Primeira adaptação de A revolução dos bichos aos quadrinhos é brasileira

A revolução dos bichos. Capa. Reprodução

 

A George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903-1950) bastaram duas obras para estabelecer seu nome entre os mais importantes escritores do século XX: “o alegórico A revolução dos bichos influenciou até Chico Buarque (Fazenda modelo), e expressões como Big Brother [Grande Irmão] e Newspeak [Novilíngua], lançadas em 1984, há muito caíram na boca do povo e na cloaca televisiva”, como escreve Sérgio Augusto em “O jornalista exemplar”, prefácio a O que é fascismo? e outros ensaios [Companhia das Letras, 2017, 158 p.].

A recente adaptação em quadrinhos do gaúcho Odyr para A revolução dos bichos [Quadrinhos na Cia., 2018, 175 p.; R$ 70] é uma obra-prima. Mais que isso: não é exagero dizer que cada página, ou cada quadro é uma obra-prima. É daqueles livros que você se demora apreciando as imagens, analisando detalhes. Odyr é dono de um traço único e seus acrílicos dialogam diretamente com o ambiente rural do conto de fadas orwelliano.

Com enredo por demais conhecido, é justamente pelas pinturas de Odyr que vale a pena a revisita à obra, que trata da insurreição dos animais contra os donos de uma granja, numa fábula sobre o poder e suas tentações.

O livro chega em momento apropriado e é impossível não fazer analogias ao acirrado momento político por que passa o Brasil, embora Orwell não fosse dado a profecias, como também o afirma Sérgio Augusto no texto citado. “Intrépido e pertinaz defensor de causas em geral perdidas, estava sempre alerta em defesa da liberdade, sobretudo a de expressão, que definia como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, e, por tabela, contra o totalitarismo de qualquer matriz”, escreve.

“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”, a frase do jornalista, escritor e crítico literário Christopher Hitchens, epígrafe-orelha, também diz muito para além da época em que A revolução dos bichos foi escrito – durante a Segunda Guerra Mundial, publicado em 1945.

A revolução dos bichos já tinha sido adaptado ao cinema, mas esta é a sua primeira adaptação aos quadrinhos. O autor se definia como um socialista democrático, não poupando críticas sequer aos que com ele dividiam o mesmo espectro ideológico. A quem porventura (ainda) acha tratar-se de obra para crianças – sobretudo num tempo em que a ignorância se torna motivo de orgulho, ostentada e bradada aos quatro ventos e inúmeras mensagens de whatsapp –, Odyr desenhou.

Jornada poética

Como falar com garotas em festas. Capa. Reprodução

 

Como falar com garotas em festas [How to talk to girls at parties; Quadrinhos na Cia., 2017, 80 p.; R$ 44,90; leia um trecho] não é, ao contrário do que o título porventura possa sugerir, um manual com fórmulas para serem seguidas à risca ou com desconfiança, tampouco um guia politicamente incorreto.

Em primeiro lugar, é o encontro de três artistas geniais, que dispensam apresentações: Neil Gaiman [Sandman e Coraline, entre outros], autor do conto, e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá [10 pãezinhos, Daytripper e a adaptação aos quadrinhos de Dois irmãos, de Milton Hatoum, entre outros], responsáveis pela adaptação da história aos quadrinhos.

É redundante dizer que uma graphic novel é cinematográfica, já que os conceitos se confundem um tanto entre a sétima e a nona artes. Além do mais, Como falar com garotas em festas ganhou também adaptação para a telona, com direção de John Cameron Mitchell e elenco com Elle Fanning e Nicole Kidman, que estreia este ano (ainda sem data para chegar ao Brasil).

É um álbum sobre amor e amizade, as confusões destes e outros sentimentos no período turbulento chamado adolescência. Enn e Vic são amigos na Londres dos anos 1970, durante a explosão do punk rock. Um é tímido e não tem sorte com as garotas; o outro é bonitão e espalhafatoso e sempre desperta a inveja do amigo.

O traço de Moon e Bá já é um clássico há tempos e a atmosfera do conto de Gaiman o envolve em poesia, não que eles não já tivessem, mas aqui a questão é particular e direta. Numa casa, em uma festa a que o par de amigos chega por acaso, Enn conhece Triolet, a “garota-poema”. “Você não consegue ouvir um poema sem que ele te transforme”, ela lhe diz em determinada altura.

Há várias metáforas colocadas: nada é apenas o que parece ser e perde quem se contentar com a/s aparência/s, do título ao caderno de rascunhos ao final do volume (que permite perceber detalhes do processo de desenvolvimento da obra).

