Samba original aprofunda a pesquisa iniciada por Pedro Miranda em seus discos anteriores

Samba original. Capa. Reprodução
Samba original. Capa. Reprodução

 

Um meio sorriso de malandro e um bigode cortado fino, o retrato de Pedro Miranda estampado na capa de Samba original [independente/Tratore, 2016], seu terceiro disco solo, anuncia o duplo sentido ali contido.

Duplo sentido no bom sentido: o adjetivo do título, longe de pedante, dá conta do criterioso trabalho de pesquisa do sambista, exercício a que Pedro Miranda já se propunha desde os anteriores Pimenteira [independente/Tratore, 2009] e Coisa com coisa [Deckdisc, 2006].

Sua voz miúda dá conta do recado, com ginga de sobra, ele, revelado como percussionista do grupo Semente, que acompanhou o início da carreira de Teresa Cristina e colaborou para a revitalização da cena musical da Lapa carioca, cujos nomes ganharam o Brasil. O samba de Pedro Miranda é original tanto pela abordagem quanto por remontar às origens do gênero, recuperando raridades em baús musicais diversos.

Parceria de Elton Medeiros e Zé Keti, a faixa-título, que abre o disco, cita possíveis clichês do universo do samba sem cair no clichê. “Meu samba/ é um samba diferente/ pois, de fato, minha gente/ ele é muito original/ não fala/ das cadeiras da mulata/ do murmúrio da cascata/ ou do amor no carnaval”, desconversa a letra.

Caetano Veloso endossa o talento de Miranda, dividindo com ele os vocais em A razão dá-se a quem tem, parceria de Noel Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves. O próprio Noel é citado em Garota dos discos (Wilson Batista e Afonso Teixeira), música de tempero saudosista, que traz à tona um universo em extinção, o das lojas de discos, cada vez mais raras, sob o prisma do compositor que se apaixona pela lojista: “Garota, garota/ diga pra essa madame/ essa é a nossa canção/ garota, garota/ ai, eu queria ser disco/ pra viver na sua mão/ e no seu coração”.

Passeio por cenários do Rio, Santo Amaro (Franklin da Flauta, Luiz Claudio Ramos e Aldir Blanc) evoca paisagens e nomes fundamentais para a música do Brasil. Destaque para o pianista Ernesto Nazareth [18??-1934], cujo Ameno Resedá – rancho carnavalesco homenageado pelo compositor em uma peça – é citado textual e musicalmente.

Noel e Nazareth são personagens também de Meu pandeiro, que fecha o disco citando Apanhei-te cavaquinho (Ernesto Nazareth), um raro samba da lavra do rei do baião, Luiz Gonzaga, em parceria com Ary Monteiro. “Ao chegar lá no céu/ serei bem recebido/ sempre fui bom sujeito nesse mundo/ e no outro serei bem acolhido/ falarei com São Pedro/ que é meu santo de fé/ vou fazer serenata/ com o velho Noel e Nazareth”, vaticina a letra.

Do lamento Imitação da vida, do baiano Oscar da Penha, vulgo Batatinha, ao samba de roda Samba de dois-dois, parceria de Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, várias categorias de samba fazem-se presentes ao repertório.

Luís Filipe de Lima (violões de seis e sete cordas) assina a produção de Samba original, em que modernidade e tradição dançam agarradinhas. Desfilam por suas 12 faixas nomes como Alberto Continentino (contrabaixo), Arto Lindsay (guitarras em Batuca no chão, parceria de Assis Valente e Ataulfo Alves), Beto Cazes (percussão), Carlos Fuchs (piano em Santo Amaro), Henrique Cazes (violão tenor em Se passar da hora, parceria de Baiaco e Ventura), Luis Barcelos (cavaquinho), Marcos Suzano (berimbaus em Samba de dois-dois), Nicolas Krassik (violino em Samba de dois-dois), Oscar Bolão (bateria em Amanhã eu volto, parceria de Roberto Martins e Antonio Almeida), Paulino Dias (percussão), Pedro Sá (guitarras em Batuca no chão), Pretinho da Serrinha (percussão em Quero você, parceria de Wilson Moreira e Nei Lopes), Rui Alvim (saxofone e clarone) e Thiago da Serrinha (percussão em Lola crioula, parceria de Geraldo Babão e Roberto Mendes), entre outros.

