Zeca Baleiro relê assuntos populares e lados b de Zé Ramalho

Chão de giz. Capa. Reprodução
Chão de giz. Capa. Reprodução

 

Há quase 20 anos, quando estreou no mercado fonográfico com Por onde andará Stephen Fry? [1997], Zeca Baleiro já mostrava a que veio. Revelou-se compositor de talento, acima da média, além de intérprete original. Em um disco quase completamente autoral, gravou Essas emoções (Donato Alves), toada do bumba meu boi de Axixá.

Parte da crítica, mais acomodada e afeita a rótulos, não hesitou em cravar no artista que então aparecia a alcunha de “o novo Zé Ramalho” ou coisa que o valha, talvez por conta da proximidade temática de Heavy metal do senhor, que abre a estreia do maranhense, e A peleja do diabo com o dono do céu, faixa título do segundo disco do paraibano – a análise, com quase duas décadas de distância, é do próprio Zeca Baleiro, em texto de apresentação de seu novo trabalho.

Em Vô imbolá [1999], seu segundo disco, Zé Ramalho daria as caras – e a voz. Cantariam juntos Bienal, música de Baleiro inspirada no universo dos repentes e violas, em que tira um sarro do mercado de artes.

Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho surgiu após um desafio aceito pelo primeiro, não após certa hesitação. Com curadoria de Monique Gardenberg, o projeto BBCovers, do Centro Cultural Banco do Brasil, teria diversos artistas interpretando a obra alheia, e ao maranhense cabia justamente a obra do “admirável bardo” paraibano. Há alguns anos, Baleiro havia dividido um disco de inéditas com Fagner [Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003], outro nome da chamada geração Nordeste 70, outro artista admirado pelo garoto nascido na terra de João do Vale na década anterior.

Lançado em cd e dvd, Chão de giz passa por grandes hits de Zé Ramalho, repetidos à exaustão por qualquer cantor em qualquer barzinho, mas traz também lados b. “Um “tributo” a um cara como Zé, com cerca de 40 anos de carreira e um repertório consolidado, não poderia omitir seus sucessos populares, concorda? Mas fazer um show só com os hits seria tedioso e acomodado. Juntei as canções-estandartes, como Avohai e Admirável gado novo a lados b que gosto muito, como Um pequeno xote e Kamikaze, além de algumas pérolas esquecidas”, contou Baleiro com exclusividade ao blogue.

Para Ave de prata, que abre Chão de giz, Zeca Baleiro (voz, violão, ukelele e guitarra) chega de capa e chapéu, acompanhado por Adriano Magoo (teclados, acordeom, violão e vocais), Fernando Nunes (contrabaixo, violão sete cordas, triângulo e vocais), Kuki Stolarski (bateria, pandeiro, zabumba, violão e efeitos), Pedro Cunha (teclados, acordeom, sampler, escaleta e vocais) e Tuco Marcondes (guitarra, violão, mandolin, sitar, banjo e vocais).

O próprio Zeca Baleiro considera a experiência curiosa, já que em sua fase de barzinhos, antes de deixar São Luís e estrear em disco, não lembra de ter cantado Zé Ramalho. “Não me lembro de ter cantado Zé quando cantava na noite. Meu repertório era muito insólito, talvez por isso não tenha feito “sucesso” como músico de bar [risos]. De todo modo, é certamente uma volta à origem, à época da minha formação, de quando começava a tocar violão e surgia essa turma do Nordeste – Zé, Belchior, Fagner, Ednardo, Alceu [Valença], Geraldo [Azevedo], Vital [Farias]”, enumera.

No dvd há projeções de Ivan, o terrível [1944], de Sergueï Einsenstein, ilustrando Kriptônia, e Powaqqatsi [1988], de Godfrey Reggio, em Admirável gado novo, num interessante diálogo visual com as músicas, de certo modo ajudando a garantir certo tom sombrio, talvez apocalíptico, profético, para ficar em adjetivos quase sempre usados para se referir ao repertório ramalheano. “É estranho, porque não é Brasil, mas tem tudo a ver”, afirmou Baleiro sobre a segunda, como nos conta a diretora Monique Gardenberg em texto de apresentação ao projeto.

Em alguns momentos Baleiro suaviza Ramalho, noutras mantém os arranjos próximos aos originais, sempre com uma pegada original, sem se contentar com o conforto da posição de cover. Ele é parceiro de Zé Ramalho em O rei do rock, música já gravada pelo homenageado em Parceria dos viajantes [2007]. “Eu escrevi a letra de O rei do rock inspirada no Zé, na sua persona artística, esse misto de caubói, profeta, justiceiro, visionário. Ele musicou e gravou, numa onda meio “rock cigano”, mas refiz o arranjo e o rock ganhou uma pitada de rap”, comentou. Em Bicho de sete cabeças [Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha], Baleiro opta pela versão instrumental, anterior à com letra, que já tinha gravado para a trilha do filme homônimo [2001], de Laís Bodanzky.

Em roteiro bem construído e edição caprichada, Chão de giz guarda ainda ótimos momentos em seus extras. Quando canta Frevo mulher cita Bob Dylan – artista reverenciado tanto por Baleiro quanto por Ramalho – e é imediata a cumplicidade da plateia; lá também está o registro da única música não composta por Zé Ramalho, mas cuja gravação definitiva, inclusão em trilha de novela e execução à exaustão, fazem muita gente crer nisso: Entre a serpente e a estrela [de Frevoador, 1992], versão de Aldir Blanc para Amarillo by morning (Terry Sttaford e P. Fraser).

O próprio Zeca, antes de aceitar o convite para reler a obra do autor de Vila do sossego, afirmou, também no texto de apresentação, a admiração pela obra de outros nomes da música brasileira, entre os quais Luiz Melodia, Martinho da Vila, Tom Zé, Jackson do Pandeiro e Sérgio Sampaio, de quem já produziu disco póstumo [Cruel, de 2005] e relançou Sinceramente [1982], por seu selo Saravá Discos.

Sabedor de sua citada admiração por outros nomes, sobretudo os nordestinos surgidos na década de 1970, indago-lhe se há algum outro artista com quem Baleiro tenha vontade de dividir disco, show e/ou se tornar parceiro. Ele responde, terminando a conversa com um sorriso: “Todos. A obra de Belchior merece um belo tributo. Mas minha carreira de “crooner da caatinga” se encerra aqui [risos]”.

