Sonhar em travesseiros de pedras de cantaria

O abraço dos poetas José Maria Nascimento e Fernando Abreu. Foto: divulgação

 

Aluno aplicado e devotado de Cesar Teixeira, há duas lacunas em minha formação boêmia: nunca bebi com o saudoso Nauro Machado (apesar de termos nos encontrado em não raras ocasiões de copos nas mãos – minha timidez impediu aproximação, à época) nem com José Maria Nascimento, que parou de beber e tem uma memória milimétrica sobre farras homéricas, suas e alheias. Conta histórias tão incríveis que às vezes ficamos em dúvida se este ou aquele episódio de fato aconteceu ou é fantasia de Cabeça de Poeta, salve Odair!

Ontem (19), pela calçada da Livraria Poeme-se, ocupada pelo recital de lançamento de Contra todo alegado endurecimento do coração, novo petardo do poetaço Fernando Abreu, passaram nomes como Adriana Gama de Araújo, Antonio Carlos Alvim, Celso Borges e Laura Amélia Damous – e é muito provável que eu esteja esquecendo o nome de alguém –, além da discotecagem de Eduardo Júlio e da performance do grupo Teatrodança.

Em suma, a noite foi linda, sem desmerecer a participação de ninguém. Mas quem, literal e literariamente roubou a cena, foi José Maria Nascimento: declamou um poema escrito sob o impacto da leitura (e releitura, “eu li ontem e reli hoje de manhã”, confessou) do volume, homenageando o bardo. Leu o poema em meio a trejeitos que imitavam o andar de bêbados e velhos. Ele e Fernando Abreu não ingerem álcool há décadas.

“Você vai ficar como eu”, galhofou José Maria Nascimento para gargalhada geral da plateia, inclusive o homenageado. Bendita maldição, que a praga pegue, vida longa a ambos, um brinde! – eles não bebem, mas eu sim.

Uma imagem não me saiu da cachola, desde que a ouvi da boca do poeta mais velho, não sei se fruto de exagero, de licença poética ou simplesmente de memória – lembram do que eu disse? Guardei na memória, sem nada anotar, o verso em que ele rememorava algumas farras, ocasiões em que, em alguma praça da cidade, “fizeram de travesseiros as pedras de cantaria”.

Devoção à poesia

Contra todo alegado endurecimento do coração. Capa. Reprodução

 

Contra todo alegado endurecimento do coração [7Letras, 2018, 73 p.] é uma pedrada, para quase usar a expressão com que a massa regueira designa os melhores reggaes, o gênero jamaicano que também faz a cabeça do poeta Fernando Abreu.

O título nos chega em hora urgente, num tempo em que a brutalidade e a ignorância – vizinha da maldade, já nos alertaria Renato Russo, outra referência do poeta – tentam se impor como políticas de Estado.

“Poesia mata fascistas” é slogan usado pelo poeta em redes sociais, mas a palavra não pode estar distante da ação, como já ensinou Paulo Freire, outro nome odiado por eles, vocês sabem quem. Em terreno minado de referências, Fernando Abreu aprendeu a lição de outro, o cearense Belchior: “sempre desobedecer/ nunca reverenciar”.

“Uma ocasião para a beleza”, crava certeira, citando Jorge Luis Borges, a poeta Adriana Gama de Araújo, que escreveu a apresentação de Contra todo alegado endurecimento do coração. Quinto livro de poemas de Fernando Abreu, este volume aprofunda algumas características de sua obra.

“O que é bom para o lixo é bom para a poesia”, nos ensinou Manoel de Barros, a cuja poesia a de Fernando Abreu se irmana. Não teme sujar as mãos com nada e merecem destaque os poemas Ghost news e Mesmo assim um poema, eminentemente de cunho político, refletindo o desastroso momento que o Brasil atravessa – este último figura na antologia Lula livre Lula livro.

É um eternizador de instantes, como Marcelo Montenegro, outro irmão de sua poética, também permeada de referências da cultura pop, entre literatura, cinema, artes visuais, música e cotidiano.

Sucessor de Manual de pintura rupestre (2015), Aliado involuntário (2011), O umbigo do mudo (2003) e Relatos do escambau (1998), em Contra todo alegado endurecimento do coração, Fernando Abreu se despe da poesia para vesti-la ainda melhor. É como se praticasse uma espécie de anti-poesia, aproximando seus versos da prosa, como se num diálogo cara a cara com o leitor. Como o chileno Nicanor Parra.

É a roupa do rei que pode ser vista mesmo por quem não tem olhos privilegiados, como os do próprio Fernando Abreu, como quando reprocessa Jim Jarmusch: “mesmo que seja apenas um filme/ um poeta de verdade sim”.

“Em Contra todo alegado endurecimento do coração, as exigências que o poema faz ao poeta não são sutis”, alerta Fernando Koproski, na orelha. Reflexões sobre o ofício poético, espécie de making of do livro – ou de determinados poemas – também aparecem ao longo das páginas do volume.

Autor consciente de sua condição de poeta, a cada poema encontra-se diante de uma encruzilhada. “Se não é capaz de/ enfrentar esse dilema,/ é melhor continuar escrevendo/ poemas que exigem de você/ apenas habilidade com as palavras/ mas a habilidade com as cartas/ não faz de um jogador/ um mágico”, como afirma certeiro no poema Promessas, central no livro e, de resto, na obra de Fernando Abreu.

Em Amor: fuga impossível crava, direto: “você pode enrolar seus credores/ mas não pode fugir do amor/ você pode dar uma de joão sem braço/ diante da suprema corte/ mas não pode fugir do amor/ você pode se disfarçar de monge/ só pra mudar de hábito/ mas não pode fugir do amor/ você pode se tornar um alpinista/ treinando em suas dunas de solidão/ você pode ser um novo líder/ um mártir, um revolucionário/ um careta, um picareta, um otário/ mas não pode fugir do amor”. Nem do amor, nem da poesia.

*

Leia o poema Sobre homens e destinos:

alguns diálogos no cinema
valem pelo filme inteiro
como certos momentos
justificam uma existência

ainda vou ver umas duas ou três vezes
a batalha final do remake do remake
de sete homens e um destino
só pra ver o atirador goodnight robicheaux
e seu servo zen
acossados pela metralha dos canalhas
travarem esse diálogo maluco:

– me lembro sempre do que meu pai falava.
o chinês vira o rosto, todo ouvidos
para a sabedoria do mestre.
nada.
a espera dura segundos eternos.
de repente:
– bem, meu pai falava muitas coisas…
diz goody
e caem os dois na gargalhada
em meio às balas que zunem
no velho campanário incendiado
de onde caem mortos
menos de cinco segundos depois

*

Serviço

A noite de autógrafos de Contra todo alegado endurecimento do coração acontece hoje (19), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antônio, 264-A). Com performance do grupo Teatrodança, discotecagem de Eduardo Júlio e recital com o autor e os poetas Celso Borges e Adriana Gama de Araújo.

Segunda chamada: dia 28 de março (quinta-feira), no mesmo horário, Fernando Abreu autografa o novo livro no Restobar Villa 25 (Rua Gago Coutinho, 25, Laranjeiras, Rio de Janeiro/RJ).

(Re)Lançamento inaugura novo endereço literário na cidade

O futuro tem o coração antigo. Capa. Reprodução

 

“O futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista”, como também não o é seu autor, o poeta Celso Borges, que pela primeira vez, em quase 40 anos dedicados ao ofício – não à toa é chamado “homem-poesia”, ou simplesmente CB, pelos mais próximos – desde a estreia com o renegado Cantanto (1981), vê um livro seu chegar a uma segunda edição – a primeira é de 2013 (escrevi sobre aqui; folheie trechos acolá). “Mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”, continua.

