Espanto de ex-ilhado

Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução
Fontes, São Luís, 1948. Foto: Pierre Verger. Folha de rosto de Éguas! Reprodução

 

Novo livro do poeta Dyl Pires, Éguas! [Pitomba!, 2017, 60 p.; R$ 20,00] é completamente distinto do Poema Sujo de Ferreira Gullar, mas é impossível não associá-los, longe de querer cair na comparação preguiçosa de que aquele é o Poema Sujo do século XXI ou coisa que o valha. Neste sentido são absolutamente distintos.

O Poema Sujo foi escrito ao longo de cinco meses em Buenos Aires, Argentina. Éguas! levou pouco menos de um mês, durante um período de férias do autor em São Luís, evocando a Ilha de sua infância e adolescência. Num e noutro a ilha pulsa, viva.

Ambos têm São Luís como cenário-personagem e foram escritos durante o exílio: forçado, no caso de Gullar, perseguido pela ditadura militar; voluntário, no caso de Dyl, radicado há quase década em São Paulo. Publicados em livro, ambos parecem ter sido feitos para a declamação em voz alta e têm a leitura em seu nascedouro.

O Poema Sujo chegou ao Brasil em uma fita k7 com a voz de Gullar e foi apresentado a um seleto grupo pelo diplomata Vinicius de Moraes. Antes de ser publicado Éguas! teve leituras em rodas de amigos e gente interessada em poesia, ocasiões em que o autor colheu e incorporou sugestões – experiência seguida também pelo editor Bruno Azevêdo, cujo work in progress exposto nas redes sociais também acatou sugestões ao resultado final do bonito projeto gráfico, um padrão de sua editora, ouso dizer.

Ao longo da última semana, já com a obra em mãos, sua voz e visão originais materializadas em papel, Dyl Pires realizou diversas leituras, espécies de avant-premières da noite de autógrafos que faz hoje (8), às 19h, no Chico Discos (Rua dos Afogados, 289-A, altos, Centro) – com Samarone Marinho, que lança Ser quando.

Tipicamente maranhense a expressão que dá título ao livro é “uma interjeição, um anúncio de que o extraordinário irrompeu no cotidiano”, anota Matheus Gato em “A dor real é ser ilha”, espécie de posfácio (cujo título é um verso) do livro-poema. De espanto a interjeição se reconfigura em admiração, quando descobrimos estar diante do melhor livro de Dyl Pires, flanando com o autor por ruas, culturas, episódios, gente viva e saudosa que homenageia.

“dizer do si mesmo da cidade que está em/ Cláudio Costa/ Mondego/ Binho Dushinka/ Jesus Santos/ como um grito primitivo do sonho”, erige o poema-monumento aos vivos, tributando também quem já se foi: “escorrem pelas carrancas da Fonte do Ribeirão/ servindo-se daquelas máscaras/ para se reapresentarem à ilha/ são eles/ João Alexandrino/ Padre Mohana/ Cipriana/ João do Vale/ Reinaldo Faray/ Valdelino Cécio/ Pierre Barroso/ Beto Bittencourt/ Cristóvão Alô Brasil/ Lopes Bogea/ Ambrósio Amorim/ Serginho Fontenele/ Zuza/ Wagner Alhadef/ Roberto Lameiras/ Jorge Babalaô/ Lauro Leite/ Rosclim/ Rui/ Carioca/ Terezinha de Jesus Rodrigues/ Eliane Ribeiro/ Terezinha Jansen/ Josemar/ Antônio Vieira/ Mestre Felipe/ Dona Teté/ Nelson Brito/ Rafael Bavaresco/ Marco Cruz/ Faustina/ Michol/ César Maranhão/ Mestre Leonardo/ Mestre Apolônio/ Fidel/ Seu Adalberto/ Moema/ Jackson Pires/ Ubiratan Teixeira/ Magno Aires/ Omar Cutrim/ Humberto do Maracanã/ José Chagas/ Herbeth Fontenele/ Nauro Machado/ Guilherme Teles/ Norberto Fabian Castellano/ Ana Duarte/ Lara Sena/ Ângela Gullar/ Aldo Leite/ Ferreira Gullar”, perdas sentidas pelo poeta e pela cidade-musa.

Imediatamente à frente anota: “as ausências são o lugar/ de onde melhor ainda se vê o futuro”. Com seu olhar de turista-estrangeiro-exilado, Dyl Pires afasta o risco de qualquer pieguice que acomete grande parte das obras de arte que se arriscam a cantar a cidade.

Dyl Pires eterniza momentos fugazes em seu livro-poema, como quando narra: “Dylson Bessa Junior/ endiabrado em sua cadeira de rodas/ desceu a Rua do Egito chutado/ como se quisesse fazer do perigo/ um cardume de morte e ressurreição/ e esquentar a primeira estrela vista aquela noite/ as mãos que o empurravam negociavam/ o arame farpado da fé com o destino/ naquela noite todos foram dormir em paz/ embora tenham sonhado com o céu/ de escuras estrelas das axilas de deus/ hoje de pensar dá medo”.

Seu personagem tornado criança, sem noção do perigo na Rua do Egito, dialoga com as crianças na Rua de Nazaré em uma fotografia de Pierre Verger de 1948 que ilustra o volume – a outra imagem do francês mostra crianças brincando na Fonte do Ribeirão. Talvez ser poeta signifique justamente isso: voltar a ser criança e, portanto, à capacidade de espanto. Por essas e outras, Éguas! já nasce clássico.

Bumba meu boi, poesia, literatura infantil e direitos humanos

Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução
Bumba, nosso boi. Capa. Reprodução

 

Jornalista de ciência, Diego Freire parte da mais conhecida manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi, para discutir a questão do bullying. O resultado é o belo livro-poema Bumba, nosso boi [Empíreo, 2016, 40 p.], verdadeira obra-prima da literatura infantil, ilustrado por Rogério Maroja, com trabalhos espalhados por revistas como Superinteressante, Recreio, Placar, Saúde e Playboy.

