A revolução do BR 135

Dois recordes quebrados, shows históricos, a Praia Grande reocupada com arte e coros em uníssono: “Fora, Temer!”

Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Isqueiros e celulares acesos para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Em seu quinto ano, o Festival BR 135 superou todas as expectativas e parece que qualquer coisa que se diga dele soará clichê – inclusive isto.

Colocando São Luís na rota do circuito brasileiros de festivais, alguns longevos, outros tão ou mais novos que o “nosso” BR, como é simplesmente abreviado – e chamar o BR de nosso é mais que legítimo! –, mas já demonstrando vigor – e aí já disputamos as atenções de igual pra igual.

Se não, vejamos: que outro/s festival/is brasileiro/s consegue/m reunir numa mesma edição Nação Zumbi, Di Melo e Liniker e os Caramelows, para ficarmos apenas nos headliners, já que havia outras ótimas atrações na programação?

“A única saída é o aeroporto”, dizia um jocoso Tom Jobim, sobre a situação brasileira, noutros tempos. 52 anos depois do golpe que implantou a ditadura civil-militar no Brasil, um novo golpe, político-jurídico-midiático, destituiu a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, para ascender o vice-decorativo ao posto de presidente-decorativo.

Mas por que falar de política em um texto sobre cultura, mais especificamente sobre um evento cultural? Se você ainda se pergunta isso, das duas uma: ou apoia os golpistas ou está muito por fora.

Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Os malungos da Nação Zumbi e um primeiro recorde quebrado. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Já na primeira noite de BR 135 – batizado com o nome da única entrada e saída de São Luís por via terrestre –, a de quinta-feira (24), as atrações foram unânimes em compartilhar do grito da galera: um mar de gente – outro clichê – entoava o coro de “Fora, Temer!”, com a recíproca verdadeira de bandas como Venga Venga (um duo de djs), DuSouto e Nação Zumbi. Estes, encerrando a noite inaugural, quebravam um recorde de público do festival. Há quem fale em 10 mil pessoas na Praça Nauro Machado e arredores.

“Estamos fazendo o podível e o impodível e nada é impodível para o imorrível”, gracejou Di Melo, outro pernambucano, lenda vivíssima – chegou a ser dado como morto, depois reapareceu –, cujo álbum de estreia passou anos esquecido até tornar-se cult e cantado a plenos pulmões pelo ótimo público que lotou a Praça da Criança na segunda noite de festival (quinta-feira, 25). Aqui cabe um elogio também à banda local que o acompanhou.

“Foram só 40 minutos de ensaio, estes músicos são maravilhosos”, derramou-se ao se referir a João Paulo (contrabaixo), Rui Mário (teclado), Fofo (bateria), Hugo Carafunim (trompete), Danilo Santos (saxofone) e João Simas (guitarra). Com todos os presentes cantando seu repertório de cabo a rabo – mesmo as poucas músicas de Imorrível, disco lançado este ano, nem se sentiu falta de backing vocals, para repetir o refrão “calma, calma, calma, calma, calma!”, de A vida em seus métodos diz calma, da estreia Di Melo, de 1975.

Por falar em atrações locais, a noite central foi também a “noite do empoderamento feminino”, quando o palco da Nauro Machado – difícil falar em palco principal – foi totalmente das mulheres: Nathália Ferro, Tássia Campos, Núbia e Lei di Dai mandando a real.

Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Luciana Simões e Bruno Batista, antes de Alê Muniz subir ao palco e completar a participação do Criolina. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Outros destaques locais foram a volta da Pedeginja, entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco de estreia e inéditas, Beto Ehongue e os Canelas Preta, que aproveitaram os ótimos público e clima do Festival BR 135 para a gravação de um dvd ao vivo, e Bruno Batista, que apresentou novamente aos ludovicenses o show Bagaça, baseado no repertório de seu último álbum, com participações do casal Criolina (Alê Muniz e Luciana Simões, idealizadores e produtores do BR 135), de Léo Chermont (guitarrista da Strobo, banda paraense que faria show na sequência) e acompanhado de André Bedurê (contrabaixo), Gustavo Souza (bateria), Márcio Guimarães (guitarra) e Estevan Sinkovitz (guitarra).