A carne da cidade histórica e patrimônio cultural da humanidade de São Luís do Maranhão, em que Celso Borges voltou a morar há 10 anos – após 20 de São Paulo –, está representada, na obra, em preto & branco, pela técnica de pin-hole, por alunos do Ifma, sob a batuta do professor Eduardo Cordeiro. Qual a primeira edição, esta segunda também sai pela guerrilheira Pitomba! livros e discos.

Para a noite de autógrafos o poeta sentará praça no Sebo Chico Discos, que passa, a partir desta quinta-feira, 14, dia da poesia – e um ano da bárbara e covarde execução de Marielle Franco –, a ocupar o térreo do Bar homônimo, na esquina de Afogados e São João, no Centro, afinal de contas palco de memoráveis tertúlias, bar e proprietário personagens fundamentais do poema chamado São Luís e daqueles que costumam ler a cidade com a devida atenção.

Aliás, cabe um parêntese, benza Deus a fartura!: há um corredor literário interessantíssimo no centro da cidade, fervilhando para além de seus acervos à venda, com eventos movimentando casas como, além do Chico Discos (tanto o bar quanto o sebo, a partir de amanhã), o Sebo do Arteiro (Rua do Sol, próximo ao Sindicato dos Bancários), a Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antonio, 264-A, com seu sarau sempre às últimas quintas-feiras do mês e onde Fernando Abreu autografa quinta que vem, às 19h, seu quinto livro, Contra todo alegado endurecimento do coração, de que este blogue falará oportunamente) a Feira da Tralha (Edifício Colonial, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, com seu chorinho ao vivo e discotecagem nas manhãs entrando pelas tardes de domingo) e o Paço Prosa (Rua João Gualberto, 52-Altos, Praia Grande, mesmo endereço em que funcionava o Poeme-se).

“O futuro tem o coração antigo” é uma frase do poeta e pintor italiano Carlo Levi, que Celso Borges já havia usado na epígrafe de XXI (2000), livro-disco-coletânea em que começou suas experiências de ligar poemas a trilhas sonoras, para além da “leitura com fundo musical” – tão em voga ainda hoje –, no que se irmana a poetas da pesada como Ademir Assunção, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes, para citarmos uns poucos.

O futuro tem o coração antigo, mas Celso Borges mesmo, num poema de Belle Epoque (2010), adverte: “antigamente era antigamente e era muito pior”. Como diz neste livro: “chega uma hora em que chegou a hora”. Repito: é amanhã (14), às 19h, no Sebo Chico Discos.

Salve o compositor Ernesto Cardenal!

Homem de vícios antigos conversou com Zé Modesto, parceiro do sacerdote nicaraguense recém-reabilitado pela Igreja Católica; disco de estreia do paulista – que tem parceria dos dois – completa 15 anos em 2019

Sábado passado (16), o religioso hispano-brasileiro Dom Pedro Casaldáliga completou 91 anos. Radicado em São Félix do Araguaia/MT, um dos ícones da Teologia da Libertação, ele gravou, com o também poeta Pedro Tierra e o cantor e compositor Milton Nascimento, o álbum Missa dos Quilombos (1982). Por ocasião de seu aniversário, Gisa Franco e eu tocamos uma faixa do álbum no Balaio Cultural, na Rádio Timbira AM, na data.

O sacerdote, poeta e revolucionário Ernesto Cardenal. Foto: divulgação

Ontem (18), li na coluna de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo, a notícia de que Mário Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, havia reabilitado o nonagenário Ernesto Cardenal, nicaraguense, outra referência da Teologia da Libertação na América Latina. Em comum, os dois sacerdotes têm o apreço pela poesia, não são burocratas da religião. Dedicaram suas caminhadas ao povo, sobretudo o mais humilde, em busca de uma sociedade mais justa, no que se juntam a nomes como os de Leonardo Boff (1938) e Frei Betto (1944), além de mártires como Dom Oscar Romero (1917-1980), Irmã Dorothy Stang (1931-2005), Frei Tito (1945-1974) e Pe. Josimo Moraes Tavares (1953-1986).

Internado desde o início de fevereiro em um hospital de Manágua, sua cidade natal, Cardenal completou 94 anos no último dia 20 de janeiro e desde 1985 estava “sob suspensão do exercício do ministério devido a sua militância política”, “censura canônica” imposta por João Paulo II. Cardenal foi ministro da Cultura da Nicarágua no primeiro governo de Daniel Ortega (1985-1990), atual presidente da Nicarágua, eleito em 2006 e reeleito em 2011 e 2016.

Dissidente da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), o sacerdote vem sendo perseguido por Ortega desde que este reassumiu o poder em 2007 – episódio estapafúrdio foi a imposição de uma multa no valor de 800 mil dólares (o equivalente a R$ 2,9 milhões), “por supostos danos e prejuízos em disputa relacionada à posse de terrenos em Solentiname. Foi lá que Cardenal fundou sua comunidade de pescadores, camponeses e artistas primitivistas”, de acordo com o colunista da Folha. Qualquer semelhança com o que a Justiça brasileira vem fazendo com o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.

Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas de língua espanhola, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2005. 40 anos antes havia sido consagrado com o Prêmio Rubén Darío, maior honraria das letras nicaraguenses. O perdão da Igreja Católica me fez lembrar de uma pérola de sua autoria.

Esteio. Capa. Reprodução

Em 2004 o compositor paulista Zé Modesto lançou seu disco de estreia, Esteio, com participações especiais de nomes como Ceumar, Ana Leite, Kléber Albuquerque, Rubi e Renato Braz, entre outros. O disco é um primor de delicadeza, um dos melhores lançados no Brasil naquela década, com sua poesia muito particular, evocando universos urbanos e rurais, festas populares, sambas, natureza, Guimarães Rosa e… Ernesto Cardenal. Depois, o historiador e compositor paulista lançaria ainda Xiló (2007) e Ao pé do ouvido (2015), também verdadeiros artigos de ourivesaria musical, o mais recente com a participação especial das caixeiras do Divino da Família Menezes, da Casa Fanti-Ashanti, de São Luís.

Do ótimo repertório de Esteio sempre me chamou a atenção, especialmente, o choro Estrelas, registrada no álbum em dueto com sua irmã Ana Leite e com o advento do grupo Sociedade do Choro, capitaneado por Carlinhos Amaral. Pela beleza do casamento de letra e melodia, pela parceria inusitada. E volta e me comover neste baile de debutante do disco, enquanto me pergunto o porquê de ter demorado tanto a ir atrás desta história.

O historiador e compositor Zé Modesto. Foto: divulgação

Zé Modesto contou com exclusividade a Homem de vícios antigos a história da parceria: “Lá pelo início dos anos 2000 eu tive acesso a um livro do Ernesto Cardenal, que se chamava As riquezas injustas [Círculo do Livro, 1982], uma antologia poética dele, eu ganhei da minha ex-mulher. Eu sempre gostei da história da revolução nicaraguense, sempre me interessei pela ideia de ter um religioso contribuindo para um governo mais popular, sempre me interessei pela vida do Ernesto Cardenal, Dom Pedro Casaldáliga, no Brasil. São poetas e ao mesmo tempo religiosos, e ao mesmo tempo engajados em causas populares, numa utopia, num sonho de uma sociedade mais justa e assim por diante. O que acontece é que eu comecei a ler o trabalho dele e gostei muito e especialmente esse poema me deu vontade de musicar”.