A dedicatória a Papete, um dos maiores embaixadores da cultura maranhense mundo afora, evoca o Boi de lágrimas, clássico de Raimundo Makarra, gravado pelo próprio Papete e tantos outros: “também sente dor, e boi também chora”, diz a letra. É um mote para entrar no debate.

O poema conta a história de Bumba, o boi preferido do fazendeiro, cuja língua desejada por Catirina, é arrancada por Pai Francisco para satisfazer o desejo da esposa grávida, tal qual no auto do bumba meu boi.

Mas no poema de Diego Freire, em vez de morrer e ser ressuscitado pela pajelança de índios e cazumbás, “Bumba acabou sem língua” e “passou por poucas e não tão boas com os outros bichos da fazenda, que caçoavam do jeito diferente como ele passara a falar”.

O autor extrapola o universo do bumba meu boi do Maranhão e propõe o diálogo da lenda central do auto da manifestação com outras lendas bastante conhecidas em todo o Brasil: o Saci, a Mula sem Cabeça e o Boitatá, “que, bem, nem boi é”.

As criaturas, que a princípio deviam assustar o protagonista Bumba, acabaram por se afeiçoar a ele, que afinal havia encontrado sua turma: “Mas Bumba sorriu em vez de gritar./ “Parece que enfim achei meu lugar!”/ É que Bumba viu que toda aquela “gente”/ era como ele: diferente”.

O poema conta uma história de superação, por um viés sui generis, o que demonstra que o auto do bumba meu boi é fonte inesgotável de metáforas para compreendermos melhor o mundo, nosso lugar nele e lutar pelo fim das injustiças sociais – afinal, não é disso que tratou o enredo junino desde sempre?

Para ser lido em qualquer época, não apenas por crianças, Bumba, nosso boi é um livro, no fundo, sobre “direitos humanos”, expressão em geral detratada pelos que insistem em sua abstração como uma espécie de entidade sobrenatural, generalizando órgãos e instituições como “defensores de bandidos”.

O grande trunfo do livro de Diego Freire reside bem aí: escolhe um tema, apresenta sua necessidade de debate e faz isso de maneira leve, longe, muito longe de soar panfletário. Sobra até para a hoje onipresente Galinha Pintadinha.

O autor, em foto de divulgação
O autor, em foto de divulgação

Serviço

Diego Freire autografa Bumba, nosso boi na programação da 10ª. Feira do Livro de São Luís. Dia 13 de novembro (domingo), às 19h, na Casa do Escritor Maranhense, na Vila dos Livros (Praça da Casa do Maranhão). Toda a programação da FeliS tem entrada franca.

Os ringues de Fernando Abreu

Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução
Manual de pintura rupestre. Capa. Reprodução

Feito um poeta do século passado, o jornalista Fernando Abreu, 51 anos completados no último dia 12, funcionário concursado, bate ponto em um órgão público, mas sua poesia está longe do enfado e da burocracia.

Quem o conhece sabe da raridade de suas aparições públicas. Seu tempo ocioso, e bote bastantes aspas em ocioso, gasta lendo, sobretudo poesia, e ouvindo música.

Seus poemas não se contentam com a página do livro, embora não a menosprezem. Se, num país que não lê, poesia menos ainda, é preciso ganhar alguns ouvidos, “me deixa ser guru dessa galera”, como diz uma parceria do poeta com Zeca Baleiro.

Sua fama de eremita é conhecida entre os amigos, que festejam suas raras presenças em eventos literários – com o poeta Eduardo Júlio foi curador da Feira do Livro de São Luís ano passado.

Um dia após o Dia Nacional da Poesia, Fernando Abreu, ou simplesmente Fabreu, para os mais íntimos, sai de casa amanhã (15) para lançar seu Manual de pintura rupestre [7Letras, 2015, 75 p., R$ 20,00 no lançamento].

É o quarto livro de Fabreu, ex-integrante da Akademia dos Párias, movimento poético que fez barulho na Ilha na década de 1980 e início da de 90. Manual de pintura rupestre, seu primeiro título publicado por uma grande editora, aparece depois de Aliado involuntário [Exodus, 2011], O umbigo do mudo [Clara Editora, 2003] e Relatos do escambau [Exodus, 1998]. A Exodus é uma casa inventada pelo poeta para se publicar.

Se nos dois primeiros livros seus poemas estavam mais para Leminski e Oswald de Andrade, entre a piada, a rapidez, o chiste de mesa de bar, e no penúltimo terem ganhado volume, neste quarto título Fabreu atingiu um nível de maturidade poética fruto de exercício, leitura e autocrítica.

Apesar do salto, Fabreu é um poeta pé no chão. “Quem lida com esse negócio de escrever e publicar poesia não pode alimentar muitas ilusões pra não se frustrar. Começa que não somos um país de leitores, e muito menos de poesia”, declarou ao Homem de vícios antigos, sem que sua fala soe amarga.

“No caso da 7Letras me atraiu o cuidado que eles tem com seus produtos em termos de acabamento, programação visual etc. Geralmente os livros são bem bonitos, e o meu não fugiu à regra”, continua, sem falsa modéstia.

De suas leituras cotidianas, muitas referências estão em Manual de pintura rupestre. Se os poetas são “as antenas da raça”, como nos ensinou Pound, a sintonia de Fabreu aponta em várias direções.

A começar por Terence Mckenna, filósofo e etnobotânico norte-americano que emprestou uma das epígrafes da obra – a outra é de Jorge de Lima: “o xamã é o ancestral remoto do poeta e do artista”, diz um trecho dO alimento dos deuses.

Em tempos de instantâneos no instagram e descartáveis no snapchat, o grande trunfo de um poeta é lapidar poesia onde ninguém mais a enxerga, num mundo cada vez mais embrutecido. O cotidiano é matéria-prima de Fabreu: “uma xícara de café fumegante/ o rosto de alguém que caminha/ lembrando de uma música/ amantes fugindo a pé do fim do mundo/ o cachorro paciente esperando pra atravessar/ na faixa de pedestres”, observa em Aqui agora, poema que abre este Manual de pintura rupestre.

