A Jamaica brasileira invade a Pauliceia

Cultura da radiola terá destaque na Virada Cultural, em São Paulo. Duo Criolina e convidados farão 12 horas celebrando ritmos jamaicanos e maranhenses.

Pouco tempo depois de inventado na Jamaica o reggae se consolidou como preferência popular no Maranhão. Não à toa a capital São Luís recebeu a alcunha de Jamaica brasileira. O gênero musical e seu principal porto brasileiro serão lembrados durante a programação da Virada Cultural, em São Paulo, entre os dias 18 e 19 de maio. Num palco comandado pelo duo Criolina, formado por Alê Muniz e Luciana Simões, o reggae à maranhense comparecerá, com as presenças do poeta Celso Borges, dos djs Otávio Rodrigues, Joaquim Zion e Vanessa Serra e da atriz Áurea Maranhão.

Ano passado a Semana Internacional da Música (SIM-São Paulo) levou representantes maranhenses para uma noite, também numa parceria com o Festival BR-135, organizado pelo duo Criolina. Desta vez serão 12 horas de reggae, entre às 18h de sábado até às 6h de domingo, celebrando a cultura da radiola – lá fora conhecida como sound system –, muito difundida no Maranhão.

O duo Criolina. Foto: Layla Razzo

Representando o Maranhão, “Criolina, Radiola e convidados” será uma das festas de rua que acontecerão durante a Virada Cultural. As demais irão representar algum aspecto cultural dos estados da Bahia, Pará e Rio de Janeiro. “A Virada é o maior evento cultural do planeta, um festival com 24h de programação, gratuito e além de ocupar as ruas, conta com programação em centros culturais das periferias, as unidades do Sesc, teatros da cidade e vários equipamentos culturais. É ótima e uma boa desculpa para ocupar as ruas com arte, sair de casa e afirmar a nossa cultura como expressão popular e cidadã”, advoga a cantora Luciana Simões.

“Diminuíram consideravelmente os recursos nacionais para a cultura e justamente por ser um espaço de fomento devemos estar presentes e resistentes. A proposta de colocar o Maranhão no mapa também segue como uma grande bandeira pra nós. Eu acho que o espaço oferecido ao Criolina é um reconhecimento ao Maranhão, e uma ótima oportunidade para se mostrar a cena reggae, que é uma forte cena de rua, representativa e que causa bastante curiosidade”, pondera Alê Muniz, seu companheiro de Criolina.

Joaquim Zion também comenta o interesse dos paulistanos pela cultura reggae, mas aponta algumas diferenças entre as cenas. “A cultura reggae é bem forte em  São Paulo. Já há alguns anos vem crescendo a cultura sound system, que é um pouco diferente do estilo Inna Maranhão das radiolas daqui, porque lá eles tocam com radiolas, DJs e MCs rimando nas bases e o estilo basicamente é ragga, enquanto aqui o nosso lance é one drop, lovers rock, essa batida que chamamos para dançar agarrado a dois. Mas a mensagem é a mesma”, pontua. Ele comenta também sua expectativa: “é máxima pra gente, e o público pode esperar um grande set de hits, clássicos e raridades que fazem parte do imaginário do regueiro do Maranhão. São Paulo tem muitos maranhenses e tenho certeza que será uma grande festa”, promete.

O jornalista e dj Otávio Rodrigues diante de uma radiola. Foto: divulgação

Alcunhado Doctor Reggae, o jornalista e dj paulista Otávio Rodrigues ajudou a difundir o reggae no Brasil e consolidar São Luís como uma de suas principais praças, quando morou na cidade, na década de 1990. “Minha relação com o Maranhão é orgânica, me sinto como se tivesse nascido aí também. Morei na Ilha, viajei bastante pelo interior, fosse em busca de manifestações folclóricas, paisagens ou reggae – ou as três coisas juntas”, lembra.

Ele discotecará e dividirá o palco com o poeta Celso Borges; juntos, apresentam o espetáculo Poesia Dub, em que misturam poesia, com elementos de música jamaicana e da cultura popular do Maranhão. “No Poesia Dub, eu e Celso resgataremos algumas gemas do nosso repertório, como Morto vivo, Matadouro, Bumba meu dub e Linguagem [lista títulos de poemas apresentados no formato], e também mostraremos coisas novas, algumas com participação de Gerson da Conceição, gravadas pouco antes de sua súbita partida”, anuncia, lembrando o amigo baixista que se somava à trupe, recém-falecido.

