Troque uma onça e um mico leão por um ingresso

Eduardo Dussek. Foto Academia de Ideias. Divulgação

 

Mês passado a roteirista potiguar Milena Azevedo esteve em São Luís, ministrando uma oficina de roteiros para histórias em quadrinhos. O grande trunfo das 20 horas em que passamos juntos, no Condomínio Fecomércio, foi ela ter ido além dos quadrinhos, se valendo de exemplo de outras expressões artísticas para transmitir o conteúdo a que se propôs.

Logo no primeiro encontro ela botou a turma para ouvir Brega-Chique (O vento levou Black), parceria de Dussek com Luiz Carlos Góes. Se hoje a letra do hit-título de seu disco de 1984, popularmente conhecido como Doméstica, poderia facilmente ser rotulada de “politicamente incorreta”, serviu bem à professora para ilustrar os exemplo de reviravoltas e clímax necessários para o assunto naquele momento.

Eduardo Dussek se apresenta hoje em São Luís, na sétima edição do projeto Ponta do Bonfim: amizade, música e por do sol. Um grupo de amigos se reúne, desde 2011, para trazer artistas que eles mesmos gostariam de ver no palco, mas que por uma série de razões, nunca (ou quase nunca) sobem aos palcos da ilha. Vendem ingressos limitados e fazem a história acontecer em uma casa no bairro que dá nome ao projeto, onde o fundo de palco é São Luís vista de outro ângulo. A quem nunca foi, é realmente uma maravilha.

Por lá, em anos anteriores, já vi shows de Bruno Batista, Ceumar, Danilo CaymmiRenato Braz e, entre outros, Cida Moreira, cantora e pianista que, destaco aqui pelo que tem em comum com o destaque de hoje: ambos, além de cantar, atuam também no teatro. São atores. O que torna a música que fazem sui generis, com toda essa expressividade traduzida nas interpretações – no que voltamos à Brega-Chique com que abro este texto. A propósito: dele, ela gravou Singapura, em Abolerado blues, seu disco de 1983.

Dussek também é bastante lembrado por Nostradamus, com que participou de festival da TV Globo em 1980, e o Rock da Cachorra, composição de Léo Jaime com que acabou flertando com a cena do chamado rock brazuca, na mesma década.

O artista, outro arquiteto da música (nem tão) popular brasileira – estudou arquitetura, além de música e teatro –, é único em sua mescla de bom humor e erudição, termos que bem poderia usar entre os parênteses onde convencionalmente se lê “letra e música”.

Sua apresentação hoje na Ponta do Bonfim será antecedida pelo dj Jorge Choairy, que, a julgar pela relação que sempre promove entre seu set list e o show ao vivo no palco, deve caprichar no escracho – não nego a curiosidade. Na sequência é a vez do show Caros Amigos, que marca o encontro de Marconi Rezende, Tutuca, Gabriela Flor e Chico Neis, que passeiam por um repertório de clássicos da MPB e da música popular produzida no Maranhão, incluindo temas autorais.

A programação da Ponta do Bonfim começa às 15h30 e os últimos ingressos disponíveis (R$ 70,00) podem ser adquiridos pelos telefones (98) 3235-5844, 99166-8736, 99117-0970.

Ceumar e o Maranhão

A cantora Ceumar durante sua apresentação ontem (4) na Ponta do Bonfim. Foto: Fafá Lago

 

A programação atrasou bastante e o por do sol que dá nome ao projeto acabou se transformando em luau. O público não arredou pé e acompanhou com atenção as três atrações que precederam Ceumar.

Eu nunca tinha visto/ouvido Vanessa Serra discotecar: em território predominantemente masculino ela desponta já como um nome importante, com repertório sensível ao ambiente (isto é, o que ela toca dialoga com o universo ao redor do evento), que demonstra profundo conhecimento de música brasileira – resultado de seus anos de jornalismo cultural e colecionadora de vinis, entre os quais esbanjou Papete, Zé Keti, Paulo Diniz, Raimundo Sodré, Roberto Carlos, Nara Leão, Betto Pereira…

Mano Borges (voz e violão), acompanhado de Darklilson (percussão), fez um show no estilo “som do barzinho”, passeando por um repertório de clássicos da MPB, entre Chico Buarque (A Rita), Peninha (Sonhos), Cesar Teixeira (Oração latina, num andamento muito festivo, destituindo o “hino” de sua solenidade), Zeca Baleiro (Mamãe Oxum, tema de domínio público adaptado pelo maranhense, cuja letra errou) e Caetano Veloso (A luz de Tieta). O projeto Ponta do Bonfim tem um público cativo: ele poderia ter apostado em uma coletânea de sua própria obra, embora não tenham faltado Bangladesh (Marco Cruz), que intitula seu melhor disco, Ça va (Mano Borges), Amagni (Koko Dembele, versão de Mano Borges) e, a pedido, Os nós (Mano Borges).

