O melhor show de Bruno Batista (até aqui)

Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos
Bruno Batista em Bagaça. Foto: Márcio Vasconcelos

 

Sobre Bagaça Bruno Batista já declarou ser seu melhor disco. Ontem (10), no Mandamentos Hall (Lagoa), em show concorrido, com ingressos distribuídos gratuitamente, por conta do patrocínio da TVN via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Maranhão, o artista lançou seu quarto álbum.

Os DJs Franklin e Pedro Sobrinho prepararam o terreno – voltariam ao fim da apresentação de Bruno Batista; “quando o show termina a festa não acaba”, dizia uma das peças publicitárias do espetáculo – e a Pedeginja fez por merecer os elogios que o anfitrião lhes faria em seguida. “Essa rapaziada representa uma geração que chega e faz sem pedir licença. Há uma cena maravilhosa aqui em São Luís”, afirmou, após o show de abertura em que passearam entre o repertório de Contos cotidianos, seu disco inaugural (e até aqui único) e temas icônicos da MPB, entre os quais A menina dança (Luiz Galvão e Moraes Moreira) e Canto de Ossanha (Vinicius de Moraes e Baden Powell), com direito a citação do rapper (rótulo que há tempos já não lhe comporta) Criolo. “Fora Temer! Ocupa tudo!”, mandou o vocalista Paulão, seguido por boa parte do público.

Demorou nada para Bruno Batista estabelecer plena comunhão com a plateia e mostrar que sua evolução artística não está restrita ao disco, ao estúdio. Qualquer um que o tenha visto ontem e a seus shows anteriores – por exemplo, os de lançamento de e Eu não sei sofrer em inglês – pode perceber claramente que ele está cantando melhor ao vivo (apesar de alguns problemas técnicos na sonorização ao longo da noite), maior desenvoltura, melhor domínio de palco – “cheguei em casa”, como diz na letra de Batalhão de rosas, o palco agora é também sua morada.

Artista cosmopolita, Bruno Batista é dos raros que se apresentam por estas plagas conseguindo o feito de, mesmo concentrando-se no repertório de um disco lançado recentemente, ter o público como seu backing vocal. Abrindo o espetáculo com a faixa-título do novo trabalho, ele passeou por quase todo o repertório de Bagaça, sem deixar de lembrar canções de seus outros três trabalhos.

Casos de Nossa paz (gravada em dueto com Tulipa Ruiz em Eu não sei sofrer em inglês), Tarantino, meu amor (no mesmo disco), Hilda Regina (idem), Ela vai chegar e (do disco batizado por esta) e Acontecesse (do homônimo Bruno Batista de estreia, regravada por ele com adesão de Zeca Baleiro no segundo).

Flávia Bittencourt cantou Sobre anjos e arraias em andamento mais acelerado e Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) dividiram com Bruno Batista Latino-americano, música do trio lançada em ep do duo; em Bagaça os três assinam Pra ver se ela gosta, que o dono da festa cantou sozinho.

Quando cobrei-lhe A ilha ao cumprimentá-lo após o espetáculo, ele me respondeu, humilde e simpaticamente que ela não funcionaria naquele clima. Senhor da situação, o artista tinha razão: ele cumpriu a promessa de um show para ninguém ficar parado.

Ao fim, chamou os convidados ao palco e, com eles, prestou homenagem ao cantor e percussionista Papete, recém-falecido: o quarteto cantou Dente de ouro (Josias Sobrinho), aproveitando a ocasião para anunciar que um tributo ao Bandeira de aço será apresentado por eles durante a temporada junina na capital maranhense. Homem de vícios antigos certamente voltará ao assunto.

O lugar (acentuadamente pop) de Bruno Batista

Bagaça. Capa. Reprodução
Bagaça. Capa. Reprodução

 

A ilha, faixa que encerra Bagaça [2016, disponível para download no site do artista], quarto disco de Bruno Batista, é uma das mais bonitas declarações de amor a São Luís jamais escritas. O artista foge de clichês ao citar lendas e o cotidiano da cidade. “As barbas de Nauro saem pra passear” e “Montserrat Caballé não entendeu quase nada” estão entre os versos que trazem nativos e turistas que um dia pisaram suas ruas de paralelepípedos.

Nenhum homem é uma ilha e somente em seu quarto disco Bruno Batista abre seu leque de parceiros: Dandara, Demetrius Lulo e Paulo Monarco em Caixa preta, Alê Muniz e Luciana Simões (o casal Criolina) em Pra ver se ela gosta, e Zeca Baleiro em Nigrinha.

