As várias facetas do movimento mangueBit

A grande serpente. Capa. Reprodução
A grande serpente. Capa. Reprodução

Em A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit [mantenho na resenha a grafia da autora; Fundarpe, 2014, 224 p.], Paula Lira faz um profundo mergulho na história do surgimento do mais recente movimento organizado da música brasileira, cujo boom se deu no início dos anos 1990, no Recife.

De múltiplas formações, a autora baseia-se em dois trípticos: a poética, a ciência (desde o nome artístico de seu principal artífice) e a mitologia do mangue, que ajudaram a fecundar e eclodir o movimento, além da diversão, diversidade e brodagem, elementos também fundamentais para o despertar da grande serpente.

Para um ludovicense que acompanhou com algum atraso a r/evolução do movimento – a partir de fins da década de 1990 –, é impossível não ler o livro sem fazer dois exercícios: o de lembrar as descobertas, à época; e indagar-se o porquê de, apesar de condições parecidas, do ponto de vista musical e da biodiversidade, algo parecido não ter acontecido em São Luís – a riqueza da cultura popular e as grandes áreas de manguezal, além do imaginário ao redor de lendas, incluindo também uma serpente adormecida nos subterrâneos da ilha.

O livro de Paula Lira é fruto de uma pesquisa de mestrado mas consegue tornar-se acessível ao leitor comum, de fora dos muros da universidade. Sem abrir mão dos rigores da ciência, o resultado é poético, como afirma o subtítulo, dando conta da complexidade e variedade do que foi/é o movimento mangueBit, para além da música e dos símbolos por que ficou mais conhecido, os caranguejos com cérebro e a antena parabólica enfiada na lama.

Por vezes como elemento partícipe, a autora acompanha festas, discos, moda – a partir dos primeiros shows de Chico Science, garotos adotam o chapéu de palha, apontando para a criação de uma estética mangue –, e entrevista nomes fundamentais do movimento, entre músicos – sobretudo integrantes da Nação Zumbi e mundo livre s/a, DJ Dolores – e gente de outras áreas –, o jornalista Renato L, ministro da informação do movimento mangue, e h. d. mabuse, ministro da tecnologia, sem nunca perder de vista o elemento diversão, a “greia”.

A pesquisa de mestrado ganhou adendos para tornar-se livro e é possível perceber uma r/evolução (das periferias) recifense/s a partir do movimento mangue: de quarta pior cidade do mundo para se viver, como apontava o noticiário da época, a uma cidade onde as coisas acontecem, apontando o desejo de uma inversão no fluxo migratório: em vez de jovens recifenses quererem sair para Rio de Janeiro e São Paulo, passa a acontecer o contrário. De música para se divertir – fazer o que se quer ouvir, mesclado ao do it yourself do movimento punk, também fonte de inspiração – a questionamentos sobre a realidade social, sem perder o ritmo, o elemento dançante, mas com diversidade, ao contrário do axé baiano. Nação Zumbi não é mundo livre s/a, que não é Eddie, que não é Mestre Ambrósio e versa-vice.

Aos mais de 20 anos de movimento, que deu à música brasileira discos hoje antológicos como Da lama ao caos [1994] e Afrociberdelia [1996], os dois primeiros da Nação Zumbi, ainda sob o comando do inovador Chico Science, morto precocemente em um acidente automobilístico no carnaval de 1997, passando pela estreia da mundo livre s/a Samba esquema noise [1994] – título fortemente influenciado pelo Samba esquema novo [1963] de Jorge Ben (depois Jor), cujo A tábua de esmeraldas [1974] é uma espécie de horizonte estético do movimento –, e Samba pra burro [1998], de Otto (não à toa ex-percussionista de ambas), seguiu-se a consolidação do Recife como metrópole não apenas musical brasileira, com resultados positivos em áreas diversas como cultura, turismo e patrimônio. “Um passo à frente” em relação à mpb de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e cia. que antecedeu os mangueboys.