*

Confiram Zeca Baleiro em Não existe molhado igual ao pranto [Zé Ramalho e Lula Côrtes]:

O homem ao lado inaugura reedição da obra de Sérgio Porto

Companhia das Letras reedita obra do autor, cronista bem humorado, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O homem ao lado. Capa. Reprodução
O homem ao lado. Capa. Reprodução

O homem ao lado [Companhia das Letras, 2014, 247 p., leia um trecho] apresenta um Sérgio Porto mais lírico, embora o bom humor permeie as crônicas ali selecionadas. O livro é a reedição de sua primeira coletânea de textos jornalísticos – isto é, publicados na imprensa [1958] – e A casa demolida [1963], que era uma versão ampliada do primeiro, incluindo as crônicas então selecionadas pelo próprio autor.

Sérgio Porto é o nome de batismo de Stanislaw Ponte Preta, multimídia antes do termo ser inventado: cronista, radialista, compositor, o bancário trabalhou ainda em teatro e televisão. Nasceu e morreu no Rio de Janeiro e é responsável por uma galeria de personagens conhecidos, como Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, além do antológico e – infelizmente – atualíssimo Febeapá [a edição mais recente saiu pela Agir em 2006], o Festival de Besteiras que Assola o País.

Também são de sua lavra ditados populares cuja autoria acabou diluída de tanta repetição. Para ficarmos em apenas dois exemplos: foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “mais perdido do que cego em tiroteio”. Ou o “samba do crioulo doido”, de fato um samba-enredo composto por ele, hoje em desuso após o advento do politicamente correto.

Publicadas entre 1952 e 1956 em veículos como a revista Manchete e os jornais Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, as 71 crônicas reunidas em O homem ao lado atestam a proficuidade do gênero e do autor. Tudo é assunto para a crônica e ele escreveu um sem número delas. “Direis que homem no banheiro não é assunto de crônica. Talvez, minha senhora, talvez. Depende do homem, do banheiro, do cronista”, escreve em A janela de Marlene (p. 153). Sabia o que dizia. E mais ainda: sabia como dizê-lo.

Ao lado de nomes como Otto Lara Resende, Millôr Fernandes e Paulo Mendes Campos – autores também reeditados pela Companhia das Letras –, entre outros, Porto foi um dos responsáveis por “consolidar a crônica como a manifestação literária mais fecunda e popular do país”, como afirma o jornalista Sérgio Augusto no texto de apresentação de O homem ao lado – ele, o curador da reedição da obra de Porto pela editora. Uma pena a brasileiríssima crônica ter perdido espaço, salvo raras exceções em jornais da metade de baixo do mapa do Brasil.

A graça, o bom humor, o lirismo, a leveza e a elegância permeiam toda a obra de Porto, cuja reedição aparece em boa hora. “O sol entrava em suas frases por todos os lados”, atestou o escritor Barbosa Lima Sobrinho.

Bondes, traições, trajetos, quintais, lembranças da infância – muitas crônicas evocam a casa demolida que acabou por batizar-lhe um livro – vizinhas, corações partidos, sambas, boemia, jogo do bicho, repartições públicas, conversas ouvidas: tudo eram panos para as mangas de Sérgio Porto. Recortava “no violento sol da praia, pedaços dos jornais que lia sem parar, aproveitando o tempo. Pois era, como quase todos os humoristas brasileiros, um trabalhador braçal”, escreveu Millôr Fernandes em O Pasquim em outubro de 1970, num dos textos sobre Sérgio Porto trazidos no volume a guisa de posfácio – as coisas mudaram muito após quase 50 anos do falecimento do escritor e os humoristas já não são tão engraçados ou trabalhadores assim.

“De que morreu Sérgio Porto? Todos os seus amigos dizem a mesma coisa: do coração e do trabalho”, escreveu Paulo Mendes Campos na Manchete de 30 de novembro de 1974 – o  texto saiu em O mais estranho dos países [Companhia das Letras, 2013] e completa o “posfácio” de O homem ao lado, ao lado do texto de Millor Fernandes. Ao leitor só resta constatar que tanta vida e tanto trabalho valeram tanto a pena.

[O Imparcial, domingo, 1º. de fevereiro de 2015]

Fábula contemporânea ironiza sociedade que aplaude celebridades miojo

Lionel Asbo. Capa. Reprodução
Lionel Asbo. Capa. Reprodução

 

O novo romance de Martin Amis é uma fábula contemporânea sobre o mundinho deslumbrado e tresloucado das celebridades fast food e o ridículo que as cerca.

Lionel Asbo [Companhia das Letras, 2014, 360 p., tradução de Rubens Figueiredo; leia trecho], antes Pepperdine, ganha este nome ao assumir sua “condição de comportamento antissocial” (na sigla em inglês), depois de reiteradas passagens por prisões, graças a crimes em Diston Town, subúrbio londrino em que vive.

Para a criminalidade o personagem-título demonstra predisposição e talento. Não à toa cria dois pitbulls, Joe e Jeff, “ferramentas de trabalho”.

O sobrinho Desmond, que vive com ele, chama-o carinhosamente de Tio Li. O garoto consegue algum futuro justamente seguindo às avessas os conselhos recebidos de Asbo, sobre trânsito – dirige perigosamente – e a universidade – o tio não a valoriza, é semianalfabeto e tem problemas de dicção; o sobrinho torna-se um aluno de destaque, enquanto faz bicos de taxista para se sustentar. O que não o torna um santo: por várias vezes, escondido do tio, Des faz sexo com a própria avó.

Na loteria, um jogo que costuma classificar de “para otários”, Lionel ganha 140 milhões de libras, por meios não convencionais. Torna-se celebridade instantânea, qual um ex-BBB, paparicado por paparazzi e outras engrenagens dessa indústria, o que não o livra de novas confusões.

Ele desperdiça dinheiro com futilidades como as suítes mais caras de hotéis de luxo, farras megalomaníacas e prostitutas, enquanto sua mãe agoniza num asilo. A narrativa é conduzida com bom humor e leva o leitor a reflexões sobre a distância entre gestos e palavras – quantos aspiram tornar-se celebridade no fantasioso mundinho das redes sociais? –, além de ironizar a relação da mídia e da sociedade com astros e estrelas meteórica e artificialmente fabricados.

Entre o riso e a desgraça, A cabeça do santo tem inspiração fantástica

Foto: Márcio Vasconcelos
Foto: Márcio Vasconcelos

Livro da cearense Socorro Acioli começou a ser moldado quando autora participou de oficina de contos com Gabriel García Márquez.

