Maré cheia de diversidade musical

Pé de tamarino. Capa. Reprodução

 

Uma muda plantada em uma bota colorida, tendo por pano de fundo, desfocado, uma paisagem de verde e terra, sugere o conteúdo de ar rural de Pé de tamarino [2017], disco de estreia da atriz e cantora Dênia Correia, em que registra 12 composições de Lauande Aires – seu marido –, que assina a direção geral e artística do álbum.

O primeiro verso que se ouve é “pedi licença a São José de Ribamar”, em Jenipapeiro, tambor de mina que dá mostras da reverência ao sagrado e às coisas do Maranhão que permeiam o disco, em que a artista se faz acompanhar por uma base de primeiríssima linha da música popular produzida no Maranhão: Edilson Gusmão (direção musical, arranjos, violão e contrabaixo elétrico), Rui Mário (arranjos, sanfona e teclado) e Marquinhos Carcará (percuteria).

A faixa-título, com a adesão de Robertinho Chinês (cavaquinho e bandolim) e coro de Cris Campos, Nuno Lilah Lisboa, Lauande Aires, Preta e da própria Dênia Correia, dá a dimensão da liberdade de seu terreiro: “meu quintal não é cercado, toda hora tem menino/ pra pegar um papagaio no meu pé de tamarino”, dizem os versos inaugurais do samba rural.

Impossível não se transportar aos quintais de cidades do interior, pelos quais vizinhos de longa data se comunicam. Na página central do encarte, o pé de Dênia pisa sobre frutos ao chão, enfeitado por uma tornozeleira. No selo do disco, um pneu à guisa de balanço, onde também se lê o título do trabalho.

A dramaticidade do tango comparece em Consciência e Flores ou bombas – esta com a intervenção de Lauande Aires recitando o poema Barricada, também de sua autoria, de conteúdo forte e apropriado para os dias de tormenta por que passa o Brasil. A entonação firme de Lauande lembra o canto falado de Lirinha no Cordel do Fogo Encantado.

Dia de santo torna ao tema da religiosidade, com a presença da voz e maracá de dona Fátima Aires “Fafá” e seus guias. “Hoje é dia de santo/ já vesti azul e branco/ pra seguir a procissão/ A boca que entoa um canto/ agradece e pede um tanto/ um tanto mais de proteção”, reza a letra, pontuada por caixas do Divino.

Coro de anjos é delicada homenagem a Humberto de Maracanã, saudoso cantador e compositor do bumba-meu-boi que lhe deu sobrenome artístico. “Bordando as escadarias/ todas as estrelas guias/ saúdam o passarinho da voz encantada”, diz a letra, aludindo ao Guriatã, apelido artístico que o passarinho emprestou ao mestre.

Apimentado tempera o forró com ares latinos, enquanto Maré cheia é vigoroso reggae sanfonado, César Nascimento fazendo escola. “O amor que corre em mim é maré cheia”, diz um verso, como a resumir Pé de tamarino: ninguém faz um disco com tão bons momentos sem amar o que faz.