Bruno Batista afirmou com todas as letras o que, de algum modo, todos tínhamos certeza: “o BR 135 é a coisa mais revolucionária que aconteceu na cena cultural do Maranhão nos últimos tempos”. Certamente referia-se ao conjunto Festival BR 135, que além dos shows promove feira criativa e intercâmbios os mais diversos, além do Conecta Música, evento paralelo que envolve debates, palestras, mesas redondas, oficinas, rodadas de negócio – sem falar na histórica roda de samba na Feira da Praia Grande, na tarde de sábado (26), reunindo Patativa e a Turma do Vandico.

Como anunciou Leminski, "essa noite vai ter sol". Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135
Como anunciou Leminski, “essa noite vai ter sol”. Teve, para Liniker. Foto: Laila Razzo/ BR 135

Mas o mais surpreendente ainda estava por vir: fechando a última noite de festival (sábado, 26), Liniker e os Caramelows fizeram um show para um público ainda maior que o da Nação Zumbi. Havia gente pendurada nas árvores. Um festival com dois recordes sucessivos quebrados não é qualquer festival.

Quando ela cantou Zero, acompanhada, obviamente, pela multidão, isqueiros e celulares se acenderam, quase antecipando em algumas horas a barra do domingo – na memória de quem esteve presente ainda não se apagaram.

[originalmente publicado nO Imparcial de hoje]

Parabólica nos paralelepípedos

Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135
Nação Zumbi na Nauro Machado, ontem (24). Foto: divulgação/ BR 135

 

Se a alguém restavam dúvidas sobre a consolidação do Festival BR 135 (veja a programação completa) no calendário cultural do Maranhão, a noite de ontem (24) tratou de dirimir. Em sua segunda passagem por São Luís, a primeira em um show gratuito, os pernambucanos da Nação Zumbi refizeram ao vivo o repertório de Afrociberdelia, um dos discos fundamentais do movimento manguebit, que completa 20 anos neste 2016.

Maior banda do Brasil em atividade, a Nação Zumbi demonstra um vigor ainda maior no palco – e qualquer um que conheça qualquer disco, com ou sem Chico Science à frente, sabe o peso da banda. Por falar em Chico Science, cujo falecimento também completa 20 anos no próximo fevereiro, sorte a nossa Jorge Du Peixe ter assumido os vocais e a banda ter continuado de ali em diante, sempre surpreendente.

Em geral elegantes, artistas costumam dizer que tanto faz tocar para 10 ou para milhares de pessoas. Mas sabemos que, geralmente, quanto mais público melhor. E o público de São Luís fez bonito: lotou a Praça Nauro Machado, na Praia Grande, para ver/ouvir os malungos. Arrisco dizer: estávamos diante de uma quebra de recorde, ao menos em se tratando do BR 135 – não ouso estimar a quantidade de público por pura inabilidade.

Em cerca de hora e meia de show, a Nação Zumbi mostrou o peso e a atualidade do repertório de sua mistura de africanidade, cibernética e psicodelia – a justaposição que dá título ao disco de 1996, considerado o 18º. melhor disco da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil.

Não faltaram clássicos para botar o público para cantar junto e dançar: Macô (Jorge Du Peixe/ Bid/ Chico Science), Samba do lado (Nação Zumbi/ Chico Science), Manguetown (Lúcio Maia/ Dengue/ Chico Science), Criança de domingo (Cadão Volpato/ Ricardo Salvagni) e Maracatu atômico (Jorge Mautner/ Nelson Jacobina). O bis extrapolou Afrociberdelia, lembrando Blunt of Judah Meu maracatu pesa uma tonelada, de Nação Zumbi [2002], e Quando a maré encher (Fábio Trummer/ Roger Man/ Bernardo Chopinho), de Rádio S.Amb.A. [2000]

Um satélite na cabeça, título de uma das faixas de Afrociberdelia, também lembrada ontem, se traduziu em um satélite por cabeça: todo mundo sintonizado. A antena parabólica na lama, um dos símbolos do manguebit, hoje parece fácil de ter sido fincada. Nos paralelepípedos do centro histórico de São Luís é mais difícil, mas a Nação Zumbi conseguiu.

Em tempos de golpe e dos sucessivos ataques à cultura brasileira, convém reafirmar a importância e a resistência do BR 135. Na noite de ontem, a primeira das três da programação, Venga Venga, a ótima DuSouto e a Nação Zumbi foram unânimes (e acompanhados pelo público) nas palavras de ordem (a hashtag) do momento: fora, Temer!

