O que pensam os artistas maranhenses das eleições de 2018?

No próximo dia 13 de dezembro completam-se 50 anos do Ato Institucional nº. 5, vulgo AI-5, que dava ao ditador de plantão o poder de fechar o congresso nacional e, entre outras arbitrariedades, cassar mandatos de parlamentares. O famigerado AI-5 também suspendeu o habeas corpus e, entre outras mazelas, levou artistas brasileiros ao exílio.

O Brasil vivia os anos mais duros de uma ditadura civil-militar cujas sombras pairaram sobre o país por longos 21 anos. A democracia e a Constituição brasileiras são recentes; a segunda completou este mês 30 anos de promulgada. No entanto, ao contrário de vizinhos sul-americanos que também passaram por regimes autoritários, o Brasil nunca fez seu dever de casa, nunca acertou suas contas com o passado – o que nem de longe poderia ser visto como mero revanchismo.

Quando da votação do golpe que destituiu a presidenta legitimamente eleita pelo voto popular em 2016, o deputado federal Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que de “brilhante” tinha apenas o sobrenome: foi reconhecido como um dos mais sádicos torturadores produzidos nos porões da ditadura. Não à toa o hoje presidenciável fez questão de salientar, na ocasião: “o terror de Dilma Rousseff”.

Em qualquer outro lugar do mundo, Bolsonaro teria saído preso da sessão e muito provavelmente não voltaria ao parlamento, com o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar, no mínimo. Aqui, inchou feito cururu no sal e hoje é, como alertou o articulista Francisco Assis no jornal português Público, em artigo de opinião assim intitulado, “um canalha à porta do Planalto”.

A jovem e frágil democracia brasileira está ameaçada e não faltam avisos. A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) é alicerçada por fake news, cujo combate tem sido ineficaz por parte das instituições. Declarações do presidenciável e cabeçadas entre ele e seu vice, o General Hamilton Mourão (PRTB) têm sido cristalinas sobre o que vem por aí, caso o capitão da reserva seja eleito.

O AI-5, que hoje em dia deveria ser tão somente objeto de estudo em escolas e universidades, volta a sobrevoar nossas cabeças como uma ameaça. O documento, entre outras questões obscuras, estabelecia a censura prévia de música, cinema, teatro, televisão, imprensa e outros meios de comunicação.

Causa-me espécie ver artistas, “as antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound, defendendo a candidatura do pesselista, a despeito de o mesmo, além de todo o exposto, já ter declarado a intenção de extinguir o Ministério da Cultura – ou de entregar a pasta ao ator Alexandre Frota, recém-eleito deputado federal por São Paulo. Mais recentemente foi além e chegou a cogitar destino parecido para o Ministério da Educação.

Homem de vícios antigos enviou um e-mail com quatro perguntas sobre as eleições deste ano a mais de 50 artistas maranhenses ou radicados no Maranhão. Além dos artistas originalmente listados, abriu a consulta através do perfil de seu titular em uma rede social: a quem se interessasse em receber o questionário e participar, o blogue estava aberto. Isto é: apesar de o blogue ter lado e declará-lo – seu titular declarou, nas redes sociais, votos a Flávio Dino (PCdoB) para o governo do Maranhão, e Fernando Haddad (PT) para a presidência da república –, como por aqui somente o fizeram claramente a revista CartaCapital e a versão brasileira do jornal El País, a ideia original era ouvir quaisquer artistas que quisessem se manifestar.

O blogue recebeu apenas 10 respostas, entre os artistas que receberam o e-mail original e os que posteriormente solicitaram participar da entrevista. Curiosamente, todos declararam voto no candidato petista no segundo turno.

Responderam ao blogue os compositores Chico Saldanha [lançou ano passado Plano B, seu quarto disco], Gildomar Marinho [tem três cds lançados, Olho de Boi, Pedra de Cantaria e Tocantes, e dois gravados, Mar do Gil e Porta-Sentidos, a serem lançados em breve], Fábio Allex [lançou os cds Porta-Novas em 2013 e De volta ao passado que nunca vivi, em 2016] e Joãozinho Ribeiro [publicou em 2006 o livro-poema Paisagem feita de tempo; em 2013 lançou o cd Milhões de uns – vol. 1; ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e ex-secretário de Estado da Cultura do Maranhão]; o cineasta Francisco Colombo [seu novo curta-metragem, Avesso, recebeu troféus de melhor trilha sonora, melhor ator coadjuvante e melhor fotografia na mostra competitiva maranhense do 41º. Festival Guarnicê de Cinema]; a artista plástica Babula Rosana [recebeu os prêmios Interações Estéticas e Residência Artística em Pontos de Cultura, e Economia Criativa, do Ministério da Cultura]; a cantora Tássia Campos [com o Trio 123, formado por ela, Camila Boueri e Milla Camões, lançou este ano o EP 123]; o escritor Franck Santos [lançou este ano o volume Poemas para dias de chuva, pela editora paulista Patuá]; e as poetas Samara Volpony [estreou com o volume de poemas Contramaré, ano passado, pela Patuá] e Adriana Gama de Araújo [estreou este ano com o volume de poemas Mural de nuvens para dias de chuva, pela editora Penalux].

Alguns dos artistas convidados a responder as quatro perguntas continuam manifestando nas redes sociais um pró-bolsonarismo baseado em fake news, memes e no discurso de ódio contra o PT e a corrupção, lugares comuns que têm sido a tônica da campanha da chapa militar. Talvez tenham optado pelo silêncio em relação à pequena entrevista por não terem o que defender no programa de governo e discursos de seu candidato em relação aos temas propostos.

A seguir, na ordem em que foram recebidas, as respostas dos 10 artistas às quatro perguntas de Homem de vícios antigos. As respostas enviadas não sofreram edição, tendo passado apenas por revisão, optando o blogue por preservar a íntegra das opiniões.

Homem de vícios antigos – O governador Flávio Dino foi reeleito em primeiro turno. Qual a sua opinião sobre o resultado?

O compositor Chico Saldanha. Foto: Francisco Colombo

Chico Saldanha – Resultado mais que esperado. Flávio Dino soube conduzir melhor a campanha explorando com facilidade a fadiga de material do grupo Sarney. Também passou para a população um sentimento de que tentou, apesar das dificuldades impostas pela crise criada com o impeachment, mudar alguns paradigmas na administração e também escolher  bem as prioridades onde iria investir.

O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá

Gildomar Marinho – Acredito que o trabalho sério, com transparência e o cuidado com a coisa pública ajudam a explicar parte do sucesso desta reeleição de Flávio Dino. O leque de alianças e a boa performance pessoal ajudaram a consolidar o fim de uma era oligárquica, patriarcal, materializado na derrota dos seus representantes no Senado e na Câmara de Deputados. Tenho acompanhado, ainda que à distância, daqui do Ceará, a evolução das políticas públicas, notadamente nas áreas de educação, saúde, segurança pública e políticas afirmativas e de inclusão social. Este conjunto de motivos explica sua vitória, destacando que se dá em momento delicado para a democracia brasileira com a onda conservadora que se avolumou no Brasil.

O cineasta Francisco Colombo. Foto: Eduardo Júlio

Francisco Colombo – Acho que o trabalho foi reconhecido, em que pesem as contradições. Basta de família Sarney!

A artista plástica Babula Rosana. Foto: divulgação

Babula Rosana – Foi um ótimo resultado. Prova que a oligarquia Sarney não tem mais força no Maranhão.

O compositor Fábio Allex. Foto: divulgação

Fábio Allex – É a confirmação de que o Maranhão se libertou, ainda que tardiamente, do atraso personificado pela família Sarney. É o reconhecimento, sobretudo, das realizações que foram feitas no campo social, assim como o forte investimento na área da educação. Reflete o esforço e comprometimento que vem existindo, apesar da profunda recessão econômica do país. O estado entendeu que o caminho de mudanças deve continuar. Trata-se, inclusive, do governo mais bem avaliado do país. Apenas isso justificaria.

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

Tássia Campos – Eu votei nele na primeira e na segunda eleição. Apesar de ter duras críticas à gestão da Sectur [a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão], acredito que prum estado tão pobre como o nosso, o melhor é Dino, pra melhoria dos indicadores sociais e garantia de direitos humanos.

O escritor Franck Santos. Foto: divulgação

Franck Santos – Acho merecido! Eu votei nele na eleição passada e nessa também! Precisamos de renovação, de mudanças no estado e na capital. Como professor, acho que o governador Flávio Dino não se comprometeu ainda como deveria com nossa classe trabalhista, mas votei nele justamente esperando que nesses próximos quatro anos algo mude nesse sentido.

A poeta Samara Volpony. Foto: divulgação

Samara Volpony – O resultado retrata a sua excelente gestão. Destaco a maior participação popular, a educação de qualidade, a transparência e o rompimento com a velha política implantada no Maranhão. Se formos refletir, ainda falta muito para sermos o estado que queremos, mas reconstruir um estado que vivia há meio século nas mãos de uma única família não é das tarefas mais simples. Flávio Dino conseguiu, em quatro anos, retirar aquele retrato vergonhoso do Maranhão, as manchetes que sempre nos noticiavam negativamente, para dar lugar àquelas que nos mencionam como exemplo para o país, como na área de educação, em que nós, professores, temos o salário base mais alto do país, só para citar uma entre tantas.

A poeta Adriana Gama de Araújo. Foto: divulgação

Adriana Gama de Araújo – Acredito que quem detém o controle da máquina pública dificilmente não se reelege. Além disso, a possibilidade de um retorno dos Sarneys ao governo fez com que até os críticos da administração Dino votassem nele. Eu não. Ele poderia ter feito um primeiro mandato com investimentos reais no que se refere à educação. Não fez nada além do que governos anteriores fizeram: pintar paredes e propaganda. Sou professora da rede pública e a única coisa que espero é que desta vez ele cumpra tudo que a lei manda. Reajustes dos salários dos professores e escolas realmente dignas. Valorizar de fato a educação não é achar que o pouco que se faz é muito. É colocar tudo que envolve a educação como prioridade.

O compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: Paulo Caruá

Joãozinho Ribeiro – O resultado reflete, antes de qualquer outro comentário, a ampla aprovação da gestão Flávio Dino, não somente pelo percentual de votos atingidos na eleição em primeiro turno, como pelas políticas públicas que chegaram de forma concreta aos segmentos mais necessitados da população, como saúde, educação, segurança, agricultura familiar e alguns outros serviços públicos básicos, vinculados diretamente às questões da cidadania e aos direitos humanos. Neste aspecto, também tem de ser alvo de destaque a responsabilidade fiscal que não escamoteou os investimentos e assegurou a regularidade de pagamento de salários, a despeito de outros estados considerados ricos que se encontram em situação de penúria, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. A reeleição de Flávio Dino, assegurando a continuidade da gestão, por outro lado representa um tiro de misericórdia na oligarquia Sarney e tudo que ela tem representado em vários campos da vida econômica, política e social do estado. Também representa um desafio sem precedentes para o próprio governo, cujas cobranças devem ser maiores e os compromissos da gigantesca coligação que deve apresentar as suas faturas políticas e administrativas, nem sempre coadunadas com o campo da licitude. Muitos desafios em algumas áreas deficitárias, do ponto de vista estratégico, como é o caso da Cultura e do Desenvolvimento Social também precisarão ser enfrentados.

Homem de vícios antigos – Em quem você vai votar para presidente no segundo turno? Por quê?

Chico Saldanha – Claramente em Fernando Haddad, porque foi na ditadura militar que criei consciência politica e cheguei à conclusão que a ditadura atrasou o país e cometeu uma série de atrocidades contra os direitos humanos. Aliás, fico com o vice-presidente [do marechal Artur da Costa e Silva, entre 1967 e 1969, o mesmo que decretou o AI-5] Pedro Aleixo: “na ditadura eu tenho mais medo é do guarda da esquina” e eu da mulher que chicoteou o carroceiro [referindo-se a uma eleitora de Jair Bolsonaro que, em São Luís, desceu de seu carro e agrediu um carroceiro com seu próprio chicote]. Retroceder 55 anos não faz parte dos meu planos A, B ou C [faz trocadilho com o título de seu disco mais recente]….

Gildomar Marinho – Em Fernando Haddad. Primeiro, pelo que representa sua candidatura, que traz em sua essência o projeto iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva, interrompido pelos implacáveis ataques a partir de 2014, culminando com golpe parlamentar de 2016. A experiência de Haddad no Ministério da Educação em um dos momentos de maior expansão do ensino acadêmico da História do Brasil e sua performance à frente da prefeitura de São Paulo, denotam a figura capaz de enfrentar os desafios da Presidência do Brasil, especialmente neste conturbado momento.

