Vida (a)ventureira do outro lado do Atlântico

 

Os caminhos de Bárbara Eugenia e Tatá Aeroplano já se cruzavam havia algum tempo. Artistas de trajetórias distintas, ano passado chegou o momento de registrarem esse encontro: gravaram e lançaram juntos o álbum Vida ventureira [2017], coleção de delicadezas que agrega elementos de rock rural, folk, psicodelia e punk, com a sonoridade ora remetendo a Zé Rodrix, ora a Kraftwerk, em 12 faixas cerzidas por bucolismo.

Tatá Aeroplano já comparou o (seu) ofício de fazer discos à produção orgânica de vegetais: em pequena escala, sem preocupação com a grandeza dos números, mas com a qualidade e alimentando uma fatia importante da população. Múltiplo, já esteve à frente das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro, e se divide entre ele mesmo e o personagem Frito Sampler, que já assina dois álbuns de sua vasta discografia.

Após sua estreia em 2010, com Journal de Bad, Vida ventureira é o segundo, digamos, casamento musical de Bárbara Eugenia. O primeiro foi o álbum Aurora [2014], dividido com Chankas, guitarrista da banda Hurtmold. Sua Coração, faixa que abre É o que temos [2013], integrou a trilha sonora da novela global Velho Chico. Foi em seu segundo disco, aliás, que a parceria com Tatá Aeroplano começou: deles, ela gravou Eu não tenho medo da chuva e não fico só.

Produzido por eles com Dustan Gallas, Junior Boca e Bruno Buarque (os cinco assinam os arranjos coletivos), Vida ventureira é um disco que simula um road movie, sobre um casal que cai na estrada. “A vida ventureira é a vida ao Deus dará/ é vida pé na estrada/ mania de jogar/ as coisas lá pro alto e se mandar”, avisa a letra da faixa-título. “Jogados nesta saga/ viemos descobrir/ novos horizontes/ pra se sorrir”, continua.

Os versos iniciais de As asas são escadas pra voar – “se eu te contar o que eu sinto/ você vai me dizer que também já sentiu desse jeito” – dialogam diretamente com os de Petróleo do futuro – “Ah, se eu soubesse lhe dizer/ o que eu sonhei ontem à noite, você ia querer/ me dizer tudo sobre o seu sonho também” –, do primeiro disco da Legião Urbana [1985].

Em Pro mundo virar shopping uma crítica feroz, mas bem humorada, à sociedade de consumo, máquina azeitada por preconceitos, antenada com o noticiário, citando o Nobel de Literatura Hermann Hesse e o lendário Flávio Basso, por sua alcunha mais conhecida, Júpiter Maçã.

Tatá e Bárbara vivem em São Paulo. Vida ventureira é uma espécie de escape: um disco que exala tranquilidade e doçura em contraponto à violência e ao corre-corre da metrópole. “O verde das matas nos dá/ calma, coragem, sentido pra continuar”, entrega O verde das matas.

Tanto ele quanto ela se preparam para lançar discos novos este ano. Enquanto isso, estão na Europa, onde iniciaram ontem (22), a Portugal e Galícia Tour, com shows em cidades como Coimbra e Lisboa, entre outras, serviço completo no e-flyer abaixo. Avisem os amigos d’além mar!

Arte: Julia Valiengo. Divulgação

Ponte Brasil Portugal

Carminho canta Tom Jobim. Capa. Reprodução

Há vários pontos de interseção entre Carminho canta Tom Jobim [Biscoito Fino, 2016] e Até pensei que fosse minha [MP,B, 2016], discos mais recentes lançados pelos portugueses Carminho e António Zambujo, respectivamente. Ambos, de algum modo, são artistas de exceção: embora entre um círculo restrito, são conhecidos no Brasil, que em termos de música e artistas portugueses, com raras exceções, quase sempre para no Roberto Leal que serve de trilha sonora para danças portuguesas no período junino.

São dois dos maiores compositores brasileiros em todos os tempos relidos por uma das maiores intérpretes da terra de Fernando Pessoa e por um cantor e compositor idem bastante interessante. Ambos já haviam mostrado seus talentos em participações em discos de artistas do lado de cá do Atlântico.

Tanto no disco dela quanto no disco dele há participações especiais de brasileiros: Chico Buarque comparece a ambos (como intérprete e compositor), enquanto ela, além dele (em Falando de amor), recebe Marisa Monte (em Estrada do sol) e Maria Bethânia (em Modinha); já Zambujo tem, além do compositor tributado (em Joana francesa), Roberta Sá (em Sem fantasia) e a conterrânea Carminho (em O meu amor).