Não se pode desprezar também o fato de que Pernambuco é, hoje, o maior polo cinematográfico brasileiro, para o que já apontava também o início do movimento mangue, com cineastas como Paulo Caldas e Lírio Ferreira – diretores de Baile perfumado [1996], que conta a história de Benjamim Abraão, o homem que fotografou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. À trilha sonora comparecem expoentes do movimento, como Chico Science, Fred 04, Stela Campos e Mestre Ambrósio, entre outros.

Talvez seja impossível falar em mangue no singular, tamanha é a fertilidade do ecossistema e a contribuição à cultura brasileira dada pela turma de Chico Science e Fred 04 – talvez ainda não reconhecida como deveria. A edição de A grande serpente é importante pontapé inicial neste sentido, não à toa reconhecido como “o primeiro livro mangue” por Fred 04 ou “um livro para se ouvir” por Renato L: é caprichada, sem descuidar de qualquer aspecto: em um livro muito bem realizado do ponto de vista gráfico (a serpente perpassando as páginas), conteúdo fundamental para interessados na cena do Recife ou em música brasileira em geral.

Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

A vida e o som da Eddie

Morte e vida. Capa. Reprodução
Morte e vida. Capa. Reprodução

 

“Preto velho, pense merda não, que o mundo já tá cheio, isso não é solução”. Há tempos um refrão não grudava tão fortemente em minha cabeça. É de Queira não, faixa de abertura de Morte e vida (2015), novo da banda Eddie, sexto da carreira, sucessor de Veraneio (2011) – todos os álbuns estão disponíveis para download gratuito no site da banda.

Pergunto a Fábio Trummer, vocalista, guitarrista e letrista da Eddie, qual o lugar e o sentido do álbum físico hoje, quando, sinal dos tempos, os discos podem ser baixados antes de lançados. “O álbum são as musicas, o conjunto, o conceito, a embalagem. É uma forma de termos isso fisicamente, uma sensação de posse deste conceito cantado e tocado pelo Eddie, no caso, mas que ganha sentido na interpretação e apego do público”, comenta.

A banda se completa com Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (teclado e trompete), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (contrabaixo). O disco reafirma seu “original Olinda style” – título do segundo álbum, de 2002 – como uma das vozes mais originais surgidas em meio ao manguebeat, o mais recente movimento musical relevante do Brasil – e lá se vão mais de 20 anos –, centrado em Pernambuco, nordeste do país.

Em Morte e vida reaparecem os elementos que caracterizam a banda, presentes desde a estreia, Sonic mambo (1998), o que confere à Eddie já quase 20 anos de carreira, se tomarmos apenas o disco inaugural como marco. Estão lá a denúncia social e a festa, mais o amor – tema constante no novo disco – e o diálogo com a literatura – neste caso, mais explicitamente desde o título, que evoca o clássico Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

O álbum não é, no entanto, inspirado na obra do poeta pernambucano. “Na verdade isso foi uma coincidência. Apesar de saber do peso do nome, o Morte e vida do álbum veio de um trabalho de mesmo nome dos artistas plásticos Mozart Fernandes e do colombiano Alberto Lizarazo, embora o conceito do Morte e vida Severina se repita aqui no álbum, estes ciclos de morte e vida na existência. O Cabral é uma escola minha”, explica Fábio Trummer.

A propósito, indaguei-lhe sobre a falta de interesse do poeta por música. “O Cabral tinha tanta música nos seus versos que deve ter gasto os ouvidos do homem. Faria coleções de álbuns com os poemas dele”, elogia Trummer.

A faixa-título dialoga diretamente com Buraco de bala, do disco de estreia. “A prova do crime é o corpo/ a prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu”, diz a letra de Morte e vida.

Ano passado, o vocalista havia revelado a influência do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recém-falecido, e seu As veias abertas da América Latina, em seu projeto solo Super Sub América, em que se aliou com Dieguito Reis (bateria) e Luca Bori (contrabaixo), ambos conterrâneos do Vivendo do Ócio.

Presenças constantes em discos da Eddie, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos – irmão de Naná – comparecem: ela canta em Longe de chegar, Pedrada certeira e na faixa-título; ele canta e toca percussão em Alimenta o compositor e toca percussão e assina (em parceria com Trummer, Kiko e Rob Meira) Olho você – inspirado rock que fecha o disco, a poesia da recusa da mulher amada: “lá nos sonhos os sóis são azuis, como um mar, como um céu, como um blues”.