A publicidade do novo livro de Socorro Acioli – vencedora do Jabuti de literatura infantil ano passado, com Ela tem olhos de céu – tem sido feita toda sobre a oficina de contos ministrada pelo recém-falecido Gabriel García Márquez, de que ela participou. Faz sentido. Certamente sua participação no concorridíssimo evento do colombiano, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, ajudou a cearense a moldar seu romance A cabeça do santo [Companhia das Letras, 168 p., 2014; leia um trecho], cujas ideias iniciais foram concebidas ali.

O livro conta a história de Samuel, ateu que parte em direção à fictícia Candeia, no real Ceará, para atender ao pedido de sua mãe moribunda: encontrar seu pai e sua avó, que o rapaz não conhecia. Samuel torna-se o típico romeiro, perdendo tudo pelo caminho, até chegar à cidade, ser mal recebido pela mulher recomendada e ir parar na cabeça oca de um Santo Antônio largada no chão.

Esta a senha para o leitor adentrar uma série de acontecimentos entre o trágico e o cômico, que poderá leva-lo a relacionar a obra a, por exemplo, O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.

A cabeça do santo. Capa. Reprodução

Não pensem os apressados, no entanto, que A cabeça do santo é mais do mesmo, cópia do que quer que seja, ou para iniciados – embora este blogueiro acredite que fará bastante sucesso entre os romeiros de Canindé (que batiza um capítulo do livro) e arredores. Socorro Acioli é hábil na construção de diálogos, na condução da trama, recheada de acontecimentos extraordinários em uma cidade de ar fantasmagórico, e em fazer rir da desgraça sem soar politicamente incorreta. Tampouco cabe tentar rotulá-la regionalista ou coisa que o valha.

À cabeça de Santo Antônio chegam vozes de mulheres que rezam em busca de maridos, casamentos, amores. É lá que Samuel encontra Francisco, seu primeiro amigo na cidade. À custa de uma chantagem, se utiliza do moleque que conhece todas as almas viventes daquele pedacinho de Nordeste para tirar alguma vantagem do que escuta.

Os “milagres” casamenteiros de Samuel logo chamam a atenção de romeiros de cidades vizinhas, meios de comunicação e políticos inescrupulosos, cujos planos são atrapalhados quando Candeia, de cidade quase abandonada, transforma-se em destino de turismo religioso.

Antes de tudo uma história de amor, A cabeça do santo deve alçar o nome de Socorro Acioli ao círculo dos grandes das letras nacionais.

Foto – A foto que abre este post compõe capa, lombada e contracapa de A cabeça do santo. É do fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos, de seu ensaio Na trilha do Cangaço – O sertão que Lampião pisou, vencedor do prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

Brasil-Polônia, uma ponte pavimentada de alegria musical

Barbosa Trio surgiu após turnê do músico paranaense Wagner Barbosa pela Polônia, acompanhado do cearense Rafael Mota Rodrigues e do polonês Kuba Palys. Sonoridade de Alegria, disco de estreia do grupo, tem vários sotaques

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ESTADO DO MARANHÃO

O Barbosa Trio não carece de muito tempo para fazer jus ao título de seu disco de estreia: Alegria [2013]. Se você tomar como marco zero a audição da bolachinha em si, disponível para download grátis no site do bandleader Wagner Barbosa, bastam os segundos iniciais de Pererê (parceria dele com Demetrius Lulo), faixa de abertura. Mas antes, ver a capa, em que ele e Rafael Mota Rodrigues e Kuba Palys aparecem em tons circenses, fellinianos, já garante alguma… alegria.

O paranaense Wagner Barbosa já tinha um disco, mas este Alegria foi concebido após uma turnê do trio pela Polônia, terra natal de Palys – Rodrigues é cearense. A ponte Brasil-Polônia garante ao disco vários sotaques – ou deveríamos dizer sorrisos? – incluindo o nordestino, o jeito “leste europeu” de tocar piano do titular do instrumento, o jazz, a bossa, a beatlemania.

Wagner Barbosa (voz, violão e arranjos), Rafael Mota Rodrigues (percussão) e Kuba Palys (piano) passeiam entre temas autorais e releituras, com participações especiais de Toninho Ferragutti (sanfona na faixa título), Joanna Chmielecka (voz na faixa título), Jurandir Santana (guitarras em Água de beber), Jorge Helder (contrabaixo em Nothing new), do grupo polonês de percussão Ritmodelia (em Pata de elefante) e Lu Amaral e Adonias Jr. (vozes em Vento bravo). Kuba Palys canta o Blackbird dos Beatles.

A palavra polonesa Szczęście, que significa felicidade, também aparece na capa, e é uma grata surpresa ouvir o modo como toca o trio, entre seis músicas de autoria de Wagner Barbosa (duas em parceria) e regravações de Blackbird (Lennon/ McCartney), Água de beber (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes) e Vento bravo (Edu Lobo/ Paulo César Pinheiro). Alegria, felicidade e outros sentimentos aparecem. Algo que a boa música ainda é capaz de proporcionar.

[Esta reseninha saiu nO Estado do Maranhão, caderno Alternativo (link para assinantes com senha), no último dia 4 de dezembro. Aqui faço duas correções: não sei como este blogueiro errou os sobrenomes do percussionista do grupo e do contrabaixista convidado]

Uma história de amor, sexo e morte

Estreia de Marcelino Freire na “prosa longa” – para usar uma expressão do próprio autor – tem tons de literatura policial

POR ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O próprio Marcelino Freire referiu-se a este seu Nossos ossos [Record, 2013, 120 p.] como sua estreia na prosa longa. Pernambucano radicado em São Paulo, ele é um dos maiores contistas e agitadores literários do país, inventor da Balada Literária, que anualmente agita o cenário das letras em São Paulo, desde 2006, ano em que venceu o prêmio Jabuti por Contos Negreiros.

Nessa nova empreitada, o escritor mantém o fôlego, o frescor, a agilidade e o bom humor de suas prosas curtas, que acabaram por torná-lo isto que já dissemos: um dos grandes de nossa literatura.

O romance conta a história de Heleno de Gusmão, dramaturgo homossexual que se vê envolvido em um intrigante enredo quando o seu boy morreu, evocando a cantiga popular do interior do Piauí usada de epígrafe no livro. Entre capitais – São Paulo e Recife – e interiores – a cidade de Pedra, no agreste pernambucano, o povoado Poço do Boi tornado cidade na ficção – Marcelino Freire constrói sua grande narrativa policial.