Fernando de Carvalho, acompanhado por Darklilson (que havia ido para acompanhá-lo e acabou tocando com Mano Borges de improviso) e Luiz Jr. (violão sete cordas), fez um apanhado de seus quase 20 anos de carreira, entre músicas de seus discos e constantes no repertório de shows temáticos que faz, como Saudosa maloca (Adoniran Barbosa), Lenda das sereias, rainha do mar (Vicente Mattos/ Dinoel/ Arlindo Velloso), Fiz a cama na varanda (Dilu Mello), O que vier eu traço (Alvaiade/ Zé Maria) – samba de que ele cantou apenas a primeira parte – e, entre outras, Cry me a river (Arthur Hamilton) – que gravou em disco com a participação de Alcione. Abriu o show com Canto de luz (Zé Pereira Godão), com a participação especial de Regina Oliveira (Grupo Lamparina), tocando caixa do divino.

Atração mais aguardada da sétima edição do projeto Ponta do Bonfim – Música, amizade e por do sol, Ceumar subiu ao palco às 21h20, divertindo-se com o vento e agradecendo a oportunidade de estar mais uma vez no Maranhão. “Sempre fui muito bem recebida aqui, desde a primeira vez que vim, em 2001, quando cantei no Canto do Tonico. O Maranhão me deu muita coisa, quando eu comecei a carreira, muita gente perguntava se eu era daqui”, apresentou-se para emendar Oração do anjo (Ceumar/ Mathilda Kóvak) e O seu olhar (Arnaldo Antunes/ Paulo Tatit). Depois lembrou Reinvento, parceria com Estrela Ruiz Leminski, “filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz”. Na sequência, foi de Encantos de sereia (Osvaldo Borgez), do repertório de Silencia (2014), seu disco mais recente.

Depois de Cantiga (Zeca Baleiro), Ceumar lembrou-se de seu encontro com Josias Sobrinho, em meados da década de 1990, na casa de Zeca Baleiro, em São Paulo. “Eu pensei que era meu irmão do Maranhão, a gente tinha os mesmos cabelos, os mesmos olhos”, contou, rindo. “E eu gostei muito de um boizinho que ele fez para a filha dele, Luiza, e eu gravei no meu primeiro disco, como uma canção”, contou, anunciando As ‘perigosa’. Voltou a Zeca Baleiro em Boi de haxixe, seguida de Avesso (Ceumar/ Alice Ruiz).

“Quase todas as vezes em que venho a São Luís eu tenho a honra de poder contar com o auxílio luxuoso de um amigo que levou muito Maranhão pra meu primeiro disco, sonoridades incríveis, até hoje eu encontro músicos que me perguntam que som é aquele, referindo-se ao pandeirão com vassourinha, que Luiz Cláudio inventou”, contou, chamando ao palco o paraense radicado no Maranhão.

Revezando-se entre o pandeiro e o pandeirão, Luiz Cláudio acompanhou-a em Maldito costume (Sinhô), em que se reveza categoricamente entre as platinelas e o couro do pandeiro, Dindinha (Zeca Baleiro), Galope rasante (Zé Ramalho), em que ele imprime o andamento percussivo de uma tribo de índio maranhense. Em Gírias do Norte (Jacinto Silva/ Onildo Almeida) Ceumar trocou o violão pelo pandeiro e Luiz Claudio percutiu o pandeirão com baquetas, evocando uma zabumba. No mesmo esquema, Xodó de motorista (Dilson Dória/ Elino Julião), música que não está em nenhum de seus discos. De volta ao violão e ainda com Luiz Cláudio no palco voltou a Josias Sobrinho, em Rosa Maria, quando um grupo de mulheres da plateia espontaneamente fez um trenzinho circular o salão evocando o cacuriá e levando Ceumar a emendá-la a Maçariquinho (Pedro Caetano/ Clemente Muniz).

