Há 32 anos o sol se levanta para o Teatrodança

No próximo dia 30 (sábado), às 19h, o grupo Teatrodança apresenta três performances no Teatro Alcione Nazaré (Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Praia Grande). A entrada é franca, mas doações são aceitas, conforme avisa o material de divulgação, que promete gengibaça, uma mistura de cachaça com gengibre, ao público presente.

Trata-se da celebração pelos 32 anos do grupo. Não à toa Trinta e dois é o nome de uma das performances, por Alex Costa, Eline Cunha e Thayliana Leite. As outras são Ilhadas, por Júlia Emília, e TRANSgressão, por Victor Vihen. A jornalista Talita Guimarães (editora do blogue Ensaios em foco e idealizadora e coordenadora do projeto Literatura Mútua, de que Júlia Emília já foi convidada) abrirá a noite, com Menestréis, um misto de performance e cerimonial.

As performances são espécies de “resumos” dos espetáculos homônimos. Somadas têm duração média de 45 minutos. Resumindo-as, em possíveis sinopses, temos Ilhadas como um exercício de preservação de memória e a construção de uma crítica que investiga dramaturgias com as matrizes das expressões populares maranhenses, TRANSgressão abordando a violência contra quem não se enquadra nos ditos padrões de gênero (em pleno século XXI) e Trinta e dois é, também segundo o material de divulgação, um “musical performático que remete ao trabalho, arte e vida do grupo Teatrodança”.

Sobre o grupo Teatrodança, sua trajetória e a comemoração de seus 32 anos, Júlia Emília falou com exclusividade a Homem de vícios antigos.

A artista em performance durante lançamento carioca de Vivendo Teatrodança. Ao fundo, o percussionista maranhense radicado no Rio de Janeiro Cacau Amaral. Foto: Julia Araújo/ Faculdade Angel Vianna

Júlia, são 32 anos de grupo Teatrodança. Um aniversário nunca é apenas um aniversário. Qual a sensação de chegar até aqui?
Contentamento pela resistência, mas melancolia pelo destrato em situações que nos tornam ainda mais vulneráveis.

Para festejar vocês apresentarão três esquetes, de espetáculos que marcaram a trajetória do grupo, “enxutos” especialmente para a ocasião. Como se deu essa seleção?
Pelo repertório disponível. Inicialmente pensamos no trabalho novo sobre o permanente extermínio das culturas da compaixão e alteridade. Depois que era melhor fazermos um painel das propostas do Teatrodança. Separamos dois trabalhos performáticos elaborados a partir do que chamamos de “dança-denúncia”. Inicia com Ilhadas, processo sobre a violência contra o feminino, e segue com TRANSgressão, que retrata o preconceito que aniquila, e terminamos com Trinta e dois, apresentando nossa proposta de combinar drama, sonoridade e cena. Aí teremos Eline Cunha em toda sua versatilidade.

Você recentemente realizou lançamentos de Vivendo Teatrodança, livro que aborda a trajetória do grupo, publicado há dois anos, no Rio de Janeiro. Como foram os eventos e a receptividade do público por lá?
Boa parte de minha vida se passou no Rio de Janeiro. A formação, a profissionalização como artista, minha obra prima que é meu filho foi concebida e nasceu lá. Precisava voltar para homenagear seres humanos importantes nos meus esforços e sonhos. Incrível foi vê-los presentes nos lançamentos, poder realizar as intervenções, conversar e abraçar cada uma. Houve momentos inesperados. Fui procurada ano passado pelo biógrafo de Ferreira Gullar na montagem da exposição no Museu de Arte Moderna. Conversa vai e vem me convidou para participar do Terça Converso, no teatro Gláucio Gil. Maravilhoso estar tão perto de poetas e escritores de variadas procedências. E voltar para o local da Mestra Angel Vianna, que abriu espaços para criadores inquietos e insatisfeitos, preocupados em encarnar as realidades e visões oníricas. Rever o mestre Luiz Carlos Vasconcelos, refinado em sua arte dramatúrgica, as organizações e coletivos com quem trabalhei. Trânsito lindo! Encarnação próspera!