“Ah, eu nunca mais vou esquecer/ aquele beijo foi sensacional/ quando é bom o tempo passa/ mais depressa que a percepção”. Carnaval de bolso, marcha frevada e surfada, exprime a síntese “eddieana”: “um ano inteiro de ressaca/ é hora do juízo final”. É música/álbum para dançar (também), mas pode ser ouvida(o) o ano inteiro.

Fábio Cabral de Mello e a Passa Disco: lendas vivíssimas do Recife

TEXTO E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco
Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco

 

Recife – De passagem por Recife, a trabalho, leio no Jornal do Commercio, um texto de José Teles sobre o lançamento do dvd Vizinho de grito, de Jessier Quirino. O texto me leva à Passa Disco, lendária loja especializada em música pernambucana – mas que vende boa música brasileira em geral – que completará 12 anos de bons serviços prestados no próximo novembro.

O lançamento estava marcado para às 19h. Terminada a atividade de que eu participava na capital pernambucana, dirigi-me para lá, a fim de conhecer a loja e seu proprietário, Fábio Cabral de Mello, 52 – primo do poeta João Cabral de Mello Neto: o pai deste era irmão do avô daquele –, e, com sorte, pegar o autógrafo de Jessier Quirino, o que consegui, embora não tenha sido possível ficar para o recital, já que não podia me arriscar a perder o voo de volta à Ilha.

Além de loja, localizada no Shopping Sítio Trindade (Estrada do Encanamento, 480, loja 7, Parnamirim), a Passa Disco é também um selo, já contando oito títulos no catálogo – sempre pernambucanos para o mundo. Seu proprietário atende os clientes pelo site, facebook e pelo telefone (81) 3268 0888, cujos endereços e número ele diz pausadamente ao fim da entrevista, com o celular ainda funcionando como gravador.

Até a hora de a loja e seus arredores ficarem tomados pelo público de Jessier Quirino, eu ainda daria uma carga no aparelho, compraria discos (óbvio, como bom homem de vícios antigos) e experimentaria uma dose da cachaça Sanhaçu, oferecimento dos novos amigos Paulo Carvalho (que me fotografou com o poeta-cantador) e Luiz Berto, vulgo Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana – como bons habitantes do Recife, eles chegaram de “greia” o Fábio, perguntando-lhe se a loja tinha algum disco do Calcinha Preta ou coisa que o valha.

O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja
O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja

 

Você tinha um bar e restaurante com os irmãos, se desentendeu e abriu a loja? Me desentendi com os funcionários, não com meus irmãos. Os irmãos continuamos juntos. Eu sou agrônomo, trabalhava com jardinagem. Quando saí do bar fiquei só com a jardinagem, aí depois que eu montei a loja ainda passei um ano e meio, dois anos fazendo as duas coisas, depois só com a loja. Há praticamente 10 anos eu trabalho só com a loja.

O que te fez ter esse estalo?: vou viver de vender música! Já era um grande ouvinte, colecionador? Sempre, sempre! Desde garoto, com 10 anos de idade eu comecei a comprar lp, fita k7, essa coisa toda. O estalo pra isso foi quando Silvério Pessoa lançou um cd sobre Jackson do Pandeiro, o Micróbio do Frevo [2002], fez um encontro com a imprensa, José Teles, Michele Assunção, diversos jornalistas, e me convidou para participar, de gaiato na história. As declarações dele sobre a música, aí os jornalistas comentaram que Recife estava vivendo uma efervescência imensa de música, todo mundo lançando discos, e não tinha uma loja especializada em música. Eu saí dali meio… eu digo que o Micróbio do Frevo me contaminou também. Eu sai de lá com essa ideia, fui para casa dirigindo e pensando. Uns seis meses depois eu concretizei. Foi o tempo de ver abertura de firma, loja, depois eu montei a loja a partir dessa ideia. Esse foi o pontapé inicial.