O poeta Celso Borges. Foto: Layla Razzo

O poeta Celso Borges relembra as origens do espetáculo: “Eu costumo dizer que eu tenho dois santos em minha vida: São Luís e São Paulo. Cidades que estão entranhadas na minha alma, no meu coração. Morei 20 anos na Pauliceia. Aquela cidade, o tempo que eu morei lá, foi um tempo de muita alegria, de muita celebração, encontros com muitas pessoas, muitos artistas, fiz muitas amizades, tive diálogos maravilhosos com poetas, compositores, letristas. E foi ali também que eu, junto com Otávio, desenvolvi o Poesia Dub, a partir de 2004, 2005. É uma alegria enorme poder voltar a São Paulo e voltar fazendo uma nova apresentação do Poesia Dub. Vai ser uma grande celebração, estou muito animado”. O espetáculo é composto por poemas de Celso Borges, com citações de obras de Torquato Neto, Allen Ginsberg, um poema de Bandeira Tribuzi, e trilhas de Otávio Rodrigues.

“Na marcação de baixo poderosa que ele fazia, ele fazia também os vocais, a gente vai usar bases gravadas dele, e vou ler uma parceria nossa”, antecipa a homenagem a Gerson da Conceição, que estaria no palco com eles.

A estrutura do palco maranhense incluirá uma radiola de sete metros de largura, que tocará reggae, ritmos caribenhos e os gêneros musicais que permeiam a cultura popular do Maranhão, com destaque para o bumba meu boi e o tambor de crioula. A dj Vanessa Serra, que também esteve na Sim-SP, anuncia seu set list, reverenciando grandes nomes: “Vou levar um set com hits da música jamaicana e maranhense, que ouvíamos nas festas, nas rodas de violão e nas rádios de São Luís. Expoentes como o som de Nonato e Seu Conjunto, Humberto de Maracanã, Nicéas Drumont, Betto Pereira, Papete, João do Vale, Jacob Miller, Eric Donaldson e Beto Douglas não vão faltar”.

“Radiola e tambor de crioula são duas coisas que não podem faltar numa autêntica festa maranhense. Muito mais do que minha opinião, esse é o testemunho de alguém que já viu festejos no Maranhão de ponta a ponta: onde quer que se vá, na hora de celebrar tem de ter radiola e tambor”, finaliza Otávio Rodrigues.

Serviço

O palco maranhense fica na Rua Cásper Líbero (ao lado da Igreja de Santa Efigênia). Os shows são gratuitos. Conheça os horários das apresentações:

18h – Criolina + Luh Del Fuego
19h – Vanessa Serra
20h – Poesia Dub
21h – Joaquim Zion
22h – Otávio Rodrigues
23h – Criolina + Luh Del Fuego
0h – Vanessa Serra
1h – Poesia Dub
2h – Joaquim Zion
3h – Otávio Rodrigues
4h – Criolina + Luh Del Fuego
5h – Vanessa Serra.

Antes das apresentações do Poesia Dub e Criolina haverá performances da atriz Áurea Maranhão.

Obituário: Serralheiro

 

Em torno da consolidação da cena reggae em São Luís há muito de lenda, hipérbole e imodéstia. Mineiro radicado no Maranhão desde a década de 1960, Edmilson Tomé da Costa, o Serralheiro – nome artístico herdado de sua antiga profissão, será? –, é um dos pioneiros na introdução do gênero jamaicano em festas em São Luís. “Serralheiro, Natty Nayfson e Ribamar Macedo”, declarou, falando de si mesmo em terceira pessoa, em entrevista ao jornalista Felipe Larozza, publicada há cinco dias.

Sem falar uma palavra de inglês, Serralheiro esteve em Londres 28 vezes e na Jamaica 17 vezes. “Sou o cara que tem mais coragem no mundo”, bravateou ao mesmo jornalista. “Não tem gente no mundo que goste do reggae como eu”.

O dono da mítica Voz de Ouro Canarinho – nome de uma de suas radiolas – era um colecionador inveterado, mas gostava de exclusividade – reza a lenda que ao comprar um disco, raspava os que ficassem nas lojas para que ninguém mais tivesse as músicas que tinha. Não repetia música em suas discotecagens. Uma que mereceu destaque foi sua aparição na Virada Cultural paulista, em 2011 (veja o vídeo que abre este obituário).

O DJ Tarcísio Selektah, que há alguns dias havia usado as redes sociais para solicitar doações de sangue a Serralheiro, manifestou-se sobre a perda. “O reggae nacional de luto. Faleceu em São Luís o DJ/radioleiro mais antigo do Brasil”, lamentou.

“Com profundo pesar comunico o falecimento do “Carrasco” Serralheiro. O reggae do Maranhão está de luto”, declarou o DJ Ademar Danilo usando outra alcunha pela qual era conhecido o discotecário, que chegou a ser seu parceiro na equipe África Brasil Caribe.

