Black friday talk show

Foto: Zema Ribeiro

 

Era uma sexta-feira de black friday e estávamos na praça de alimentação de um shopping center. Por conta de uma das promoções típicas da data, a fila do Burger King era enorme e obviamente não passou despercebida a Lírio Ferreira, um dos diretores do clássico Baile perfumado, lançado há 22 anos, em Pernambuco. Com ele, no bate-papo, seu par de direção do filme Paulo Caldas, e o mediador, o poeta e jornalista Celso Borges.

Película importante da chamada fase de retomada do cinema nacional, após o desmantelo da Embrafilme no governo Collor, Baile perfumado foi o precursor de tudo o que viria depois em se tratando de cinema pernambucano, o Árido movie, que não à toa intitulou outro filme de Lírio Ferreira 10 anos depois, o estado nordestino um dos mais importantes celeiros do cinema nacional desde então.

Uma versão remasterizada de Baile perfumado foi exibida ontem (23) na programação do Festival Maranhão na Tela, em uma sala do Kinoplex Golden, no Golden Shopping, Calhau. “É interessante estarmos aqui. Embora seja estranho fazer isso em um shopping center. Mas quem diria, 22 anos depois do Baile perfumado, nós estarmos debatendo o filme aqui, em uma praça de alimentação, diante da fila enorme do Burger King”, disparou Lírio Ferreira.

Na plateia eu pensava que rever Baile perfumado na ocasião era uma espécie de atestado afetivo de velhice: eu tinha visto o filme na finada MTV Brasil. A trilha sonora, impactante, funciona como uma espécie de coletânea do MangueBit, o último movimento musical organizado de grande repercussão no Brasil, à época então se firmando: Chico Science, Fred 04, Mestre Ambrósio, Stela Campos e companhia.

“Quando gravamos o filme, já tínhamos 80 por cento da trilha sonora gravada”, revelou Lírio. “É muito bom poder ouvir o filme antes de rodá-lo”, repetiu Paulo Caldas.

Com Luís Carlos Vasconcelos e Duda Mamberti interpretando respectivamente Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Benjamim Abrahão, Baile perfumado tinge de ficção vermelho sangue a história real do fotógrafo libanês que conseguiu fazer imagens do cangaceiro em vida. Ao filme, aliás, comparecem as imagens em preto e branco da época de Lampião e seu bando.

“Havia várias imagens de vários arquivos. A gente juntou, recuperou, e está tudo na Cinemateca Brasileira”, comentou Paulo Caldas, revelando uma espécie de contrapartida histórica da dupla ao país – são imagens fabulosas, um documento valioso, sobretudo num tempo em que museus pegam fogo e pouca gente se importa.

O cangaço é algo muito forte no imaginário coletivo nordestino. “Lampião é, ao lado de Padre Cícero e Antonio Conselheiro, um dos maiores símbolos do Nordeste”, provocou Celso Borges. “E Luiz Gonzaga”, completou Lírio.

O nome de Luiz Inácio Lula da Silva não foi dito, talvez por terem citado apenas os que já se foram. Mas o descontentamento com os rumos do país ficou claro em suas falas. “Fazer cinema não é fácil, mas imagino que ser professor de escola pública também não seja fácil”, atacou Lírio. “Ainda mais num espaço sem liberdade, escola sem partido ou escola de partido único”, emendou Caldas.

“Uma coisa fica evidente, se estamos aqui 22 anos depois falando desse filme: o que fica é a arte, a coisa mais importante de um país é sua arte, sua cultura, não é a política”, completou, para aplausos dos poucos que assistiam ao bate-papo, infelizmente menos gente sentada que em pé na fila da citada lanchonete.

Um baile de cinema

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos. Cartaz. Reprodução

 

Um homem montado em um jumento transforma-se numa espécie de minotauro. Um minotauro moderno pode ter como segunda parte do corpo uma motocicleta. E é por uma espécie de labirinto que somos conduzidos ao longo do poético Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos [documentário, Brasil, 2016, 80 minutos], de Sergio Oliveira, com roteiro dele, Leo Pyrata e Renata Pinheiro, estreia nacional da semana – em São Luís em cartaz no Cine Lume.

O filme é povoado por jumentos, burros, jegues e outros animais que puxam carroças, além de bodes, cachorros e galinhas. Prescinde de palavras ao acompanhar uma viagem do grupo que lhe intitula, carinhosamente conhecido também pela sigla Super Oara, outro destaque musical da cidade que já deu ao Brasil o Coco Raízes de Arcoverde e o Cordel do Fogo Encantado, estes, nomes tidos como representantes de uma cultura mais “pura”, “genuína”, do lugar, apesar do flerte do último com o rock’n’roll.

Mescla o fazer musical do grupo, entre guitarra, contrabaixo, bateria, percussão, saxofone, trompete, trombone e piano, sob a regência do maestro Beto, à vida cotidiana do município do sertão pernambucano, distante 256 km da capital Recife, entre obras, trânsito, o tanger dos animais, o fim de feira, uma corrida de jegues, um inusitado encontro de easy riders agrestes, crianças brincando.

Em um de seus ônibus, a Super Oara vai de Arcoverde a Serra Talhada tocar em um aniversário de 15 anos, na sede da AABB local. Seu repertório, como o nome do grupo indica, é especializado em standards americanos, e ao longo do filme ouvimos clássicos como New York, New York (John Kander/ Fred Ebb), sucesso de Frank Sinatra, Bridge over troubled water (Paul Simon), regravado entre outros por Elvis Presley (a que vimos um dos integrantes da banda vendo um vídeo em um laptop durante a citada viagem), Fly me to the moon (Bart Howard), já gravada por aqui por Paula Toller, In the mood (Joe Garland), por aqui tema da minissérie Agosto, baseada no romance homônimo de Rubem Fonseca, e, entre outras, Am I black enough for you (Kenny Gramble/ Leon Huff), sucesso de Billy Paul, na cena em que uma espécie de Michael “moonwalk” Jackson cover dança com o bumba meu boi de Arcoverde.

Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, o filme, não se pretende uma cinebiografia do grupo quase sexagenário, tanto é que só do maestro Beto sabemos o apelido, ao longo de sua duração – quantos brasis há no Brasil por conhecermos? É um cinema inventivo, de puro deleite, que abusa da força poética das imagens, entre a realidade (documental) e a fantasia, à revolução dos bichos orwelliana, em que também os burros cantam e dançam.

