Num país sem memória a ficção refaz a história

Legalidade, de Zeca Brito e Léo Garcia, terá estreia nacional hoje (20), às 19h, no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande) na programação (gratuita) do Festival Guarnicê de Cinema. A estreia mundial aconteceu em abril, no Festival Latino de Chicago, nos Estados Unidos.

O filme costura, a partir de um triângulo amoroso fictício, uma narrativa que remonta ao episódio histórico com que Leonel Brizola, no fim das contas, conseguiu adiar em cerca de três anos o golpe militar de 1964, que acabou por jogar o Brasil numa ditadura militar por 21 anos.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com os diretores e com Sapiran Brito, pai de Zeca, um dos atores que interpreta Brizola, personagem central na trama.

Léo Garcia, Sapiran Brito e Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Como é que foi a receptividade do filme no festival de Chicago?
Zeca Brito – Surpreendente. Incrível como um filme que conta uma história brasileira pode ser universal e pode encontrar reverberações em outras culturas, outras visões de mundo. Chicago é uma cidade muito cosmopolita, então o público que assistiu o filme era de americanos e estrangeiros, pessoas que foram morar nos Estados Unidos, mas que vêm de outras histórias geopolíticas, por exemplo, do Oriente Médio, ou da própria América Latina, a gente pode conversar com uruguaios, com argentinos que residem em Chicago e por conta de ser um festival latino foram assistir o filme, e todos dizem a mesma coisa: algo muito parecido aconteceu em meu país. Que é o reflexo de como o mundo se movimenta, de como os interesses [acentua os dois primeiros “e”, imitando o sotaque de Brizola], de que o Leonel Brizola falava são reais, e é um pouco o que o filme tenta estabelecer. O filme se passa em 1961 e é sobre esse ambiente de guerra fria, onde Estados Unidos e União Soviética e distintas vontades políticas dominavam o mundo e muito daquilo que a gente vivia como história, como processo histórico era influenciado por esses interesses externos. Em Chicago foi muito interessante como isso passou pela percepção do público, essa identificação de como a história se repete, de como a história é parecida. Por outro lado, foi uma questão também que me surpreendeu, eu tava contando pro Léo esses dias, a gente vem, a gente fala muito no filme sobre o aspecto histórico, os personagens históricos. Mas o público mais desinformado da história do Brasil, que é grande parte do público norte-americano, não sabe nada do que aconteceu aqui, primeiro por que nossa cinematografia não chega lá, segundo por que não há muito interesse dos Estados Unidos de olhar para outras culturas, por que já trabalha a sua também como um produto, foi a questão do romance. É um filme que tem um romance que costura a narrativa histórica e esse romance tocou no coração do público e isso também me surpreendeu.

O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa
O diretor Zeca Brito. Foto: Juliana Costa

Por que a opção de estrear aqui?
ZB – Interessante. Acho que o Festival Guarnicê é um festival com uma história muito bonita, diferente de outros festivais, sem querer fazer uma crítica específica, ele não é um festival monárquico, de um dono, de uma empresa, ele é um festival que se liga muito com a comunidade civil organizada, partindo de uma universidade [o festival é promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Universidade Federal do Maranhão], há 42 anos. Isso no Brasil é muito bonito e importante de ser celebrado nesse momento histórico. A função do cinema tem que ser essa, se aproximar da sociedade civil, cumprir um papel também educativo, falar mensagens importantes, provocar discussões, aproximar nossa memória histórica e também do tempo contemporâneo do que está acontecendo no mundo, mas da nossa realidade cultural, trazer esses debates pra sociedade. Esse festival, nesse sentido, já é muito sério, por estar ligado, a uma instituição do saber. E segundo, a gente vive um momento político, não foi à toa que a gente escolheu Chicago, que é uma cidade ligada à causa operária, aos direitos trabalhistas, e é uma cidade que recentemente elegeu uma mulher, negra, LGBT, prefeita [Lori Lightfoot]. De alguma maneira isso pontua que a gente está num território que tem espaço para as discussões que a gente está propondo no nosso filme e acho que o mesmo se revela no tempo contemporâneo com o Flávio Dino, que é uma referência para um pensamento aberto, de como deve ser a construção da cidadania, do encontro humano, principalmente partindo da luta contra as desigualdades sociais. A gente tem que trabalhar também essa questão de como a sociedade se traduz politicamente. Estar num território com um pensamento tão aberto a questões da história, questões que nosso filme trata, questões da sociologia que nosso filme trata, isso a gente vê publicamente que há uma sinalização de política pública mesmo, que vem a calhar com o que a gente está querendo discutir.
Léo Garcia – A gente começou a escrever essa história em 2007, 2008, mais ou menos, e naquela época era impensável falar em ditadura militar. Tu encontrava dois ou três malucos, mas era algo “ah, já passou”, e aí quando a gente está lançando o filme pairam no ar nuvens cinzentas e o filme ganha outra importância, tem, digamos, outra virtude, que é lembrar um passado recente, que as pessoas já esqueceram, o que foi a ditadura militar. Apesar de o filme se passar antes da ditadura, o Brizola já estava combatendo um princípio de golpe, ali em 1961. Ele consegue, mas depois em 1964, infelizmente…

O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa
O diretor Léo Garcia. Foto: Juliana Costa

Dá até pra dizer que o golpe foi adiado por essa ação.
LG – Foi, com certeza!
Sapiran Brito – O golpe era contra ele. Ele tava na rua, tava na boca do povo, “cunhado não é parente, Brizola presidente!”, não tinha outro. Era o grande nome entre os progressistas, não tinha outro. Estava praticamente eleito pelo povo. Pelas ações, pelas atitudes, pelo momento. A CIA [Agência Central de Inteligência do governo americano, na sigla em inglês] tentou, não conseguiu a primeira vez, mas na segunda… por detrás de tudo sempre está a CIA. Sempre estão os interesses norte-americanos, através da CIA, que me desculpe a expressão, mas costumeiramente compra os nossos deputados. Costumeiramente. Ele conseguiu segurar o golpe, conseguiu evitar o golpe, mas terminou o mandato como governador, foi ser deputado, e não tinha os meios físicos e materiais e o poder que tinha como governador para tentar deter os golpistas de 1964. Por que infelizmente o nosso país é construído de golpe em golpe. Agora tivemos o golpe branco contra a presidenta Dilma e tivemos um complô da mídia e do parlamento contra o presidente Lula, nada mais que outro golpe branco. E de golpe em golpe nós vamos. E Leonel de Moura Brizola significa o anti-golpe, a voz da resistência, a voz do progressismo, a voz daqueles políticos corretos que ainda resistem. Cinco por cento, mas ainda temos, na classe política, uns cinco por cento de homens retos, honestos e verdadeiramente brasileiros, sem nacionalismo, sem xenofobia, questão de amar o Brasil. Quero lembrar só uma coisa: Brizola não era um gaúcho. Darcy Ribeiro escreveu uma bela crônica sobre o Brizola, dizia “Brizola, um filho do povo brasileiro”, por que ele era preocupadíssimo e envolvido com toda a questão. Um grande problema nacional é o problema da dominação do Brasil. O Brasil é dominado. E nós sabemos por quem. Dominado pelo capital, que se organiza basicamente em Wall Street. E o Brizola representa essa voz de rebeldia contra isso. O Brizola, que foi tachado de comunista, não tinha nada de comunista. O Brizola era um progressista, um socialista embrionário. Tanto que a Internacional Socialista o elegeu vice-presidente, ele não sendo presidente do país. E esse cargo, em memória dele, ainda está na mão do partido dele, o PDT, hoje representado pelo Carlos Lupe. O PDT tem cadeira na Internacional Socialista, mesmo o Brizola não sendo declaradamente um socialista, mas era um socialista, por que era um progressista e um nacionalista sem xenofobia.

O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa
O ator Sapiran Brito. Foto: Juliana Costa

O que significou para o senhor interpretar o Brizola no filme?
SB – Ah, uma grande emoção. Primeiro que eu vi o negócio nascendo, pelas mãozinhas deles, pelas cabecinhas deles [aponta para Léo e Zeca]. Aí quando eles notaram que eu tinha alguma semelhança com o velho, que eu conhecia muito, por ser amigo dele, de frequentar a casa, falar ao telefone, abraçar e conversar com ele com intimidade em diversas ocasiões, eu ajudei a construir o que o Léo e o Zeca roteirizaram. E que fique claro o seguinte: eu não estou no filme por que sou filho do Zeca [risos] ou amigo do Léo, é que eles viram uma semelhança com o Brizola, que eu não posso negar: é uma espécie de osmose, de tanto eu gostar, eu acabei ficando parecido com o velho e tento pensar e agir como ele, por que eu também sou político. Além de artista, ator, diretor de teatro, eu também sou político. Me honra, sobremaneira, representar, mesmo eles me dando pouco espaço [risos], mas é simbólico honrar a memória do velho. E é uma satisfação saber da oportunidade do lançamento desse filme. Eles não previram, eles não têm bola de cristal, nenhum dos dois é Nostradamus, mas parecia que estavam prevendo: “ah, vamos lançar durante o outro golpe”. E estamos aqui honrando a memória de Leonel Brizola.

É curioso que o filme anterior de vocês é sobre Tarso de Castro [A vida extra-ordinária de Tarso de Castro], que é outro combatente da ditadura e também um brizolista.
ZB – E que estava na Legalidade.
LG – De certa forma influenciou um pouco o roteiro do Legalidade. Ele não só estava na Legalidade, como ele foi, a gente conta no filme, um episódio, uns 20 dias antes da Legalidade, o Brizola conheceu o Che Guevara em Punta del Este, um encontro da OEA [Organização dos Estados Americanos] e o Tarso cobriu isso. Várias coisas acabaram se mesclando, a gente estava rodando o Tarso e acabando de escrever o roteiro.
ZB – Quando a gente terminou de filmar o Tarso e foi filmar o Legalidade, o que acontece é que eu acho que tanto personagens que são personagens do filme do Tarso inspiraram personagens do Legalidade. O Flávio Tavares, o Carlos Bastos, pessoas que estão no filme do Tarso de Castro e que são a síntese do Tom e do Luís Carlos, que são os personagens fictícios que a gente criou. São muitos personagens reais, a gente fez uma pesquisa, até interessante, tu vai assistir o filme e vai ver, a gente colocou nos créditos finais todos os livros que a gente pesquisou para criar essa história de ficção. Ela é toda costurada por episódios reais, mas cabe a cada um de nós ir a fundo para ver a veracidade daquela coisa no sentido de que a costura é poética. É uma obra poética, como se fosse o [poeta grego] Hesíodo estar contando a guerra e não estar falando da guerra como ela é, mas está se baseando em fatos que aconteciam e que aconteceram para poder sintetizar de forma poética a guerra. O que a gente fez no Legalidade foi isso. A gente leu muito sobre tudo o que havia sido produzido em termos de pesquisa científica, da academia, e bibliografia, livros sobre episódios históricos, depois entrevistamos autores, o Juremir Machado, o Flávio Tavares, mas primeiro a gente partiu do livro deles, mas entrevistamos, e entrevistamos familiares, amigos, o Carlos Araújo, que inspira nosso personagem comunista, mas vai acabar sendo trabalhista. O próprio [Luís Carlos] Prestes foi ser presidente de honra do PDT, tem essa costura histórica e a gente coloca esses elementos no filme. Tem o personagem trabalhista, que é o Brizola, tem o personagem comunista, que é o Luís Carlos, como essas ideologias vão se encontrar com o campo oposto, que é alguém que está corrompendo a constituição. Alguns deputados, no campo do poder legislativo, e alguns militares, o chefe da Marinha, o chefe da Aeronáutica, que não queriam permitir o Jango [João Goulart] voltar ao Brasil e assumir a presidência, porém, aí é interessante como a história é complexa, a Legalidade só foi possível com a adesão do Terceiro Exército, que era a maior força militar brasileira: 120 mil homens, que estavam no Rio Grande do Sul. Brizola foi tão persuasivo, conseguiu levar tão profundamente a mensagem, mobilizar a população civil, que aqueles soldados que estavam no Rio Grande do Sul aderem à Legalidade, rebelando-se à ordem inclusive de bombardear o Palácio [Piratini, sede do governo gaúcho], que partiu de Brasília, então acontece esse contragolpe. Aí o Jango vem, aí o que acontece: a coisa estava tão inflamada que era mais conveniente que o Jango viesse pra apaziguar, por que o Brizola ia sim subir e tomar o poder. Aí o Tancredo [Neves] vai até Punta del Este, faz uma negociata básica, histórica, e resolve, para que não haja derramamento de sangue, “vamos estabelecer um pacto de silêncio você volta e assume o parlamentarismo, não fala nada, não faz discurso, fica quietinho, acalma o Brizola, silencia o Brizola, a gente vai silenciar o Exército lá em cima, Aeronáutica, Marinha”… Nisso os navios de guerra já estavam no porto do Rio Grande, toda a frota aérea já estava mobilizada para bombardear o Rio Grande do Sul e acontece esse acordo de paz, que foi um desfecho, pro Brizola foi um pouco frustrante, mas um ano depois, através de um plebiscito, se reconstitui a democracia, que dura dois anos e acaba com o golpe, em 1964.
LG – É legal por que tem todo esse aspecto político, mas nosso roteiro tem camadas. Uma pessoa que, digamos, não tem nenhum conhecimento de história pode assistir o filme e vai acabar desfrutando pelo menos da história de amor, vai entender o enredo, vai saber que existiu esse momento tão importante da história. Eu acho que tem essa virtude o roteiro que a gente trabalhou. Quando essa história começou, em 2007, mais ou menos, eu e Zeca bem jovens, Zeca estava acabando o primeiro longa dele, O guri, eu ainda não tinha nem um longa filmado, e o Zeca veio com essa história: “ah, o meu pai sempre falou que a Legalidade renderia um filme”, eu nem conhecia o Sapiran, nem lembrava da Legalidade, eu tinha estudado no colégio, assim [estala os dedos] talvez numa tarde… aí eu comecei: que Legalidade é essa? Li um livro e falei: “cara, rende um filme, vamos escrever?”. “Vamos!” E começou, naquela época a gente tinha o sonho de lançar em 2011, nos 50 anos da Legalidade. Ledo engano. Cinema no Brasil nada é tão fácil. Um dia eu quero convidar o Zeca pra fazer umas quatro, cinco horas, pra gente mostrar nosso roteiro desde o início. Do primeiro argumento o tanto que mudou, a gente foi enxugando personagens, mudando, tinha um circo, quatro irmãos viraram dois. Um roteiro tinha um diálogo de 15 páginas entre dois palhaços, eu falei: “Zeca, não sei se a gente vai ter tempo pra isso” [risos], queríamos fazer uma coisa mais [o cineasta italiano Federico] Fellini, mas enfim, a gente foi se acertando.
ZB – Esteticamente é um filme bem atemporal. Interessante o fato de a gente ter achado que ele deveria ter sido lançado em 2011 e não conseguimos, só filmamos em 2017 e estamos lançando agora em 2019, mas a construção do roteiro, apesar de se passar em 1961, é um filme que joga com a história, com o fato de ter essa construção poética, personagens fictícios. De algum momento essa história já aconteceu em outros momentos antes, aconteceu depois. A gente diz: é a prévia de 1964, depois 1964 aconteceu mesmo. Mas pode ter acontecido agora, em 2016.
SB – Já tinha acontecido antes, com Getúlio [Vargas].
ZB – E esteticamente ele flerta com o melodrama, tenta buscar essa raiz brasileira, que às vezes o cinema olha com certo preconceito, essa matriz que vem da televisão, da telenovela, como elemento estético, para se trabalhar a história, ela se relaciona muito com a história, no sentido de que a história brasileira é um pouco uma telenovela. A narrativa histórica. Às vezes a realidade é tão engenhosa, que parece surpreender, daqui a pouco cai o avião do desembargador, do primeiro ministro, coisas que não existem no Brasil, mas estão aí toda hora.
LG – Alguém viu um corte do filme e falou: “não, os militares nunca iam fazer isso”, mas está ali, foi assim que aconteceu.
ZB – Exatamente. É por isso que a gente bota todos os elementos históricos sem citar, mas lá no final, para que essas pessoas tenham o trabalho de ler esses livros.
SB – Enfrentamos um grande problema: é um país sem memória. Todos nós enfrentamos, jornalistas, todos nós. Ninguém lembra o que aconteceu há cinco anos. Não vai lembrar o que aconteceu há 50. Não tem a mínima informação. O filme contribui pra isso. Não chega a ser um filme histórico, mas pode chamar a atenção para que a juventude desperte para esse tema e vai encontrar outras histórias de muitos e muitos golpes que esse país sofre.