A hq aborda esse turbilhão de sentimentos adolescentes com um pé na ficção científica, como se a adolescência não fosse um período complicado por si só. Um período de descobertas, experiências, aventuras. De quebrar a cara. De transição. De diversão e de começar a se preocupar com novas responsabilidades. No texto de Gaiman e no traço e nas cores de Moon e Bá tudo se torna mais poético e com poesia é menos duro seguir a jornada.

Anacronismo para retratar o Brasil

Mensur. Capa. Reprodução

 

O bullying transformou o protagonista de Mensur [Quadrinhos na Cia., 2017, 208 p.; R$ 54,90; leia um trecho] em Gringo. Filho sem pai de uma dona de casa, ele ganhou o apelido na escola. São seus dramas que o leitor acompanha ao longo das páginas da nova graphic novel de Rafael Coutinho, que já dispensa apresentações.

A luta de espadas que dá título ao álbum se parece com a esgrima, mas tem o claro objetivo de produzir ferimentos no rosto do oponente e estas cicatrizes serão motivo de orgulho para seus praticantes. Era uma prática de estudantes universitários alemães no século XV e o autor traz para o Brasil, entre Caxambu, Ouro Preto e São Paulo, cidades que dão nome às partes do livro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que espadas ferindo rostos são a maior violência nas páginas de Mensur. É uma obra de ficção, mas Rafael Coutinho retrata um Brasil violento e desigual, em que tudo, por mais grave que seja, é banalizado e dado como absolutamente normal – vide a sequência de golpes perpetrados no ambiente político.

Gringo é ao mesmo tempo um personagem anacrônico e um brasileiro comum. E ao mesmo tempo também, para alguns, um herói. Lida com fantasmas do passado, busca tornar-se um ser humano melhor, valoriza a palavra e a honra – instituições que em geral funcionam mal, como tantas no Brasil –, busca ganhar a vida honestamente, mesmo em subempregos, apaixona-se e tem o CPF negativado apesar de já ter pagado a fatura – experiências comuns de tantos brasileiros comuns.

O letramento de Mensur utiliza a caligrafia do autor em resultado charmoso. Rafael Coutinho não se limita ao quadrinho: por vezes determinadas cenas – e particularmente as “danças” dos espadachins – escorrem, tornando-se páginas inteiras, transformando-as em verdadeiras obras de arte – o que de resto, Mensur é, desde a capa.

Jornalismo com J maiúsculo

Reportagens. Capa. Reprodução
Reportagens. Capa. Reprodução

 

A nanobiografia do autor, ao fim do volume, afirma: “formou-se em jornalismo, mas deixou a profissão para se dedicar às histórias em quadrinhos”. A bem da verdade, ele não deixou a profissão: Joe Sacco [Malta, 1960] tornou-se talvez o mais importante autor de jornalismo em quadrinhos e este Reportagens [Quadrinhos na Cia., 2016, 199 p.; tradução de Érico Assis; leia um trecho] é prova inconteste.

Aliás, Journalism é o título original deste álbum, que reúne verdadeiras lições de jornalismo – e geopolítica – em um gênero em geral tido como menor, menos sério ou menos importante. O próprio Sacco assina uma “saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo” – lição número um.

Seu trabalho é tão profundo quanto reportagens que se utilizam apenas de palavras e fotografias – aliás, seus quadrinhos deixam no chinelo muitos jornalistas acostumados (viciados) aos ares-condicionados de confortáveis redações e/ou ao copia e cola de releases e opiniões prontas dos patrões.

Joe Sacco não vai apenas para a rua, como é necessário para o bom e velho jornalismo, não apenas enfia os pés na lama: ele vai literalmente para o meio do olho do furacão, retratar dramas humanos em zonas de guerra.

Reportagens é uma coletânea de trabalhos de menor extensão publicados por ele mais ou menos recentemente em revistas e jornais como Boston Globe, Details, Guardian Weekend, Harper’s Magazine, New York Times Magazine, Virginia Quarterly Review e XXI.

O jornalista-quadrinhista é objetivo sem se tirar de cena – por vezes as reportagens têm um quê de making-of (além de um texto ao final de cada uma, detalhando pormenores de suas feituras e opiniões do autor sobre o próprio trabalho, um interessante exercício de autocrítica, inclusive).

O ponto em comum destas reportagens é a violência. O modus operandi militar – igual em qualquer parte do mundo – é alvo de Julgamentos de guerra, que se passa no Tribunal Penal Internacional, em Haia. O preconceito contra imigrantes africanos em Malta – terra natal de Sacco – é retratado em Os indesejáveis. Kushinagar retrata fiel e cruamente as injustiças, desigualdades sociais e a fome na Índia.