É ao mesmo tempo um belo tributo à cultura nordestina e um retrato – não necessariamente uma crítica – das influências estrangeiras que chegam ao lugar. Se a elite criticou a substituição de jumentos por motocicletas, “graças ao Bolsa Família”, o documentário revela um convívio harmonioso entre uma e outra ferramentas, o que acaba por se tornar uma perfeita metáfora intercultural.

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Veja o trailer:

Coco pisado de tirar o couro

Foto: Zema Ribeiro

 

É na apresentação do Coco de Tebei que o tema da edição 2017/2018 do circuito Sonora Brasil faz mais sentido: “na pisada dos cocos”. Estado reconhecido por ofertar ao Brasil grandes mestres do gênero, de Bezerra da Silva a Selma do Coco, passando pelo grupo Raízes de Arcoverde, o grupo que se apresentou ontem (30), na Casa do Maranhão, é diferente de tudo o que se poderia esperar.

O Coco de Tebei é dançado por casais e cantado por mulheres, tendo como marcação rítmica apenas seus próprios passos, isto é, os pés dos dançarinos “socando” o chão, herança do taipar de casas de pau a pique, em que doses de trabalho e diversão se misturam coletivamente. Nenhum instrumento acompanha seus nove integrantes: três casais de dançarinos e três cantadeiras – que também dançam.

A dança é praticada por agricultores e tecelões de Olho d’Água do Bruno, povoado de Tacaratu – até o nome da cidade é sonoro e parece ser marcado também pela pisada de seus dançarinos. Por vezes, ao longo da apresentação, a sonoridade me evocava um maracatu. Mas na maior parte do tempo, pensava na catira e no toré indígena. Outras vezes também pensei em samba rock, imaginando que certamente aqueles homens e mulheres poderiam dançar qualquer coisa.

As saias de chita, floridas e rodadas, remetem às coreiras do tambor de crioula. Elas calçam sandálias, que são arrastadas em determinadas músicas, num delicioso “chep chep”. Os homens calçam sapatos pretos, vestem calça e camisa em diferentes tons de azul e usam um chapéu de couro, parecido com os que Lampião e Luiz Gonzaga tornaram moda, só que brancos.

O Coco de Tebei tem um disco, de 2008, cujo título é Eu tiro o couro do dançador. Penso que é apropriado: treino dá ritmo de jogo. Tivesse me arriscado a acompanhar-lhes alguns passos era capaz de estar com os pés e panturrilhas doendo até agora – muitos dos presentes se arriscaram e como de praxe nas apresentações do circuito Sonora Brasil, desde a última sexta-feira, em São Luís, a de ontem também terminou com uma imensa roda, uma espécie de oficina informal.

Ao final, já na praça em frente à Casa do Maranhão, cumprimentei um de seus integrantes, que saíra para fumar. Parabenizei-o pela performance. Ele sorriu e agradeceu. Ao dar-lhe um amistoso tapa no ombro, senti a camisa grudada à pele pelo suor que imediatamente me encharcou a mão.

Serviço

A passagem do circuito Sonora Brasil por São Luís termina hoje (31). Às 19h, na Casa do Maranhão, com entrada gratuita, se apresenta o grupo sergipano Samba de Pareia da Mussuca. Em Caxias/MA, a programação do Sesc continua até quarta-feira, programação completa no post anterior.

As várias facetas do movimento mangueBit

A grande serpente. Capa. Reprodução
A grande serpente. Capa. Reprodução

Em A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit [mantenho na resenha a grafia da autora; Fundarpe, 2014, 224 p.], Paula Lira faz um profundo mergulho na história do surgimento do mais recente movimento organizado da música brasileira, cujo boom se deu no início dos anos 1990, no Recife.

De múltiplas formações, a autora baseia-se em dois trípticos: a poética, a ciência (desde o nome artístico de seu principal artífice) e a mitologia do mangue, que ajudaram a fecundar e eclodir o movimento, além da diversão, diversidade e brodagem, elementos também fundamentais para o despertar da grande serpente.

Para um ludovicense que acompanhou com algum atraso a r/evolução do movimento – a partir de fins da década de 1990 –, é impossível não ler o livro sem fazer dois exercícios: o de lembrar as descobertas, à época; e indagar-se o porquê de, apesar de condições parecidas, do ponto de vista musical e da biodiversidade, algo parecido não ter acontecido em São Luís – a riqueza da cultura popular e as grandes áreas de manguezal, além do imaginário ao redor de lendas, incluindo também uma serpente adormecida nos subterrâneos da ilha.

O livro de Paula Lira é fruto de uma pesquisa de mestrado mas consegue tornar-se acessível ao leitor comum, de fora dos muros da universidade. Sem abrir mão dos rigores da ciência, o resultado é poético, como afirma o subtítulo, dando conta da complexidade e variedade do que foi/é o movimento mangueBit, para além da música e dos símbolos por que ficou mais conhecido, os caranguejos com cérebro e a antena parabólica enfiada na lama.

Por vezes como elemento partícipe, a autora acompanha festas, discos, moda – a partir dos primeiros shows de Chico Science, garotos adotam o chapéu de palha, apontando para a criação de uma estética mangue –, e entrevista nomes fundamentais do movimento, entre músicos – sobretudo integrantes da Nação Zumbi e mundo livre s/a, DJ Dolores – e gente de outras áreas –, o jornalista Renato L, ministro da informação do movimento mangue, e h. d. mabuse, ministro da tecnologia, sem nunca perder de vista o elemento diversão, a “greia”.

A pesquisa de mestrado ganhou adendos para tornar-se livro e é possível perceber uma r/evolução (das periferias) recifense/s a partir do movimento mangue: de quarta pior cidade do mundo para se viver, como apontava o noticiário da época, a uma cidade onde as coisas acontecem, apontando o desejo de uma inversão no fluxo migratório: em vez de jovens recifenses quererem sair para Rio de Janeiro e São Paulo, passa a acontecer o contrário. De música para se divertir – fazer o que se quer ouvir, mesclado ao do it yourself do movimento punk, também fonte de inspiração – a questionamentos sobre a realidade social, sem perder o ritmo, o elemento dançante, mas com diversidade, ao contrário do axé baiano. Nação Zumbi não é mundo livre s/a, que não é Eddie, que não é Mestre Ambrósio e versa-vice.