Micróbio do Frevo foi lançado quase 10 anos depois do boom do manguebeat, ali com Da lama ao caos [1994], de Chico Science [& Nação Zumbi]. Você acompanhou de perto a explosão do manguebeat? É, mais ou menos isso, nessa faixa. Acompanhei. Cheguei a ir a diversos shows de Chico Science. Nessa época do bar, a turma frequentava, Chico não chegou a frequentar por que ele logo viajou.

Como era o nome de teu bar? Era O Rei do Cangaço. Otto, Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], Silvério [Pessoa], Lula Queiroga, Lenine, esse pessoal todo, minha permanência no bar nesse período foi importante para a música, para criar laços com essas pessoas. Comecei a vender discos no bar, discos independentes, Lula Queiroga, Josildo Sá, músicos locais, faziam algum evento no bar, levavam discos para vender, não vendiam todos, eu falava “deixa aqui” e comecei.

Às vezes nós temos uma dificuldade de nos distanciarmos quando estamos dentro do olho do furacão. Você já tinha noção da importância que teria o manguebeat? Eu percebi. A coisa foi tão assim, tão forte. Eu sempre acompanhei muito a música de Pernambuco e ficava sentindo a necessidade de um movimento que o Brasil todo tomasse conhecimento, que eu espero que tenha tomado, né? Achava, quando começou, no final dos anos 1970, início dos 80, o grande sucesso de Alceu [Valença], Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, eu achava, “opa, vai ter um movimento!”, por que nunca tinha tido um movimento como teve na Bahia a Tropicália, o Pessoal do Ceará, nunca teve um movimento forte aqui, muito embora, antes deles, Luiz Gonzaga foi o maior de todos, talvez do Brasil, o mais revolucionário, a estética de roupa, de criar estilo, sem internet, sem televisão, sem nada, e ele de ponta a ponta do Brasil conheceram o trabalho dele.

O nome Passa Disco vem de onde? Você também lida com sebo ou só discos novos? Eu tenho um sebo de vinil, mas surgiu depois, uns cinco, ou seis anos depois. O nome Passa Disco foi uma criação de Lula Queiroga. Lula é publicitário, aí eu conversando com ele, eu fazia inclusive jardinagem no escritório dele, e comentei que ia fazer uma loja. Aí ele: “vai fazer uma loja? Legal! Bota Passa Disco!”

Como você avalia esse cenário de derrocada da indústria fonográfica e do próprio formato cd? Eu já comecei com ele quebrado. Quando eu comecei a loja, as grandes lojas do Recife já estavam fechando. Tinha algumas pequenas, algumas ainda permanecem, outras fecharam. Eu já sabia que era difícil. Tanto é que quando eu comecei aqui eu continuei com a jardinagem por que tinha que ter a sobrevivência. Com o passar do tempo foi solidificando e eu fui levando. Ruim deve ter sido para quem, na época, vendia milhares, aí veio a internet, download, deve ter tido uma quebra. Como eu já comecei por baixo…

Que discos da música pernambucana entrariam em um top five particular? Olho de Peixe [1993], de Lenine e [Marcos] Suzano, com certeza. Da lama ao caos. Vivo [1976], de Alceu Valença, qualquer disco de Luiz Gonzaga, qualquer disco de Capiba, são top. Desses que eu acompanhei, vi nascer, estes dois [Olho de peixe e Da lama ao caos]

Você é amigo dessa turma, isso facilita um pouco, não é? É, já no bar comecei, e depois é natural, as pessoas vão se chegando.

Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco (16/4)
Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco

Hoje haverá o lançamento de Jessier Quirino, e a Passa Disco acabou virando também este ponto de encontro. É possível listar alguns outros lançamentos, mais ou menos recentes, realizados aqui? Acredito que a gente já fez nesse período, a uma média de dois por mês, mais de 100. Fizemos lançamentos de Elba Ramalho, Dominguinhos, Silvério, Geraldo Maia, Maciel Melo. São constantes os lançamentos.

A Passa Disco também é um selo, não é? Sim. A gente lança coletâneas. Desde 2006 a gente vem lançando coletâneas. Já lançamos volume 1, volume 2 e volume 3 de [Pernambuco] Cantando para o Mundo, aí tem dois volumes de Pernambuco Frevando para o Mundo, dois volumes de Pernambuco Forrozando para o Mundo e mais um outro projeto que a gente iniciou, artistas que já lançaram discos, estão esgotados, e a gente faz o relançamento. Começamos ano passado com Josildo Sá. Aí tira o nome, aí fica Josildo Sá Cantando para o Mundo. Vai ser sempre nessas frentes.