Se há quem ainda torça o nariz para o jornalismo em quadrinhos – gênero ainda pouco explorado no Brasil –, há quem reconheça Joe Sacco como um dos maiores correspondentes de guerra de nossos tempos, ele, autor também de Notas sobre Gaza [Companhia das Letras, 2010, 432 p.] e Palestina [Conrad, 2011, 328 p.], temas e geografias que também frequentam Reportagens.

Diante de pautas tão densas e cruéis é impossível falar em ludicidade – mesmo em se tratando de histórias em quadrinhos. Sacco não perde o bom humor e, aqui e ali, tira onda de seus interlocutores, fazendo com isso, críticas a funcionários públicos corruptos e coronéis – tenham os nomes que tiverem em outros países e línguas.

A hq da hq

Sopa de salsicha. Capa. Reprodução
Sopa de salsicha. Capa. Reprodução

Sopa de salsicha [Quadrinhos na Cia., 2016; leia um trecho] é um hilariante making of. A autoficção, hoje tão comum na literatura brasileira, é o mote desta nova graphic novel de Eduardo Medeiros: a história é a de sua busca pela história a contar.

Cheio de referências, sobretudo dos universos dos quadrinhos e da música, o álbum tem como personagens o cantor americano Michael Bolton [When a man loves a woman, que ele cantarola aqui e acolá], espécie de conselheiro onírico de Eduardo, os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon [10 pãezinhos] e Rafael Albuquerque, entre outros.

“Nós odiamos Porto Alegre”, “eu odeio reggae” e “eu odeio Bob Marley”, apesar dos dreadlocks que usa, podem causar, à primeira vista, má impressão, mas no fundo, o autor-personagem é gente boa e a ele, de algum modo, nos afeiçoamos e compadecemos. Ele se muda com a esposa da capital gaúcha para Florianópolis e repassa ao longo das 165 páginas da hq sua própria vida, em busca de uma boa história para contar. E nos conta várias.

Por exemplo, sua aversão por banheiros sujos. Sua aversão por bananas – fruta onipresente nas receitas de Aline, a Baixinha, sua esposa, a quem o livro é dedicado. No fundo, é tudo como diz o título de uma das mais conhecidas canções de Michael Bolton: quando um homem ama uma mulher.

A vida a dois, em si, com suas dores e delícias, também é matéria-prima para a busca de Eduardo Medeiros. Os momentos em que um segura a barra do outro em momentos de guinadas (sempre acompanhadas de um temporário desemprego) são comoventes. E uma simples saída (entre escolher roupa, regar plantas, tirar a roupa do varal e isso tudo levar quase uma hora) pode se tornar uma tortura – e resultar em ficarem em casa. De artistas ou não, que casal nunca?

Sopa de salsicha é também o retrato da falta de glamour da vida de artistas do desenho, que, sem conseguir sobreviver exclusivamente de sua arte – qualquer semelhança com outras expressões artísticas não é mera coincidência –, precisam encarar frilas os mais variados, em nome das contas pagas no fim do mês – o que às vezes deixa o trabalho autoral, leia-se, o trabalho artístico, em si, em segundo plano.

“O que importa é que eu tô feliz com minha jornada até aqui”, diz o autor-personagem num quadro. Certamente os leitores também, quer já o conheçam ou não de Friquinique [Beleléu], A história mais triste do mundo [Stout Club] e Open bar [Stout Club].

A insubmissa

Magda. Capa. Reprodução
Magda. Capa. Reprodução

 

Negra, nordestina e lésbica, Magda [Quadrinhos na Cia., 2016, 144 p.; leia um trecho] é um misto de ser humano, robô e inseto na ficção científica homônima de Rafa Campos Rocha.

Misto é modo de dizer: na verdade, o corpo de Magda é ocupado por um ser com milhões de anos de idade. A fusão, ao mesmo tempo em que a torna poderosa e monstruosa, envolve-a em conflitos.

Uma epidemia se abate sobre o lugar e é dos possuídos pelo vírus que Magda se alimenta. Seus atributos físicos lembram um pouco os da protagonista de Deus, essa gostosa [Quadrinhos na Cia., 2012, 88 p.], também uma mulher negra.

Diversas referências permeiam a obra – A metamorfose, de Kafka, é apenas a mais óbvia: aqui e acolá aparecem Pavement, Fábrica de Animais, Paulo Vanzolini e até mesmo Patati e Patatá. Sobram críticas à nossa sociedade contemporânea, seu preconceito, hipocrisia e caretice, ao militarismo e ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Perturbador, Magda se equilibra entre cenas de extrema violência e momentos de pura doçura – é sublime a sequência do banho com a namorada.