Aos mais de 20 anos de movimento, que deu à música brasileira discos hoje antológicos como Da lama ao caos [1994] e Afrociberdelia [1996], os dois primeiros da Nação Zumbi, ainda sob o comando do inovador Chico Science, morto precocemente em um acidente automobilístico no carnaval de 1997, passando pela estreia da mundo livre s/a Samba esquema noise [1994] – título fortemente influenciado pelo Samba esquema novo [1963] de Jorge Ben (depois Jor), cujo A tábua de esmeraldas [1974] é uma espécie de horizonte estético do movimento –, e Samba pra burro [1998], de Otto (não à toa ex-percussionista de ambas), seguiu-se a consolidação do Recife como metrópole não apenas musical brasileira, com resultados positivos em áreas diversas como cultura, turismo e patrimônio. “Um passo à frente” em relação à mpb de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e cia. que antecedeu os mangueboys.

Não se pode desprezar também o fato de que Pernambuco é, hoje, o maior polo cinematográfico brasileiro, para o que já apontava também o início do movimento mangue, com cineastas como Paulo Caldas e Lírio Ferreira – diretores de Baile perfumado [1996], que conta a história de Benjamim Abraão, o homem que fotografou Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. À trilha sonora comparecem expoentes do movimento, como Chico Science, Fred 04, Stela Campos e Mestre Ambrósio, entre outros.

Talvez seja impossível falar em mangue no singular, tamanha é a fertilidade do ecossistema e a contribuição à cultura brasileira dada pela turma de Chico Science e Fred 04 – talvez ainda não reconhecida como deveria. A edição de A grande serpente é importante pontapé inicial neste sentido, não à toa reconhecido como “o primeiro livro mangue” por Fred 04 ou “um livro para se ouvir” por Renato L: é caprichada, sem descuidar de qualquer aspecto: em um livro muito bem realizado do ponto de vista gráfico (a serpente perpassando as páginas), conteúdo fundamental para interessados na cena do Recife ou em música brasileira em geral.

Rec-Beat busca alternativas para seguir acontecendo com qualidade – e de graça

Arte: Karina Buhr
Arte: Karina Buhr

 

Entre os próximos dias 6 a 9 de fevereiro, isto é, durante o carnaval, o Cais da Alfândega, no Recife, sedia a 21ª. edição do Rec-Beat, um dos mais longevos festivais de música do Brasil. Antonio “Gutie” Gutierrez sentiu a ameaça de, pela primeira vez em duas décadas, o festival não acontecer, e foi à luta: lançou uma campanha de financiamento coletivo, visando manter o nível das atrações – embora o festival seja um pouco menor em 2016 – e a gratuidade do evento.

“Vamos fazer juntos o festival” é o slogan da campanha, que pretende arrecadar 200 mil reais até o dia do início do Rec-Beat, que ao longo de duas décadas sempre primou por inovação e qualidade em sua programação. As recompensas pelas doações – clique aqui para colaborar –variam de brindes personalizados até ingressos para outros festivais brasileiros, além da coautoria da realização desta edição.

Pernambucana nascida na Bahia e radicada em São Paulo, com alguns Rec-Beat no currículo, entre bandas como Comadre Fulozinha e Eddie, além de em carreira solo, Karina Buhr assina a arte do pôster deste ano.

De acordo com Gutie, a crise financeira em que mergulhou o país gerou cortes de até 50% do patrocínio, de “um valor que já não era tão expressivo”, segundo o produtor. Para termos uma ideia, prefeituras de três municípios maranhenses já anunciaram a não realização de um circuito oficial (leia-se: estatal) do carnaval este ano – Coelho Neto, Pedreiras e Santa Inês –, de acordo com informações do jornal O Imparcial.

Gutie conversou com exclusividade com o Homem de vícios antigos.

"Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas", afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem
“Esse aperto está nos levando a pensar em coisas novas”, afirma Gutie. Foto: Diego Nigro/ JC Imagem

 

O que houve ao longo dos anos com o financiamento do Rec Beat?
No inicio, por três edições, o Rec-Beat foi realizado em Olinda, na área interna de um casarão, o Centro Luiz Freire. Aí havia cobrança de ingressos, um preço simbólico, suficiente para cobrir os custos, que não eram altos porque ainda era o início do projeto e tudo era feito mais como uma diversão, com uma estrutura bem simples. Em 1999 fomos convidados pela Secretaria de Cultura do Recife para levar o Rec-Beat para o Bairro do Recife, sítio histórico da cidade. O objetivo era o festival ser uma âncora para o público jovem de um projeto de fomento do carnaval no bairro, ainda muito incipiente. A partir daí o festival passou a receber patrocínio da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR) e também se tornou gratuito, como é até hoje. A gratuidade é um ponto chave do festival e tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que dá uma grande liberdade para se fazer uma programação mais ousada, pautada em novidades, em coisas mais experimentais que ainda não estão inseridas no grande mercado, ou seja, não precisamos escalar nomes do mainstream para atrair público pagante, uma vez que a gente não vende ingresso. A gratuidade permite que o público tome contato com bandas desconhecidas, ou pouco conhecidas, que certamente ele não pagaria pra ver se não estivesse ali, na rua, sem custo para ele. O lado ruim é que o festival perde uma fonte de receita, ou seja, o festival não pode contar com recursos de venda de ingressos para cobrir seus custos, e passa a depender, dessa forma, exclusivamente de patrocinadores e apoiadores. O Rec-Beat cresceu muito, ao longo dos anos, mas o patrocínio oficial não acompanhou a evolução dos custos de realização do evento. Além disso, o Rec-Beat sofre uma limitação para captar recursos junto à iniciativa privada, tendo em vista que a Prefeitura já tem acordos com grandes patrocinadores que impedem o festival de captar recursos desses mesmos patrocinadores ou de concorrentes do patrocinador oficial, como cervejarias, por exemplo. Com o agravamento da crise financeira do país este ano e um corte do patrocínio da ordem de 50%, de um valor que já não era tão expressivo, fomos em busca de saídas para manter o festival no nível conquistado, principalmente no que se refere ao conteúdo artístico, conceitual, e a gratuidade. Foi aí que abrimos várias frentes, e uma delas foi a tentativa do financiamento coletivo.

Muitos artistas têm recorrido ao financiamento coletivo para a realização de trabalhos artísticos (filmes, livros, cds, dvds, exposições etc.). O Rec-Beat parece ser pioneiro para a realização de um festival. O crowdfunding é “o” caminho, hoje?
Creio que somos pioneiros nisso, até agora não vi nenhum festival independente recorrer a esse mecanismo para levantar recursos. Pra gente é uma incógnita, não sabemos onde vai dar. A gente vê vários projetos de CDs, livros, filmes alcançando êxito. Mas não temos uma referencia de projeto para festival. Certamente com esta experiência vamos poder aprimorar a estratégia, avaliar os acertos e erros, caso a gente venha a fazer no próximo ano. Nesse momento que estou respondendo a essa sua pergunta o que posso dizer é que o fluxo de adesão à campanha ainda não decolou, mas ainda faltam alguns dias para o encerramento. Mesmo assim eu acho que o crowdfunding pode vir a ser uma boa opção para o financiamento de festivais como o Rec-Beat.

