Chorografia do Maranhão: Giovani Cavalcanti

Membro de diversos conjuntos no auge da era dos bailes, o violonista é o 43º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVANIO ALMEIDA SANTOS

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Giovani Alves de Cavalcanti chegou antes da hora marcada para prestar seu depoimento à Chorografia do Maranhão, o 43º. da série. Ele foi entrevistado por Ricarte Almeida Santos e Zema Ribeiro e fotografado por Rivanio Almeida Santos na quitanda de Seu João, na esquina das ruas da Viração e do Machado, próximo à avenida Beira-Mar, no Centro de São Luís.

Filho do psiquiatra Odilon Rezende Cavalcanti e de Eli de Assis Cavalcanti, doméstica com dotes artísticos, o violonista nasceu na rua São José, no bairro do João Paulo, em 4 de setembro de 1950. “Minha mãe esculpia, fazia pintura, chegou a escrever para jornal, alguns artigos, crítica contra a administração pública, tipo Caema, Cemar. O título era Canivetadas e ela assinava lá embaixo O Canivete. Fazia artigos em linguagem sertaneja e em rimas com o mesmo objetivo, sempre de malhar o sistema, as deficiências administrativas do Estado. E também compôs algumas músicas”, conta.

Ele estudou na escola técnica desde o ginásio industrial e cursou Química. Aposentou-se como técnico sênior em eletrônica na Telecomunicações do Maranhão S.A (Telma). Suas primeiras memórias musicais remontam a discos de gêneros os mais diversos, ouvidos pela mãe, e a um cavaquinho de plástico onde começou a dar as primeiras dedilhadas.

Na conversa com a chororreportagem Giovani lembra o convívio com figuras fundamentais para o choro no Maranhão, como Zé Hemetério e Nuna Gomes, além de várias histórias do auge das bandas de baile, ele que integrou algumas, além de grupos de samba.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

Além de músico qual a sua outra profissão? Eu fui um técnico em telecomunicações. Entrei na Telma no setor administrativo em 1975, trabalhei cinco anos lá, depois descobriram que eu tinha aptidões técnicas. Passei num concurso para a Embratel e a empresa para não me perder para a Embratel decidiu me reaproveitar no setor técnico. Mas eu tinha que cumprir algumas exigências da empresa, fazer cursos de eletricidade, eletrônica, embora eu já soubesse, mas eu tinha que me sujeitar às condições da empresa. Passei para auxilitar técnico e terminei minha carreira, já com a privatização da empresa, como técnico sênior em eletrônica, que é nível superior.

Hoje você está aposentado? Aposentado.

Observa-se uma paixão muito grande em tua vida que é o radioamador. Fale um pouco dessa paixão. O radioamador é interessante. Eu não sabia nada sobre radioamadorismo. Ainda trabalhando no setor administrativo, fiz amizade com o gerente da área técnica, o Pontes. Um dia peguei uma carona com ele e ele tinha um radiozinho lá, um aparato de comunicação. E no teto uma antenazinha, aquela coisa toda. A gente chegou perto da cabeceira da ponte do São Francisco e ele perguntou: “tu tá ouvindo esse cara aqui? Esse cara tá falando de Copacabana”. Aí ele começou a se comunicar com esse cara em Copacabana. Eu fiquei impressionado, como é que um rádio, um pouco maior que uma carteira de cigarros, conseguia se comunicar diretamente com a pessoa lá no Rio. E ele disse que não era só o Rio, mas qualquer cidade distante de São Luís aproximadamente 2.000 quilômetros. Foi aí que eu passei a me interessar, comprei equipamento, tirei minha licença na Anatel e entrei na chamada Faixa do Cidadão. Anos depois, já agora na era 2000, foi que eu realmente ingressei na Labre, a Liga Brasileira de Rádio emissão, e aí tive que me submeter a prova, inclusive de telegrafia. A telegrafia é mais ou menos igual a música, eu estudei sozinho. A música, como a telegrafia, antigamente era uma caixa preta, quem sabia não ensinava. Mas eu já falei com diversos países do mundo todo, muitas cidades do Brasil. O que está acima de 2.000 quilômetros.

Você também gosta muito de rádio AM. Eu gosto, eu sou coruja. Eu tenho vários rádios de ondas curtas. Foi um vício que eu adquiri de infância. Na minha casa tinha aqueles rádios a válvula da Philips, de noite eu não tinha para onde sair, a criação era bem diferente de hoje, você custava a sair, acima de 15, 18 anos é que você ia para festas. Hoje não, moleque de 12 anos já está por aí. Eu tinha que ficar em casa, inclusive aquelas expedições lunares, aquela corrida espacial dos Estados Unidos, tudo aquilo a gente ouvia pelo rádio. Então eu adquiri essa mania.

Como era o universo familiar, musical? O que te influenciou? Tua mãe tinha dotes artísticos. É o seguinte: minha mãe, o primeiro brinquedo que ela comprou, ela sempre gostava de comprar brinquedos musicais, flautinha doce, uma gaita. Teve uma época que ela comprou um cavaquinho da Troll, o slogan da Troll era “brinquedos de verdade”, e esse cavaquinho, mesmo sendo de brinquedo, de plástico, ele afinava. Você não afinava na altura, não tinha diapasão. Ela sabia afinar o cavaquinho e começou a me dar umas noções. Minha influência musical mesmo é que naquela época era muito eclética. Ela botava um disco de Luiz Gonzaga agora, daqui a pouco tirava e botava um Lenny Everson, Valdir Calmon, pra mim foi um dos maiores arranjadores de música popular no Brasil. Até hoje eu tenho na cabeça aqueles arranjos de Valdir Calmon, onde ele mistura samba e choro, fazendo aqueles pot-pourris, modulando, mudando de uma música para outra, muito bom o cara. A minha formação mais ou menos é essa, meu gosto.