Cícero, o boy, não tinha ninguém na cidade grande e Heleno dá uma de herói ao contratar Lourenço – o nome do motorista é tomado emprestado de Lourenço Mutarelli, que desenhou a capa – para levar os restos mortais à família, garantindo alguma dignidade a quem tanto lhe havia dado alegria em vida. Tudo narrado na prosa ligeira e elegante de Marcelino Freire, de frases curtas e certeiras, como as facadas mortais que acertaram o boy na altura do peito.

O livro é ambientado na noite e vida paulistanas e povoado pelas lembranças de Heleno, nascido em Sertânia, por acaso a cidade natal de Marcelino Freire, criador que guarda muitas semelhanças com a criatura, embora Nossos ossos não seja, necessariamente, uma autobiografia.

[O Imparcial, ontem]

Narciso em estado terminal

FLÁVIO REIS*

Um trabalho de Celso Borges é sempre promessa de surpresas. Poeta visceral, afeito a experimentações e radicalismos, há muito deixou de fazer propriamente livros, no sentido mais comum do termo. Apresenta, antes, objetos de arte. Foi o que vimos no esmerado design dos livros-cds que compõem a trilogia A Posição da Poesia é OposiçãoXXI, Música e Belle Epoque. O livro se completa noutra coisa, a poesia é lançada furiosamente ao encontro de sons, vozes, colagens, em meio a um grafismo elaborado, num jogo de cores, desenhos, fotografias, apropriações, citações, que são o invólucro para os petardos que estouram em nossas lentes, ouvidos e mentes.

O Futuro tem o Coração Antigo, lançado recentemente no Cine Roxy, é a nova e desconcertante iguaria desse alquimista da palavra, que vem misturando poesia com música, artes plásticas, cinema, fotografia, num esforço sempre múltiplo, coletivo. O jogo de Celso no entrelaçamento das palavras com as imagens e os sons ganha mais um capítulo, com duas faces.

De um lado, poemas curtos, como um click, chamados por ele mesmo de fotográficos, tendo ao fundo fotografias tiradas por alunos de um curso técnico do IFMA, coordenado pelo professor Eduardo Cordeiro. As fotos utilizam uma técnica antiga, criando imagens meio embaçadas, disformes, distantes, em uma palavra, fantasmagóricas.

De outro, a transposição dos poemas e fotografias para o formato de vídeo, num filme realizado em parceria com Beto Matuk, onde a experiência alcança sua maior complexidade, com a inclusão dos sons, a ampliação das imagens e a duração, revelando de maneira mais intensa todo o estranhamento que está na base da construção. Estamos falando de um momento de inflexão, em que o poeta olha sua longa relação/obsessão com a cidade sem saudosismo, somos logo avisados na abertura do livro/vídeo, mas como um “exercício de ternura” na “carne da cidade futura”.

A combinação aponta, no fundo, para um mergulho necessário e urgente nas sombras do passado. Não o passado da memória narcísica, inerte, perdido nos devaneios da autoglorificação, mas aquele turvo, borrado, sujo, que teimamos em recalcar na imagem dos casarões. O objetivo do salto é de estabelecer um novo encontro com o passado, sem as fantasmagorias que nos impedem de olhar de frente os olhos do futuro.

Celso carregou na vida a paixão da cidade natal, que demarca em três momentos bem distintos: da infância até os 30, quando criou a sua experiência de São Luís e inscreveu a cidade em si; depois, os vinte anos seguintes passados em São Paulo, quando a cidade ganhou os contornos da memória; por fim, a volta em 2009 e o encontro com uma “terceira cidade”, quando os alicerces da memória são então sacudidos pela crueza de uma realidade na qual “cercas elétricas se engalfinham sobre os muros” e o cenário é de destruição e medo.

O livro/vídeo é sobre este terceiro momento, mas se constrói de maneira que não aparece apenas como presente ou simples evocação do passado, e sim como fantasmagoria, uma projeção do passado no presente.  Compõe-se de dois poemas, o poema-título e A Terceira Cidade.

No primeiro, um bordão forte, “o futuro tem o coração antigo”, serve de base para a artilharia diversificada de Celso, alvejando lugares, figuras, situações, de ontem e de hoje, embaralhando as coisas e os tempos, enquanto “os azulejos portugueses encardidos nos observam do alto de sua nobreza rachada”. É a certeza de que “o futuro tem o coração antigo porque a fonte do ribeirão nunca vai secar e os condomínios do renascença morrem de medo”, “porque gullar ainda não escreveu o poema sujo e gonçalves dias não conheceu sabiás empalhados”, “porque o maria celeste ainda queima no cais da sagração” e, principalmente, “porque faustina faustina faustina”, eco que se perde no oco do tempo.

Em pequenos flashs são provocados nomes e imagens emblemáticas da nossa história. Uma história nebulosa, onde o fundador é uma miragem e “ninguém sabe se bequimão é uma força ou uma farsa na forca”. Celso trabalha à vontade em meio aos pedaços, pois sabe que “o futuro tem o coração antigo porque precisamos continuar bebendo na fonte de marcel duchamp”.

No poema A Terceira Cidade, mais longo e propriamente na forma de “poema fotográfico”, vemos todo o impacto da antiga cidade dos azulejos violentada num progresso devastador, mas ao mesmo tempo o anúncio do rompimento do casulo em que a cidade se manteve até então. A abertura não deixa dúvida, “Ó, ilhéus, abris os portais do futuro para o renascimento do maravilhoso”. O recomeço indica que o tempo passou, pois “alguma coisa já não é mais a mesma”. O enredo é simples: “era uma vez uma cidade e a cidade já era”.

Desfilam a devastação e a violência vivenciadas hoje nos quatro cantos da Ilha. São trechos quase sempre estarrecedores, mesmo em sua acidez crítica, expondo as muitas fraturas de uma cidade perdida em meio a ruas engolidas por buracos, a destruição ambiental e a lenta agonia dos casarões, quando “o berro mudo dos cupins devora a pele podre da parede do prédio”, enquanto “uma boca de lobo uiva na camboa”, “jegues abandonados vagueiam em procissão pelas estradas da maioba” e “centenas de carros rosnam na jerônimo de albuquerque”.