Bagaça é seu trabalho mais desbragadamente pop. Nas 11 faixas do álbum é possível perceber a bagagem de influências que moldou o cantor e compositor ao longo destes 12 anos de carreira, se contarmos a partir de sua estreia no mercado fonográfico, com o homônimo Bruno Batista [2004].

Maranhense nascido em Pernambuco, com férias da infância passadas no Piauí, hoje radicado em São Paulo após temporada no Rio de Janeiro, esta geografia afetiva se traduz musicalmente em Batalhão de rosas, toada de bumba meu boi rockificada que lembra a “areia branca” tema do caroço de Tutoia de Dona Elza, de saudosa memória. A faixa batizará o terceiro disco da cantora Lena Machado, a ser lançado este ano. A romântica Caixa preta evoca o Caetano político de Podres poderes.

O tambor de crioula ganha acento pop em Pra ver se ela gosta e Nigrinha tem ares caribenhos, de “amor sincero” em “novela das nove”, em diálogo com o “cinemúsica” de Blockbuster, a sétima arte uma das paixões confessas de Bruno Batista, que em álbuns anteriores já prestou homenagens a Quentin Tarantino [Tarantino, meu amor, de Eu não sei sofrer em inglês] e Michel Gondry [em Rosa dos ventos, de ].

Cerca-se dos mais requisitados instrumentistas da chamada “nova MPB” – rótulo que, como quase todo rótulo, não dá conta da turma – alguns dos quais com quem já tinha trabalhado em discos anteriores: Rovilson Pascoal (guitarra), produtor de Bagaça, Gustavo Ruiz (guitarra), Meno del Picchia (contrabaixo), Felipe Roseno (percussão), Ricardo Prado (contrabaixo e rhodes) e Guilherme Kastrup (bateria e percussão) compõem o núcleo, em disco que conta ainda com participações especiais de Swami Jr. (violão sete cordas no bolero Você não vai me esquecer assim), André Bedurê (vocais em Você não vai me esquecer assim e Guardiã), Marcelo Jeneci (piano em Turmalina) e Felipe Cordeiro (guitarra em Nigrinha).

“O teu lugar, o teu lugar/ é o meu”, derrama-se em Turmalina, feita para sua esposa. Na faixa divide os vocais com Dandara, que compareceu em boa parte de , seu disco anterior. O lugar de Bruno Batista é nos ouvidos de fãs cativos desde a estreia – ali já havia se firmado como um dos mais talentosos artistas de sua geração – e cada vez mais outros, conquistados álbum após álbum.

Confira o videoclipe de Nigrinha (Bruno Batista e Zeca Baleiro):

Serviço

Bruno Batista lança Bagaça em show gratuito hoje (10), às 20h, no Mandamentos Hall. O espetáculo conta com abertura da Pédeginja, discotecagens de Franklin e Pedro Sobrinho e participações especiais de Criolina e Flávia Bittencourt.

A Pedeginja já brota madura

Sobre Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, de estreia da banda, ontem (15), no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy)

“É a Pedeginja que vem chegando!”

Uma pequena aglomeração formou-se na porta do Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy) pouco antes – durando até um pouco depois – da hora marcada para o início de Contos cotidianos, show de lançamento do disco homônimo, o de estreia da banda Pedeginja.

A plateia lotou completamente o recinto, com algumas pessoas ocupando cadeiras extras colocadas pela produção e outras vendo o espetáculo em pé, nos corredores laterais. Com uma hora de atraso a banda subiu ao palco. Nada menos que 11 músicos ocuparam-no: a formação da banda, incluindo seu poderoso naipe de metais, mais o gaitista Pedro Luz dos Anjos e o tecladista Dney Justino.

“A banda é grande, gente, então, paciência”, advertiu Jéssica Góis, a talentosa vocalista, única mulher do bando, antes de atacarem a primeira da noite. “Caralho, quanta gente!”, espantou-se João Vitor, o Jovi, outra voz de frente.

“É a Pedeginja que vem chegando”, anunciou o Conto de um Pé-de-ginja, faixa de abertura do disco e do show, espécie de prefácio-resumo do trabalho, o grupo dizendo a que veio. A plateia irrompeu inteira em aplausos, entregando-se à sonoridade inconfundível dos estreantes – em disco, que em shows, os meninos já têm uma estrada considerável.