O compositor tece elogios às imagens poéticas do parceiro distante: “Eu gostei demais dessa imagem que ele constrói, que “o céu estrelado é como uma cidade à noite, uma cidade vista de um avião”, então as estrelas não estão no céu, as estrelas estão nas ruas, são os mercados iluminados, são todas as luzes da noite, aí ele vai dizendo, “brancas e vermelhas dos carros que vão e vem”, o branco dos faróis, o vermelho das lanternas. Eu gosto dele falar dos lugares, de night clubs, motéis, é interessante o religioso falar dessa vida profana. Essas estrelas, numa comparação ao que são as estrelas do céu, que elas também desaparecem, essas estrelas “que se queimam por nada/ o céu estrelado é um desperdício de energia”, e é tanta energia mesmo, quando a gente olha pro céu estrelado. Ele compara com as energias daqui, que se perdem no vazio das avenidas, da vida que a gente leva aqui embaixo, e compara tudo isso com uma superprodução de Clarck Gable”.

“É uma produção curta, mas que contribui tanto para um mergulho poético nesse universo das estrelas, nessa brincadeira que ele faz, do céu e da terra. Eu gosto demais desse poema e falei: “isso aqui dá um samba”. Comecei a pensar e fui cantarolando e saiu Estrelas. Foi muito legal. Mostrei a música para as pessoas, gostaram bastante, falei: “vou gravar!”, continua.

Modesto e Cardenal nunca estiveram juntos pessoalmente. Indago-lhe sobre a burocracia para a formalização da parceria, envolvendo despachos, carimbos, assinaturas, cartórios. “Eu imaginei que fosse ter um trabalho muito grande, que ia ser muito burocrático. Consegui o contato dele, entrei em contato, a secretária dele, Luz Maria Costa, me atendeu, muito simpática, ele já era velhinho, assinou, eu tenho até hoje um documento lavrado em cartório em Manágua, da autorização dele para a publicação da música. Aí eu mandei uns discos para ele, ele gostou. Foi um atrevimento meu que acabou dando certo”.

Deus abençoe o Papa Francisco, Ernesto Cardenal, Zé Modesto e qualquer um/a que se comova diante de tanta beleza! Há quem espere por milagres extraordinários, mas como dizem os poetaços Paulo Leminski e Marcelo Montenegro, “a cor amarela é um milagre”, “uma melodia linda é um milagre”. Contentemo-nos. Não é pouco!

A seguir, leia e ouça Estrelas (letra: Ernesto Cardenal; música: Zé Modesto)

Olha as estrelas no céu, olha as estrelas
Olha as estrelas do céu, olha as estrelas

O céu estrelado é feito uma cidade de noite,
uma cidade de noite vista dum avião:
as estrelas são como ruas, são mercados iluminados,
anúncios de neon, motéis, nigth clubs, cinemas e luzes
brancas e vermelhas, dos carros que vão e vêm,
dos carros que vêm e vão pelas estradas escuras
e se queimam por nada… para nada.

O céu estrelado é um desperdício de energia,
um esbanjamento de energia na perpétua noite.
Como a energia daqui perdida no vazio
nas avenidas, lojas, cafés, nigth clubs, motéis, cinemas
com uma superprodução de Clark Gable.

 

O vírus linguagem e a imensidão de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello e Celso Borges, ontem (19) na FeliS. Foto: Zema Ribeiro

 

Vi ontem, pela manhã e à noite, as duas mesas de que Ramon Nunes Mello participou na Feira do Livro de São Luís. E se não disse o poeta Ramon Nunes Mello é simplesmente por que epítetos não lhe comportam: além de poeta, dos bons, é jornalista, ator, militante de direitos humanos. E está soropositivo, para usar sua própria expressão.

Impressiona-me a força de Ramon, cuja poesia, e sua força, conheci há quase 10 anos quando lançou seu primeiro livro, Vinis mofados [Língua Geral, 2009] – depois ele publicaria Poemas tirados de notícias de jornal [Móbile, 2012] e Há um mar no fundo de cada sonho [Verso Brasil, 2016]. A consistência de sua poesia e de seu refletir sobre poesia, imaginação e crítica caminhando lado a lado – “linguagem é um vírus”, no dizer de William S. Burroughs com que o próprio autor dialoga, ele cuja dissertação de mestrado versou sobre a obra poética de Adalgisa Néri (de cuja obra é curador, bem como do poeta Rodrigo de Souza Leão). Para quem quiser mais credenciais, foi ele quem organizou, com o cantor, Vira-lata de raça [Tordesilhas, 2018], a recém-lançada autobiografia de Ney Matogrosso.

Ramon descobriu estar com o vírus HIV às vésperas de uma viagem, em 2012, para Londres, onde passaria um mês em uma residência literária. Encarou a travessia do oceano deixando para depois pensar no que fazer com a notícia. Ao voltar e conversar com amigos próximos e familiares, resolveu ser um dos poucos entre os 800 mil brasileiros soropositivos a falar abertamente sobre o tema (no mundo são 37 milhões de pessoas infectadas).

“Tente entender o que tento dizer” era o tema da/s mesa/ (mediada/s pelo poeta Celso Borges) – pela manhã, o Café Literário estava repleto de estudantes aparentemente do ensino médio, que não lhe pouparam de perguntas, digamos, extraliterárias; à noite, no Auditório Graça Aranha, o principal da 12ª. FeliS, o público ligeiramente maior foi mais tímido.

O tema da mesa é o título do livro, organizado por ele, lançado este ano pela editora Bazar do Tempo – a mesma que publicou Tudo em volta está deserto, de Eduardo Jardim, outro autor que per/segui na Feira (em uma fala que, como sua obra, busca recolocar o maranhense Graça Aranha, patrono desta FeliS, no seu devido lugar no Modernismo brasileiro) e antes (no lançamento do citado livro em uma agradável noite de afetos no Chico Discos).

Ramon reuniu 96 poetas que escreveram sobre “poesia + HIV/Aids”, como indica o subtítulo do livro que tem desde poetas muito jovens, ainda sem livro lançado, até nomes consagrados como Antonio Carlos Secchin, Chacal, Silviano Santiago e Viviane Mosé, entre muitos outros, além do próprio organizador – somente três dos autores são soropositivos e o fato de sua opção não fazer este recorte leva em conta a necessidade de todos lidarmos com o assunto, escritores ou leitores.

O livro é dividido em três partes, linguagem, memória e corpo, e há uma impressionante diversidade de representações: homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais e transexuais, jovens e velhos, brancos, negros e indígenas, soropositivos e soronegativos.

Ao fazer a opção de falar abertamente sobre o tema, o próprio Ramon personifica a desmistificação de um destino trágico, cruel e rápido, cretinamente ilustrado pela capa da revista Veja do início da década de 1990, com a agonia de Cazuza – um dos vários nomes a quem o livro é dedicado, todos vítimas do vírus, quando este ainda era uma incógnita e os remédios eram, além de inacessíveis, em geral agressivos.

Tente entender o que tento dizer. Capa. Reprodução

A poesia selecionada por Ramon em Tente entender o que tento dizer não é panfletária, tampouco ele se torna um poeta ativista – embora as duas coisas, como dito, convivam nele. Apesar de vida e obra se confundirem, uma coisa é uma coisa.

O título do livro foi retirado de uma carta do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu publicada no jornal O Estado de S. Paulo – outro nome a quem o livro é dedicado, foi uma das primeiras personalidades brasileiras a falar abertamente sobre o assunto, ainda na década de 1990, que também levou Renato Russo (outro a quem o livro é dedicado), ambos também vítimas de complicações decorrentes do vírus HIV.

A bonita capa do livro traz o título sobre uma obra do artista plástico Leonilson (mais um!), cuja reprodução da obra original aparece na orelha, conforme autorização e exigência da família. Não li o livro (ainda), conheci alguns poemas ditos por Ramon e Celso, e o esforço deste texto é tentar reter algo da participação iluminada de seu organizador na FeliS.