Teus pais, então, eram colecionadores de discos, compradores de discos, ouviam muita música em casa. É, minha mãe ouvia muita música. Mamãe tinha Luiz Gonzaga e, por exemplo, disco da Banda Real Inglesa, Banda da Marinha dos Estados Unidos. Na época da semana da pátria só se ouviam hinos, aqueles dobrados militares. Música de natal, toda época ela tinha música. Mas mamãe gostava de música sertaneja, música clássica, Marinês e sua gente, Luiz Gonzaga, esse pessoal.

Quando ela presenteava vocês com esses brinquedos musicais, ela tinha pretensão de que vocês seguissem a carreira artística? Não, não. Era uma coisa informal, sem pretensão.

Mas ela te estimulou a participar de programas de calouros. Ah, sim. Nem todo mundo sabe, mas antigamente todas as rádios de São Luís tinham auditórios. Era obrigatório. E essas rádios tinham programas de auditório, ao vivo, pessoas na época muito faladas, tipo Lima Jr., da Rádio Difusora, que inventou O domingo é nosso. Todas as rádios, Ribamar, Timbira, Difusora, todas tinham auditórios. Nesses auditórios se apresentavam também os cantores que vinham de fora, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, e também os cantores da terra, tipo Orlandira Matos, Alcione, Escurinho do Samba. E até eu. [risos] por que não eu? Me inscreveram na Rádio Timbira, num programa mirim, só a garotada, era à tarde. Me botaram em cima de uma cadeira pra eu poder alcançar o microfone. A música que foi escolhida para mim foi O jarro de barro [O jarro da saudade, de Daniel Barbosa, Geraldo Blota e Mirabeau]: começa [cantarola] “Iaiá, cadê o jarro?/ o jarro que eu plantei…” Então, eu cresci, o nosso lazer antigamente em São Luís era cinema, dia de semana à noite, a tarde, os vesperais, e praia. Até praia era difícil. Pra ir pra Ponta d’Areia tinha que ir de canoa, Olho d’Água não tinha nem asfalto.

Como você entrou profissionalmente na música? Nós, todos os músicos da minha época, éramos amadores. Não tínhamos as oportunidades que a galera de hoje tem, como várias escolas de música, internet. Nós éramos músicos práticos, só tínhamos dom, talento. Eu comecei assim: depois que minha mãe me deu a noção de como obter determinadas notas na escala do cavaco, se mudou lá para a minha rua uma família de Rosário: seu Nuna Gomes [multi-instrumentista]. Um cidadão que sabia tudo de instrumento de cordas, também prático, um cara lá do campo, do interior. Ele era barbeiro. Geralmente todo barbeiro antigo tinha alguma coisa, ou para música ou para dama. A casa dele era daquelas casas que a janela fica na parede da rua, eu sempre via aquelas reuniões de músicos, sempre pintava lá Sinhozinho [João Pedro Borges, o Sinhô, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 14 de abril de 2013], Ubiratan [Sousa, multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013], se juntavam lá com os filhos dele, Denizal, que faleceu há pouco tempo, era um exímio violonista, se diferenciava, como Sinhô, que também estudou música. Eu ficava invocado, como era que o cara corria o dedo naquela escala, sabia onde parar. Um dia, seu Nuna, ele chamava todo mundo de capitão, podia ser uma criança de 10 anos. Ele me perguntou: “capitão, o senhor não gostaria de aprender a tocar violão?”. “Eu quero”. “Então o senhor vem pra cá, tem um método aí”. Eu estudava de manhã, de tarde eu ia pra lá.

Você tinha quantos anos? 15 anos, 14 e uns quebrados. Era a época da Jovem Guarda, aqueles conjuntos, Golden Boys, Os Vips. A gente reunia uma turma na escola, um ensinava uma nota pro outro, a gente pegava a mesma música e começava. Era assim, ninguém tinha escolaridade. Depois que eu peguei todas essas tonalidades de uma forma bem simplificada nesse método, que era um tal de Bandeirantes, o nome do método, eu passei a me arriscar a tentar ouvir uma música e tirar o acompanhamento. Eram coisas de Roberto Carlos. Um dia eu peguei uma revista e tinha uma nota que eu nunca tinha visto. Era um D com um ozinho pequenininho lá no expoente. Eu sabia que era um ré. Mas quando eu botava o ré não dava com a melodia ali naquele trecho. Eu comecei a levar para os colegas e era estranho para todo mundo. Alguém me disse, acho que até o Bastico [Gomes]: “só tem um cara que pode tirar essa tua dúvida: é Zé Hemetério [multi-instrumentista]”. Eu conhecia Zé Hemetério de passagem, passava sempre com o violino dele na mão, pendurado, para tocar nos bares, na noite. Eu fui lá, bati, nunca tinha tocado uma palavra com ele, a sede de aprender. Mostrei para ele, tem essa música de Roberto Carlos, é aquela música Esqueça [Forget him, de Mark Anthony, versão de Roberto Corte Real, cantarola:] “esqueça se ele não te ama”. Ele disse: “isso é ré com sétima diminuta”. E eu: “o que é isso?”. Ele foi lá dentro e voltou com um método dessa grossura [indica o tamanho com os dedos da mão], parecia uma bíblia. Era um Bandeirantes. Foi um método que foi elaborado por alguns músicos profissionais do Rio de Janeiro, que veio a facilitar o estudo da harmonia através da cifra. Era um método para piano, acordeom e violão no mesmo fascículo. Eu perguntei: “como é que eu consigo isso?”. E ele: “rapaz, isso não tem em São Luís, eu mandei buscar no Rio de Janeiro”. Passaram-se alguns meses, Bastico foi convidado para tocar no AC7 [conjunto musical], de Ataíde. Bastico foi tocar contrabaixo, como estava faltando guitarrista, Bastico me convidou. Eu nunca tinha pegado uma guitarra, só meu violãozinho ali de bossa nova. Mas eu fui, comecei a ensaiar com essa banda e comecei a tocar profissionalmente, de 1969.