Até pensei que fosse minha. Capa. Reprodução

Em Carminho canta Tom Jobim, ela é acompanhada pela brasileiríssima Banda Nova: Paulo Jobim (violão), Daniel Jobim (piano), Jacques Morelembaum (violoncelo) e Paulo Braga (bateria). Em Até pensei que fosse minha – título tirado de um verso de Até pensei –, Zambujo é acompanhado por um time que mescla portugueses e brasileiros. Entre os virtuoses de cá estão Ronaldo do Bandolim, Zé Paulo Becker (violão) e Marcelo Gonçalves (violão sete cordas, divide com Ricardo Cruz a produção e assina a direção musical e arranjos), mais conhecidos como Trio Madeira Brasil, além de Marcelo Caldi (acordeom) e Paulino Dias (percussão).

Os tributos fogem do óbvio, vão além do superficial. As seleções de repertório, por exemplo, ultrapassam o mero “o melhor de”, e as releituras não desconstroem músicas já cristalizadas no imaginário do brasileiro. Em Carminho canta Tom Jobim, entre outras, Inútil paisagem, Triste, Sabiá, Luiza e A felicidade; em Até pensei que fosse minha, Futuros amantes, Injuriado, Cecília, Cálice, Januária, João e Maria, Tanto mar e Valsinha.

Com estes dois discos, Portugal redescobre um pequeno e importante pedaço de Brasil. Espero que o Brasil (re)descubra Portugal, para além deste comprovadamente talentoso par de artistas. E além: que o Brasil, cada vez mais, (re)descubra o Brasil.

*

Veja o videoclipe de João e Maria (Chico Buarque/ Sivuca), com António Zambujo:

Veja o making of de Carminho canta Tom Jobim:

Herança portuguesa

O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação

 

“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.

Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.

Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez.
Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.

Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria?
A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.

Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é?
A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.

No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório?
Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.

Arte: Diego Dourado/ Divulgação

Nome comum, artista raro

Divulgação
Divulgação

 

Não houve lista de melhores discos lançados ano passado a que Silva não comparecesse com seu Vista pro mar (2014). Com este show o músico aporta hoje (2) pela primeira vez em São Luís: a apresentação acontece às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro), sob a chancela da Musikália Produções, do radialista Gilberto Mineiro. Os ingressos, à venda no local, custam R$ 30,00.

Coalhado de timbres e texturas sonoras particulares, o som de Silva evoca os anos 1980: é como se ele traduzisse a musicalidade daquela década com a tecnologia disponível hoje. Mas engana-se quem pensa em passadismo ou saudosismo pura e simplesmente. O cantor e compositor capixaba ataca de sintetizadores e toca outros instrumentos (é graduado em violino por uma faculdade capixaba) – no disco e no palco – em repertório completamente autoral – as 11 faixas de Vista pro mar são assinadas por Silva (Lúcio Silva de Souza) com o irmão Lucas Silva. Fernanda Takai participa de Okinawa.

Algumas letras falam em mar, tema evocado na capa de seu segundo álbum de carreira – sucessor de Claridão (2012) –, em que seu rosto aparece “desfigurado” por uma “onda”. “Eu não nasci do mar/ Mas sou daqui/ Já mergulhei pra não sair/ Quem é de preamar/ Se encontra aqui/ Não há mais maré-baixa/ Em mim/ Eu sou de remar/ Sou de insistir/ Mesmo que sozinho/ Só vai se afogar/ Quem não reagir/ Mesmo que sozinho”, diz a letra da faixa-título. Será que o poluído mar da Ilha lhe inspiraria?

Parte do disco foi gravada além-mar, em Lisboa, Portugal, por onde o músico passou em turnê e acabou na trilha sonora de uma novela portuguesa – Imergir, de um EP inaugural, lançado em 2011, embalou o enredo da global Além do horizonte.

No show de logo mais, o repertório passeia por músicas dos dois discos mais o EP. O show de abertura fica por conta do pré-lançamento de Alice ainda, de Nathália Ferro.

Vejam o clipe de Volta, gravado em Angola.

Temporada Paulo Leminski 4

Mudei o nome de Semana para Temporada, por razões óbvias.