Digo iluminada aqui, não no sentido de ungi-lo – nem eu tenho este poder, nem é seu desejo. Digo iluminada em oposição a trevosa, como muitos ainda querem o tema HIV/Aids – inclusive com declarações desastrosas do presidente eleito, que sinalizou ameaças ao tratamento de soropositivos no Brasil, pensamento tacanho de alguém cuja cabeça ainda vive no mundo da época da epidemia. Ou antes.

Os recursos obtidos com a venda do livro, com a cessão dos direitos autorais por parte dos autores, são revertidos em favor da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), fundada por Betinho, o sociólogo Herbert de Souza – que também fundou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida –, e Herbert Daniel, outros dois nomes a quem o livro é dedicado.

Ao longo de sua/s fala/s, Ramon discorreu também sobre os bastidores da feitura do livro, da ideia, do recrutamento dos autores, do interesse da editora – a maioria das etapas resolvida através de contatos por redes sociais, demonstrando o poder desta ferramenta também para o bem (perdoem aqui o inevitável maniqueísmo).

Ramon não fugiu de nenhuma pergunta, entre literatura, política, HIV/Aids ou mesmo sua vida pessoal. Não é oportunista, no entanto: não faz de sua condição um caça-níqueis. Mas como bom “antena da raça”, pauta o debate sobre o tema, acreditando, com razão, que o melhor remédio para o preconceito e a ignorância são o amor, o diálogo e a solidariedade.

Convivendo com o HIV, Ramon colocou-o em seu devido lugar: o vírus não é protagonista, não é seu próprio corpo, é apenas um inquilino. Sua lição, poética, é aprender a dar valor ao que merece. Antes do HIV, Ramon já havia sido infectado pelo vírus da poesia, da literatura, das artes, da linguagem, este, para sorte sua e nossa, o vírus protagonista de sua história.

A poesia parou o trânsito

Clima de poesia, tempo de poesia. Fotos: Adriana Gama de Araújo

 

Às vezes me demoro mais do que gostaria para escrever (sobre) algo. Às vezes simplesmente não escrevo, embora o texto passe dias me fermentando o juízo.

Cá estou, tardiamente, escrevendo sobre a reinauguração do Poeme-se, o sebo de José Ribamar Silva Filho, vulgo Riba do Poeme-se, que havia deixado a Rua João Gualberto, na Praia Grande, onde o conheci ainda na adolescência, para funcionar apenas virtualmente – Riba estava vendendo livros, cds, dvds, gibis etc. apenas pela internet, mas como bom homem de vícios antigos não resistiu à saudade de abrir as portas físicas de sua casa. Literalmente.

Sorte a nossa.

Riba agora atende na Rua de Santo Antonio, na quadra entre Sete de Setembro e 13 de Maio, a mesma da CUT (Central Única dos Trabalhadores), em frente à Praça Antonio Lobo, onde fica a recém-reformada Igreja de Santo Antonio, onde acontece um dos mais tradicionais arraiais da capital.

Mas tergiverso.

Ao lado do Papiros do Egito, da saudosa Moema de Castro Alvim, em L na Sete de Setembro a partir do Poeme-se de agora, estes foram os dois sebos mais importantes em minha formação de leitor, comprador compulsivo de livros, rato de sebo, enfim.

A noite de re/abertura do Poeme-se foi bonita. Por que não dizer: mágica. O dj Pedrinho Dreadlock comandou o som, que silenciava a cada rodada de poesia, dita sem amplificação, sob a lua que se somava às lâmpadas dos postes para iluminar os versos lidos em livros ou telas de celular. Uns se postavam de frente para a igreja; outros para o vale na contramão que vai dar na Rua do Egito.

Teria sido aniversário de Carlos Drummond de Andrade, 31 de outubro. Era aniversário de Carlos Drummond de Andrade: poetas não morrem. Ele foi um dos lembrados no recital. Ele, Roberto Piva, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alen Ginsberg, Fabrício Corsaletti, Ferreira Gullar e tantos outros que minha preguiça de repórter vadio – que estava ali para rever amigos, bater papo, ouvir poesia, comentar política (impossível não fazê-lo nestes tristes tempos!) e beber – impediu de anotar.

Adriana Gama de Araújo inaugurou a noite lembrando Ginsberg – uma das organizadoras do sarau, ela me revelou a ideia de realizá-lo mensalmente, oxalá! Celso Borges lembrou Piva e Waly. O veterinário e inveterado colecionador de vinis Otávio Costa perdeu a timidez e mandou um Leminski, para minha surpresa (não pela escolha do poeta ou do poema). Márcio Vasconcelos, que fez um livro de fotografias baseado no Poema sujo de Gullar lembrou a importância e a necessidade do saudoso conterrâneo. Uimar Jr. lembrou Nauro Machado e Franck Santos mandou o vivíssimo Corsaletti. E tantos outros.

Riba, o anfitrião, esquivou-se de dizer algo, ao ser convidado por CB, agitador poético fundamental. Outros livreiros de uma espécie de triângulo literário do centro da capital estavam por lá: os indispensáveis Arteiro e Riba (o outro, apelidado Riba Careca, da Feira da Tralha) – este “corredor” sebístico, aliás, merece atenção (Homem de vícios antigos voltará ao tema).

“Esta máquina mata fascistas”, pregou em seu violão o bardo americano Woody Guthrie, “professor” de Bob Dylan. “Poesia mata fascistas”, lemos aqui e ali, sobretudo no triste momento político vivido no Brasil. A rua do Riba não foi interditada na altura de seu sebo, sua casa. Os poetas recitavam no meio da rua e foi louvável a postura da maioria absoluta dos motoristas, que preferiu aumentar o trajeto a interromper o curso dos poemas.

A moeda poesia na renegociação das dívidas com a música

Barítono. Capa. Reprodução

 

“Já fui salvo pela música tantas vezes, que, diante dela, sou um amontoado de dívidas constrangidas”. O verso que serve de orelha a Barítono [Editora Terreno Estranho, 2018, 78 p.] dá a pista do que vem ser o livro de poemas de Rodrigo Carneiro, jornalista, “cantor e letrista da banda Mickey Junkies e integrante dos grupos literários Trovadores do Miocárdio e Black Poetry”, como nos informa a outra orelha. O título dá outra pista. O próprio autor aparece na capa, empunhando um microfone e esvoaçando seus dreadlocks – o que dá mais uma pista. A palavra “pista”, aliás, é outra.

Os poemas de Rodrigo Carneiro têm ritmo. Em alguma medida o escritor paga suas dívidas. Ou começa. Ou intenta fazê-lo. “Se liga num poeta capaz de juntar, no mesmo imbatível poema, “a regata do Kiss” e “o sol d’O estrangeiro” de Albert Camus”, Xico Sá nos chama atenção no prefácio, cujo título é Um livro para levar para toda a vida.

A música permeia a obra do autor, edificada de modo a reparar, no céu, o sexo dos astros, entre os vãos dos prédios de São Paulo. Viagens e cenas do cotidiano também estão lá, em diálogo com as ilustrações de Diego Gerlach – autor do zine Pirarucu, encartado na Baiacu de Angeli e Laerte, faço questão de citar para acentuar a relação (também em sua poesia) de Rodrigo Carneiro com a cultura pop.