Novamente sozinha, demonstrou em Rãzinha blues (Lony Rosa) todo o poder de sua voz, espécie de autenticação do encanto de todos os ali presentes. Após as síncopes de seu violão em Achou! (Dante Ozzetti/ Luiz Tatit), uma demonstração de humildade de Ceumar. “Há alguns anos, quando eu estive aqui, eu tive a oportunidade de conhecer uma cantora e, de longe, acompanho sua trajetória, com atenção”, revelou, antes de chamar ao palco Tássia Campos, de surpresa, sem ensaio. Juntas cantaram (Péri).

Ceumar cumpriu à risca o que anunciou ao subir ao palco: não havia roteiro, era seguir o coração. Todos os corações presentes estavam devidamente tocados enquanto ela procurava mais repertório. Mandou ainda Pecadinhos (Zeca Baleiro) e depois trocou o violão por um par de conchas, que percutiu ao longo de Onde qué (Sérgio Pererê), usando os saltos dos sapatos no tablado também como instrumentos. A plateia cantava em peso e ela desceu e circulou em meio a ela, esbanjando simpatia.

O povo queria mais e ela não se fez de rogada: voltou ao palco para encerrar com outra música que não figura em seus discos. Luiz Cláudio também voltou a acompanhá-la, fazendo o bis antes dos tradicionais pedidos de “mais um”. Já passava pouco das 23h quando encerraram o espetáculo com Engenho de flores (Josias Sobrinho).

A plateia estava em êxtase. Superadas todas as expectativas, quem há de dizer que Ceumar não é (também) daqui?

Ceumar faz show na Ponta do Bonfim

Projeto terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges. A cantora mineira conversou com exclusividade com o blogue

Foto: divulgação

“É sempre uma alegria voltar pro Maranhão”, revela Ceumar em conversa exclusiva com Homem de vícios antigos. A cantora mineira se apresenta novamente em São Luís neste sábado (4), no projeto Ponta do Bonfim – Amizade, Música e Por do Sol, iniciativa de um grupo de amigos que se reúne e viabiliza a vinda de artistas que lhes interessam, em clima de confraria, que já chega a sua sexta edição. O evento acontece em uma casa na localidade que dá nome ao evento, os ingressos são limitados e o fundo de palco são o mar e a cidade de São Luís vista do outro lado. Pelo palco do projeto já passaram nomes como Cida Moreira, Danilo Caymmi, Paulinho Pedra Azul e Renato Braz, entre muitos outros.

“Lembro muito bem da primeira vez que eu fui [ao Maranhão]. Fui muito bem recebida, um carinho tão grande de todo mundo, com certeza por causa de Zeca [Baleiro, cantor e compositor que produziu Dindinha, álbum de estreia dela, de 2000], de Josias [Sobrinho, compositor de quem gravou As ‘perigosa’ e Rosa Maria em Dindinha], de Rita [Benneditto, cantora], que foi minha parceira de apartamento em São Paulo. Eu tinha uma curiosidade muito grande em conhecer a energia aí do Maranhão. E vocês todos, Gilberto [Mineiro, radialista, já produziu shows de Ceumar em São Luís], você, sempre gente muito querida, com paixão mesmo, fazendo tudo com paixão. A experiência o ano passado foi incrível, no festival de jazz [Ceumar se apresentou no 3º. São José de Ribamar Jazz e Blues Festival], achei muito massa participar com meu sobrinho [o contrabaixista Daniel Coelho], e este ano eu percebi mesmo o empenho dessas pessoas para que eu pudesse ir participar desse projeto”, relembra Ceumar.

Pergunto-lhe se iniciativas como a deste grupo de amigos podem ser uma alternativa, num momento de sucessivos golpes à cultura brasileira. “Acredito que é um caminho muito possível e necessário nesse momento em que os projetos estão cada vez mais escassos, que as pessoas que gostam de música, são apaixonadas e que possam contribuir, como mecenato, acho muito válido, é uma saída bastante importante para nós nesse momento”.

Em uma tarde que terá ainda apresentações da DJ Vanessa Serra – que começa a tocar seus vinis às 14h30 – e dos cantores Fernando de Carvalho e Mano Borges, Ceumar subirá ao palco da Ponta do Bonfim com seu violão, para um show intimista. Ela adianta: “Já vou soprar que vou ter um convidado especial, meu amigo Luiz Cláudio [percussionista] se prontificou a ir lá tocar algumas coisas comigo. Ele é muito importante pra minha história, trouxe muitas sonoridades incríveis pro Dindinha, o primeiro disco, Luiz Claudio chegou cheio de Maranhão na linguagem e foi muito rico, assim. Luiz vai dar uma canja. Eu quero mostrar um repertório variado, não vou fazer o show do cd novo, o Silencia [de 2014], vou passear um pouquinho pelos outros álbuns”.