Foi teu primeiro grupo? Meu primeiro grupo.

Se a gente fosse definir teus principais mestres, seriam Nuna e Zé Hemetério? O Zé Hemetério foi o cara que me deu essa dica, eu não sabia que existia acorde dissonante. Me despertou. O Nuna foi a pessoa que, depois, mais na frente, depois que eu toquei no AC7, depois a gente desfez o grupo, mudou pra Som Livre, eu fui tocar nOs Fantoches, como guitarrista, junto com Agnaldo [Sete Cordas, violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 17 de março de 2013]. Nós formamos um grupo justamente com os filhos de seu Nuna, são todos meus amigos, considero irmãos, Bastico, Biné e Zequinha [violonista, cavaquinista e saxofonista, Os Irmãos Gomes, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 22 de junho de 2014], mais alguns colegas de fora, Almir que era o cantor, Joaquim na bateria e por último entrou Pinheirinho, o Chico Pinheiro, arranjador, maestro. Eu não saía de lá da casa, os ensaios eram na casa de seu Nuna. Lá, enquanto a gente não estava ensaiando, ele pegava o bandolim dele, e começou a ensaiar comigo os choros dele, valsas, às vezes Bastico pegava o outro violão. Ele me ensinou a criar amizade, intimidade com o choro dele. Eu não tocava choros de outros compositores até então. Eu conhecia Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, mas não tocava. Eu me lembro que quando esse grupo ia tocar em Rosário, a gente se hospedava na casa deles em Rosário, ele costumava me acordar de manhã cedinho e dizia: “Capitão, vamos treinar o negócio do choro”. Nessa época, por incentivo de outro colega, Zé Nilson, foi professor de matemática, hoje é engenheiro, nós fizemos um grupo de choro. Chamava 20 Cordas no Choro, eu não sei de onde saiu essa história de 20 cordas, por que somando não dava. Era um grupo pra gente brincar, aí a gente começou, nesse grupo eu tocava cavaquinho, Biné era bandolinista e Bastico fazia o violão. E Marciano era o pandeirista e Celso, já falecido, fazia marcação. Chegamos a nos apresentar algumas vezes no programa de Moreira Serra na Rádio Ribamar, fizemos algumas brincadeiras em casas de pessoas, Zé Maria do Amaral, que tinha um cursinho, às vezes aniversários, coisas de família. Meses depois eu saí da banda, do Curtisom, o nome da banda lá da família era Curtisom. Saí e voltei para tocar com Ataíde já no Som Livre.

A gente pode dizer que sua paixão pelo choro começa com essa amizade com seu Nuna? É. Ele e a família dele. Depois, na Cohab, no bar do Eustáquio, era uma verdadeira tribuna artística, eu conheci uma figura extraordinária, músico de muito talento chamado Careca. Tocava bandolim muito bem. Nos encontrávamos quase que todos os finais de semana nesse bar, e sempre estávamos juntos com Agnaldo. Eu no seis cordas, Agnaldo no sete e Careca na bandola [bandolim]. O Six [Francisco de Assis Carvalho da Silva, advogado e cavaquinista], quando chegava aqui, mandava logo buscar o Careca. Então como o seu Nuna, o Careca me exercitou muito no choro. Isso tudo em meados dos anos 1970 até meados dos anos 80. Foi a época que mais toquei chorinhos com essa galera.

Tua família sempre te estimulou? Ou quando você decidiu seguir pela música houve uma resistência? Não. Minha mãe não me proibiu, a gente sempre soube que o ambiente musical profissional sempre rolou álcool e às vezes outras coisas, mas minha mãe sempre confiou em mim. O único entorpecente que eu já digeri foi álcool.

Você vive ou já viveu de música algum tempo? Pra viver nunca deu. Sempre foi um paralelo. Eu nunca comprei nada com dinheiro de música, de valor relevante. Eu tinha meu emprego, paralelo a isso, na noite, uns cachezinhos, pra comprar uma bobagem ali, um negócio. Às vezes você levava um mês para fazer uma festa. O conjunto de ponta que eu toquei aqui foi o Som Livre, depois o Curtisom, tinham agendas mais cheias. Interessante que nessa minha caminhada de músico profissional de banda, eu tive a satisfação de ser obrigado, contratualmente falando, a acompanhar grandes figuras da música popular brasileira.

Quem, por exemplo? Waldick Soriano, no Cine Monte Castelo, ainda na época do AC7, isso tudo sem ensaio, era aquela coisa “empurra o cara, se ele morrer afogado é problema dele” [risos], Luiz Gonzaga, o Gonzagão, fiz um show com ele aqui no Hotel São Francisco, Elizeth Cardoso no Casino Maranhense. E outros cantores, tipo Emílio Santiago, Alcione, recentemente eu fiz vários shows com Marquinhos Satã, Mário Sérgio, ali no Porto da Gabi, com Bola Sete, do Rio de Janeiro.