Superposição de cenas cotidianas: “ratos mascam chiclets num bueiro de vinhais. baratas brincam de esconde-esconde no calçadão da rua grande. impossível fotografar”. A cidade atulhada de carros, retratados de maneira turva, entupindo as vielas entre os casarões perdidos no tempo, mergulhados na sujeira e no abandono, por trás das placas cheias de cifrões com as promessas nunca cumpridas de reconstituição. Tudo parece distante e, no fundo, totalmente próximo, incômodo. Fantasmas que nos paralisam mesmo quando agonizam.

Momento de morrer, momento de renascer, “a mais bela flor do mundo agoniza. osso duro de morrer”. É também o momento do encontro entre as três cidades, entre as três eras, como um ajuste de contas. Onde se esconde São Luís? Onde se encontra São Luís? Em que visões, em que memórias, em quais sonhos? Terá a antiga cidade dos azulejos virado um grande pesadelo? Ou este foi sempre seu retrato mais fiel, sua imagem mais profunda? Ciente da urgência, Celso sabe que “chega uma hora em que chegou a hora”, “uma hora em que os gatos latem os cães piam e os bambis atiram pra matar”. Para São Luís e os ludovicenses essa hora parece soar. “O centro da cidade é um ciclope se mirando no espelho: narciso em estado terminal”.

Submetida a um processo desordenado e brutal de expansão, sem a resolução mínima de problemas estruturais seculares, chegando mesmo ao ponto de explosão, a cidade afunda a olhos vistos, sob a complacência de uma elite mesquinha apodrecida. “fidumaséguas!” berra o poeta. O fundo do poço em que nos encontramos parece o momento final da cidade na lenda da serpente, evocada no fecho do poema. A hora mítica do despertar, da destruição das fantasmagorias que dominam a nossa cultura. Momento possível, atual, de quebra da adoração vazia dos símbolos em que estamos atolados, seja da cultura ateniense, da cultura popular ou da união hipócrita de ambas executada sob o comando da mídia, em prol de uma apropriação criativa da própria história, pela invenção, pela negação desse futuro perverso vendido como redenção, onde o “turista de pacote clica a tanga da brincante do boizinho de butique”.

Uma obra em processo, que não tem programa, roteiro ou atores definidos, nem precisa, pois começa a se desenhar anarquicamente em experiências descontínuas e dispersas neste momento de cruzamento de gerações, traduzindo-se em movimentações variadas que podem confluir de maneira a criar fendas nas visões canônicas da cultura e da identidade ludovicenses. Nada mais adequado para celebrar a urgência deste “espírito destrutivo”, aliás, que a própria dedicatória feita por Celso naquela noite. Em sua maneira direta, diz apenas: “Chega de boferagem. Viva a fúria!”.

*Flávio Reis é professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, autor de Cenas Marginais (2005), Grupos políticos e estrutura oligárquica no Maranhão (2007) e Guerrilhas (2012).

A Pedeginja já brota madura

Sobre Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, de estreia da banda, ontem (15), no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy)

“É a Pedeginja que vem chegando!”

Uma pequena aglomeração formou-se na porta do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) pouco antes – durando até um pouco depois – da hora marcada para o início de Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, o de estreia da banda Pedeginja.

A plateia lotou completamente o recinto, com algumas pessoas ocupando cadeiras extras colocadas pela produção e outras vendo o espetáculo em pé, nos corredores laterais. Com uma hora de atraso a banda subiu ao palco. Nada menos que 11 músicos ocuparam-no: a formação da banda, incluindo seu poderoso naipe de metais, mais o gaitista Pedro Luz dos Anjos e o tecladista Dney Justino.

“A banda é grande, gente, então, paciência”, advertiu Jéssica Góis, a talentosa vocalista, única mulher do bando, antes de atacarem a primeira da noite. “Caralho, quanta gente!”, espantou-se João Vitor, o Jovi, outra voz de frente.

“É a Pedeginja que vem chegando”, anunciou o Conto de um Pé-de-ginja, faixa de abertura do disco e do show, espécie de prefácio-resumo do trabalho, o grupo dizendo a que veio. A plateia irrompeu inteira em aplausos, entregando-se à sonoridade inconfundível dos estreantes – em disco, que em shows, os meninos já têm uma estrada considerável.

Garoto grandalhão que empunha uma das guitarras do grupo e é responsável pela maioria das composições e pelas intervenções poéticas, Paulo César Linhares juntava-se à emoção que tomava conta de todos ali, entre palco e plateia: “É um prazer enorme estar tocando aqui, hoje, pra vocês”. Lamentou não ter conseguido arrastar a avó Julieta, para quem escreveu Vovó de férias no séc. XXI, um dos destaques de Contos cotidianos.

A média de idade da Pedeginja é baixa, basta olhar os rostos de seus integrantes. A banda fica entre o profissionalismo e a pura diversão. Explico: apesar do enorme atraso no início do show, tudo ali estava impecável: som, luz, repertório ensaiado, performance espontânea, a cumplicidade entre os músicos. A pura diversão é a responsável pela comunhão entre todos no palco e entre a banda e a plateia, que não poucas vezes bateu palmas, aplaudindo ao final de cada número ou marcando as músicas, cantando junto e mesmo dançando nos corredores e entre as cadeiras. As lâmpadas do cenário pareciam acesas pelo fogo que o grupo tacou no teatro. A Pedeginja já brota madura: a garotada brinca de fazer música, mas leva isso a sério.

O repertório baseou-se no disco, mas foi além: Dia D e uma música ainda sem nome, da lavra de Linhares, inéditas “que estarão no próximo disco”, como anunciou Jéssica, além de Grilos, também dele, do ep Instante, de Nathália Ferro, que em participação especial, dividiu os vocais com Jovi.

Um bloco de covers também registrou as influências da banda, o que em parte explica sua sonoridade, qualidade, talento e bom gosto: um medley uniu Os Mutantes a Secos & Molhados, Top top (Rita Lee/ Arnaldo Baptista/ Sérgio Dias) e O vira (Luli/ João Ricardo). Depois A menina dança (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), dOs Novos Baianos e, fechando o repertório não autoral da moçada, outro medley uniu Criolo – Subirusdoistiozin – ao afrossamba Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Pouco mais de uma hora depois, toda a plateia estava de pé, em total sintonia com a Pedeginja. O espetáculo se aproximava do final. Linhares já havia apresentado todos os músicos e lido os agradecimentos e a banda mandava um bis sem aquela saída ensaiada e já manjada, quando o trompetista Bigorna sopra-lhe alguma coisa no ouvido. “Zé da Chave, por favor!”, anunciou o guitarrista, convidando o personagem onipresente ao palco.