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”

Bumba meu dub

Vibração poética. Foto: ZR (12/12/2015)
Vibrações poéticas. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Jornalistas de profissão, o poeta Celso Borges e o DJ Otávio Rodrigues inventaram Poesia Dub em 2004, quando ambos viviam em São Paulo. O nome do espetáculo de poesia no palco, para muito além da leitura de poemas com trilha sonora, remete a uma das especialidades de Otávio, um dos maiores especialistas em Jamaica no Brasil, mas sem se prender a ele.

Embora com apresentações bissextas – Celso Borges voltou a morar em São Luís em 2009 – Poesia Dub já passou por várias formações. Ontem (12), na Praça Nauro Machado, na programação do Festival BR135, foi apresentado por Celso Borges (voz e poemas), Otávio Rodrigues (trilhas, efeitos e percussão adicional), Luiz Cláudio (percussão) e Gerson da Conceição (contrabaixo).

Linguagem abriu a apresentação. É um poema em que o autor convida os espectadores a ouvir, falar, lamber, chupar, morder a sua língua, a linguagem enquanto vírus, não à toa Celso Borges ser chamado de “homem poesia” por alguns, dada sua dedicação à causa. Quase um “vai vir o dia quando tudo que eu diga seja poesia”, de Paulo Leminski, homenageado em Morto vivo: “aos quarenta e quatro” – idade com que o curitibano faleceu – “ainda dói o óbvio”, falacanta CB. “Estou vivo na idade do morto, Leminski”, diz noutro trecho, como a dizer que apesar do mundo estamos aí, “que nem assino embaixo/ que nem moscoviteio/ que nem capricho/ que nem relaxo”, citando alguns de seus poemas mais conhecidos e o clássico Caprichos e relaxos.

Paulicéia é uma ode a São Paulo e São Luís, os dois santos de sua vida, “um em cada um dos meus ombros, trocando sempre de lugar. Ora protetores, ora algozes”, como me declarou CB em uma entrevista em 2007. Rima Fiesp com Masp, símbolos paulistas, e Pompeia com Coreia e Divineia, bairros de lá e cá, com o “venta loló/ pra esse barco andar”, de Chico Maranhão, de refrão. No final, uma homenagem a Torquato Neto: “leve o homem e o boi ao matadouro; quem gritar primeiro é o homem mesmo que seja o boi”.

Otávio Rodrigues programa dub e reggae, mas também ladainhas, tambor de crioula, bumba meu boi e Cordel do Fogo Encantado. Em Ode a Rico Rodriguez, o trombone do mestre jamaicano nascido em Cuba, falecido em setembro passado. “Um dos mais importantes nomes do reggae, integrante dos Skatalites ainda nos anos 1960”, frisou Gerson da Conceição. “Me apaixonei por Rico Rodriguez ao ser apresentado à sua música, no começo dos anos 2000, por Otávio Rodrigues”, agradeceu Celso Borges. “O pobre Rodrigues”, brincou Otávio.

“Eu quero ver quem ainda vai ter medo da Praia Grande!”, bradou Celso, festejando o público do BR135, que ocupou duas praças do bairro nas três noites da programação do festival que ajudou a formatar.

Poesia Dub merece urgentemente registro em disco. Relevante serviço prestado à música e à poesia, é injusto que seus apreciadores fiquem à mercê dos encontros de Celso Borges e Otávio Rodrigues no palco, infelizmente mais raros que um 29 de fevereiro.

A incansável máquina humana de fazer música

Foto: ZR (11 12 2015)
Curumin e Os Aipins. Foto: ZR (11/12/2015)

 

Que Curumin é um músico que sabe o que fazer no estúdio já estamos cansados de saber e seus três discos são a prova disso. Em Achados e perdidos (2003), JapanPopShow (2008) e Arrocha (2012), ele compõe, canta, toca, sampleia e reinventa a música pop(ular) produzida no Brasil.

Que Curumin sabe o que fazer no palco, o show dele ontem (11), na programação do Festival BR135, sua primeira vez em São Luís, não deixou a menor dúvida. Pilotando bateria e samples, trajando calça vermelha, chapéu e uma camisa quase nas cores do Sampaio Corrêa (o laranja predominava, em vez do vermelho), o artista estava escoltado pelos Aipins José Nigro (contrabaixo e samples) e Lucas Martins (guitarra e samples), “uma banda que tá há muito tempo tocando junta”, como revelou em entrevista ao Homem de vícios antigos.