Essa abordagem de algum modo é curiosa por que a gente vive a era das fake news, que ao fim e ao cabo foram responsáveis pela eleição de Bolsonaro. E vocês viram o jogo ao contar um capítulo da história do Brasil através de uma ficção, o que é uma solução supercriativa.
ZB – É uma coisa que está aí desde que o mundo é mundo, que se chama romance histórico. Quem não leu O tempo e o vento [do gaúcho Érico Veríssimo] ou E o vento levou… [da norte-americana Margaret Mitchell]. Ambos são romances históricos que viraram filmes e que contam uma história. A história do Rio Grande do Sul foi contada em O tempo e o vento, a história da guerra de secessão nos Estados Unidos foi contada em E o vento levou… Estou dando dois exemplos, mas poderiam ser outros.
LG – Ao fazer isso a gente altera alguns detalhes, a gente cria personagens fictícios que fazem coisas importantes, mas isso é normal de qualquer dramaturgia.
ZB – A dramaturgia histórica é assim. É a síntese da história. A gente tem a responsabilidade de esperar 50 anos do episódio, poder ler todos os livros, poder comparar as perspectivas históricas, poder colocar diferentes pontos de vista em cena. Por isso é um romance. A gente tem a visão dos Estados Unidos, a visão da CIA, que parte de uma jornalista do Washington Post, de alguma maneira…
LG – Olha o spoiler… [risos].
ZB – A gente não tem o personagem real por que a CIA não revelou esses documentos, mas hoje a gente sabe que a CIA espionava o Brizola.
SB – Já revelou.
ZB – Já, mas a gente não sabe quem era o espião, a gente tem o relatório.
SB – Daqui a 50 anos vamos saber.
ZB – Daqui a 50 anos vamos saber, talvez. Mas a questão é que depois do Che Guevara o Brizola era o homem mais vigiado na América Latina. Como é que a gente vai construir isso historicamente? A gente tem essa informação, mas tem que ser através de personagens fictícios, a própria questão da Legalidade, como a gente tem muitos personagens reais, você precisa sintetizar cinco personagens reais em um personagem fictício. O que aconteceu é real. Essa que é a questão do Legalidade. Você tem compromissos históricos com personagens históricos. Tudo que o Brizola diz no filme são falas do Brizola durante a vida que estão ali na boca dele. Claro, tem uma ou outra cena de intimidade que a gente consultou a família: “isso aqui ele falaria dessa maneira?”. “Ah, sim”. É uma síntese de um discurso, colocado de uma maneira mais coloquial, mais íntima, como ele falava com a esposa, coisas assim. Mas os personagens históricos, os discursos do Brizola são os discursos que ele fez na época. Então tem essa costura entre personagens históricos com discurso histórico real e uma construção poética que é o lirismo da dramaturgia clássica que está aí desde a Grécia antiga.
SB – Uma coisa a ser ressaltada na ação do Brizola é que foi a primeira vez no mundo que alguém usou a comunicação para organizar um levante. Nos dias que correm é a maior barbada, mas naquele tempo, o grande veículo era o rádio. Tevê não tava ainda em cadeia, não tinha as afiliadas, tevê era uma coisa muito incipiente ainda. Ele foi o cara que despertou pra comunicação, pra fazer um levante através da comunicação, quando ele criou a Rede da Legalidade, que começou lá no porão [do Palácio Piratini], depois foi pra Goiás, Paraná, foi crescendo, crescendo, só não entrou em São Paulo, mas no resto do país se formou a Rede da Legalidade. Então, esse fator, o tino desse cara, de se dar conta do uso da mídia, da comunicação, a seu favor, a favor da sua ideia, do seu projeto, é fundamental, pouca gente observa isso.
ZB – É muito interessante. Ele tinha o dom da oratória. Toda sexta-feira ele falava num programa de rádio, ele se comunicava quatro, cinco horas, as pessoas às vezes dormiam, de tanto que ele falava, dormiam, acordavam e ele tava falando.
SB – Que nem o Fidel [Castro] e o Mao [Tsé Tung].
ZB – Quando ele se dá conta de que tinha um golpe em curso ele escreve um comunicado e manda pra todas as rádios. Aí acontece um fato, que era sintomático do golpe, que o exército imediatamente manda fechar todas as rádios que haviam lido o manifesto, em que ele dizia: “Jango está na China, está sendo impedido, temos que nos mobilizar para que seja respeitada a constituição”. As rádios são fechadas, a única que não é fechada é a Rádio Guaíba, por que era um pouco mais conservadora, de alguma maneira tinha uma outra visão política, não aceitou ler o manifesto, não foi fechada. No dia seguinte ele confisca o transmissor da Rádio Guaíba, traz pro palácio e transforma a secretaria de comunicação na secretaria de segurança, digamos assim. Ele bota todo aparato da brigada militar a serviço do resguardo da comunicação. Resguardar a torre da Ilha da Pintada, transforma o palácio num grande forte de comunicação, onde ele bota os transmissores na rua pro povo que tava na frente ouvir o discurso dele, começa a discursar, discursar, produção artística, poesia, jogral, em torno disso, os dias vão passando e só discurso não dá, [o ator Paulo César] Pereio, [a poeta] Lara de Lemos, fazem o Hino da Legalidade, aquilo começa a ser tocado ininterruptamente.
LG – Vai mobilizando todo o Brasil, “olha não vamos deixar ter esse golpe”.
ZB – Mobiliza a sociedade civil inteira no sentido de dizer: “o que temos aqui?”. “A brigada militar”. “Quantos contingentes?”. “Tantos”. “Isso aqui não dá nada”. “O que a gente tem?”. “O povo na rua”. “Quantas mil pessoas estão na rua?”. “As pessoas precisam se armar”. Aí ele estabelece um jogo de guerra civil pela constituição. Quem tem arma pega sua arma e vem pra rua. Ninguém tinha tanta arma, ele pega todas as armas de estoque do palácio e distribui pra sociedade civil. Vai na Taurus, pega todo estoque de armas da Taurus, a Taurus que hoje tá com as ações lá em cima, distribui pra população todas as armas e “nós vamos enfrentar o exército brasileiro, vai ser brasileiro contra brasileiro, por que a gente tem que preservar a única coisa que a gente tem que é o voto democrático popular”. Jango Goulart havia sido eleito com mais votos que Jânio Quadros, numa época que as eleições eram separadas, vice e presidente.
SB – Não podia ser mais legítimo.
ZB – Só que na verdade isso tudo era um jogo de cena, as armas do palácio não tinham balas, as balas eram da revolução de 30, estavam todas estragadas. Ele vai jogando com o limite, pra ver o que ia acontecer, e tentando segurar, segurar, segurar, pro Jango voltar e o Jango não vinha.
LG – Não tinha informação direito de onde é que ele tava, tava em Nova York, ele vinha a conta-gotas, parava em Lima…
ZB – Até começar a guerra eles não precisam saber que elas não atiram [risos].
LG – Triste pensar que tem uma avenida em Porto Alegre chamada Castelo Branco. Fizeram uma votação, vereadores conseguiram mudar pra Legalidade. Aí quiseram mudar, “não, por que tem uma pracinha chamada Legalidade”. Aí virou avenida da Legalidade e da Democracia. Agora, em tempos [de] Bolsonaro voltou a se chamar Castelo Branco.

Sério?
LG – Agora vamos recomeçar, pra voltar a ser Legalidade, é sintomático, não?
ZB – Se a gente quer lutar, tem que lutar por educação, no Brasil hoje.
SB – O Castelo era o menos golpista deles. O Castelo saiu do Ceará pra detonar o golpe, o AI-5 do Costa [e Silva], por que o compromisso moral do Castelo com a nação era da eleição em dois anos. Ele saiu, teve que sair, passou pro Costa e Silva e o Costa e Silva deu um golpe dentro do golpe. E ele decolou e caíram o avião dele.

A personagem da Cléo Pires é jornalista.
SB – É uma espiã disfarçada.
ZB – Spoiler!
SB – Apaga, apaga [risos]. Quem sabe ele não é um espião da CIA? [gargalhadas].

Ou pelo menos da Abin [risos]. Recentemente houve esse episódio do The Intercept vazando as conversas do Sérgio Moro. Queria saber a opinião de vocês sobre a importância do jornalismo e da liberdade de imprensa no mundo e principalmente no Brasil sob a égide de Bolsonaro.
LG – Estou aguardando o episódio de hoje da Vaza Jato.
SB – O filme deles sobre o Tarso reflete muito bem isso. O Tarso sempre disse que não tínhamos uma imprensa livre, é uma imprensa submissa, uma mídia submissa, infelizmente. Claro, tem CartaCapital, tem Caros Amigos, tem umas revistas, uns jornais que não estão no topo do consumo, que são as vozes resistentes. Agora os demais? [Fala com desdém:] Folha, Estadão, O Globo, Rede Globo, Record, tudo isso está a serviço do capital. O jornalista de um desses órgãos que quiser ser libertário, da grande mídia, que quiser falar a verdade, está desempregado. Não só desempregado como o chefe liga pras outras redações e diz: “não contrata fulano, que ele complica”. Nosso jornalismo, infelizmente, está amordaçado. O que salva agora? As redes sociais, as agências independentes.
LG – Pro bem e pro mal. Hoje em dia as pessoas recebem notícias pelo celular e ninguém quer saber se é verdade, se não é. Mas fake news passa.
SB – Passa. O cara vai quebrar tanto a cara dando mancada, que uma hora ele vai procurar uma fonte confiável. E existem fontes confiáveis. A própria grande mídia agora está ficando responsável [risos], está sentindo a concorrência. Desde o tempo do [Assis] Chateaubriand que a grande mídia é golpista, que derruba, se apropria, e manda no presidente.
LG – A gente aborda, no próprio Legalidade, não só a Cléo Pires é uma brasileira que mora em Washington. A gente tem um triângulo amoroso, são dois irmãos, um deles trabalha no [jornal] Última Hora. Todo envolvimento dos jornalistas naquela época na Legalidade é fundamental. Eles fazem parte do plano do Brizola, era um jornalismo muito mais ativista, digamos.
ZB – Tem duas questões, fazendo relação com The Intercept. Primeiro, a questão da investigação e dessa responsabilidade que o jornalismo brasileiro talvez precise retomar, de depender menos do release, das notícias prontas, mas de ir atrás não só da visão oficial. Até no filme isso é engraçado, por que de alguma maneira os meios de comunicação de nosso filme estão a serviço do Brizola, eles são a voz do Brizola, a voz de uma liderança, mas de uma liderança que eles conheciam intimamente. Isso é uma questão. Ele não tinha como governante, esse distanciamento que os governantes costumam ter da imprensa. O Brizola tomava café todos os dias com os jornalistas para falar sobre o que estava acontecendo, chamava, não se negava a responder nenhuma pergunta, não era uma pessoa que fugiria de uma pergunta. Ele sabia a importância da imprensa para se manter ligado ao povo, ele tinha essa relação com o povo. “A grande massa, as pessoas que estão muito distantes, todos precisam saber do que estou fazendo”, pra ser cobrado também. Ele dava a cara a tapa, deu grandes exemplos em vida pra poder fazer as coisas que fez. Ele fez a reforma agrária, mas ele doou uma fazenda que ele tinha, foi a primeira fazenda, que ele doa, da família. Mas ele soube jogar, no episódio da Legalidade, com a imprensa como um elemento de guerra.
LG – Isso o Brizola jovem, por que o Brizola mais velho, depois…
ZB – Vai comprar briga com a imprensa.
LG – E o fato de o Brizola ter brigado com a Globo significou que ele nunca foi presidente do Brasil. O exílio também fez muito mal pra ele.

Como é que vocês têm acompanhado esse ataque sistemático às artes, à cultura e ao pensamento pelo governo Bolsonaro?
SB – É o que se esperava dum fascista. Não pode esperar do fascismo outra coisa a não ser isso. O [ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph] Goebells, o número um do [Adolph] Hitler, dizia: “quando eu ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar da pistola”. Indiretamente, eles odeiam, eles também têm vontade de sacar a pistola e matar todos os artistas, por que o artista é rebelde, o artista fala, o artista é independente, além do quê a cultura e a arte servem para o esclarecimento do povo, e eles não querem, querem o povo burro.
LG – Ignorante como eles.
SB – Eles não têm carinho nenhum, têm profundo desprezo pela cultura. E é aí que está o nosso papel: resistirmos. Por que isso passa. Essa onda de fascismo, de direitismo, existe em todo o mundo, não é só no Brasil, eles estão surfando na onda, a direita botou as garras de fora e está tendo seu momento. Até por culpa da esquerda, vamos aprofundar, que fracassou em muitas coisas. Acontece que a hora é deles, não é a nossa hora, não é a hora dos progressistas, não é a hora dos esquerdistas. Nesse momento nós temos que resistir, aguentar, por que muda, claro que muda, não sei se vai durar 10 ou 20 anos. Mas de repente alguém pode cair do cavalo.
LG – Vale falar que o filme é em memória de nosso ator, que acabou falecendo, infelizmente, que interpreta o Brizola, o Leonardo Machado.
SB – Foi o último trabalho dele.
ZB – O Léo é o protagonista, junto com o Sapiran ele faz o Brizola, a maior parte do filme ele conduz a trama, é um grande ator do Rio Grande do Sul, deixa um legado importante. Todos os diretores dos últimos 20 anos em algum momento trabalharam com ele. Não chegou a ver o filme pronto, viu um corte, enfrentou um câncer e nos deixou precocemente. Mas fez o filme com uma entrega absoluta, com paixão, buscou o papel, a gente estava buscando um ator, estávamos caindo no canto da sereia de que para chamar público tínhamos que ter atores do eixo Rio-São Paulo, em grande evidência na televisão.
LG – Mas tu tinha uma pulguinha, queria um Brizola gaúcho.
ZB – É, num primeiro momento a gente achava. Mas ele buscou o papel, me procurou, chegou ao teste caracterizado, era mais forte do que o próprio filme a vontade dele de fazer o filme. Fez lindamente, conduz o filme com uma baita responsabilidade, as falas reais do Brizola, teve um processo de caracterização, mudou o cabelo, colocou lente de contato, engordou um pouco para fazer o filme, é um ator muito completo, tanto pelo aspecto físico, disposto a transformações, quanto pela parte de equipamento vocal, tinha uma voz muito bonita, muito volume, pros discursos do Brizola isso foi muito importante, uma capacidade também de ser muito generoso, conviveu muito com o Sapiran, foi pra Bagé, fez um laboratório de um mês antes, saiu um pouco da cidade, para buscar essa raiz do Brizola, que era um homem rural, um colono, um homem do campo. Foi conviver com o Sapiran para os dois criarem o mesmo personagem. O filme, agora que eu falei esse negócio do campo, tem uma outra questão importante que a gente foi buscar: o filme se passa todo em Porto Alegre, mas estabelece um relação histórica com São Borja, com a raiz desse trabalhismo brasileiro que nasce com Getúlio Vargas num território que é Brasil mas que tem como origem de colonização a cultura espanhola, a figura do caudilho, e principalmente a questão da justiça social que fez parte da utopia jesuítica guarani. São Borja é uma cidade que nasce da colonização espanhola jesuítica, e foi o grande centro da justiça, os tribunais guaranis aconteciam em São Borja. Em 1680 já existia a ideia de reforma agrária, de divisão igualitária da terra, isso vai estar no subconsciente do Getúlio, do Brizola, e o filme tenta também flertar com esse passado espanhol que fez o Rio Grande do Sul, que está nas missões, tem um elemento do nosso filme que é inspirado no Darcy Ribeiro, antropólogo, que está na região das missões, em São Miguel das Missões, trabalhando com os indígenas, e vai pra Porto Alegre, mobilizado pela Legalidade, também mostrando essa mobilização que o Brizola fez no interior do estado. Então, pra falar um pouco das raízes do Brasil, que passa pelo elemento indígena, pelo elemento negro, pelo elemento português e pelo elemento espanhol, também no caso do Rio Grande do Sul.

Foi todo rodado em Porto Alegre?
ZB – O filme teve locações em São Miguel das Missões, também em Torres, mas representando Punta del Este, mas a história em si se passa em Porto Alegre.