Francisco Colombo – Haddad 13! É o candidato mais preparado, com as melhores propostas. Como se não bastasse isso, ele personifica a democracia e o outro o oposto, o autoritarismo, o fascismo.

Babula Rosana – Fernando Haddad. Por que me identifico com as propostas e para barrar que o outro candidato seja presidente do Brasil.

Fábio Allex – Não desejei essa configuração para o segundo turno. Votei em Ciro Gomes, não como “voto útil”, mas por entender que ele tinha o melhor projeto, além da representatividade que construiu ao longo da sua vida pública. Sou apartidário. Talvez isso me permita ter um olhar mais plural, desprovido de paixões por legenda ou personalidade. Consigo perceber a dualidade do PT, no que se refere ao desenvolvimento do país durante o governo Lula, além da posterior avalanche de corrupção na qual o partido se envolveu, ainda que não tenha sido uma exclusividade do partido. Não há relativização, há fatos. Diante do cenário, voto em Fernando Haddad. Um bom candidato, com boas propostas, que agora herda grande rejeição em virtude do antipetismo aclamado pelo país, mas que, de fato, não traduz o que ele pode oferecer. Ele pode, sim, ser uma continuidade do que foi no melhor momento. Já o candidato do PSL, vejo como a opção mais nefasta que pude acompanhar em uma eleição. É nítida a falta de preparo para assumir um cargo de tamanha importância, da falta de consciência política e social, até mesmo para os seus próprios eleitores, além de não ser menos nítido o discurso de ódio que ele profere. Votar nele virou lema de “combate à corrupção”, o que está longe de ser verdade. Ele é um incentivo para o Brasil se dividir cada vez mais. Porém, infelizmente, levando em conta o panorama, parece que essa realidade só será percebida na prática.

Tássia Campos – Votei no primeiro e votarei no segundo em Haddad. Nem tem dificuldade na escolha. É civilização ou barbárie. Fico com a democracia.

Franck Santos – Haddad, claro! Por que jamais votaria em Bolsonaro ou em quem não me representa como nordestino, gay e trabalhador.

Samara Volpony – Voto no Fernando Haddad e na Manuela D’Ávila. São os candidatos que apresentam o projeto de Brasil que eu desejo neste tempo de ódio e caos em que vivemos. Voto no Haddad porque em sua gestão como Ministro da Educação no Governo Lula permitiu a milhares de jovens terem a oportunidade de entrar numa universidade pelos Programas que criou: Fies, Prouni, pelo Enem. Sem esses programas, certamente, os mais pobres jamais teriam a chance de adentrar no Ensino Superior. Voto no Haddad por seu programa de governo na área da educação, na área da economia, na área da cultura. Voto no Haddad porque a sua proposta para o país contempla aqueles esquecidos socialmente, e eu, como artista e professora, só poderia estar ao lado de quem pensa em um Brasil mais justo e democrático.

Adriana Gama de Araújo – Votarei novamente no Fernando Haddad. Conheço o currículo dele. É um homem competente e com sensibilidade para o que de fato melhora a vida das pessoas: educação e respeito ao meio ambiente.

Joãozinho Ribeiro – Haddad 13, sem nenhuma dúvida! Pelo meu histórico de vida e de luta por uma sociedade mais justa, solidária e com oportunidades iguais para todos, já nem precisaria de justificativas. No entanto, as eleições de 2018 culminam com um processo de disseminação de ódio e violência que pode vir a ser institucionalizado, na figura de um candidato de extrema direita que defende uma pauta de intolerância e de extinção de direitos que a humanidade levou séculos para implementar. Embora com algumas críticas a todo o processo, que impediu que o candidato mais legítimo e aprovado pela população sequer pudesse concorrer às eleições presidenciais, temos que colocar a Democracia acima de tudo, que com toda certeza é o valor maior que está em jogo. O resto pode ser objeto de várias batalhas que se anunciam, mas que devem ter como campo preferencial o Parlamento, as redes, as ruas, os movimentos sociais, tudo dentro do marco constitucional, sem o ativismo jurídico-partidário-midiático, responsável por grande parte da crise política e institucional que hoje vivenciamos no país.

Homem de vícios antigos – Como você avalia as propostas dos dois presidenciáveis para a área cultural?

Chico Saldanha – Para te dizer a verdade acredito que Bolsonaro não tem a mínima noção do que seja projeto cultural, dado ao seu total despreparo para assuntos que não versem sobre violência. Pelas ações e diálogo com os produtores culturais quando esteve na prefeitura de São Paulo, acho que o projeto do Haddad ganha por WO [sigla de walkover, que significa a vitória de um time em razão da ausência do adversário].

Gildomar Marinho – Eu percebo, de um lado, a retomada da Cultura para o centro das discussões, como elemento estratégico de afirmação das diversas identidades da nação brasileira, a perspectiva de retomar as políticas culturais iniciadas no governo Lula, capitaneadas pelo ex-ministro Gilberto Gil, a retomada do planejamento estratégico do País, tendo a cultura como pilar desse desenvolvimento. Por outro lado, vejo na proposta do candidato conservador, a retomada de valores há muito descolados da realidade brasileira, além da promessa velada de extinção do próprio Ministério da Cultura.

Francisco Colombo – Haddad e equipe tiveram sensibilidade para entender que cultura é mais que mero diletantismo. O seu oponente, ao contrário, prega o desmonte das estruturas de fomento. Demonstra, reiteradamente, um desejo de vingança contra adversários, incluindo, obviamente, artistas.

Babula Rosana – Não conheço a fundo as propostas, mas deduzo que as do Bolsonaro devem ser as piores começando pelo convite ao Alexandre Frota para Ministro da Cultura. Por outro lado esse mesmo presidenciável diz que vai acabar com o Ministério da Cultura. Do Haddad, pela continuidade dos trabalhos que o PT já teve na área cultural acredito ser progressista e de continuidade dos projetos e processos democráticos e de repartição equivalente dos recursos e editais por todas as regiões do país.

Fábio Allex – Não dá para comparar, pois apenas Haddad tem proposta nessa área. O que não é surpresa. Inclusive, Bolsonaro tem interesse em acabar com o Ministério da Cultura e transformá-lo em uma secretaria. Contudo, sinto falta de um detalhamento nas propostas do petista. Mas, se colocadas em prática, a princípio, atenderia uma diversidade importante, quando diz que vai retomar o investimento em museus, fomentar espaços para a manifestação de povos indígenas, incentivar a leitura e literatura, regulamentar o direito autoral nos meios digitais, bem como tratar do desenvolvimento e ampliação da produção independente.

Tássia Campos – Bolsonaro quer extinguir o MinC [Ministério da Cultura]. Nem tenho o que dizer.

Franck Santos – Haddad promete rever o Plano Nacional de Cultura, o Sistema Nacional de Cultura e recursos ao Ministério da Cultura, enquanto Bolsonaro até agora não fez ou faz menção às políticas culturais. Um país sem cultura, educação, arte de um modo geral, não é um país!

Samara Volpony – Na verdade, nós temos apenas um candidato que tem propostas para a área cultural: o presidenciável Fernando Haddad. Repudio, enquanto artista que sou, a proposta do candidato Jair Bolsonaro em extinguir o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet e ainda, tratar artistas como “vagabundos”. Seguindo o viés da nossa história, é bastante simbólico que o Ministério da Cultura tenha sido criado no período pós-ditadura militar e agora quererem extingui-lo. Mas não permitiremos esse retrocesso. Quanto à proposta do candidato Fernando Haddad, minha avaliação é bastante positiva. Seu programa de governo prevê uma política nacional para as artes que inclui sua produção, circulação e fomento das áreas, a reestruturação da Funarte [a Fundação Nacional de Artes, vinculada ao MinC], a retomada dos pontos de cultura e memória, priorizar pela Lei Rouanet coletivos da periferia, entre outros. Só podemos avaliar quem tem propostas.

Adriana Gama de Araújo – E Jair Bolsonaro tem propostas para a área cultural? Não vi, não. As propostas do Haddad são muito boas: fazer das manifestações artísticas e culturais um espaço para fomentar democracia, diálogo, diversidade, respeito. Conversar com quem faz e possibilitar caminhos de desenvolvimento e inclusão social.

Joãozinho Ribeiro – Infelizmente, só temos uma proposta para ser avaliada, pois o programa do candidato Jair Bolsonaro sequer dedicou uma linha para essa questão de tamanha relevância para um Brasil que pretende estar acima de tudo, dada a imensa diversidade cultural da nossa nação. Aliás, dos debates e entrevistas que tive a oportunidade de assistir entre candidatos a governador e presidenciáveis, essa questão em raríssimos momentos foi contemplada. Até mesmo no Maranhão, que se destaca pelo grande potencial criativo na área cultural, essa questão passou batida. Em matéria intitulada “Só 5 dos 13 presidenciáveis listam planos para cultura em programas de governo”, publicada na edição de 19 de setembro 2018, do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista responsável pelo texto [o texto era assinado por Eduardo Moura, Isabella Menon, Guilherme Genestreti, Maria Luísa Barsanelli e Maurício Meireles] informava [Joãozinho cita trechos da matéria]: “No acalorado debate desta corrida eleitoral, pouco se ouve falar de cultura. Dos 13 candidatos à Presidência da República, apenas 5 descrevem projetos para a área em seus programas de governo. Poucos programas trazem projetos detalhados para o campo da cultura, alguns deles nem sequer tocam nesse assunto […]. Não há menções à área nas propostas de Jair Bolsonaro (PSL), atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Cabo Daciolo (Patriota) e Henrique Meireles (MDB). Álvaro Dias (PODE) fala apenas em “cultura livre com Cartão Cultura”. José Maria Eymael (DC) lista pontos estratégicos, como “resgate e valorização da cultura e da identidade nacional”, mas não apresenta ações”. Já o programa de Haddad 13 lista um rol de compromissos que representam com legitimidade todo acúmulo de discussões e debates, transformados em planos, projetos e programas, das últimas três décadas, alguns deles inseridos na própria Constituição Federal, e outros refletindo os compromissos internacionais firmados pelo Brasil em tratados e convenções de tal magnitude, assim exemplificados em um trecho do programa [de governo do PT, registrado no TSE]: “cumprir a recomendação da Unesco e aumentar progressivamente os recursos para o MinC, visando alcançar a meta de 1% do orçamento da União”.

Homem de vícios antigos – Como você acompanha e avalia a atual divisão do Brasil, explicitada nas ruas e nas redes?

Chico Saldanha – Igual a você, Homem de vícios antigos, sou do tempo em que a pessoa que trazia dentro de si esse sentimento de raiva, de preconceito, de desrespeito às mulheres e homossexuais tinha muita vergonha de falar isso perto de quem quer que fosse. Por isso, às vezes, fico sem entender como várias pessoas, amigas, por sinal, embarcaram nessa insanidade.

Gildomar Marinho – Acompanho com bastante preocupação, notadamente, quando presenciamos elementos típicos do fascismo, como a intolerância, a desconstrução dos diferentes, o nacionalismo, a xenofobia, a LGBTfobia, com dosagens preocupantes de violência, com mortes e mutilações já registradas. As redes sociais têm se configurado verdadeiros campos de batalhas medievais, em uma espécie de vale-tudo para a aniquilação de seus oponentes que, em muitos casos, são gente do seu próprio sangue. O resultado é esta preocupante escalada da violência. Por outro lado, acompanho uma boa parte da sociedade afirmando-se com incrível senso de justiça, de civilidade e consciência de si e do seu meio. Espero que o bom senso seja vencedor.

Francisco Colombo – Como consequência do golpe político-jurídico-midiático. Desde 2013 a direita se comporta de maneira muito agressiva. Em 2014 não aceitou a derrota de Aécio [Neves, recentemente eleito deputado federal por Minas Gerais] pra Dilma. De lá pra cá, com a participação explícita do judiciário, via [o juiz Sérgio] Moro e Supremo [Tribunal Federal], as coisas caminharam para a ameaça real do fascismo nos empurrando para o precipício.

Babula Rosana – Esquizofrênica. Desinformação, manipulação da mídia e ajuda internacional para o candidato Bolsonaro.