De que outros grupos você já participou? Aí é dividido em duas partes. Tem as bandas, começou com o AC7, depois Curtisom, Os Fantoches e Som Livre. Depois que eu saí do Som Livre vem a parte do samba. Meu violão, eu passei praticamente uns 12 anos sem nem pegar. Um dia minha cunhada foi morar comigo, olhou o violão dentro do guarda roupa, abandonado, e pediu para eu ensiná-la a tocar. Isso foi em 1992, 12 anos que eu nem pegava no violão, nem para tirar poeira. Como músico de banda nunca ganhei dinheiro, às vezes levava um mês para fazer uma festa, às vezes toda semana.

E os grupos de samba? Eu fiquei esse tempo todo sem tocar, nem dentro de casa. Depois eu fui fazer um curso, tinha um violão no clube, eu entrei lá, tinha uma turma tocando, comecei a tocar umas coisas de música aqui do Maranhão. Depois eu passei umas lições para minha cunhada, aí criou bolhas nos dedos e ela largou. Final de semana eu me sentava numa cadeira e começava a recordar aqueles antigos sucessos, Os Pholhas, um sambinha e tudo. Um dia Valter Nunes passou lá, eu tava tocando uma bossa nova, e “cara, tu não quer tocar domingo com a gente ali?”. Isso era uma terça-feira, eu estava por fora de samba, eu não conhecia um samba de Zeca Pagodinho, nada. Eu arranjei um captador, botei no violão. Tinha lá vários pagodeiros. E eu passeando, escorregando na manteiga o tempo todo, eu não conhecia as músicas, um esforço mental doido para não fazer feio. Quando terminou alguém disse que eu nunca mais podia sair do conjunto [risos]. A primeira coisa que eu acabei foi com esse negócio de tocar sentado, tem que tocar em pé, jogar o corpo, animar quem está lá. Aí nós começamos a dominar a praça com o Sambando na Praia. Depois eu fui para o Sem Dimensão. Quando eu estava no Sambando na Praia, o Vinicius foi embora. Foi uma dificuldade, ele cantava e tocava. Aqui era difícil gente cantar e tocar, a gente começou a andar atrás de músicos que fizessem as duas coisas, aí a gente contratou Ivan para cantar e Neto Peperi para fazer o cavaco. Tínhamos contrato fixo com o bar O Luar, ali na [avenida] Litorânea, o cachê lá era muito bom.

Você integra algum grupo atualmente? O Sob Medida, nós estamos ensaiando. Fizemos um pré-lançamento no programa do Ricardo Baty.

Na sua opinião o que significa o choro? Qual a importância dessa música? O choro, para mim, é uma música que não foi feita para qualquer um. O choro, o músico tem que ter muito conhecimento, nem eu tenho. Já vi muito músico tocar só com o talento, mas o choro exige do músico muito preparo técnico, conhecimento teórico e prático da coisa, do instrumento, da música. É uma música realmente emocionante. Eu me arrepio, me emociono escutando choro. Já tive oportunidade de tocar, de brincar, com pessoas de muito conhecimento, tipo Marco César [bandolinista], lá de Recife, com Jorge Cardoso [bandolinista], ainda em início de carreira.

Você se considera um chorão? Eu me considero um chorão mais como ouvinte, admirador. Se bem que no violão eu toco uns chorinhos. Muita coisa eu já esqueci, até de autores famosos, justamente por causa do samba. É aquela coisa, por que o chorinho, você pega um choro, você tem que estar tocando ele. Com o tempo você vai saindo. É como se fosse um satélite, manda um sinal para corrigir a órbita. Se você aprende uma música hoje, daqui a um ano você está tocando diferente. Agora, se não tocar, você esquece. Aquilo você cria uma espécie de memória mecânica, a posição, a sequência, como vai levando os dedos, a mão.

Chorografia do Maranhão: João Neto

[O Imparcial, 2 de fevereiro de 2014]

Tendo integrado praticamente todos os grupos de choro de São Luís, o flautista João Neto é o 25º. entrevistado da série Chorografia do Maranhão

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

TEXTO: RICARTE ALMEIDA SANTOS E ZEMA RIBEIRO
FOTOS: RIVÂNIO ALMEIDA SANTOS

Um chuvisco anunciava a noite em São Luís do Maranhão. A tradicional e pacata quitanda de Seu João, na Rua do Ribeirão, já abrigara, aquele dia, um ensaio fotográfico da cantora Alexandra Nicolas – o casarão lhe serviu de cenário ao encarte de Festejos, disco de estreia lançado ano passado. Ao fim dos trabalhos, ela degustava uma cerveja gelada por ali, na companhia da amiga e designer Raquel Noronha.

Era mais uma feliz coincidência das tantas que a Chorografia do Maranhão já proporcionou aos chororrepórteres que logo se juntariam a elas, mais próximos do balcão. O entrevistado da ocasião era o flautista João Neto, de passagem pela Ilha para curtir as férias de virada de ano – atualmente o músico mora em Belo Horizonte/MG, onde cursa mestrado em Música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Alexandra Nicolas preparava a primeira edição da temporada de Festejos na Praça, show que apresentou 18 de janeiro no coreto da Praça Gonçalves Dias. João Neto deu uma canja na abertura, compondo o grupo Cantinho do Choro, que tem ocupado aquele logradouro em fins de tardes de sábado.

Raimundo João Matos Costa Neto nasceu em São Luís em 3 de julho de 1978, ano em que seu tio Josias Sobrinho [compositor] teve gravadas suas quatro primeiras músicas por Papete, no antológico Bandeira de Aço, lançado pela Discos Marcus Pereira. Ainda criança João Neto engatinhava entre instrumentos musicais na casa da avó Ingrácia, onde aconteciam os ensaios do grupo Rabo de Vaca, formado por Josias e outros bambas.