O estado das coisas abre o leque de referências de Fabreu que percorrerá as páginas desta sua nova obra, citando Lord Byron, Glauco Mattoso e Dylan Thomas. Uns citados textualmente, outros na sutileza da sacada, ao longo do livro aparecerão ainda Carl Gustav Jung, Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Engels (não confundir com outro Friedrich, o Hegel), Gonçalves Dias, Herbert Marcuse, João Bosco e Aldir Blanc, João Carlos Martins, Karl Marx, Noel Rosa, Roberto Bolaño, Rosa Luxemburgo, Sigmund Freud, Wilhelm Reich, William Blake, William Burroughs e William Carlos Williams.

Fabreu está sintonizado em poesia, música, política, denúncia social, crítica aos mercadores da fé televisionada, psicanálise, futebol, filosofia, erotismo. “quando não escrevendo nada/ ser mais poeta do que nunca/ todo antenas poros sentidos/ ser que se trespassa de tambores/ a palavra antes da palavra”, o Mestre sala dos ares é ótima síntese ou cartão de visitas.

Serviço – O poeta Fernando Abreu lança Manual de pintura rupestre nesta terça-feira (15), às 18h30, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (Praia Grande, em frente ao Terminal de Integração). A noite de autógrafos terá recital com os Mamutes Elétricos: Fernando Abreu (voz e poemas), Erivaldo Gomes (percussão) e Marcos Magah (voz e guitarra).

Leia em primeira mão três poemas de Manual de pintura rupestre:

DA BOCA PRA FORA

vai com deus, papai!
no sinal que acaba de abrir,
aceito a bênção do menino
mesmo não tendo
as moedas
para o pão ou pedra
que, por segundos, iluminariam
suas entranhas ou sua mente
no vão dessa noite brasileira
em que me vejo órfão de uma dor
que sequer mereço sentir

DE UM COMERCIAL DE TV

depois de atravessar a cidade
sob os olhares agradecidos da multidão
o boneco gigante anunciando
ofertas imperdíveis
foi se postar por trás da loja principal da rede
onde
do alto de seus
mais de dez metros de altura
abençoou os fiéis

PARALELAS

qual é a diferença
entre o revolucionário
que recusa a esmola ao mendigo
para não atrasar o fim da burguesia
e o burguês piedoso
que nega a mesma moeda
ao mesmo mendigo
porquevaitudopracachaça&crack?

[pp. 31, 33, 35]

Arqueologia poética

Aos 26 anos Mayra Fontebasso cursa o último período de Letras na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista. Natural de Itu, a mãe da Clarice ganha a vida mexendo ou produzindo textos alheios: “pesquisadores, professores universitários, advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados” procuram a moça à frente da Leitura Profissional, onde escreve, edita, revisa e traduz.

Mayra é também contadora de histórias e diz gostar “de fingir que toco chorinho ao violão”. Ela segue sem se levar muito a sério: “descobri que estudo literatura e tento fazer isso a sério, mas falta dinheiro”, apresenta-se.

Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução
Raça nº. 13, 1929. Capa. Reprodução

Sua pesquisa de conclusão de curso é sobre “Os modernistas e a revista Raça (1927-1934)”, sob orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques e, faz questão de frisar, apoio financeiro do CNPq. A publicação circulou na região no período assinalado.

Ela revela desde sempre se interessar “pela história do interior paulista e seus arranjos políticos pautados por interesses oligárquicos e perpetuadores de desigualdades que persistem até hoje”. Reside em São Carlos/SP desde 2008 e a partir de um estágio na Fundação Pró-Memória local passou a estudar a “falsa vanguarda” do movimento modernista Verde-Amarelo a partir de sua manifestação literária na revista são-carlense do final dos anos 1920.

Foi em meio a essa pesquisa que deu com os óculos em três poemas desconhecidos de Carlos Drummond de Andrade [1902-1987] publicados na Raça. É ela quem prefere, com razão, o termo “desconhecidos” em vez de “inéditos”, já que embora não constem de nenhum livro do autor, antologias ou estudos sobre sua obra, os poemas foram publicados na revista (leia-os ao final deste post). É um Drummond inocente, bem diferente do que reconheceríamos como um dos maiores poetas brasileiros do século passado, efígie das notas de cinquenta cruzados novos, homenagem póstuma da Casa da Moeda brasileira no final da década de 1980 – o verso da nota trazia o poema Canção amiga, musicada por Milton Nascimento em 1978.

Sobre os achados Mayra Fontebasso conversou com o Homem de vícios antigos.

A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello
A pesquisadora metendo os óculos nos perdidos de Drummond. Foto: Wilson Aiello

Como foi o seu grito de “eureka!” ao se deparar com os três poemas desconhecidos de Drummond?
Na verdade as reações foram mais como “Quem é o charlatão se passando por Drummond?” e um “Ahhh, duvido que seja Drummond! Não tem nem o Andrade na assinatura…”. Acho que qualquer leitor do consagrado itabirano teria essa reação ao se deparar com os poemas. Eu, particularmente, conhecia a obra do poeta apenas a partir do livro Alguma poesia [1930]; além do mais, no periódico são-carlense que estudo – a revista Raça, publicada entre 1927 e 1934 – é comum vários colaboradores assinarem com pseudônimos, uma estratégia para evitar desafetos com leitores e para os editores ‘encherem’ as páginas da revista, já que provavelmente vários textos sem autoria e mesmo com nomes suspeitos eram produzidos por eles. Ainda, os poemas eram assinados por um “Carlos Drummond”, sem o Andrade, o que de início me chamou a atenção. Bastou a leitura de alguns títulos especializados, porém, para eu ter a certeza de que essa era uma assinatura do poeta muito utilizada ao longo dos anos 1920. Tirei a teima por meio do livro organizado pelo professor Antônio Carlos Secchin, chamado 25 poemas da triste alegria [CosacNaify, 2012], escrito por Drummond em 1924 e até então desconhecido. Nesse livro há um texto sobre os pseudônimos utilizados por Drummond, o que me levou à Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade minuciosamente organizada por Fernando Py, que fez um levantamento de toda a obra drummondiana publicada de 1918 a 1934 [2ª. edição, aumentada; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002]. Em nenhum destes livros os poemas da revista são-carlense apareciam, nem mesmo no Inventário do Arquivo Carlos Drummond de Andrade, que possui mais de dois mil itens aos cuidados da Fundação Casa de Rui Barbosa, encontrei qualquer referência aos poemas da Raça. Com esses livros foi que passei a conhecer o jovem Drummond que publicava principalmente no jornal republicano Diário de Minas. Inclusive suspeito que haja uma coletânea de mais de 140 poemas-em-prosa semelhantes a estes que encontrei em uma monografia defendida na UFMG que, infelizmente, não está disponível para leitura online em lugar nenhum e já virou um mito para mim. Preciso passar por Minas Gerais e correr atrás desse trabalho.