De Nostrife para o mundo, via São Luís: a viagem sonora de Babi Jaques e Os Sicilianos

Não é fácil classificar a música de Babi Jaques e Os Sicilianos – assumisse o grupo uma sigla ela seria quase “beijos”. Talvez seja mesmo tarefa impossível e dizer simplesmente liquidificador sonoro certamente soaria clichê. É pop, é rock, é blues, é frevo, é música popular brasileira, mas é muito mais que isso. Ecos de tropicalismo e manguebeat – justificado pela conterraneidade com Chico Science, a quem, aliás, sampleiam na vinheta de abertura de Coisa Nostra, seu disco de estreia –, mas também da vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Ao menos aos ouvidos deste modesto crítico, impossível não lembrar, de cara, das experiências do pianista em Clara Crocodilo.

Talvez pelo fato de a banda ser formada por personagens. O que justifica a multiplicidade, Barbara Jaques, a vocalista, assumindo diversas formas durante uma performance. O disco enquanto suporte – um cd com encarte ou as faixas soltas nas esquinas virtuais para download – não é suficiente para cabê-los. Qualquer busca no google levará o leitor/ouvinte a biografias inventadas – o que pode reacender propositadamente ou não a fogueira em torno da polêmica um tanto vazia e insossa sobre o assunto.

Em Coisa Nostra, disco e show com que chegam à São Luís, por exemplo, travestem-se de mafiosos oriundos da cidade imaginária de Nostrife, evidente soma de máfia e Recife, sua (verdadeira)  terra natal. Babi Jaques pode ser numa faixa cantora de cabaré, noutra dublê de desenho animado, versátil cantora é o que é, afinal de contas. Sua música está próxima da poesia, melodias e harmonias são trilha sonora para a palavra, onde cabem ainda teatro, cinema, circo e, por que não?, música.

Coisa Nostra chega após a participação da banda em coletâneas e na trilha sonora de filmes. Produziram e lançaram ainda o documentário Sabe lá o que é isso, investigando as transformações do frevo, o título um verso do Hino de Batutas de São José, cuja releitura moderna o disco traz de brinde. É a estreia de um grupo que parece ter nascido pronto. São apenas quatro anos de carreira, mas o que se ouve e vê é pura maturidade musical. Alexandre Barros (bateria), Babi Jaques (voz), Thiago Lasserre (baixo) e Well (guitarra) garantem diversão nostrifense aos estrangeiros que se aventuram por seu disco e shows.

Hoje eles aportam em outra cidade imaginária, de tantas alcunhas um tanto já sem sentido: Athenas brasileira, Ilha do amor. Certamente não conhecem a lenda da serpente e é capaz dela despertar para dançar e se divertir – e fumar!: o afundar de São Luís fica pra outra ocasião, hoje no máximo o chão vai tremer ali na Praça Nauro Machado e arredores, onde às 23h Babi Jaques e Os Sicilianos armam sua (fan)farra musical, de graça, dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A festa está garantida, como na letra de Evocação sem número: “E não importa se acabou fevereiro/ meu carnaval dura o ano inteiro”.

O quarteto se apresenta ainda em Itapecuru-Mirim (3/11) e Caxias (8/11), antes de continuar as aventuras por Piauí, Ceará, São Paulo, Uruguai e Argentina.

Laborarte: raízes de um ideal

CESAR TEIXEIRA

1974: Josias Sobrinho e Cesar Teixeira faziam uma dupla de violeiros em encenação de “Marémemória”, espetáculo multimídia (antes de a palavra existir) baseado no livro-poema de José Chagas

Fundado oficialmente em 11 de outubro de 1972, o Laborarte completa 40 anos, mas a história da sua criação começa bem antes. A ideia original de formar um coletivo de arte integrada – reunindo teatro, música, dança, artes plásticas, fotografia etc – partiu do Movimento Antroponáutica (1969-1972), até então estruturado em cima da poesia.