Em Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?, um poema em prosa a traduzir com graça, uma cena banal que poucos considerariam poesia – faço questão de transcrever a íntegra: “Acompanhado da mãe, um garotinho, de uns seis, sete anos, passa por mim e, finalizando o discurso que faz aos quatro ventos, solta um “rock’n’roll”. A mãe, que o traz pela mão e atravessa o calçamento a passos firmes, para, de súbito. “Rock’n’roll? O que é isso, Carlos?”, indaga ela, surpresa e grave, ao menino. Como o ângulo de visão de nossos trajetos já tinha sido comprometido – àquela altura eu estava de costas para eles –, e a algazarra da região central da cidade inundava o ar, foi impossível ouvir a resposta do moleque. O que, curioso e dado a obsessões que sou, lamento profundamente. Desde o ocorrido, não consigo parar de pensar no que teria dito a criança a respeito da expressão proferida. Ou ainda: qual a bronca da jovem mãe com o gênero musical criado pela negrada americana. Eis mais uma das dúvidas que se acumulam na minha lista de incertezas. Mais uma das sentenças sem resposta que levarei comigo até o último dos dias”.

É comovente sua homenagem ao punk em Espírito de 1977: “O conheci ainda/ menino, e há/ entre nós tanta/ intimidade, que/ nos permitimos/ silêncios, crises,/ distanciamentos e/ reaproximações/ contínuas”, diz um trecho. Ou à banda de Tom Verlaine em Nós e o  Television: “Sem rede,/ que acolhe impactos,/ eis-nos aqui/ seguros/ nos braços/ da Vênus de Milo”.

Poesia é justamente este salto.

“Momentos que roubamos do mundo”*

Forte apache. Capa. Reprodução

 

Certa vez em uma rede social o poeta Marcelo Montenegro relatou um encontro com um amigo. Passaram horas conversando sobre tudo e, ao se despedir, o interlocutor observou: “nem falamos de poesia”. Ao que o poeta retrucou: “como assim? Falamos o tempo inteiro”.

Marcelo Montenegro é poeta em tempo integral: seja dando aulas de História (sua formação acadêmica), seja escrevendo roteiros (ocupação de que tira o sustento), fazendo a luz de espetáculos de teatro (função lembrada no poema Memórias de um operador de luz), escrevendo prosa (deve-nos um livro) ou poesia.

Sua poesia esbanja musicalidade, não à toa ele apresenta há mais de década o espetáculo Tranqueiras líricas, que virou disco no fim do ano passado, além de ser parceiro de nomes fundamentais da atual cena que vale a pena, entre os quais a banda Fábrica de Animais e a cantora e compositora Vanessa Bumagny.

Forte apache [Companhia das Letras, 2018, 115 p.; R$ 40; leia Três pensatos, poema que abre o livro] é um feito raro, ao reunir três livros de Marcelo Montenegro: além da seção de inéditos que dá título ao livro, o volume traz reedições de Garagem lírica (2012) e Orfanato portátil (2003) – este último coloca o poeta em condição de talvez único poeta brasileiro vivo com um livro de poesia já em sua terceira edição.

Sua poesia é coalhada de referências da cultura pop, do universo do cinema, da música, da literatura, entre citações, colagens e epígrafes (Tom Waits, Elizabeth Bishop e Murilo Mendes), que ele costura como um ás. Como no poema-título, que cita, entre outros, Noel Rosa, Elvis Costello, Laura Riding, François Truffaut e Ferreira Gullar.

Espécie de “Manoel de Barros da cidade grande”, como anota o ídolo Chacal na orelha de Forte apache, Montenegro é dono de uma sensibilidade aguda capaz de eternizar aquilo que geralmente tomamos como banal. Como em Spoiler: “Lembro que você me contou/ uma história incrível./ Embora não lembre a história,/ sou capaz de soletrar,/ inclusive, a brisa que,/ por um microssegundo,/ inflou a cortina da sala.”.

Tudo é matéria-prima para a poesia de Marcelo Montenegro. A desprezada “ponta do pão Pullman”, “o baque da privada gelada” e “os ingredientes do Toddy” (em Velhas variações sobre a produção contemporânea), “Um gosto/ de obturação na boca”, “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato” “E aquela música linda/ que nunca toca no rádio” (em Buquê de presságios) – dois dos poemas mais bonitos já escritos neste século.

Volto ao poema-título e uma de suas citações: “Elvis Costello disse que o rock’n’roll não morrerá porque sempre vai ter um garoto trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém nunca viu”. Podemos dizer o mesmo em relação à poesia. Quantas vezes o leitor, mesmo aquele que não arrisca versos, não se pegará pensando, ao longo da leitura de Forte apache, parafraseando Itamar Assumpção (outra referência, citado no poema Bildungsroman): “por que é que eu não pensei nisso antes?”.

Os poemas de Marcelo Montenegro são sofisticados em sua aparente simplicidade. Dão a falsa impressão de que poderiam ter sido escritos por qualquer um, mas, como alertou Leminski, “um bom poema/ leva anos”.

Poetas moram dentro de seus poemas e “Cantar é roubar/ uns minutos da morte” (Literatura comparada). Uma singela e rara cumplicidade se estabelece entre autor e leitor: seus versos nos tornam íntimos do poeta, transformando-nos em seus companheiros de aventuras, Estabanados aprendizes dos feiticeiros: “Contemporâneos de cada estilhaço./ Furtando taças de vernissages./ Bebendo vinho em copos de plástico.”.

&

*verso de Eu costumava grifar meus livros.

Poesia, faça chuva ou faça sol

Mural de nuvens para dias de chuva. Capa. Reprodução

 

“A utilidade é a prisão dos arrogantes”, sentencia a poeta Adriana Gama de Araújo em Poema para o fracasso, um dos de Mural de nuvens para dias de chuva [Penalux, 2018, 62 p., R$ 30,00], sua estreia em livro.

É tapa na cara dos caretas, os que querem justificativa para tudo e insistem na pergunta “para que serve a poesia?”. No DNA poético da autora, mestra em História e professora da rede pública, está Manoel de Barros, com sentença conhecida: “tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, afirmou o poeta pantaneiro.

A poesia de Adriana se constitui de pequenos espantos, como Ferreira Gullar disse de sua própria poesia. “Fazer poesia/ é diferente de escrever versos/ passarinho faz poesia na cumeeira da casa/ que nem cachorro abanando o rabo/ quando brinca no quintal com o menino/ ou a lavadeira fabricando arco-íris/ com sol e sabão na beirada do rio/ eu só olho e copio no papel” (Poesia de cada dia).

Adriana escreve sem se perguntar o porquê: necessidade vital. Grande leitora, o que explica em parte a qualidade dos poemas de sua coletânea de estreia, em caprichada edição. Referências diversas, não apenas no campo literário, poético, espraiam-se pelos poemas de Mural de nuvens para dias de chuva – para ser lido também em dias de sol ou a qualquer tempo.

Ela escreve desde os 15 anos, a princípio confinando seus poemas a um círculo restrito de amizades, a quem os dava de presente – e que honra deve ser receber de presente um poema de Adriana Gama de Araújo! Depois inaugurou o blogue Pólen Radioativo – inspirada em Roberto Piva –, onde até hoje publica com regularidade. O livro era um caminho natural, apesar da apregoada falácia de sua eterna agonia (ou morte, teimam alguns).

O empurrão definitivo veio com uma espécie de chancela do poeta Fernando Abreu: reconhecendo a qualidade da poesia de Adriana Gama de Araújo, ele, além de incentivá-la a publicar, ajudou-a a selecionar os poemas do livro e escreveu seu prefácio. Em retribuição ganhou Poesia, poema que ela lhe dedica, em diálogo direto com a ancestralidade poética do bicho-homem e, consequentemente, com o Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p.], mais recente volume de poemas do “pária”.

“Por mim, sinto vontade de rir alto disso tudo quando leio os poemas desse Mural de nuvens para dias de chuva. Rir com a alegria que é poder celebrar a estreia em livro de uma poesia de tanta potência e poder de comunicação. Grifo “estreia” porque chego a considerar a palavra inapropriada para uma artista que demonstra plena consciência do que faz, das forças estética, emocionais, linguística e espirituais que mobiliza na costura de seus poemas”, atesta Fernando Abreu no texto A poesia morreu, viva a poesia.