Você é estudante do último período de Letras. Sua pesquisa é sobre a revista Raça. Qual a abordagem de seu trabalho monográfico?
Olha, a abordagem é a paixão em enxergar na literatura toda uma organização de pensamento sobre o que se falava e se escrevia em uma dada época. Vou tentar simplificar: gosto de pensar sobre como se relacionavam num determinado período a obra literária, no caso a revista Raça, o seu público leitor e a sociedade que permitiu que essa obra surgisse e circulasse. Dizem que essa é uma abordagem historiográfica, mas desconfio que esse seja o nome que deram para essas pessoas loucas como eu que amam papeis antigos e “fontes primárias” que nos fazem espirrar e que são um amontoado de peças de um quebra-cabeça que dificilmente poderá ser completado. Estudando a Raça tenho a oportunidade de entender melhor como pensava a ala mais conservadora do movimento modernista, aquela vinculada aos Verde-Amarelos como Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, para citar alguns nomes que aparecem na revista. Consigo, então, olhar ao mesmo tempo para o movimento modernista a nível nacional conflitando-o com o dado local, com a recepção de suas ideias e com as articulações de intelectuais conhecidos com personalidades locais que possuíam um projeto de construção para um país, um projeto de nação calcado na definição do que seria justamente a “raça brasileira” em meio aos mitos do caldeamento e da mistura entre o que denominam – nessa ordem hierárquica –como bandeirantes paulistas, indígenas e negros. Na minha pesquisa pretendo delinear melhor quem são e como pensavam os escritores modernistas que contribuíram para a revista são-carlense, discutindo o projeto editorial que sustentava um projeto de nação para o Brasil. Já no TCC o tema Drummond será incontornável e vamos ver o quanto conseguirei me aprofundar na produção de juventude do poeta.

Os poemas de Drummond são ruins, o que é justificável: era então um autor bastante jovem e ainda desconhecido. Como você os localizaria dentro da obra do poeta? Acha que ele se envergonharia deles?
Eu sou bem na minha, sabe? Sou mãe, lutei muito para chegar perto de concluir minha graduação, sempre tive que trabalhar para me manter na universidade, sei que não li nem um quinto do que deveria ter lido até agora para fazer o que faço… Aliás, suspeito muito do que faço e do que penso, e tenho certeza que esse badalo todo o Drummond é que criou só para se vingar de mim aumentando expectativas em torno da minha pesquisa [risos]. Certamente ele detestaria o que estou fazendo. Não gosto de dizer que os poemas são ruins, prefiro dizer que são imaturos, ingênuos, “manjados”; mas têm o seu encanto justamente por nos lembrar de que o Drummond não nasceu grande. Ele também seguiu modelos, idolatrou outros poetas, por vezes os imitou descaradamente até achar o seu próprio estilo e publicou essas “bobeiras de juventude” loucamente, passando a vida negando essas produções e tentando escondê-las. São poemas-em-prosa (ou prosa poética), um estilo de escrita usado por muitos poetas porque permite certa narração mais próxima à realidade ao mesmo tempo em que contém elementos poéticos como o ritmo e a métrica, as metáforas, as imagens resgatadas por meio da linguagem poética. Drummond escreveu muitos poemas-em-prosa, então não é uma novidade para os estudiosos, mas esses achados reforçam o que o pesquisador John Gledson apontou já nos anos 1980 [Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, Ed. Duas Cidades, 1981]: Drummond não nasceu moderno e passou por um processo de formação, embora ainda haja certa resistência a essa leitura. São poemas “penumbristas” porque se vinculam a uma tendência literária do período de transição entre os séculos XIX e XX no Brasil, pré-modernista, como chamam os especialistas. O Penumbrismo não chegou nem a ser uma “escola literária”, foi mais uma estética, um estilo calcado nos poetas franceses e italianos que tratavam de temas intimistas. No Rio de Janeiro, onde residiam escritores como Ronald de Carvalho, que inclusive cunhou o termo “penumbrismo”, essa estética era mais difundida. Nos anos 1920 o jovem Drummond lia muito Ronald de Carvalho e também Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto e Eduardo Guimaraens, todos tributários dessa “atitude penumbrista”. Os traços simbolistas dos poemas que encontrei fazem referência a um Alphonsus de Guimaraens, por exemplo, muito lido e admirado por Drummond. São poemas com o “espírito” da época, “penumbristas” devido às várias reticências e ao tom melancólico e de solidariedade com um outro que não sabemos quem é; e “simbolistas” por evocar imagens como as “mãos soluçantes que dançam”, as “mãos viúvas que tateiam insones” etc. Em uma análise mais séria esses traços são vários e em um artigo futuro pretendo aprofundá-los.

A obra de Drummond vem sendo reeditada pela Companhia das Letras. Você é leitora de Drummond e de poesia em geral? Dele, qual o seu livro predileto? E quais são os teus outros poetas de cabeceira?