Fábio Allex – É um mal que assola a sociedade, tendo como pauta a intolerância, a qual, no fim das contas, resume-se em uma briga partidária resultante de uma generalização. Enquanto se deveria dialogar com forças diferentes e discutir problemas reais, cai-se nesse embate contraproducente. É algo fortalecido com a figura do Bolsonaro, mas com imensa contribuição do PT. É a busca por uma suposta honra que desonra ainda mais. Só quem perde com tudo isso é o próprio país.

Tássia Campos – Tô assustada com tanta desinformação. Creio que é bem pior que ignorância. A violência está sendo legitimada pelo discurso do tal Bolsonaro. Não acredito em divisão do Brasil, acredito que o fascismo saiu do armário. Ele tava só escondido.

Franck Santos – Acompanho não só com temor como com horror, não só nas redes sociais como no corpo a corpo, com as pessoas próximas, seja nas relações familiares, de amizade ou nos locais de trabalho. Tenho muito medo do que está por vir, tenho medo dos dias sombrios, tenho medo do que possa acontecer às minorias. Tenho estado muito triste e quase deprimido. Também cansado de tentar que essas pessoas compreendam e tenham discernimento para o que é melhor, ou menos pior, para as pessoas dos meus círculos, seja virtualmente ou pessoalmente. O geógrafo Milton Santos já disse muito tempo que há “vários brasis dentro do Brasil” e estamos vendo e sentido isso na pele, olhos e coração.

Samara Volpony – Tenho acompanhado diariamente as redes sociais e também no dia a dia. O que tenho ouvido é um discurso inflamado e a relação com o outro cada vez mais comprometida: de um lado os que votam no candidato A e de outro os que votam no candidato B. As redes sociais viraram palanque do ódio, do rebaixamento do outro, e os que antes eram anônimos ganham fãs, legiões daqueles que concordam com seu pensamento, por mais grosseiro que seja. A minha avaliação é de imenso pesar, porque as pessoas perderam a capacidade de se compadecer, de ter empatia, de ouvir o outro e de pensar no outro. Esses são princípios que aprendi durante minha infância e que vou levar para sempre. As pessoas têm levado esse momento tão delicado, como se estivessem em uma partida de futebol, ainda não se deram conta da imensa responsabilidade que traz o momento, que é um princípio básico de humanidade: pensar no outro.

Adriana Gama de Araújo – O Brasil sofre de uma falta de conhecimento crônica. A nação foi “se fazendo nas coxas” e estas nem eram as do povo. Embora nós a sustentemos, nós não a pensamos. Infelizmente. E com a facilidade da circulação de informação por causa da internet e das redes sociais, as pessoas adquiriram uma falsa noção de conhecimento. Ninguém conhece nada e pensa que sabe de tudo. Política sempre foi para o povo brasileiro sinônimo de “roubalheira” e agora quem está “na mídia” como ladrão-mor é o PT. Uma parte da população decidiu lutar cegamente contra “esse mal”; a outra parte ainda acredita que “a esperança vai vencer o medo” e a corrupção. Estou ao lado dos esperançosos. Justiça cega é suicídio coletivo.

Joãozinho Ribeiro – Para mim, a grande divisão do Brasil deste momento é em grande parte circunstancial, embora não negligencie o perigo do ódio e da intolerância que se avolumaram de 2013 para cá, insuflados, irresponsavelmente, e em grande parte, pela mídia e pelo fundamentalismo religioso, além do ativismo judicial-partidário. Para mim, a grande divisão tem raízes profundas e permanentes na desproporcional desigualdade, que cega as pessoas e que as transformam numa espécie singular de um tipo de analfabetismo inusitado, assim conceituado pelo poeta Mário Quintana: “O maior analfabeto político não é aquele que não sabe ler, mas que, sabendo, se recusa a fazê-lo”. Estamos esquecendo justamente de fazer uma leitura do mundo e de suas grandes expectativas, mergulhados num analfabetismo brutalizado pelo preconceito, pela discriminação e pelo fascismo, ressurgindo em variadas formas em todos os cantos do planeta. Este ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos, as grandes revoltas estudantis de 1968, a Primavera de Praga e o famigerado AI-5, 50; a Constituição da República Federativa do Brasil, 30. Portanto um ano que merece ser prestigiado pela afirmação da cultura da paz e pelo reencantamento do mundo.

Socialista insurgente

Fenômeno das redes sociais, referência de um jornalismo que se assume de esquerda, a jornalista Cynara Menezes, editora do blogue Socialista Morena, estará em São Luís terça-feira que vem (19) para um debate sobre “Mídia, poder e democracia”, promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

O evento “Diálogos insurgentes” acontece na Galeria do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho (Praia Grande), às 17h, gratuito e aberto ao público. Ela dividirá a mesa com Francisco Gonçalves, titular da Sedihpop, professor doutor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e Ricarte Almeida Santos, sociólogo e radialista, secretário executivo da Cáritas Brasileira Regional Maranhão, produtor e apresentador do dominical Chorinhos e Chorões, na Rádio Universidade FM (106,9MHz).

Formada na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cynara já passou por grandes redações, como Folha e O Estado de S. Paulo, Veja, Isto É/Senhor, Vip e CartaCapital. Atualmente é colunista da revista Caros Amigos, onde assina o Boteco Bolivariano.

Zen Socialismo. Capa. Reprodução
Zen Socialismo. Capa. Reprodução

Inaugurou o Socialista Morena em 2012, assumidamente esquerdista. Em sua casa na internet, prega um socialismo à brasileira, mestiço, moreno, como defendiam Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem ela homenageia em seu espaço, o primeiro veículo de comunicação brasileiro a ter uma editoria de “maconha” – ousadia imperdoável para os reacionários que não perdem tempo em agredi-la por… pensar.

No blogue, ao contrário da regra geral da internet – sim, há exceções –, busca escrever textos que sobrevivam à pressa e instantaneidade típicas da rede. Ano passado reuniu os melhores em Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena) [Geração Editorial, 2015, 240 p.; leia o primeiro capítulo], que ela autografará após o debate.

Por e-mail, Cynara Menezes conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

A Socialista Morena Cynara Menezes. Foto: João Fontoura
Cynara Menezes, a Socialista Morena, em clique de João Fontoura

Você tem feito a defesa do mandato da presidente Dilma Rousseff, com as devidas críticas a seus governos e aos de Lula. Na sua opinião, o PT é vítima de uma armadilha que criou para si, ao não democratizar a comunicação e as verbas de publicidade governamental?
Acho que o PT cometeu um erro de estratégia ao repetir a aliança com o PMDB em 2014. Não lhe acrescentou nada, pelo contrário. Estaria muito melhor hoje se Dilma tivesse sido eleita numa chapa puro sangue. Quanto à democratização da mídia, ainda que ela não tivesse se concretizado, seria possível ao partido (não ao governo) investir em mídias próprias, em vez de gastar tanto dinheiro em marketing político durante a campanha eleitoral. Para mim, a existência da internet é, em si, uma democratização da mídia. O PT e as esquerdas em geral poderiam ter avançado mais nos últimos anos em busca de meios de comunicação próprios.

O Socialista Morena é, hoje, um fenômeno nas redes sociais, algo raro para um site assumidamente de esquerda. Sua iniciativa é sustentada por seu público leitor. A que você credita essa preferência?
Acho que toquei num ponto que muitos órgãos da grande mídia parecem não perceber: a carência do leitor por textos bacanas, curiosos, sobre fatos atuais ou históricos. Invisto no meu blog em posts atemporais justamente por isso; os posts noticiosos acabam ficando “datados” rapidamente, de certa forma repetem o impresso, que no dia seguinte já estará embrulhando o peixe. Também me situei num nicho existente: a demanda por leituras de esquerda, que os jornalões não contemplam de forma alguma. Pode-se dizer que ninguém de esquerda hoje se sente representado pela mídia hegemônica. E somos metade da população, pelo menos.

O blogue surgiu em paralelo à sua atividade na imprensa, como repórter de CartaCapital. O hobby virou um compromisso mais sério? Você é adepta do pensamento de que “quem trabalha com o que gosta vive eternamente de férias”?
Nunca foi hobby, sempre foi um plano B para mim. Quando comecei o blog, já tinha em mente que estava iniciando meu veículo de comunicação. Quem trabalha com o que gosta é mais feliz, sem dúvida. Eu trabalho pacas, jamais podia dizer que estou eternamente de férias.

A transparência entre quem escreve e quem lê deveria ser um pressuposto da prática jornalística, não é? Raramente se vê um veículo ou profissional assumir de forma explícita posição político-ideológica, escondendo-se sob o falso manto da imparcialidade. O cenário está mudando?
Sim, depende do veículo. Alguns jornais e revistas proíbem que seus jornalistas se posicionem politicamente nas redes sociais, caso da Folha. Mas vejo, por exemplo, que os profissionais do jornal O Globo são mais liberados para falar o que pensam, assim como os repórteres dos canais esportivos, mesmo os da Globo. Recentemente vi também jornalistas da TV Globo e GloboNews assumirem posturas ideológicas, tanto mais progressistas quanto mais à direita. Acho isso bom, fica mais transparente.

De uns tempos para cá, muita gente tem migrado de veículos para profissionais, isto é, deixado de acompanhar jornal A ou B para acompanhar jornalista X ou Y. A seu ver, quais as vantagens e desvantagens deste modelo?
A vantagem é que os jornalistas se firmam sem a necessidade de estar vinculados a grandes veículos. Para o leitor, facilita na orientação do que ler: quando você confia em alguém como guia de leitura, evita perder tempo com conteúdos desinteressantes ou com os quais a pessoa não se identifica. A desvantagem é que ainda somos poucos, isso reduz o espectro da informação. Quando formos muitos informadores autônomos, haverá um leque mais amplo de escolha para o leitor.

Quais as suas melhores e piores lembranças de seus tempos de grande mídia?
Trabalhei muito bem na Folha de S. Paulo, tive grandes oportunidades lá. Pude entrevistar alguns dos escritores mais importantes do país e fiz muitas matérias divertidas. O chato para mim na Folha era o veto ao pensamento político próprio. Isso, depois de certa idade, se torna insuportável. Minha pior lembrança é, sem dúvida, minha passagem de oito meses pela revista Veja, uma escola de como não fazer bom jornalismo.

Seu claro posicionamento ideológico tem um preço: ataques, grosserias e toda sorte de péssimos comportamentos de quem não consegue tolerar sua postura. A veiculação de mentiras sobre sua pessoa é uma constante. De vez em quando você anuncia processos na justiça contra a perpetuação dessa prática. É possível fazer um balanço das causas? Dá para comprovar, como parte, a lentidão e seletividade da justiça brasileira?
É muito difícil penalizar alguém. O máximo que a gente consegue é dar um tranco, enviando interpelações judiciais a caluniadores. No caso do senador Ronaldo Caiado, pedi direito de resposta em seu twitter por ter me caluniado. A ação está correndo na Justiça.

Uma trincheira de sua luta é a defesa de um modelo alternativo de socialismo, mais à brasileira, mestiço, moreno, evocando figuras como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a quem o nome de seu blogue homenageia. Mais que possível, é um socialismo necessário?
Eu vejo a existência do socialismo como uma condição sine qua non para o equilíbrio do planeta. Imaginem se no mundo só houvesse capitalistas! Acho que as teorias em torno do socialismo estão mudando. Não sou nenhuma teórica, mas percebo que talvez o socialismo não seja, como se pensava, um modelo de sociedade, e sim um sistema de governo. Talvez sejam possíveis governos socialistas e não uma sociedade socialista.

Você visita o Maranhão governado por Flávio Dino, primeiro governador eleito pelo PCdoB na história do Brasil, após décadas de dominação da oligarquia Sarney. É possível, à distância, fazer uma avaliação do mandato do comunista?
Não me chegam muitas informações, mas o que conheço, gosto. Sobretudo por ele ter sido capaz de desmontar a oligarquia Sarney. Acompanhei recentemente a abertura de concurso para professores com salário inicial de 5 mil reais na rede estadual. Valorizar os professores é sempre um bom sinal. Darcy Ribeiro aprovaria.

O processo de impeachment de Dilma Rousseff lembra, guardadas as devidas proporções, a cassação do governador maranhense Jackson Lago, em abril de 2009, através de um golpe judiciário. Após pouco mais de dois anos de governo, o pedetista tinha certo desgaste com alguns setores e contou com pouco apoio popular. Que conselhos você daria a Flávio Dino para um mandato realmente popular, democrático e progressista?
Governar com a participação dos movimentos sociais. Dilma se afastou deles nos dois mandatos, foi um de seus principais equívocos. Saber ouvir as pessoas, principalmente os jovens, que estão muito interessados em participar das gestões e das decisões. Acho que toda secretaria deveria ter um conselho de jovens. Temos que ouvir os jovens, eles estão na rua o dia todo, estão na escola, na universidade, têm contato com a insegurança, com a polícia. Um governo de esquerda também tem que ser criativo, buscar sempre novas soluções para os problemas, e deve estar atento para a mobilidade urbana, uma questão fundamental do século 21.