Hoje, um artigo de Leminski, de seu Ensaios e anseios crípticos, recentemente relançado pela Unicamp, numa edição bonita. Infelizmente o livro não identifica quando o texto foi escrito, certamente após a ditadura militar brasileira. Notem, meus caros, que ainda não havia facebook, ou antes orkut, e seus “miguxês”. É outra coisa…

A VOLTA DO REPRIMIDO

Este é mesmo o país de Ruy Barbosa.

É inacreditável a estupidez que vem cercando a discussão atual sobre os perigos que corre a língua portuguesa no Brasil e seus possíveis corretivos pedagógico-educacionais.

Em primeiro lugar, mal consigo acreditar em meus olhos quando vejo professores universitários, supostamente formados em linguística, atacando o português “errado” falado (ou escrito) pelos jovens, defendendo um português “certo”, como se existisse um português errado ou certo. Certo e errado, queridos, não é critério linguístico. E moral ou jurídico. Só uma lei determina o que é certo. Como disse para sempre o apóstolo Paulo, “a lei criou o pecado”. São as regras das gramáticas que criam o erro, não os usuários da língua.

Quem estabelece o certo e o errado é toda a comunidade de falantes, não meia dúzia de faraós encastelados em seus filológicos sarcófagos universitários ou acadêmicos.

Não foi aqui no Brasil que se bagunçou a colocação dos pronomes de Portugal? Nós brasileiros, começamos frase com variação pronominal, e achamos mais gostoso assim (“me dá um dinheiro aí”, “te digo uma coisa”, “lhe dou uma lição”), coisa que discrepa do uso lusitano. E daí? Boa parte do esforço do modernismo (mários e oswaldes) foi no sentido de obtermos dignidade de escrever como falamos, nós, do lado de cá do Atlântico.

Leio, agora, que em Portugal o problema também é grave. Às avessas. A invasão da simpática republiqueta ibérica pelas novelas da Globo está levando o pânico às hostes dos conservadores do idioma de Camões. Leio até propostas de alguns, dignos descendentes de Salazar, recomendando a criação de comissões estatais de censura para fiscalizar a colocação de pronomes na TV portuguesa, invadida pela barbárie ipanemense da Globo. É de morrer de rir.

A “contribuição milionária de todos os erros”, de que falava Oswald, erros negros, erros índios, erros mestiços, erros mulatos, hoje, está por cima. É como dizem, geralmente, os baianos, esses primeiros brasileiros, “Deus é mais”.

E se os jovens, hoje, não sabem “se expressar” (como os velhos querem, evidentemente), isso se deve a vinte anos de uma estúpida ditadura, a um ensino aviltado e degradado, a um mercantilismo generalizado, que nada tem a ver com “domínio do português”, “conhecimento da língua” e outras bobagens, que servem, apenas, para justificar o emprego de milhares de pedagogos reacionários e repressivos.

As múmias nem percebem que os tempos mudaram. Mais que a língua, fala, hoje, a linguagem, o idioma integral do corpo, da roupa, da atitude.

Jà estamos num videoclipe. E as múmias continuam se comportando, e legislando, como se estivéssemos em plena sessão da Academia Brasileira de Letras, onde para um Antônio Houaiss tem oito Ramsés III.

É óbvio, para quem quer que não tenha o QI do português das nossas anedotas, que historicamente, o futuro da língua, um dia, lusitana, está aqui neste Brasil de 130 milhões de falantes, e não no Portugal de parcos 10 milhões, um país sem nenhuma expressão internacional, destituído de qualquer importância científica, industrial ou tecnológica, um mero eco de uma história que já houve.

Através da fala brasileira, veiculada pelas novelas da Globo, executa-se uma justiça histórica, que já tardava séculos, esses séculos em que nós estávamos errados, porque Portugal estava sempre certo.

Graças a Portugal que nos colonizou e explorou durante quatro séculos, falamos nós, a sexta potência econômica do planeta, uma língua que, em nível mundial, é apenas um “patois” do espanhol, um dialeto obscuro que ninguém, no mundo, lê nem entende. É a última sacanagem de Portugal. Estamos enclausurados numa língua insignificante. Se um dia ela tiver que ser alguma coisa, nós, brasileiros, é que temos que fazê-lo.

Só preconceitos arqueológicos-necrófilos ainda nos fazem chamar essa língua de “portuguesa”.

Está na hora de Portugal começar a falar brasileiro.

E assim será, queiram os professores ou não queiram.

(Paulo Leminski, Ensaios e anseios cripticos, p. 167-169. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011)