Ao tio Josias ele afirma dever as maiores influências, desde antes de ter se decidido pela flauta – passou por violão e toca também flautim, pífano, clarinete, cavaquinho e percussão. É filho do dentista Francisco Carlos Guterres Costa e da dona de casa Francisca Tereza Morais Silva.

Ano passado graduou-se no curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) com a monografia Um panorama histórico-cultural sobre vida e obra de compositores de Choro da Baixada maranhense: breve análise musical de obras já editadas.

A entrevista que ele concedeu à Chorografia do Maranhão foi musicalmente ilustrada por Língua de preto (Honorino Lopes), André de sapato novo (André Victor Correia) e Rosa (Pixinguinha/ Otávio de Souza), que começou com a voz de Alexandra Nicolas e terminou com um coral formado por todos os presentes à quitanda, que aquela noite teve o expediente aumentado.

Foto: Rivanio Almeida Santos
Foto: Rivanio Almeida Santos

 

Como era o ambiente musical em tua casa, na tua infância? Minha infância, de zero aos seis, sete anos, ela foi meio assim, dinâmica, em relação à casa em que eu estava. Eu ficava um tempo na casa da avó, um tempo na casa da outra avó. Uma dessas avós é dona Ingrácia, mãe de Josias. E lá rolavam os ensaios do Rabo de Vaca. Então eu já estava ali com dois anos, fui conhecido por Zezé [Alves, flautista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 9 de junho de 2013], por Beto Pereira [cantor e compositor], desde criança eu estava ali naquela história. A família, muito musical, além de Josias, meu tio Armando tocava clarinete, meu tio Paulo toca violão, nada profissionalmente. Só quem seguiu profissionalmente foi Josias, compositor. Mas sempre em casa teve música, desde a infância até hoje, as festas são regadas a muita música. Sempre teve esse contato, em casa, minha mãe escutando Elis Regina, Chico Buarque.

Quando foi que você percebeu que iria encarar a música profissionalmente? Foi em Campina Grande. Fui morar em Campina Grande e lá tem um cara que hoje está nascendo aqui, o Madian [cantor e compositor], estudava lá. Eu fui pra lá, sabia que ele morava lá, morei numa república, pra fazer vestibular pra João Pessoa, um vestibular mais ou menos, na malandragem, já tocando violão. Eu fui pra Campina Grande pra tentar o vestibular para Odontologia em João Pessoa, meu pai é dentista e eu queria ser igual papai. Ele não queria. Eu cheguei e comecei a tocar violão pra caramba, Djavan, Chico Buarque, e foi uma escola muito legal. Foi a primeira vez que eu ganhei dinheiro tocando, foi com Madian e uma ex-mulher dele, uma grande cantora, de uma família de músicos lá da Paraíba. Eu tocava um tempo e Madian tocava outro tempo. Eu falei: “pô, dá pra ganhar dinheiro!”, tomando uísque, puta churrascaria lá, buffetzão. “Eu quero é isso pra mim!” Fiz vestibular, não passei, voltei pra cá, depois de seis meses em Campina Grande, vi o surgimento do [grupo] Cabruêra, um movimento musical muito forte.

Aí você voltou para São Luís. Veio fazer o quê? Eu tinha que estudar alguma coisa, acabei entrando no Ceuma, fiz dois anos de Direito. E paralelo, depois de um ano de Direito, passei em Filosofia na UFMA, e ao mesmo tempo tocando violão.

Você concluiu Filosofia? Que nada! Nenhum dos dois. Abandonei e fui para São Paulo, essa época já tocando flauta.

Significa dizer que tua profissão mesmo é a música? Não tem outra profissão? Não. Ter, tem outras coisas, meu pai tem uma clínica, eu trabalhei na parte administrativa coisa de cinco, seis meses, só. É difícil falar em profissão músico, pra mim, principalmente. Eu nunca toquei pra ganhar dinheiro. O dinheiro vem em consequência de minha arte. Eu vejo minha carreira como uma coisa da minha vida. Se eu for displicente com minha carreira eu estou sendo displicente com minha vida.

Mas cada vez mais você é cobrado para tocar profissionalmente. Isso! É uma consequência.

Não dá para dizer que você não é músico profissional. Não dá. Eu vivo da música.

Quando você fez essas outras tentativas. Odontologia, chegou a fazer vestibular, depois Direito, depois Filosofia. Elas eram, de algum modo, uma imposição da família? Eram. Eu tinha que corresponder a alguma coisa, eu não podia ficar ali. A gente deve uma satisfação. Músico é [visto como] vagabundo, né, cara? Principalmente flauta, flauta é luxo, entre aspas. O grupo tem violão, o grupo tem baixo, tem bateria, cavaquinho, mas a flauta vem muito depois. E depois que eu conheci flauta, eu larguei violão assim de uma forma. Virou meu amigo, parceiro, vez ou outra eu falo com ele.

Quando e como é que se deu a passagem do violão para a flauta? Há 12 anos, quando eu peguei a flauta transversal.

O que te motivou? Quem foi a pessoa que fez com que você se decidisse a tocar flauta? Foi um cara chamado Fabiano, que já tá lá com papai do céu já. Morreu muito novo, um cara que eu conheci em Campina Grande, era de Maceió. Era um cara surpreendente, tocava violão, baixo, teclado, bateria, trabalhava com tudo isso, e flauta também. Certa vez a gente na casa dele, eu e Madian, tocando lá, Djavan, um monte de música, ele pegou a flauta, começou a destruir, tocando um monte de coisas, tinha várias flautas doces na casa dele. Eu fiquei encantado e falei: “pô, Fabiano, como é que a gente faz aqui?” Ele falou: “não tem segredo, é só ouvido”. Eu fiquei mais encucado ainda, meio com raiva dele. Eu pensei: “esse cara toca pra caramba, não quer ensinar, dar um toque pros amigos”. Quando eu peguei a primeira flauta doce, que eu fui entender o que ele quis dizer lá atrás. Esse cara, esse encontro, esse dia foi que [interrompe-se]. Depois disso eu cheguei, fui pesquisar os flautistas, fui ajudado por muita gente.