A menina vinda do interior da Bahia que venceu na vida: passou por grandes redações, morou na Espanha e hoje tem um dos blogues mais respeitados do país. Num tempo em que o jornalismo parece se esfarelar em sua mesquinhez movida por interesses outros que não a notícia e a verdade em si, o que você diria a jovens estudantes que serão jornalistas num futuro breve?
Que procurem investir em sua formação intelectual. Aprender idiomas, ler boa literatura, bons ensaios e bons conteúdos na rede. Fuçar, não perder a curiosidade, sempre. Procurar conhecer os mestres também é importante. Tudo isso vai ajudá-los a se tornarem profissionais diferenciados no meio. Gente despreparada não terá lugar no jornalismo, ou fará mais do mesmo.

Stédile critica governo de Dilma Rousseff mas defende sua permanência

Bem humorado e otimista, sua postura reafirma a coerência do MST, que em 2009 defendeu a manutenção de Jackson Lago no governo do Maranhão

Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)
Jonas Borges e João Pedro Stédile, representantes do MST estadual e nacional, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema. Foto: ZR (8/4/2016)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) João Pedro Stédile esteve ontem (8) em São Luís. Pela manhã a liderança cumpriu agenda no Palácio dos Leões, onde foi recebido pelo governador do Maranhão Flávio Dino e diversos secretários de Estado. Em pauta a execução do programa de alfabetização Sim, Eu Posso, em oito dos 30 municípios de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Maranhão, pelo MST, através de parceria com a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e as secretarias de Estado da Educação (Seduc) e dos Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop).

À noite, Stédile participou de atividade da Frente Brasil Popular no auditório da Faculdade de Arquitetura da Uema (Rua da Estrela, Praia Grande). A FBP é um coletivo de militantes e organizações sociais, entre as quais o MST e a Via Campesina, que tem se manifestado contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em evento intitulado “Análise de conjuntura: os rumos do Brasil frente a crise política atual”, Stédile falou para um auditório completamente lotado, refletindo sobre o atual momento político vivido no país e tentando traçar alguns cenários possíveis.

“A massa trabalhadora ainda não percebeu os riscos que corre com um eventual impeachment. O que os apoiadores e financiadores do golpe querem é a redução de direitos trabalhistas. Até agora, só fomos para a rua nós, militantes. No dia em que os 120 milhões de trabalhadores do Brasil saírem às ruas vai faltar rua”, comentou.

Ele, no entanto, não poupa críticas ao governo Dilma. “Vimos uma inércia em relação à reforma agrária e à titulação de territórios quilombolas. Agora que ela assinou uns poucos decretos, o que é uma merreca”.

Stédile defendeu a reestatização da Vale: “se não por qualquer outro motivo, pelo crime ambiental em Mariana. Mataram pessoas e mataram um rio de mais de 700 quilômetros. Isso tudo é impagável”, defendeu.

O intelectual orgânico do MST, um dos maiores em atividade no Brasil, pregou ainda outra relação do homem com o meio ambiente e o consumo. “Nós da esquerda costumamos culpar o Alckmin pela falta de água em São Paulo, por que é mais cômodo. É claro que ele tem sua parcela de culpa, como representante do grande capital, mas o problema foi a morte das nascentes. Pode chover o quanto chover em São Paulo, o problema não se resolverá. E por que mataram as nascentes? Para dar lugar aos monocultivos de cana de açúcar e eucalipto”.

Stédile reconheceu avanços sociais conquistados nos governos do PT, ainda insuficientes. “O Minha casa, minha vida precisaria de muito mais unidades habitacionais por ano para resolver o déficit acumulado. No ensino superior, seis milhões disputam pouco mais de um milhão de vagas em instituições públicas e privadas. E os cinco milhões que sobram? Eu digo para eles se juntarem ao Levante Popular da Juventude e irem para as ruas. Mas eles não me ouvem”, disse para aplausos e risos da plateia.

A grande mídia também não foi poupada por Stédile, principalmente a Rede Globo. “São os porta-vozes dos interesses dos que querem tomar o poder e, uma vez lá, reimplantar o neoliberalismo, a retirada de direitos dos trabalhadores e de recursos públicos para a saúde e a educação no Brasil, inclusive o petróleo, última riqueza coletiva do país”.

“É preciso defender o mandato de Dilma Rousseff e, uma vez mantida no cargo, ela precisa refazer o governo. Compor um ministério de notáveis, gente que tenha entendimento dos assuntos e seja reconhecida e respeitada pela sociedade. Ir mais para a esquerda”, apostou.

Stédile lamentou ainda o assassinato de trabalhadores sem terra no Paraná. “O Paraná é governado pelo PSDB. É uma amostra do que vem por aí. Passando o impeachment o ministro do desenvolvimento agrário será o Raul Jungman [PPS/PE]”, arriscou um prognóstico referindo-se ao hoje deputado federal. Presidente do Ibama no governo de Fernando Henrique Cardoso, Jungmann foi descoberto ano passado mantendo simultaneamente dois mandatos: não deixou a câmara municipal do Recife para assumir a vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Com diversos atos previstos em várias cidades do país, ele previu ainda que a próxima será uma semana histórica para o futuro do Brasil.

A postura crítica de Stédile, intelectual menos conhecido do que deveria, em geral tachado de “guerrilheiro” e “terrorista” pela velha mídia que critica, reafirma a coerência do MST que representa: em 2009, quando da cassação do governador do Maranhão Jackson Lago, através de um golpe judiciário, os sem terra estavam na linha de frente na defesa do mandato conquistado legitimamente através do voto popular.

“A história se repete como tragédia ou como farsa”, como dizia um intelectual que também lhe serve de inspiração, mais barbudo que ele.

Pela democracia

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O Teatro João do Vale, na Praia Grande, recebeu aproximadamente 100 pessoas na noite de hoje (28), em ato denominado “Encontro de defensores e defensoras de direitos humanos pela democracia”. Diversos deles deram depoimentos. De alguns o blogue transcreve trechos, abaixo.

Inez Pinheiro, militante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), cumpriu o papel de mestre de cerimônias, e a artista Lúcia Gato apresentou performance com as músicas Moleque e É, de Gonzaguinha. Ao final, após a leitura de um manifesto em defesa da democracia, por Maria Luiza Mendes e Maurício Paixão [que o blogueiro não copiou mas publicará aqui, depois, editando o post], os presentes entoaram Oração latina (Cesar Teixeira), hino dos trabalhadores e movimentos sociais do Maranhão.

“Vigília é estar em alerta permanente. Estamos correndo o risco de perder tudo o que passamos a vida inteira para conquistar. Não há nada que justifique o impeachment da presidenta. Uma democracia é baseada em eleições. A condução coercitiva de Lula não incomoda por ter sido ele, mas reflete no meu trabalho de militante de direitos humanos, já que daqui a pouco um policial, ao conduzir um jovem, negro, morador da periferia, pode usar como argumento “se até Lula foi levado”… Sem segurança jurídica não se faz defesa de direitos humanos”.
Joisiane Gamba, advogada, coordenadora da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH)

“É preciso defender a democracia que nós conquistamos. A democracia não é abstrata. A participação dos movimentos sociais materializou a democracia brasileira. Defender direitos humanos é defender fundamentalmente uma democracia participativa e para fazer isso é preciso meter o dedo na ferida: ou mudamos o modelo [do sistema político-eleitoral brasileiro] ou só criaremos um bode expiatório para a questão da transferência de recursos públicos para mãos privadas”.
Francisco Gonçalves, professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), secretário de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular

“Eu tenho medo de golpe. Eu nasci em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas. Vi o presidente ser deposto, depois vi seu suicídio, depois vi a renúncia de um presidente, vi e vivi os anos da ditadura civil-militar, e estou vendo um hoje que vem de algum tempo, já. É preciso nos debruçarmos sobre a história estúpida e brutal que remonta ao tratado de Tordesilhas. Há muita mentira na história do descobrimento do Brasil e é nessa viagem que se instalam aqui a corrupção e o nepotismo. Desde a reeleição de Dilma Rousseff começaram os anúncios de impeachment. Eu quero defender este Estado democrático de direito. Eles [os oposicionistas] evocam as leis para dizer que não é golpe. [Enfática:] Este impeachment é golpe!
Helena Heluy, advogada, ex-vereadora de São Luís e ex-deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores

“É preciso marcharmos unidos contra o golpe, sem subalternidade. O governo que defendemos é o mesmo que aprovou a lei antiterrorismo que nos pune. Se o próprio governo não tivesse desarmado nossa classe, nós estaríamos num patamar mais organizado de resistência aos fascistas”.
Saulo Pinto, professor do departamento de Economia da UFMA

“Recentemente num aumento da gasolina Dilma foi estuprada em tanques de combustível. O Brasil ocupa um dos últimos lugares entre os países no quesito participação política das mulheres, com uma sociedade extremamente patriarcal e um congresso extremamente conservador. Dilma está passando por isso por que a sociedade é extremamente machista. Quando Collor disse que tinha aquilo roxo, ficou muito bonitinho; quando alguém fala que as mulheres de grelo duro precisam se unir é um escândalo”.
Mary Ferreira, professora do departamento de Biblioteconomia da UFMA

“Não aceitamos a posição da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. A OAB não pode cometer o mesmo erro de 1964, quando apoiou o golpe e só depois reviu sua posição. Ninguém lembra o nome do presidente da OAB de então, mas todos lembramos o nome de Raimundo Faoro, que levou a OAB a lutar pela democracia. Lula e Dilma não fizeram mudanças radicais, mas garantiram o mínimo a muitos brasileiros: comer todo dia, morar. Isto a elite não suporta, não consegue conviver. A direita não vai parar ao derrubar Dilma: vai dar prosseguimento à cassação de direitos, ao desmonte das ainda insuficientes políticas sociais”.
Mário Macieira, advogado, ex-presidente da OAB/MA, ingressou com uma ação popular na Justiça Federal para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados e, consequentemente, da condução do processo do impeachment

“No mundo inteiro a direita está na rua: na França, nos Estados Unidos, onde [o candidato à presidência] Donald Trump pronuncia uma aberração após a outra. A direita é sustentada pela política do ódio, mantida pela homofobia, pelos feminicídios, pelo ódio de classe. O PT, em nome da governabilidade, se colocou dentro de uma estrutura corrompida que sustenta partidos políticos. É necessária a autocrítica do PT e da esquerda brasileira. Não se trata apenas deste momento, é preciso ser coerente para defender direitos humanos. No atual cenário, Bolsonaro se viabiliza para 2018, Moro já aparece com 8% das intenções de voto em pesquisa e a sanha inquisitorial não vai sumir num passe de mágica. Nós precisamos botar nosso bloco na rua”.
Wagner Cabral, professor do departamento de História da UFMA, presidente da SMDH

Minha homenagem a Humberto de Maracanã

Foto: Murilo Santos
Foto: Murilo Santos

 

Conheci mais de perto Humberto de Maracanã no início da década de 1970, quando eu integrava o grupo Laborarte. Nesse período percorremos várias comunidades do interior da ilha de São Luís apresentando o espetáculo João Paneiro, escrito por Tácito Borralho e Josias Sobrinho. A peça, encomendada pelas Irmãs de Notre Dame de Namur, Barbara e Anne Caroline, que atuavam na área, iniciou a discussão sobre a implantação dos grandes projetos que atingiram as comunidades.

Humberto foi uma das lideranças importantes nesse debate. Algum tempo depois, em 1982, fui convidado pelas mesmas Irmãs de Notre Dame de Namur, para documentar as ações da Associação de Lavradores do interior da ilha de São Luís, onde Humberto exercia forte militância. Nesse período não faltaram oportunidades de acompanhar o Humberto compositor e cantador.

A foto registra meu candidato a vereador pelo PT nas eleições de 1982. O grande cantador de boi Humberto de Maracanã reuniu em torno de seu veículo de campanha, esposa e filhos. Humberto não se elegeu. Entretanto, a campanha rendeu uma bonita toada.

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Texto e foto roubados do perfil de Murilo Santos no facebook.