Houve uma primeira convocação geral dos artistas de São Luís, em 1970, sem discriminação de tendências estéticas ou ideologia política. Foi um erro. A reunião ocorrida no prédio do Liceu, num domingo, acabou em verdadeiro tumulto, com os antroponautas subindo nas carteiras de uma sala de aula e discutindo entre si.

Uma nova convocação foi realizada em meados de 1972, tendo sido convidados grupos já constituídos e afinados com a proposta, entre eles o Teatro de Férias do Maranhão (TEFEMA), dirigido por Tácito Borralho, e o Grupo Chamató de Danças Populares, sob o comando de Regina Telles. Em uma reunião noturna nas escadarias da Biblioteca Pública (Praça Deodoro) foi decidida a programação cultural para lançar o movimento.

A manifestação seria realizada no auditório daquela biblioteca, cujas escadarias seriam ocupadas por uma exposição de artes plásticas. No auditório haveria performances com teatro, dança e música, culminando com o lançamento do livro Às mãos do dia, do poeta Raimundo Fontenele, que deveria fazer um ácido discurso-manifesto no final das apresentações.

Entre os convidados estaria o Secretário de Educação, Prof. Luiz Rego, que, conforme planejado, deveria ficar sentado num vaso sanitário. No coquetel, em vez de vinho ou guaraná, seriam oferecidos aos presentes penicos de leite e caranguejos vivos. Sem falar que em cada lance de escada que dava acesso ao auditório haveria um boneco de pano enforcado, ali representando o próprio artista marginalizado por um governo conservador.

Nada disso aconteceu, pois a Polícia Federal soube da mirabolante programação e mandou vários agentes para o local.

Houve exposição, teatro, dança e apresentação musical com a participação de Chico Maranhão e Sérgio Habibe, além do lançamento do livro. Mas o discurso ficou preso na garganta do poeta, que teve de prestar depoimento à PF, sendo liberado após intervenção da escritora Arlete Nogueira, então diretora do Departamento de Cultura do Estado.

Contudo, o movimento foi em frente, tendo sido escolhido o nome Laborarte (Laboratório de Expressões Artísticas) quando o grupo já estava instalado no prédio da Rua Jansen Müller, 42, contando ainda com a participação de alguns atores do Grupo Armação, criado por Borralho quando era seminarista em Recife.

A proposta de uma linguagem artística integrada, com identidade própria e respeitando as raízes culturais, portanto, já existia antes e se consolidaria na convergência para o Laborarte, instituído em 11 de outubro de 1972, uma quarta-feira, ocasião em que foi lançado o folheto de poesia mimeografado Os ossos do hospício, de minha autoria.

Naquele lugar se deu uma verdadeira alquimia que ajudou a quebrar alguns tabus e influenciar positivamente as artes no Maranhão. Não só a música ali produzida, mas sobretudo o teatro, apoiado nos estudos de Grotowsky, Artaud, Suassuna, Boal, Stanislavsky e Brecht. Sem esquecer de rezar nas cartilhas de Eduardo Garrido, Bibi Geraldino e Cecílio Sá, teatrólogos de verve popular.

O trabalho do Laborarte rendeu o prêmio de Melhor Plasticidade no Festival Nacional de Teatro Jovem, em Niterói (1972), com Espectrofúria, e o Troféu MEC/ Mambembe, no Rio de Janeiro (1978), com O cavaleiro do destino. Enfim, a entidade fez o dever de casa, e o que começou numa sala de aula vazia acabou virando uma escola.

Infelizmente, não posso relatar mais detalhes da história, porque fui expulso do Laborarte no início de 1975 e não vi de perto o que aconteceria depois. Mesmo assim, ainda contribuí indiretamente escrevendo o Testamento de Judas, impresso em forma de cordel (antes era mimeografado), entre 1990 e 2005, o que provocaria a fúria de muitos “herdeiros”.

[Viajando a trabalho, não cheguei a ir ao Laborarte dia 11, quando estavam previstas diversas atividades pelos festejos de suas quatro décadas; deixo com os poucos mas fieis leitores a memória e a pena afiadas de um de seus fundadores]