Curumin canta, toca, programa, protesta, improvisa, não se dá descanso ao longo de toda a apresentação, em que emenda uma música na outra, como se fosse uma máquina de fazer música – embora não o faça mecanicamente e o prazer em tocar, e particularmente em tocar em São Luís, era perceptível. Não há vazios em sua música – ou nas poucas alheias que interpreta. É de um vigor impressionante.

Começou por Vestido de prata (Jorge Alfredo Guimarães), sucesso do novo-baiano Paulinho Boca de Cantor, regravada por ele no disco mais recente. Com quase uma década, Mal estar card atualiza o momento político cretino que o Brasil atravessa. Samba Japa traduzia o sentimento dos que lotaram a praça: na música, a menina sonhou e sambou ali, “no meio da rua na Avenida Central ela não podia parar”; os que estávamos na Praça Nauro Machado também não.

O refrão de Compacto foi cantado pela plateia, em resposta aos “Eu só quero ouvir” de Curumin. Seguiram-se Passarinho, de Russo Passapusso, Selvage e Afoxoque, com o trio esbanjando versatilidade, habilidade e alegria, esta última entrecortada pela caixa de música que abre Salto no vácuo com joelhada (que ele não cantou), preenchida por rimas improvisadas contra “a polícia que trata todo estudante como maconheiro” e a corrupção na política – não disse, mas certamente se referia à São Paulo e a guerra travada pelo governo Alckmin contra estudantes ocupando escolas para mantê-las abertas, contra projeto de “reorganização” do governador.

Mistério Stereo foi dedicada às pessoas que ainda amam, “são poucas”, disse. Vem, menina foi a única música de Achados e perdidos que compareceu ao repertório. Ao vivo, o bloco final ganhou em peso. Em Kyoto o protesto voltou à baila, contra as elites que querem decidir o destino dos menos favorecidos; em Caixa preta Zé Nigro enfiou de incidental trechos de Kátia Flávia, a godiva do Irajá, de Fausto Fawcett; Magrela fever tornou a praça uma grande festa em clube de carnaval, com direito a trenzinho e tudo.

Sabe-se lá se a polícia local tomou para si os protestos de Curumin, mas, diante das ameaças de tomarem o palco e acabar com o show na marra, após negociações com a produção, não coube bis. Policiais alegavam ter o show extrapolado o horário – o que se fosse o caso, mereceria uma honrosa exceção.

Incansável, Curumin fez quase duas horas de um show impecável, um apanhado do melhor de sua carreira. Certamente teria pique para mais, ao menos o bis, mas nem isso tirou o brilho da noite e, particularmente de sua apresentação, que ficará por muito tempo na memória dos que presenciaram esse momento grandioso e raro.

Comunhão

Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Projeto BR135
Idealizadores e produtores do BR135, Alê Muniz e Luciana Simões confraternizaram com a plateia. Foto: Marco Aurélio/ Projeto BR135

 

Alê Muniz e Luciana Simões fizeram, há algum tempo, uma opção a que alguns não hesitariam em taxar de suicida: morar no Maranhão e produzir a partir daqui. O casal Criolina, após dois discos e uma temporada em São Paulo, onde se conheceram, fixaram residência na Ilha e daqui tem realizado conexões importantes para o fomento da música pop(ular) produzida atualmente em seu lugar de origem. Tem dado certo.

Este ano, Alê e Lu lançaram Latino-americano, EP-ritivo enquanto o terceiro disco não chega, com quatro faixas: covers de Reginaldo Rossi (Garçom) e Osvaldo Farrés (Quizás, quizás, quizás), e parcerias inéditas com Bruno Batista. Também foi ao ar um videoclipe, da faixa-título, financiado por crowdfunding.

Deles ninguém nunca saberá ao certo a resposta à eventual pergunta “e o próximo disco?”, costumeiramente ouvida por artistas. É que eles, além de sua carreira enquanto duo, resolveram colaborar com a formação e consolidação de uma cena local. Tanto é que o Festival BR135, grife consolidada com a cara dos dois, é muito mais que um festival de música.

