a vida de puta, o porteiro apaixonado pelo padre, mas com obrigação de comer a velha matrona, o representante da Piu-Piu, franquia de desenho de boceta e o governador, sonho de dez entre dez putas do Baratão que almejam algum golpe na dureza da vida.

A edição é cuidadosa e os desenhos de Luciano Irrthum são um ponto alto, onde afinal se materializa todo o tom de excesso da trama. O livro saiu com duas capas diferentes, à escolha do freguês e é repleto de detalhes gráficos. Tem ainda um posfácio escrito por quem entende do riscado. Enfim, uma beleza, presentão de natal, “quadrinhos para toda a família!”.

O pacote traz também o livro de Celso Borges, O futuro tem o coração antigo, uma experiência com “poemas fotográficos” e imagens do centro antigo, em fotografias tiradas por alunos do Curso Técnico em Artes Visuais do IFMA, utilizando um dos métodos mais antigos, sem lentes, com câmeras feitas à mão, com latas ou caixas, um furo em um dos lados e um pedaço de filme no outro. É o método pin hole, criando imagens não muito nítidas e que podem sofrer deformações ou alterações variadas, dependendo do formato das caixas e do tempo de exposição do filme à luz.

O resultado é um encontro conflituoso do poeta consigo mesmo e com a cidade, numa superposição de suas metamorfoses, em que os tempos se embaralham e a poesia tornada palavra-imagem e palavra-som (o trabalho se completa com o vídeo, feito em colaboração com Beto Matuck) se volta sem melancolia ou saudosismo, mas não sem saudade, para uma cidade que, numa palavra, simplesmente morreu, não existe mais. A edição, como sempre nos trabalhos de Celso, é caprichada, o texto todo datilografado numa máquina Hermes, criando um detalhe estético forte associado à questão do tempo, papel de primeira, textura em preto e branco, formato retangular, capa dura. Um luxo.

Tem ainda um romance que é a estreia de Jorgeana Braga na prosa, A Casa do Sentido Vermelho, ela que tem um livro de poesia publicado na Pitomba. Este ainda não li, vou adquirir no lançamento, mas já comecei a gostar pela capa, sem contar o que ouvi falar acerca da beleza de sua escrita. A conferir.

Enfim, com site na rede, um cartel de cerca de dez publicações (já com material fora de catálogo), uma caixa de madeira novinha pra venda ambulante e, principalmente, muita irreverência e disposição para chutar o pau da barraca, a Pitomba está em festa e justa celebração, literalmente “cuspindo os caroços”. Editora, revista, espaço de criação, base de lançamento… É Pitomba neles!