O grupo Teatrodança é muito identificado com você: quando falamos em Teatrodança já visualizamos o rosto de Júlia Emília e vice-versa. Como é a organização do grupo e quem o integra atualmente?
Visualize o corpo inteiro. Quem nos abandona é a dança. Eu passo. Ela fica. Nesta vida persisto como virose. Luto pelo que acredito. Forço entendimentos nos quais ninguém está pensando. Por exemplo, quando trabalhei com Julia Varley, outra mestra maior, percebi sua briga pelo lugar do feminino como dramaturga, e comprei a briga. Basta observar na ilha. Outra: faço parcerias com quem aceita. Passe os olhos em nossa trajetória e vai encontrar de tudo. No final dos anos 1990 fechei a Oficina do Corpo e corri mundos. De lá para cá trabalho em periferias. Atualmente a Associação Cultural foi acolhida pelo Centro Ozaka, parceiro saudável e amigo. Mais antigos nos processos temos Eline Cunha, musicista-atriz-dançarina, Thayliana Leite, Alex Costa, capoeiristas, dançarinos, pesquisadores. Recentes temos Angelo Gonzaga e Victor Vihen, tônus ascendentes para o que virá.

No Brasil vivemos tempos sombrios, e as adversidades atingem direta, frontal e fortemente o campo das artes, seja com a diminuição de recursos, o descaso com as políticas públicas de cultura e, mais recentemente, as trevas, com o cancelamento de exposição por atentado à moral e aos bons costumes. Como você avalia este contexto?
Quando a Oficina foi fechada coreografamos Maiakovsky: “necessariamente todo dia o sol se levanta”. E com Gregório de Matos decidi, quando montei Espirais, em 2004, que trabalharíamos corpo como imperativo de autenticidade e cena para discussão dos problemas coletivos. Entristeço muito em ver as atitudes de fuga, de apatia, de desmonte. Sem forças contra o poder do capital, que nos tornou um país dependente, leiloado, destruído e espoliado. O sabor amargo do conservadorismo pós-modernista infecta as veias latino-americanas, Galeano que o diga. São martirizadas as culturas que resistem em salvar, amar, preservar. Elas veem o futuro. Temos de fortificar a imaginação em busca do poder, sem lamentações. Embargam hoje, amanhã se expõe, se dança nu e põe tarja, coreografa de novo. A cena para além da representação. Minha compaixão irada vai para quem produz mediocridades. Mulher bárbara é o nosso tempo que sobre nós se abate. E eu sou uma. Porque virão outros depois de nós…

E como você imagina a existência e atuação do grupo Teatrodança pelos próximos 32 anos?
Se ele conseguir sobreviver ao próximo ano elevo gratidão aos Protetores!

Gritos que não calam

Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo
Lambendo e vociferando a cria. Foto: Josoaldo Lima Rêgo

 

Um grito urgente e desesperado ilustra em preto e branco a capa de Fúria, novo petardo poético que Celso Borges lança hoje (16), logo mais às 19h, na Galeria Trapiche Santo Angelo (em frente ao Terminal de Integração da Praia Grande), com entrada franca – a revista custa R$ 20,00 e por ocasião do lançamento, quem comprá-la leva de brinde um cartão postal de Diego Dourado, que assina as ilustrações de Fúria – incluindo capa e contracapa.

Eles já estiveram juntos em Trezeatravéstreze, exposição na Galeria Hum (São Francisco) que juntou 13 poetas e 13 artistas plásticos em um diálogo cultural entre poesia e artes plásticas no mínimo interessante e quiçá então inédito por estas plagas – a que torna agora este par.

Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos
Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine encarnarão Zuleika e Tavares em performance hoje à noite. Foto: Márcio Vasconcelos

 

A noite de autógrafos terá exposição de reproduções de 10 ilustrações da revista, além de performance poético-teatral de Áurea Maranhão e Cláudio Marconcine. Ela interpreta Zuleika, ele Tavares, com base em Bazar Belle Epoque, poema de Celso que acabou ficando de fora da revista, em que o poeta critica a sociedade de consumo.

A maioria dos poemas é publicada pela primeira vez em Fúria, apesar de Celso Borges, aqui e acolá, já os ter dito em palcos diversos. Desde XXI (2000), seu primeiro livro-cd, o poeta vem experimentando os atritos entre o poema pensado para o suporte de papel (o livro, no caso, agora, a revista) e o poema se aproximando da música (para além de uma leitura com fundo musical), ele que também é letrista de música e coleciona um invejável rol de parceiros.

Nos últimos anos o poeta tem se apresentado em diversos espetáculos, com vários formatos e parceiros, fazendo a poesia subir ao palco como atração principal. Ele já fazia isso em São Paulo, onde morou por 20 anos, mas coincidiu da frequência se acentuar com seu retorno à Ilha natal, em meados de 2009. Os poemas de Fúria já foram experimentados no palco e bem merecem também registro em disco.