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Humberto Barbosa Mendes (2 de novembro de 1939 – 19 de janeiro de 2015), o Humberto de Maracanã, faleceu na tarde de ontem, aos 75 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos. Havia sido internado dias antes, por conta de diabetes, tendo chegado a amputar uma perna.

Em 2008 foi o homenageado do Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura. Autor da antológica toada Maranhão, meu tesouro, meu torrão, além de liderar o centenário grupo de bumba meu boi que lhe deu sobrenome artístico, integrava o coletivo Ponto BR, ao lado de outros mestres e bambas (Éder “O” Rocha, Henrique Menezes, Renata Amaral, Thomas Rhorer, Walter França e Zezé Menezes), considerado melhor grupo regional no Prêmio da Música Brasileira de 2012.

O campo de Pedrinhas e o Brasil

FLÁVIO SOARES*

“Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes
criados para bicho,/e sim para o  valor e a experiência”
(Dante em P. Levi, É isto um homem?)

Para Ana Clara (in memoriam)

CAMPO DE PEDRINHAS

Passagem de 2013 para 2014, ainda em meio às festas do Natal e Ano Novo, clima carnavalesco chegando, expectativas da Copa do Mundo, nova onda de protestos e eleições de outubro, e eis que o “espetáculo do suplício” maranhense ganha nova projeção no país dos “Amarildos”. Aparece como relâmpago a iluminar, por instantes, o coração das trevas desse país, na forma dos horrores da Penitenciária de Pedrinhas, localizada na periferia de São Luís. Guerra civil em estado puro, banal, sem mediações.

Corpos “picadinhos”, perfurados a balas, facas, facões e canivetes, segundo a lógica da revolta, do ódio, do crack; cabeças degoladas, exibidas como troféus ou bolas de futebol; esqueletos de ônibus queimados; homem, mulheres e crianças em chamas; tiros em delegacias e policiais morrendo e matando adoidado; denúncia do estupro de mulheres por presos em “visitas íntimas” coletivas; cidade com mais de milhão de habitantes tomada pelo medo; imagens do horror na mídia em transe; divulgação de gravação dos papos de guerra via celulares entre membros do “Bonde dos 40” e do “Primeiro Comando do Maranhão” (PCM), antiga facção dos “baixadeiros”, inspirada no PCC-SP e CV-RJ; estado de emergência decretado no sistema prisional (de fato, em toda a região metropolitana), entregue ao domínio “pacificador” da PM e da Força Nacional, num estado onde, como disse certa vez um ex-secretário da segurança, “tudo é possível”; planos e planos emergenciais; denegação sobre denegação de um governo radicalmente alienado, simulando Roseana “no país das maravilhas” para uma população prisioneira da impotência, assombrada e indignada.

Mesmo difícil, vale distinguir as razões da explosão midiática daquelas da implosão de Pedrinhas em si. Há dez anos, pelo menos, denúncias são feitas por órgãos como SMDH, MP-MA e OAB-MA. Várias rebeliões, com mortes e decapitações, ocorridas antes, foram noticiadas pela imprensa. Exemplos: presídio São Luís-Pedrinhas, com 18 mortes (3 decapitações), novembro de 2010; Delegacia Regional de Pinheiro, Baixada maranhense, com 6 mortes (4 decapitações), fevereiro de 2011; CADET-Pedrinhas, com 9 mortos e dezenas de feridos, outubro de 2013. No entanto, sem força para criar abalos maiores.

Claro que é imoral expor ou esconder as barbaridades do Maranhão apenas por razões eleitorais, embora isto seja um dado real da briga pelo poder entre bandos partidários. Mas, sem dúvida, o modo como o Maranhão oficialmente se olha e quer ser visto foi posto em questão, como nunca antes, quando da divulgação mundo a fora dos vídeos das decapitações (feita pelos presos na rebelião de 17 de dezembro de 2013), imediatamente considerada pelo Governo do Estado “ato criminoso” (a divulgação, é claro), invertendo a situação; e, em seguida, das imagens dos ônibus incendiados (3/1/2014) e, dias depois, a morte de Ana Clara, em cujo enterro se fez presente o senador João Alberto, linha de frente da oligarquia Sarney, ex-governador (abril de 1990 a março de 1991) famoso pela “Operação Tigre” e alcunha de “Carcará”. Sobre as cenas da decapitação, o argentino Juan Ernesto Méndez, relator membro do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU, observou: “Já vi cenas de morte entre presos… mas é a primeira vez que eu vejo decapitação… Depois que vi essas terríveis imagens em Pedrinhas, pedi à minha equipe de Genebra que analise o assunto” (Folha de S. Paulo, 12/1/2014).

Não foi, portanto, o simulacro da cultura, da cidade “patrimônio da humanidade”, dos Lençóis maranhenses, mas a brutalidade dos vídeos expondo presos decapitados, “videodrome” produzido em celular pelos próprios, que catapultou o Maranhão da Oligarquia Sarney e suas prisões e, por tabela, sua tragédia social, numa escala inédita. Primeiro sucesso maranhense mundial. Com certeza um marco que assinala a entrada do Maranhão no século XXI. Não é só uma questão de espetáculo, de exploração mercadológica e contemplação passiva da própria desgraça. Estratégia fatal, a violência em si dos presos atingiu um extremo praticamente impossível de ser batido, de ser trocado na mesma moeda, pela violência do poder oligárquico. A não ser que este fosse capaz de degolar a si mesmo. Eis aí, quem sabe, a “grandeza” desse ato pérfido numa terra em que, já dizia João Lisboa no século XIX, “miséria” e “mal” (dos opressores) não sofriam compensações do “bem”.

De toda maneira, numa região onde a violência da colonização e do império deixou traumas arraigados, e onde elite e povo tendem a decidir o que é bom e ruim quase sempre pelo espelho de fora, o giro neste espelho – agora não mais da barbárie em civilização, mas da civilização em barbárie, expondo o Maranhão atroz e mentiroso  criticado pelo autor acima –, produzido pelo bombardeio das notícias e vídeos do terror local na imprensa nacional e do Mundo, feriu a imagem oficial esquizofrênica do “povo cordato” cujo monstro da violência, vindo não se sabe de onde, um governo-protetor se encarregaria em manter preso nos labirintos das Pedrinhas. Seu lugar merecido e justo.

Resta saber se tais deslocamentos levarão à consciência das classes populares quanto às causas materiais, políticas e sociais da violência que lhes atinge em primeiro lugar, potencializando sua capacidade de indignação, ou ao reforço das velhas expectativas messiânicas e, em especial, a ânsia por novas formas de controle (tipo Sistema BI paranaense, coleira eletrônica, novo “modelo de gestão” e coisas do tipo.).

Embora Pedrinhas seja um dos principais presídios do Brasil, seu universo carcerário é relativamente minúsculo. Representa 1%, ou menos que isso, da crescente população carcerária do país (de mais de 500 mil). Em números absolutos, fontes do TJ-MA indicam, até 12/12/2013, um total de 5.466 presos em todo o estado, dos quais 1.555 cumprem penas em delegacias. Déficit de 2.562 vagas. Segundo o Banco Nacional de Mandatos de Prisão do CNJ existem ainda 5.539 mandatos por cumprir. Pergunta-se: como é possível a um Governo de Estado cuja população atinge quase 6.800.000 habitantes (nas estimativas recentes do IBGE), e cujo pacto com o poder federal é cantado e decantado, “fracassar” de modo tão grotesco na guarda de 5.466 presos?

É comum se dizer que as condições extremas em Pedrinhas, absolutamente desumanas, decorrem de um sem número de fatores, tais como: concentração e superpopulação de presos do interior e da capital num só lugar, com celas totalmente inadequadas, cheias de “gambiarras”, insalubridade; falta de recursos humanos e materiais; corrupção, inexistência da fiscalização e mistura indiscriminada dos presos, fora da Lei de Execuções Penais; presos ilegais; facções e rebeliões; denúncia de abusos, tortura, espancamento e morte, cometidos pelo chamado “Serviço Velado da Polícia Militar”; paralisação na Delegacia da Estiva da maioria dos inquéritos das mais de 300 mortes nos últimos 10 anos; crimes no interior das prisões denunciados e não investigados; assassinato de denunciantes; crimes com erros periciais básicos; desaparecimento de presos, etc.

São práticas e situações de governo deliberadas, sistemáticas e sabidas, ligadas, por um lado, a uma ideia particular de justiça, para não dizer fascista, bastante comum na Colônia penal maranhense, segundo a qual presos devem pagar pecados no inferno carcerário. Nem lugar de passagem para cumprimento da pena, nem de reclusão, a prisão é o próprio espaço da pena de morte. Oficina do diabo, sem dúvida. Crença de que bandido não pode ter “privilégios” e o sistema carcerário é a “última das prioridades”. O imaginário dominante é marcado pelo ódio arraigado aos “direitos humanos”. A ideia é de que “monstros” devem ser punidos como “monstros”.

Trata-se, sem dúvida, de assumido preconceito social e racial oriundo das camadas senhoriais, mas aceito como natural por extensa parte da população. Incapacidade crônica do miserável em perceber as causas históricas, sociais e políticas da violência num contexto em que elas berram. Basta observar, para verificar essa aceitação, que, dentro do Campo de Pedrinhas (alguma dúvida de que é um tipo de Campo?), o berço étnico-social comum não é apagado pelas diferenças das posições e funções – se presos, agentes penitenciários, monitores, inspetores ou policiais. São quase sempre negros esfolando negros a serviço de brancos ou quase-brancos, situados a quilômetros e quilômetros de distância, em bairros, edifícios e condomínios nobres à beira do Atlântico.

De outro lado, o quadro atual do “abandono” liga-se a uma situação não menos decisiva de “descontrole”, caracterizada pelas disputas no interior das polícias, especialmente entre alto comando da Polícia Militar e Secretário de Segurança; Secretário do presídio e agentes penitenciários (a divulgação do vídeo falso da perna dissecada não veio daí?); gangues contra gangues. Como se a lógica do “monstro” se reproduzisse para todos os lados. O caos instalado favorece o “domínio das facções” e suas guerras cruéis envolvendo controle das prisões, comércio das drogas em franca expansão na Ilha e no Continente; disputas entre presos da Capital e do Interior (os “cara da baixada”); abuso sexual das mulheres (negado por alguns presos). A desordem instalada resulta num ambiente inevitável de delinquência, propício aos conluios entre bandidos e agentes penitenciários corruptos e, sobretudo, à livre exploração econômica da prisão pelas facções do governo e empresas dos comparsas contratadas. Negócios e intolerâncias se retroalimentam.

A “delinquência, ilegalidade dominada, é uma agente para a ilegalidade dos grupos dominantes”, diz Foucault em Vigiar e Punir. O que se chama “fracasso” da prisão é, na verdade, êxito. Forma de produção da criminalidade com o apoio da polícia visando estabelecer, a serviço dos grupos dominantes delinquentes, o controle e a exploração social. Pedrinhas é parte de um montante de investimentos que só entre 2009 e 2013 movimentou 274,1 milhões do governo do estado para empresas de “familiares, amigos e correligionários” (O Globo, 12/1/2014, “Roseana Sarney já gastou 274 milhões…”). Não dá para dissociar a conversão das prisões em negócios rendosos de compadres, a cada volta no parafuso do nosso estado de emergência, da atual configuração do capitalismo: novo regime da crueldade baseado precisamente na militarização da vida social e administração da miséria absoluta.

AMNÉSIA E NEGAÇÃO DA CRUELDADE

Mas a contribuição de Pedrinhas para a sucessão de horrores que vem causando fascínio e repulsa no mundo é fruto de um “princípio do mal” ainda mais horroroso, estrutural, sem a qual não funciona a máquina social e histórica perversa e fantasmagórica chamada “Maranhão”. Uma espécie de “Louisiana” do Norte, com a qual, no entanto, o atual Brasil “civilizado, moderno e industrializado” convive há séculos sem espanto algum. Na verdade desde que o Maranhão era a antiga Província do Norte do Império. Ou terá sido apenas acaso que a nova “Guantánamo” noticiada do país, esteja encravada, desde o finalzinho de 1965, na capital de um dos estados do nordeste, onde nervos, cabeças e ossos estão literalmente entre os mais expostos da fratura social brasileira do Planeta?