O momento por que passa o já tradicional festival é reflexo da crise que atravessa o país?
Acho que reflete a crise econômica e também a falta de discernimento enfrenta-la. Quando você sofre restrição econômica, você tem que adotar um critério para reduzir seus custos de modo a manter o que é importante e vai te dar retorno e eliminar o que é supérfluo e só vai lhe trazer mais despesas. Eu não tenho dúvida de que o Rec-Beat traz um imenso retorno para o patrocinador, para o público, para a música independente, para a nova música brasileira, para a nova música latino-americana, para a tradição do carnaval pernambucano. O festival traz público. O festival contribui como destino turístico, para o fluxo de renda. Ano passado, e este ano também, o Rec-Beat entrou na agenda de três revistas de bordo de empresas aéreas colocando o evento como destino no carnaval, sem contar o destaque que recebe em vários veículos da imprensa nacional. A mídia espontânea gerada pelo festival, quando valorada, supera em três vezes o custo do festival. Ou seja, como é que você corta severamente o patrocínio destinado a um evento que traz tantos benefícios? Estamos passando por uma forte crise econômica, é fato. Eu já vivi momento pior que isso. O Rec-Beat tem 20 anos. Está sendo um ano difícil, mas por outro lado esse aperto está nos levando a repensar muita coisa, a trabalhar novas parcerias, pensar em coisas novas. Incrível também a solidariedade de muitas bandas e artistas, que estão chegando espontaneamente e oferecendo apoio. Acima de tudo é bom momento pra saber quem está por dentro e quem está por fora.

O ministro Juca Ferreira deu uma entrevista ao jornal online Nexo afirmando que o MinC já vive um momento “pós-crise”. O que você poderia comentar a respeito da fala dele?
Respeito muito Juca Ferreira, um grande gestor, um dos melhores ministros que esse país já teve na área da cultura, e só o fato de Marta Suplicy não gostar dele já mostra que ele é boa gente. Acho que quando Juca diz que já vivemos um momento de “pós-crise” talvez ele queira dizer que estamos conscientes que estamos vivendo uma crise e adotando caminhos para superá-la. Concordo quando ele diz, na entrevista, que a crise é menor do que parece. Antes de tudo vale dizer que a crise é mundial, o mundo vive um momento de retração econômica, que reflete principalmente o esfriamento da economia chinesa. Nossa visão da crise no Brasil é dada pelos grandes meios, o famoso PIG [o partido da imprensa golpista], que aliado a uma oposição medíocre, está impedindo que Dilma governe e que adote medidas para superar as dificuldades. E quando você tem um bombardeio diário na mídia falando de crise, crise, crise… é claro que acaba criando uma expectativa negativa nos agentes econômicos. Só acho que o MinC deveria nesse momento ter mais cautela no lançamento de editais de financiamento de projetos. Existe muita pendência de editais aprovados cujos recursos não são liberados. Isso cria um desgaste muito grande junto aos produtores que são contemplados e que depois recebem a notícia de que o dinheiro não existe.

Que nomes já estão confirmados para a edição 2016 do Rec-Beat? Além do corte no patrocínio, o festival sofrerá alguma espécie de diminuição?
Vamos reduzir uma atração por noite, que na verdade significa voltar ao formato que já fazíamos um ano atrás. Serão cinco bandas e mais um dj por noite fazendo os intervalos entre as bandas. Além disso, devemos ter festas after com djs, em uma casa fechada, no Bairro do Recife. Também mantivemos este ano o “Rec-Beat Apresenta”, que é uma proposta de realizar no período pré-carnaval uma noite com três bandas novas, revelações, nas quais o festival aposta. Este ano, além de fazer no Recife, estamos fazendo o “Rec-Beat Apresenta” também em Joao Pessoa, lá também com três bandas. Nesse momento que respondo a essa pergunta já temos confirmado oficialmente para o Festival Rec-Beat 2016: Maite Hontelé (Colômbia), Moh! Kouyaté (Guiné), Liniker (SP), Francisco-El Hombre (México/Brasil), Luísa e Os Alquimistas (RN), Duda Brack (RS). Até o final da semana teremos tudo definido.

Siba e o exemplo de resistência dos maracatus de Pernambuco

Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)
Siba comandou baile de encerramento do BR135. Foto: ZR (12/12/2015)

 

Escalado para fechar a programação do BR135, o pernambucano Siba brindou o público ludovicense quase que exclusivamente com o repertório de De baile solto, seu novo e ótimo disco, passeando aqui e acolá, por outros títulos de sua carreira (todos disponíveis para download legal e gratuito em seu site).

O ex-Mestre Ambrósio abriu o show com a faixa-título do novo trabalho. Aliás, Mestre Nico (percussão) anunciou o tema instrumental, a demonstrar o peso da formação de sua banda. Com atitude roqueira ao empunhar sua guitarra, Siba canta acompanhado de bateria, percussão e tuba, com repertório calcado em gêneros da cultura popular de Pernambuco: o maracatu de baque solto com que trocadilha o nome do disco novo, a ciranda, o frevo e a marcha, entre outros. Seguiu-se Trincheira da Fuloresta, lembrando a Fuloresta do Samba, outro grupo integrado por Siba, formado por músicos populares de Nazaré da Mata, pequeno município da Zona da Mata pernambucana.

Depois veio Marcha macia, uma resposta de Siba à tentativa da burocracia estatal, em Pernambuco, de acabar com a tradição de os maracatus amanhecerem tocando: “Vossa excelência, nossas felicitações/ É muito avanço, viva as instituições!/ Melhor ainda com retorno de milhões/ Meu Deus do céu, quem é que não queria?/ Só um detalhe quase insignificante/ Embora o plano seja muito edificante/ Tem sempre a chance de alguma estrela irritante/ Amanhecer irradiando o dia”, diz a letra. O tema voltaria à baila, como veremos adiante.

Duetando com Mestre Nico, Siba mandou a real sobre as desigualdades sociais que ainda assolam o país em Quem e ninguém: “Quem tem dinheiro controla/ Radar, satélite e antena/ Palco, palanque e arena/ Onde quem não tem rebola/ Quem tem fornece a bitola/ Onde quem não tem se mede”, um direto na cara de qualquer hipocrisia.

