(Re)Lançamento inaugura novo endereço literário na cidade

O futuro tem o coração antigo. Capa. Reprodução

 

“O futuro tem o coração antigo/ não é um livro saudosista”, como também não o é seu autor, o poeta Celso Borges, que pela primeira vez, em quase 40 anos dedicados ao ofício – não à toa é chamado “homem-poesia”, ou simplesmente CB, pelos mais próximos – desde a estreia com o renegado Cantanto (1981), vê um livro seu chegar a uma segunda edição – a primeira é de 2013 (escrevi sobre aqui; folheie trechos acolá). “Mas um exercício de ternura/ a pele da flor na carne da cidade futura”, continua.

A carne da cidade histórica e patrimônio cultural da humanidade de São Luís do Maranhão, em que Celso Borges voltou a morar há 10 anos – após 20 de São Paulo –, está representada, na obra, em preto & branco, pela técnica de pin-hole, por alunos do Ifma, sob a batuta do professor Eduardo Cordeiro. Qual a primeira edição, esta segunda também sai pela guerrilheira Pitomba! livros e discos.

Para a noite de autógrafos o poeta sentará praça no Sebo Chico Discos, que passa, a partir desta quinta-feira, 14, dia da poesia – e um ano da bárbara e covarde execução de Marielle Franco –, a ocupar o térreo do Bar homônimo, na esquina de Afogados e São João, no Centro, afinal de contas palco de memoráveis tertúlias, bar e proprietário personagens fundamentais do poema chamado São Luís e daqueles que costumam ler a cidade com a devida atenção.

Aliás, cabe um parêntese, benza Deus a fartura!: há um corredor literário interessantíssimo no centro da cidade, fervilhando para além de seus acervos à venda, com eventos movimentando casas como, além do Chico Discos (tanto o bar quanto o sebo, a partir de amanhã), o Sebo do Arteiro (Rua do Sol, próximo ao Sindicato dos Bancários), a Livraria Poeme-se (Rua de Santo Antonio, 264-A, com seu sarau sempre às últimas quintas-feiras do mês e onde Fernando Abreu autografa quinta que vem, às 19h, seu quinto livro, Contra todo alegado endurecimento do coração, de que este blogue falará oportunamente) a Feira da Tralha (Edifício Colonial, nas imediações do Teatro Arthur Azevedo, com seu chorinho ao vivo e discotecagem nas manhãs entrando pelas tardes de domingo) e o Paço Prosa (Rua João Gualberto, 52-Altos, Praia Grande, mesmo endereço em que funcionava o Poeme-se).

“O futuro tem o coração antigo” é uma frase do poeta e pintor italiano Carlo Levi, que Celso Borges já havia usado na epígrafe de XXI (2000), livro-disco-coletânea em que começou suas experiências de ligar poemas a trilhas sonoras, para além da “leitura com fundo musical” – tão em voga ainda hoje –, no que se irmana a poetas da pesada como Ademir Assunção, Marcelo Montenegro e Rodrigo Garcia Lopes, para citarmos uns poucos.

O futuro tem o coração antigo, mas Celso Borges mesmo, num poema de Belle Epoque (2010), adverte: “antigamente era antigamente e era muito pior”. Como diz neste livro: “chega uma hora em que chegou a hora”. Repito: é amanhã (14), às 19h, no Sebo Chico Discos.

Onde o reggae é a lei

Conheci São Luís e o Maranhão por causa do reggae, em 1988. Era uma reportagem pra revista Trip, mas acabei participando de um seminário sobre o tema e vivendo situações que bem dariam um filme. Eu era fã há algum tempo, visitara a Jamaica, escrevia sempre a respeito, mantinha uma coluna com novidades da música negra nas páginas da Somtrês. Acho que, assim como a maioria dos poucos que cultuavam o gênero no Brasil, eu sabia direitinho quem era Gregory Isaacs, I Jah Man, John Holt e Augustus Pablo, mas nunca tinha ouvido falar de Clancy Eccles, Jackie Brown, Keith Poppin e Jimmy London. E eram artistas excelentes, música de primeiríssima qualidade!

Durante alguns dias, zanzei nas festas das grandes radiolas e também nas das mais toscas. Estive com radialistas e djs, dançarinos e colecionadores, entre outros personagens de um fenômeno cultural tão rico e inverossímil quanto o original. Lembrava o esquema jamaicano do meio dos 1970, mas com um toque brasileiro, nordestino e nortista, caboclo. Não era uma cópia. Nos táxis, nas ruas, no som das lojas de eletrodomésticos, no rádio da cozinheira e até no vento, vindo de um não sei onde e ecoando apenas os supergraves, tudo era reggae. Os ônibus tinham rádio e os motoristas subiam o volume quando os programas começavam. Nos salões havia casais naquela estica – os homens de calça social, sapato e camisa de manga comprida, as mulheres de vestido no joelho.

Até então, eu não sabia que São Luís também era uma ilha – apenas uma de várias coincidências com sua prima caribenha. Como não observar, por exemplo, a cumplicidade rítmica do tambor de crioula com o nyahbinghi, batuque dos rastas? Ou que a Casa Fanti-Ashanti, terreiro histórico e influente, trazia essa peculiar referência à nação Ashanti, uma das principais provedoras da alma caribenha? Enfim, na minha cabeça as esculturas do Palácio dos Leões deslizavam sobre as cores do Sampaio Correia, compondo um diorama da bandeira da Etiópia.