Violência social e histórica, a crueldade que caracteriza o mundo infeliz dos cárceres maranhenses não é, de modo algum, produzida exclusivamente dentro dele; não é, no fundo, diferente daquela que distingue a relação do governo com o mesmo povo negro, mestiço e pobre nas escolas, hospitais, transportes, saneamento, moradia e mundo do trabalho. Todos os dias, matérias e matérias são divulgadas na imprensa sobre cada um destes setores e a situação quase sempre é de completo desprezo e falta de humanidade. Ou será que a “superlotação” das prisões é tão diferente assim da dos ônibus, hospitais e moradias usadas pelos trabalhadores? Vistos como indignos de viver, são explorados como se pertencentes ao mundo dos “animais” ou das coisas, cujo único modo possível de tratamento, além do religioso (isto é, busca da salvação da alma), é a aplicação da lei social da indiferença e crueldade. A “taca” de “deixar nós moído”, nas palavras de um “monstro” ao radialista Silvan Alves.

O Maranhão das Pedrinhas, sobretudo, é o mesmo Maranhão miserável dos massacres, assassinatos, genocídios de camponeses, índios, quilombolas; o mesmo Maranhão 66 de Glauber Rocha, filme que teima obsessivamente em não acabar, eterno retorno do inferno, para o qual Pedrinhas, nascida já como depósito de detentos, não passou despercebida; mas também o Maranhão da extinção indígena, denunciada em Serra da Desordem (filme inquietante de Andréa Tonacci), pela invasão de fazendas, madeireiras, exploração de minério; o Maranhão da alta bandidagem de Grupos políticos e estrutura oligárquica, de Flávio Reis; o Maranhão da província escravista de O Mulato (lançado em 1881, em São Luís), de Aluísio Azevedo; o Maranhão da barbárie e do simulacro de João Lisboa, enfim, em que a oligarquia Sarney funda, pelo monopólio, exploração e depredação mafiosa das verbas públicas, o seu domínio de quase meio século, e faz de tudo para ocultar e dissimular de todos, até do mundo, pela estratégia de mudar a mentira em verdade e a verdade em mentira, conforme as circunstâncias e conveniências de quem age como se fosse um poder divino, criador da luz a partir do nada (não é esse o discurso do “Maranhão Novo”?), dono do destino, da vida e da morte dos seus súditos.

A reação do governo diante do horror do Campo de Pedrinhas é sintoma explícito da gravidade da sua esquizofrenia moral e social: “rede de boatos”; “mal que vem para o bem”; “fruto da ação do governo”; “o estado está mais rico”; “cresce e melhora”; “o Maranhão de verdade”; “campanha política contra o Maranhão”; “não existe oligarquia”; “licitações” para compra de lagostas e caviar; “Eu amo o Maranhão, aqui é bom demais”; “sou pacifista”; “falta de fundamentação”; e até a conspiração da oposição com a imprensa internacional. Nem a junção da mais fina ironia de Machado de Assis com o espírito mais anárquico de Rogério Sganzerla daria conta em narrar e filmar todo o jogo de negação, deformação e recalque sarneista da memória da crueldade do Maranhão e em especial da sua própria barbárie.

Exploração e recusa radical do outro, o sarneismo é um tipo de anomalia histórico-social, banalização do mal, que jamais poderá encarar suas origens e história. A não ser no terreno da mistificação, dos mitos, da simulação, da estetização cultural, do “inexplicável”. Como a barbárie pode encarar a si mesma? Olhar em seus olhos opacos? De todas as oligarquias do Maranhão, essa foi talvez a que, visando o domínio total, mais fez para apagar a relação dos seus súditos com o real. Grau zero da simulação. No entanto, historiadores e estudiosos, de distintas formações e colorações ideológicas, alcançaram (sabe o deus das pesquisas e arquivos locais como) denunciar e analisar as contradições do Maranhão e sua violência, sob os mais diversos aspectos, em vários momentos. Permita o leitor, ainda que de passagem, a lembrança necessária de alguns: João Lisboa, Jornal do Timon; Dunshee de Abranches, O Cativeiro; Carlota Carvalho, O Sertão; Mathias Assunção, A Guerra dos Bem-te-vis; Alfredo Wagner, A Ideologia da Decadência; Victor Asselim, Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás; Wagner Cabral da Costa, Sob o signo da morte: o poder oligárquico de Victorino a Sarney; Lourdes Lacroix, Jerônimo de Albuquerque Maranhão: guerra e fundação no Brasil colonial; Mundinha Araujo, Insurreição de escravos em Viana, 1867; Manuel da Conceição, Essa terra é nossa; Maristela de Paula Andrade (org.), Chacinas e Massacres no Campo; Yuri Costa, A Outra Justiça: a violência da multidão representada nos jornais, etc.

Para alguém minimamente afeito à realidade absurda do estado, as cenas de Pedrinhas evocam um filme de horrores inacreditáveis, presentes desde sua pré-história colonial. Tempos das primeiras guerras cruéis, onde cabeças indígenas eram decepadas em estranhos “folguedos bárbaros”. Horrores cuja recorrência, hoje, nem os estudiosos mais cretinos teriam coragem de negar. Em primeiro lugar, os da Balaiada, guerra matricial do Maranhão pós-colonial, desencadeada no final de 1838, por uma revolta na cadeia da vila da Manga (atual Nina Rodrigues), vale do Munim, por conta de recrutamentos arbitrários.

Horror reconhecido de cara por um autor monarquista, Gonçalves de Magalhães, com “um só fato”, mas que dizia tudo: “a um mísero ancião octogenário cortaram o ventre e nele coseram um leitão vivo, que lhe roía as entranhas; esta recordação horrível de um suplício tartáreo foi feita ante os olhos dos filhos e da esposa do desgraçado velho, e nem deixaram os frios algozes, que galhofavam, sem o ver exalar o último expiro no meio das cruéis vascas e dolorosos gritos da família, que além deste martírio foi espancada em despedida. A tanto chega a cruel fereza do coração humano!” (Memória histórica e documentada da Revolução da Província do Maranhão. São Paulo, Siciliano, 2001, p. 46). Houve quem duvidasse do exemplo, vendo exagero, por expressar preconceitos racistas de um conservador da Corte do Império. Mas, no dizer de autora mais insuspeita, Carlota Carvalho, a guerra dos Bem-te-vis foi um “espetáculo dos suplícios” traumático e alucinador (O Sertão. Ética, 2000, p. 138).

Numa entrevista recente, intitulada “Bonde errado”, dada ao jornal O Estado de S. Paulo (11/01/14), o advogado Luís Antonio Pedrosa, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MA, questionado sobre “vídeos de terror” em Pedrinhas, diz: “Num deles o preso teve o olho extraído e jogado ainda pulsando na direção de uma juíza que negociava as reivindicações; em outro abriram o tórax de um preso, tiraram o coração, deceparam seu pé e o colocaram dentro da cavidade. Entrar num presídio logo após uma rebelião é encontrar vísceras.” Na mesma entrevista, informa que presos dizem que a prática adotada pelas facções do presídio, de cortar cabeças de pessoas vivas como modo de impor respeito, foi inaugurada por um índio guajajara (Barra do Corda), tal o grau de revolta com as humilhações sofridas ali.

A visibilidade dos aspectos sinistros do sarneismo tem suas chances aumentadas, no entanto, na medida em que o país se ajusta com sucesso ao controle total do capital. Será mera coincidência que o instante em que o relâmpago de Pedrinhas ilumina o Brasil como “Grande Maranhão”, é o mesmo em que ele é atravessado pela lógica desastrosa do mercado mundial? Sem querer dizer que este sinal de alarme esteja sendo ouvido, é como se a “hora maranhense” do país se aproximasse a cada volta dada no ponteiro do relógio da normalização da exceção, da militarização da vida social e da administração da miséria extrema.

Na feição desmedida do Maranhão, a monstruosidade social brasileira atual é expressão, sem dúvida, do pacto republicano pra lá de diabólico do sarneismo com o governo FHC, intensificado com o Lulismo. Criatura genuína de uma ditadura que alçou a barbárie brasileira a patamares inéditos, essa oligarquia acompanhou e foi protagonista do colapso da modernização nacional-desenvolvimentista e da extinção da política no país. Ajustada às novas Administrações emergenciais do PSDB e depois PT, configura-se como um tipo bem sucedido de poder que ampliou as diferenças de classes, estrangulando suas lutas através da guerra civil molecular. Dirigido por um poder senhorial endinheirado, sua violência maior, com a conivência de sempre do poder nacional, foi transformar o estado num deserto de miseráveis físicos, intelectuais, morais e políticos. Como esperar iniciativa de mudança de um povo que não tem sequer saúde para se manter em pé?

Para os sobreviventes, resta o sentimento indefinível do acúmulo de problemas praticamente insolúveis. Não por acaso, nas últimas décadas, muitos têm fugido (quando não são traficados) em busca desesperada de saídas ou abrigos nos estados do Norte, Centro-Oeste, Sudeste, na expectativa ilusória de uma exploração mais civilizada. Outros seguem ralando e resistindo na província, do jeito que podem, no meio do nada. Será tão difícil assim compreender que o Maranhão, sem deixar de ser questão político-social, é também um problema humanitário?

SINAL DE ALERTA MARANHENSE

Nessas horas, ante a constelação de impasses insolúveis dentro da estrutura social-oligárquica de poder vigente, ou de qualquer pacote de medidas emergenciais vindas do governo federal, recoloca-se um enigma de dois séculos de idade, pelo menos, e que sintetiza vários outros. Afinal, o que é o Maranhão?

Preconceitos não deixam de ressoar no trato da pergunta. E o preconceito, como se sabe, não é só questão da ignorância dos fatos, como da forma de narrá-los. Quem estuda o Maranhão com sensibilidade crítica, e não só o do governo de ontem ou da “era Sarney”, sabe da cegueira singular gestada no coração sombrio das suas classes senhoriais. Mas quem, por exemplo, já passou pelo sudeste aprende logo que, desde muito tempo, o Maranhão não é apenas questão de geografia, simples ponto no extremo norte do país, mas símbolo do “atraso brasileiro” na sua forma igualmente extrema.  Nunca entenderam (desconhecemos exceções) a modernidade radical desse atraso.

Uma coisa é certa: é imenso equívoco falar do Maranhão como se fosse caso isolado, “feudo” distante, exótico lugar de “banquetes totêmicos”, originalidade das originalidades, tanto quanto como se fosse mais uma variação da situação nacional. Afirmação essa rapidamente explorada pela oligarquia para assegurar cinicamente sua “irresponsabilidade” criminosa e considerar injusto o que se diz sobre o Maranhão, e ainda posar como defensora “revoltada” da auto-estima de um povo que na prática destruiu e corrompeu. Contra o crescimento da vergonha, insegurança e desânimo popular, denegar sempre, até o fim: “não, o Maranhão não é isso; o maranhense é ordeiro”; o ocorrido foi coisa de “alguns celerados”; aqui “nunca teve uma tradição de violência”. A culpa é das “drogas”. Não é daqui…

É preciso indagar, sem ilusões, sobre a situação do estado e suas conexões obscuras com o país (a concordância dos últimos governos federais com o horror maranhense prova isto), mas evitando deduzir tal situação simplesmente a partir de uma abstração “nacional” ou do que se sabe sobre determinadas localidades e regiões (São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo), como fizeram diversos comentaristas e nossa oligarquia de cada dia. Diferença de grau? Pode ser. Mas diferença decisiva. Neste momento em que determinadas regiões do país parecem dar sinais de vitalidade social (indicado nos protestos de 2013), mas em que a exceção maranhense tende a tornar-se regra nacional, importa, no entanto, compreender a “dialética” de que se o Brasil é e sempre foi país de oligarquias, da desigualdade social e do encarceramento de pessoas das classes populares, nem todas as oligarquias, desigualdades ou formas de encarceramento são como as maranhenses (ou são?). Não é problema de quantidade, volume ou primazia, seja lá no que for, mas intensidade e duração. Qualidade das coisas.

Nas últimas décadas, abriu-se a possibilidade para recolocar a questão indicada, mas pelo avesso: a de uma “maranhensização” do Brasil a caminho. Fenômeno caracterizado pela disseminação de um coquetel improvável e atual a não poder mais de estado de exceção, formas de acumulação primitiva, combinação feliz de softwares importados e mão de obra barata e controlada, espoliação do trabalho (precisa lembrar que o estado é campeão do trabalho escravo?), agiotagem, assassinato de jornalistas corruptos e prefeitos idem, operação “boi barrica”, “operação tigre”, “Caso Matosão”, agronegócio predador, compra de eleições, força crítica e técnico-científica no chão, formas antigas de dependência cultural, desigualdade social, intolerância de todo tipo, alienação, impotência ou baixíssima capacidade de reação popular e campos de barbárie nos limites de Pedrinhas. Estamos falando de colônia, naturalmente.