No começo da entrevista você fez um elogio ao Guarnicê. Nesta edição foi inaugurada uma mostra chamada Cinema Político. O que você achou da iniciativa?
ZB – Eu achei fantástico, o festival tem que ter um compromisso com a sociedade. A gente vive um momento no Brasil onde as instituições, onde o próprio sistema político, como a sociedade vê a política, precisa ser discutido, pensado, a gente precisa repactuar com a sociedade, com a política. Há hoje uma ojeriza, um preconceito muito grande do cidadão com a classe política, por conta do desgaste da corrupção, que é real e que é histórico. A gente esteve no Museu de Arte Sacra hoje à tarde e há uma frase de Padre [Antonio] Vieira, numa de suas pregações, falando de como a corrupção está presente e é genuína do ser humano e é preciso combatê-la, não é questão apenas de ser brasileira, ela existe em toda parte, mas de alguma maneira no Brasil, por conta de nosso processo histórico, a mancha da corrupção se tornou maior do que a vontade civilizatória de fazer política por parte do cidadão. A gente precisa reaproximar o cidadão da política. A sociedade, no seu mais alto grau de caminhar, de pacto social, precisa da política, precisa da participação política. Mas não necessariamente da figura do grande líder, e é essa que é a questão que o Brizola entende, que aquilo tudo só seria possível envolvendo todos os cidadãos e fazendo com que as pessoas se apropriassem daquela causa, lessem a constituição, entendessem por que estavam lutando por aquilo. Como artista a gente também tem um compromisso de aproximar a política da discussão cidadã. A política é estrutural na sociedade, voltamos pra Grécia antiga. Há sociedades que conseguiram avançar, inclusive pra que a gente pudesse ter um processo civilizatório que deu origem ao renascimento, que deu origem à modernidade, ela se baseia na política.
SB – Há um preconceito contra a política em essência. Quando tem um festival que abre uma janela importante para um filme político, é importante, é um avanço. O Guarnicê tem conteúdo, tem pensamento, é um festival de pensamento. O festival que ele [aponta para Zeca] é coordenador tem isso também. É arte, mas é arte para pensar.

Qual é o festival que você coordena?
ZB – Tanto eu quanto Léo, de alguma maneira nós criamos janelas para poder propagar a arte cinematográfica brasileira, mas também refletir sobre nossas áreas, eu na minha atuação na faixa de fronteira e o Léo como roteirista. O Léo criou em Porto Alegre, o Frapa, o Festival do Roteiro Audiovisual, que é hoje um dos maiores, acho que é o maior da América Latina, e eu criei em Bagé e Livramento o Festival de Cinema da Fronteira, que já tem 11 edições. Ano que vem eu não vou participar, vou assistir. Mas fui o idealizador. O Frapa está chegando à sétima edição.

Qual a previsão de estreia do Legalidade no circuito exibidor?
ZB – Dia 12 de setembro ele vai estrear no Brasil. [Distribuição da] Boulevard Filmes, que distribuiu o Tarso também, distribuiu o Glauco do Brasil, meu outro filme.

Como vocês avaliam o atual momento do cinema brasileiro em que filmes como Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dorneles, e Marighela, de Wagner Moura, têm concorridas estreias internacionais, com ampla repercussão, mas não estreiam no Brasil?
LG – Eu acho que o Bacurau vai acabar estreando. O Marighela tá complicado, eu estou lendo, está complicado, a distribuidora ficou com medo da repercussão. O Marighela é diretamente contra o Bolsonaro. Eu não vi o Bacurau, mas imagino que seja uma coisa não tão direta, é óbvio que o discurso está ali, mas uma pessoa tosca não vai se sentir agredido, como o Bolsonaro, diferente do Marighela, que é um cara que combateu a ditadura. Eu acho que o Bacurau vai entrar em cartaz, deve entrar bem, espero que faça um bom público.
ZB – Eu acho que ambos os filmes escolheram estrear em festivais estrangeiros, é uma política que os realizadores brasileiros têm tido, não agora, mas há muitos anos, por que muitos desses festivais exigem que seja première mundial. Estreiam fora por que não têm espaço no Brasil? Não é verdade. Estreou fora por que os realizadores brasileiros preferem estrear fora, criar expectativas, ganhar prêmios fora, e depois estrear nos festivais nacionais. Acho difícil que ambos os filmes, de realizadores de prestígio, com os elencos que têm não sejam selecionados em festivais brasileiros. Provavelmente a gente vai ver agora no segundo semestre, os dois filmes em Gramado, Brasília, em algum desses festivais, Rio, São Paulo, eles vão estar nesses festivais. A questão do lançamento comercial, hoje no Brasil, tem dois caminhos: ou é investimento de uma grande distribuidora, e aí isso não é uma questão de perseguição política, é uma questão de capital. A gente vê que o capital pode, por exemplo, como a Netflix, lançar um filme sobre o impeachment da Dilma, por que o capital não tem esquerda nem direita, ele vende pra esquerda e pra direita.
LG – A Netflix fez O mecanismo [de José Padilha].
ZB – A mesma Netflix que fez O mecanismo faz Democracia em vertigem [de Petra Costa]. Então o capital é um grande balaio, que tem uma oferta que é o comunismo, o neoliberalismo, está tudo ali em oferta. O outro mecanismo é o Fundo Setorial do Audiovisual. O Legalidade é um filme financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, o Marighela também. O Fundo Setorial do Audiovisual, na medida em que você aprova o financiamento da realização, a distribuição é suporte automático. Se eu quiser recorrer, eu posso ter recursos do mesmo fundo pra distribuir o filme.
LG – Até o ano passado. Agora tá tudo meio turvo.
ZB – Qualquer filme que está sendo lançado esse ano comercialmente teve que fazer esse processo ano passado. Imagino que qualquer filme que tenha optado pelo Fundo Setorial do Audiovisual ele terá o lançamento, imagino, garantido. A sociedade civil organizada que lutou pelo Fundo Setorial do Audiovisual, que lutou pela transparência, pela governança de um fundo que é gerido por um banco público, aliás, o BRDE foi criado pelo Brizola [risos]. O que existe é uma dominação estrangeira das salas. Vingadores estreou em 800 salas. Há um preconceito contra o cinema nacional, isso existe e isso o Bolsonaro está fazendo questão de acentuar, é uma questão que a gente já vêm lutando há muitos anos e é função nossa, como imprensa, como artistas, formar público, lutar contra essa dominação estrangeira.

Serviço

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O Brasil na lama: um retrato

Foto: Marla Batalha

 

Uma peça é uma peça é uma peça. Caranguejo Overdrive, de Pedro Kosovski, encenada pela companhia carioca Aquela Cia. de Teatro, com direção de Marco André Nunes, é uma peça impactante. Por vários motivos, a começar pelos caranguejos para além do título – também há areia e lama –, a princípio em uma gaiola, depois interagindo com os sete atores em cena.

Vi a peça em São Paulo, em março do ano passado, e poderia dizer tratar-se da mesma peça, antenadíssima com o atual momento político vivido no Brasil – naquela ocasião já trazia à cena o assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido poucos dias antes. Agora acompanha a tragédia brasileira até o governo Bolsonaro.

Com um power trio em cena fazendo ao vivo a trilha sonora do espetáculo, evocando a memória e grandeza de Chico Science, Caranguejo Overdrive conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos num mangue aterrado que vai à Guerra do Paraguai, nas fileiras do exército brasileiro. Quando volta, ajuda a explicar o falso patriotismo que rege o atual governo militar/izado. “Éramos uma multidão de famintos, analfabetos, sem disciplina”, diz ele, já sem saber se é homem ou caranguejo, ave, Josué de Castro!

Cosme tem distúrbios mentais, decorrentes da violência aprendida no campo de batalha e da fome. O Rio de Janeiro não é mais o mesmo, é um resumo do Brasil: não há mais mangue, aterrado, não há mais alimento para os miseráveis, que têm que se contentar com excrementos, até a inanição e a consequente morte.

O ex-combatente é um deles, que tem que sucumbir a constantes e vexatórias abordagens policiais, um estranho em sua própria pátria. Através de sua figura e de uma prostituta, personagens comuns em zonas portuárias, Caranguejo Overdrive perpassa a história do Brasil a partir do que de mais ridículo e caricato há em cada governante, desde Getúlio Vargas, passando pelos militares até os eleitos após a redemocratização, chegando novamente ao militar, com a prostituta que serve de guia ao homem-quase-caranguejo, cujo fio de humanidade aos poucos se esvai. Ela narra diversos episódios em espanhol – foi arrancada violentamente do Paraguai natal.

Caranguejo Overdrive ironiza ainda a eterna insuficiência de recursos para a área cultural, agravada no presente governo com a extinção do Ministério da Cultura – a circulação da peça, que se encerra em São Luís, após passar por Belém e Teresina, é apresentada por um genérico Ministério da Cidadania, com patrocínio da Petrobras.

O texto debate temas que parecem ser eternos no Brasil, apesar de muita gente fingir acreditar que a corrupção é uma invenção recente no país. Uma miríade de assuntos que torna a peça atual e necessária: obras superfaturadas e inacabadas, megaprojetos sem discussão e planejamento necessários, remoções forçadas de populações, violência urbana, saúde mental, ausência do Estado.

Para quem não está dando conta de acompanhar as notícias do hospício nacional, uma curiosidade: o tempo todo, ao longo de hora e meia de espetáculo, há sempre pelo menos duas ações se desenrolando simultaneamente no palco, o que convida o espectador a um processo de edição (“a memória é uma ilha”, ave , Wally Salomão!): só assim se pode tentar dar conta do Brasil.

Serviço

Caranguejo Overdrive tem última sessão hoje (6), às 20h, no Teatro Arthur Azevedo (Rua do Sol, Centro). Somente 100 ingressos – a plateia assiste ao espetáculo no palco do teatro, disposta em meia lua. Os ingressos custam R$ 10,00 (R$ 5,00 meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro uma hora antes da apresentação.

O homem que virou pedra de responsa

As recentes entrevistas concedidas por Luís Inácio Lula da Silva, da sede da Polícia Federal, em Curitiba, revelam sua enormidade e sua qualidade de preso político. As peças de um jogo nefasto aos poucos vão se encaixando. Nada de novo para observadores mais atentos, mas aos poucos começa a ruir a farsa alicerçada em motivo indeterminado.

Ano passado cerca de 90 escritores, poetas, quadrinhistas e intelectuais reuniram-se em Lula Livre Lula Livro, manifesto contra a prisão de Lula. A obra reúne poemas, charges, textos em prosa, requerimentos e cartas sobre a questão.

Um dos poemas do livro, do maranhense Celso Borges, é Now, que foi musicado por Alê Muniz e Luiz Lima e virou um reggae, gravação que Homem de vícios antigos revela em primeira mão. O poeta promete um clipe para breve.

Participaram da gravação os reggae stars Dicy Rocha, Santacruz, Célia Sampaio, Alê Muniz e Preto Nando (vozes), João Simas (guitarras) e Gerson da Conceição (contrabaixo). É provavelmente a última gravação em estúdio do músico recém-falecido. Alê Muniz assina arranjo, efeitos e direção musical.

Leia o poema e ouça a música:

NOW

nem uma frase reza
nem a flor da indelicadeza
mas raduan em lavoura de cólera
frida pintando nos murais de rivera:
LULA LIVRE

porque se vomitam
a brutalidade nos tribunais
pound se ergue nos cantos da jaula
munch grita paralém da ponte:
LULA LIVRE

contra as ruas em falsa festa
piva delira paranoia
lennon risca riffs na guitarra
os berros de camille
nos sanatórios explodem explodem:
LULA LIVRE

cavalos tropeçam na loucura
imaginações maquinadas
umas
sobre as outras
numa torre que se levanta e desaparece

tempos de águias com dentes afiados
e crocodilos voando sobre o fígado dos pássaros

uma pomba se espatifa nos muros da história

mas
a incontrolável poesia se alastra como peste
vixe cabra da peste
umas
sobre as outras

molhando a dinamite do silêncio:
LULA LIVRE

Lição

Foto: Gilson Teixeira

 

Em abril de 2016, na sessão da Câmara dos Deputados que deliberou pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o então deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) dedicou seu voto à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, seu ídolo. O pesselista não sofreu nenhuma sanção por quebra de decoro e pouco mais de dois anos depois, em uma campanha baseada em fake news e no elogio à violência, tornou-se presidente da república, eleito pelo voto popular.

O deputado federal Márcio Jerry (PCdoB) apresentou recentemente projeto de lei (PL 1798/2019) que criminaliza a apologia ao retorno da ditadura militar, tortura ou pregação de rupturas institucionais. Um passo importante em um país que, ao contrário dos vizinhos latino-americanos, para ficarmos em exemplos mais próximos, não acertou suas contas com o passado: agentes da repressão envelhecem tranquilamente sem nenhuma punição, sequer no campo simbólico.

Um ato realizado ontem (30) no Memorial Maria Aragão, na praça homônima, prestou homenagens à médica que dá nome ao logradouro, ao poeta, jornalista e economista Bandeira Tribuzi e a Manoel da Conceição. O governador Flávio Dino assinou um projeto de lei que concede pensão especial ao líder camponês, vítima da ditadura militar.

O compositor Cesar Teixeira cantou Oração latina, de sua autoria, verdadeiro hino de movimentos sociais maranhenses, cujos versos “com as bandeiras nas ruas ninguém pode nos calar/ ninguém vai ser torturado com vontade de lutar” foram cantados a plenos pulmões, enquanto os presentes agitavam bandeiras e rosas brancas.

“Em nosso governo, todos os dias, temos procurado reparar injustiças. Essa é uma reparação ínfima, diante do que Mané sofreu”, afirmou o governador, referindo-se às torturas sofridas por Manoel da Conceição, que teve um prego martelado no pênis e perdeu uma perna em decorrência de uma gangrena ocasionada por tiros, não tendo o atendimento médico sido realizado em tempo hábil. Parece cruel descrever sua tortura, mas é um exercício necessário: lembrar, para que nunca mais aconteça.

Gabriela Campos, neta de Bandeira Tribuzi, relatou casos de familiares que sofreram com a ditadura. Sua mãe nasceu prematura, pois sua avó foi vítima de violência durante o estado de exceção. A revelação contraria o falacioso argumento da direita que elege torturadores como ídolos, de que a ditadura militar brasileira só “mexia” em quem “fez algo errado”.

O advogado Mário Macieira, ex-presidente da OAB/MA, neto de Maria Aragão, celebrou: “é bastante simbólico que este ato esteja sendo realizado em uma praça com o nome de Maria Aragão, que combateu a ditadura militar, e não com o nome de um general, de um torturador”. Cabe lembrar que o projeto arquitetônico da praça é de Oscar Niemeyer, outro respeitado comunista.

“Aqui no Maranhão não se celebra ditadura, não se exalta torturador”, afirmou Flávio Dino em meio a palavras de ordem do público: “Manoel, guerreiro do povo brasileiro!” e “Lula livre!” foram as mais ouvidas. “É contraditório que alguém democraticamente eleito faça apologia a um regime que cassou mandatos e fechou o congresso nacional”, continuou.

“Quais os pecados de Bandeira Tribuzi, de Manoel da Conceição e de Maria Aragão?”, perguntou Flávio Dino. Ele mesmo respondeu: “Bandeira Tribuzi compôs o hino de São Luís [Louvação a São Luís, no ato interpretado por Serginho Carvalho], que fala nos “claros sóis da liberdade”; Manoel da Conceição queria que os trabalhadores do glorioso Vale do Pindaré se organizassem e tivessem acesso a terra; e Maria Aragão, uma médica que não enricou, atendia mulheres humildes sem cobrar nada e reunia a juventude na sala de sua casa para realizar cursos de formação política. Percorro mentalmente os códigos de processo penal de hoje e da época e não encontro o crime. Não há crime! O crime está na cabeça de quem não aceita quem pensa diferente”, finalizou.

O Maranhão deu ontem mais um belo exemplo ao Brasil. Mirem-se!

Um teatro na contramão

 

Fotos: Ascom/Sesc/MA

Alvíssaras! Em concorrida solenidade o Sesc inaugurou ontem (7) o mais novo equipamento cultural de São Luís, como apregoou a campanha publicitária pendurada em outdoors e traseiras de ônibus: o Teatro Sesc Napoleão Ewerton, localizado no Condomínio Fecomércio/Sesc/Senac (Av. dos Holandeses).