Música dos tempos de Mestre Ambrósio, Gavião ganhou novo arranjo em De baile solto. Três desenhos e Mel tamarindo precederam a pergunta “topam entrar num carnaval?”, com que Siba anunciou A jarra e a aranha, com seu refrão trava-língua, e A bagaceira (de Avante). O público pulava e circulava pela Nauro Machado num grande trenzinho. A multidão presente à praça, tornada um grande baile (solto) de carnaval a céu aberto, fez valer os versos: “pode acabar-se o mundo/ vou brincar meu carnaval”.

A velha da capa preta tornou a passear pela Fuloresta, antes de Siba mandar Meu balão vai voar, faixa que encerra De baile solto que, por pouco, não encerra também o show. Depois dela seguiu-se Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, do disco homônimo. Siba já sabia que não haveria bis e anunciou isso para a plateia. Não por falta de vontade sua: uma determinação ridícula – desconhecida por este blogue – impede que shows musicais passem de 1h da manhã na Praia Grande (ou em São Luís?). A produção já estava com as barbas de molho depois que a polícia tentou não deixar Curumin terminar seu show na noite anterior.

Faltava pouco para o limite e Siba tornou a entregar o comando do palco a Mestre Nico, que conduziu uma aula de balé popular para a multidão. Pouco depois, citou o exemplo de Recife e as tentativas de proibição de os maracatus amanhecerem tocando, como é tradição. Faltando sete minutos para 1h, emendou um repente que duraria até o fim do show, encerrando-o em grande estilo: “pessoal, muito obrigado/ o show já vai terminar/ outro dia eu volto aqui/ sem ter hora pra acabar”, improvisou. E entre muitos outros versos não guardados pela memória deste cronista, anunciou: “vou ficar em São Luís/ visitar Maracanã/ meu prato de juçara/ vai ser café da manhã”.

Chequei o relógio, que marcava 1h01. É preciso respeitar as regras, mas nem tanto. O exemplo dos maracatus de Recife e os versos de Marcha macia tornaram a me martelar o juízo: “não custa nada se ajustar às condições/ estes senhores devem ter suas razões/ além do mais eles comandam multidões/ quem para o passo de uma maioria?”

Desmistificando Bezerra

 

Pouca gente sabe, mas é o pernambucano Bezerra da Silva (Recife, 23 de fevereiro de 1927 – Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2005) quem toca percussão no disco de estreia de Zé Ramalho (descontado o Paêbirú, lançado três anos antes, dividido com Lula Cortes), que abre com Avôhai, Vila do Sossego e Chão de giz, levando-nos a crer que estamos diante de uma coletânea.

Era 1978 e, qual o paraibano Zé, “vige, como tem Zé na Paraíba”, como cantaria Jackson do Pandeiro, o próprio Bezerra da Silva um José de batismo, era um nordestino radicado na Cidade Maravilhosa, e assim seguiu até falecer, então um especialista em cocos e outros gêneros tradicionais do Pernambuco natal. Só depois é que Bezerra cairia no samba, no partido-alto e particularmente no que pejorativamente passaram a chamar de “sambandido”, injustiça pura.

Bezerra da Silva identificou-se com os marginais: biscateiros, desempregados, operários, ambulantes e toda sorte de moradores das favelas cariocas, acima de tudo compositores, embora não vivessem (nem vivam hoje) de música. Foi sua melhor voz.

Parte desta galeria desfila em Onde a coruja dorme [documentário, Brasil, 2012, 72 min., direção: Marcia Derraik e Simplicio Neto], gravado com Bezerra ainda vivo, ele nos guiando pelo título, as ladeiras, vielas e habitações simples de morros cariocas, mina que guardava seus fornecedores de obras-primas, de temas e personagens os mais variados: drogas, caguetes, malandros, otários, policiais, delegados, políticos, sogras e o que mais lhes desse nas cucas. “Como é que eu vou cantar o amor, se eu nunca tive?”, indaga Bezerra em determinada altura do documentário.

O filme joga luz ao repertório de Bezerra, desmistificando a pecha de “cantor de bandido”, dando nomes e rostos a autores de clássicos até hoje cantados e regravados como Malandragem, dá um tempo [de Adezonilton, Popular P e Moacyr Bombeiro] e A semente [de Felipão, Roxinho, Tião Miranda e Walmir da Purificação], entre inúmeras outras.

Se por um lado, com sua interpretação definitiva, Bezerra da Silva praticamente ofuscou os compositores que gravou – com um intérprete desses, quem se interessa em saber quem compôs o quê? –, por outro, seu repertório caiu tão no gosto popular que às vezes é possível pensar que esta ou aquela é de domínio público.

Eis aí o trunfo de Onde a coruja dorme: apresentar alguns dos fornecedores de matéria-prima, sambas da melhor qualidade, aos discos de Bezerra. Comparecem 1000tinho (sic), Adezonilton, Barbeirinho do Jacarezinho, Cláudio Inspiração, Juarez da Boca do Mato, Moacyr Bombeiro e Nilson Reza Forte, entre outros. A etimologia de seus engraçados nomes “artísticos” dariam outro documentário.

Em meio às dificuldades cotidianas, prevalece o bom humor. A música desta galeria – e de Bezerra, portanto – sempre foi baseada em fatos reais. Lembrá-los, causos e músicas, em meio a rodas de samba e algumas garrafas, garante boas risadas a personagens e espectadores.

A vida e o som da Eddie

Morte e vida. Capa. Reprodução
Morte e vida. Capa. Reprodução

 

“Preto velho, pense merda não, que o mundo já tá cheio, isso não é solução”. Há tempos um refrão não grudava tão fortemente em minha cabeça. É de Queira não, faixa de abertura de Morte e vida (2015), novo da banda Eddie, sexto da carreira, sucessor de Veraneio (2011) – todos os álbuns estão disponíveis para download gratuito no site da banda.

Pergunto a Fábio Trummer, vocalista, guitarrista e letrista da Eddie, qual o lugar e o sentido do álbum físico hoje, quando, sinal dos tempos, os discos podem ser baixados antes de lançados. “O álbum são as musicas, o conjunto, o conceito, a embalagem. É uma forma de termos isso fisicamente, uma sensação de posse deste conceito cantado e tocado pelo Eddie, no caso, mas que ganha sentido na interpretação e apego do público”, comenta.