O próprio Bigorna explicou: “Você quer saber se uma banda é boa, é ter esse cara aqui na plateia”. Que Zé da Chave e muitos outros tenham a chance de doses contínuas de Pedeginja. Talento, carisma e repertório não lhes falta. Com o show redondinho apresentado ontem, o grupo merece mais palcos e mais aplausos. E nós, mais Pedeginja, que o disco só nos fartará em parte.

Serra Pelada: uma amizade que vale mais que ouro

Ficção usa elementos de documentário, entre o bang bang e o filme de gangster, com grandes interpretações

Juliano Cazarré interpreta um personagem com seu próprio nome (Juliano) em Serra Pelada [Brasil, 2013, drama]. E é com um big close em seu rosto, durante um depoimento, que tem início o retorno do cinema nacional ao maior garimpo a céu aberto do mundo: em 1982, no auge de suas atividades, Os Trapalhões na Serra Pelada foi rodado lá.

Encravado no sul do Pará, o garimpo de Serra Pelada foi a maior concentração de trabalho braçal humano desde as pirâmides do Egito, dado a que cheguei ao ver o filme. No caso da paisagem brasileira, foi construída uma enorme pirâmide de cabeça pra baixo, informação que o roteiro também nos traz, embora essa seja mais fácil deduzir. Algo como parece querer fazer a ganância da Vale, por exemplo, com as minas de Carajás, não por acaso no mesmo cenário: o Pará.

O capitalismo é, aliás, apresentado como metáfora para entendermos a hierarquia do garimpo. Muitos homens embarcaram para Serra Pelada no início da década de 1980, ainda durante o regime militar – a ditadura brasileira chegou a intervir no local e a Caixa Econômica Federal a fazer o câmbio oficial do ouro extraído.

Os que tomaram o rumo daquelas bandas tinham o sonho de enricar ou ao menos fazer um pé de meia. Era mais ou menos como ganhar na loteria. Inclusive com o jogo virando vício: uma vez os números sorteados em um globo, a vontade de ganhar mais. A única diferença é que no garimpo, além da sorte necessária para o triunfo lotérico, é necessário o uso da força. E de outras artimanhas, por vezes.

Sérgio Chapelin e Cid Moreira, ainda de cabelos pretos nas bancadas do Jornal Nacional e Globo Repórter, embora na tela em preto e branco, dão ao filme um ar de documentário – o que Serra Pelada é, em parte, embora seja obra de ficção, algo entre um bang bang e um filme de gangster. O recorte de Heitor Dhalia (também diretor de Nina e O Cheiro do Ralo) para nos (re)contar essa história é a amizade de Juliano e Joaquim (Júlio Andrade), um professor que deixa a mulher grávida para ir garimpar uns trocados.

É em nome de sua amizade com o professor que Juliano inaugura seu currículo de homicida, adaptando-se rapidamente à lei da selva – literalmente. Porém a ambição desmedida e a paixão pela prostituta Teresa (Sophie Charlotte), mulher de Carvalho (Matheus Nachtergaele), um dos coronéis locais, levam-no a ir cada vez mais fundo, sem trocadilhos com o garimpo ou o cabaré. Todos têm atuações memoráveis e ela surpreende os que, qual este blogueiro, conheciam-na apenas de papéis em novelas e séries da Globo.

A atuação do coprodutor Wagner Moura também merece destaque. Com um bigodinho sem vergonha e uma careca a la São Francisco, ele interpreta o bandido Lindo Rico, um dos mais temidos da trama, responsável por cenas entre trágicas e hilariantes.

É um filme com final feliz, desculpem-me os pessimistas. Costurado por uma bela trilha sonora – que nos mostra o que era o Pará, musicalmente falando, antes de Joelmas, Chimbinhas e seus inúmeros covers –, Serra Pelada recria o ambiente violento e romântico do garimpo, entre ganâncias, traições, brigas, assassinatos por armas brancas e de fogo, prostituição, farras, sonhos e amores. Mais que uma miniatura do garimpo, um resumo desta selva chamada vida.

Vísceras sociais vomitadas a uma caixa preta

Com capítulos e páginas numerados de trás pra frente, Sobrevivente [Leya, 2012, 353 p., tradução de Tatiana Leão], segundo romance de Chuck Palahniuk, conta a história de Tender Branson, fanático religioso que sequestra um avião – para irmos direto ao ponto. A contagem regressiva é o tempo de os motores pifarem e a aeronave cair, o tempo em que ele aproveita para registrar sua própria história de vida, que narra à caixa preta.

Branson é o único sobrevivente – daí o título – de uma seita religiosa fanática e o autor se utiliza disso para construir uma obra satírica, criticando costumes e valores da sociedade ocidental. O protagonista, por exemplo, alimenta seu peixinho de estimação com valium, usa ele mesmo um sem número de drogas para manter as aparências, afinal de contas, é um líder religioso que precisa conquistar e convencer, principalmente pelo que expõe em cadeia nacional de tevê.

É também ele um incentivador de potenciais suicidas a consumarem o ato, por telefone. É mais um elemento irônico do texto: qualquer um pode ser promovido a qualquer coisa, tudo depende da intensidade da cobertura da mídia, para citarmos uma passagem em que ele questiona mesmo o martírio de Jesus Cristo. Como convém, a obra é recheada de passagens bíblicas.

Também recheiam as páginas de Sobrevivente dicas domésticas, os afazeres do lar outra das funções do personagem principal, antes de sua vida virar. Com uma narrativa frenética, o livro, que também diverte, talvez seu objetivo primeiro, acaba revelando bastidores de um circo em cuja plateia só se veem palhaços: eu, você, seus leitores e todos aqueles de quem bancos, governos, igrejas e instituições em geral riem da cara a cada quebra de recorde nos lucros.

O peso das escolhas

[O Imparcial, ontem]

Michel Laub lança segundo volume de trilogia em que analisa o peso individual de grandes catástrofes. A maçã envenenada relaciona o genocídio étnico em Ruanda e o suicídio de Kurt Cobain para contar uma história de amor

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O IMPARCIAL

O gaúcho Michel Laub é um dos mais talentosos escritores em atividade no Brasil – e um dos 70 que está representando o país na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha. A maçã envenenada [Companhia das Letras, 2013, 119 p., leia um trecho] segue um modo particular de escrever: capítulos curtos e certeiros, espécies de notas numeradas, daquelas que facilitariam ao leitor interromper a leitura, um marca páginas, e continuar logo em sequência – isso se se conseguisse parar.