Endosso sua opinião, embora isso nada acrescente. Adriana estreia madura. Fecho com ela própria, a demonstrar a verdade do que afirmamos: “não me venha com esse olhar técnico/ construindo paredes entre os meus versos/ e nem tente aparar o exagero das arestas/ se os sentimentos coubessem numa régua/ o poema seria só mais uma forma/ de morrer com precisão geométrica” (Poema não é projeto).

Serviço

Adriana Gama de Araújo lança Mural de nuvens para dias de chuva em noite de autógrafos amanhã (30), às 19h, na Livraria Poeme-se (Rua João Gualberto, 52, altos, Praia Grande – sobre o restaurante Cafofo da Tia Dica).

O micróbio da poesia

Os poetas Severina Branca e Jorge Filó em cena de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras. Frame. Reprodução

 

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Muita gente pode lembrar uma não rara desastrada experiência escolar, quando professores tentam empurrar goela abaixo, e pior, fazer decorar versos que ao aluno e seu entorno fazem nenhum sentido. Outros pensam em coisa de iluminados, gente com inspiração divina para cometer versos ou coisa parecida.

Dessacralizar o universo da poesia é justamente o que faz o documentário O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras [documentário, Brasil, 2016, 78 min.], do serra-talhadense Petrônio Lorena (que assina também a trilha sonora), que estreia hoje (22) no Cine Lume (Edifício Office Tower, Renascença). Literalmente um baita título, síntese de dor e delícia de ser poeta.

Dessacralizar talvez nem seja bem o termo: a poesia continua sendo sagrada. O que o filme mostra, no entanto, é que pode ser fruto da cabeça (e coração) de qualquer reles mortal. Há uma cena em que um poeta, num bar (uma das locações mais constantes do documentário), advoga a favor do uso de álcool e outras drogas – em nome da poesia.

Geograficamente, o filme se localiza na divisa entre Paraíba e Pernambuco, em Ouro Velho e Prata, naquela, e São José do Egito, neste, lembrando mitos da poesia nordestina, entre vivos e mortos, privilegiando depoimentos de poetas em vez de especialistas – comparecem histórias de, entre outros, Lourival Batista e Biu de Crisanto.

Sobra bom humor em constantes exercícios de memória: não raro um poeta lembra uma glosa bem humorada, contextualizando a situação em que o verso foi composto, a tiração de onda de um repentista para com outro, a resposta deste àquele, e por aí vai. No fundo, a gente se sente bebendo entre amigos, a relembrar velhos causos, e rindo.

O longo e poético título é mote dado por Severina Branca a Didi Patriota. De poeta a poeta, ela também boêmia e prostituta, é uma das personagens mais interessantes do longa-metragem, considerada por muitos a Eleanor Rigby do Nordeste.

As reações à palavra poesia podem ser as mais diversas. Para alguns, ela significa a própria vida e sina.

*

Veja o trailer de O silêncio da noite é que tem sido testemunha de minhas amarguras:

Instantes eternizados

Tranqueiras líricas. Capa. Reprodução

 

De Marcelo Montenegro, Chacal já disse: é o Manoel de Barros urbano. Chacal (que ele lê em Desabutino, único poema não assinado por Montenegro em Tranqueiras líricas) sabe das coisas:  a analogia tem fundamento. Ambos os poetas têm a capacidade de eternizar a banalidade da vida, aqueles acontecimentos que, de tanto se repetirem, já ninguém se ocupa.

Como por exemplo, “agora mesmo alguém deve estar limpando/ cuidadosamente o cd com a camisa,/ pulando a ponta do pão Pullman,/ sentindo o baque da privada gelada”, em Velhas variações sobre a produção contemporânea, poema que abre Tranqueiras líricas, disco que Marcelo Montenegro lançou no apagar das luzes de 2017.

O autor lançará mês que vem, pela Companhia das Letras, Forte apache, que reúne, além do livro-título, os livros Orfanato portátil e Garagem lírica. É poeta bom de ler e ouvir, dono de uma das obras mais originais da poesia brasileira contemporânea.

Tranqueiras líricas, espetáculo que já apresenta há mais de uma década, é recheado de referências, mas não hermético, tem um pé no rock, outro no blues, a voz de Marcelo Montenegro, talhada “equilibrando/ a lata e o cigarro” (ainda do poema de abertura), acompanhada por guitarras, violões e arranjos de Fábio Brum, seu parceiro de palco e empreitada também de longa data – em 2013 o poeta apresentou o espetáculo durante a Feira do Livro de São Luís, na companhia do guitarrista Marcelo Watanabe.

O título é verso de Buquê de presságios: “Tranqueiras líricas/ na velha caixa de sapato./ De tudo, talvez, restem/ bêbadas anotações/ no guardanapo./ E aquela música linda/ que nunca toca no rádio”.

Tranqueiras líricas é daqueles discos cujo anúncio deixa ansiosos os que acompanham mais de perto o trabalho de Marcelo Montenegro – leva anos entre a ideia e a concretização do objeto disco, às próprias custas s/a. Uma vez lançado, resenhistas correm sério risco ao citar este ou aquele trecho, e não outros, numa bolacha em que tudo é sublime, mesmo o supostamente mórbido: “PENSO em alguém que, na manhã/ do dia de sua morte, desiste/ de usar a camisa que mais gosta,/ preferindo guardá-la para uma festa/ que terá na noite seguinte” (de Três pensatos).

“Tudo o que é bom para o lixo é bom para a poesia”, já disse Manoel de Barros. Como o poeta rural, a poesia do poeta urbano se ocupa destas insignificâncias, tornadas grandes ao serem eternizadas pelo olhar atento e sensível de Marcelo Montenegro. Como, por exemplo, no poema Filme: “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”, começa. Há outros momentos grandiosos, mas: corta! E termina: “Você volta ao quarto dizendo/ – Está me dando uma fome!/ enquanto rimos da pose engraçada/ que o ator parou./ Antes de apertar o play/ chego a esboçar que algumas pessoas/ são incapazes/ de tirar a poesia do sério”, o que não é o caso de Marcelo Montenegro e eis uma possível síntese para Tranqueiras líricas (e, de resto, toda a sua obra).

*

Ouça Velhas variações sobre a produção contemporânea (Marcelo Montenegro):

A poesia indo além

Paulo Leminski dizia que a pessoa que não escreve um verso, mas não consegue dormir sem ler umas páginas de Fernando Pessoa ou outro poeta de sua preferência, é tão poeta quanto quem escreve. Muita gente desiste da poesia às vezes pela forma como ela é enfiada goela abaixo, sobretudo nas escolas, sendo associada, no imaginário popular (preconceituoso), quase sempre a professores/as chatos/as, por detrás de grossas lentes, isso sem falar na “utilidade” da poesia.

Caco Pontes comanda o Baião de Spokens no Teatro Oficina, durante a gravação do dvd. Foto: Mundo em Foco

Mas poesia pode ser outra coisa, poesia deve ser outra coisa, poesia precisa ser outra coisa. Um bom exemplo é o Baião de Spokens, idealizado e capitaneado pelo ator e poeta Caco Pontes (autor, entre outros, do ótimo Sensacionalíssimo, com poemas baseados em notícias de jornais sensacionalistas, editora Kazuá, 2013), projeto multimídia que agrega diversos nomes de várias áreas e já teve várias apresentações em festivais, feiras e mostras.