Carles Solís fotografou o casal dançando agarradinho da capa

Trecho de Onde o reggae era a lei, prefácio que Otávio Rodrigues, não por acaso apelidado Doctor Reggae, escreveu para Onde o reggae é a lei (cuja capa acima este blogue dá em primeiríssima mão), livro que a Karla Freire lança ainda este ano pela Edufma, com produção editorial da Pitomba! Livros e Discos, do marido Bruno Azevêdo, que ano que vem lança Em ritmo de seresta: narrativas e espaços sociais da música brega e choperias em São Luís do Maranhão (este o título acadêmico, que deve mudar, para efeitos editoriais). Ambos os livros são frutos de suas dissertações de mestrado em Ciências Sociais (UFMA).

Não tenho culpa se deixo aqui os poucos mas fieis leitores deste blogue com água na boca (o livro tá mais perto do que longe, eu esperei mais, com ansiedade e aflição maiores, podem acreditar!).

O livro de Karla Freire venceu há algum tempo alguma categoria do Concurso Artístico e Literário Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura (Func). Demorou a sair por que seu editor (e marido) não queria engessar os livros como em geral acontece em edições “oficiais”. A espera valeu a pena: fora o texto da autora, há um tratamento caprichadíssimo para quase 70 páginas de fotos, muitas delas de antigos reggaes de São Luís, fruto de uma pesquisa posterior à defesa do trabalho em banca acadêmica.

Em breve este blogue avisa do reggae de lançamento, pra gente curtir umas pedras e as letras da mãe da Isabel.

Só me tornei editor porque não arrumei um!

Obra publicada em edição da revista Pitomba

Ficaria feliz em ter alguém que cuidasse de toda a parte chata do trabalho. Sobraria mais tempo pra escrever e terceirizaria o custo do material todo, que lucro mesmo eu nunca esperei. Grifes também fariam bem ao espírito, se calhasse.

Mas não calhou.

Tenho aqui tantas cartas de recusa de originais, que dava pra escrever um romance nas costas delas. Um dia uso pra alguma coisa, existe estilo, humor e sarcasmos deliciosos nelas.

A ideia da editora foi a de criar uma falácia. E se eu não fosse eu? Se me institucionalizasse? Criasse um nome de fantasia? O de batismo tinha falhado de todas as maneiras.

Meses depois, transformei o incômodo num pequeno texto chamado Manifesto Pitomba, no qual tentava enumerar problemas e soluções, mas que acabou brutalmente censurado pelo Reuben [da Cunha Rocha] e pelo Celso [Borges] — que têm mais senso do ridículo que eu — mas que insisto em colar, pequenininho, nos meus próprios livros. É no ridículo que opero.

Mas vamos lá. Ao problema.

Nossas possibilidades de edição se resumem a duas secretarias de cultura que valem menos que a merda do pombo da cumeeira do Oscar Frota. Os editais são escritos por um paquiderme, executados por um protozoário e resultam em livros tão feios que, ao longo dos anos, recusei-me a ler vários por não suportar o contato com o objeto.

Os caras não se importam com algo com o qual eu me importo muitíssimo, e isso me emputecia! Me inscrevi nesses editais por anos e anos, ganhei algumas vezes, mas nunca saía nada! É preciso que vocês entendam que um dia eu levei esse povo muito a sério. Eu até lia os poemas, porra!

Com o tempo, passou a me incomodar mais a atitude dos autores, que se sujeitam ao [Concurso Literário e Artístico] Cidade de São Luís todos os anos, sabendo do embuste, como se sujeitam aos editais da Secma (quando esta os faz). O trabalho deles ficava, ao logo dos anos, tão medíocre quanto o esquema todo. Parecia que os editais, antes de promover o tal fomento à produção, a viciava. Há de se tirar o chapéu ao funcionismo, conseguir travar gerações inteiras com uma estratégia de edição tosca e migalhenta como esta é um lance de gênio. Gente que, anos antes, tava amolando as pontas das facas aos murros.

A Pitomba é uma forma positiva de recusa à calhordice geral, ao amadorismo da oficialidade, devolvendo a ofensa na forma de livros ofensivos, porque ousamos achar que o livro é um troço importante, bonito, tesudo e tal. Também é uma maneira de existir, e qualquer existência fora das paredes das repartições, no Maranhão, é transgressora.

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Texto de Bruno Azevêdo, dono da Pitomba Livros e Discos, que publica as coisas dele [Breganejo Blues e O Monstro Souza, entre outros] e publicou, com o Vias de Fato, o Guerrilhas, do Flávio Reis. O reclame foi publicado no Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, do Jornal Pequeno, sábado passado (30/6).

A Pitomba edita também a Pitomba. Digo, o selo/editora publica a revista, editada por Bruno com os citados Celso e Reuben, que também publicaram textos sobre a Pitomba, a revista, no Guesa. O do último tá no blogue dele (donde roubei a ilustração do post). O do remanescente da Guarnicê, se ele me mandar, que ver mesmo o Jornal Pequeno de sábado, eu não vi, eu penduro cá no blogue.