Aos shows em dois palcos na Praia Grande – reocupada com música de qualidade durante três dias de programação – se somam todas as mesas-redondas, debates, palestras, rodadas de negócios, painéis e workshops do Conecta Música, programação de formação e negócios paralelo ao evento musical.

Ontem o duo se apresentou para o ótimo público que bisou lotar a praça Nauro Machado. Não eram a cereja do bolo, tampouco realizam o evento para criar palco para si próprios, seria tolo e injusto alguém o dizer. Era, talvez, um momento de afirmar, com o que sabem fazer tão bem quanto produzir e coordenar eventos dessas dimensões, algo como “ei, o que nós fazemos é música!”, parafraseando um disco de Jards Macalé, ou “música serve para isso”, de Maurício Pereira: para agregar pessoas, colocar o Maranhão na rota dos grandes palcos do Brasil e para, a partir destes encontros, entre artistas e público, mas também entre os artistas entre si e entre pessoas do público, surgir outra/s coisa/s. É do atrito que nasce o novo.

Sua apresentação, no Festival que idealizaram e produzem, era uma espécie de confraternização, comunhão entre artistas e plateia e agradecimento mútuo: “obrigado a vocês por estarem aqui”, disseram Alê e Lu ao público, razão maior do festival; a plateia retribuiu os agradecimentos com aplausos e cantando junto músicas como O santo [Alê Muniz/ Luciana Simões], Eu vi maré encher [Alê Muniz/ Luciana Simões], A serpente (Outra lenda) [Zeca Baleiro/ Celso Borges/ Ramiro Musotto], Semba [Zeca Baleiro], Latino-americano [Alê Muniz/ Luciana Simões/ Bruno Batista] e Quizás, quizás, quizás [Osvaldo Farrés], entre outras.

Festival BR 135 será lançado quinta-feira (20) no MHAM

Divulgação

 

Nesta quinta-feira (20), às 19h, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão (MHAM, Rua do Sol, 302, Centro), o duo Criolina, em evento para convidados, lança o Festival BR 135 e o Conecta Música, que ocorrerão em paralelo, em dezembro, na capital maranhense, e prometem sacudir a Ilha.

Já estão anunciados nomes como Céu, Dona Onete, Felipe Cordeiro e Mombojó, além dos selecionados pelo festival (lista completa na imagem acima).

Idealizador do Festival ao lado de Luciana Simões, Alê Muniz afirma que a intenção é mapear os vários Brasis existentes unindo-os através da música. Para ela é preciso “repensar o Centro Histórico, reconhecido patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, mas abandonado pelo poder público”. “Nosso maior patrimônio não é o conjunto arquitetônico, mas sua relação com as pessoas da cidade”, provoca Luciana.

Shows – Céu abre o Festival BR 135 dia 18 de dezembro, no Teatro Arthur Azevedo. Os demais shows acontecem na Praça Nauro Machado (Praia Grande), dias 19 e 20. A programação do Conecta Música inclui palestras, oficinas e workshops. O blogue voltará ao assunto.

Confiram Céu em Retrovisor:

Tecendo redes: artistas comentam suas presenças na 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes

A 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes começa amanhã (23), com um cortejo artístico que seguirá da Biblioteca Pública Benedito Leite, na Praça Deodoro, até a Praça Nauro Machado, na Praia Grande. A concentração tem início às 15h30.

O encontro de diversas linguagens artísticas marca a abertura do maior evento de arte e cultura do Maranhão, cuja programação, completamente gratuita, segue até o dia 30 de outubro, em São Luís e Raposa.

Ao longo do trajeto, as ruas do centro da capital maranhense serão enfeitadas pelas artes do Maracatuque Upaon Açu, Núcleo de Formação Artística O Circo tá na Rua, Trupe de Habilidades Circenses, Grupo Officina Affro, Grupo de Artes Maria Aragão (Gamar), Banda do Bom Menino, Xangô Caô (TSI/Sesc), contando ainda com o intervencionismo arte educativo “Piracema Criativa” da Imaginautas_Rede Social.

A trupe será recepcionada às 18h na Praça Nauro Machado, onde acontecerá o Brechó no Olho da Rua, cujo nome surgiu por conta de um despejo, passando o mesmo a funcionar em diveros espaços públicos, de forma itinerante. Dialogar com ações culturais que já acontecem na cidade, caso do brechó, é o mote da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, cujo tema é “Tecendo Redes”.