Não à toa conhecido como “homem-poesia”, Celso Borges é um dos maiores poetas e agitadores culturais destas plagas. Desde fins da década de 1970, quando cursava jornalismo na Universidade Federal do Maranhão, participou da feitura de diversas revistas, e Fúria é também uma espécie de homenagem a elas: Arte e Vivência, Guarnicê, Uns & Outros e mais recentemente a Pitomba!, que editou com Reuben da Cunha Rocha e Bruno Azevêdo, por cuja editora homônima se publica o lançamento de hoje. É também uma homenagem a Coyote e Oroboro, duas importantes revistas de literatura nacionais, em que CB também foi publicado, além de fazer uma “calorosa referência à Navilouca, revista de um único e decisivo número, no início dos 70, inspiração presente em quase tudo o que fiz editorialmente”, como ele mesmo afirma em Em lugar de um livro, à guisa de apresentação da revista.

O poeta “está sempre inventando novas guerrilhas para manter sua maquinaria sensível em movimento”, atesta o poeta Ademir Assunção em Fúria contra a falta de delicadeza, um baita endosso ao fazer poético de CB.

Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução
Uma das ilustrações de Fúria. Diego Dourado. Reprodução

 

A sintonia entre as ilustrações nervosas de Diego Dourado – também poeta – e os poemas furiosos de Celso Borges desafina o coro dos contentes: “prefiro a fúria hemorrágica/ às rimas de hemorroidas”, avisa em Cuidado! Poemas e ilustrações – com ecos de Picasso, Edvard Munch e de nossa violência cotidiana – nascem desse incômodo com o que está posto e parece tão natural.

Por não ser natural uma cidade decrépita transformar seus casarões patrimônio da humanidade em estacionamento surgem poemas como Blockbuster, escrito num acesso de fúria quando o poeta recebeu a notícia de que a casa em que Aluísio Azevedo escreveu O mulato viraria estacionamento. Seu “refrão” é “estacionamento o caralho!/ estacionamento o caralho!”

Ou Canção do exílio: a vingança e Louvação pelo avesso, em que ele destripa poemas canônicos de Gonçalves Dias e Bandeira Tribuzzi, sem perder a delicadeza nem o respeito e o bom humor. Neste, publicado no jornal Vias de Fato, por ocasião do aniversário de 400 anos da capital maranhense, ele saúda: “parabéns, atenas brasileira/ pelos decanos parnasianos/ pelos orelhas de abanos/ parabéns, frança equinocial/ pelos roseanos carcamanos palacianos/ parabéns, ilha do amor, ilha magnética/ pelos danos e esganos”; naquele, opera um mash up de Luiz Ayrão com Gonçalves Dias, em meio à imundície fruto de nossa falta de educação cotidiana e do descaso político (tão ou mais imundo quanto): “olhe aqui preste atenção esta é a nossa canção/ minha terra tem fios elétricos/ onde cantam os bentivis/ nas prisões cabezas cortadas/ no palácio leões senis/ (…)/ nas calçadas cocôs de cães, na assembleia os imbecis”.

“Raiva é energia”, nos ensinou John Lydon. Fúria é energia e urgência, que os berros não podem ficar presos à garganta.

“Feminino Plural” será aberta hoje (8)

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Será aberta hoje, às 19h, na Galeria Trapiche Santo Ângelo (em frente ao Circo da Cidade), a exposição Feminino Plural, cujo título entrega: diversos artistas pensam e retratam o universo feminino. O time é composto de mulheres e homens e a exposição surgiu de uma reação à violência contra a mulher.

Estão escaladas/os Adriana Karlem, Alain Moreira Lima, Ana Borges, Beto Lima, Binho Dushinka, Clara Vidotti, Cláudia Matos, Cláudio Costa, Cláudio Vasconcelos, Cyro Falcão, Diego Uchôa, Edgar Rocha, Edi Bruzaca, Fábio Vidotti, Fernando Sah,  Fonseca Maranhão, Fransoufer, Giselle Viana, Hiago, Lícia Garcia, Luís Carlos, Lurdimar Castro, Marcelo Cunha, Márcio Vasconcelos (autor da foto do convite que ilustra este post), Marília de Laroche, Marlene Barros, Murilo Santos, Ribaxé, Romana Maria, Silva Quadash e Wilka Barros, entre pintura, fotografia, vídeo-arte, instalação e performances.

Feminino Plural fica em cartaz até 10 de abril, com entrada franca.