“Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética”

[Íntegra da entrevista publicada hoje no Alternativo, O Estado do Maranhão]

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção fará três participações na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Com nove livros publicados, um cd lançado e outro a sair ainda este ano, ele concedeu entrevista exclusiva a O Estado do Maranhão

ZEMA RIBEIRO
ESPECIAL PARA O ALTERNATIVO

Jornalista, poeta e letrista de música, Ademir Assunção tem nove livros publicados: LSD Nô (poesia, 1994), A Máquina Peluda (prosa, 1997), Cinemitologias (prosa poética, 1998), Zona Branca (poesia, 2001), Adorável Criatura Frankenstein (prosa, 2003), A Musa Chapada (com Antonio Vicente Pietroforte e Carlos Carah, poesia, 2008), Buenas Noches, Paraguaylândia (poesia, Assunção, Paraguai, 2009), A Voz do Ventríloquo (poesia, 2009) e Faróis no Caos (coletânea de entrevistas, 2009). Em 2005 lançou o cd Rebelião na Zona Fantasma, com participações dos parceiros Edvaldo Santana e Zeca Baleiro. Tem inéditos um cd – que lança ainda este ano – e quatro livros – três de poesia e uma coletânea de reportagens publicadas em diversos veículos. Alô, editores do meu Brasil!

Já ganhou alguns prêmios com sua produção, mas não é o tipo de cara que espera por bons ventos ou tempos de vacas gordas: o lance dele é o mar bravio, em que se mete a largas braçadas e pernadas, cara e coragem. Para lançar seu primeiro disco, por exemplo, à época, vendeu um carro. Para selecionar as 29 entrevistas de Faróis no Caos, passou dois meses isolado em uma praia.

Formado na Universidade Estadual de Londrina, o autor, convidado da 7ª. Feira do Livro de São Luís, passou pelas redações da Folha de Londrina, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Marie Claire, Veja São Paulo, além de frilar por outras: Revista dos Bancários (SP), O Tempo (Belo Horizonte), Gazeta do Povo (Curitiba), A Notícia (Joinville), Cult, IstoÉ, Revista Educação e Caros Amigos. Quando o jornalismo, sobretudo o cultural, começou a ficar careta ele caiu fora – um de nossos mais interessantes jornalistas está exilado das redações.

Ademir Assunção fará três participações na 7ª. FeliS: dia 28 de setembro (sábado), às 18h, no Auditório da Associação Comercial do Maranhão (Praça Benedito Leite), com mediação deste jornalista, ele profere a palestra “A farsa da big mídia e as revistas fora do centro: uma outra história”. Domingo (29), às 19h30min, apresenta-se no recital Poesia no Beco, no Beco Catarina Mina (Praia Grande), acompanhado do guitarrista Marcelo Watanabe. Dia 30 (segunda-feira), às 16h30min, divide um Café Literário com o também jornalista e poeta Eduardo Júlio. “Poesia rima com rebeldia: Leminski, Torquato e cia. Ilimitada” é o tema da conversa, que acontece na Galeria Valdelino Cécio (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande).

Em entrevista por e-mail a O Estado, Ademir Assunção falou de poesia, jornalismo, música, revistas literárias, sua trajetória, redes sociais e da expectativa por sua primeira visita à São Luís do Maranhão.

ENTREVISTA: ADEMIR ASSUNÇÃO

O Estado do Maranhão – Ano passado você lançou o livro de poemas A voz do ventríloquo e a coletânea de entrevistas Faróis no caos. Sua trajetória parece desde sempre marcada por essa, digamos, vida dupla: a poesia e o jornalismo. Em que sentido um e outro se ajudam e completam e/ou atrapalham?
Ademir Assunção – Fui em direção ao jornalismo movido pelo interesse pela linguagem poética. Peguei um período em que era possível praticar um jornalismo bem mais instigante do que o atual. Era possível desenvolver um estilo, ou vários estilos de escrita, e discutir questões relevantes com mais profundidade. Sempre fui fascinado pela página grande de um jornal, com todas as suas possibilidades criativas, desde a linguagem gráfica, fotográfica, até a própria escrita. O jornalismo me ajudou a criar uma disciplina e a procurar uma poesia mais impura, mais misturada ao cotidiano. E o estudo da tradição poética me ajudou a praticar um jornalismo mais criativo, enquanto foi possível. Embora sejam linguagens e meios bem diferentes, procurei contaminar um ao outro, levando uma consciência poética ao jornalismo e trazendo um pouco das impurezas da linguagem jornalística para a poesia.

Poesia “é saber usar a língua para extrair gemidos, uivos e palavras obscenas das mulheres mais vagabundas”. Esta é a resposta que você deu ao também poeta Edson Cruz, em O que é poesia? [2009], livro que ele organizou. O que mais é poesia? E levando em conta essa definição, você arriscaria um chute? Há muitos ou poucos poetas por aí? Bons ou ruins? Não gosto da poesia como algo puro, uma espécie de virgem imaculada no alto de um pedestal. Prefiro a poesia que vai para o meio da rua, que lambe as feridas dos trombadinhas, que se deixa violentar por tudo o que é humano, que se arrisca aos altos voos mas que tem consciência de que o asfalto é duro é áspero. Como diria Nietzsche: “de tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio sangue.” Sim, há muitos poetas que escrevem com essa fúria e essa urgência. São esses os que mais me interessam.