Mais importante ainda: sua completa acessibilidade. Um bom percentual dos 245 lugares do teatro é reservada a pessoas obesas e há oito espaços para cadeiras de rodas, rampas de acesso, piso tátil e banheiro adaptado. Tudo o que foi apresentado ontem contou com tradução simultânea em libras e audiodescrição: das falas das autoridades do assim chamado Sistema S às apresentações musicais da Orquestra Filarmônica Sesc Musicar e da cantora Flávia Bittencourt – que, acompanhada do músico Carlos André (sanfona e bases eletrônicas), apresentou uma espécie de redução de Eletrobatuque, show que lançará em dvd em breve –, às intervenções teatrais, que homenagearam o falecido ex-presidente da Fecomércio que batiza o lugar e nomes como a atriz Apolônia Pinto e a escritora Maria Firmina dos Reis, entre outros.

Entre as autoridades presentes, os secretários municipais Marlon Botão (Cultura) e Socorro Araújo (Turismo) somaram-se a representantes da classe artística maranhense e servidores do Sesc – sobretudo de seu Departamento de Cultura – para prestigiar a inauguração, numa demonstração da importância que tem o Serviço Social do Comércio no fazer cultural do Brasil, configurando-se no mais importante organismo não estatal do país na área. Não à toa é comum ouvirmos referências ao Sesc de São Paulo, por exemplo, capitaneado pelo gigante Danilo Santos de Miranda, como uma espécie de “ministério da Cultura paralelo”.

“A Cultura no Sesc se caracteriza como ferramenta democrática de difusão de conhecimento possibilitando a educação transformadora da sociedade, por meio de projetos e ações voltados para as áreas de biblioteca, música, dança, teatro, circo, audiovisual, artes visuais e literatura objetivando a formação de seus diversos públicos”, diz um trecho da Apresentação, em folder distribuído aos presentes, ontem.

Há muito para se comemorar com a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton, em São Luís. Inclusive pelo momento em que acontece, quando as ações culturais empreendidas pelo Sesc estão sob ameaça do governo federal recém-eleito – que nutre pouco ou nenhum apreço por diversas palavras(-chave) do parágrafo anterior –, sobre o que o próprio Miranda se manifestou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Só os projetos institucionais da entidade certamente já garantiriam ocupação qualificada do espaço inaugurado ontem, mas a pauta será aberta a agentes culturais em geral, observando-se os princípios que regem as ações do Sesc: atendimento a seu público prioritário (trabalhadores dos setores de comércio, serviços e turismo), mas não só, gratuidade ou ingressos a preços populares, entre outros.

Por falar em programação, ela já começa intensa: amanhã (9), às 18h30 a Klinger Trindade Cia./AM apresenta o espetáculo Pneumático [classificação indicativa: livre; duração: 60 minutos]; dia 10 (sábado), às 16h30, a Companhia Cambalhotas apresenta Os Saltimbancos [livre; 60 minutos], esta última integrando a programação da 13ª. Aldeia Sesc Guajajara de Artes.

Algo a ser comemorado não apenas por São Luís e seus artistas, que ganham um novo espaço, na contramão do que se desenha para o Brasil, com a dilapidação de instituições – o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro e a ventilada extinção do Ministério da Cultura, para ficarmos em apenas dois exemplos –, a inauguração do Teatro Sesc Napoleão Ewerton reafirma a importância e dá a real dimensão do quão imprescindível é o Sesc para a cultura brasileira.

2019, uma microfábula distópica

Ilustração: Paulo Stocker. Reprodução

 

Os índices de acidentes de trânsito nas cidades cresceram assustadoramente, apesar de o fato não preocupar os governantes. Os semáforos operam apenas com as cores verde e amarelo, já que o vermelho foi proibido pelo decreto presidencial número 1.

Um setor do comércio severamente atingido por uma crise inédita e nunca imaginada foi o das floriculturas: com a proibição do vermelho, rosas deixaram de ser cultivadas e vendidas. Símbolos do amor e da paixão desde sempre, casais tiveram que reinventar o jogo da conquista, e os sentimentos tornaram-se clandestinos.

Armas de fogo levaram guarás à extinção. “Onde já se viu? Aves vermelhas? É proibido!”, bradou uma autoridade, eufórica, pouco se lixando para a beleza das revoadas e o equilíbrio ambiental.

A coca-cola mudou as cores de suas embalagens e faturou em cima, tornando tudo mais uma jogada de marketing e ironizando o velho jargão de que “comunista não bebe o líquido símbolo do capitalismo”.

A Cruz Vermelha teve que retirar-se do país, pois, ao contrário da marca de refrigerantes, não teve como investir pesado em publicidade, além de avaliar que não faria sentido modificar uma marca e um nome consolidados há mais de 150 anos.

Os caminhões dos Corpos de Bombeiros espalhados pelo país perderam sua cor padrão. Não fossem as sirenes, seria mais difícil identificá-los no trânsito e abrir passagem para evitar que o fogo consumisse algo mais em um incêndio – embora o fogo não agisse sozinho em sua sede de destruição.

Em Parintins, no Amazonas, o Boi Caprichoso foi declarado campeão. O Garantido, vermelho, foi proibido de desfilar no Festival Folclórico. No Rio Grande do Sul, o Internacional foi proibido de disputar o campeonato gaúcho – e outros certames.

De vermelho sobrou apenas o sangue derramado de negros, indígenas, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência. Mas vermelho é modo de dizer, imaginação baseada em lembrança: como uma imensa máquina do tempo nos levou de volta a um passado de pouco mais de 50 anos, a televisão em cores ainda não havia chegado ao Brasil.

Homenagem aos Racionais Mc’s denuncia racismo e violência contra a população negra no Brasil

Foto: Zema Ribeiro

 

​Logo que o espectador mais atento adentra o teatro, lê, distribuída em três das seis placas que representam corpos negros: “por qu​​e o senhor atirou em mim?”. A pergunta, com um último exercício de respeito – referir-se ao próprio assassino chamando-o de senhor – é possivelmente a última coisa dita por mais gente do que sonha a nossa vã filosofia. No cenário, casebres emulam uma favela.

Os dois atos de Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens invertem a ordem da vida curta de boa parte da população de favelas e ocupações urbanas do tipo, habitadas majoritariamente por negros: começa pela morte, categorizando-a entre morte morrida (de causas “naturais”, por exemplo uma cirrose contraída diante da falta de perspectivas de vida) e morte matada (assassinatos, muitas vezes camuflados sob o eufemismo “auto de resistência”, uma espécie de carta branca para matar dadas às polícias).

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens baseia-se em estudos feitos a partir de entrevistas realizadas com 12 homens pretos, como o próprio texto, espécie de libreto ao vivo, anuncia logo na introdução da peça, misto de teatro, música, poesia e dança. 12 homens pretos de diversas faixas etárias e ocupações, o mais conhecido deles KL Jay, DJ do grupo de rap Racionais Mc’s, afinal de contas homenageado pela peça e seu inspirador.

O texto, narrado e encenado por Jé Oliveira, é acompanhado de uma banda formada por (da esquerda para a direita) Raphael Moreira (pianos e mpc), Melvin Santhana (guitarras, violão e voz), dj Tano (Záfrica Brasil, dj residente), Fernando Alabê (percussão e bateria) e Cássio Martins (contrabaixo), que encorpa o que ele diz/denuncia, de forma contundente, sustança sonora, cênica, poética, política.

Peça urgente e necessária, sobretudo no momento conturbado que o país atravessa. O extermínio da juventude negra, habitante das periferias, de algum modo legitimado pelos poderes constituídos (meios de comunicação inclusos), é o tema central do debate. O Coletivo Negro é se São Paulo, a intervenção militar vige no Rio de Janeiro, mas esta chaga social não é “privilégio” de um ou outro estado do sudeste.

Jé Oliveira questiona em cena, os assassinatos dos cinco jovens em um carro branco, 111 tiros, apenas por que eram pretos, antes questiona o massacre do Carandiru, quando (coincidência?) 111 presos foram assassinados pela polícia paulista. Ainda que fossem bandidos, será que mereciam?, indaga o texto da peça, de sua autoria, duro, seco, sem meias palavras, perpassando a formação social do Brasil. Com as roupas que vai vestindo ao longo do espetáculo, o narrador simula a fragilidade de corpos mortos, vítimas da violência urbana que tem os pretos como alvo preferencial. Recorta um microcosmo como a explicar boa parte do país: um tio seu ergueu um primeiro barraco há algum tempo, dando origem a um conjunto de seis favelas, para onde vieram, a reboque, todos os outros parentes, abandonando as roças em Minas Gerais, tentar melhor sorte em São Paulo, cidade grande, sede do Coletivo Negro, berço dos Racionais Mc’s e ainda sonho, mesmo hoje em dia, de muita gente que vislumbra uma vida melhor.

Foto: Zema Ribeiro

A trilha da peça mistura gravações com temas tocados ao vivo e também traça uma espécie de linha evolutiva que desemboca em Racionais Mc’s. Enquanto Jé Oliveira desce do palco e distribui copos descartáveis com farinha e açúcar, que circulam de mão em mão com a plateia provando a iguaria, o dj Tano emula um baile em que tocam Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Jorge Ben e Jackson’s Five, entre outras influências sem as quais o grupo de rap, ou o próprio rap brasileiro não existiriam. Também nisto passam uma mensagem: não só no campo cultural a mão de obra negra foi, desde sempre fundamental para a construção do país, literalmente, embora quase nunca valorizada como deveria. É contraditório amarmos nossos ídolos negros, sobretudo na música e no esporte, e sermos racistas. Em meio a tudo isso, uma homenagem a Marielle Franco, vereadora carioca assassinada há mais de sete meses. O crime permanece impune – ela também era negra.

Foto: Zema Ribeiro

Arte é política e os integrantes do Coletivo Negro sabem que estarão mais do que nunca na alça de mira num eventual governo Bolsonaro. Manifestam-se sem meias palavras contra o candidato neonazista, enquanto pequenos canhões de luz projetam nas paredes a frase “todo poder ao povo”, síntese que une o líder negro Martin Luther King e a Constituição brasileira de 1988. Há ainda homenagem a Carlos Marighella, enquanto toda a boca de cena é coberta por uma enorme faixa com a frase “O nosso júri é racional, não falha: não somos fãs de canalhas”. Imaginei os esgares de Sérgio Sá Leitão, ministro da Cultura de Michel Temer, caso assistisse a peça – ele recentemente criticou o ex-Pink Floyd por seu posicionamento político explicitado em shows recentes no Brasil. O inglês também manifestou-se contra o candidato pesselista, projetando a #elenão em um telão gigante – ontem a plateia bradou “ele não” em uníssono, diante da postura corajosa de Jé Oliveira.

Farinha com açúcar ou Sobre a sustança de meninos e homens foi apresentada ontem (21), no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande), na programação do Palco Giratório, rede de intercâmbio em artes cênicas do Sesc. A programação completa desta etapa pode ser conferida no site do Sesc MA. Hoje os integrantes do Coletivo Negro participam de bate-papo, às 18h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Praia Grande). Toda a programação do Palco Giratório tem entrada gratuita.

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O respeito às diferenças precisa entrar na moda

Foto: Zema Ribeiro

 

As areias da paradisíaca praia de Mangue Seco foram o palco escolhido para o lançamento de uma grife de moda íntima, o Ateliê Demodê, que aportuguesa a palavra francesa démodé, usada para qualificar algo que está fora de moda.

O evento aconteceu na manhã de ontem (20) e foi marcante pelo inusitado do lugar e da proposta: “o material dita a forma”, no que se baseou a decisão pela malha utilizada nas peças do Ateliê Demodê, feitas à mão, em São Luís do Maranhão, 100% orgânica, de algodão cultivado na Paraíba e Ceará, com embalagens de papelão reciclável produzidas na Bahia, de acordo com o catálogo também artesanal distribuído aos presentes.

As coleções são batizadas por alusões ao litoral: Areia, Duna, Brisa e Maresia, referindo-se às cores das peças, formas e a beleza.

Consumo é política e é impossível dissociar o desfile a que assisti ontem do atual momento conturbado que o Brasil atravessa. A beleza – e a força – do lançamento das coleções do Demodê reside em entender e colocar a moda como uma possível contraposição aos padrões vigentes: os modelos que desfilaram eram homens e mulheres, altos e baixos, brancos e negros, magros e gordos, “pessoas cinzas normais”, como diria Belchior.

Por falar em música, a trilha sonora do desfile foi pensada criteriosamente, marcada pelo compasso de cocos de Pernambuco e Paraíba e pela força percussiva da música do maranhense Tião Carvalho. Não só a música: tudo ali foi pensado com carinho, nos mínimos detalhes: das acomodações da plateia que foi prestigiar o desfile ao generoso e saudável café da manhã servido – consumo é política, repito.

Se “amar ao próximo é tão démodé”, como cantou Renato Russo, o grande grito dado pelo vai-e-vem de modelos tão diversos, foi justamente a tentativa de superação disso: é justamente a diferença, e saber conviver harmoniosamente com ela, que nos torna humanos.

O que pensam os artistas maranhenses das eleições de 2018?

No próximo dia 13 de dezembro completam-se 50 anos do Ato Institucional nº. 5, vulgo AI-5, que dava ao ditador de plantão o poder de fechar o congresso nacional e, entre outras arbitrariedades, cassar mandatos de parlamentares. O famigerado AI-5 também suspendeu o habeas corpus e, entre outras mazelas, levou artistas brasileiros ao exílio.

O Brasil vivia os anos mais duros de uma ditadura civil-militar cujas sombras pairaram sobre o país por longos 21 anos. A democracia e a Constituição brasileiras são recentes; a segunda completou este mês 30 anos de promulgada. No entanto, ao contrário de vizinhos sul-americanos que também passaram por regimes autoritários, o Brasil nunca fez seu dever de casa, nunca acertou suas contas com o passado – o que nem de longe poderia ser visto como mero revanchismo.

Quando da votação do golpe que destituiu a presidenta legitimamente eleita pelo voto popular em 2016, o deputado federal Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que de “brilhante” tinha apenas o sobrenome: foi reconhecido como um dos mais sádicos torturadores produzidos nos porões da ditadura. Não à toa o hoje presidenciável fez questão de salientar, na ocasião: “o terror de Dilma Rousseff”.

Em qualquer outro lugar do mundo, Bolsonaro teria saído preso da sessão e muito provavelmente não voltaria ao parlamento, com o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar, no mínimo. Aqui, inchou feito cururu no sal e hoje é, como alertou o articulista Francisco Assis no jornal português Público, em artigo de opinião assim intitulado, “um canalha à porta do Planalto”.

A jovem e frágil democracia brasileira está ameaçada e não faltam avisos. A campanha de Jair Bolsonaro (PSL) é alicerçada por fake news, cujo combate tem sido ineficaz por parte das instituições. Declarações do presidenciável e cabeçadas entre ele e seu vice, o General Hamilton Mourão (PRTB) têm sido cristalinas sobre o que vem por aí, caso o capitão da reserva seja eleito.

O AI-5, que hoje em dia deveria ser tão somente objeto de estudo em escolas e universidades, volta a sobrevoar nossas cabeças como uma ameaça. O documento, entre outras questões obscuras, estabelecia a censura prévia de música, cinema, teatro, televisão, imprensa e outros meios de comunicação.

Causa-me espécie ver artistas, “as antenas da raça”, no dizer de Ezra Pound, defendendo a candidatura do pesselista, a despeito de o mesmo, além de todo o exposto, já ter declarado a intenção de extinguir o Ministério da Cultura – ou de entregar a pasta ao ator Alexandre Frota, recém-eleito deputado federal por São Paulo. Mais recentemente foi além e chegou a cogitar destino parecido para o Ministério da Educação.

Homem de vícios antigos enviou um e-mail com quatro perguntas sobre as eleições deste ano a mais de 50 artistas maranhenses ou radicados no Maranhão. Além dos artistas originalmente listados, abriu a consulta através do perfil de seu titular em uma rede social: a quem se interessasse em receber o questionário e participar, o blogue estava aberto. Isto é: apesar de o blogue ter lado e declará-lo – seu titular declarou, nas redes sociais, votos a Flávio Dino (PCdoB) para o governo do Maranhão, e Fernando Haddad (PT) para a presidência da república –, como por aqui somente o fizeram claramente a revista CartaCapital e a versão brasileira do jornal El País, a ideia original era ouvir quaisquer artistas que quisessem se manifestar.

O blogue recebeu apenas 10 respostas, entre os artistas que receberam o e-mail original e os que posteriormente solicitaram participar da entrevista. Curiosamente, todos declararam voto no candidato petista no segundo turno.