Garoto grandalhão que empunha uma das guitarras do grupo e é responsável pela maioria das composições e pelas intervenções poéticas, Paulo César Linhares juntava-se à emoção que tomava conta de todos ali, entre palco e plateia: “É um prazer enorme estar tocando aqui, hoje, pra vocês”. Lamentou não ter conseguido arrastar a avó Julieta, para quem escreveu Vovó de férias no séc. XXI, um dos destaques de Contos cotidianos.

A média de idade da Pedeginja é baixa, basta olhar os rostos de seus integrantes. A banda fica entre o profissionalismo e a pura diversão. Explico: apesar do enorme atraso no início do show, tudo ali estava impecável: som, luz, repertório ensaiado, performance espontânea, a cumplicidade entre os músicos. A pura diversão é a responsável pela comunhão entre todos no palco e entre a banda e a plateia, que não poucas vezes bateu palmas, aplaudindo ao final de cada número ou marcando as músicas, cantando junto e mesmo dançando nos corredores e entre as cadeiras. As lâmpadas do cenário pareciam acesas pelo fogo que o grupo tacou no teatro. A Pedeginja já brota madura: a garotada brinca de fazer música, mas leva isso a sério.

O repertório baseou-se no disco, mas foi além: Dia D e uma música ainda sem nome, da lavra de Linhares, inéditas “que estarão no próximo disco”, como anunciou Jéssica, além de Grilos, também dele, do ep Instante, de Nathália Ferro, que em participação especial, dividiu os vocais com Jovi.

Um bloco de covers também registrou as influências da banda, o que em parte explica sua sonoridade, qualidade, talento e bom gosto: um medley uniu Os Mutantes a Secos & Molhados, Top top (Rita Lee/ Arnaldo Baptista/ Sérgio Dias) e O vira (Luli/ João Ricardo). Depois A menina dança (Luiz Galvão/ Moraes Moreira), dOs Novos Baianos e, fechando o repertório não autoral da moçada, outro medley uniu Criolo – Subirusdoistiozin – ao afrossamba Canto de Ossanha, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Pouco mais de uma hora depois, toda a plateia estava de pé, em total sintonia com a Pedeginja. O espetáculo se aproximava do final. Linhares já havia apresentado todos os músicos e lido os agradecimentos e a banda mandava um bis sem aquela saída ensaiada e já manjada, quando o trompetista Bigorna sopra-lhe alguma coisa no ouvido. “Zé da Chave, por favor!”, anunciou o guitarrista, convidando o personagem onipresente ao palco.

O próprio Bigorna explicou: “Você quer saber se uma banda é boa, é ter esse cara aqui na plateia”. Que Zé da Chave e muitos outros tenham a chance de doses contínuas de Pedeginja. Talento, carisma e repertório não lhes falta. Com o show redondinho apresentado ontem, o grupo merece mais palcos e mais aplausos. E nós, mais Pedeginja, que o disco só nos fartará em parte.

A ginga da Pedeginja em Contos cotidianos, seu disco de estreia

Ainda lembro bem que da primeira vez em que ouvi falar – ou da primeira vez em que fui a um show, a ocasião já não lembro bem – entendi errado: em minha cabeça a banda se chamava Pé de Ginga. Isto por que, visto o show, notei que ginga não lhes faltava, gingado de sobra mesmo em momentos mais lentos, menos dançantes, em que o vocalista e guitarrista Paulo César Linhares encarna um bardo a recitar em meio às melodias, embora as alternâncias entre, digamos, dança e poesia, não delimitem necessariamente o momento de dançar e o momento de pensar, de se ligar nas letras da banda. Tudo é forte e bem amarrado, as forças poéticas e melódicas características interessantes da Pedeginja, este sim o nome real e interessante do grupo.

A trupe sem os metais

E que grupo! Uma superbanda: André Grolli (bateria), Jéssica Góis (voz), João Vitor de Miranda (o Jovi, voz), Paulo César Linhares (voz e guitarra, principal compositor), Pedro Vinicius (guitarra) e Sandoval Filho (contrabaixo). A formação se completa com um poderoso trio de metais, outra característica que se sobressai na sonoridade da banda: Bigorna (trompete), Davi Neves (saxofone tenor) e Paulo Vinicius (saxofone alto). A turma estreia agora com Contos Cotidianos, disco que brota maduro, pronto para o consumo de apreciadores de boa música. De jovens para jovens de todas as idades.