#Opendrive. Capa. Reprodução

Gregário por natureza, o projeto chega ao disco, recheado de parcerias e participações especiais. Disco é modo de falar, evocando o conceito de álbum: o trabalho do Baião de Spokens é lançado (também) em pendrive, mesclando diversos suportes, com a mídia permitindo ao proprietário/colecionador/usuário salvar seus próprios arquivos além do disco, livro e dvd (com a videoperformance de show gravado ao vivo no Teatro Oficina, enquanto Silvio Santos não lhe veda com suas torres e a “força da grana que ergue e destrói coisas belas”), uma sacada-trocadilho inteligente com o título do trabalho: #Opendrive.

Além de parceiros, participações especiais, linguagens e suportes, #Opendrive também é ponto de encontro de várias referências, da vanguarda paulista ao Nordeste de Luiz Gonzaga (evocado, além de musicalmente, nas xilogravuras do projeto gráfico de Daniel Minchoni), passando pela Bossa nova e pelo rap, afinal de contas, abreviatura de rhythm and poetry.

Melô do pendrive, que abre o disco com a participação especial de Sandra X (voz), dialoga com o rap e o canto-falado de Linton Kwesi Johnson. Réu, com a participação especial de Alzira E e Iara Rennó evoca Itamar Assumpção, melodicamente, no jeito em que o canto é entoado e no sample de Vinheta I (Itamar Assumpção), que abre Beleléu, leléu, eu (1980), disco de estreia do tieteense.

Sophia Lacoste evoca outra obra-prima oitentista, Clara Crocodilo (1980), citada nominalmente, e sua ficção científica. “São Paulo, 25 de abril de 2037”, começa Arrigo Barnabé, convidado especial da faixa, ao lado de Suzana Salles (Isca de Polícia), outra vanguardista paulistana-paranaense.

O nosso bem, com Alice Ruiz, é pura doçura, poemúsica escrito a quatro mãos com o anfitrião. Sinhá D’Oyá é candomblé elétrico, na melhor levada “tecnomacumba”, com a guitarra sempre em pirueta de Kiko Dinucci.

A viola caipira de Daniel Viana ponteia a introdução de Osso, com participação de Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo), coautor da faixa, uma equação de nossos tristes tempos sob o domínio de golpistas: “ói/ a vida aqui/ tá osso/ (…)/ muito carnê/ & pouca carne/ muito negócio/ & pouco ócio”. Gustavo Galo assina ainda, em parceria com Caco Pontes, Osso – Parte 2 (O preço do terço), faixa que se ouvirá mais à frente.

Mariposas suicidas é uma distopia (no fim das contas muito próxima de nossa realidade, como toda distopia) em que o planeta gira e pira, enquanto seres humanos “vivendo seus próprios dramas/ e a caça de insetos/ outra prestação se dando por vencida/ muriçocas temerosas zunido orelhas”.

Com João Sobral, Evoluo indo “desjustapõe” a evolução, entre encontros e despedidas, fluxos, chegadas e partidas, esta “arte do encontro” chamada vida. Firmino Chão, com Lirinha, trocadilha o nome nordestino com a firmeza sertaneja, o nordestino é “antes de tudo, um forte”, seu Euclides, seu Belchior.

Orecular, com Dani Nega, dialoga com as pistas, “poesia pra/ rimar_comer / viver_sentir / obrar_morrer/ …cantar…/ (desconstruir)/ e o que mais tiver de ser”, então, por que não?, dançar.

O Baião de mashups encerra o disco como propõe o título da faixa: remixa e liquidifica Luiz Gonzaga (Baião, parceria com Humberto Teixeira), Caetano Veloso (que cita Gonzagão em You don’t know me, do antológico Transa, de 1972) e João Gilberto (em seu baião autoral Bim bom).

Eis um ótimo exemplo de que poesia sempre pode ser bem mais.

Ouça #Opendrive:

Herança portuguesa

O poeta Celso Borges faz recital amanhã em Lisboa, Portugal. Foto: divulgação

 

“A poesia atravessa o Atlântico e eu tô nesse barco junto com Assis Medeiros”, postou o poeta Celso Borges em uma rede social. Descendente de portugueses, ele está em Portugal a passeio, realizando um sonho, conhecendo parentes e, como a poesia não descansa, aproveitará para realizar um recital amanhã (13), na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, lançando seus mais recentes trabalhos: o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria, com ilustrações de Diego Dourado.

Na ocasião Celso Borges será acompanhado do também jornalista, compositor, cantor e instrumentista Assis Medeiros, que lança seu mais recente disco, Lamina.

Sobre a viagem e o recital, Celso Borges conversou com exclusividade com Homem de vícios antigos.

Tua ida a Portugal é a realização de um sonho e um (re)encontro com parentes, ancestrais, alguns dos quais você nem conhecia. Fale um pouco desta motivação em atravessar o oceano pela primeira vez.
Na verdade eu já atravessei o oceano uma vez, em 1988, quando passei 25 dias fazendo um curso na França. Na volta, lembro que o avião fez escala em Lisboa, mas não descemos e fiquei olhando com a vontade presa no coração. Agora, finalmente poderei visitar a terra de meus pais e avós. Meu pai é de Braga, norte do país, e minha mãe do Porto. Vou ver tios e primos que não conheço a não ser por fotos. E andar pelo país, sentir o cheiro, o vento, a claridade e a beleza da sonoridade de uma língua que fala e canta diferente ali, com seu sotaque específico, sua música que cresci ouvindo.

Esta tua herança portuguesa já era apontada em músicas como Aldeia, gravada por Nosly, São Luís, por Claudio Lima, e na homenagem que te fizeram Sérgio Natureza e Kléber Albuquerque em Devoluto. Apesar da proximidade linguística com Portugal, conhecemos mais astros ingleses e americanos que nomes portugueses em qualquer arte. Parece que paramos em Roberto Leal. Você de algum modo acompanha a cena? Que nomes destacaria?
A poesia portuguesa do século 20 é fantástica. Acaba que a gente fica sabendo mais de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e alguns poucos do modernismo. Pessoa esmaga os demais, quase como o papel que Drummond representa na poesia brasileira. Mas isso vem mudando aos poucos. A gente já vê, aqui e ali, uma preocupação em conhecer mais os portugueses. Destacaria, por exemplo, Herberto Helder, que morreu há uns dois anos; Ruy Belo, Jorge Sena, Alberto Pimenta, António Rosa, Alexandre O’Neill. Na música conheço bem Sérgio Godinho, Pedro Abrunhosa, Ruy Veloso e a Carminho, que é uma fadista genial. Isso sem falar nos africanos, que são muitos também e que desconhecemos quase completamente. Precisamos aumentar esse diálogo, esticar essa língua linda que é o português.

Em recente recital na SMDH [Sociedade Maranhense de Direitos Humanos] você afirmou que “vive por causa da poesia”. Em uma viagem familiar e turística você aproveita para realizar um recital de lançamento de seus mais recentes trabalhos, o livro O futuro tem o coração antigo e a revista Fúria. É uma prova daquela afirmação, não é?
A poesia é minha combustão, meu oxigênio, o que me move. Sem a arte e a literatura seria impossível suportar a realidade. E isso está dentro de mim mesmo quando a rotina e as obrigações cotidianas me mordem covardemente.

No recital de lançamento você será acompanhado por Assis Medeiros, músico e parceiro que lança seu disco Lamina, em terras portuguesas. Como vai ser este encontro no palco e qual a base do repertório?
Assis é um parceiro raro, que toca, canta e compõe bem. Dividir com ele essa experiência no palco é uma honra. Vou ler entre 12 e 15 poemas, acompanhado por suas intervenções. Em outra parte do recital, A posição da poesia é oposição, que deve durar cerca de 30 minutos, ele vai cantar duas ou três canções, uma delas um poema de Augusto dos Anjos que ele musicou.