Responderam ao blogue os compositores Chico Saldanha [lançou ano passado Plano B, seu quarto disco], Gildomar Marinho [tem três cds lançados, Olho de Boi, Pedra de Cantaria e Tocantes, e dois gravados, Mar do Gil e Porta-Sentidos, a serem lançados em breve], Fábio Allex [lançou os cds Porta-Novas em 2013 e De volta ao passado que nunca vivi, em 2016] e Joãozinho Ribeiro [publicou em 2006 o livro-poema Paisagem feita de tempo; em 2013 lançou o cd Milhões de uns – vol. 1; ex-presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís e ex-secretário de Estado da Cultura do Maranhão]; o cineasta Francisco Colombo [seu novo curta-metragem, Avesso, recebeu troféus de melhor trilha sonora, melhor ator coadjuvante e melhor fotografia na mostra competitiva maranhense do 41º. Festival Guarnicê de Cinema]; a artista plástica Babula Rosana [recebeu os prêmios Interações Estéticas e Residência Artística em Pontos de Cultura, e Economia Criativa, do Ministério da Cultura]; a cantora Tássia Campos [com o Trio 123, formado por ela, Camila Boueri e Milla Camões, lançou este ano o EP 123]; o escritor Franck Santos [lançou este ano o volume Poemas para dias de chuva, pela editora paulista Patuá]; e as poetas Samara Volpony [estreou com o volume de poemas Contramaré, ano passado, pela Patuá] e Adriana Gama de Araújo [estreou este ano com o volume de poemas Mural de nuvens para dias de chuva, pela editora Penalux].

Alguns dos artistas convidados a responder as quatro perguntas continuam manifestando nas redes sociais um pró-bolsonarismo baseado em fake news, memes e no discurso de ódio contra o PT e a corrupção, lugares comuns que têm sido a tônica da campanha da chapa militar. Talvez tenham optado pelo silêncio em relação à pequena entrevista por não terem o que defender no programa de governo e discursos de seu candidato em relação aos temas propostos.

A seguir, na ordem em que foram recebidas, as respostas dos 10 artistas às quatro perguntas de Homem de vícios antigos. As respostas enviadas não sofreram edição, tendo passado apenas por revisão, optando o blogue por preservar a íntegra das opiniões.

Homem de vícios antigos – O governador Flávio Dino foi reeleito em primeiro turno. Qual a sua opinião sobre o resultado?

O compositor Chico Saldanha. Foto: Francisco Colombo

Chico Saldanha – Resultado mais que esperado. Flávio Dino soube conduzir melhor a campanha explorando com facilidade a fadiga de material do grupo Sarney. Também passou para a população um sentimento de que tentou, apesar das dificuldades impostas pela crise criada com o impeachment, mudar alguns paradigmas na administração e também escolher  bem as prioridades onde iria investir.

O compositor Gildomar Marinho. Foto: Paulo Caruá

Gildomar Marinho – Acredito que o trabalho sério, com transparência e o cuidado com a coisa pública ajudam a explicar parte do sucesso desta reeleição de Flávio Dino. O leque de alianças e a boa performance pessoal ajudaram a consolidar o fim de uma era oligárquica, patriarcal, materializado na derrota dos seus representantes no Senado e na Câmara de Deputados. Tenho acompanhado, ainda que à distância, daqui do Ceará, a evolução das políticas públicas, notadamente nas áreas de educação, saúde, segurança pública e políticas afirmativas e de inclusão social. Este conjunto de motivos explica sua vitória, destacando que se dá em momento delicado para a democracia brasileira com a onda conservadora que se avolumou no Brasil.

O cineasta Francisco Colombo. Foto: Eduardo Júlio

Francisco Colombo – Acho que o trabalho foi reconhecido, em que pesem as contradições. Basta de família Sarney!

A artista plástica Babula Rosana. Foto: divulgação

Babula Rosana – Foi um ótimo resultado. Prova que a oligarquia Sarney não tem mais força no Maranhão.

O compositor Fábio Allex. Foto: divulgação

Fábio Allex – É a confirmação de que o Maranhão se libertou, ainda que tardiamente, do atraso personificado pela família Sarney. É o reconhecimento, sobretudo, das realizações que foram feitas no campo social, assim como o forte investimento na área da educação. Reflete o esforço e comprometimento que vem existindo, apesar da profunda recessão econômica do país. O estado entendeu que o caminho de mudanças deve continuar. Trata-se, inclusive, do governo mais bem avaliado do país. Apenas isso justificaria.

A cantora Tássia Campos. Foto: Quilana Viégas

Tássia Campos – Eu votei nele na primeira e na segunda eleição. Apesar de ter duras críticas à gestão da Sectur [a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo do Maranhão], acredito que prum estado tão pobre como o nosso, o melhor é Dino, pra melhoria dos indicadores sociais e garantia de direitos humanos.

O escritor Franck Santos. Foto: divulgação

Franck Santos – Acho merecido! Eu votei nele na eleição passada e nessa também! Precisamos de renovação, de mudanças no estado e na capital. Como professor, acho que o governador Flávio Dino não se comprometeu ainda como deveria com nossa classe trabalhista, mas votei nele justamente esperando que nesses próximos quatro anos algo mude nesse sentido.

A poeta Samara Volpony. Foto: divulgação

Samara Volpony – O resultado retrata a sua excelente gestão. Destaco a maior participação popular, a educação de qualidade, a transparência e o rompimento com a velha política implantada no Maranhão. Se formos refletir, ainda falta muito para sermos o estado que queremos, mas reconstruir um estado que vivia há meio século nas mãos de uma única família não é das tarefas mais simples. Flávio Dino conseguiu, em quatro anos, retirar aquele retrato vergonhoso do Maranhão, as manchetes que sempre nos noticiavam negativamente, para dar lugar àquelas que nos mencionam como exemplo para o país, como na área de educação, em que nós, professores, temos o salário base mais alto do país, só para citar uma entre tantas.

A poeta Adriana Gama de Araújo. Foto: divulgação

Adriana Gama de Araújo – Acredito que quem detém o controle da máquina pública dificilmente não se reelege. Além disso, a possibilidade de um retorno dos Sarneys ao governo fez com que até os críticos da administração Dino votassem nele. Eu não. Ele poderia ter feito um primeiro mandato com investimentos reais no que se refere à educação. Não fez nada além do que governos anteriores fizeram: pintar paredes e propaganda. Sou professora da rede pública e a única coisa que espero é que desta vez ele cumpra tudo que a lei manda. Reajustes dos salários dos professores e escolas realmente dignas. Valorizar de fato a educação não é achar que o pouco que se faz é muito. É colocar tudo que envolve a educação como prioridade.

O compositor Joãozinho Ribeiro. Foto: Paulo Caruá

Joãozinho Ribeiro – O resultado reflete, antes de qualquer outro comentário, a ampla aprovação da gestão Flávio Dino, não somente pelo percentual de votos atingidos na eleição em primeiro turno, como pelas políticas públicas que chegaram de forma concreta aos segmentos mais necessitados da população, como saúde, educação, segurança, agricultura familiar e alguns outros serviços públicos básicos, vinculados diretamente às questões da cidadania e aos direitos humanos. Neste aspecto, também tem de ser alvo de destaque a responsabilidade fiscal que não escamoteou os investimentos e assegurou a regularidade de pagamento de salários, a despeito de outros estados considerados ricos que se encontram em situação de penúria, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. A reeleição de Flávio Dino, assegurando a continuidade da gestão, por outro lado representa um tiro de misericórdia na oligarquia Sarney e tudo que ela tem representado em vários campos da vida econômica, política e social do estado. Também representa um desafio sem precedentes para o próprio governo, cujas cobranças devem ser maiores e os compromissos da gigantesca coligação que deve apresentar as suas faturas políticas e administrativas, nem sempre coadunadas com o campo da licitude. Muitos desafios em algumas áreas deficitárias, do ponto de vista estratégico, como é o caso da Cultura e do Desenvolvimento Social também precisarão ser enfrentados.

Homem de vícios antigos – Em quem você vai votar para presidente no segundo turno? Por quê?

Chico Saldanha – Claramente em Fernando Haddad, porque foi na ditadura militar que criei consciência politica e cheguei à conclusão que a ditadura atrasou o país e cometeu uma série de atrocidades contra os direitos humanos. Aliás, fico com o vice-presidente [do marechal Artur da Costa e Silva, entre 1967 e 1969, o mesmo que decretou o AI-5] Pedro Aleixo: “na ditadura eu tenho mais medo é do guarda da esquina” e eu da mulher que chicoteou o carroceiro [referindo-se a uma eleitora de Jair Bolsonaro que, em São Luís, desceu de seu carro e agrediu um carroceiro com seu próprio chicote]. Retroceder 55 anos não faz parte dos meu planos A, B ou C [faz trocadilho com o título de seu disco mais recente]….

Gildomar Marinho – Em Fernando Haddad. Primeiro, pelo que representa sua candidatura, que traz em sua essência o projeto iniciado por Luiz Inácio Lula da Silva, interrompido pelos implacáveis ataques a partir de 2014, culminando com golpe parlamentar de 2016. A experiência de Haddad no Ministério da Educação em um dos momentos de maior expansão do ensino acadêmico da História do Brasil e sua performance à frente da prefeitura de São Paulo, denotam a figura capaz de enfrentar os desafios da Presidência do Brasil, especialmente neste conturbado momento.

Francisco Colombo – Haddad 13! É o candidato mais preparado, com as melhores propostas. Como se não bastasse isso, ele personifica a democracia e o outro o oposto, o autoritarismo, o fascismo.

Babula Rosana – Fernando Haddad. Por que me identifico com as propostas e para barrar que o outro candidato seja presidente do Brasil.

Fábio Allex – Não desejei essa configuração para o segundo turno. Votei em Ciro Gomes, não como “voto útil”, mas por entender que ele tinha o melhor projeto, além da representatividade que construiu ao longo da sua vida pública. Sou apartidário. Talvez isso me permita ter um olhar mais plural, desprovido de paixões por legenda ou personalidade. Consigo perceber a dualidade do PT, no que se refere ao desenvolvimento do país durante o governo Lula, além da posterior avalanche de corrupção na qual o partido se envolveu, ainda que não tenha sido uma exclusividade do partido. Não há relativização, há fatos. Diante do cenário, voto em Fernando Haddad. Um bom candidato, com boas propostas, que agora herda grande rejeição em virtude do antipetismo aclamado pelo país, mas que, de fato, não traduz o que ele pode oferecer. Ele pode, sim, ser uma continuidade do que foi no melhor momento. Já o candidato do PSL, vejo como a opção mais nefasta que pude acompanhar em uma eleição. É nítida a falta de preparo para assumir um cargo de tamanha importância, da falta de consciência política e social, até mesmo para os seus próprios eleitores, além de não ser menos nítido o discurso de ódio que ele profere. Votar nele virou lema de “combate à corrupção”, o que está longe de ser verdade. Ele é um incentivo para o Brasil se dividir cada vez mais. Porém, infelizmente, levando em conta o panorama, parece que essa realidade só será percebida na prática.

Tássia Campos – Votei no primeiro e votarei no segundo em Haddad. Nem tem dificuldade na escolha. É civilização ou barbárie. Fico com a democracia.

Franck Santos – Haddad, claro! Por que jamais votaria em Bolsonaro ou em quem não me representa como nordestino, gay e trabalhador.

Samara Volpony – Voto no Fernando Haddad e na Manuela D’Ávila. São os candidatos que apresentam o projeto de Brasil que eu desejo neste tempo de ódio e caos em que vivemos. Voto no Haddad porque em sua gestão como Ministro da Educação no Governo Lula permitiu a milhares de jovens terem a oportunidade de entrar numa universidade pelos Programas que criou: Fies, Prouni, pelo Enem. Sem esses programas, certamente, os mais pobres jamais teriam a chance de adentrar no Ensino Superior. Voto no Haddad por seu programa de governo na área da educação, na área da economia, na área da cultura. Voto no Haddad porque a sua proposta para o país contempla aqueles esquecidos socialmente, e eu, como artista e professora, só poderia estar ao lado de quem pensa em um Brasil mais justo e democrático.

Adriana Gama de Araújo – Votarei novamente no Fernando Haddad. Conheço o currículo dele. É um homem competente e com sensibilidade para o que de fato melhora a vida das pessoas: educação e respeito ao meio ambiente.

Joãozinho Ribeiro – Haddad 13, sem nenhuma dúvida! Pelo meu histórico de vida e de luta por uma sociedade mais justa, solidária e com oportunidades iguais para todos, já nem precisaria de justificativas. No entanto, as eleições de 2018 culminam com um processo de disseminação de ódio e violência que pode vir a ser institucionalizado, na figura de um candidato de extrema direita que defende uma pauta de intolerância e de extinção de direitos que a humanidade levou séculos para implementar. Embora com algumas críticas a todo o processo, que impediu que o candidato mais legítimo e aprovado pela população sequer pudesse concorrer às eleições presidenciais, temos que colocar a Democracia acima de tudo, que com toda certeza é o valor maior que está em jogo. O resto pode ser objeto de várias batalhas que se anunciam, mas que devem ter como campo preferencial o Parlamento, as redes, as ruas, os movimentos sociais, tudo dentro do marco constitucional, sem o ativismo jurídico-partidário-midiático, responsável por grande parte da crise política e institucional que hoje vivenciamos no país.

Homem de vícios antigos – Como você avalia as propostas dos dois presidenciáveis para a área cultural?

Chico Saldanha – Para te dizer a verdade acredito que Bolsonaro não tem a mínima noção do que seja projeto cultural, dado ao seu total despreparo para assuntos que não versem sobre violência. Pelas ações e diálogo com os produtores culturais quando esteve na prefeitura de São Paulo, acho que o projeto do Haddad ganha por WO [sigla de walkover, que significa a vitória de um time em razão da ausência do adversário].

Gildomar Marinho – Eu percebo, de um lado, a retomada da Cultura para o centro das discussões, como elemento estratégico de afirmação das diversas identidades da nação brasileira, a perspectiva de retomar as políticas culturais iniciadas no governo Lula, capitaneadas pelo ex-ministro Gilberto Gil, a retomada do planejamento estratégico do País, tendo a cultura como pilar desse desenvolvimento. Por outro lado, vejo na proposta do candidato conservador, a retomada de valores há muito descolados da realidade brasileira, além da promessa velada de extinção do próprio Ministério da Cultura.

Francisco Colombo – Haddad e equipe tiveram sensibilidade para entender que cultura é mais que mero diletantismo. O seu oponente, ao contrário, prega o desmonte das estruturas de fomento. Demonstra, reiteradamente, um desejo de vingança contra adversários, incluindo, obviamente, artistas.

Babula Rosana – Não conheço a fundo as propostas, mas deduzo que as do Bolsonaro devem ser as piores começando pelo convite ao Alexandre Frota para Ministro da Cultura. Por outro lado esse mesmo presidenciável diz que vai acabar com o Ministério da Cultura. Do Haddad, pela continuidade dos trabalhos que o PT já teve na área cultural acredito ser progressista e de continuidade dos projetos e processos democráticos e de repartição equivalente dos recursos e editais por todas as regiões do país.

Fábio Allex – Não dá para comparar, pois apenas Haddad tem proposta nessa área. O que não é surpresa. Inclusive, Bolsonaro tem interesse em acabar com o Ministério da Cultura e transformá-lo em uma secretaria. Contudo, sinto falta de um detalhamento nas propostas do petista. Mas, se colocadas em prática, a princípio, atenderia uma diversidade importante, quando diz que vai retomar o investimento em museus, fomentar espaços para a manifestação de povos indígenas, incentivar a leitura e literatura, regulamentar o direito autoral nos meios digitais, bem como tratar do desenvolvimento e ampliação da produção independente.

Tássia Campos – Bolsonaro quer extinguir o MinC [Ministério da Cultura]. Nem tenho o que dizer.

Franck Santos – Haddad promete rever o Plano Nacional de Cultura, o Sistema Nacional de Cultura e recursos ao Ministério da Cultura, enquanto Bolsonaro até agora não fez ou faz menção às políticas culturais. Um país sem cultura, educação, arte de um modo geral, não é um país!

