Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

Divulgação

A mensagem de Criolo merece atenção independentemente de rótulos

Ainda há tempo. Capa. Reprodução
Ainda há tempo. Capa. Reprodução

Criolo Doido passou a assinar apenas Criolo, lançou o petardo Nó na orelha [2012] e angariou elogios de Caetano Veloso, Chico Buarque (que o homenageou em meio à sua Cálice, parceria com Gilberto Gil), Milton Nascimento (com quem chegou a dividir show), Emicida (com quem dividiu show e o disco Ao vivo, de 2013) e Ivete Sangalo (com quem dividiu o disco Viva Tim Maia, de 2015).

No rastro, Convoque seu Buda [2014] mantinha a pegada e o diálogo entre rap, samba e soul, principalmente. Criolo definitivamente havia saído do gueto e falava para multidões. No recém-lançado Ainda há tempo [Oloko Records, 2016, disponível para download no site do artista], Criolo volta às origens (que, de fato, nunca abandonou): depois do inegável sucesso, é seu disco mais acentuadamente “rhythm and poetry”, formado por composições datadas de entre 1996 e 2005.

São nove faixas e 11 produtores diferentes, sob direção musical de Daniel Ganjaman, que com Marcelo Cabral assina a produção da faixa-título, que fecha o disco, além de cantar e tocar contrabaixo, piano, sintetizadores e programação.

A verve de Criolo continua afiada e é uma constante no disco a mensagem positiva que predomina no rap, sobretudo destinada às juventudes das periferias, em sua maioria negros que perdem a vida para a polícia ou para o tráfico de drogas. “Eles querem que você desista/ mas jamais se dê por vencido/ rap nacional envolvidão até o pescoço/ se não fosse assim/ ai de mim/ só tava o osso”, diz a letra de No sapatinho (produzida por Renan Samam e Filiph Neo).

As vozes dos indígenas Shirley e Euclides Krenak, da tribo Krenak, são ouvidas na fortíssima Chuva ácida (produzida por Sala 70), em que Criolo critica, a partir da tragédia de Mariana/MG – até o lançamento do disco e a publicação desta resenha, nem Samarco nem Vale nem ninguém punido –, a política praticada a partir de conchavos e propinas, incluindo o Congresso nacional, departamentos de “responsabilidade social” de grandes empresas e organizações do terceiro setor.

Criolo não receia tocar feridas profundas em temas que lhe são caros. É freireano no sentido de aproximar a teoria da prática, a fala da ação ou, resumindo: o que canta do que vive. A juventude é uma preocupação constante e sobram críticas à violência, ao consumismo, ao capitalismo, ao preconceito, ao sexismo, ao consumo de drogas lícitas e ilícitas.

“Eu tenho fé nessa nova geração/ nesse povo maravilhoso/ a nossa juventude toda” e “as pessoas não são más/ elas só estão perdidas/ ainda há tempo/ eu não quero ver/ você triste assim, não/ que a minha música possa/ te levar amor”, têm esperanças Tô pra ver (produzida por Grou com participação especial de Rael) e a faixa-título, respectivamente.

Sonoramente Ainda há tempo talvez seja o disco mais hermético de Criolo. Ouvi-lo é necessário, pelo que discute, sobretudo no Brasil atual – espero que seja compreendido pelos fãs conquistados ao longo dos últimos anos, quando as lojas colocaram o artista nas prateleiras de MPB.

Ouça Chuva ácida (Criolo):

O circo tem palhaço

Da coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo de hoje:

Sucesso dos anos 80 e separados desde 2000, a dupla de palhaços Atchim & Espirro voltou a se juntar e pretende retomar as apresentações em teatros e na TV. A reestreia será em um comercial de remédio antigripal. Eles gravaram música nova, um rap de Rincón Sapiência produzido por Tejo Damasceno.

“Eu dizia que tínhamos que esperar as crianças que nos viam crescerem para a gente voltar à TV”, diz Eduardo dos Reis, 44, o Atchim. “O que aparecer a gente vai fazer. As crianças de hoje estão carentes”, diz Carlos Alberto de Oliveira, o Espirro, que não revela quantos anos tem. “Palhaço não tem idade. Só digo que sou um pouco mais velho que o Atchim.”

Grifo do blogue no hilário, grande notícia a volta da dupla.