Esfregando genialidade na cara da humanidade

Mate minha mãe. Capa. Reprodução
Mate minha mãe. Capa. Reprodução

 

O que quer alguém que já venceu o Oscar, o Pulitzer e o Obie Awards ao se meter e fazer uma graphic novel? Esfregar sua genialidade na cara da humanidade? “O que é que pode fazer um homem comum neste presente instante?”, hein, meu caro Belchior?

O melhor a fazer é deleitar-se com o exagerado talento de Jules Feiffer, 87, esfregado em nossa cara página a página, quadro a quadro de Mate minha mãe [Companhia das Letras/ Quadrinhos na Cia., 2015, 160 p., leia um trecho].

50 tons de cinza (e marrom) que realmente valem a pena, trama bem urdida, nada a ver com o soft pornô, best seller em livrarias e cinemas – refiro-me à coloração desta obra-prima de Feiffer, ser incomum e raro (redundo?), avalizado na contracapa por Neil Gaiman, Art Spiegelman, Chris Ware e Stan Lee. Querem mais?

Com talento mais que comprovado em outras áreas, Feiffer, escritor e cartunista com mais de 35 livros publicados, estreia em grande estilo com esta graphic novel policial, recheada de música. Não à toa, suas personagens cantam e dançam (às vezes literalmente), equilibrando-se na corda bamba entre o rabisco e a obra de arte.

Assistente de Will Eisner na adolescência, Feiffer, de cara, agradece a mestres que dão pistas das referências encontradas em Mate minha mãe: os quadrinhistas Milton Caniff e o próprio Eisner, os romancistas Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain e os cineastas John Huston, Billy Wilder e Howard Hawks.

Dividida em dois atos, a história se passa nas décadas de 1930 e 40. Pode soar clichê, mas parece impossível fugir da comparação dos quadrinhos com o cinema (noir): os diálogos rápidos, os capítulos curtos, a agilidade das personagens, saltando fora dos quadrinhos, os núcleos se cruzando: cinco mulheres e um alcoólatra arremedo de detetive.

Blues, bom humor, ironia: Feiffer tira um sarro de Hollywood, onde se passa a segunda parte da história, com uma personagem transgênero desfilando entre as estrelas, em determinado momento convertidas em atrações para soldados em guerra.

Gênio!

A volta de Luiz Gê

A Paulista é a avenida mais importante da maior cidade do Brasil. Av. Paulista [Companhia das Letras/ Quadrinhos na Cia., 2012, 88 p.], de Luiz Gê, é um profundo retrato do corredor, espécie de miniatura do mundo.

Surgiu de encomenda, em 1991, quando a história foi publicada na extinta Revista Goodyear, distribuída apenas para clientes, que naquele dezembro levaram-na ao recorde de 30 mil pedidos.

Fruto de extensa pesquisa de Gê, os quadrinhos contam a história da via que lhe dá título, desde sua fundação até os dias atuais – 20 anos depois, ganhou atualizações nos textos e mais páginas com desenhos.

Os quadros se mesclam a textos que funcionam como um guia, conduzindo o leitor a um passeio não só pela paisagem, mas pela história da avenida, fugindo do óbvio e do rigor acadêmico: Av. Paulista é também uma análise de sua “evolução”, sem poupar críticas ao conservadorismo de sua fauna e à especulação imobiliária, pragas contemporâneas.

Por isso falamos em miniatura do mundo: todos já ouvimos falar e de algum modo fomos atingidos por expressões como capitalismo, globalização, neoliberalismo, crise e FMI, temas que também passeiam pelo traço fino e crítico de Luiz Gê, nome menos conhecido do que deveria.

Talvez por que ele, arquiteto, doutor em Comunicações e Artes, professor universitário, tenha feito um monte de outras coisas, além de quadrinhos, a que Av. Paulista marca sua volta triunfal: foi um dos editores da saudosa Circo – um dos maiores sucessos dos quadrinhos nacionais, chegando a vender 40 mil exemplares mensais em bancas –, desenhou as HQs que inspiraram Clara Crocodilo (1980) e Tubarões Voadores (1984) – os discos mais conhecidos de Arrigo Barnabé – e foi roteirista do infantil global TV Colosso.

À pesquisa para a realização de Av. Paulista se mistura a ficção, em que prédios ganham e perdem vidas, onde não se sabe o que é glória e decadência, passado e futuro. Mais ou menos como diria o poeta: “a arte existe por que a vida não basta”.