A banda se completa com Alexandre Urêa (percussão e voz), Andret Oliveira (teclado e trompete), Kiko Meira (bateria) e Rob Meira (contrabaixo). O disco reafirma seu “original Olinda style” – título do segundo álbum, de 2002 – como uma das vozes mais originais surgidas em meio ao manguebeat, o mais recente movimento musical relevante do Brasil – e lá se vão mais de 20 anos –, centrado em Pernambuco, nordeste do país.

Em Morte e vida reaparecem os elementos que caracterizam a banda, presentes desde a estreia, Sonic mambo (1998), o que confere à Eddie já quase 20 anos de carreira, se tomarmos apenas o disco inaugural como marco. Estão lá a denúncia social e a festa, mais o amor – tema constante no novo disco – e o diálogo com a literatura – neste caso, mais explicitamente desde o título, que evoca o clássico Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

O álbum não é, no entanto, inspirado na obra do poeta pernambucano. “Na verdade isso foi uma coincidência. Apesar de saber do peso do nome, o Morte e vida do álbum veio de um trabalho de mesmo nome dos artistas plásticos Mozart Fernandes e do colombiano Alberto Lizarazo, embora o conceito do Morte e vida Severina se repita aqui no álbum, estes ciclos de morte e vida na existência. O Cabral é uma escola minha”, explica Fábio Trummer.

A propósito, indaguei-lhe sobre a falta de interesse do poeta por música. “O Cabral tinha tanta música nos seus versos que deve ter gasto os ouvidos do homem. Faria coleções de álbuns com os poemas dele”, elogia Trummer.

A faixa-título dialoga diretamente com Buraco de bala, do disco de estreia. “A prova do crime é o corpo/ a prova de Deus/ ao provar a bala, morto/ a prova morreu”, diz a letra de Morte e vida.

Ano passado, o vocalista havia revelado a influência do escritor uruguaio Eduardo Galeano, recém-falecido, e seu As veias abertas da América Latina, em seu projeto solo Super Sub América, em que se aliou com Dieguito Reis (bateria) e Luca Bori (contrabaixo), ambos conterrâneos do Vivendo do Ócio.

Presenças constantes em discos da Eddie, Karina Buhr e Erasto Vasconcelos – irmão de Naná – comparecem: ela canta em Longe de chegar, Pedrada certeira e na faixa-título; ele canta e toca percussão em Alimenta o compositor e toca percussão e assina (em parceria com Trummer, Kiko e Rob Meira) Olho você – inspirado rock que fecha o disco, a poesia da recusa da mulher amada: “lá nos sonhos os sóis são azuis, como um mar, como um céu, como um blues”.

“Ah, eu nunca mais vou esquecer/ aquele beijo foi sensacional/ quando é bom o tempo passa/ mais depressa que a percepção”. Carnaval de bolso, marcha frevada e surfada, exprime a síntese “eddieana”: “um ano inteiro de ressaca/ é hora do juízo final”. É música/álbum para dançar (também), mas pode ser ouvida(o) o ano inteiro.

Fábio Cabral de Mello e a Passa Disco: lendas vivíssimas do Recife

TEXTO E FOTOS: ZEMA RIBEIRO

Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco
Entre amigos, clientes e amigos clientes, o movimento na Passa Disco

 

Recife – De passagem por Recife, a trabalho, leio no Jornal do Commercio, um texto de José Teles sobre o lançamento do dvd Vizinho de grito, de Jessier Quirino. O texto me leva à Passa Disco, lendária loja especializada em música pernambucana – mas que vende boa música brasileira em geral – que completará 12 anos de bons serviços prestados no próximo novembro.

O lançamento estava marcado para às 19h. Terminada a atividade de que eu participava na capital pernambucana, dirigi-me para lá, a fim de conhecer a loja e seu proprietário, Fábio Cabral de Mello, 52 – primo do poeta João Cabral de Mello Neto: o pai deste era irmão do avô daquele –, e, com sorte, pegar o autógrafo de Jessier Quirino, o que consegui, embora não tenha sido possível ficar para o recital, já que não podia me arriscar a perder o voo de volta à Ilha.

Além de loja, localizada no Shopping Sítio Trindade (Estrada do Encanamento, 480, loja 7, Parnamirim), a Passa Disco é também um selo, já contando oito títulos no catálogo – sempre pernambucanos para o mundo. Seu proprietário atende os clientes pelo site, facebook e pelo telefone (81) 3268 0888, cujos endereços e número ele diz pausadamente ao fim da entrevista, com o celular ainda funcionando como gravador.

Até a hora de a loja e seus arredores ficarem tomados pelo público de Jessier Quirino, eu ainda daria uma carga no aparelho, compraria discos (óbvio, como bom homem de vícios antigos) e experimentaria uma dose da cachaça Sanhaçu, oferecimento dos novos amigos Paulo Carvalho (que me fotografou com o poeta-cantador) e Luiz Berto, vulgo Papa Berto, editor do Jornal da Besta Fubana – como bons habitantes do Recife, eles chegaram de “greia” o Fábio, perguntando-lhe se a loja tinha algum disco do Calcinha Preta ou coisa que o valha.

O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja
O proprietário emoldurado por autógrafos de artistas que já passaram por sua loja

 

Você tinha um bar e restaurante com os irmãos, se desentendeu e abriu a loja? Me desentendi com os funcionários, não com meus irmãos. Os irmãos continuamos juntos. Eu sou agrônomo, trabalhava com jardinagem. Quando saí do bar fiquei só com a jardinagem, aí depois que eu montei a loja ainda passei um ano e meio, dois anos fazendo as duas coisas, depois só com a loja. Há praticamente 10 anos eu trabalho só com a loja.

O que te fez ter esse estalo?: vou viver de vender música! Já era um grande ouvinte, colecionador? Sempre, sempre! Desde garoto, com 10 anos de idade eu comecei a comprar lp, fita k7, essa coisa toda. O estalo pra isso foi quando Silvério Pessoa lançou um cd sobre Jackson do Pandeiro, o Micróbio do Frevo [2002], fez um encontro com a imprensa, José Teles, Michele Assunção, diversos jornalistas, e me convidou para participar, de gaiato na história. As declarações dele sobre a música, aí os jornalistas comentaram que Recife estava vivendo uma efervescência imensa de música, todo mundo lançando discos, e não tinha uma loja especializada em música. Eu saí dali meio… eu digo que o Micróbio do Frevo me contaminou também. Eu sai de lá com essa ideia, fui para casa dirigindo e pensando. Uns seis meses depois eu concretizei. Foi o tempo de ver abertura de firma, loja, depois eu montei a loja a partir dessa ideia. Esse foi o pontapé inicial.