Samara Volpony – Na verdade, nós temos apenas um candidato que tem propostas para a área cultural: o presidenciável Fernando Haddad. Repudio, enquanto artista que sou, a proposta do candidato Jair Bolsonaro em extinguir o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet e ainda, tratar artistas como “vagabundos”. Seguindo o viés da nossa história, é bastante simbólico que o Ministério da Cultura tenha sido criado no período pós-ditadura militar e agora quererem extingui-lo. Mas não permitiremos esse retrocesso. Quanto à proposta do candidato Fernando Haddad, minha avaliação é bastante positiva. Seu programa de governo prevê uma política nacional para as artes que inclui sua produção, circulação e fomento das áreas, a reestruturação da Funarte [a Fundação Nacional de Artes, vinculada ao MinC], a retomada dos pontos de cultura e memória, priorizar pela Lei Rouanet coletivos da periferia, entre outros. Só podemos avaliar quem tem propostas.

Adriana Gama de Araújo – E Jair Bolsonaro tem propostas para a área cultural? Não vi, não. As propostas do Haddad são muito boas: fazer das manifestações artísticas e culturais um espaço para fomentar democracia, diálogo, diversidade, respeito. Conversar com quem faz e possibilitar caminhos de desenvolvimento e inclusão social.

Joãozinho Ribeiro – Infelizmente, só temos uma proposta para ser avaliada, pois o programa do candidato Jair Bolsonaro sequer dedicou uma linha para essa questão de tamanha relevância para um Brasil que pretende estar acima de tudo, dada a imensa diversidade cultural da nossa nação. Aliás, dos debates e entrevistas que tive a oportunidade de assistir entre candidatos a governador e presidenciáveis, essa questão em raríssimos momentos foi contemplada. Até mesmo no Maranhão, que se destaca pelo grande potencial criativo na área cultural, essa questão passou batida. Em matéria intitulada “Só 5 dos 13 presidenciáveis listam planos para cultura em programas de governo”, publicada na edição de 19 de setembro 2018, do jornal Folha de S. Paulo, o jornalista responsável pelo texto [o texto era assinado por Eduardo Moura, Isabella Menon, Guilherme Genestreti, Maria Luísa Barsanelli e Maurício Meireles] informava [Joãozinho cita trechos da matéria]: “No acalorado debate desta corrida eleitoral, pouco se ouve falar de cultura. Dos 13 candidatos à Presidência da República, apenas 5 descrevem projetos para a área em seus programas de governo. Poucos programas trazem projetos detalhados para o campo da cultura, alguns deles nem sequer tocam nesse assunto […]. Não há menções à área nas propostas de Jair Bolsonaro (PSL), atual líder nas pesquisas de intenção de voto, Cabo Daciolo (Patriota) e Henrique Meireles (MDB). Álvaro Dias (PODE) fala apenas em “cultura livre com Cartão Cultura”. José Maria Eymael (DC) lista pontos estratégicos, como “resgate e valorização da cultura e da identidade nacional”, mas não apresenta ações”. Já o programa de Haddad 13 lista um rol de compromissos que representam com legitimidade todo acúmulo de discussões e debates, transformados em planos, projetos e programas, das últimas três décadas, alguns deles inseridos na própria Constituição Federal, e outros refletindo os compromissos internacionais firmados pelo Brasil em tratados e convenções de tal magnitude, assim exemplificados em um trecho do programa [de governo do PT, registrado no TSE]: “cumprir a recomendação da Unesco e aumentar progressivamente os recursos para o MinC, visando alcançar a meta de 1% do orçamento da União”.

Homem de vícios antigos – Como você acompanha e avalia a atual divisão do Brasil, explicitada nas ruas e nas redes?

Chico Saldanha – Igual a você, Homem de vícios antigos, sou do tempo em que a pessoa que trazia dentro de si esse sentimento de raiva, de preconceito, de desrespeito às mulheres e homossexuais tinha muita vergonha de falar isso perto de quem quer que fosse. Por isso, às vezes, fico sem entender como várias pessoas, amigas, por sinal, embarcaram nessa insanidade.

Gildomar Marinho – Acompanho com bastante preocupação, notadamente, quando presenciamos elementos típicos do fascismo, como a intolerância, a desconstrução dos diferentes, o nacionalismo, a xenofobia, a LGBTfobia, com dosagens preocupantes de violência, com mortes e mutilações já registradas. As redes sociais têm se configurado verdadeiros campos de batalhas medievais, em uma espécie de vale-tudo para a aniquilação de seus oponentes que, em muitos casos, são gente do seu próprio sangue. O resultado é esta preocupante escalada da violência. Por outro lado, acompanho uma boa parte da sociedade afirmando-se com incrível senso de justiça, de civilidade e consciência de si e do seu meio. Espero que o bom senso seja vencedor.

Francisco Colombo – Como consequência do golpe político-jurídico-midiático. Desde 2013 a direita se comporta de maneira muito agressiva. Em 2014 não aceitou a derrota de Aécio [Neves, recentemente eleito deputado federal por Minas Gerais] pra Dilma. De lá pra cá, com a participação explícita do judiciário, via [o juiz Sérgio] Moro e Supremo [Tribunal Federal], as coisas caminharam para a ameaça real do fascismo nos empurrando para o precipício.

Babula Rosana – Esquizofrênica. Desinformação, manipulação da mídia e ajuda internacional para o candidato Bolsonaro.

Fábio Allex – É um mal que assola a sociedade, tendo como pauta a intolerância, a qual, no fim das contas, resume-se em uma briga partidária resultante de uma generalização. Enquanto se deveria dialogar com forças diferentes e discutir problemas reais, cai-se nesse embate contraproducente. É algo fortalecido com a figura do Bolsonaro, mas com imensa contribuição do PT. É a busca por uma suposta honra que desonra ainda mais. Só quem perde com tudo isso é o próprio país.

Tássia Campos – Tô assustada com tanta desinformação. Creio que é bem pior que ignorância. A violência está sendo legitimada pelo discurso do tal Bolsonaro. Não acredito em divisão do Brasil, acredito que o fascismo saiu do armário. Ele tava só escondido.

Franck Santos – Acompanho não só com temor como com horror, não só nas redes sociais como no corpo a corpo, com as pessoas próximas, seja nas relações familiares, de amizade ou nos locais de trabalho. Tenho muito medo do que está por vir, tenho medo dos dias sombrios, tenho medo do que possa acontecer às minorias. Tenho estado muito triste e quase deprimido. Também cansado de tentar que essas pessoas compreendam e tenham discernimento para o que é melhor, ou menos pior, para as pessoas dos meus círculos, seja virtualmente ou pessoalmente. O geógrafo Milton Santos já disse muito tempo que há “vários brasis dentro do Brasil” e estamos vendo e sentido isso na pele, olhos e coração.

Samara Volpony – Tenho acompanhado diariamente as redes sociais e também no dia a dia. O que tenho ouvido é um discurso inflamado e a relação com o outro cada vez mais comprometida: de um lado os que votam no candidato A e de outro os que votam no candidato B. As redes sociais viraram palanque do ódio, do rebaixamento do outro, e os que antes eram anônimos ganham fãs, legiões daqueles que concordam com seu pensamento, por mais grosseiro que seja. A minha avaliação é de imenso pesar, porque as pessoas perderam a capacidade de se compadecer, de ter empatia, de ouvir o outro e de pensar no outro. Esses são princípios que aprendi durante minha infância e que vou levar para sempre. As pessoas têm levado esse momento tão delicado, como se estivessem em uma partida de futebol, ainda não se deram conta da imensa responsabilidade que traz o momento, que é um princípio básico de humanidade: pensar no outro.

Adriana Gama de Araújo – O Brasil sofre de uma falta de conhecimento crônica. A nação foi “se fazendo nas coxas” e estas nem eram as do povo. Embora nós a sustentemos, nós não a pensamos. Infelizmente. E com a facilidade da circulação de informação por causa da internet e das redes sociais, as pessoas adquiriram uma falsa noção de conhecimento. Ninguém conhece nada e pensa que sabe de tudo. Política sempre foi para o povo brasileiro sinônimo de “roubalheira” e agora quem está “na mídia” como ladrão-mor é o PT. Uma parte da população decidiu lutar cegamente contra “esse mal”; a outra parte ainda acredita que “a esperança vai vencer o medo” e a corrupção. Estou ao lado dos esperançosos. Justiça cega é suicídio coletivo.

Joãozinho Ribeiro – Para mim, a grande divisão do Brasil deste momento é em grande parte circunstancial, embora não negligencie o perigo do ódio e da intolerância que se avolumaram de 2013 para cá, insuflados, irresponsavelmente, e em grande parte, pela mídia e pelo fundamentalismo religioso, além do ativismo judicial-partidário. Para mim, a grande divisão tem raízes profundas e permanentes na desproporcional desigualdade, que cega as pessoas e que as transformam numa espécie singular de um tipo de analfabetismo inusitado, assim conceituado pelo poeta Mário Quintana: “O maior analfabeto político não é aquele que não sabe ler, mas que, sabendo, se recusa a fazê-lo”. Estamos esquecendo justamente de fazer uma leitura do mundo e de suas grandes expectativas, mergulhados num analfabetismo brutalizado pelo preconceito, pela discriminação e pelo fascismo, ressurgindo em variadas formas em todos os cantos do planeta. Este ano a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 70 anos, as grandes revoltas estudantis de 1968, a Primavera de Praga e o famigerado AI-5, 50; a Constituição da República Federativa do Brasil, 30. Portanto um ano que merece ser prestigiado pela afirmação da cultura da paz e pelo reencantamento do mundo.

Um compositor de grandes canções

Retrato: Mayra Lins. Selo Sesc. Divulgação

 

Em 1985, interpretada por Tetê Espíndola no Festival dos Festivais da Rede Globo, Escrito nas estrelas, parceria de Carlos Rennó com Arnaldo Black, tornou-se para sempre um hit radiofônico, graças à vitória naquele certame. Muita gente até hoje assovia a música, que abre com os versos “você pra mim foi o sol/ de uma noite sem fim”, imortalizados pelos agudos da cantora sulmatogrossense, quase sempre sem saber quem são seus autores.

Nascido em São José dos Campos/SP em 29 de janeiro de 1956, Carlos Rennó é compositor, escritor e jornalista, tendo trabalhado na década de 1980 no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo. Em 1996 organizou Todas as letras: Gilberto Gil [Companhia das Letras]. Em 2000 assinou a produção artística do disco Cole Porter, George Gershwin: canções e versões [Geleia Geral], com composições do norte-americanos vertidas ao português e interpretadas por nomes como Caetano Veloso, Cássia Eller, Chico Buarque, Elza Soares, Rita Lee e Tom Zé, entre outros.

Carlos Rennó conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos. O telefonema aconteceu em agosto, após a entrevista ser adiada algumas vezes diante da agenda apertada do artista, às voltas com novos projetos. O mote: suas canções de letras quilométricas que têm lançado um olhar poético e político sobre diversos temas da realidade brasileira.

Modestamente, digo sem medo de errar: Carlos Rennó é o autor das maiores canções brasileiras do século 21. E não me refiro apenas à extensão de suas letras. Ao blogue ele falou sobre esta faceta mais recente de sua obra, parcerias, política, além de disco e livro que pretende lançar ainda este ano.

Você ficou bastante conhecido graças ao sucesso de Escrito nas estrelas, parceria com Arnaldo Black, gravada pela Tetê Espíndola em 1985, vencedora do Festival dos Festivais da Rede Globo. Outra faceta que merece destaque no campo musical de tua carreira, que a gente sabe que tem outras vertentes, jornalista, escritor, é o trabalho como versionista, sobretudo do cancioneiro americano. Como é que tem sido nos últimos tempos se dedicar a mergulhos de maior fôlego como letrista?
Tem sido a tônica do meu trabalho. Nos últimos anos é um aspecto a se destacar em meu trabalho, a criação de determinadas canções de temática política, escorada em letras longas, algumas bastante longas, como foram os casos de Reis do agronegócio, com Chico César, e também com Chico César, Demarcação já!, que foi gravada por 23 cantores, defendendo a causa indígena principal, que é a de demarcação de terras, e este ano, Manifestação, uma letra também de mais de 100 versos, a exemplo de Demarcação já!, que foi musicada por três parceiros, o Russo Passapusso, do BaianaSystem, o Rincon Sapiência, que fez a parte do meio, que é de rap, ele fez a divisão ali, e o Xuxa Levy, que fez a melodia do refrão e foi o produtor da música, que teve a gravação de 30 vozes. Mais recentemente, saiu o quê?, há duas semanas, Nenhum direito a menos, com o Paulinho Moska, que é uma canção mais curta.

Mais curta, mas ainda assim longa [risos].
É. Considerando a extensão média das canções é notoriamente mais longa. Isso tem marcado meu trabalho nos últimos anos. Antes de Reis do agronegócio teve Quede água, com Lenine.

Eu estava lembrando, além dessas que você falou, de Todas elas juntas num só ser, que não é essencialmente política, mas que a letra também é longa.
É, já é de 2005.

Um aspecto que eu ia destacar nessas tuas composições, é que elas estão entre as maiores, tanto em qualidade quanto em duração, em termos de tempo, fugindo do padrão radiofônico, e de versos, não é uma coisa de uma introdução longa ou um improviso de um músico pelo meio, quer dizer, o tempo que elas têm, as que têm seis minutos, as que têm 10 minutos, elas são o tempo todo cantadas. Então: letras longas, como você já frisou. Isso as coloca, em minha opinião, entre as maiores canções já escritas no século 21 no Brasil.
Em extensão, você quer dizer.

Em extensão e em qualidade, eu arrisco dizer.
Puxa, eu agradeço seu elogio [risos]. Em termos de extensão de versos não há dúvida, não há dúvida. Reis do agronegócio tem 96 versos, Demarcação já! tem 114, Manifestação, 117.

Como foi chegar nesse padrão? Se bem que não dá para falar em padrão por que cada música tem uma história, mesmo elas transitando nessa seara mais política, mas como é que foi pensar nesse formato mais longo?
Eu tinha uma tendência a fazer letras longas, por influência de alguns compositores importantes na minha formação, compositores letristas, como Cole Porter, como Bob Dylan, e mesmo Caetano, Chico Buarque, que têm algumas letras compridas. E aí aconteceu o seguinte: até um período, até metade da minha carreira desenvolvida até hoje, eu mais escrevia letras sobre música pré-existente do que o contrário. E aí eu passei a fazer, a partir de um determinado momento, mais letras sem música, para serem musicadas. E aí nesse processo, influi mais no meu trabalho de compositor a formação literária. A formação e a informação literária, de poesia. E aí eu tendo a fazer letras mais longas, por causa da influência de alguns poetas e de alguns poetas de música, entre os quais eu citei alguns, que tendem a fazer letras longas, ou poemas longos, e versos metrificados. Então minhas letras tendem a ter, quando feitas antes de uma melodia pré-existente, elas tendem a ter um formato fixo de estrofes e de versos metrificados. É o caso de Nenhum direito a menos, por exemplo, são seis sextilhas, não seguindo rigorosamente a regra da sextilha, por que tem rimas emparelhadas, o final do primeiro [verso rimando] com o final do segundo, o final do terceiro com o final do quarto e o final do quinto com o final do sexto. E aí além das seis sextilhas, um verso que é o refrão, então são cinco estrofes de seis versos mais o refrão. No caso de Manifestação também tem uma fórmula rigorosa que eu estabeleci antes de escrever a letra, ou no começo de quando eu estava escrevendo. Tem três partes: a primeira parte, 10 redondilhas maiores, versos de sete sílabas, que é a parte cantada, a melodia, aí vêm duas estrofes de oito versos, são decassilábicas, às vezes dodecassílabos, que é a parte do rap, e aí o refrão, um refrão curto de três versos mais curtos.

Rennó, quando eu te provoquei a falar, o mote eram essas cinco letras longas, incluindo Todas elas juntas num só ser, que é menos política, e no meio saiu Nenhum direito a menos.
Teve também Ecos do ão, com Lenine, além de outras com Lenine, É fogo, isso é só o começo.

Essas que a gente citou, além das que você citou agora, Todas elas juntas num só ser, Quede água, Reis do agronegócio, Demarcação já!, Manifestação, e agora Nenhum direito a menos, todas elas primeiro letra depois melodia feita pelos parceiros?
Isso.

No caso de Manifestação e, antes, Demarcação já!, a experiência de gravar com um grande número de artistas, como é que é arregimentar esses times? Eu acompanho pelas redes sociais e você acaba se envolvendo muito com a produção das faixas. Como é essa experiência?
Eu realmente acabo sendo produtor artístico. Para alguns isso é muito difícil de fazer, não têm paciência para isso. É um trabalho que realmente requer paciência, não só paciência. Eu faço com certa naturalidade. Trata-se de projetos meus, projetos que saíram da minha cabeça, e eu sei que se eu não fizer esse trabalho de convidar um a um os artistas e ficar em contato, com produtor, ir a shows, eventualmente tenho que fazer isso, ir a shows de artistas para falar com eles pessoalmente, o que não é um problema, por que se são artistas que eu quero para um projeto meu são artistas cujo trabalho eu aprecio, então é um prazer ver o show. Mas às vezes isso é por trabalho mesmo. Então é um trabalho trabalhoso esse da produção artística, mas que eu faço por que se vincula a projetos que eu concebi.