Quem são os mestres que você considera essenciais? Na música, em primeiro lugar, para mim é Josias. Quando viu que eu estava tocando já chegou, me abraçou, eu tava tocando violão, me botou no palco, num show dele, eu já toquei violão com Josias, quando viu a flauta a mesma coisa. Musicalmente foi um cara que eu devo até hoje, até hoje é um parâmetro que eu tenho. Em relação à flauta o primeiro foi Zezé.

A família sempre te apoiou na decisão de buscar a música como caminho? A família da minha mãe sim. É muito musical, minha avó, que é um lance matriarcal forte pra caramba na família, meu avô morreu muito novo, com cinquenta e poucos anos, ela que segurou a onda toda. Lê muito, 86 anos, não assiste novela, passa o dia lendo, fazendo crochê. Escreve, no aniversário de 80 anos ela deu um presente à família, fez um livro de poemas. Toda uma espiritualidade muito forte. Tenho tios que me apoiam financeiramente, compram instrumentos, dão força, “taí, pega essa grana”, não é só “ah, é lindo!”, apoiam, investem. Tem incentivo da família.

Você falou de uma fase violão que rolava muito Djavan, Chico Buarque. Como é que foi a aproximação com os grupos de rock, principalmente a Mandorová? A Mandorová nem é um rock, a gente tocava rock. Tinha umas músicas que eram rock, mas a gente misturava, bumba boi, Josias, muita música nossa. A gente misturava isso por causa das influências de todo mundo. Veio uma galera de Campinas, Madian fez parte um tempo. Ela começou meio que um monte de gente, a gente conseguiu gravar umas coisas, eu já não tocava violão, já tocava flauta, pífano e percussão. Violão eu não tinha como meu instrumento, eu tinha como meu amigo. Eu gostava de cantar, mas essa voz, só nariz [risos]. Tudo que eu tocava eu cantava. Teve uma época que eu tinha o songbook de Chico Buarque, eu tocava mais de 60 músicas do Chico Buarque, aquelas melodias empenadas, ficava em casa, estudava. Mas a flauta veio e chegou e “peraí”, ela que me capturou, eu não escolhi.

Como é que foi a tua chegada ao universo do choro? Logo depois da flauta transversal, que eu comecei a tocar, Zezé pirou. Eu morei ali na época do Rabo de Vaca, ele “pô, sobrinho de Josias, tocando flauta!”. Não, vem aqui, vem aqui, me botou na Escola de Música [do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo], eu nem tinha feito prova, fiz Escola de Música, todas as percepções, ele me dava aula, “traz a flauta aqui”, me dava aula. Teve um tempo que se passava um ano e meio pra pegar em instrumento, só tendo aula de teoria, era algo meio maçante, o cara doido pra pegar no instrumento, hoje mudou isso. Então, Zezé foi um cara fundamental, até hoje é.

A música pra você é uma importante fonte de renda? Dá pra viver de música? O viver de música, viver de tocar. Eu não penso mais num futuro artístico pra mim. Eu penso num futuro acadêmico, que é uma coisa que vai me segurar, eu vou poder escolher o que quero tocar.

O professor pagando as contas do músico. Mais ou menos isso, mas pra mim é muito difícil separar o professor do músico. Tem gente que é um puta músico e não sabe ser professor, tem gente que é um puta professor e não toca porra nenhuma. Essas duas coisas são muito ligadas, eu amo ensinar, um projeto do Sesc que eu fazia parte, eu me coço todinho lá em casa, sem poder ensinar pra garotada, eu olho as fotos, aquilo era muito importante, 10 alunos tocando flauta. Minha vontade de estar lá é tão grande quanto minha vontade de voltar para cá e ir dar aulas na UFMA, na UEMA, crescer. Essa coisa da educação musical é uma coisa fundamental pra gente, pra definir um gosto musical. É tão grande essa nossa riqueza cultural, ao mesmo tempo a gente se submete a outras culturas impostas. Chega pra juventude, ninguém sabe quem é Coxinho, Mestre Felipe, Dona Teté [mestres da cultura popular, representantes, respectivamente, do bumba meu boi, tambor de crioula e cacuriá]. Isso é uma coisa que eu tenho como objetivo, além da vida artística, que é um sonho, uma coisa utópica, viver, ter filho, só tocando como flautista. O professor é um pé no chão, uma coisa palpável pra caramba, é uma coisa que eu estou construindo e com o choro, choro no Maranhão, na Baixada maranhense.