A mediocrização do jornalismo cultural brasileiro te obrigou a um exílio voluntário. Entrevistas como as reunidas em Faróis no caos estão cada vez mais raras na chamada grande mídia. Neste aspecto, uma volta ao passado parece mesmo impossível? Nada é impossível e o tempo não é linear como pensamos. É possível que a qualquer momento surja uma nova tribo de jornalistas que encare o exercício da escrita e da informação de maneira apaixonada e ousada, e não apenas como uma profissão, onde “quem pode manda e quem tem juízo obedece”. Para mim, isso é uma total falta de juízo. É preciso também que as condições se apresentem para que essas mudanças aconteçam. Quanto ao meu exílio, não foi tão voluntário assim. Passei períodos difíceis, sem grana, sem conseguir trabalho em jornal ou revista algum. Mas nunca estive disposto a vender o que tenho de mais precioso: a minha inquietação.

Muito do conteúdo dos poemas de A voz do ventríloquo é uma crítica a essa sociedade do espetáculo e do consumo desenfreado, que vai mais a um show ou a um restaurante para postar a foto do artista no palco e da comida no prato que para apreciar um ou outro. A experiência parece só existir se compartilhada. Escrever é um exercício solitário, que vai na contramão disso tudo. Como você dosa o exercício de escritor com a exposição na medida que o mesmo deve ter, divulgando a obra, conquistando leitores? Sinceramente, nunca me preocupei em conquistar mais leitores. Sigo fazendo o que tenho que fazer. A escrita, para mim, é vital. Tenho tanto prazer em passar madrugadas escrevendo solitariamente quanto em subir em um palco e apresentar meus poemas com minha banda. É claro que tenho intenção de influenciar mais pessoas, de interferir no resultado do jogo, mas que isso aconteça sem concessões descabidas. A poesia é capaz de abrir o olho de muita gente. Não a encaro como um entretenimento. Não tenho nenhuma dúvida de que minha percepção seria mais pobre se não tivesse lido Uivo, de Allen Ginsberg, ou a tradução da Ilíada por Haroldo de Campos, para citar dois exemplos.

Além dos livros de poesia e prosa e da atividade jornalística, outra atividade sua é a música. Para você, há diferença na hora de compor uma letra de música ou escrever um poema? Apenas diferenças técnicas. No meu caso, a maior parte das minhas parcerias musicais nasceu de poemas já escritos. Poucas vezes escrevi poemas para harmonias ou melodias já prontas. Acho um equívoco pensar que a “grande poesia” só pode existir no livro. Itamar Assumpção, por exemplo, é um poeta de altíssima voltagem. Só que em vez de publicar livros, gravou discos. São meios diferentes, com possibilidades diferentes. Gosto muito do poema cantado de Gilberto Gil [Metáfora, do disco Um banda um]: “Na lata do poeta tudo nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha caber / O incabível.”

Depois de Rebelião na Zona Fantasma você está preparando um novo disco, fundindo poesia com rock e blues, numa experiência para muito além de recitar poemas com fundo musical. A banda que te acompanha se chama Fracasso da Raça, um belo nome que já traduz uma opinião, uma visão de mundo. Deste novo disco – como se chamará? – já tive a oportunidade de ver o clipe de Bang bang no sábado à noite e ouvir Lena [enviada por e-mail em primeira mão]. Em ambas estão referências fundamentais para tua literatura, como Bob Dylan, John Lee Hooker, Sérgio Leone. O que mais esperar? E qual a previsão de lançamento? Este novo disco, que se chama Viralatas de Córdoba e será lançado em novembro, está mais radical do que Rebelião na Zona Fantasma. Das 14 faixas, há apenas uma cantada, um blues interpretado pela cantora Fabiana Cozza. É um poema que Edvaldo Santana musicou, sem nenhuma alteração. Todos os outros são entoados, com ritmos, com modulações, com intenções de voz diferentes. Porém, meticulosamente encaixados em harmonias e compassos musicais. Como você frisou, não se trata de poemas falados com um “fundo musical” aleatório, improvisado. O processo de composição com os músicos Marcelo Watanabe [guitarrista que o acompanhará em Poesia no Beco, durante a 7ª. FeliS], Caio Góes e Caio Dohogne foi muito curioso. Os próprios compositores jamais haviam trabalhado desta maneira. Gravei também O Deus, parceria com Edvaldo Santana e Paulo Leminski e Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto. Ambas são canções, originalmente cantadas, mas fiz uma versão falada (ou “entoada”, como prefiro). Em Chevrolet acrescentei o poema Eu Caminhava Assim tão Distraído, do poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça.