Insisto no momento conturbado que o país atravessa. Ela responde com a elegância habitual. “Eu voltei da Holanda já faz quase dois anos, muito por que eu me sinto mais útil aqui no meu país, principalmente agora, num momento tão caótico. O que minha música traz, o que eu tento trazer através dela é o lugar da emoção, do contato direto com as emoções mais profundas de cada ser. Não sei se eu consigo fazer da melhor maneira, mas é o meu intuito, que as pessoas despertem para o que elas têm de melhor e através desse bem maior, assim, a gente possa, cada um possa fazer o seu papel. Acho que é essa a minha função dentro da minha música, dentro do meu país, trazer um pouco de humanidade e de alento também, para que a gente tenha força para lutar quando for necessário, se juntar e lutar pelo que a gente merece, como povo, como país, com essa riqueza toda. Eu sei que não é fácil, sou apenas uma mera cantadeira, mas acredito que o afeto ele segura muita coisa e não quero que pareça pretensioso, mas o povo brasileiro é muito afetivo, a gente não pode perder essa força que a gente tem no abraço, no sorriso, para que a gente tenha um futuro mais organizado pros nossos filhos, pras nossas famílias e essas crianças que vão vir por aí”.

Pergunta sempre inevitável: e o disco novo? “Ano que vem tem disco novo, já estou começando os trabalhos, escolha de repertório, composições novas, uma nova sonoridade também que eu estou buscando, o processo natural. Eu sou uma mineira bem [risos] caipira, faço tudo no meu tempo e assim vou indo. Mas tem um projeto para 2018 e vamos lá!”.

*

Ouça Ceumar em Rosa Maria (Josias Sobrinho), com a participação especial de Itamar Assumpção fazendo a “voz de preto velho” na introdução:

A arte do encontro, do canto e do encanto

O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
O cantor Renato Braz volta à Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

 

O cabelo de Renato Braz esvoaçava ao vento e ele, ao anunciar a saideira, “uma ária de Bizet”, afirmou: “com esse vento, vai ser uma maravilha”, para risos da plateia, antes de cantá-la à capela.

Ao fundo, o mar e a Ilha do lado de cá, belo cartão postal emoldurando seu canto, que num texto noutra ocasião, já chamei de “sagrada vocação”.

Antes, Renato Braz dedicou Cálice (Chico Buarque/ Gilberto Gil) a Cida Moreira, atriz, cantora e pianista, sua conterrânea, que se apresentaria na sequência, cujo Cida Moreira canta Chico Buarque (Kuarup, 1993) é inteiramente dedicado à obra do compositor. O cantor comentou a atual situação do país – “como pode essa música ser tão atual”, disse – e de incidental no Cálice serviu o Fado tropical (Chico Buarque/ Ruy Guerra): “ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um império colonial”.

Um dos melhores cantores do Brasil em atividade, cantou ainda O ciúme (Caetano Veloso), O amor (Caetano Veloso sobre poema de Vladimir Maiakovski), antecedido de um aviso: “eu não sou a Gal Costa”, para risos da plateia. Seu repertório passeou ainda por Oriente (Gilberto Gil), O dia em que o morro descer e não for carnaval (Paulo César Pinheiro/ Wilson das Neves), Anabela (Paulo César Pinheiro/ Mário Gil), entre outras.

Fato destacado pela produção e cerimonial, o projeto Ponta do Bonfim [ontem (17), das 14 às 21h30, aproximadamente, na Ponta do Bonfim, em São Luís] é a soma de boa música, bela paisagem e amizade. Acontece sem periodicidade específica, a partir da reunião de amigos que decidem trazer à São Luís artistas que admiram – era a segunda vez que Renato Braz subia a seu palco. O barulho intenso de boa parte do público prejudicou sua apresentação, emocionante, apesar disso.

Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves
Sete anos após apresentar show dedicado a Cartola em São Luís, Cida Moreira estreia no palco da Ponta do Bonfim. Foto: Márcio Neves

Cida Moreira subiu ao palco na sequência. Precisou de ajuda: estava com três dedos do pé quebrados, história que contou rindo de si mesma, bem humorada. “Já é noite, tem mais a minha cara”, saudou a bela lua. O vento intenso descabelou-a também e alguém lhe emprestou algo para amarrar os cabelos. “O modelito foi embora”, tornou a rir e a fazer a plateia rir.

“Tássia” [Campos] – que havia aberto a sequência de apresentações, acompanhada por Rui Mário – “cantou uma música que eu ia cantar, Renato Braz cantou outra”, comentou Cida. Alguém da plateia retrucou: “canta de novo!”. “Não tem cabimento repetir. Tem muita música para cantar”, respondeu.

“Eu vou dedicar a essa menina linda que cantou antes de mim. Ela cantou muito bem Speak Low, do Ira Gershwin com o Kurt Weill; eu vou cantar uma dos irmãos George e Ira Gershwin”, anunciou, antes de cantar The man I love, dedicando-a a Tássia.

Esquivou-se elegantemente de pedidos: “há músicas que eu vou abandonando, deixando de tocar, o Soneto (Chico Buarque) faz tempo que eu não canto”. Alguém gritou “Geni e o zepelim!” e ela respondeu: “pra Geni eu já dei um plano de previdência privada”; a plateia caiu na gargalhada.

Depois contou uma história: “eu passei 25 anos ouvindo essa música e eu sempre chorava. Só depois eu consegui cantá-la. É uma música muito dura, muito forte, como tudo o que Chico Buarque faz. É uma canção de ninar, e eu vou oferecer ao Renato, que está com filho pequeno, vou oferecer para todos os que têm filhos”, e eu me senti contemplado, lembrando de José Antonio, que ficou em casa e era o nobre motivo de eu não ter como ver todos os shows deste pequeno festival de boa música – perdi também a apresentação do sambista paraense João Lopes, que encerraria a noite lembrando repertório exclusivamente formado por sambas imortalizados pelo saudoso xará, Nogueira. E Cida Moreira mandou a emocionante Uma canção desnaturada.

Ao cantar o tango Sou assim (Toquinho/ Gianfrancesco Guarnieri), tirou onda: “essa letra o Guarnieri fez para uma peça, o Toquinho musicou. Os maldosos gostam de dizer que essa é uma do Toquinho dos bons tempos”.

Em determinada altura do show atrapalhou-se com algum botão do teclado. “Teclados têm vida própria”, disse, e ao apertar uma tecla, o instrumento insinuava começar a típica batida programada das serestas. “O dono do instrumento, me socorra, por favor!”. O prestativo Rui Mário subiu ao palco e desativou a função.

“Essa é de um compositor brasileiro muito importante. Muito, muito, muito importante”, repetiu para frisar. “Ele deu uma sumida, ninguém sabe por onde anda. Belchior!”, continuou, trazendo Na hora do almoço.

Antes de cantar Forasteiro (Thiago Petit/ Hélio Flanders), recomendou: “quando vocês ouvirem uma música numa novela não pensem que a música foi feita para a novela. Às vezes eles solicitam alterações. Essa aqui, por exemplo, já existe há uns sete anos, aí a Globo pediu para incluir um trecho em francês. É do Thiago Petit e do Hélio Flanders [vocalista do Vanguart], de uma nova geração que está surgindo, uma geração talentosa, diferente do que essa mídia ordinária tenta nos vender como país. Eu cantei com o Thiago há três dias, são artistas maravilhosos. Eu busco sempre dialogar com os mais novos, tenho gravado”.

A música, que está na trilha sonora de Velho Chico, interpretada por Pethit e Tiê, foi gravada pela cantora em Soledade (2015). Lembrar a novela foi o mote também para ela homenagear o amigo Domingos Montagner, que interpretava o personagem Santo dos Anjos no folhetim, que morreu afogado num trágico incidente quinta-feira passada (15).

Cida teve melhor sorte com a galera do “selfie-se quem puder”. Ao anunciar a última, começou a ouvir gritos de “mais uma!”. “Mais uma é essa. Eu precisei de ajuda para subir no palco, vou precisar de ajuda para descer. Não dá para sair e voltar”. Despediu-se com Summertime (Doroty Heyward/ DuBose Heyward/ George Gershwin/ Ira Gershwin), faixa que batiza seu disco de 1981, o primeiro da carreira.

Que me perdoem o clichê do título deste texto, mas quem estava lá para ver e ouvir os artistas sabe do que estou falando.