A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal
A pesquisadora tietando a estátua do poeta em Copacabana. Foto: acervo pessoal

Eu bebo prosa e transpiro poesia. Não sei se sou boa leitora, mas vou longe quando consigo tempo para ler e até brinco de escrever, nada sério. As reedições de Drummond sempre me deixam ansiosa. Quem dera o mercado editorial fosse mais robusto para os livros não serem tão caros, mas faltam leitores… Livros são caríssimos para mim! É raro eu conseguir comprar alguma edição nova, sorte que existem sebos e bibliotecas. De todos os livros do Drummond é A rosa do povo o que sempre me comove mais, me leva aos prantos e depois me faz rir, me dá um soco no estômago e depois me faz caminhar com fé. A ilustração da primeira edição desse livro logo estará na minha pele, só preciso arranjar tempo para terminar umas adaptações na arte de Santa Rosa [risos], vou colocar mais mulheres nela. Minha cabeceira da cama é um fuzuê. Um vai-e-vem de livros e desenhos e rabiscos… Tem coisa que nunca sai de lá e que nem sempre está em livro. É que tenho o hábito de transcrever o que gosto em pedaços de papeis que se espalham espontaneamente por toda a casa. Cotidianamente, para ficar só na poesia, me deparo com Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros, Patativa do Assaré e Hilda Hilst. Drummond fica sempre ali no cantinho, ele pesa em livro. Tem para todos os humores. Ana Cristina César, Adélia Prado, Cora Coralina, a Patrícia Galvão… Acho que parei no tempo. Olhando aqui ainda vejo um Cacaso de bolso e um Murilo Mendes praticamente impassível em suas letras prateadas.

E de nomes contemporâneos, em prosa ou poesia, você tem lido alguém? Alguém que tenha te chamado a atenção?
Eu parei mesmo no tempo. Leio pouco ou quase nada contemporâneo, não por falta de influência, já que tenho uma porção de amigos que vive comentando várias obras. Gosto muito da escrita do [Milton] Hatoum, [Ariano] Suassuna, e de Paulo Lins, [Luiz] Ruffato, Marcelino [Freire]… Posso ir para fora do Brasil? Morro de amores pelo [José] Saramago… O restante eu realmente não tive meios ainda de sentar para conhecer além dos nomes e da fama.

E já é possível responder quais são os seus planos após a conclusão do curso de Letras?
Depois do curso de Letras eu pretendo ganhar dinheiro [risos]. Falando sério, não sei ainda se a carreira acadêmica é pra mim, pois embora eu ame pesquisar, os recursos para essa área de estudo são escassos. Gosto de agito cultural, de antropofagia literária e a coisa sempre me parece acomodada demais nas universidades. Adoro a ideia de dar aulas para jovens! Quem sabe algum projeto surja desse desejo de transformar as pessoas por meio da literatura… Talvez eu tente uma Pós-Graduação para continuar estudando o pensamento conservador na literatura brasileira, ou talvez eu parta mesmo para projetos e ajude a divulgar o que encontrei para estimular outros pesquisadores. Nesse rolo todo o certo é que continuarei trabalhando com revisões, traduções e aprimoramento de textos. Há oito anos tenho uma empresa nessa área, a Leitura Profissional, e meus clientes são pesquisadores, professores universitários,  advogados, jornalistas, escritores e políticos que querem textos e discursos mais bem elaborados. Primeiro me formo, depois vejo onde hei de fincar minhas raízes.

Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução
Fac símile da página com os poemas perdidos do jovem Drummond. Reprodução

POEMAS PERDIDOS

Revista Raça, nº. 13, jun.1929, p. 32 – São Carlos/SP

Acervo de Octavio C. Damiano – Fundação Pró-Memória de São Carlos

[Ortografia atualizada pela pesquisadora. O poema compõe parte do corpus da pesquisa de iniciação científica Os modernistas e a revista Raça (1927-1934), empreendida por Mayra de Souza Fontebasso sob a orientação do Prof. Dr. Wilton José Marques (Departamento de Letras/UFSCar) e o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Contato: leituraprofissional@gmail.com]

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina…
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam…
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada…
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida…
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos…

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão…
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre…
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos…
E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas…

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias…
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes…
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas…
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra…

Carlos Drummond

Busca

O poeta Joãozinho Ribeiro resgatou, entre objetos deixados por um cunhado recentemente falecido, um trecho do poema Guerra que te quero paz, que segue publicado ao fim deste post. O intento é encontrar o restante do poema, com alguém que o autor de Milhões de uns possa tê-lo compartilhado no passado. Notem: Joãozinho não procura um parceiro para fechar o poema. Quer saber se, entre os amigos de longa data, alguém sabe, lembra, viu, tem cópia com a outra parte etc., etc., etc. Se alguém puder ajudar, agradecemos antecipadamente.

GUERRA QUE TE QUERO PAZ

Entre as feridas da bomba
Uma criança sem rosto
Vagueia pelos subúrbios
Da cidade destruída
Catando os cacos de infância
Subtraídos da vida

Sem pátria, sem geografia
Perdida num continente,
Delinquente, guerrilheira,
Ensaia para o futuro
Uma canção de esperança
Bordada em letras de muro

Dos cacos que vai juntando
Edifica sobre as perdas
Uma palavra sofrida
Que vaza as dores do mundo
Queixando as rosas da vida
Esmagadas num segundo

A palavra peregrina,
Imitando o voo dos pássaros
Sobe alpes, cordilheiras,
Invade vitrines, praças,
Devassa quartéis, igrejas
Pelos países que passa

Cor de sangue

Arte: Junião (originalmente publicada aqui)
Arte: Junião (originalmente publicada no Ponte)

 

Cinquenta tiros,
média 10 pra cada um.

“A carne mais barata
do mercado
é a carne negra”.

A PM resolveu
tingi-la de vermelho,
quem sabe não lhe
altera o valor?

Branco, só o carro
em que estavam.
Não há espaço
pra lágrima incolor
quando o sangue jorra aos borbotões.