Um dos mais refinados e requisitados DJs de São Luís, Franklin Santos, ou simplesmente DJ Franklin, sobe ao palco da Nauro Machado às 19h. Ele comenta a alegria em participar novamente da Aldeia: “é uma grande alegria, ainda mais dividindo a noite com uma das bandas que mais escutei, ao lado de Chico Science e Nação Zumbi, é realmente um sonho”, afirmou, referindo-se aos pernambucanos da mundo livre s/a. “Estou programando uma mistura de reggae, samba e manguebeat para rolar naquele lugar fantástico que é a praça Nauro Machado, outra magia à parte, ambientando tudo isso”, adiantou.

A banda Madian e O Escarcéu, com o premiado Sinfonia de Baticum, também está na programação de abertura da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes, a partir das 20h. O repertório não se limitará ao disco: “Serão executadas em “primeira mão” na ilha canções como Sal de cigana e Terremoteou, que em breve estarão num lançamento do grupo, o álbum Nonada”, adianta o baixista Miguel Ahid.

Para Madian, estar junto de todos os artistas, tornando a noite uma festa, dá “uma sensação de bem estar. Afinal, lugar de índio urbano, lugar de metal do mato, é na aldeia mesmo. E – sendo maranhense – um legítimo tupinambá, é guajajara na veia”, afirma.

“Temos um respeito enorme por todo o trabalho, história e carreira dos expoentes da música pernambucana, de Luiz Gonzaga a Alceu Valença, passando por Chico Science, Nação Zumbi, mundo livre s/a e tantos outros. Todos eles, juntos com outros grandes nordestinos como João do Vale, Ednardo, Jackson do Pandeiro, são exemplos da grandiosidade da força e influência abissal do folclore nordestino na cultura do país”, afirma Erico Monk, que completa a formação do trio.

A banda pernambucana mundo livre s/a, um dos nomes mais importantes do movimento Manguebeat, que eclodiu no início da década de 1990, em Recife, sobe ao palco da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes às 21h30. O repertório passeará por todos os seus discos, com especial destaque para o de estreia, Samba esquema noise, que em 2014 completa 20 anos de lançado.

Para ZéMaria Medeiros, poeta e músico que comanda A Vida é uma Festa, evento semanal que acontece ininterruptamente desde 2002, na Praia Grande, integrar-se à programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes é uma forma de reconhecimento. “O Sesc, ao nos incluir em sua programação, coloca-nos em sua rede de diálogo com as diversas manifestações artísticas, o que nos fortalece. É o reconhecimento por um trabalho continuado de afirmação do nosso fazer artístico, do valor que a cultura tem para integrar as pessoas e sinergizar rumo a um mundo harmônico, plural, de paz”, enfatiza.

Este clima de confluência pauta toda a programação da 9ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A programação completa, totalmente gratuita, está disponível no site do Sesc/MA.

Trilhos da Resistência hoje (8) na Nauro Machado

Muita coisa interessante rolando no Seminário Internacional Carajás 30 Anos, apesar do rigoroso e espantoso, embora nada surpreendente, silêncio de nossos meios de comunicação.

O evento está acontecendo desde segunda-feira passada (5), com boa média de público, e segue até amanhã (9) no Campus Universitário do Bacanga, UFMA. Programação completa e transmissão ao vivo no site.

Hoje, uma marcha sairá da UFMA em direção à Praça Nauro Machado (Praia Grande), onde acontecerá o ato-show Trilhos da Resistência, com diversos artistas valorosos e resistentes, redundo, de nossa música.

De graça! Colem lá!

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De Nostrife para o mundo, via São Luís: a viagem sonora de Babi Jaques e Os Sicilianos

Não é fácil classificar a música de Babi Jaques e Os Sicilianos – assumisse o grupo uma sigla ela seria quase “beijos”. Talvez seja mesmo tarefa impossível e dizer simplesmente liquidificador sonoro certamente soaria clichê. É pop, é rock, é blues, é frevo, é música popular brasileira, mas é muito mais que isso. Ecos de tropicalismo e manguebeat – justificado pela conterraneidade com Chico Science, a quem, aliás, sampleiam na vinheta de abertura de Coisa Nostra, seu disco de estreia –, mas também da vanguarda paulistana de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Ao menos aos ouvidos deste modesto crítico, impossível não lembrar, de cara, das experiências do pianista em Clara Crocodilo.