A sensação é de que o clarão sobre o horror do Maranhão e seu universo carcerário (labirinto do minotauro que devorou Ariadne, ao contrário da fábula famosa) abre a possibilidade para pensar não apenas o estado em suas vísceras, mas, através destas, digamos sem receios, a genealogia do “totalitarismo” brasileiro emergente na virada do século XX para o XXI. Ao seu modo, o laboratório de Pedrinhas é isso aí. As cabeças degoladas e a vida da menina Ana Clara, que se foi nas chamas do ônibus incendiado, podem iluminar, no entanto, os caminhos do debate sobre as conexões entre ditadura e democracia, sarneismo e lulismo, norte e sudeste, pré-história e história do Brasil; produzir ângulos para perceber que o povo “capado e recapado, sangrado e ressangrado” deste estado é hoje um dos resultados mais visíveis, ou melhor, o resto, sem tirar nem pôr, do logro civilizatório do Brasil; e, sobretudo, a possibilidade de que este mesmo povo, das ruas e das prisões, abra os olhos, não para a salvação de quem nunca quis salvá-lo, “o Maranhão”, mas para a invenção da luta, das armas, invenção de si, visando superar de vez a guerra e a paz de cemitério deste programa fantasmagórico.

*Flávio Soares é professor do Departamento de História da UFMA. Texto originalmente publicado na edição de janeiro do Vias de Fato, nº. 50, já nas bancas

Das redes sociais às portas dos palácios

No Ministério Público e Tribunal de Justiça o expediente foi uma quarta-feira de cinzas às avessas. Roseana Sarney desde cedo mandou fechar o acesso ao Palácio dos Leões

Boto na conta do PT a queima da bandeira do PSTU, ainda no início da manifestação, ontem (19), na Praça Deodoro, em São Luís. O PT, tido como um partido diferente, terminou com as esperanças de muita gente em nome da governabilidade e da aliança com Sarney. Não descobriu nem inventou a corrupção, como insistem alguns, em geral por má-fé, mas acabou com a esperança, depois que esta venceu o medo.

Por causa do PT grande parte da população já não acredita mais em partidos políticos. Mas convenhamos: queimar uma bandeira de uma agremiação partidária é um retrocesso (a ditadura militar também fez isso), seja lá de que partido for. Acreditar que não permitir bandeiras em um ato irá torná-lo apartidário – ou pior: apolítico – é ilusão (pra não dizer outra coisa): tiraram as bandeiras do PSTU, mas mantiveram os carros de som do PMDB.

Tal gesto autoritário serve tão somente à velha direita, tanto é que a principal coluna política do jornal O Estado do Maranhão, o Estado Maior (link para assinantes com senha), de hoje (20), tira onda com o episódio: “Luiz Noleto, um dos chefes do partido, não respeitou a proibição e foi para a Praça Deodoro fantasiado de PSTU, com camiseta e bandeira. Tomaram-lhe a bandeira e a queimaram, e por pouco não arrancaram-lhe a camiseta vermelha”, escreveu o colunista. Só neste trecho caberiam vários “sic” (nem vou perder tempo em comentar a blogosfera suja).

Não faltam motivos para protestar, o que, no Maranhão, justificaria um protesto por dia. O povo saiu do facebook e foi às ruas, como mais ou menos apregoava um cartaz, ontem. Foi um momento bonito de ver: o movimento provou ter corpo – as estatísticas falam de entre 10 e 20 mil pessoas nas ruas, cada propósito tem sua medida. Infelizmente faltou cabeça.

Nosso provincianismo esperou que São Paulo – e outras capitais Brasil afora, em seguida – se mexesse para que a copiássemos – nossos meios de comunicação não se fizeram de rogados e também copiaram os de lá, filtrando do protesto apenas aquilo que lhes interessava. Em um quesito foram além, mas isto já é costume pras bandas de cá: se valeram da “pressa” para justificar erros grosseiros, sobretudo na internet.

O #vempraruaslz é um movimento importante que mostra a força e utilidade que podem ter as redes sociais – embora houvesse gente ali apenas para garantir alguns registros justamente para alimentá-las. Não é um movimento de vândalos como quer fazer crer parte da mídia. Sou contra qualquer ato de vandalismo e não bato palmas para pichações no muro do La Ravardiere nem para vidraças quebradas no dos Leões, os palácios sedes dos executivos municipal e estadual, como também não acho bacana quebrar o carro do Sistema Mirante, mesmo o grupo representando e sendo o porta-voz de muitos dos motivos pelo quais se protestava ontem.

Sobram motivos para Sarney virar alvo de qualquer protesto no Maranhão

A mobilização popular é necessária. “Governo e feijão só vai na pressão”, diz o dito popular. Mas toda mobilização deve ter objetivos claros, mesmo que sejam muitos, no caso ludovicense. A de ontem, pautada principalmente na questão da mobilidade urbana na capital maranhense, incluía ainda temas como protestos contra a PEC 37 (que tira o poder de investigação do Ministério Público), o deputado racista e homofóbico Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e seu medieval projeto de “cura gay”, e o eterno “fora Sarney”, entre muitos outros.

De acordo com informações de Márcio Jerry, secretário municipal de Comunicação, publicadas em seu perfil no tuiter, o prefeito Edivaldo Holanda Jr. dispôs-se a conversar ainda ontem com lideranças do movimento, que não foram identificadas (hoje começou a circular no facebook uma lista de reivindicações endereçadas aos governos municipal, estadual e federal).

Esta desorganização, em certa medida, demonstra que o movimento não tem dono. Ou mesmo que não há um movimento único. A grande maioria era de jovens estudantes, muitos pela primeira vez em uma manifestação do tipo, o que não a torna menos legítima, como também não o fato de serem, em geral, cidadãos bem nutridos, que “de carrão chegam mais rápido à revolução”, como bem cantou o compositor cearense. Ali cabia de tudo, de quem não sabia bem o porquê de estar participando do protesto à “apartidários” filiados a partidos políticos, além, é claro, de gente que dava algum sentido à data histórica. A porção que “precisa estar atenta e forte”, como cantaram os baianos, para que uns poucos não lhe reservem o velho papel de massa de manobra, de que supostamente tentaram escapar ao queimar a bandeira do PSTU.

É bastante difícil dizer qualquer coisa sobre o que aconteceu ontem em São Luís, seja pela pluralidade da manifestação (com tudo o que isso tem de bom e ruim), seja por tudo de novo que traz em si (protagonistas, forma de mobilização etc.). Este blogue esperará e acompanhará os próximos episódios, tentando garantir uma cobertura com alguma lucidez e equilíbrio, além do apoio ao que o movimento combinar com nossa postura de esquerda, já que aqui não vendemos pseudo-imparcialidade.

A ‘milícia 36’ é a nova camisa do sequestrador?*

Não se sabe de onde partiu um vídeo que está garantindo gozos coletivos à blogosfera suja do Maranhão. E do Brasil, já que também entrou na onda Reinaldo Azevedo, da Veja, tido por seus alunos por estas bandas como “democrata” e apontado como o blogueiro mais lido do Brasil.

Não vou postar o vídeo aqui nem linkar ninguém: já o fiz em redes sociais (expressão que detesto, pois é exatamente o contrário). Leitores que se interessarem podem procurá-los, vídeo e links, em minhas contas no tuiter (grafia abrasileirada intencionalmente) e no facebook. Ou mesmo direto na blogosfera suja do Maranhão, o noticiário infectado infelizmente sempre liberado para banho.

Aos fatos. Acusam o candidato à prefeitura de São Luís Edivaldo Holanda Júnior (PTC) de montar uma milícia, um grupo paramilitar para “tocar o terror” contra o candidato João Castelo (PSDB). O vídeo tem coisas estranhas. A começar por quem filma. Quem o faz? Por que em alguns momentos filma sem interferência e mostra rostos e noutros concentra a câmera (um celular ou máquina digital) em pés ou na total escuridão, como se o fizesse às escondidas?

O vídeo é tosca e bizarramente editado: terão todos os seus momentos sido captados durante o mesmo evento? Por que foi postado por um fake (usuário apócrifo, anônimo) no youtube e encaminhado por e-mail (fake idem, milicia36@bol.com.br) a alguns internautas (conforme relataram a este blogueiro via tuiter)?

É possível imaginar a baba escorrendo nos teclados no momento exato em que alguns blogueiros faziam repercutir o vídeo, já assistido por mais de cinco mil pessoas no exato instante em que escrevo este texto, direto no painel do blogue.

Não digo nem que um candidato nem que outro seja culpado ou inocente, mas o vídeo mostra o nível a que chegou a política maranhense. De qualquer forma um episódio ridículo em se comprovando o envolvimento de qualquer candidato, de um lado ou de outro.

Uma coisa não deixa de ser engraçada: os mesmos blogueiros que condenam “a formação de uma milícia” filmada no vídeo que agora faz sucesso na internet costumam elogiar o trabalho da “briosa” (adjetivo que eles adoram) polícia militar e seu serviço velado.

O serviço velado, apelidado de “inteligência” da PM, age cotidianamente, tortura e extermina sobretudo a juventude da periferia de nossa capital. Nunca li uma linha de qualquer destes blogueiros criticando esta praga incrustada no seio da corporação.

A ação criminosa do serviço velado, protegida pela impunidade reinante, merece discussão séria e profunda. As polícias deveriam preparar uma ação para coibir a compra de votos e outras práticas espúrias nessa reta final de campanha, no dia da eleição, inclusive apurar e punir quem quer que tenha responsabilidades e lucre com o citado vídeo.

*Em 1989 os sequestradores do empresário Abílio Diniz (grupo Pão de Açúcar) apareceram na televisão vestindo camisas de Lula (à época a Justiça Eleitoral ainda permitia a distribuição de brindes como camisas a eleitores), então candidato do PT à presidência da República; o fato, junto da edição pela Rede Globo do debate entre os candidatos, ele e Fernando Collor (então no PRN), deu no que deu.

A retórica do ódio na cobertura

POR JAIME AMPARO ALVES*
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm uma impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio-São Paulo. Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S. PauloEstado de S. PauloVeja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí, nada novo. Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas governamentais para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo e Abril celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. O PT sofre da síndrome de Estocolmo (aquela em que o sequestrado se apaixona pelo sequestrador) e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.

O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

Jornalismo lombrosiano – Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, como fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinto para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.

Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão. Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho –, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que, a exemplo de Getúlio Vargas, o ex-presidente Lula se suicide; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.

Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?

O espetáculo da punição – Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli, Marco Antonio Villa, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhêde, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de deontologia jornalística não apenas como exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem. Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendida no governo do presidente sociólogo. A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite “sudestina” ao Palácio do Planalto.

Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas como acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S.Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial. Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia. Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da Ação Penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.

Coragem de enfrentar o monstro – Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-os que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-os que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições europeias e avisei-os que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma América Latina soberana.

Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia. Terá Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mpre(n)sa?

*Jaime Amparo Alves é jornalista e doutor em Antropologia Social, Universidade do Texas, Austin

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Cheguei a este texto via Ademir Assunção.

Bicicletas zunindo a cidade

Ontem à tarde pedalei do Rio Anil Shopping até a Praça do Pescador, na Av. Litorânea. Quem me conhece para além de ler o blogue sabe de meu sedentarismo confesso e queda por cerveja, churrasco, pastel de queijo, ovo frito e iguarias do tipo. Um percurso e tanto, portanto, para quem há alguns anos não pegava em uma bicicleta.

Era um passeio ciclístico organizado pelo professor de Educação Física e Capoeira Nelsinho, candidato a vereador em São Luís pelo PT, sob o número 13.555, a quem declarei apoio já há algum tempo, embora as obrigações cotidianas me tenham impedido de participar mais ativamente da campanha.

A “pedalada” ou “bicicletada” foi bonita e emocionante. Mais de 40 ciclistas, mesmo os que, como eu, não pedalam cotidianamente, se fizeram presentes. Bicicletas e bandeiras coloriram as avenidas, nenhum ciclista pago para estar ali, as bandeiras carregadas pela militância, simpatia e amizade, gratuitamente.

Abre parênteses. de manhã perdi uma foto emblemática. Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com um embrulho na mão, desci apressadamente para atendê-lo e, não levando a máquina, deixei de fotografar “militantes” pagos, que carregavam bandeiras de uma candidatura à prefeitura, pedindo água na casa de uma vizinha minha. Fecha parênteses.