No caso de Manifestação, o que veio antes, a letra dela ou a decisão de ela servir às comemorações de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Anistia Internacional?
Ah, não, veio antes a letra. O que aconteceu foi o seguinte: um ano antes eu tinha feito Demarcação já!, na verdade um ano e meio antes eu tinha composto Demarcação já! e vieram umas pessoas, uns ativistas do Greenpeace aqui em casa, para conhecer uma canção minha com [o guitarrista paraense] Felipe Cordeiro sobre hidrelétricas da Amazônia, canção essa que vai sair agora num cd que eu vou lançar com canções minhas em setembro, pelo Selo Sesc, e eles acabaram conhecendo uma gravação demo que eu tinha de Demarcação já! A canção ia ao encontro de uma campanha que o Greenpeace tinha pela demarcação de terras indígenas. Por isso acabou servindo a essa campanha e o Greenpeace se tornou um grande parceiro na produção da música, do vídeo, que ficou maravilhoso, aqueles artistas incríveis. No caso de Manifestação foi a mesma coisa: eu estou escrevendo Demarcação já!, eu comecei a trabalhar em Manifestação. Inicialmente me dediquei quatro meses exclusivamente à feitura da letra e quando eu tinha a coisa em mente e à medida em que fui fazendo a letra, o que eu tinha em mente, dentro do tema, de assunto, de causa, se confirmou. E aí eu vi que aquilo combinava com a campanha da Anistia Internacional por direitos humanos da mesma forma que a letra de Demarcação já! combinava com a campanha do Greenpeace pela demarcação de terras indígenas. Aí eu já conhecia uma ativista da Anistia, a Jandira Queiroz, que eu conheci na casa de uma amiga comum, a cantora Luciana Oliveira, e apresentei pra ela a ideia e ela achou ótima. Eu já tinha inclusive falado um trechinho pra ela da letra, e aí o pessoal da Anistia curtiu e foi ótimo, deu certo. Mas sempre assim: a canção pré-existiu em relação ao projeto, à parceria, à utilização da música para campanhas dessas duas organizações.

A gente vê nessas obras todas que são o mote principal dessa entrevista uma preocupação profunda e constante com a necessidade de uma tomada de posição. Você toca em temas muito sensíveis da realidade brasileira: demarcação de terras indígenas, o esgotamento dos recursos hídricos, são várias pautas pelas quais você passeia nessas canções de fôlego maior. Como você enxerga o papel do artista diante de tantos desmandos? O Brasil vive um momento terrível de sua história, você tem se posicionado. Você acha que o artista tem essa obrigação ou deveria ter? Como você avalia isso?
Eu não acho que o artista tenha obrigação de expressar em seu trabalho uma preocupação, uma visão, uma sensibilidade em relação a esses aspectos da realidade brasileira. Não tem a obrigação disso. Mas ele pode ter, não é? [risos]. No meu caso, sim, existe essa preocupação em comentar poeticamente na arte que eu pratico, a arte da canção popular, que eu considero importante, o que está acontecendo no plano social, político, no Brasil e no mundo.

Entre as participações de Demarcação já! está a Sônia Guajajara, que hoje é pré-candidata a vice-presidente da república, na chapa encabeçada pelo Guilherme Boulos. Como você está sentindo esse momento de Brasil, desde que Dilma foi tirada do poder, Temer assumiu e Lula foi preso? Vem uma eleição com uma ameaça real de um candidato reacionário, de extrema-direita. A eventual eleição de Bolsonaro seria o Brasil ter uma nova ditadura, agora pela via do voto.
O Brasil vive um grande retrocesso no plano da mentalidade social e no plano político, econômico. É algo para tirar o que chamam de esperanças, a curto e a médio prazo. É uma onda de direita que vem tomando conta não só do Brasil e isso é muito ruim para o que já foi conquistado e vem se perdendo. A melhor coisa nesse quadro eu acho justamente a candidatura da Sônia Guajajara, pelo que significa, pelo que ela simboliza. Uma candidata indígena e só mesmo talvez uma candidata indígena para ter a consciência ao mesmo tempo social e ambiental que necessariamente um político tem que ter hoje no mundo, não só no Brasil. Particularmente no Brasil por que nós temos aqui caminhando juntas uma desigualdade social abissal e uma devastação avassaladora, coisas a que a nossa sociedade assiste dormindo. Particularmente a devastação ambiental. Não há uma consciência aguda disso e lamentavelmente não há uma consciência disso, nem na esquerda, haja vista governos que tivemos, do PT, de Lula e Dilma, que, se por um lado fizeram totalmente o que um governo tinha que fazer desde o começo da história do Brasil independente, ou seja, olharam e fizeram pelas classes desfavorecidas o que nunca ninguém havia feito, por outro lado, do ponto de vista ambiental, eles foram governos que agiram igualzinho aos governos de direita. Por que, justamente, a sensibilidade ambiental prevalente no PT é uma visão de desenvolvimento idêntica à da direita. Entende? Que não leva em conta o fato de que a natureza se meta, a coisa do crescimento, que é algo tipicamente capitalista. O capitalismo quer sempre indefinida e infinitamente crescer e crescer e crescer. Isso não é mais possível. Tem que se pensar em salvar o planeta, a civilização, a maior parte da humanidade, incluindo os excluídos. Por que se forem incluir os excluídos, como sugere a letra de Manifestação, aí só resta uma coisa: acabar a desigualdade. Pra salvar o mundo é preciso acabar com a desigualdade. De um lado a riqueza, o acúmulo e o desperdício de riqueza pelas classes dominantes no Brasil e no mundo são absurdos. E a gente sabe há muito tempo que o que eles acumulam e desperdiçam daria muito bem para não só para matar a fome dos famintos, mas para dar educação para todos. A conjugação de social e ambiental nunca foi tão premente. Na verdade já é há 20 anos, mas a sociedade assiste à devastação dormindo, como eu disse. Incluindo a esquerda, boa parte da esquerda. Então, nesse quadro, a chegada de uma política como a Sônia Guajajara, que para mim não é vice-presidente, ela é copresidente, junto com o Boulos, essa chegada, pra mim, é pra ser celebrada, por que ela representa uma política de fato feminina, que é a única coisa capaz de salvar nosso futuro de uma característica prevalentemente catastrófica. Uma política feminina, ou seja, que leve em conta [enfático:] a mulher que é a mãe natureza. Mãe natureza por que é mulher. A política desenvolvimentista destrutivista da natureza é uma política machista. E é a que prevalece na esquerda [risos]. Lamentavelmente.

Portanto é tua chapa?
É, é a minha chapa. É em quem eu vou votar no primeiro turno.

Eu queria destacar outro aspecto da Sônia Guajajara. Além de tudo que você enumerou, é maranhense. Qual a tua relação com o Maranhão? O que você conhece daqui, gosta?
Eu fui aí apenas uma vez. Não faz muito tempo, gostei muito. Fiquei assim de voltar, conheci as pessoas que me levaram, muito legais, amigas. Gostei de São Luís, fui a Pinheiro, curti também. Eu gostei muito do que vi e senti aí. Maranhão, da minha amiga Sônia Guajajara [risos].

Poesia – Canções de Carlos Rennó. Capa. Reprodução

Para fechar: essa entrevista demorou um pouco a acontecer, você estava sempre com a agenda lotada, me pedia uma semana, outra. Mas finalmente aconteceu. Essa agenda lotada indica que você está aprontando coisa. O que vem aí de Carlos Rennó, em 2018, 2019?
[Risos] Pois é, eu estou muito ocupado mesmo com a realização de alguns projetos importantes. Um reúne um disco pelo Selo Sesc [Poesia – Canções de Carlos Rennó, R$ 20], comemorando 40 anos da primeira gravação de uma canção minha [Pássaro no cerrado, de 1978]. Vai sair pelo Selo Sesc com vários parceiros, são 16 faixas e parcerias que vão de Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola a Lenine, Chico César, Moska, Gilberto Gil, João Bosco, Zé Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Moreno Veloso. É um disco que vai sair junto com um livro, pela Perspectiva, com letras minhas, com boa parte da minha produção de letras. Esse livro, por sua vez, vai trazer embutido um álbum digital, com mais cerca de 16 canções, com vários parceiros. Eu estou às voltas com a finalização disso, desse disco e desse livro, com a preparação do show, hoje mesmo nesse momento, desligando o telefone aqui, eu vou estar às voltas com a necessidade de resolver problemas urgentes sobre esse show, a definição do elenco, vai ter uns oito artistas nesse show, então eu estou às voltas com esses trabalhos todos nesse momento [nota tardia do blogue: os shows aconteceram dias 26 – com Moreno Veloso, Chico César, Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola – e 27 de setembro – com Marcelo Jeneci, José Miguel Wisnik, Moreno Veloso, Tetê Espíndola, Ellen Oléria e Rubi – no Sesc Bom Retiro, em São Paulo].

Ouça Poesia – Canções de Carlos Rennó:

Nem mortos!

Biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Belchior, Chacrinha, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio imaginam quais seriam os votos de seus biografados no Brasil de hoje

O jornalista escocês Andrew Downie, autor de Doutor Sócrates: Futebolista, Filósofo e Lenda [Simon & Schuster, 400 p., ainda sem tradução no Brasil], declarou hoje (19) ao jornal Folha de S. Paulo: “Esses caras hoje em dia são o contrário do Sócrates. Ganham muito mais e se importam muito menos com o lugar de onde eles vêm. Sócrates era imprevisível e não posso falar por ele, mas creio que ele estaria chocado em ouvir jogadores do Corinthians ou de qualquer time grande, como Palmeiras ou Tottenham, falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”.

Downie se referia ao apoio de nomes como Felipe Melo (Palmeiras), Lucas Moura (Tottenham, da Inglaterra), Jadson e Roger (Corinthians) ao candidato de extrema-direita à presidência da república Jair Bolsonaro (PSL). O contraponto proposto pelo biógrafo se ancora, por exemplo, na atuação de Sócrates em movimentos como a Democracia Corintiana e a campanha Diretas Já!, ambas na década de 1980.

Homem de vícios antigos conversou com exclusividade com biógrafos de Sócrates, Tarso de Castro, Wander Piroli, Chacrinha, Belchior, Clarice Lispector e Sérgio Sampaio, que, baseados no profundo conhecimento que têm de suas personagens, imaginaram quais seriam seus votos no Brasil de hoje.

Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Capa. Reprodução

Também biógrafo de Sócrates [Sócrates. A história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro. Objetiva, 2014, 264 p.], o jornalista Tom Cardoso, ao mesmo tempo em que acredita que o ex-jogador poderia estar ainda mais à esquerda, reconhece sua postura libertária. “Acho que ele jamais concordaria com um clube tutelar, ele diria que o jogador é livre para se posicionar politicamente, seja ele eleitor do PT ou do Bolsonaro”, disse. “O Sócrates não ficaria surpreendido com o voto de algum jogador no Bolsonaro. Talvez ele discordasse, claro, como um homem progressista, de esquerda, de um eleitor do Bolsonaro. Mas ele não ficaria assustado com isso, ele sabia, deu várias declarações dizendo que o futebol brasileiro era muito conservador, era um espelho da sociedade”, continua.

“Ele achava que o PT, de quem ele acabou se tornando um crítico, tinha feito essa guinada ao pragmatismo político, através da Carta ao Povo Brasileiro, então eu tenho dúvidas se ele não estaria mais à esquerda do [Fernando] Haddad [candidato do PT] e não estaria mais entusiasmado pelo PSol, por exemplo”, imagina. Cardoso lembrou ainda que Sócrates chegou a ser secretário municipal de Esportes em Ribeirão Preto/SP numa das gestões de Antonio Palocci, tendo permanecido apenas seis meses no cargo, “ele meio que se desiludiu um pouco com aquela coisa preguiçosa da máquina do estado”. O camisa 8 também teria recusado diversos convites do PT para assumir o ministério dos Esportes na gestão de Lula. “Hoje, eu acho que ele votaria no Haddad, mas também poderia votar no Ciro [Gomes, candidato do PDT] ou no próprio [Guilherme] Boulos [candidato do PSol]”, opina.

75 kg de músculos e fúria. Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros. Capa. Reprodução

Indago sobre Tarso de Castro [75 kg de músculos e fúria – Tarso de Castro: a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros, Planeta, 2005, 280 p.], outro biografado de Tom Cardoso. “O Tarso é mais difícil. Eu acho que ele pregaria um voto útil contra o Bolsonaro. Tem o Ciro, que é do PDT do [Leonel] Brizola, mas não tem nada de brizolista, o Tarso era brizolista, antes de tudo, mas tinha simpatia pelo Lula, fez uma grande entrevista com o Lula, acho que em 1982, para a [revista] Careta. Acho que ele estaria inclinado pelo voto a quem tivesse mais chance para ganhar do Bolsonaro”, especula sobre a posição do jornalista, da patota do Pasquim.

Belchior. Apenas um rapaz latino-americano. Capa. Reprodução

O biógrafo Jotabê Medeiros foi direto sobre que opinião teria Belchior [Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, Todavia, 2017, 237 p.] sobre o capitão reformado do exército: “Belchior era antifascista. Foi combatente da liberdade até a morte – embora afastado da vida social, angustiava a ele o mergulho que o Brasil deu na via antidemocrática nos últimos anos. Sua defesa da liberdade o posta como um claro adversário de tudo o que Bolsonaro representa”, diz.

O jornalista aposta no voto do compositor cearense: “Belchior é Lula. Lula é Belchior. Ele estaria com o maior líder popular do País em todos os tempos. Caminharia ao lado de Haddad, não tenho a menor dúvida”, coloca as fichas.

“Um compositor que escreveu “um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha”, identificando os alvos prioritários dos ataques de racismo, exclusão e misoginia, sempre demonstrou saber perfeitamente quem são os inimigos a serem combatidos”, arremata.

Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito. Capa. Reprodução

Mais comedido é Fabrício Marques, biógrafo de Wander Piroli [Wander Piroli. Uma manada de búfalos dentro do peito, Coleção Beagá Perfis, Conceito Editorial, 2018, 256 p.]. “Seria leviano de minha parte tentar adivinhar as posições políticas do Wander Piroli. O que posso pressupor, com base nas opiniões dele, é que ficava indignado especialmente com a desigualdade social de nosso país e com as injustiças contra minorias. Como afirmou o jornalista João Paulo Cunha, a principal característica do jornalista e escritor mineiro foi o compromisso humano. Acho que essa postura dá pistas sobre as inclinações dele”, comenta.

Chacrinha. A biografia. Capa. Reprodução

Biógrafo do pernambucano Abelardo Barbosa, que fez fama como Chacrinha [Chacrinha: a biografia, Casa da Palavra/Leya, 2014, 328 p.], Denilson Monteiro segue a linha de Marques: “Seria muito arrogante da minha parte determinar qual seria o pensamento do Chacrinha se estivesse vivo hoje. Mas analisando tudo o que ele sofreu durante a ditadura civil-militar, tendo até sido preso, acredito que ele jamais apoiaria um candidato simpático a esse período tão perverso da história do país”, lembra.

Mas arrisca-se a opinar sobre o “não-voto” do velho Guerreiro em um possível segundo turno: “Partindo do que eu respondi anteriormente, o que  acredito é que num segundo turno, Chacrinha, que participou da campanha das Diretas, jamais votaria em um candidato como Jair Bolsonaro”, afirma.

Clarice,. Capa. Reprodução

Opiniões parecidas têm os biógrafos de Clarice Lispector e Sérgio Sampaio. O americano Benjamin Moser, autor de Clarice, [Companhia das Letras, 2017, 576 p.], afirma: “Clarice teria compartilhado o mesmo nojo que todos sentimos quanto a este senhor. Creio que estaria apoiando Fernando Haddad, mas é impossível saber ao certo”.