Talvez pelo fato de a banda ser formada por personagens. O que justifica a multiplicidade, Barbara Jaques, a vocalista, assumindo diversas formas durante uma performance. O disco enquanto suporte – um cd com encarte ou as faixas soltas nas esquinas virtuais para download – não é suficiente para cabê-los. Qualquer busca no google levará o leitor/ouvinte a biografias inventadas – o que pode reacender propositadamente ou não a fogueira em torno da polêmica um tanto vazia e insossa sobre o assunto.

Em Coisa Nostra, disco e show com que chegam à São Luís, por exemplo, travestem-se de mafiosos oriundos da cidade imaginária de Nostrife, evidente soma de máfia e Recife, sua (verdadeira)  terra natal. Babi Jaques pode ser numa faixa cantora de cabaré, noutra dublê de desenho animado, versátil cantora é o que é, afinal de contas. Sua música está próxima da poesia, melodias e harmonias são trilha sonora para a palavra, onde cabem ainda teatro, cinema, circo e, por que não?, música.

Coisa Nostra chega após a participação da banda em coletâneas e na trilha sonora de filmes. Produziram e lançaram ainda o documentário Sabe lá o que é isso, investigando as transformações do frevo, o título um verso do Hino de Batutas de São José, cuja releitura moderna o disco traz de brinde. É a estreia de um grupo que parece ter nascido pronto. São apenas quatro anos de carreira, mas o que se ouve e vê é pura maturidade musical. Alexandre Barros (bateria), Babi Jaques (voz), Thiago Lasserre (baixo) e Well (guitarra) garantem diversão nostrifense aos estrangeiros que se aventuram por seu disco e shows.

Hoje eles aportam em outra cidade imaginária, de tantas alcunhas um tanto já sem sentido: Athenas brasileira, Ilha do amor. Certamente não conhecem a lenda da serpente e é capaz dela despertar para dançar e se divertir – e fumar!: o afundar de São Luís fica pra outra ocasião, hoje no máximo o chão vai tremer ali na Praça Nauro Machado e arredores, onde às 23h Babi Jaques e Os Sicilianos armam sua (fan)farra musical, de graça, dentro da programação da 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes. A festa está garantida, como na letra de Evocação sem número: “E não importa se acabou fevereiro/ meu carnaval dura o ano inteiro”.

O quarteto se apresenta ainda em Itapecuru-Mirim (3/11) e Caxias (8/11), antes de continuar as aventuras por Piauí, Ceará, São Paulo, Uruguai e Argentina.

Um reencontro histórico e imperdível

Confesso: enquanto a banda durou, não acompanhei o trabalho.

Sua provavelmente mais recente “aparição” se deu justo quando os conheci: em uma faixa de Música, livro-disco de Celso Borges, um entusiasta desse ato de fênix. O poeta havia tentado remontar (remendar?) a banda para um show na 7ª. Feira do Livro de São Luís (FeliS), o que acabou não acontecendo.

Se a sétima não conseguiu, a oitava consegue. E os fãs, novos e/ou órfãos, nem precisarão esperar a feira do ano que vem. O reencontro acontece é na aldeia deste 2013 mesmo: a 8ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes orgulhosamente apresenta T. A. Calibre 1!

Groove Balaio, o show, será apresentado hoje, às 22h, na Praça Nauro Machado (Praia Grande), de graça.

Balaio, o disco, saquem só a importância!, figurou na lista dos 12 discos mais lembrados da música produzida no Maranhão nos últimos 40 anos, em que diversos jornalistas, radialistas, DJs, produtores, críticos etc. votaram para o jornal Vias de Fato.

Com Tributo ao Bandeira de Aço, termina hoje a #7felis

A 7ª. Feira do Livro de São Luís termina hoje, após 10 dias (incluindo este domingo) de intensas atividades nos mais diversos espaços da Praia Grande.

Às 21h, na Praça Nauro Machado, diversos artistas relembrarão as nove faixas do antológico disco gravado por Papete para a Discos Marcus Pereira, em 1978, ocasião em que pela primeira vez foram gravadas em disco músicas de Cesar Teixeira, Josias Sobrinho, Ronaldo Mota e Sérgio Habibe.

É um bis do show apresentado em maio passado no Teatro Arthur Azevedo.