Especialista em reggae, o jornalista Otávio Rodrigues, o Doc Reggae, declarou: “Fico triste, porque era meu amigo, e lamento muito, porque parte da história se vai sem um bom registro” [leia depoimento completo e exclusivo no fim deste obituário].

Serralheiro faleceu hoje (29), aos 70 anos, em consequência de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido há cerca de um mês. Estava internado no Hospital Carlos Macieira. Que esteja com Jah! Como, aliás, sempre esteve!

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Assista trailer de Sintonizah, documentário de Lecuk Ishida e Willy Biondani (com depoimento de Serralheiro):

 

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A GENTE VAI FICANDO MAIS SOZINHO

OTÁVIO RODRIGUES

Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt
Doc e Serralheiro em 2004. Foto: Carol Bittencourt

 

Conheci Serralheiro ainda em 1988, ano em que meu Cabral interior descobriu o Maranhão. Lembro que ele se recusou a posar pra uma foto, estava montando a radiola. “Ah, mas tô todo lambudo!” Meio que se apresentou dizendo que amava o reggae mais que tudo. “Gosto tanto de reggae que até dói no sangue”, disse, apontando as veias do braço. Eu não conseguia entender como aquele sujeito simples, quase rústico, de mãos grandes e com textura de lixa, conseguia ser tão refinado nas seleções musicais.

E com um apelido desses, que me levava a pensar nos artistas jamaicanos, que em sua maioria afirmam ter trabalhado como welders (soldadores) antes de iniciarem a carreira artística.

No dia em que deixei a Ilha, ele me apareceu com uma insuspeita fita cassete. “Gravei pra ti. Agora tu me manda umas pedras também.” A caminho do aeroporto, no fusca do Boaventura do Bairro de Fátima, coloquei a fita pra rodar e, ali de pronto, vi que a parada era séria (o Boaventura quase não me ouvia falar, só prestava atenção na fita). Com o tempo, estabelecemos um intercâmbio – mas com as regras dele. Eu enviava umas pedras do meu acervo, com total exclusividade, ou seja, eu não podia passar pra mais ninguém, nem tocar no rádio nem nada; e ele mandava umas dele também, que eu deveria manter no cofre e a sete chaves. Com o tempo, percebi que o acordo era imensamente bom pra ele, mas continuei com a brincadeira durante certo tempo – acho que, no fundo, eu adorava mesmo as cartinhas que vinham junto com o material.

Mais tarde, quando morei em São Luís, ele me virou a cara. Atônito, descobri por outros qual tinha sido a razão: eu reportara na revista Bizz a viagem que ele havia feito a Londres, levando uma fitinha com frases em inglês gravadas por Fauzi Beydoun: “Good morning!  I want to buy reggae records”, “I need a hotel” e outras básicas assim, pra que ele se salvasse em terras estrangeiras. Ficara ofendido com isso, não percebendo a admiração contida no relato. Demorou pra que fizéssemos as pazes.

Serralheiro morava na Rua da Salina, no João Paulo, lugar pouco percebido pela maioria, incluindo o poder público. Para um paulista classe média, caminhar por uma rua na qual o esgoto corre a céu aberto, como nos tempos coloniais, era uma experiência incomum. Imaginar que ali vivia um dos maiores DJs do Maranhão, um superstar, era uma incongruência sem tamanho. Na casa simples, repleta de discos fabulosos, eu pensava nas histórias que haviam me contado. Que Serralheiro costumava ir ao Rio e São Paulo atrás de discos e, quando encontrava algo realmente bom, comprava todas as unidades do mesmo álbum pra que nenhum outro gaiato tivesse acesso. E que, assim como Lee “Scratch” Perry fez com o próprio estúdio, um dia acordou e tacou fogo num monte desses ótimos discos. A esposa, ouvi dizer também, reclamava que a geladeira vivia vazia, que ele gastava tudo em reggae. Quem sabe a verdade?

Fico triste com a partida dele. Era meu amigo. Lamento ainda que sua história não tenha sido resgatada completamente, penso eu, e faço aqui um mea culpa. De onde ele vinha? Trabalhou com ferro mesmo? Como e onde começou no reggae? Guardarei pra sempre, porém, a imagem dele trabalhando de costas n’A Voz de Ouro Canarinho, manipulando o pause nos tape-decks durante toda a noite, quase sem olhar para o público, arrancando uivos de êxtase a cada tijolo.

A verdade é que, junto com Pai Euclides e o professor Carlos Lima, Serralheiro compunha meu panteão de santos maranhenses. O tempo passa, não tem jeito, a gente vai ficando mais sozinho. Descansem em paz, meu velhos.