Entre compositores e instrumentistas, um time de primeira linha para atestar a originalidade do samba de Pedro Miranda.

A Real Grandeza de Edu Krieger

Impossível obedecer a recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro
Impossível obedecer à recomendação de não fazer fotografias sem autorização prévia da produção (ou do espaço, sei lá). Fotosca: Zema Ribeiro

Sucessos é um nome bastante apropriado para o show que Edu Krieger apresentou sábado e domingo passados (6 e 7), de graça, no Espaço Furnas Cultural, na mítica Rua Real Grandeza, em Botafogo, Rio de Janeiro – este blogueiro assistiu ao segundo.

À frente do Edu Krieger Trio, como anunciado, acompanhado do irmão Fabiano Krieger (guitarra) e PC Castilho (flauta e percussão), Edu Krieger (voz e violão sete cordas) mostrou, em cerca de hora e meia de show, por que é um dos mais interessantes artistas da música brasileira da atualidade.

Completo, canta, toca e compõe como poucos e ouso mesmo dizer que Krieger é, apesar da pouca idade e tempo curto de carreira, apenas dois discos lançados – Edu Krieger (2006) e Correnteza (2009) –, um dos maiores cronistas musicais já surgidos neste Brasil de Noel Rosa e Chico Buarque, com quem sua obra dialoga diretamente.

Suas personagens e paisagens têm força e categoria para estar à altura deste e daquele. Basta ver os casos de Graziela, A mais bonita de Copacabana, Pole dance e Maria do Socorro (gravada por Maria Rita) – seus discos podem ser ouvidos na íntegra em seu site.

Aliás, para continuarmos às comparações a Noel e Chico, nunca o diminuindo, Krieger é um grande fornecedor de matéria-prima – ou obras primas, melhor dizendo – a nomes como a citada Maria Rita (Ciranda do mundo e Novo amor, além da citada), Roberta Sá (Novo amor), Aline Calixto (Saber ganhar), Pedro Miranda (Coluna social) e Ana Carolina (Combustível, Resposta da Rita e a citada Pole dance), entre outros, o que faz com que você muito provavelmente conheça-o, mesmo que (ache que) nunca tenha ouvido falar em seu nome.

“Eu gostaria muito que todos os políticos, tanto na esfera federal quanto na estadual, se sentissem homenageados com esta”, anunciou antes de tocar Coluna social, cujo verso inicial diz: “o Cinismo casou/ com dona Hipocrisia/ teve uma grande festança/ no apartamento da Demagogia”.

Como bom cronista que é, de língua ácida e afiada e pensamento ligeiro, o filho do maestro Edino Krieger sabe que sua opinião é importante e sobre determinados assuntos nos quais se quer e se deve meter o bedelho não dá para esperar disco. Assim vem pitacando sobre questões importantes se utilizando do youtube. São deliciosos e contagiantes seus hits Aos vinte e sete – decassílabo cujo mote afirma “rock’n roll pra valer foi Noel Rosa/ que partiu sem chegar aos vinte e sete –, Desculpe, Neymar – sobre a Copa do Mundo de 2014 –, e a Resposta ao funk ostentação – cujo ritmo foi marcado nas palmas pela plateia.

Ele cantou-as no show e comentou sobre as polêmicas geradas pelas duas últimas. “Me chamaram de coxinha, de reacionário. Até de eleitor do Aécio eu fui xingado”, disse entre risos, seus e da plateia. “O problema não é a ostentação do funk. O autêntico funk carioca, que mistura nossas raízes africanas ao eletrônico, é uma das mais importantes músicas surgidas no Brasil nas últimas décadas e eu mesmo quero aproximar essa relação da música brasileira com o funk”, afirmou. “De repente eu passei a ser chamado de comunista, marxista. O problema não está na ostentação do funk, mas na ostentação, seja ela no sertanejo, no camaro amarelo”, continuou.

Entre outras, Krieger cantou ainda Temporais (parceria com Geraldo Azevedo, “um cara que sempre foi meu ídolo, na MPB”, afirmou), Correnteza, Clareia e Rosa de açucena. No bis, uma versão eletrizante do afrossamba Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Edu Krieger está definitivamente entre os grandes.