Arte: Diego Dourado/ Divulgação

Lúcia Santos: lúcida e lúdica

Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução
Nu frontal com tarja. Capa. Reprodução

 

Os remédios tarja preta, de uso controlado mediante receita médica, estão, no imaginário coletivo, associados aos “malucos” que os usam legal ou ilegalmente. A expressão é quase sinônimo de loucura, barra pesada, proibição.

Na capa e no título (e apenas ali) do novo livro de poemas de Lúcia Santos, Nu frontal com tarja [Reformatório, 2016, 125 p.], no entanto, é justamente o contrário. O conteúdo – 102 poemas, como anunciado na capa – é pura lucidez, ludicidade e desnudamento.

Aguardado sucessor de Uma gueixa pra Bashô (2006), inteiramente dedicado ao haicai, Nu frontal com tarja demonstra um amadurecimento da poeta – uma das mais importantes em atividade no Brasil –, sem no entanto, abandonar algumas características de seu fazer poético: a concisão, certa ginga e a musicalidade.

Dividido em três partes, Nu frontal com tarja traz, em A tesoura de Dalila, poemas curtos e/ou rimados; em MudOlhar, poemas em prosa; e em Além Dali, poemas seus musicados por nomes como Kléber Albuquerque, Adolar Marin, Nosly, Dudu Caribé, Pedro Moreno e o irmão Zeca Baleiro, entre outros.

Os títulos das seções, aliás, já dão um rasante em suas referências, que continuam a escorrer por seus poemas, umas mais óbvias, outras menos: mitologia (Penélope, Narciso, Prometeu), religião (Jesus, Madalena), cinema (François Truffaut, Gerard Depardieu), moda (Dior), música (bossa nova, rock’n roll, punk, Maria Callas, Maurice Ravel) e poesia (Matsuo Bashô, Glauco Mattoso, que assina o texto da quarta capa).

“Seu estilo se presta bem ao haicai que, como a temática se desnuda sem pejo nem nojo, funciona à guisa de autêntico epigrama”, sentencia o poeta Glauco Mattoso no texto da quarta capa, em que recomenda ainda: “Continue lúcida e lúdica, Lúcia, nesse pique, pois”. Não é mero jogo de palavras. Ela retribui no poema Ironia crônica: “minha sátira seria/ toda prosa/ ao olhar invejoso/ se ao invés de glaucomatosa/ eu fosse Glauco Mattoso”.

O poema sem título “entre-me/ alma corpo e membro/ como primavera namora setembro” é das delicadezas de que Lúcia Santos é capaz, feminíssima voz. Como em Jogo de cena: “não subestime meu poder de fogo/ sou centroavante linha dura/ quando meu time entrar em campo/ você vai se surpreender com meu jogo/ de cintura”. A poeta é sempre dona da situação. Não entrega o ouro ao bandido, mas não tem nada a esconder. Em Punk, por exemplo, critica a ditadura da felicidade (apregoada sobretudo nas redes sociais) e da sociedade de consumo: “fuck it/ a vida não é um fake book/ comercial de margarina/ pose e look// mesmo fina/ a dita dura da felicidade/ só entra com vaselina”.

Quem não quiser tornar-se o personagem de Deslocado – “perdeu os melhores filmes de sua vida/ vasculhando a empoeirada estante da comédia romântica” – precisa ler este quarto livro de Lúcia Santos. Acompanhe-a nesta viagem. Última parada, poema final, é boa síntese: “fim de linha/ finda viagem/ navios queimados/ desembarco na vida real// agora é que são elas/ agora aqui sou eu/ sem velas”.

Encruzilhadas poéticas

Outras canções de desvio. Capa. Reprodução
Outras canções de desvio. Capa. Reprodução

 

Outras canções de desvio [Sete Sóis, 2016] é trabalho de meticulosa ourivesaria. O disco, assinado pelo poeta Flávvio Alves, reúne poemas seus musicados por Kleber Albuquerque (Cerol, Orquídea cósmica, Teus olhos meus, Contraveneno e Desvio), Du Gomide (Quase lá), Carlos Careqa (Às traças), Richard Serraria (Mantra), Gabriel Schwartz (Novo amor antigo), Assis Medeiros (Em vão) e Fred Martins (Dois). Em uma faixa-bônus Kléber Albuquerque canta trecho de poema de Fernando Pessoa: “dorme, que a vida é nada!/ Dorme, que tudo é vão!/ Se alguém achou a estrada,/ achou-a em confusão,/ com a alma enganada”.

Nas 12 faixas a fina flor do que se convencionou chamar de nova MPB. Além dos compositores citados, cantores e instrumentistas surgidos no cenário nacional a partir de meados da década de 1990. Daniel Groove (Cerol), Kléber Albuquerque (Quase lá, Teus olhos meus, Mantra, Novo amor antigo e o trecho do poema de Pessoa), Carlos Careqa (Às traças), Fred Martins (Dois), Renato Braz (Orquídea cósmica, em dueto com Fred Martins), Aline Nascimento (Contraveneno, em dueto com Kléber Albuquerque), Ceumar (Desvio) e Elaine Guimarães (Em vão) emprestam sua voz aos poemas de Flávvio Alves, acompanhados por Rovilson Pascoal (contrabaixo, cavaquinho, guitarra, violão, ukulelê, teclado, violão 12 cordas, teremim e loops rítmicos), Gustavo Souza (percussão), Luque Barros (violão sete cordas), André Bedurê (contrabaixo em Contraveneno), Simone Sou (percussão em Desvio), Luiz Gayotto (percussão e percussão vocal em Novo amor antigo) e Estevan Sinkovitz (guitarra em Dois).

Desde aquela época, esta constelação tem sido responsável pelo lançamento de discos primorosos, parte deles pelo selo Sete Sóis, cujo principal nome por trás é justamente Flávvio Alves, que, ao agradecer a Kleber Albuquerque, em texto no encarte, afirma: “sem ele este trabalho não existiria, seria um dos tantos arquivados em minha gaveta”. A julgar pela beleza deste, não hesitamos em afirmar: é preciso desengavetar. Nome que mais aparece no encarte de Outras canções de desvio, o cantor e compositor assina também seu projeto gráfico, à altura da beleza do conteúdo – também pelo Sete Sóis, Kléber Albuquerque acaba de lançar um disco dividido com o cantor Rubi, intitulado justamente Contraveneno [2017], produzido por Flávvio Alves, cujo show passou pela Ilha ano passado.

Aos que julgam discos – e livros – pela capa, não se enganarão os que se arriscarem por ela, que aí começa a beleza deste disco: a ilustração de um violeiro numa encruzilhada – um dos possíveis desvios do caminho – é do escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. A ele e sua esposa Lucimar, Flávvio Alves dedica Dois: “tudo tem sua vez/ mas toda vez/ vem depois de nós dois”, “posso ouvir teu olhar/ posso ver tua voz” e“tudo tem um talvez/ mas com você/ tudo é certo demais”, diz a letra.

Basicamente são canções de amor, mas nada há de piegas em Outras canções de desvio, disco que levanta o astral e o polegar positivamente e com rara categoria para responder à questão batida: letra de música é poesia? “De toda farsa imensa sempre em cada dia/ Nada ultrapassa a força bruta da poesia/ Em meio à massa a moça fica mais bonita/ é frágil a louça, ágil a fantasia”, diz a letra de Às traças.

Outro exemplo?: “era tanta magia/ no olhar da poesia/ raspas de luar/ mel de melodia”, em Teus olhos meus. Mais um?: “que haja sempre uma rede no alpendre da ilusão/ um novo verso no ventre universo/ e um maço de canção/ um novo verso no ventre universo/ pra tanto tropeço e decepção”, em Mantra. Deleitem-se e tirem suas próprias conclusões.