“Para limpar a merda das praias, limpe a merda da política!”, “Nelsinho, 13.555, do PT cheiroso, não do PT catingoso”, “Ninguém aqui recebeu um centavo para pedalar ou carregar bandeira!”, foram algumas das palavras de ordem gritadas de um carro de som que acompanhou os ciclistas durante o percurso. O blogueiro atesta: pedalou, não de graça, mas acreditando em “uma nova cultura política”, slogan da campanha, em uma cidade melhor para se morar, trabalhar, viver enfim.

Abaixo, alguns registros da emocionante, agradável, memorável tarde de ontem. Só quem foi sabe o que foi!

O candidato Nelsinho à frente de uma pedalada com mais de 40 ciclistas

 

Jamaica, notório torcedor do Sampaio Correia, na pedalada que reuniu bolivianos, motenses, atleticanos e outros seres…

 

Parte dos 40 ciclistas que encararam o percurso com Nelsinho

 

O blogueiro com a sobrinha: suando um bocado…

 

A dispersão na Praça do Pescador: blogueiro que declarou apoio faz o V da vitória

O debate (de verdade)

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), União Estadual por Moradia Popular, Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Quilombo Urbano, Pastoral da Comunicação, Comitê Padre Josimo, Central de Movimentos Populares, Cooperativa de Mulheres Trabalhadoras da Bacia do Bacanga, jornal Vias de Fato e Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA) providenciaram a gravação do debate realizado no auditório da última, lotado, na tarde de quarta-feira passada (19). O evento teve transmissão ao vivo pela internet.

Dos oito candidatos a prefeito, cinco se fizeram presentes ao debate moderado por Zaira Sabry Azar (MST): Edivaldo Holanda Jr. (PTC), Eliziane Gama (PPS), Haroldo Sabóia (PSol), Marcos Silva (PSTU) e Tadeu Palácio (PP). Não compareceram os candidatos Edinaldo Neves (PRTB), que alegou problemas de saúde, João Castelo (PSDB), candidato à reeleição, e Washington Oliveira (PT), candidato oficial do Sistema Mirante/ Oligarquia Sarney. Os dois últimos sequer enviaram representantes de suas coordenações de campanha para a reunião que definiu as regras do debate. Como comentei há alguns posts, o Sistema Mirante disse que o mesmo foi marcado por “tensão” e “polêmica”. Vejam com seus próprios olhos e tirem suas próprias conclusões.

O debate que houve e o que (ou)viu o Sistema Mirante

“O (ab)surdo não (h)ouve” (Walter Franco)

Estive ontem (19) a tarde inteira no auditório da OAB/MA, onde aconteceu um debate entre os candidatos a prefeito de São Luís e as organizações sociais que o organizaram. Compareceram os candidatos, em ordem alfabética, Edivaldo Holanda Jr. (PTC), Eliziane Gama (PPS), Haroldo Sabóia (PSol), Marcos Silva (PSTU) e Tadeu Palácio (PP).

Divulguei o debate (aí por baixo há um post anunciando-o e outro a sua transmissão online em tempo real), que teve um auditório lotado para presenciá-lo e, repita-se, transmissão ao vivo pela internet. Encontrei amigos, fiz uma pergunta (representando a SMDH) e integrei um trio a que, brincando entre nós, chamamos “comitê de crise”, que serviria para “julgar” questões relativas, por exemplo, a eventuais pedidos de direito de resposta durante o debate. Éramos eu (SMDH), Emílio Azevedo (Vias de Fato) e Creusamar de Pinho (União Estadual por Moradia Popular).

O trio não foi solicitado uma vez sequer, o que, a meu ver, dá uma ideia do clima em que transcorreu o debate. Eliziane Gama e Edivaldo Holanda Jr., por razões óbvias, foram os mais citados pelos outros concorrentes. Seguraram a onda. Haroldo Sabóia levou o auditório às gargalhadas quando, para justificar-se de vez ou outra estourar o tempo de dois minutos para cada resposta, disse ser gago e que, por isso, precisava de mais tempo. Havia um clima de bom humor. É óbvio que alguns candidatos estavam mais à vontade que outros, o que é muito natural e varia de palco a palco, e depende de quem organiza e promove o debate.

O candidato Ednaldo Neves (PRTB) não compareceu ao debate e mandou justificativa prévia em que alegava motivos de doença. João Castelo (PSDB), que até agora não compareceu a qualquer debate (mas certamente não deixará de ir ao do Sistema Mirante) e Washington Oliveira (PT), candidato oficial da Oligarquia Sarney (proprietária do Sistema Mirante) não foram ao debate, não apresentando, no entanto, qualquer justificativa. Antes, sequer tinham mandado representantes de suas coordenações de campanha à reunião em que, com as organizações sociais promotoras do evento, foram acertados detalhes e regras do mesmo.

O texto de abertura do evento, lido pela mediadora Zaira Sabry Azar, professora da UFMA e militante do MST, deixou clara a opinião/posição das entidades que organizaram o debate: “o não comparecimento dos candidatos demonstra o nível de compromisso dos mesmos para com os movimentos sociais, a população, a cidade”, era mais ou menos o que dizia o texto, ao que acrescento a previsão de uma gestão que refletirá isso na eventual eleição de um ou outro. A história se repetindo como farsa e tragédia em qualquer caso, já que a reeleição do candidato tucano significará mais quatro anos do que a população já bem conhece; a do sarnopetista o modelo “cor de rosa” a que o Maranhão idem parece já estar acostumado.

A cobertura do debate de ontem à tarde pela TV Mirante sequer citou os organizações que o promoveram, a saber: Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH), União Estadual por Moradia Popular, Cáritas Brasileira Regional Maranhão, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Quilombo Urbano, Pastoral da Comunicação, Comitê Padre Josimo, Central de Movimentos Populares, Cooperativa de Mulheres Trabalhadoras da Bacia do Bacanga, Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Maranhão (OAB/MA) e jornal Vias de Fato.

PelO Estado do Maranhão, o discurso démodé de chamar Marcos Silva (PSTU) e Haroldo Sabóia (PSol) de “ultraesquerdistas” (alguém lê por aí, onde quer que seja, a palavra “ultradireitista” para designar quem quer que seja?);  o sutiã anuncia “momentos de tensão” que não têm vez ao longo do texto; e “polêmica”, bem, os problemas que precisam ser enfrentados pela gestão municipal são sérios, urgentes e, talvez por isso mesmo, polêmicos. Fora os temas em si, polêmica nenhuma! Só que as organizações sociais jamais mascarariam a realidade em torno de promover um debatezinho comportado como os em geral promovidos por meios de comunicação que têm partido e candidato, embora não revelem isso aos cidadãos e cidadãs que os veem, leem, ouvem, acessam. Continue Lendo “O debate que houve e o que (ou)viu o Sistema Mirante”

Por honestidade nas eleições da “Jamaica brasileira”

Ao afirmar, em redes sociais, minha tristeza e meu descontentamento com o apoio de Fauzy Beydoun, vocalista da Tribo de Jah, ao candidato Washington Oliveira (PT), apoiado pela governadora Roseana Sarney (PMDB), de quem este é vice, acusaram-me de “patrulhamento ideológico”.

Menos, “amigos”, seguidores e quetais, menos! Cada pessoa, artista ou não, é livre para apoiar e votar em quem quiser. Eu não tentei, por exemplo, impor a Fauzy ou a quem acha “natural” o apoio dele ao candidato oficial da oligarquia, o voto em Haroldo Sabóia (PSol), a quem já declarei apoio cá neste blogue. E acho ótimo que respeitem a decisão deste blogueiro em apoiar quem quer que seja.

Cabem algumas perguntas, no entanto: o apoio de Fauzy Beydoun é ideológico? Isto é, ele realmente acredita que o candidato que apoia é o melhor para governar São Luís pelos próximos quatro anos? Ele, como artista, apenas vendeu seu trabalho ou vendeu a si mesmo? Ou seja: pela música que canta e pela aparição em programas de tevê e rádio e uso do jingle em carros de som, ele recebeu um cachê? Se sim, de quanto? Ou o artista já negocia benefícios/privilégios futuros numa eventual vitória de Washington na disputa eleitoral?

São perguntas que devem ser respondidas, a bem de um processo político-eleitoral honesto e transparente. Artistas são também formadores de opinião e com certeza influenciam o eleitorado. O saudoso mestre Antonio Vieira sempre dizia: “o artista tem que ser sincero”.

Não se questiona aqui a qualidade musical de Fauzy Beydoun, já atestada Brasil e mundo afora, por onde passa a Tribo de Jah fazendo bonito e sendo reconhecida como uma banda de qualidade made in Maranhão. O que se quer é que os artistas, ele ou qualquer outro, tenham a consciência de seu papel no mundo e, sobretudo, em processos que irão afetar diretamente a vida de seu público, de sua plateia.

PT de Sarney deixa Marlon Botão de fora da propaganda eleitoral gratuita

A dobradinha Lula/Sarney é a principal responsável pela atual esquizofrenia do Partido dos Trabalhadores. Se a situação já é(ra) muito ruim no plano nacional, o quadro piora se nos detivermos ao Maranhão, onde o PT sempre se caracterizou pelo combate à oligarquia local.

Em 2010 o Diretório Nacional do partido do então presidente da República passou por cima de tudo e todos, impondo apoio do PT à então candidata Roseana Sarney, filha do presidente do Senado, contrariando a maioria local, que havia decidido pelo apoio à Flávio Dino (PCdoB) para a disputa pelo Governo do Maranhão. Dois anos depois foi fácil ter a maioria, com vitória folgada do ex-comunista e atual vice-governador do Maranhão Washington Oliveira sobre o deputado estadual Bira do Pindaré, com o cearense disputando as eleições com apoio da oligarquia que um dia combateu (ou ao menos dizia combater).

E se digo que a dobradinha Lula/Sarney foi a principal responsável por isso, não estranhem: não é a única. Vantagens individuais, cafezinhos, anuidades, empregos e promessas outras também deram uma ajudinha.

A questão agora é que não dá para falar pura e simplesmente que Fulano de Tal é candidato do PT. É necessário esclarecer que Beltrano é candidato do PT antissarney e Ciclano é candidato do sarno-PT.

Explico: este blogue, por exemplo, apoia a candidatura de Nelsinho, do PT antissarneyista. O número dele é 13.555, a quem interessar possa. Outro candidato do mesmo campo, digo, do PT antioligárquico, é Marlon Botão, 13.200, outro bom nome para a Câmara Municipal. O primeiro é professor de educação física das redes públicas municipal e estadual, mestre de Capoeira, ligado ao Laborarte; o segundo, Relações Públicas, com atuação em assessorias no movimento sindical. Mas, bem, isto aqui não é horário eleitoral gratuito nem este blogue recebe para fazer propaganda, vamos ao que interessa.

Recebo, estupefato, a notícia de que Marlon Botão teve seu programa de tevê censurado na primeira semana de propaganda eleitoral gratuita. O motivo: não querer atrelar seu nome ao do candidato à prefeito da oligarquia Sarney, o citado Washington Oliveira, tido como “cerca velha”, à boca miúda, por diversos outros nomes que, no entanto, não tiveram a coragem e a postura de Marlon Botão, Nelsinho e uns poucos outros, de não pedir votos ao vice-governador que quer ser prefeito.

Ambos têm apoio do deputado estadual Bira do Pindaré, outro nome do PT que não se rendeu ao modus operandi oligárquico, o que certamente incomoda bastante as hostes petistas. “Sarney sabe que temos o apoio do deputado federal Domingos Dutra e do deputado estadual Bira do Pindaré e quer impedir a nossa presença na Câmara dos Vereadores”, analisa Marlon Botão no texto que recebi por e-mail de um amigo comum.

O diretório municipal do PT em São Luís havia sido notificado sábado (18) para garantir a participação do candidato no horário eleitoral; no sábado seguinte (25), ontem, o notificado foi Marlon Botão, pelo “juiz Fernando Mendonça, nos autos da Representação 87211/2012, proposta pela Coligação “Juntos por São Luís”, para responder, em 24 horas, sobre o pedido de retirada de matérias do seu site de campanha com a concessão de direito de resposta e aplicação de multas”, também de acordo com o texto recebido por e-mail.

A coligação alega que a responsabilidade pela gravação dos programas é do PT. Marlon Botão diz que outros candidatos o fizeram por conta própria, incluindo a gravação de externas. Cabe lembrar que o candidato é sócio de uma produtora e tem condições de elaborar seu próprio material. Ele disse que não aceitará censura e que irá lutar por seu direito (veja a seguir o programa censurado).