O título retirado de um verso do Nirvana – de Drain you, do mítico Nevermind, de 1993 – une temas aparentemente sem relação alguma: o suicídio de Kurt Cobain e o martírio de Immaculée Ilibagiza, escritora ruandesa que sobreviveu ao confinamento por 91 dias em um banheiro enquanto sua família era dizimada por um genocídio étnico, ambos em 1994 – a relação entre os dois acontecimentos se dá pelo jornalismo, outro ofício de Laub, e o tom autobiográfico não está aí à toa ou por ego. O título, que caberia a um conto de fadas, deve ser levado a sério.

O que o autor conta é uma dolorosa história de amor, iniciada e terminada nos verdes anos juvenis: uma história de perda. Ou de perdas. A maçã envenenada é o segundo volume de uma trilogia iniciada por Diário da queda [Companhia das Letras, 2011, 151 p.], em que Laub analisa o peso de catástrofes de repercussão global a partir de um olhar particular, mesclando memória, autobiografia e ficção.

O dilema entre ir ou não ao show do Nirvana no Brasil – que o próprio Kurt Cobain classificaria como o pior show da banda em todos os tempos – por um estudante que cumpre o serviço militar obrigatório – uma aberração que sobrevive aos quase 30 anos do fim do regime militar brasileiro – é o ponto de partida para uma trama bem construída, em que cenários e personagens se alternam para contar uma história acima de tudo humana, o início de uma biografia cujos capítulos juvenis morarão na saudade quando um adulto olhar para trás e se perguntar o que poderia ter acontecido se tivesse feito outras escolhas – ir a um show de rock e desertar ou ficar e não ser punido?

Como é que se diz eu te amo

[O Estado do Maranhão, Alternativo, ontem]

10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo, um disco sobre o amor que foge da pieguice

Kléber Albuquerque escreve e canta o amor sem soar cafona

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

As 10 coisas que eu podia dizer no lugar de eu te amo [Sete Sóis, 2012] são, na verdade, 14, este o número de faixas do novo disco de Kléber Albuquerque, um de nossos mais interessantes compositores da atualidade.

O repertório, inteiramente autoral, é quase todo inédito – Kléber recria Tevê, parceria com Zeca Baleiro, gravada por ele em O coração do homem bomba, e Devoluto, parceria com Sérgio Natureza, homenagem a Celso Borges, gravada em Música, livro-disco do poeta, de que ambos participam – aqui o reencontro de Kléber e Baleiro, que canta nas duas regravações. Outros parceiros que comparecem são Sérgio Lima (Brincadeira de amor), Lúcia Santos (All Star e Terra do Nunca) e Gabriel de Almeida Prado (Sujeito objeto). Elaine Guimarães divide com ele os vocais em Vazante – momento sublime, de versos como “lágrima/ água com navalha/ migalha de mar/ mágoa é água parada”. Entre os músicos André Bedurê (contrabaixo), Michelle Abu (percussão), Ricardo Prado (teclados) e Rovilson Pascoal (guitarras).

É um disco sobre o amor, o que entrega o título e o colorido florido da chita (maranhense?) da capa – o próprio Kléber assina produção musical e projeto gráfico, este com Vivi Correa –, mas fugindo do piegas. “Essa tal de poesia/ é coisa que vicia/ e maltrata o coração/ faz rimar fel e folia/ faz amar quem não devia/ dá rasante na razão/ mas em comparação/ com outras profissões/ vê mais sol/ vê mais lá/ vê mais dó”, canta em Maquinário, sobre o próprio ofício.

Nem só de amor vive o artista, que brinca com gramáticos e dicionaristas em Sujeito objeto: “Ei, Pasquale/ por que o andar dessa menina/ sempre rouba palavras da minha boca?/ Ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota/ planta versos na minha cabeça oca?/ Michaelis/ então me diga o motivo/ de tantos adjetivos”. Quer dizer, é sobre o amor, sim. Tevê é sarro com a sociedade consumista: “comercial de xampu/ cerveja e celular/ mentiras para crer/ e credicard”. No fundo, é também sobre o amor, aquele amor-preguiçoso esparramado no sofá da sala.

São 15 anos de carreira, inaugurada em 1997 com 17.777.700. 10 coisas é o sexto disco de um dos compositores preferidos de nomes como Ceumar e Rubi, para ficarmos em duas das melhores vozes que já o interpretaram. São mais de 15 anos dedicados à música, que o amor ao ofício não começa no disco. A continuar nestas trilhas, o número de apaixonados por Kléber Albuquerque e sua obra só tende a aumentar.

Choro & Companhia relê repertório pouco conhecido de Ernesto Nazareth

Disco Nazareth: fora dos eixos é bela homenagem ao pianista, por seus 150 anos de nascimento

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ESTADO

Não passa em brancas nuvens este 2013, ano do sesquicentenário de nascimento de Ernesto Júlio de Nazareth (1863-1934), um dos pais do choro. A efeméride tem gerado justas e belas homenagens, a exemplo de um site inteiramente dedicado à vida e à obra do pianista, criado e mantido pelo Instituto Moreira Salles.

Completados no dia 20 de março, os 150 anos de Nazareth também são lembrados pelo grupo Choro & Companhia, de Brasília/DF, que lançou Nazareth: fora dos eixos (Brasilianos, 2013), disco inteiramente dedicado à obra do músico que lhe batiza, de maneira nada convencional.

Amoy Ribas (percussão), Fernando César (violão sete cordas), Pedro Vasconcellos (cavaquinho) e Ariadne Paixão (flauta), ela responsável também pelos textos do encarte, (re)visitam um repertório de Nazareth praticamente desconhecido do grande público – e por vezes mesmo de aficionados pelo músico ou pelo gênero musical cujas bases ajudou a definir.

“Nazareth deixou uma extensa gama de composições diversas […]. Esse legado recebeu nossa atenção quando vimos que muitas dessas obras ainda continuavam raras ou muito pouco conhecidas do público em geral”, afirma um dos textos do encarte.