Micróbio do Frevo foi lançado quase 10 anos depois do boom do manguebeat, ali com Da lama ao caos [1994], de Chico Science [& Nação Zumbi]. Você acompanhou de perto a explosão do manguebeat? É, mais ou menos isso, nessa faixa. Acompanhei. Cheguei a ir a diversos shows de Chico Science. Nessa época do bar, a turma frequentava, Chico não chegou a frequentar por que ele logo viajou.

Como era o nome de teu bar? Era O Rei do Cangaço. Otto, Lirinha [ex-Cordel do Fogo Encantado], Silvério [Pessoa], Lula Queiroga, Lenine, esse pessoal todo, minha permanência no bar nesse período foi importante para a música, para criar laços com essas pessoas. Comecei a vender discos no bar, discos independentes, Lula Queiroga, Josildo Sá, músicos locais, faziam algum evento no bar, levavam discos para vender, não vendiam todos, eu falava “deixa aqui” e comecei.

Às vezes nós temos uma dificuldade de nos distanciarmos quando estamos dentro do olho do furacão. Você já tinha noção da importância que teria o manguebeat? Eu percebi. A coisa foi tão assim, tão forte. Eu sempre acompanhei muito a música de Pernambuco e ficava sentindo a necessidade de um movimento que o Brasil todo tomasse conhecimento, que eu espero que tenha tomado, né? Achava, quando começou, no final dos anos 1970, início dos 80, o grande sucesso de Alceu [Valença], Geraldo Azevedo, Robertinho de Recife, eu achava, “opa, vai ter um movimento!”, por que nunca tinha tido um movimento como teve na Bahia a Tropicália, o Pessoal do Ceará, nunca teve um movimento forte aqui, muito embora, antes deles, Luiz Gonzaga foi o maior de todos, talvez do Brasil, o mais revolucionário, a estética de roupa, de criar estilo, sem internet, sem televisão, sem nada, e ele de ponta a ponta do Brasil conheceram o trabalho dele.

O nome Passa Disco vem de onde? Você também lida com sebo ou só discos novos? Eu tenho um sebo de vinil, mas surgiu depois, uns cinco, ou seis anos depois. O nome Passa Disco foi uma criação de Lula Queiroga. Lula é publicitário, aí eu conversando com ele, eu fazia inclusive jardinagem no escritório dele, e comentei que ia fazer uma loja. Aí ele: “vai fazer uma loja? Legal! Bota Passa Disco!”

Como você avalia esse cenário de derrocada da indústria fonográfica e do próprio formato cd? Eu já comecei com ele quebrado. Quando eu comecei a loja, as grandes lojas do Recife já estavam fechando. Tinha algumas pequenas, algumas ainda permanecem, outras fecharam. Eu já sabia que era difícil. Tanto é que quando eu comecei aqui eu continuei com a jardinagem por que tinha que ter a sobrevivência. Com o passar do tempo foi solidificando e eu fui levando. Ruim deve ter sido para quem, na época, vendia milhares, aí veio a internet, download, deve ter tido uma quebra. Como eu já comecei por baixo…

Que discos da música pernambucana entrariam em um top five particular? Olho de Peixe [1993], de Lenine e [Marcos] Suzano, com certeza. Da lama ao caos. Vivo [1976], de Alceu Valença, qualquer disco de Luiz Gonzaga, qualquer disco de Capiba, são top. Desses que eu acompanhei, vi nascer, estes dois [Olho de peixe e Da lama ao caos]

Você é amigo dessa turma, isso facilita um pouco, não é? É, já no bar comecei, e depois é natural, as pessoas vão se chegando.

Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco (16/4)
Jessier Quirino autografa Vizinho de grito em lançamento na Passa Disco

Hoje haverá o lançamento de Jessier Quirino, e a Passa Disco acabou virando também este ponto de encontro. É possível listar alguns outros lançamentos, mais ou menos recentes, realizados aqui? Acredito que a gente já fez nesse período, a uma média de dois por mês, mais de 100. Fizemos lançamentos de Elba Ramalho, Dominguinhos, Silvério, Geraldo Maia, Maciel Melo. São constantes os lançamentos.

A Passa Disco também é um selo, não é? Sim. A gente lança coletâneas. Desde 2006 a gente vem lançando coletâneas. Já lançamos volume 1, volume 2 e volume 3 de [Pernambuco] Cantando para o Mundo, aí tem dois volumes de Pernambuco Frevando para o Mundo, dois volumes de Pernambuco Forrozando para o Mundo e mais um outro projeto que a gente iniciou, artistas que já lançaram discos, estão esgotados, e a gente faz o relançamento. Começamos ano passado com Josildo Sá. Aí tira o nome, aí fica Josildo Sá Cantando para o Mundo. Vai ser sempre nessas frentes.

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Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.

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Um sonho-poema-em-prosa de Roberto Bolaño (foto) traduzido por Ronaldo Bressane no Pernambuco deste mês. O suplemento traz ainda uma entrevista com Lourenço Mutarelli, entre outras coisas bacanas.

Malditos, mas sem perder a ternura

DIOGO GUEDES

Comparada com o passado, a época atual lida melhor com o choque e as quebras de convenção. Tanto que a ideia de algo maldito, renegado, uma constante na história da literatura, hoje parece bem mais rara – mesmo as obras que rompem com a moral, com as convenções estéticas e com os paradigmas do tempo atual são facilmente aceitas, concorrem a prêmios disputadíssimos e recebem críticas elogiosas até mesmo de acadêmicos respeitados. Apesar disso, a Companhia das Letras decidiu agora lançar uma coleção, a Má Companhia, apenas com livros polêmicos, politicamente incorretos e “malditos”. Algo estranho, quando o controverso parece cada vez mais aceito.

Não que o “maldito” não exista mais. Na verdade, escolher o que merece o adjetivo parece ser algo como tachar algum autor de “poeta marginal”. Nos dois casos, é claro que existem traços que levam leitores, crítica ou mercado a fazerem a relação entre os vagos conceitos e a obra. O problema é que o termo acaba funcionando como uma prisão tautológica, uma definição e um limite que o escritor vai passar a carreira tentando superar. Uns parecem conformados e até satisfeitos com a alcunha, mas, mesmo para esses, ela normalmente não passa mais do que um recurso preguiçoso para estabelecer a imagem contracultural de sua produção.