Rodrigo Moreira, autor de Eu quero é botar meu bloco na rua! [Muiraquitã, 3ª. edição, 2017, 288 p.], biografia do cantor e compositor capixaba, opina: “Como não cheguei a conhecer Sérgio, não sei precisar qual era sua orientação política, mas decerto seria de esquerda ou centro-esquerda. Sendo assim, acho improvável que uma candidatura como a de Bolsonaro o seduzisse. Arrisco dizer que ele votaria no Haddad ou no Ciro”.

Eu quero é botar meu bloco na rua. Capa. Reprodução

O capitão não conseguiu capitalizar o lamentável atentado à faca que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de Fora/MG, no último dia 6 de setembro e, internado desde então, enfrenta, para usarmos metáforas do campo que abre este texto, o futebol, trombadas de gente que veste o mesmo uniforme: sua rejeição, que já era grande, cresce a cada declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), e de seu principal conselheiro na área econômica, Paulo Guedes, a quem o candidato apelidou “posto Ipiranga”. Nas últimas pesquisas, o candidato tem oscilado dentro da margem de erro.

Pelo visto, a rejeição ao ideário autoritário do deputado é grande também entre personalidades que permanecem vivas através de suas obras. Não é mesmo estranho ouvir de alguém, quando perguntado se votaria em Bolsonaro: “nem morto!”.

Contra a discriminação

A marcha. Capa. Reprodução

 

A graphic novel A marcha [título original: March: book one; 2018, 128 p.; R$ 45], cuja primeira parte (de três) foi recentemente publicada no Brasil pela Nemo, poderia ser apenas uma espécie de publicidade travestida de história em quadrinhos.

É o que podem dizer os apressados ou adeptos de teorias da conspiração, sobretudo os que, cá no Brasil, parecem viver ainda no tempo em que se passa a história – entre as décadas de 1950 e 60. Explico: traduzida por Érico Assis, a graphic novel leva a assinatura de John Lewis, Andrew Aydin e Nate Powell.

Somente o terceiro é da área, romancista gráfico com um Eisner na bagagem, por Any Empire, Swallow me Whole. O primeiro é o deputado do subtítulo da história – John Lewis e Martin Luther King em uma história de luta pela liberdade – e o do meio, seu assessor.

O subtítulo diz perfeitamente do que se trata e terminam aí quaisquer especulações em contrário: a narrativa fluida e muito bem desenhada, toda em preto e branco, remonta às lutas pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos, de que Lewis acabaria por tornar-se um líder (é deputado desde a década de 1980, justificando a confiança dos que lhes depositam os votos).

Nesta primeira parte da história, o deputado recebe crianças em seu gabinete, e reconta sua trajetória, da infância na pequena propriedade da família, em que sua relação com as galinhas e com a Bíblia já pareciam desenhar o futuro militante da não-violência.

Adiante, reconta os sit-ins que organizou: grupos de negros ocupavam balcões de lanchonetes que, à época, podiam escolher quem servir ou não de acordo com a cor da pele. Este tipo de protesto, inteligente e não-violento, levou à derrubada das leis Jim Crow, que institucionalizavam a segregação racial americana.

Revelada ao longo da graphic novel, sua inspiração foi a história em quadrinhos Martin Luther King e a história de Montgomery, publicada pela FOR [sigla de The Fellowship of Reconciliation, a Irmandade da Reconciliação], “que explicava os princípios da resistência passiva e da ação não-violenta como ferramentas para a dessegregação”.

130 anos depois de abolir a escravidão, o Brasil ainda não superou o ranço escravocrata e o racismo, embora não institucionalizado, segue vigente, sob camadas de hipocrisia disfarçadas de brincadeiras e/ou não alinhamento ao politicamente correto.

Uma leitura fundamental em um país em que a classe média adora papagaiar os norte-americanos e, sob a égide de um golpe, parece querer retroceder em se tratando de direitos humanos – expressão em geral deturpada.

Romance de jornalista revê governo Médici a demonstrar a atualidade da tragédia brasileira

Tempos de cigarro sem filtro. Capa. Reprodução

A prosa de José Maschio, seca, mas com ginga, de frases curtas, a incorporar o espírito das ruas e dos botecos, encontra pares em autores como João Antonio (1937-1996) e Marcelino Freire.

Autor experimentado em redações e salas de aula, praticando e ensinando o jornalismo em que se formou na Universidade Estadual de Londrina/PR e com o qual percorreu o país inteiro como repórter de jornais como Paraná Norte e Folha de S. Paulo.

Paulista de Echaporã, em seu Tempos de cigarro sem filtro [Kan Editora, 2017, 150 p.] entrecruzam-se diversas histórias de vida, em um Brasil sob a égide do golpe militar de 1964, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, apelidado Carrascoazul por um personagem.

Maschio é elegante e tem domínio absoluto da linguagem ao abdicar de travessões ou aspas para marcar as falas de suas personagens, que acabam fundidas às do narrador, sem fundir a cuca do leitor, que ligeiro se vê fisgado pelo enredo, seus vários núcleos e suas mazelas particulares.

Ficção alicerçada em fatos e personagens reais – de cujo destino Maschio é também senhor –, trama política e policial com cheiro de povo: toda a sorte de relações mediada por afetos, traições, dinheiro miúdo, o equilíbrio na corda bamba da sobrevivência, falso moralismo, hipocrisia, politicagem, corrupção, a crueldade da ditadura militar, com torturas, desaparecimentos e assassinatos, e tudo o que acabou virando sinônimo de Brasil para o bem e para o mal, parte disso a reverberar ainda nos tristes tempos atuais, em que o país vive sob a égide de outro golpe.

Nem na ficção ditadura é solução, como se percebe em Tempos de cigarro sem filtro, o título a fazer trocadilho com o que se propõe: revelar um Brasil brasileiro, sem filtro, desde a coloquialidade da prosa até a escolha dos protagonistas, trabalhadores, gente simples que poucos se dispõem a enxergar, quanto mais a retratar.

O Brasil golpeado de hoje é resultado de uma redemocratização frágil, que nunca puniu sequer um agente da repressão. O problema é que os que pedem intervenção militar não leem sequer ficção.

O homem que virou livro

 

Na noite do último dia 5 de julho, os poetas Celso Borges e Fernando Abreu organizaram, em São Luís, a Noite Lula Livre, no Chico Discos, em que venderam pôsteres com os poemas Now, do primeiro, e Ainda assim um poema, do segundo. Parte do dinheiro arrecadado foi destinada ao acampamento Marisa Letícia, nas imediações da sede da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-presidente da República e líder nas intenções de voto em qualquer pesquisa eleitoral para o próximo pleito está preso há mais de 100 dias.

Lula Livre Lula Livro. Capa. Reprodução

Com estes poemas, os poetas maranhenses participam do livro Lula Livre Lula Livro [2018, 184 p.], organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire, reunindo 86 autores, entre escritores e desenhistas. A lista é longa e gabaritada: Ademir Assunção, Ademir Demarchi, Adriane Garcia, Afonso Henriques Neto, Alberto Lins Caldas, Aldir Blanc, Alice Ruiz, Andréa Del Fuego, Antonio Thadeu Wojciechowski, Artur Gomes, Augusto de Campos, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Beatriz Azevedo, Bernardo Vilhena, Binho, Caco Galhardo, Carlos Moreira, Carlos Rennó, Celso Borges, Chacal, Chico Buarque, Chico César, Claudio Daniel, Diana Junkes, Douglas Diegues, Edmilson de Almeida Pereira, Edvaldo Santana, Eltânia André, Eric Nepomuceno, Evandro Affonso Ferreira, Fabio Giorgio, Fabrício Marques, Fernando Abreu, Ferréz, Frei Betto, Gero Camilo, Gil Jorge, Glauco Mattoso, Jessé Andarilho, Jorge Ialanji Filholini, Josely Vianna Baptista, Jotabê Medeiros, Juvenal Pereira, Karen Debértolis, Laerte, Lau Siqueira, Linaldo Guedes, Lucas Afonso, Luciana Hidalgo, Luiz Roberto Guedes, Manoel Herzog, Marcelino Freire, Márcia Barbieri, Márcia Denser, Maurício Arruda Mendonça, Noemi Jaffe, Patrícia Valim, Paulinho Assunção, Paulo César de Carvalho, Paulo de Toledo, Paulo Lins, Paulo Moreira, Paulo Stocker, Pedro Carrano, Raduan Nassar, Raimundo Carrero, Ricardo Aleixo, Ricardo Silvestrin, Roberta Estrela d’alva, Rodrigo Garcia Lopes, Ronaldo Cagiano, Rubens Jardim, Sandro Saraiva, Sebastião Nunes, Seraphim Pietroforte, Sérgio Fantini, Sérgio Vaz, Sidney Rocha, Susanna Busato, Tarso de Melo, Teo Adorno, Vanderley Mendonça, Waldo Motta, Wellington Soares, Wilson Alves Bezerra e Xico Sá.

Ao final do volume, um recado direto e corajoso: “impresso em julho de 2018 em São Paulo, pela liberdade do ex-presidente Lula e contra o golpe de 2016”.

Há textos escritos especialmente para o volume; outros, surgidos no calor e emoção dos acontecimentos, juntaram-se àqueles; e há ainda textos (mais ou menos) conhecidos do brasileiro médio interessado por política e cultura, para além dos boatos e do ódio disseminados na velocidade da luz sobretudo em grupos de família no whatsapp.

Foto de Juvenal Pereira. 1989

Entre estes, que reaparecem ali, o discurso de Raduan Nassar, lido em 17 de fevereiro de 2017, por ocasião da entrega do Prêmio Camões 2016. O então ministro da Cultura Roberto Freire (quem lembra?) chegou a insinuar, à época, que o autor de Lavoura arcaica deveria abdicar do prêmio, já que considera o governo que fazia sua entrega – junto ao governo português – ilegítimo. “O escritor paulista fez questão de participar desta antologia com a publicação deste texto histórico, inédito em livro”, adverte nota antes do discurso.

Também aparecem nas páginas de Lula Livre Lula Livro o requerimento de Frei Betto à juíza Carolina Moura Lebbos, datado de 8 de maio deste ano, em que o frade dominicano solicita à autoridade “permissão de visitar periodicamente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir do próximo mês de julho, segundo data, horário e critérios estabelecidos pela senhora”.

Lula angariou mundo afora incontáveis títulos de Doutor Honoris Causa, em universidades de diversas partes do mundo. O ex-torneiro mecânico nascido em Garanhuns, interior de Pernambuco, contrariou qualquer lógica e acabou por tornar-se presidente da República e maior líder político da América Latina destes tempos. Aqueles que são incapazes de reconhecer sua grandeza, continuam desdenhando, de forma grosseira e desqualificada, tratando Lula por analfabeto e cachaceiro.

Uma estatística divulgada à larga na imprensa após certo período de Lula na prisão, dava conta dos livros lidos por ele no cárcere, declinando os títulos lidos e a média – absurda, para os reacionários que julgam-no por si próprios no quesito leitura – de 55 páginas lidas por dia. Entre os vários títulos lidos por Lula está a biografia Belchior: apenas um rapaz latino-americano, do jornalista Jotabê Medeiros. O escritor comparece ao volume com a Carta a Lula leitor, missiva aberta que publicou em seu blogue.

“Certamente não me parece sensato imaginar que os escritores escrevam também pensando num leitor gigante. Um leitor maior que sua imaginação, capaz de colocar milhares de crianças em ônibus novos no interior do Maranhão, da Paraíba e do Piauí indo pra escola pela primeira vez; capaz de dar fim a um ciclo centenário de mortalidade infantil; capaz de dar oportunidades para bisnetos e trinetos de escravos de se bater igualmente na mesma academia dos bisnetos e trinetos de seus algozes; capaz de nocautear um destino histórico de submissão, de autopiedade”, enumera Jotabê, apontando mazelas às quais o Brasil foi, infelizmente, devolvido, após Dilma Rousseff, sucessora e correligionária do petista, ter sido arrancada do cargo ao qual foi legitimamente eleita, pelo golpe de 2016.

Laerte. 2018

A saga de Lula tem ares kafkianos e não à toa Joseph K., protagonista de O processo, é citado no texto de apresentação da obra. Há tempos não se via no Brasil reunião de escritores tão volumosa e vigorosa. Para os organizadores, a publicação manifesta o inconformismo dos autores, “que consideram a prisão de Lula uma aberração jurídica-política-midiática, com o objetivo maior de tirá-lo das eleições presidenciais deste ano, no tapetão, na cara-dura”, como afirmam no texto de introdução do volume.

“O propósito do livro é criar mais um fato de repercussão, a partir da tomada de posição dos escritores, poetas e cartunistas, para engrossar os movimentos nacionais e internacionais contra a farsa da prisão do ex-presidente – e o golpe antidemocrático que representa a sua exclusão do processo eleitoral de 2018”, continuam.

E voltando a Kafka: “O processo que assistimos no Brasil contemporâneo, contra uma figura pública central da história política dos últimos 40 anos, guarda semelhanças e dessemelhanças com o enredo kafkiano: se o seu desenrolar expõe uma lógica absurda, suas origens e fins são muito delineáveis”.

“Travestido com togas cheias de furos e remendos, simulação grosseira dos ritos legais que deveriam nortear a Justiça (com J maiúsculo), ele obedece a princípios e a um calendário com objetivo calculado: eliminar da disputa presidencial de 2018 o candidato com mais chances de vitória”.

Além da versão impressa, a íntegra do livro será disponibilizada em um site na internet. Organizadores e autores seguem em busca de parcerias com movimentos sociais e interessados em geral para a impressão e distribuição de mais exemplares. A causa é nobre.

O livro é também uma demonstração de carinho e força: mais que um homem ou um político, Lula é uma ideia. E ideias não se aprisionam. Em paz com sua consciência, ainda preso ou já em liberdade, é mais um livro que ele vai ler. Terão seus algozes a curiosidade, coragem, disposição e grandeza de fazer o mesmo?

Ainda queima a esperança

A lona do circo da Turma do Biribinha. Foto: Zema Ribeiro

 

Termina amanhã (17) em São Luís a programação do Sesc Circo.

Na programação do Palco Giratório, que antecedeu o Sesc Circo, vi um espetáculo, quinta-feira passada (12), intitulado Magia. Era da Companhia Teatral Turma do Biribinha, de Alagoas, e unia, com simplicidade e competência, os ambientes mágicos do circo e do cinema.

Teófanes Antônio Leite da Silveira, o palhaço Biribinha, completa 60 anos de carreira em 2018. Em Magia, convida pessoas da plateia a interagir com ele no palco, longe de qualquer possibilidade de constrangimento – não faltaram, aliás, candidatos, sob a lona absolutamente lotada.

O espetáculo é um conjunto de esquetes que homenageiam do Gene Kelly de Cantando na chuva ao Charlie Chaplin de tantos clássicos do cinema mudo, passando também pelo universo do faroeste, entre outros.

Diversão e risos garantidos, além de uma viagem à infância e ao universo lúdico do picadeiro, de que o palhaço é senhor absoluto, ainda mais no caso de Biribinha de Arapiraca.

Com classificação indicativa livre, havia muitas crianças na plateia, mas criança não anda só. A determinada altura, enquanto agradecia os que participavam de um esquete e recrutava outros para o próximo, disse a um jovem que deixava o palco: “desça! E leve o Temer junto!”, para gargalhada geral.

Há quem ache que arte e política não se misturam e este que vos perturba mesmo chegou a ver quem tentasse censurar os poetas Celso Borges e Fernando Abreu pela Noite Lula Livre, que realizaram na quinta anterior (5), no Chico Discos, vendendo pôsteres com poemas de sua autoria aludindo ao sequestro político do líder das intenções de voto em qualquer pesquisa eleitoral – ambos estão no livro Lula Livre, que sai este mês, organizado por Ademir Assunção e Marcelino Freire, com entre outros, Aldir Blanc, Augusto de Campos, Caco Galhardo, Carlos Rennó, Chico César, Frei Betto, Juvenal Pereira, Laerte e Xico Sá.

Há quem pense que tergiverso e mude de assunto. Não. A Turma do Biribinha e a palavra que dá título a seu espetáculo tiveram mesmo a capacidade de encher de esperança (roubei o título de um antigo sucesso de Raul Seixas na voz de Diana) os ludovicenses que (ainda) creem na arte e na política – juntas ou separadas: durante o tempo em que estiveram na cidade, armaram literalmente um circo (onde Magia foi apresentado) ao lado do Terminal de Integração da Praia Grande, relembrando o saudoso Circo Cultural Nelson Brito, o Circo da Cidade, para os íntimos, retirado da população no fim do mandato do ex-prefeito João Castelo (1937-2016) e nunca devolvido.