Houve um tempo aqui em que você tocava em 11 dos 10 grupos de choro que existiam. Teve um período em que o choro estava na crista da onda. Como é que você avalia o mercado de trabalho para o músico instrumentista em São Luís e em Belo Horizonte, se é que é possível algum tipo de comparação? Teve uma época que, por conta de uma efervescência do ritmo, ou uma influência do que estava acontecendo no Rio de Janeiro, do choro na Lapa, essa coisa de eu estar em vários grupos aconteceu exatamente concomitantemente com o projeto Clube do Choro Recebe, que propiciou a formação de outros grupos, além dos bares, cerca de cinco anos atrás, tinha o Por Acaso que tinha choro toda terça, o Antigamente toda segunda, o Feijão de Corda, na Ponta d’Areia, sexta-feira tinha no Tropical Shopping Center, o Clube do Choro Recebe todo sábado, vários lugares tinham choro. O fato de eu tocar com um monte de gente, quando eu estava chegando do Rio de Janeiro, Zezé fez um viaduto de safena, três pontes, ele falou, “ó, te vira aí”. Eu já fiquei no lugar dele no [Instrumental] Pixinguinha, na Escola de Música dando aulas no lugar dele, na Escola Municipal, e com o Xaxados e Perdidos.

Você está onde quer, fazendo mestrado hoje em Minas. Dá pra falar em saudade dessa cena de São Luís? Lógico! Faz com que surja os grupos, o movimento. Hoje, onde é que a gente tem choro? Só no Brisamar [hotel]. Fixo, só no Brisamar, pra reunir o pessoal que toca choro. Se não tem movimento, não tem avanço, não tem jeito. A efervescência desse movimento em São Luís fez surgir o Choro Pungado, Os Cinco Companheiros, os Madrilenus, que foi formado para acompanhar seu Eudes [Américo, compositor]. Em relação a Belo Horizonte, lá tem choro todo dia. Todo dia tem lugar onde tem choro, de segunda a segunda. O dia em que eu cheguei foi uma segunda-feira que eu fui pro Salomão [bar]. Nesse mesmo dia ele falou: “ó, toda segunda-feira vem pra cá!”, a galera na roda. Lá são dois dias, segunda e quinta. Toda segunda eu tenho ido. Pedra Azul [o cantor e compositor mineiro Paulinho Pedra Azul] tá toda segunda lá com a gente, já levou Fabiana Cozza [cantora], Silvério [Pontes, trompetista]… é um bar que a galera vai mesmo.

Além do Mandorová e do Choro Pungado de que outros grupos musicais você já participou, de choro ou não? Mandorová, Xaxados e Perdidos. Artistas que já toquei: Josias, toco até hoje, Rosa Reis, Cacuriá de Dona Teté, Omar Cutrim, Carlinhos Veloz, Alexandra Nicolas… De choro, o grupo Um a Zero, toco no [Instrumental] Pixinguinha, estou de férias nessa temporada, Tira-Teima, uma temporada, de reserva, de substituto, Choro Pungado, Urubu Malandro, Quartetaço, Os Cinco Companheiros eu fiz uma participação, o Não Chora que eu Choro, que era meu, Azeite Brasil.

E discos que têm tua flauta? Tem alguns. Que eu lembre assim, tem a Lena Machado [Samba de Minha Aldeia, 2010], Rosa Reis [Brincos, 2009], agora o que saiu do Osmar [do Trombone, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 23 de junho de 2013; Cinco Gerações, 2013], Gildomar Marinho [Olho de Boi, 2009]. Tem algumas produções de bumba meu boi daqui, muita coisa, “pô, vem gravar uma faixa”, às vezes sai, os caras nem me dão o disco. Grupo de samba tem o Vamu di Samba, que eu gravei os dois dvds dele, tem algumas produções que eu já fiz parte. O cd do Cláudio Leite, não sei se já saiu.

Há um grupo no cenário chorístico que deu o que falar, tanto do ponto de vista estético quanto das relações internas. O que significou para você o Choro Pungado? Não significou: significa. O Choro Pungado é mais ou menos assim um ideal. Eu acho que tanto pra mim quanto pra maioria dos que participavam, eu levo a sério mesmo. A gente conseguiu, assim de uma forma legal, descontraída, conseguimos compor, brincar com a música maranhense e choro, fundidos, de uma forma legal, livre, pelos integrantes terem uma desenvoltura musical muito avançada, eu acho, as coisas ficam mais fáceis, fluem mais rápido. Tanto que em pouco tempo de grupo a gente já tinha conseguido, pela crítica, vocês, Ubiratan Sousa [multi-instrumentista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 12 de maio de 2013] falou da gente, conseguimos vários elogios. Mas como você falou das relações, dentro do grupo, acontece, foi uma coisa muito rápida, o grupo teve uma vida curta, fatores extramusicais, agenda, por exemplo, Rui Mário [sanfoneiro, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 7 de julho de 2013], trabalha muito em estúdio, Luiz Jr. [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 4 de agosto de 2013] toca com todo mundo, eu também toco com muita gente, então foi assim desgastando a história dos compromissos. Mas eu acredito que musicalmente falando foi um passo à frente nesse cenário musical do choro no Maranhão. Foi uma experiência muito válida em relação à inovação, à fusão, à hibridação, tentar misturar essas coisas que estão muito dentro da gente. Pra mim é uma pena ter acabado, ter terminado cedo assim. A gente podia construir mais coisa, avançar muito mais. Teve meio que uma pressa em fazer sucesso, faltou uma perseverança, faltou mais trabalho, mais sentar e conversar, não querer logo fazer um dvd, por exemplo. Foi uma coisa legal, mas não foi legal, em relação a produto. O amadurecimento já estava vindo justamente nas nossas composições, sentados, ensaiando, e compondo.

Hoje em dia você participa de algum grupo? Lá em Minas você está só nas rodas? Não. É muito prematura minha chegada em Minas. É muito difícil você chegar e já conquistar um espaço. Eu cheguei há quatro meses e vou ficar só mais quatro. Tem muitos flautistas bons, os caras tocam pra caramba. Você chegar e já pegar um espaço, se inserir no mercado, é muito difícil, tem que ser extraordinário.