As revistas literárias e culturais são tema de uma das mesas de que você participa na 7ª. Feira do Livro de São Luís. Recentemente a editora Abril fechou a Bravo!, que apesar de já não ser como quando iniciou, ainda tinha alguma importância. É um sinal dos tempos? Ou sempre foi assim: a tesoura que corta o orçamento pega primeiro na cultura? Essa é a realidade do mercado editorial. Se uma publicação comercial não dá lucro financeiro, acaba sendo extinta. Não era um leitor assíduo da Bravo!, mas lamento seu fim. Particularmente, preferia que a Veja fosse extinta e a Bravo! continuasse.

Você é um dos editores da revista Coyote, que já conta 10 anos, 24 edições, um pequeno apoio da Prefeitura de Londrina e muita paixão e teimosia dos editores – a teimosia uma espécie de sal da poesia, tempero que não pode faltar. A meu ver é a mais importante revista de literatura do Brasil, hoje. Como surgiu a ideia e o que os leva a resistir? Rodrigo Garcia Lopes [também convidado da #7felis], Marcos Losnak e eu fizemos outras revistas antes, juntos, ou separados. A Coyote nasceu de uma necessidade nossa de mostrar autores, tanto do passado quanto do presente, que considerávamos importantes e que não víamos em outras publicações. E há uma particularidade da Coyote que as pessoas notam de cara: a linguagem gráfica. Para mim, Losnak é um gênio do design gráfico. Não entendemos a revista apenas como “suporte” para textos. A própria linguagem gráfica assume um papel de altíssima significância.

Que outras revistas literárias te fizeram e/ou fazem a cabeça? Várias, da Navilouca à Azougue. Muitas revistas surgiram nas últimas décadas, a maioria desapareceu, mas deixou contribuições importantes. Para citar algumas: Bric-a-Brac (Brasília), Orobóro e Medusa (Curitiba), Imã (Vitória), Ontem Choveu no Futuro (Campo Grande), Carioca e Inimigo Rumor (Rio de Janeiro), Pulsar (Teresina, se não me engano), Pajeurbe (Fortaleza) e Revista de Autofagia (Belo Horizonte). Há várias outras que me escapam à lembrança no momento.

Você conhece a Pitomba, editada aqui por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha? Qual a Coyote, também tem periodicidade de-vez-em-quandal e é feita com pouquíssimo apoio, no fim das contas sai do bolso do trio mesmo. O que acha da publicação? Gosto do tom de provocação e irreverência da Pitomba. Cada poeta ou grupo de poetas traz suas referências críticas e criativas. É importante que elas apareçam, que causem atritos. Os atritos provocam movimento, abrem novos horizontes perceptivos.

Outro tema que você debaterá é relação entre poesia e rebeldia, passando por obras de Paulo Leminski e Torquato Neto, entre outros, poetas que também influenciaram teu trabalho, você um rebelde. Quem são os rebeldes de hoje, que nomes valem a pena e mereceriam uma indicação tua, a um amigo, dentro de uma livraria? É preciso situar o termo “rebeldia”, para que não se torne algo caricato. Atitudes rebeldes surgem da necessidade de se firmar outras maneiras de viver e de fazer as coisas. Elas são vitais para ampliar a percepção, as experiências, para não cair na vala da acomodação, do mais-do-mesmo. Espíritos rebeldes sempre existiram, no passado, no presente e existirão no futuro. A lista dos poetas vivos que mais me instigam não é pequena. Para citar apenas cinco deles, eis alguns que procuro acompanhar com grande interesse: Douglas Diegues, Rodrigo Garcia Lopes, Fabrício Marques, Celso Borges e Micheliny Verunschk. Mas há um punhado de outros, que podem se sentir incluídos.

Você participa ainda do Poesia no Beco, em um espetáculo de voz e guitarra, espécie de miniatura do que será o disco. Quais as expectativas para esta apresentação e em geral, nesta sua primeira visita à Ilha natal de Ferreira Gullar? O que vou apresentar em São Luis do Maranhão, com o guitarrista Marcelo Watanabe, é uma versão, digamos, mais descarnada das composições que estão nos dois discos, o Rebelião e o Viralatas. Não tem os arranjos, com bateria, baixo, backing vocais, percussão, que estão presentes nos discos. As composições serão apresentadas mais próximas da raiz, de como elas nasceram. Tomara que as pessoas se sintam estimuladas com o que vão ouvir. Quero aproveitar essa minha primeira viagem ao Maranhão para mostrar o que estamos fazendo e também conhecer o que os criadores daí estão aprontando.

Não é mentira!: bang-bang hoje a noite

A quem conhece a obra de Ademir Assunção, preciso dizer nada. Aos que conhecem (apenas) seu primeiro disco, o excelente Rebelião na Zona Fantasma, talvez deva dizer umas palavrinhas: conheçam o blogue, os livros, o disco, o trabalho nas imprensas, alternativa e “grande”, donde se auto-exilou, para não se mediocrizar & mercantilizar, como vem ocorrendo.

A boa notícia do dia da mentira é que um de nossos mais talentosos poetas e jornalistas lança hoje a noite videoclipe de poemúsica do próximo disco, que já começou a gravar e deve lançar ainda este ano. Por aqui já ficamos na torcida.