Gritos que não calam

Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo
Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo

 

Um grito urgente e desesperado ilustra em preto e branco a capa de Fúria, novo petardo poético que Celso Borges lança hoje (16), logo mais às 19h, na Galeria Trapiche Santo Angelo (em frente ao Terminal de Integração da Praia Grande), com entrada franca – a revista custa R$ 20,00 e por ocasião do lançamento, quem comprá-la leva de brinde um cartão postal de Diego Dourado, que assina as ilustrações de Fúria – incluindo capa e contracapa.

Eles já estiveram juntos em Trezeatravéstreze, exposição na Galeria Hum (São Francisco) que juntou 13 poetas e 13 artistas plásticos em um diálogo cultural entre poesia e artes plásticas no mínimo interessante e quiçá então inédito por estas plagas – a que torna agora este par.

Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos
Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos

 

A noite de autógrafos terá exposição de reproduções de 10 ilustrações da revista, além de performance poético-teatral de Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine. Ela interpreta Zuleika, ele Tavares, com base em Bazar Belle Epoque, poema de Celso que acabou ficando de fora da revista, em que o poeta critica a sociedade de consumo.

A maioria dos poemas é publicada pela primeira vez em Fúria, apesar de Celso Borges, aqui e acolá, já os ter dito em palcos diversos. Desde XXI (2000), seu primeiro livro-cd, o poeta vem experimentando os atritos entre o poema pensado para o suporte de papel (o livro, no caso, agora, a revista) e o poema se aproximando da música (para além de uma leitura com fundo musical), ele que também é letrista de música e coleciona um invejável rol de parceiros.

Nos últimos anos o poeta tem se apresentado em diversos espetáculos, com vários formatos e parceiros, fazendo a poesia subir ao palco como atração principal. Ele já fazia isso em São Paulo, onde morou por 20 anos, mas coincidiu da frequência se acentuar com seu retorno à Ilha natal, em meados de 2009. Os poemas de Fúria já foram experimentados no palco e bem merecem também registro em disco.

Não à toa conhecido como “homem-poesia”, Celso Borges é um dos maiores poetas e agitadores culturais destas plagas. Desde fins da década de 1970, quando cursava jornalismo na Universidade Federal do Maranhão, participou da feitura de diversas revistas, e Fúria é também uma espécie de homenagem a elas: Arte e Vivência, Guarnicê, Uns & Outros e mais recentemente a Pitomba!, que editou com Reuben da Cunha Rocha e Bruno Azevêdo, por cuja editora homônima se publica o lançamento de hoje. É também uma homenagem a Coyote e Oroboro, duas importantes revistas de literatura nacionais, em que CB também foi publicado, além de fazer uma “calorosa referência à Navilouca, revista de um único e decisivo número, no início dos 70, inspiração presente em quase tudo o que fiz editorialmente”, como ele mesmo afirma em Em lugar de um livro, à guisa de apresentação da revista.

O poeta “está sempre inventando novas guerrilhas para manter sua maquinaria sensível em movimento”, atesta o poeta Ademir Assunção em Fúria contra a falta de delicadeza, um baita endosso ao fazer poético de CB.

Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução
Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução

 

A sintonia entre as ilustrações nervosas de Diego Dourado – também poeta – e os poemas furiosos de Celso Borges desafina o coro dos contentes: “prefiro a fúria hemorrágica/ às rimas de hemorroidas”, avisa em Cuidado! Poemas e ilustrações – com ecos de Picasso, Edvard Munch e de nossa violência cotidiana – nascem desse incômodo com o que está posto e parece tão natural.

Por não ser natural uma cidade decrépita transformar seus casarões patrimônio da humanidade em estacionamento surgem poemas como Blockbuster, escrito num acesso de fúria quando o poeta recebeu a notícia de que a casa em que Aluísio Azevedo escreveu O mulato viraria estacionamento. Seu “refrão” é “estacionamento o caralho!/ estacionamento o caralho!”

Ou Canção do exílio: a vingança e Louvação pelo avesso, em que ele destripa poemas canônicos de Gonçalves Dias e Bandeira Tribuzzi, sem perder a delicadeza nem o respeito e o bom humor. Neste, publicado no jornal Vias de Fato, por ocasião do aniversário de 400 anos da capital maranhense, ele saúda: “parabéns, atenas brasileira/ pelos decanos parnasianos/ pelos orelhas de abanos/ parabéns, frança equinocial/ pelos roseanos carcamanos palacianos/ parabéns, ilha do amor, ilha magnética/ pelos danos e esganos”; naquele, opera um mash up de Luiz Ayrão com Gonçalves Dias, em meio à imundície fruto de nossa falta de educação cotidiana e do descaso político (tão ou mais imundo quanto): “olhe aqui preste atenção esta é a nossa canção/ minha terra tem fios elétricos/ onde cantam os bentivis/ nas prisões cabezas cortadas/ no palácio leões senis/ (…)/ nas calçadas cocôs de cães, na assembleia os imbecis”.

“Raiva é energia”, nos ensinou John Lydon. Fúria é energia e urgência, que os berros não podem ficar presos à garganta.

Museu Russo apresenta hoje (25) leitura bilíngue de Maiakovski

Divulgação do recital circulada em redes sociais. Arte: Aleksandr Ródtchenko
Divulgação do recital circulada em redes sociais. Arte: Aleksandr Ródtchenko

 

Carinhosamente apelidado de Museu Russo, o ECI Museum, na rua 14 de Julho (Praia Grande, ao lado da Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa de Araújo), será palco de uma leitura inédita do russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), considerado “o poeta da revolução” – não à toa o epíteto serve de subtítulo a uma conhecia biografia sua, de Aleksandr Mikhailov [Record, 2008].

Intitulado Gente é pra brilhar a tertúlia acontece hoje (25), às 19h, com entrada franca. Tomam parte os poetas maranhenses Celso Borges, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego e Luís Inácio, além do escritor Adriano Sousa, que recentemente lançou em São Luís o livro Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação [Educ/Fapesp, 2015], fruto de sua tese de doutorado. O recital contará ainda com a participação especial de Anastassia Bytsenko, doutora em literatura russa pela Universidade de São Paulo (USP), e Eugenio Itskovich, do ECI Museum.