Como é que você tem conciliado a atividade acadêmica com a atividade musical? Tá sendo muito difícil. É uma transição bem peculiar. A parte acadêmica exige muito tempo, parar para ler, lá na UFMG não brincam, os professores são alto nível, minha orientadora é formada em Sorbonne, tem doutorado em Sorbonne. Eu suei a camisa pra conseguir conciliar.

Qual a discussão da tua dissertação? Eu vou tentar fazer uma mescla da musicologia histórica com a etnomusicologia. Isso da etnomusicologia eu fiz agora, numa cadeira que eu fiz, fiz etnografias da III Semana Seu Geraldo [de Música], em São Paulo, do Bandão [da Escola Portátil de Música], lá no Rio, eu fiquei meio que apaixonado por etnomusicologia.

Fala um pouco de tuas pesquisas, tanto na graduação como no mestrado. O que você fez e o que vai fazer? Na graduação, no trabalho de conclusão, eu tentei mostrar que na Baixada maranhense tem compositores de choro. Peguei alguns compositores de choro, o Josias, o Osmar, um cara que eu descobri, que ninguém conhece, que eu descobri lá em Guimarães, seu Moisés Ferreira, um cara que era teatrólogo. Esse cara é que foi assim a válvula, o estopim, de dizer, “pô, tem!”. Eu estava meio em dúvida sobre o que fazer. Eu pensei também nessa fusão do choro com a música maranhense, nos arranjos de Ubiratan no disco do Biné do Banjo [Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 31 de março de 2013; Visitação, 2011], que ficaram muito interessantes, eu pensei em falar deles. Eu percebi que a dimensão do choro, dos compositores de choro na Baixada maranhense é muito maior que um trabalho focado. É um trabalho que eu posso levar, posso pesquisar a minha vida toda. No meu TCC eu peguei o escopo de que existe, uma comprovação, fiz entrevistas com Osmar, Josias, seu Raimundo Abreu, lá de Cajari, um grande professor de música de lá. Tive como suporte teórico, suporte de pesquisa, a obra de João Mohana [padre, médico e escritor], aquele livro A grande música do Maranhão. Ele começou em Viana. É o único registro que a gente tem escrito disso. Joaquim Santos [violonista, Chorografia do Maranhão, O Imparcial, 8 de dezembro de 2013] colaborou. Osmar, o avô dele, seu Macico [Marcelino Fernandes Furtado, flautista] foi um puta mestre de banda, fez arranjos de choro, foi um cara que recebia as partituras e fazia arranjos. Essa parte do mestrado eu quero justamente fazer isso, além da continuação do que eu fiz no TCC eu quero pegar material, do acervo João Mohana também.

Além de multi-instrumentista você desenvolve outras habilidades no campo da música? Arranjos, composição? Eu tenho composições. Na Mandorová a gente tocava umas duas, no Choro Pungado a gente gravou uma, um baião chamado Vim de lá, pá-pá-ri-ra-ri-pá-rá-rá [cantarola o ritmo], que eu fiz no pífano, depois a gente adequou para a flauta.

A Mandorová foi uma experiência boa? Foi fundamental. Com ela eu fui para São Paulo, passamos dois anos tocando, abrimos shows, saímos em jornal, passamos em matéria nacional do Jornal Hoje [da Rede Globo de Televisão], fizemos coisa de 10 interiores em São Paulo. Tocamos muito aqui no Canto do Tonico [extinto bar, na Rua Portugal, Praia Grande].

Pra você, o que é o choro? Se a gente vir pela história do choro, ele já começa importante. Começa como uma maneira de tocar, uma coisa que foi trazida, aquele amálgama da brasilidade no século XIX, meio que fez surgir aquela história toda de uma forma brasileira de tocar, depois virou dança, depois virou maxixe, depois virou tudo isso. Eu encaro isso como uma identidade brasileira, musical, mas além, social: uma identidade social, o choro. Se você leu O Choro [O Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos], do Alexandre Gonçalves [Pinto], que fez o primeiro registro, em 1936, ele falou dos caras que tocavam, que faziam parte daquela história, que estavam na roda. Pra mim o choro é essa identidade brasileira, que por mais que mude a moda, que venha dessa transição de uma coisa pra outra, do violão pra isso, da jovem guarda pr’aquilo, o choro está sempre ali de alicerce. Desde a sua gênese, de sua aparição, seu apogeu, 1920, 1930, desde ali, ele pode ter caído mercadologicamente, financeiramente, tudo, esse campo artístico em volta do choro, mas ele nunca deixou de ser produzido. Se a gente falar na década de 1980, o rock’n roll, os melhores discos de Raphael Rabello [violonista sete cordas] foram lançados na década de 80, Baden Powell [violonista], Camerata Carioca.

Há quem ache que o choro é uma coisa estática, estagnada. Você acha que o choro é uma música fechada ou uma música aberta? A música em si é aberta. O que fecha é a cabeça das pessoas. Eu posso chegar numa roda de choro falando de choro, tocando do jeito que eu gosto, a galera pode não gostar. Yamandu Costa [violonista sete cordas], Hamilton de Holanda [bandolinista], Pixinguinha [Alfredo da Rocha Viana Filho, compositor e multi-instrumentista], na época dele, “esse cara é doido!”.

Você se considera um chorão? Não. Eu amo o choro, amo tocar choro, mas eu não me enquadro numa especificidade, num estereótipo. Mesmo dentro do choro, da linguagem choro, do gênero, você vê o ritmo baião, maxixe, tango, flamenco, é um universo. Como é que se vai dizer que é só uma coisa? É o mesmo que dizer “eu sou roqueiro”, eu acho que limita. Eu sou músico!