Joca Reiners Terron, Reinaldo Moraes e Marçal Aquino: seus livros são boa companhia

Até agora, o selo da editora paulista possui três títulos lançados, além da confirmação de lançamentos futuros. A coleção começou com Tanto faz e Abacaxi, obras de Reinaldo Moraes da década de 1980 reunidas em um único volume, e O invasor, de Marçal Aquino, que completou dez anos de sua primeira publicação. Os dois livros, como propõe a coleção, saíram em formato pocket, com um belo projeto gráfico do Estúdio Retina 78.

Em julho, mais um título: Sonetos Luxuriosos, de Pietro Aretino, com tradução e apresentação do falecido poeta José Paulo Paes. A obra, escrita originalmente no século 19, mostra bem o movimento da coleção de referir-se a livros que se marcam como polêmicos e malditos em relação a um contexto específico, mas que conseguem carregar essa fama até os dias atuais.

Isso parece evidente mesmo nos lançamentos mais recentes, como O invasor e Não há nada lá (2001), de Joca Reiners Terron, que deve sair neste último semestre do ano. Eles se reportam sempre ao seu momento histórico e à reação da crítica e do público daquele instante, ao que se convencionava como status quo literário da época.

Segundo Joca Reiners, a ideia da coleção da Companhia das Letras veio de um jantar com o fundador da editora, Luiz Schwarcz, e Marçal Aquino. “Eu vinha fazendo a piada de que criaria uma nova editora chamada de Má Companhia das Letras desde uma conversa que tive com o escritor Paulo Sandrini no Encontros de Interrogação, evento no Itaú Cultural em 2004”, lembra Joca Reiners. A brincadeira incluía imaginar versões “maléficas” dos elegantes logos da casa, com aviões explodindo e carros colidindo. “No jantar, depois de uns goles, arrisquei contar a piada ao Luiz. Para minha surpresa, ele a levou a sério”.

Maldições Literárias – Em entrevista ao Pernambuco de fevereiro, Reinaldo Moraes comentou parte do processo de releitura e re-edição de suas duas obras. Ambas contam com o mesmo personagem, o jornalista Ricardo de Melo, narrando suas vivências com mulheres, porres e escatologias – como o próprio autor descreve, “um Ulisses avacalhado que vive atrás de umas nereidas”. “Só dei umas garibadas pontuais no texto, sem mexer na estrutura das frases nem nos coloquialismos ‘de épóca’. Mexi onde achei legal mexer pro texto fluir e ‘dizer’ melhor. Como dizia o Murilo Mendes, outro grande mexedor de obras relançadas, posso mexer à vontade, pois não sou meu sobrevivente, sou meu contemporâneo”, revelou o escritor na ocasião.

Já o primeiro lançamento de O invasor, de Marçal Aquino, se deu simultaneamente à finalização do filme do seu parceiro Beto Brant. Com a edição anterior esgotada, o livro volta às prateleiras acompanhado do roteiro da película e de fotos da filmagem. A obra é descrita pelo escritor como um “policial puro-sangue”, tratando, com um ponto de vista pessoal, dos planos de dois engenheiros paulistas para matar seu sócio.

Não há nada lá, de Joca Reiners, traz em seu próprio enredo as marcas do adjetivo “maldito”. William Burroughs, Rimbaud, Raymond Roussel, Aleister Crowley e Torquato Neto são alguns dos interlocutores da obra, marcada por uma prosa ousada e experimental . “O livro trata de preocupações muito em pauta na virada do século, como a do fim do mundo, a da extinção do livro etc. Foi escrito sob essas condições”, descreve. Segundo ele, a obra ainda faz a defesa de uma literatura imaginativa, em detrimentos dos valores jornalísticos e naturalistas – para a nova versão, recebeu uma apresentação bastante elogiosa assinada pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas.

Como é de se imaginar, republicar o texto finalizado há dez anos trouxe alguns incômodos. “É muito difícil. Sinto grande dificuldade em reler coisas antigas. É como se ver numa foto na qual você não se reconhece mais”, revela Joca Reiners. O livro, segundo ele, traz as marcas de uma época em que ele levava sua “tendência à pompa” a sério, o que levou ao corte de alguns excessos e à revisão de frases, buscando uma maior clareza.

Sobre o selo que ajudou involuntariamente a criar, o escritor diz não conseguir enxergar o que há de exatamente em comum entre sua obra e os demais títulos da coleção. Para ele, na verdade, há pouco em comum em quaisquer dos livros seus. “No Não há nada lá eu ainda tinha cabelos, e talvez por isso o texto fosse mais barroco e as ideias mais complicadas. Hoje sou completamente careca e busco ser mais direto”, reflete bem-humorado.

Incluído no rótulo, Joca Reiners se reporta às origens do adjetivo para aceitar a alcunha. “Existe aquela literatura designada ‘maldita’ por Paul Verlaine, que organizou uma antologia de poetas do século 19 com esse título. Na época, esses poetas (Rimbaud e Corbiére entre eles) não tinham recebido a atenção que mereciam”, conta. “Nos dias de hoje, creio que quase toda a ficção literária é maldita, pois merece pouca atenção do público leitor, cada vez mais adepto da não-ficção. A única maldição a ser evitada é aquela que o escritor cria para si próprio”.

Assim, para ele, além da temática, a restrita primeira edição de Não há nada lá, com apenas 500 exemplares, que saiu pela Ciência do Acidente, é o seu próprio atestado de marginalidade e maldição. Já Reinaldo Moraes, um dos autores no Brasil que mais recebe a adjetivação de “maldito”, conta que se vê, por meio de resenhas de jornalistas, acadêmicos e blogueiros, “perigosamente próximo ao mainstream literário, não mais estacionado na margem”. Mas se diz ciente do perigo: “Sei que isso é momentâneo e pode mudar a qualquer momento”.

Como amigo de André Conti, responsável pelo selo, Joca Reiners promete, depois de ter um papel importante no surgimento da coleção, continuar participando dela, ao menos como opinante. “Fico enchendo o saco do André Conti, o editor, com sugestões”, confessa. A atitude é completamente compreensível. Afinal, no fundo, os leitores parecem saber que a literatura que marca verdadeiramente a vida pessoal é aquela suja, sem amarras, tanto comprada como lida de forma escondida e obscura. Talvez só através dos malditos é possível ser contaminado pela maldição da literatura.

Estou re-devorando os dois primeiros volumes lançados pelo Má Companhia. Pesquei o texto acima, do Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº. 66, páginas 8 e 9 (leia e/ou baixe a íntegra), do tuiter do Joca Reiners Terron, onde soube também que está sendo lançado em Curitiba/PR o jornal literário Cândido, que eu adoraria receber.