Gente é pra brilhar será bilíngue; os dois últimos lerão poemas de Maiakovski em sua língua mãe. O arsenal vai muito além de “melhor morrer de vodca que de tédio” e o “sou todo coração”, que de tão conhecidos e repetidos podem, por vezes, ser atribuídos a outros, na selva das redes sociais.

O poeta Celso Borges não nega Maiakovski entre os de sua preferência. Ele antecipa a dinâmica do evento. “Cada um de nós falará quatro poemas do escritor russo, com prioridade para as traduções dos Irmãos Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman. Será muito interessante também podermos ouvi-lo na sonoridade da língua russa”, declarou.

Leia um poema de Maiakovski:

Reprodução
Reprodução

Estacionamento o caralho!

CELSO BORGES*

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez mil, vinte mil, cinquenta, cem mil carros arrombam um sobrado que fica na rua do Sol ou Nina Rodrigues, 567, esquina com a rua da Mangueira, conforme indicam os catálogos telefônicos absolutamente obsoletos. Ali querem construir um estacionamento no mesmo lugar em que ficam o sobrado e a alma do sobrado de Aluísio Azevedo, escritor da terra, futuramente expulso pela elite escravocrata local da cidade, que ainda sonha com a Atenas do passado.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Um carro arranca na frente, outro descarrega sua carne de prata e alumínio sobre a calçada, um terceiro entra na sala da casa, o quarto invade o quarto da mãe de Aluísio cuspindo gasolina sobre a mesinha de cabeceira, o quinto dos carros infernos outros tantos vários em acúmulo de tijolos de barro e cimento de amianto no coração do sobrado entre alicerces e subterrâneos enferrujando de fumaça e fuligem o sonho do pai de Aluísio e do irmão Artur, que a essa altura do campeonato já está no Rio de Janeiro há muito tempo cansado da província que só quer saber de construir estacionamentos no centro da cidade.

Melhor alguns carrinhos enfileirados do que esses prédios velhos que não prestam pra nada e ficam atrapalhando o progresso da cidade tombada pela Unesco, o que na prática não significa porra nenhuma.

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Carros e mais carros sobem as escadas uns sobre os outros. Os azulejos portugueses já ficaram para trás. Seguir adiante, esse o futuro que temos pela frente. O quintal da casa é uma questão de tempo. Cadê Aluísio? Cadê o filho de Aluísio? Cadê o neto de Aluísio, O Cortiço de Aluísio, a Casa de Pensão de Aluísio, o final dO Mulato de Aluísio? Cadê Américo Azevedo Neto? Por que não escreve mais Cartas a Daniel? Cadê o berro de Emílio e suas foices de bigorna? Cadê a AML e o busto perdido de Aluísio? Notas de consternação não ressuscitam mortos. Aluísio e seu bigode em triunfo, suas bengalas polidas esgrimando com martelos que derrubam fachadas e economizam trabalho da chuva do próximo inverno.

A morada inteira se levanta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

Quem viver verá os carros subindo as escadas até o mirante, lá em cima de onde se vê um tanto de outros telhados inúteis com seus musgos e mururus. Ali cabe uma coleção de Mercedes, quem sabe uma Ferrari envenenada. Haja cicuta para tanto filho da puta!

Estacionamento o caralho!
Estacionamento o caralho!

*CELSO BORGES é jornalista e poeta. Seu livro mais recente é O futuro tem o coração antigo.

2984

– incorporando Clara Crocodilo e o Bandido da Luz Vermelha

assim falou Zaratustra
ao Recruta Zero: quem tiver de sapato
não sobra

office-boy com mortadela
na diarreia de dr. Phibes
Clarabela de biquíni
num anúncio de soda

sorrisos de latas de ervilha
e holofotes de esparadrapo
na sucursal
do Grande Frigorífico

enquanto estereofônicos repolhos
zombam de tudo isto
e nada disso

Desembucha, canalha!
gargalhadas de Rosebud
nos buchos do precipício

corta essa, nenhum grilo
esculhamba e avacalha
o Bandido da Luz Vermelha
aos gritos
de Clara Crocodilo

Durango Kid Alighieri
Perfume de Gardênia

uma lâmina no olho
e o cérebro equipado
para a próxima amnésia

*

Poema do Marcelo Montenegro, de seu Orfanato portátil [AtritoArt, 2003; Annablume, 2012, p. 52-53], que ele autografará na Ilha, em breve, bem como o mais recente, Garagem lírica. O poeta é um dos autores convidados da 7ª. Feira do Livro de São Luís. Este poema o blogue dedica ao professoramigo Flávio Reis.

Colheita da aurora

(para Victor Asselin)

Victor lutou pela paz
em ravinas de pedra,
semeou lírios azuis
num céu em chamas,
dividiu com os pobres
seu coração de hóstia,
agora desce da cruz
que perfumou sua noite
e vai colher a aurora.

Cesar Teixeira

Faleceu ontem, aos 85 anos, o padre Victor Asselin. Na imagem acima o autógrafo que deu a minha esposa, quando do lançamento da segunda edição de seu fundamental Grilagem: corrupção e violência em terras do Carajás, livro que dedicou “A todos os lavradores que morreram na luta pela terra e a todos aqueles que ainda hoje residem no Maranhão e em todo o Brasil defendendo o direito de viver e de ser gente, ofereço os anos de trabalho e de esperança destas páginas”.

Visitas marcam comemoração de 28 anos do grupo Teatrodança

“Fazer valer a flor da idade/ Colhida no pátio do sossego/ Ermo estandarte deflagrado/ Sob a mordaz lua crescente// A flor que ensina o frio ao pasto/ À relva a solidez do asfalto/ Sol que encobre o céu descalço/ E alimenta as turbinas do silêncio// Fazer valer essa flor perdulária/ Já que tudo é um golpe de sorte/ Reunir os cavalos sob a chuva/ Cogumelos velozes da memória// Fotos revistas nas dobras do sonho/ Páginas como pétalas entreabertas/ Ternamente ao alcance dos dedos/ Flor orvalhada no ato de explodir// Fazer valer os nervos intricados/ Da flor na idade do abandono/ Fazer justiça ao cão sem dono/ Que ladra e morde em meu jardim.”