Músicas – Nas 11 faixas predominam tangos (e suas classificações brasileiro e carnavalesco), sambas, valsa, polca e polonesa, sob direção geral de Marcos Portinari e Hamilton de Holanda. O bandolinista participa do disco em Jangadeiro (tango brasileiro de 1922). Outros convidados especiais são Alexandre Dias (piano em Cataprus, tango brasileiro de 1914), Juninho Alvarenga (banjo na faixa-título, tango carnavalesco de 1922), Ricardo Dourado Freire (clarineta e clarone em Polonesa, polonesa anterior a 1922 – o encarte não traz a data precisa de algumas faixas) e Roberto Corrêa (viola caipira em Matuto, tango de 1917).

Como a obra do autor de clássicos como Brejeiro, Odeon e Apanhei-te, cavaquinho, Nazareth: fora dos eixos é disco plural em que o quarteto desfila por diversos climas. O banjo na faixa título lhe dá ares festivos, lembrando em determinados momentos o bumba meu boi e o cacuriá maranhenses (o azulejar selo do disco também nos faz pensar em São Luís); a viola caipira em Matuto dá à música ares rurais; e o uso de vibrafone (pelo percussionista Amoy Ribas) confere ar de música infantil (da rara, não a que se vê e ouve em programas para o público na tevê aberta) à Segredos de infância (valsa de data desconhecida) – título mais que apropriado.

“Queremos acrescentar nosso grão na interpretação da grande obra de Nazareth”, afirma ainda aquele texto no encarte, pura modéstia. O belo resultado certamente ficou à altura do homenageado. Na contracapa do disco, além do conteúdo, uma inscrição mostra que o grupo está à frente: em vez do “disco é cultura” de outrora, um “moderno é tradição” de agora.

[Reseninha no AlternativoO Estado do Maranhão de ontem]

Teresa Cristina cai no bom rock

Cantora uniu-se à banda carioca Os Outros e dedicou disco ao universo poético na obra de Roberto Carlos.

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Não é a primeira vez que Teresa Cristina dedica um disco inteiro à obra de um compositor. Sua estreia, em 2002, com o Grupo Semente, se deu em A música de Paulinho da Viola, disco duplo em que passeou pelo repertório do portelense.

Há pouco mais de 10 anos ela foi figura de proa na redescoberta do samba a partir da Lapa, bairro carioca que deu ao Brasil diversos outros talentos do gênero. Teresa Cristina seria rotulada como sambista – ou cantora de samba –, limite que quase nunca coloca, por exemplo, Paulinho da Viola entre nossos grandes compositores. Como se o samba fosse coisa menor.

A intérprete não precisava provar nada para ninguém, mas, versátil, mostra que é bem mais que sambista ao dedicar um disco inteiro à obra de Roberto Carlos. Ou, antes, ao universo “real”, já que não se limita a composições dele, solo ou em parceria com Erasmo Carlos.

Roqueira – A fórmula é conta que fecha certeira: Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos (Deck, 2012) passeia por um repertório que o faz fugir do óbvio, a começar por “transformar” a cantora em roqueira. Pela ousadia é um disco tão ou mais importante que As canções que você fez pra mim (1993), que Maria Bethânia dedicou ao repertório do ídolo da Jovem Guarda, para ficarmos em um exemplo mais ou menos próximo.

Com um disco lançado – Nós somos os outros (Bolacha Discos, 2006) – a banda carioca acompanha Teresa Cristina ao longo de 14 faixas, que viraram disco de estúdio após o encontro dela com o quarteto para um show em homenagem a Roberto já há alguns anos. O vocalista Botika canta solo em Você não serve pra mim (Renato Barros). Além dele, Os Outros são Eduardo Sodré (guitarra), Rafael Papel (guitarra) e Vitor Paiva (baixo e ukulele).

Yuri Villar (sax tenor, sax soprano, flauta e triângulo), Ricardo Rito (teclado e sanfona) e Antonio Neves (bateria) completam a “cama e mesa” de Teresa Cristina, garantindo o ar roqueiro e jovem-guardista do disco – embora o repertório se concentre na fase entre o “movimento” e o romantismo mais desbragado que culminaria na novelesca e comercialíssima Esse cara sou eu.

Aos descontentes com o Roberto de hoje em dia, um disco para ser ouvido sem susto: a música mais nova é Cama e mesa (1981). Emoções, do mesmo disco, por exemplo, ficou de fora, como Detalhes (1971), do disco em que foram pescadas Como 2 e 2 e I love you. A quem o acha datado, não o conhece, ou conhece apenas dos especiais de fim de ano na Rede Globo, este disco é ótima introdução, um rebobinar competente de parte importante de sua obra.

Escoltada pelOs Outros, Teresa Cristina mostra versatilidade em homenagem a Roberto Carlos

Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos: repertório

1. Ilegal, imoral ou engorda (Roberto Carlos), 1976
2. A janela (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1972
3. Como 2 e 2 (Caetano Veloso), 1971
4. Proposta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1973
5. O moço velho (Sylvio Cesar), 1973
6. Do outro lado da cidade (Helena dos Santos), 1969
7. O portão (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974
8. Você não serve pra mim (Renato Barros), 1967
9. Quando (Roberto Carlos), 1967
10. Nada vai me convencer (Paulo Cesar Barros), 1969
11. Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1981
12. I love you (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1971
13. As curvas da estrada de Santos (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1969
14. Despedida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos), 1974

[O Estado do Maranhão, 21 de junho de 2013]

Os velhinhos (já) não gostam de “buceta”

“Nunca quis e jamais haverei de querer entrar para a ABL [Academia Brasileira de Letras]. Tenho o senso do ridículo. Já imaginou me ver metido naquele fardão patético, com aquela espada absurda e aquele chapelão que, como você costuma dizer, se assemelha a um espanador ou a um rabo de avestruz?”, argumentou certa feita [o poeta Carlos Drummond de Andrade].

O trecho acima colhi da resenha de Fernando Jorge sobre o livro Drummond e o Elefante Geraldão, publicado na revista CartaCapital desta semana. O poeta tinha, como disse, senso do ridículo.

Há alguns dias recebi do poeta Josoaldo Rego um e-mail cujo assunto dizia simplesmente “os acadêmicos”. Seu conteúdo trazia uma matéria do jornal O Globo sobre a interrupção de uma palestra do ciclo Mutações – O futuro não é mais como era, no site da ABL. Motivo: a exibição do famoso quadro A origem do mundo, de Gustave Courbet, e a menção da palavra “buceta”.