Conto de um pé de ginja, faixa de abertura do disco, antecipa seu conteúdo, funcionando como um cartão de visitas do grupo, que diz a que veio neste prefácio, para usarmos uma referência literária, fazendo jus ao título desta estreia. Longa demais para ser uma vinheta, é autorreferente e tira um sarro de São Luís, terra natal da galera. “Um pé de ginja furou os azulejos/ e lombrou o azul colonial ludovicense/ com a pujança de seus ramos multiformeados”, diz a letra. E promete: “seus frutos percebidos não hão de ter donos/ espalharão sementes onde quer que haja ouvidos atentos”.

“Se você me dissecar não vai sobrar tom sobre tom”, diz a letra de Salsa de um ex-amor, em que o compositor parece querer enganar-se de propósito: dissecando a Pedeginja restam Tom Jobim, cujos ecos bossanovistas podem ser ouvidos também na faixa seguinte – Condução, em que transparece o bom humor da banda – e em Quadro somático, além da referência explícita a Caetano Veloso e seu antológico Transa.

Vovó de férias no séc. XXI é uma versão bem humorada, provavelmente carregada de pitadas biográficas, de alguma parenta mais velha da turma, com recados sutis a gente da laia de Jair Bolsonaro e Marco Feliciano: “a família já não é mais a trindade/ tem pai com pai e mãe com mãe,/ bem à vontade”.

Candidata a hit radiofônico, Pernas curtas é, como entrega o título, uma canção sobre as mentiras que todos nós contamos, “pode ser por muito/ ou por algo banal”. Talvez é sobre relacionamentos entre amigos, musicalmente um mergulho na surf music: “talvez eu tenha/ aquilo que você precisa/ para amar alguém”, começa a letra. E mais adiante: “talvez só falte/ um belo caqueado”. E ainda: “por mais que a chaga/ de ser seu melhor amigo/ e a sua fama de mulher/ sem coração me digam não”. Poeticamente um salto no abismo entre o bolero e a tragédia grega.

Se “a cachaça/ já perverteu este momento” a Pedeginja o traduz em O pensamento, outra música sobre relacionamentos. Não poderia faltar um reggae e Tire o seu cavalo da chuva é um recado direto, bilhete de fim de caso pra que não reste qualquer esperança: “e se você espera/ que eu vá voltar/ tire o seu cavalo da chuva/ que ele vai se resfriar/ de tanto me aguardar”. Mas a esperança, essa espécie de fênix teimosa – redundância intencional –, é novamente acesa antes do fim do disco, na valsa Sobre falsas musas: “a lama que cobre as ruas/ não ofusca um sorriso seu”. Também sobre relacionamentos, O velho violeiro fecha um ciclo.

A Pedeginja nasce assim. Brota entre os azulejos, vem “di cum força”, para dar um passo além na paisagem sonora do pop rock que se produz no Maranhão. Sem perder o gingado.

Serviço: Contos cotidianos, disco de estreia da banda, será lançado em show nesta sexta-feira (15), às 19h30min, no Teatro da Cidade de São Luís (antigo Cine Roxy). Ingressos e discos – a produção não informou o valor – à venda na bilheteria do teatro.

Um por do sol diferente

Ocuparte, ocupraia

A segunda edição do BR 135 acontece neste sábado (20), a partir das 17h, na Praia de São Marcos. A primeira, em maio, homenageou os 35 anos do disco Bandeira de aço, no Teatro Arthur Azevedo.

O palco será armado na Praça do Pescador, na Av. Litorânea. A entrada é gratuita, mas recomenda-se ao público doar um quilo de alimento não perecível. O projeto unirá arte e ação social, na tarde e noite que contará com pedalada, coleta de lixo, exposições artísticas, intervenções poéticas e música.

Segundo o produtor Alê Muniz, a ideia é ocupar os espaços públicos com arte. Para 2013 há ainda duas edições do BR 135 previstas: uma em teatro e outra na praia, todas gratuitas.

O show deste sábado, que reunirá diversos artistas, tem o título de Arte e cidadania – essa é a nossa praia! e será realizado em parceria com o Movimento Nossa São Luís. Dele participarão o Bloco Afro GDAM, Nathália Ferro, Phil Veras, Gallo Azhuu, Pedeginja e Mano Bantu. Haverá ainda performances teatral e poética, grafitagem, malabares e participação do Movimento Brechoniano.