O poema que abre este post, Fazer valer a flor da idade, de Fernando Abreu [Aliado involuntário, Êxodus, 2011, p. 45], é o mote de Flores, espetáculo do grupo Teatrodança, coordenado pela bailarina Júlia Emília, cuja pesquisa é voltada para as culturas tradicionais, da arte oriental da ikebana às expressões populares do Maranhão.

Flores será apresentado nesta quarta-feira (7), às 19h, na Casa de Nhozinho (Rua Portugal, 185, Praia Grande), com entrada franca. Na ocasião, o grupo apresentará também Ilhadas. Júlia Emília explica que este espetáculo “é parte de uma trilogia que se propõe a descobrir uma linguagem com a qual artistas da cena começam a escrever sua própria história e sistematizar suas ideias, teorias, técnicas e análises, por meio do aproveitamento matrizes das expressões populares maranhenses na construção de uma dramaturgia do corpo”.

Ainda segundo ela, “o que dói mais é a inocência perdida. Meninas que somem. Mulheres que choram. Nas tradições brasileiras de lutas, o sentimento feminino contra a dor permanece no corpo e permite dar continuidade ao ato de viver”.

Ao contrário de lojas que enganam cidadãos – muitas vezes diminuídos a meros consumidores – com o papo de que “a gente faz o aniversário e quem ganha o presente é você”, o grupo Teatrodança fará valer de fato a flor da idade, presenteando a plateia: além dos dois espetáculos, bate-papos após eles. As visitas terão continuidade com o espetáculo Flores: Livraria Poeme-se (dia 14 de agosto), Escola Attività (24), Casa Verde (30) e Centro Ozaka (14 de setembro).

Por causa de Jacques Tati

Ei, tu aí,
Jacques Tati!
Onde estás?
Aqui, aqui, Jacques Tati.
Eu aqui, tu aí,
Jacques Tati

Converso contigo numa noite de S. Paulo.
Os cachorros seguem tio Hulot
e lambem com carinho os farrapos de teus passos.

Pousas numa poça?
Danças numa praça?

O passarinho que olhas canta pra ti, Tati.
Te pede a luz da janela que abres
e teus olhos acompanham esse som infinito
de Satie?
de Bach?
de Debussy?

um som que teu silêncio embrulha
como presente pra mim, Tati.
som imenso e simples
que ninguém consegue samplear.

São Paulo, 1997, depois de ver Meu Tio

&

Poema de Celso Borges que eu trago da caixa de comentários ao espaço principal do blogue. Promoção do Sesc, a mostra Tati por inteiro segue até sábado no Cine Praia Grande, de graça (ingressos devem ser retirados com meia hora de antecedência na bilheteria do cinema). Abaixo, programação d’hoje, que nunca é demais repetir, Tati, Tati, Tati…

Lideranças da ‘Teologia da Libertação’ escrevem aos cardeais; Casaldáliga envia poema

O manifesto assinado por 2 mil teólogos da libertação, entre eles d. Pedro Casaldáliga, Leonardo Boff e Jon Sobrino, pede ao futuro Papa, quem quer que venha a ser, que considere como prioritária a expectativa dos católicos por uma Igreja aberta para as mudanças exigidas pelo mundo contemporâneo. Casaldáliga ainda enviou um poema ao papa emérito Bento XVI.

POR DERMI AZEVEDO
DA CARTA MAIOR

Pela primeira vez na história da Igreja Católica, os cardeais eleitores do Papa recebem, de um bispo, um poema. O autor da poesia é o bispo emérito de São Félix do Araguaia/MT, o religioso catalão d. Pedro Casaldáliga, um dos representantes mais expressivos da Teologia da Libertação.

O texto foi também enviado ao papa emérito Bento XVI. Paralelamente, d. Pedro assinou na semana passada um manifesto de 2 mil teólogos da libertação, entre os quais o brasileiro Leonardo Boff e o espanhol Jon Sobrino, com ampla atuação em todo mundo e que foi punido pelo então cardeal Joseph Ratzinger, quando era prefeito (ministro-chefe) Congregação da Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício).

O manifesto pede ao futuro Papa, quem quer que venha a ser, que considere como prioritária a expectativa dos católicos por uma Igreja aberta para as mudanças exigidas pelo mundo contemporâneo.

De Pedro do Araguaia para o Pedro de Roma:

“Deixa a Cúria, Pedro”
Deixa a Cúria, Pedro,
Desmonta o sinedrio e as muralhas,
Ordene que todos os pergaminhos impecáveis sejam alterados
pelas palavras de vida, temor.
Vamos ao jardim das plantações de banana,
revestidos e de noite, a qualquer risco,
que ali o Mestre sua o sangue dos pobres.
A túnica/roupa é essa humilde carne desfigurada,
tantos gritos de crianças sem resposta,
e memória bordada dos mortos anônimos.
Legião de mercenários assediam a fronteira da aurora nascente
e César os abençoa a partir da sua arrogância.
Na bacia arrumada, Pilatos se lava, legalista e covarde.
O povo é apenas um “resto”,
um resto de esperança
Não O deixe só entre os guardas e príncipes.
É hora de suar com a Sua agonia,
É hora de beber o cálice dos pobres
e erguer a Cruz, nua de certezas,
e quebrar a construção – lei e selo – do túmulo romano,
e amanhecer
a Páscoa.
Diga-lhes, diga-nos a todos
que segue em vigor inabalável,
a gruta de Belém,
as bem-aventuranças
e o julgamento do amor em alimento.
Não te conturbes mais!
Como você O ama,
ame a nós,
simplesmente,
de igual a igual, irmão.
Dá-nos, com seus sorrisos, suas novas lágrimas,
o peixe da alegria,
o pão da palavra,
as rosas das brasas…
… a clareza do horizonte livre,
o mar da Galileia, ecumenicamente, aberto para o mundo.